quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A rapariga que não gostava de livros com as capas dobradas - V

- Ela foi o quê? - quase gritou.
- Presa! Presa! Meu Deus tira-me deste pesadelo.
A voz da mãe não parecia voz de mãe. Parecia voz doutro familiar qualquer, mas não de mãe.
O coração batia-lhe louco, descompassado dentro do peito. A sua irmã tinha sido presa, a sua mãe, sentada, com a cabeça a abanar era a personificação da tragédia, do drama. Parecia feita de lama e que a qualquer momento se poderia desconjuntar pelo chão da sala, espalhando-se pelo tapete. As suas lágrimas já lhe molhavam o peito, fazendo com que a renda do soutien aparecesse de forma nítida sob o tecido da blusa.
- O teu pai deve estar a chegar, vai à janela ver se ele está a estacionar.
Levantou-se do cadeirão e dirigiu-se ao escritório, abrindo a janela e, debruçando-se, deu de caras com um polícia sorridente. Fechou a janela de rompante.
- Mãe, o que é que faz aqui um polícia à nossa porta? - perguntou em surdina.
- Sei lá o que é que faz um polícia aqui, deve ser por causa dela… não me deixes a cabeça ainda mais desfeita do que já tenho...
- Mas se ela está presa… e da agência, já disseram alguma coisa?
- Já p’rái telefonaram. Disseram para lhes telefonarmos se soubermos de alguma coisa.
- Mas saber de alguma coisa como? Um polícia à porta e, quem sabe, o telefone sob escuta…vou beber café.
- Não sei se podes.
- Não sabes o quê…? Então não posso ir beber café? Eu não fiz nada, só sou irmã dela. Tu és mãe, é mais fácil seres cúmplice.
E de imediato, arrependendo-se:
- Estou a brincar contigo. Vá, vem beber café comigo.
- Não quero sair de casa. Além disso – perguntou a mãe entre lágrimas – tu vais beber café? Nunca bebeste café na vida…
- Ir beber café é uma forma de expressão – disse a filha sentando-se – apetece-me sair, levar com o vento na cara, é só isso.
Ouviram meter uma chave à porta e deram as duas um salto, como se fossem movidas a molas.
- É o teu pai… ai é o teu pai…- disse a mãe choramingando.
O pai entrou, largou uma pasta no meio do hall de entrada, ficou a olhar uns segundos para elas e em seguida aproximou-se da mulher, abraçou-a e desatou a chorar baixinho.
- Ai João – soluçava a mãe – o que nos foi acontecer… ai valha-nos Deus, o que nos foi acontecer…
O pai não parava de chorar e as duas sentaram-no no sofá. Os esforços para que dissesse uma palavra foram em vão e a filha aflita disse:
- Mãe… acho melhor chamarmos um médico
- Ai meu Deus… sim Teresa é melhor… ai homem fala, João diz alguma coisa, por favor João…
Perante o silêncio do pai, Teresa telefonou para o 112 e explicou a situação. Vinte minutos depois tocaram à campainha e chegaram dois técnicos do INEM. Observaram o pai, ouviram Teresa explicar que tinha ficado assim depois de saber o que acontecera à filha, fizeram diversas perguntas, quiseram saber que medicamentos tomava e como não o arrancaram do estado de letargia em que se encontrava e também não o conseguiram fazer parar de chorar, disseram que se encontrava em choque profundo e que era melhor ir para o hospital.
Teresa tinha a cabeça a rebentar. Não podia deixar o pai ir sozinho, não queria mandar a mãe, não queria ir ela não se desse o caso de alguém telefonar com notícias da irmã. Telefonou a Robin e disse-lhe que fosse já para o Fernando da Fonseca e que acompanhasse o futuro sogro.
- Ela não pode ir, não entendes isto?
- …
- Claro. Vá, faz o que te mando e despacha-te!
Desligou e a mãe agarrou-lhe o braço e perguntou:
- Ó Teresa então o pai vai sozinho? Eu vou com ele…
- Não vais nada… tu ficas aqui comigo. O Robin vai lá ter com ele
- Mas ó filha… o Robin? E se o pai quer falar de repente? Há-de querer falar comigo, não achas?
Teresa demoveu a mãe e levaram o pai até à ambulância que desapareceu ao fundo da rua com os pirilampos ligados.
O que teria feito a sua irmã? Em que sarilho se teria metido?

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