terça-feira, 31 de dezembro de 2013

A mendigar no Centro de Saúde

Depois de bater com o nariz na porta do Centro de Saúde da minha área de residência, procuro o alternativo. Estão em obras, diz um papel manhoso como a saúde dos portugueses, colado ao vidro da porta.
O outro Centro de Saúde tem uma maquineta de senhas à entrada, de onde retiro um papel. Faltam quatro pessoas, não é mau. Porém, as três estrelas do balcão de atendimento comentam o Natal, os acidentes, a chuva e não chamam ninguém. Na sala ninguém parece aborrecido ou espantado. Mas que raio...
Vou ao balcão perguntar se há algum problema. Não, não há qualquer problema, o que acontece é que os médicos que eventualmente têm vaga ainda não chegaram e são eles que dizem se atendem ou não atendem os doentes. Abano a cabeça como num arrepio e explico que não quero consulta para o dia e sim marcar para mais tarde. Dá no mesmo, diz a senhora com simpatia genuína, como eu não tenho médico de família tenho que esperar e pedir, mesmo que para mais tarde. Então e posso marcar por email? Pode sim senhora, ou por telefone, como queira.
Agradeço e saio, atrasada para o trabalho. Ao fim do dia envio o mail, nome, morada, número de utente, pedido de consulta. A resposta não se fez esperar: caixa do correio cheia...
Reenviei a mensagem no dia seguinte, a resposta repetiu-se, escusado será dizer que o telefone está sempre interrompido e lá terei que ir sentar-me na sala de espera, de mão estendida, rezando pela caridade de um qualquer médico.
Viva o sistema de saúde, viva!

Música de carrossel

O meu telemóvel tem cada vez mais músicas que só não me acompanham no banho porque tenho uma vaga ideia de alguém me ter dito que aquilo se estragava com a água. Não tenho bem a certeza pois o meu filho leva o telefone dele para a casa de banho, toma banho no meio de uma nuvem digna de um temporal com aquilo a bombar em força e o aparelho, como diria o meu pai, está em grande.
Para além de ter o telefone a dar-lhe música enquanto toma banho também tem a mania de estar no computador a consultar o Facebook enquanto está sentado na sanita, o que não deixa de ser interessante, levando a leitura de casa de banho para outro nível, instalando-a na praça pública sem que ninguém saiba.
Mas dizia eu que tenho muitas mais músicas, que ouço preguiçosamente todas de seguida ou em categorias, conforme o que estou a fazer e de acordo com listas. 
A primeira a ser criada foi a Praia, é claro. Música que dá vontade de dançar, de correr, de mexer, que alimenta o corpo. Outra lista é a Ler, mais calma para poder fazer as duas coisas em simultâneo, embora tenha lido pouco. Por entre outras, inaugurei agora a lista Carrossel, com Tom Jones à cabeça.
Qual banco do metro, qual quê, ouço aquilo sentada num corcel, agarrada ao pescoço de uma girafa, rodo a toda a velocidade numa chávena, armo-me em esperta, sento-me na borda da chávena e pumba, caio de costas, mas calma sem stresses, continuo a rodar, tal como me aconteceu numa feira das Mercês, eu, macaca de imitação, vi os outros tão leves ali empoleirados, quis fazer o mesmo mas, já na altura, devia ter síndrome de Ménière e fui sentir o chão da selva no meio das patas de tanto animal selvagem, que curioso, era em madeira.
Da feira das Mercês para a festa do Sobral da Adiça, o carrossel instalado ao pé da ribeira que passa no meio da aldeia, da ribeira, disse eu? mentira, ou engano, como se queira, aquilo era o Amazonas, melhor, o Zambeze, enquanto o carrossel subia e descia era possível até ver as cataratas Vitória!
Quem disser que a viagem de metro é dentro de um túnel escuro sem vista, engana-se redondamente… 

Os cavalos também se abatem

Dizem que gostava muito de mim. 
Dizem que eu gostava muito dele. 
Dizem que eu lhe chamava um nome que não sabem reproduzir, como sempre se diz que as crianças pequenas chamam de forma diferente, como se inventassem novas palavras quando apenas tentam reproduzir o que ouvem e sai de forma distinta. 
Dizem que eu corria para ele e ele tinha imensa paciência comigo.
Dizem que está no hospital em coma depois de ter tido um acidente onde o carro embateu num cavalo e noutro carro. 
O cavalo, como o de Tróia, sem saber instalou a morte, a dor, o espanto, a solidão, o nada no interior daquelas famílias.
Mesmo sem me lembrar dele confesso uma tristeza por saber desta tragédia, maior que outras tragédias, porque a proximidade é factor de dor, como todos sabemos, mesmo que não nos lembremos. 

Janela virada para a eternidade

Dois artigos, ou serão três? para revistas, mais uma comunicação numa conferência, mais a organização de outra, mais indiferença de algumas pessoas que trabalham comigo, mais incompetência de outras, tudo somado perfaz muitas horas de trabalho.
Falo de mim, falo mas não me queixo, ando satisfeita e com vontade de trabalhar ainda mais.
Ganho o mesmo, financeiramente falando, recebo menos, muito menos, e não percebo como se gastaram 57 milhões de euros a mais no Natal do que no ano passado, mas isso é outra conversa.
Uma parte do trabalho que tenho em mãos implica pedir ajuda de minuto a minuto ao tio Google Maps, verificar moradas, visualizar prédios e de repente, olha, deixa cá ver o meu próprio prédio.
Lá está, num dia soalheiro, nem eu teria feito melhor e, surpresa das surpresas, o meu vizinho velhote, que morreu durante o Verão, está imortalizado espreitando à sua janela, como sempre. Espero que ninguém se lembre de actualizar aquilo e tirar novas imagens porque aquele senhor faz parte daquela rua, pertence-lhe. A nós pertence-nos a memória e cabe-nos sorrir ao vê-lo, ao reencontrá-lo nem que seja de forma virtual. 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Avali(a)ção de professores

Terá sido de propósito?
Terá sido uma brincadeira acerca da avaliação que, deixando a desejar como (quase) todos afirmam, até o Público lhe deixou cair uma letra?
Terá a ervinha logo abaixo tido influência e alguém fumou o A?
Será um incentivo à poupança?
Será uma tentativa de legitimação das novas formas de escrita?

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Ser ou não ser

Para fazer um orçamento uso o site da TAP: quanto custa uma deslocação a...? Preencho os campos, ida e volta, cidade de partida, cidade de regresso e carrego no enter.
Enquanto uns minúsculos e invisíveis seres procuram a informação para ma plasmaram diante dos olhos, aparece uma mensagem:
Todas as tarifas incluem jornais e revistas gratuitos*

O * está um pouco mais abaixo e diz:
Este serviço está apenas disponível em alguns voos e tarifas TAP.

Pergunto, Dona TAP, em que ficamos?

Na voz do Zambujo é uma delícia

Eu já não sei
Se fiz bem ou se fiz mal
Em pôr um ponto final
Na minha paixão ardente
Eu já não sei
Porque quem sofre de amor
A cantar sofre melhor
As mágoas que o peito sente

Quando te vejo e em sonhos sigo os teus passos
Sinto o desejo de me lançar nos teus braços
Tenho vontade de te dizer frente a frente
Quanta saudade há do teu amor ausente
Num louco anseio, lembrando o que já chorei
Se te amo ou se te odeio
Eu já não sei

Eu já não sei
Sorrir como então sorria
Quando em lindos sonhos via
A tua adorada imagem
Eu já não sei
Se deva ou não deva querer-te
Pois quero às vezes esquecer-te
Quero, mas não tenho coragem

Até sempre Lawrence O'Toole

A maior benesse vinda do trabalho do meu pai eram os bilhetes de cinema de graça. Qual ordenado, qual quê? Os bilhetes, os bilhetes, esses sim, eram a melhor coisinha que ele trazia para casa, directamente para as minhas mãos. Os bilhetes em si eram reclamados na bilheteira mediante a apresentação de um talão rectangular, branco, com o nome do cinema, não do filme, inscrito a letras grandes: Condes, S. Jorge, Tivoli, Eden, Europa, Monumental, Alvalade, entre outros.
Sendo os bilhetes gratuitos e não havendo muitos pedidos, coisa que me causava grande estupefacção, mas satisfação em simultâneo, pois assim ninguém me faria concorrência, chegava a ver três filmes no mesmo dia, o que em plenos anos 70 era uma proeza.
Com uma linha de metro com meia dúzia de estações, sabia-lhe os horários - ou as expectativas deles - melhor que os maquinistas e corria de sala em sala, arfando até me sentar no escurinho do cinema. Fiz muitos amigos, pois claro, mas neste dia fui com os meus pais.
Comecei com a minha mãe numa sessão no S. Jorge a ver uma coisa leve, Os Canhões de Navarone. Ela ia como uma super-modelo, de lenço na cabeça, muito em moda na altura, óculos de sol estilo Madalena Iglésias e botas altas.
Quando o filme acabou o meu pai esperava-nos, saído do trabalho, e fomos em direcção ao Monumental, ver outro filme. Ela já não ia bem-disposta, que canseira, que exagero, dois filmes, mas onde é que isto já se viu, e eu, coitado do pai, tu viste mas ele não viu e este deve ser tão giro, eu nem sonhava o que ia ver, mas não fazia mal algum, era preciso ir.
Enquanto a minha mãe esperançava num filme romântico, ai estes canhões, tanta guerra, só guerra, quase não entram mulheres e uma das poucas logo tinha que fazer de muda, eu mentia garantindo que este agora era diferente, não tinha nada a ver. E não teve, pelo menos para mim, que da acção dos Canhões de Navarone lembro duas ou três coisas e de Lawrence da Arábia, lembro tudo, ou não o tivesse visto vezes sem conta pois desde aquele dia que exerce em mim um fascínio inexplicável.
O meu pai quis sair a meio, o lenço que ela levava na cabeça passou para o pescoço e daí para a mala, da mala para as mãos e para a testa, para limpar o suor que a fartura do filme lhe causava. E eu parecia uma boneca, sem ouvir nem falar, imóvel, a amar para sempre aquele homem, aquelas paisagens, aquele actor, aqueles países, aquela dinâmica e, porque não dizê-lo, aquelas roupas e até aqueles camelos.
Depois daquela tarde li, vi outros filmes, viajei pelos caminhos que ele percorreu, ouvi injuriá-lo, ouvi adorações em seu nome, arrebanhei tudo, como os fãs costumam fazer, sem acreditar nuns ou dando razão a outros, só ouvindo, que os mitos têm sempre dois lados.
As pessoas, agora que têm televisão e internet acreditam em tudo; a última dizia que morreu Peter O'Toole, como se alguém assim pudesse morrer...
A palavra Imortal tem poucas utilizações, e nesta pessoa é uma delas, nesta pessoa que para sempre será duas pessoas, que o mesmo é dizer, um mito.

Volta Bobby, estás perdoado

Tendo decidido saltar por cima deste Natal, aborreço-me ainda mais que o costume com a publicidade que passa na rádio. Em cada dez anúncios, onze mencionam o Natal, e mais umas promoções e mais uma oportunidade única, até parece que o mundo vai acabar logo a seguir ao Natal.
Com tanto que gosto de ouvir rádio, fui mudando de estação na esperança de haver uma que não mencionasse o Natal, mas qual quê?, ele são festas, espectáculos, acções de solidariedade, pedido de voluntários, é Natal nos canais de música clássica, de jazz, infantis, é Natal em... é lá... que é isto?
Intrigo-me pelo facto de há cinco minutos não ouvir dizer Natal nem bolas nem estrelas nem bolo-rei, nem passagem do ano e apuro o ouvido. Apuro o ouvido e o olhar como se um auxiliasse o outro diante do velho rádio leitor de cassetes, tão quieto mas tão capaz de fazer tanto barulho, os rádios são engraçados por esta dupla essência, pelo que têm de escondido, como vários outros equipamentos.
Bom, acho que instintivamente o meu corpo sabe que não vale a pena apurar o tacto ou o cheiro, que daqui também não sairá grande ajuda, aumentam os minutos sem que se ouça a palavra Natal, aliás, agora que estou bem atenta percebo que não dizem Natal ou qualquer outra palavra que eu perceba... estou no paraíso, estou a ouvir uma rádio indiana!
Lembro-me imediatamente do único filme indiano que vi na minha vida, algures à volta do 25 de Abril, directamente de uma Bollywood ainda em ascensão mas já prometedora e ao qual Quem quer ser bilionário? não deve nada, felizmente.
Senti uma saudade enorme dessa lembrança esbatida, de um tempo em que era tão feliz que até podia entrar no final de um filme indiano, talvez de Bobby, o tal que vi. Acabo a rir à gargalhada, sozinha, depois de um pesquisa no Youtube onde descubro as canções do filme assim como os óculos, simplesmente magníficos, de gigantes, do protagonista.
O programa de rádio, Swagatam, Som do Oriente, passa  na Rádio Orbital (em 101, 9 FM, grande Lisboa) aos Domingos das 10 às 14h, e para mim é uma boa alternativa sob vários aspectos: é uma forma diferente de fazer rádio, se ouvirmos muito e com atenção podemos até tentar perceber o que dizem, ficamos a saber novidades sobre as comunidades indianas em Portugal e, claro, muita música e bandas sonoras, verdadeiros convites para visitarmos lojas indianas aqui e ali, leitura de cartas de espectadores, envio de parabéns e todo um mundo de contacto directo com os ouvintes, assente nas melodias que vibram com o toque próprio da música indiana e, como se tudo isto não fosse suficiente, sem Natal.
Namasté!

Folhas caídas (não essas, outras...)

O Outono, qual cigarra preguiçosa, apercebeu-se de repente que estava de malas aviadas e que dia 21 de Dezembro estava a chegar. O trabalho não estava feito, nem tão pouco mais ou menos, e de repente bufou com força para cima de todas as árvores que se viram intimadas a deixar cair as folhas, todas ao mesmo tempo, em todas as terras. Resultado, as ruas, as estradas, os passeios, as sarjetas, os tejadilhos dos carros e, não é que eu tenha visto, mas a fé diz-me que sim, até em certos telhados há folhas castanhas espalhadas, sem ordem nem lei, perigo maior para os transeuntes e espectáculo garantido para mirones em locais estratégicos onde, de vez em quando, pumba, lá vai estoiro em forma de queda, como se o universo tivesse decidido que todos os que por ali passassem seriam acrobatas.
Consequentemente, nos últimos dias tenho andado mais devagar, bem mais devagar e embora veja as folhas a serem apanhadas, no dia seguinte são ainda mais, o que me leva a garantir que, se em algum local não fossem varridas, deixaríamos de ver certas árvores, afogadas em si próprias. Apesar de mórbida, a imagem apresenta-se-me linda e até romântica. 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

O'lhó passarinho

Amigo de um amigo de um amigo, filho de pais filhos da terra natal dos meus pais, pelo apelido será primo ou parente caçula de um antigo namorado meu, agora é fotógrafo e somos amigos no Facebook, essa instituição.
Não sendo captador de momentos da vida das flores nem de gatos fofos, mas antes do espaço aberto da paisagem alentejana, gosto de ver as fotos que vai publicando e, ocasionalmente, até as comento, por me agradarem aqueles castanhos e os amarelos, os encarniçados a sobreelevarem-se sobre um pontual verde no estio.
Tem mérito o rapaz. Mérito como fotógrafo, que como pessoa não lho conheço, ou melhor, ontem fiquei com uma ideia, uma ideia fotográfica, daquelas que vão permanecer.
Aparentemente havia um concurso de fotografia a decorrer e era suposto que nós, os amigos, amigalhaços do peito, votássemos para eleger o vencedor. A propaganda eleitoral é muito original: passa por uma mensagem, pública ou particular, a pedir isso mesmo, Votem em mim! Por seu lado, o boletim de voto é um clique num endereço que o candidato nos envia, muito fácil.
Ontem, o meu querido amigo publicou uma mensagem a agradecer a todos quantos votaram nele. Teria sido um gesto bonito se ele não tivesse acrescentado meia dúzia de palmadas e um responso para todos aqueles que não votaram! Li duas vezes, que o meu raciocínio nem sempre é o melhor e achei que não tinha percebido, que tinha lido à pressa, o problema seria meu com certeza.
Desentorpeci os dedos e deixei uma mensagem de tristeza e de reclamação:  então e se não gostarmos das tuas fotografias? então e se quisermos votar noutras? então e se simplesmente não quisermos votar?
O rapaz não se fez rogado e usou o seu mais forte argumento, custa alguma coisa dar um clique? acrescentando Grandes amigos, o que vi logo que não era para mim pois, como ficou expresso ontem, só tenho 1,62m.
Mandei-lhe uma mensagem privada do tamanho dos dois Alentejos e das Beiras a explicar que lhe ficava muito mal aquela atitude, que não se podia votar em alguém só porque era nosso conhecido ou só porque nos pedia; retorque ele que é o que todos fazem, que se limitou a agir como todos agem, que quantos mais amigos se tem, mais hipóteses se tem de ganhar e, repetiu, custa alguma coisa dar um clique?
A mim custava-me manter a conversa e, depois de um Fica bem, desliguei o computador.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Dos concursos e dos castigos

Luís Almeida ficou conhecido por ter participado, e ganho, em inúmeros concursos de televisão. Eu participei em dois, ganhei um, mas perdi a conta aos concursos que ganhei fora do ecrã. O primeiro foi à Disney, a Paris, acabada de estrear, presente da Cerelac ou da Nestum, não me lembro, mas que no fundo veio da Nestlé, e o último foi um fim-de-semana no Hotel Palácio de Seteais, esse deslumbre, que ofereci à minha irmã.
Pelo meio ficam viagens e livros, sendo que nunca concorri a nada que não incluísse viagens, ou dinheiro para as fazer. A norma, na quase totalidade dos casos, passa por escrever textos ou frases a propósito de qualquer coisa, logo, não há aqui um factor sorte puro, daí talvez venha a explicação para o facto de nunca ter ganho o euromilhões...
Entre outras, ganhei viagens aos Açores, China, Itália, Espanha, Marrocos, destacado-se meia dúzia de visitas ao prémio inicial, a Disney, muito na moda durante alguns anos.
Agora muitos concursos passam por telefonar e, no telefonema certo, ganha-se qualquer coisa. Ora, como sorte, sorte, não tenho, embora os meus amigos e conhecidos passem a vida a mandar-me informação de concursos para que eu concorra - e os leve! - não tenho conseguido ganhar nada.
Que é feito dos textos que se escreviam e que se publicitavam depois para que todos os participantes pudessem ver quem e como se tinha ganho? Dão muito trabalho e não fazem entrar os milhares de eurozitos que se capitalizam com o negócio dos telefonemas.
Assim, inibida que está a minha participação em encontros profissionais devido à crise, e que em tempos idos me levaram da Grécia à Rússia, da Croácia ao Brasil, de Inglaterra à Alemanha, entre outros pontos, não tendo finanças para ir de férias além da Costa da Caparica, não tendo sorte ao jogo, nem aos amores, diga-se de passagem, resta-me ficar a apreciar este frio, comparando-o com o do Ártico, onde já estive, mas ansiando pelo calor do Sahara, que também já senti, logo, estou como o outro, recordar é viver...
Sugere-me este tema depois de ver o último número da revista Volta ao Mundo, da qual sou fã e que apresenta vários concursos, todos via telefonema. De quem não sou fã é da pessoa que vem na capa este mês, Isabel Stilwell. Não a conheço o suficiente para desgostar, mas garantidamente não sou fã, e o facto de vir na capa de uma revista que idolatro, desgosta-me, sim.
Este torcer o nariz a Isabel Stilwell vem de trás, de uma edição da revista Pais & Filhos, na qual era (é?) colaboradora, na altura em que eu lia a revista em questão, e a propósito de um texto que assinou sobre crianças que, se não me falha a memória, estavam no limite entre o irrequieto e o mal educado. A sugestão para que as aulas decorressem calmas sem a presença dos mais endiabrados, era dar-lhes um castigo. E foi precisamente isso que me levou a escrever-lhe insurgindo-me contra o castigo: mandá-los para a Biblioteca!
Bom, em primeiro lugar, desta vez a escrita não me deu prémio algum, pois não obtive resposta. Em segundo lugar, e consubstanciando o meu argumento para descredibilizar o castigo, senti-me horrorizada por pensar que alguém que estava ligada a uma revista daquela índole podia sequer equacionar a possibilidade de se ver uma Biblioteca como uma espécie de inferno...
A ligação entre Isabel Stilwell e as (minhas adoradas) bibliotecas como câmaras de tortura ficou-me sempre na memória e não a consigo desligar, assim como não consigo deixar de ficar triste de a ver na capa da Volta ao Mundo. Simplesmente, não pegam, mas esta é só a minha opinião, a opinião de alguém que, embora tenha ganho muitos concursos, ninguém conhece.
Ave, senhor engenheiro Luís Almeida e senhora doutora Isabel Stilwell!

Uma questão de altura

Eu não percebo como é que só tenho 1,62m... Dizem que deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer e, mais uma vez, comecei a trabalhar ainda não eram seis da manhã. De saúde também não ando lá muito famosa, a menopausa anda a trabalhar ainda mais que eu e levanta-se ainda mais cedo!
Vá lá uma pessoa acreditar no que se diz...
Porém e ainda assim e contudo cantam cá mais uns centímetros que na altura da minha querida irmã que faz tudo para ser mais alta que eu. São dois ou três, mas são os suficientes para eu ser mais alta. Recorrentemente vem ela a querer meças, chega-te aqui, para mim, cheguem-se aqui, para o público do momento, ora digam lá quem é mais alta! A resposta tem sido coerente, com os dedos a apontarem, cansados, na mesma direcção, para mim.
Ontem foi dia de repetir a cena e o motivo encontrado para eu parecer mais alta foram os saltos dos meus ténis... rasos, tal como os dela. Eu bem coloquei a cabeça de modo a parecer mais baixa, encolhi os ombros, mas o resultado final é sempre o mesmo: ela tem esperança que eu mirre de umas medições para outras e eu, que gosto tanto dela, ainda lhe vou fazer a vontade. 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Banda sonora

Aqui há uns anos a minha irmã fazia-me um enorme favor. Não era casada, não tinha três filhos, não vivia longe de mim e dava-me um mimo único: sabendo que eu gostava que a vida fosse como certos filmes, andava dois passos atrás de mim a trautear uma canção, qual banda sonora do meu quotidiano.
As pessoas andavam mais devagar, e chegavam a parar, para ver uma à frente com ar de felicidade e um sorriso cinematográfico e outra um pouco atrás a lálálázar qualquer coisa.
Nós não nos ralávamos e eu chegava a dar uns passos de dança ao som daquela música única.
Agora que ando sempre de auscultadores metidos nos ouvidos dou por mim aos saltinhos que a música exige, a subir degraus de dois em dois ou com passinhos de gueixa, conforme a lista musical indica.
A diversidade é muito grande, os géneros são os que que quiser, mas tenho saudades da banda sonora única no mundo, só minha, só para mim. Tenho saudades do passado, tenho saudades da minha irmã, como irmã. Eu sei, hoje estou egoísta.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A minha Alexandretta

Quando Indiana Jones contou ao pai que tinha descoberto o túmulo de Sir Richard e a inscrição no escudo – Alexandretta – o pai exultou e a felicidade salpicou-me, como se eu também fizesse parte da descoberta.
Passados muitos anos, vivi este momento na primeira pessoa ao encontrar, não os restos mortais de um cruzado, mas um assento de óbito.
Os olhos saltaram-me das órbitas como se fosse uma personagem animada, reli e voltei a reler o manuscrito… não, não podia ser. Mas era.
Agarrei no telefone, com a pressa enganei-me no número, enquanto imprimia o papel que, fugindo a concentração, saiu em letra liliputiana.
A voz atendeu-me a muitos quilómetros de distância, bem-disposta e alegre, de repente a querer deter a brincadeira por perceber a ansiedade na minha própria voz.
Pedi que se sentasse e me ouvisse, afinal não é todos os dias que se descobre uma informação que os especialistas na matéria procuram há mais de duzentos anos.
Está a brincar comigo? Adivinhei a cara séria de quem não admite jocosidades com coisas destas. Mas eu não brincava e tinha provas, que enviei naquele instante por e-mail.
Do outro lado choraram quando receberam a mensagem. Um choro de alegria, de satisfação, de alívio pelo fim de uma jornada. Eu também chorei de alegria, por ter participado, por me terem dado essa honra.
Não fazendo investigação por profissão, dou apoio a inúmeros investigadores e auxilio-os naquilo que posso. Rejubilo com as suas conquistas, critico textos, sugiro alterações, do português, já se vê, que da matéria são os conhecimentos insuficientes. 
Porém, a proximidade com algumas pessoas fez crescer uma empatia e um interesse maiores que os do costume. Esse interesse, feito curiosidade, levou-me a percorrer caminhos cuja linha do horizonte se transformou na mais bela das paisagens, e desta vez não foi uma praia, e sim um assento de óbito. 
Oh, que morte abençoada... 

O mundo aos nossos pés

Excepção feita às lojas chinesas e ao mercado do Algueirão, perdi a conta aos meses em que não entrava numa loja. Ontem fui àquela catedral que dá pelo nome de Zilian e irremediavelmente lembrei-me de Orson Wells e Citizen Kane que nos remete para... o mundo a seus pés.
É assim a Zilian, um paraíso que não vende sapatos mas antes beleza e conforto, onde fui com duas colegas, uma delas decidida a comprar pela primeira vez na vida uns sapatos de salto, de saltinho, vá, que não comprou. Pés exigentes, aqueles!
Os meus não são exigentes, são mesmo defeituosos desde que parti uns dedos, os ossos calcificaram e não dobram, proibindo-me o uso de saltos, com enormíssima pena minha.
Verdade seja dita que, fossem eles perfeitos e pudesse eu andar em agulhas mais afiadas que as da Cigala, lamberia as montras da Zilian com os olhos sim, mas acabava por ir picar o ponto à cigana do Algueirão que tem os últimos modelos a um ou cinco euros; quando me pede dez por par eu reclamo e ela diz-me naquele sotaque arrastado, Linda, olha que san chaneli... ao que a minha mãe, rindo-se, responde que chinelos já nós temos muitos...

Sway

Letra de Norman Gimbel, música de quem balançar mais…

When marimba rhythms start to play
Dance with me, make me sway
Like a lazy ocean hugs the shore
Hold me close, sway me more

Like a flower bending in the breeze
Bend with me, sway with ease
When we dance you have a way with me
Stay with me, sway with me

Other dancers may be on the floor
Dear, but my eyes will see only you
Only you have that magic technique
When we sway I go weak

I can hear the sounds of violins
Long before it begins
Make me thrill as only you know how
Sway me smooth, sway me now

Other dancers may be on the floor
Dear, but my eyes will see only you
Only you have that magic technique
When we sway I go weak

I can hear the sounds of violins
Long before it begins
Make me thrill as only you know how
Sway me smooth, sway me now

When marimba rhythms start to play
Dance with me, make me sway
Like a lazy ocean hugs the shore
Hold me close, sway me more

Like a flower bending in the breeze
Bend with me, sway with ease
When we dance you have a way with me
Stay with me, sway with me

When marimbas start to play
Hold me close, make me sway
Like a lazy ocean hugs the shore
Hold me close, sway me more

Like a flower bending in the breeze
Bend with me, sway with ease
When we dance you have a way with me
Stay with me, sway with me

Coisas bizarras...

A páginas 48 do jornal Público de ontem encontrava-se um anúncio da APSA, Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger. Sendo eu familiar de um aspie, nome carinhoso para estas pessoas especiais, interesso-me por tudo o que envolva a doença e, lendo o anúncio, fico a saber que o mesmo serve para informar que a campanha de recolha de fundos "reuniu um total de € 599,00 que será aplicado no projecto Casa Grande, um Centro de Atividades Ocupacionais e Residência Autónoma para pessoas com Síndrome de Asperger".
Mais informa a APSA que "A campanha, desenvolvida através de chamada telefónica, decorreu de 7 de Janeiro a 7 de Agosto de 2013". Calculo que parte do valor da chamada revertesse para a APSA, calculo, não tenho a certeza.
Estas Associações são de valor elevado, garantindo apoio a pessoas que são confrontadas com situações que desconhecem, angústias e choques, tristezas e solidão. Constituem um cenário de conforto e resposta que deve ser acarinhado, e muitas vezes não existe outra porta onde se bata. Contribuo mensalmente com um pequeno valor, não para esta associação em particular, mas para outra, indico uma outra como beneficiária no IRS e participo em acções de voluntariado, coisas que qualquer pessoa pode fazer, mas não faz. Dá muito trabalho...
Porém, não posso deixar de me espantar com um gasto de 1.550 € (preço de tabela para o dia e a localização em questão no interior do jornal) num anúncio para informar que receberam 599 € numa campanha, informação essa que não consta na página oficial da APSA, nem na página do Facebook, incontornável hoje em dia. Estranho, no mínimo.
Hoje, Dia Internacional do Voluntariado, seria um bom dia para pedir ajuda, dar conta da sua existência, mas nada vi, para além de na página oficial apresentam o 'Plano de Atividades e Orçamento Previsional para 2014' onde calculam gastar em publicidade e propaganda (sic) a específica quantia de 9.594€.
Para mim é confuso e, sinto-me completamente à vontade para brincar sem ofender seja quem for, deve ser efeito de aspie... 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Vida e morte no Facebook

viste FB? vai ver
A mensagem por sms é lida por mim com um sorriso irritado. Estou a meio do dia de trabalho, não ando no Facebook! A curiosidade falou mais alto e aberta a página desfaz-se-me o sorriso: morreu uma pessoa minha conhecida. Muito jovem, trintas e poucos, multiplicam-se os RIP's mas não se menciona a causa da morte.
Trocam-se mensagens, escritas, sublinho, mas não se fala. A páginas tantas os RIP's misturam-se com os LOL's, lembrando momentos da vida da rapariga. É comovente mas bizarro: todo o alvoroço é virtual (embora se anuncie o velório e a hora do funeral, amanhã), é muito estranha esta partilha de saudade, incómoda. As mensagens no mural da moça vão crescendo, página que se manterá, a menos que alguém lhe conheça as passwords, tal como a de um amigo, desaparecido há cerca de dois anos e cuja página no Facebook é uma pedra tumular onde todos deixam o que lhes apetece: flores, bonecos, abraços e beijos, mensagens de saudade.
O Facebook, que alguns usam como diário ao minuto - estou aqui, fui para ali, encontrei fulano, comentei o estado de beltrano, partilhei não sei o quê de sicrano, gosto disto, enfureço-me com aquilo, estou a ouvir esta música ou aquela, entre mil outras possibilidades de interacção - tornou-se também um local de culto dos que já morreram. Entre outras, é muito trabalho para os sociólogos... para mim é uma coisa fria, gelada, como a morte.

Amanhã

Duarte, vai arrumar o quarto! Eu arrumo amanhã mãe, prometo.
Duarte, não deixes o copo na sala! Eu levo amanhã mãe, juro.
Duarte, lava a loiça. Mãe, amanhã quando chegares a casa está tudo lavado, prometo.
Duarte, desfaz o saco do andebol. Mãe, amanhã assim que chegar, ponho tudo no sítio, vais ver.
Duarte, põe a máquina a lavar. Mãe, amanhã lavo e até estendo, combinado?
Duarte, vai ao sótão buscar o colchão do campismo. Mãe, eles só vêm amanhã! P'ra quê tanta pressa?
Duarte, não te esqueças de meter gasolina. Amanhã, mãe, hoje já não tenho tempo.
E nesta imparável sucessão de amanhãs, tem o meu filho o dia seguinte sempre cheio... de ar!

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Apagar o passado

O pai do Duarte está com obras em casa, motivo pelo qual se mudou temporariamente para a casa onde vivemos juntos, e que ainda mantém. Assim, o passado almoço dominical com o filho foi naquela que já foi a nossa cozinha. Sabendo disto, pedi ao Duarte que me trouxesse uns óculos, dos muitos que lá ficaram, na gaveta de cima da secretária do escritório.
Desde que nos divorciámos o Duarte e eu já vivemos em três casas: a dos meus pais, muito jeitosa em tamanho, mas que não era nossa, depois outra em Rio de Mouro e, finalmente e até hoje, uma outra na Amadora,estas duas pequenas como ovos de codorniz e facilmente cheias com pouca coisa. Como a casa onde morávamos juntos era excepcionalmente grande, com belíssimos roupeiros entalhados, estantes que mandámos fazer à medida e muita arrumação, deixámos lá muita coisa, com o compromisso de as reavermos se a casa fosse vendida ou em caso de necessidade de espaço.
Sempre estive tranquila quanto à comodidade das coisas que ficaram, sentindo também que não constituíam incómodo, uma vez que a casa nunca esteve à venda e o paizinho nunca me colocou o problema do espaço, tanto mais que, passado pouco tempo do divórcio, ele mudou-se para casa dos pais e depois para casa da namorada.
Pouco passara da hora do almoço quando o Duarte me ligou a dizer que não via quaisquer óculos e o pai não sabia deles. Acrescentou que estava no sótão, onde descobrira fotografias minhas antigas, na Turquia, achava ele, Mãe, és mesmo tu a conduzir um barco no Fósforo? No Bósforo, meu filho... Mãe, vou levar isto tudo e mais uns bonecos meus que aqui estão numas caixas... olha, está aqui a fotografia que tirámos no túmulo do Merlin, com os papelinhos que as pessoas lá deixam...
Aproveitei para lhe pedir que me trouxesse a roupa que usei no casamento da minha irmã, um fato verde água, que agora já me deve servir e é daquelas coisas que está sempre na moda.
A noite precocemente cerrada trouxe o Duarte de volta a casa com um saco de plástico em equilíbrio numa mão, onde adivinhei as usuais taças do soberbo arroz doce da avó, um saco de papel na outra mão e um ansioso Olha o que aqui está! a sair-lhe da garganta. Do saco saiu um Astérix em peluche pouco maior que uma mão e dos meus olhos uma cascata de lágrimas.
Não me contive ao ver o boneco que quase deu um divórcio em plena Bretanha, concretamente no Mont Saint-Michel, onde fui tão infeliz que me recuso a assumir que algum dia lá estive. O Duarte viu o Astérix, pediu-mo e eu comprei-lho, não me recordo do valor mas sei que era insignificante, nada que justificasse uma conversa prévia entre mim e o pai sobre se devíamos ou não fazer aquele investimento! O pai viu a nossa aquisição e fez uma cena digna de César sempre que percebe que não consegue vencer os gauleses. Foi ridículo, intenso e doloroso, com vozes ameaçadoras, acusações de irresponsabilidade e loucura, dedo a apontar a minha insaciedade pelas compras (só quem me conhece é que percebe como isto é lunático), deixando-me uma cicatriz de mágoa de tal forma que quando vi o Astérix não segurei as lágrimas.
Lá limpei os olhos e sorri diante do Becas, do Han Solo e do Luke que saíram igualmente do saco onde estavam a ver as fotografias da Turquia, da Grécia, do Mar Menor na Andaluzia, em Fez entre outros locais, embrulhados num casaco velho, que me lembro de ter comprado com o pai do Duarte.
O meu filho dava graças pela existência do casaco, tem muito swag mãe, e perguntei pela roupa que lhe tinha pedido para trazer. Ora, eu que pensava que o ataque de choro me tinha secado as lágrimas, percebi que apenas tinha aberto a comporta depois de ouvir a resposta dele: Não há nada nosso lá em casa, a tua roupa e a minha, as coisas de quando eu era bebé, tudo, o pai deu para caridade.
O pai deu para caridade e a mim deu-me, para além do ataque de choro, um ataque de raiva: como é possível ser-se tão insensível? Isto é crueldade pura! Eu já nem falo da minha roupa, mas, a tua? Então para que guardamos nós certas coisas?
Envolta em tristeza fui para o meu quarto recompor-me e ele, indeciso sobre se havia de ir ter com os amigos ao café como combinara, andava por ali às voltas, até que lhe disse que fosse, não havia motivo para não ir.
Deixei passar a raiva e no dia seguinte escrevi-lhe a dizer que, com certeza, era engano o que o Duarte me contara. A resposta veio em forma de números: nem uma palavra, o que confirma o acto de caridade para com outros que não nós, como sempre, e uma lista do que tem dado ao Duarte em Novembro em almoços, carregamentos de telefone e fotocópias. Nem bom dia, nem boa tarde, nem adeus, como sempre. Seco e frio como dias árticos.
Depois disto fui procurar fotografias antigas e entristeci-me novamente. Sempre me pautei por dar imensa coisa, mas há peças que fazia questão absoluta de guardar: as primeiras botas, a primeira roupa que vestira, saído da maternidade, um blusão de ganga que mais parecia para bonecos, entre outras coisas.
Deste incêndio que o meu ex-marido me causou interiormente, e em termos de peças, salvaram-se duas: tinham sido em tempos emprestadas a um primo, emprestadas de novo a outro primo e de empréstimo em empréstimo, foram parar a casa da minha irmã, tendo servido aos meus sobrinhos.
A frieza e a distância que caracterizam uma pessoa que age assim são típicas de quem quer apagar o passado. Nem sequer colocou a possibilidade de um telefonema a perguntar-me o que queria fazer: lixo e já está, como se nós tivéssemos morrido.
Não sou médica, mas acho que isto indicia uma qualquer doença, uma tentativa de demissão do passado, coisa impossível de fazer e, definitivamente, sinónimo de transtorno de personalidade. A raiva que senti foi imensa, mas depois lembrei-me de Florbela Espanca...

Ódio por ele? Não... Se o amei tanto,
Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se à vida assim roubei todo o encanto...

Que importa se mentiu? E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Como um soturno e enorme Campo Santo!

Ah! nunca mais amá-lo é já bastante!
Quero senti-lo d’outra, bem distante,
Como se fora meu, calma e serena!

Ódio seria em mim saudade infinda,
Mágoa de o ter perdido, amor ainda.
Ódio por ele? Não... não vale a pena...

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Tuba de Eustáquio

Os meus ouvidos estão sem reacção, amorfos, parvos. Eles não ouvem, e isso faz de mim surda. É injusto...
Continuando à espera de consultas e cirurgias e do pote de ouro no fim do arco-íris, já agora, defendo-me dos zumbidos de forma adolescente: ando sempre de auscultadores enfiados nos ouvidos a ouvir música aos berros.
Faz mal? A sério? A quem? A mim? A mim faz-me mal não ter uma solução definitiva para isto, a mim faz-me mal o zumbido permanente, a mim faz-me mal ter uma mira técnica dentro da cabeça.
No meio disto tudo, o grande problema que se coloca é a minha incapacidade para ler enquanto ouço música, que tem de ser alta para competir com o zumbido.
Assim, há muito que as viagens de metro não são de livro em riste e sim de cabeça a dar a dar ao som de muitas coisas, desde Bizet a Snoop Dogg, de Wagner a Michael Jackson, de Aznavour aos Gipsy Kings, dos Queen a Elis Regina, com muito batuque pelo meio.
Das letras para os instrumentos musicais, quem diria?

Natal? Qual Natal?

O que é que Nicolás Maduro é mais que eu? Se a Venezuela pode ter Natal em Novembro, eu posso não ter Natal. O presidente venezuelano quer recuperar a essência da expressão popular, O Natal é quando um homem quiser, e eu quero celebrar a realidade do momento actual.
Não encontro nada para celebrar e não consigo perceber onde foi a revista do Expresso, há umas duas semanas, buscar pessoas tão felizes e contentes, passando a imagem de um país em recuperação, com esperança e expectativas.
A bem da verdade, até nos campos de concentração nasceram crianças, naqueles antros de corrupção mental, no fim da linha da loucura deu-se o milagre da vida, mas isso não melhora a imagem daqueles sítios. Mostrar meia dúzia de sorridentes não tira a fotografia do país, velho e doente, da grande maioria exausta e desesperada.
Assim, instituo que não há Natal. Eu dou e reparto o ano inteiro, estou presente na vida da minha família e dos amigos que gostam verdadeiramente de mim, que se preocupam comigo, poucos, cada vez menos mas muito bons, sumo de amizade concentrada. Ajudo o meu filho e brinco com os meus sobrinhos o ano inteiro. Além disso, a cortisona fez-me engordar de novo e não posso comer bolos. Mesmo que pudesse, só se os comesse com os olhos que os euros não chegam para tanto.
As câmaras municipais continuam brilhantes a dar brilho às noites com uma iluminação absurda, fingimento supremo de que existe Natal. Esta equação da época natalícia igual a luzes a acender e a apagar, fechando os olhos a problemas que podiam ser ajudados a resolver com as verbas milionárias das luzinhas de Natal é inexplicável. Que os centros comerciais o façam desde o fim do Verão, ainda engulo: montam o engodo para não matar a sociedade de consumo, para manter uma réstia de felicidade nas pessoas, sabendo que a felicidade se atinge num corredor cheio de lojas. Mas as câmaras deviam pensar para além dessa felicidade, deviam pensar na existência das pessoas.
Ainda eu ia à praia e já se via neve e ouvia-se jingle bell cantado por gordos pais Natal. Ninguém se lembra de criar um Pai Natal esquelético a carregar umas renas mortas, só pele e osso? Fazia mais sentido...
Fazia mais sentido que alguém se lembrasse de inverter as coisas, que é como quem diz, colocá-las no seu lugar! Mas a tradição continua a ser o que era e há que manter a tradição, mesmo que para isso seja preciso sacrificar as pessoas.
Bem, as pessoas que é como quem diz, algumas pessoas... 

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Um chá faz sempre bem

Abro o word e selecciono new document. Procuro um template de cronograma. Procuro, procuro e não encontro.
Passam calendários com cavalinhos, convites para colorir, propostas para relatórios e etiquetas e envelopes e mais cinquenta coisas diferentes. Cronogramas nada. Parece-me tudo muito infantil, como se as propostas fossem para artes manuais, actividades caseiras, pouco profissional, até que, de repente... eh lá! O que é isto?
No meio das propostas de layouts para currículos está um para Boticário.
Abro-o por curiosidade e não vejo nada que o distinga de outro para qualquer profissão; decido passar a usar este modelo que me lembra uma bela caneca de chá, mal não fará e sempre reconforta.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Magnífico

O  Reitor da Universidade dos Açores está de parabéns pela medida tomada sobre a proibição do uso do correio electrónico em determinadas situações na Universidade. Proíba senhor reitor, proíba! É preciso focarmo-nos e, como diz o povo mas contraria a física, ganhar tempo e não perdê-lo.
Porém, levantam-se-me algumas dúvidas, desde logo faz falta um esclarecimento sobre se é uma posição a favor da tradição, estilo viva o papel, abaixo o e-mail.
Há que parabenizar também pelo facto de a Universidade não ter uma página no LinkedIn ou conteúdos no iTunes. Decisão inteligente e que talvez pudesse ser ainda mais assertiva pois há informações sobre uma pós-graduação em Análise de Dados e Gestão da Informação nesse antro que é o Facebook, bem como uma página de um Centro de Empreendedorismo e uma outra que apela à Aprendizagem ao longo da vida, mas como é para séniores, devem ter tido em consideração que os velhos têm muito tempo e até deram o contacto da reitoria. Ainda assim, proíba senhor reitor, proíba!
Na minha modesta opinião, devia a informação ser um pouco mais precisa: quando se diz que não se podem – e bem! – divulgar assuntos privados, pergunto: as férias serão assunto privado ou não? Pode continuar-se a usar aquela fórmula da mensagem de resposta automática Estou ausente por férias até dia tal ? Fica a sugestão para uma adenda.
Convenhamos que é muito aborrecido, por exemplo, receber informação sobre a recente maternidade ou paternidade dos docentes ou dos funcionários; o que temos nós a ver com estes assuntos? Só nos desviam das nossas tarefas, causando perturbações e, lá está, perda de tempo. Proíba senhor reitor, proíba!
Pior ainda, ouvi dizer que há casos de universidades e empresas várias que chegam a divulgar informação sobre falecimento de membros da família de colegas! Onde é que isto já se viu? É uma maçada para os familiares e tem que ser para nós também ? Então trabalha-se numa universidade ou numa agência funerária? Proíba senhor reitor, proíba!
Parabéns! Agora não é ao senhor reitor, é parabéns em geral; porque é que se usa o e-mail para enviar uma palavrinha de parabéns? Para ficar por escrito que o parabenizado está a envelhecer? Mais uma triste ideia…
Combinações de almoços, jantares, festejos vários… então mas o que é isto? Estamos aqui para conviver? O senhor reitor é que a sabe toda, proíba senhor reitor, proíba, coloque cada qual no seu canto, aliás, podendo dar uma sugestãozinha, eu lembraria que há por aí nove ilhas, logo, deve haver muita falta de wireless, e espalhar essa malandragem podia ser boa ideia, para além de reactivar o hábito perdido de escrever cartas, aumentando quiçá o quota dos CTT nos Açores.
Se formos honestos e a bem da verdade isso do espírito de equipa é um mito; então enquanto eu teclo pode estar outro a teclar comigo? Não! É impossível.
Por outro lado, os assuntos internos de Departamentos e/ou Serviços são isso mesmo, internos, primos dos privados, por alma de quem é que devem andar a circular nos corredores virtuais? Já nem falo da comunicação social, essa escória que produz escritos… ai, mas deixem-me dizer que apreciei imenso a utilização da palavra ‘escritos’, lembra-me a colocação dos papelinhos brancos colados aos vidros para alugar as casas, é tão típico, tão giro.
Proíba senhor reitor, proíba. Temos que nos consciencializar que a vida é feita de compartimentos estanques, viva a arrumação, não se quer misturas de espécie alguma e, verdade seja dita, até já chega de divulgação livre de conhecimento crítico. Aliás, quando se diz que uma universidade é o lugar por excelência para dizer e ouvir a verdade, isto é uma metáfora, nem sei quem a disse, mas foi alguém que estava a brincar, de certeza. Ou, a ser verdade, e para não arranjar confusões, deve-se arranjar uma verdade, uma só, que não levante dúvidas! Não, não, isto não é nenhum ismo, é só uma forma de dar ordem ao universo, de acabar com o caos.
Agora, quer os tais escritos da comunicação social, é mesmo gira esta palavrinha, os assuntos de natureza privada, cujos limites não sabemos bem quais são, é tipo mar e areia a que as ondas mudam constantemente a fronteira, os assuntos internos dos departamentos e dos serviços, aquilo que tudo junto é parte da vida da universidade, vão continuar a circular, isso vão, e fora da cadeia hierárquica estabelecida, cuja estipulação me lembrou o Sr. José de Todos os Nomes de Saramago. A rede de correios electrónicos pessoais vai ter uma nova vida, e aquela melianagem vai continuar a comunicar. O que fazer? Eu, assumindo o cargo de reitor, mandava fechar a internet! Ah, mas isso era já, era ontem! A menos que… a menos que eu pudesse ter acesso a essa correspondência.
Acho que o senhor reitor não devia ligar nada a quem anda para aí a dizer que isto é mal feito, que é censura, etc. Essa gente não está lá para ver como as coisas se passam, pois não? Então devem calar-se, não é?
Quem quer promover proximidades que se case, não vá trabalhar para uma universidade. Quem quer questionar que vá para polícia. Quem quer criticar escolha a arte, e tanto que haveria a dizer sobre o assunto, a dizer e a proibir! Quem quer fazer parte de um projecto constitua um grupo musical! Quem quer dizer o que lhe apeteça arranje um Speakers Corner! 
Uma universidade é outra coisa, é respeito, respeito é silêncio, como o que se guarda nas igrejas e nos cemitérios, como aquele que se impõe a partir de certa hora. Ai, estou a baralhar-me isso é nas prisões.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Margarida Repulsa Pinto

Os meus estudos em Medicina vão avançando aos poucos. Isto não é fácil...
Lembro-me das primeiras cadeiras como se fosse hoje: eram verdes escuras, de um material entre a pele e um tecido forte, rugoso, não sei onde a CP o foi desencantar.
Começava como qualquer bom aluno logo cedo, tosses e constipações, era o básico, mas também havia descrição de doenças, a que alguém mais abalizado atirava, então era sarampo? Não, era varicela. O essencial era ouvir com atenção.
Mais tarde passei pelos bancos dos barcos, que ainda não se chamavam Transtejo nem Soflusa, e descobri todo um novo mundo de doenças, como se as pessoas que viviam na margem sul sofressem de diferentes maleitas. Ele era lúpus, ele era zona - que eu também tive - e demais patologias.
Regressei a Lisboa e as matérias alargaram-se mas de forma especializada, as cadeiras do Metro substituídas por outras mais largas, outras cores, outros padrões, outras doenças, com especial incidência para as cancerosas, conselho de medicamentos vários onde não falta a sugestão de uso de produtos naturais que as farmácias levam-nos tudo.
Assim, depois de tantos anos de estudo vou abalançar-me a fazer o meu primeiro diagnóstico, começando por discordar de certas linhas da ciência médica: a Demência não afecta apenas os idosos.
Há pessoas cada vez mais novas a sofrerem da doença, que se caracteriza por ser neuro-degenerativa, provocar o declínio da actividade intelectual, diminuindo as capacidades sejam de trabalho, de relacionamento social e causando graves distúrbios na personalidade e no comportamento. Vejam-se dois casos recentes.
O primeiro é o da mulher que teve uma filha e a deixou no porta-bagagens do carro durante dois anos. Como foi dito por especialistas, à demência alia-se um quadro de malvadez, de dimensões épico-literárias, acrescento eu.
Esta situação não tem tratamento possível, a senhora deve ser condenada, não à morte, mas às paredes da sua loucura, encarcerada para sempre, sem visitas, sem livros, o nada e a solidão por companhia, nem os guardas lhe dirigiriam a palavra. Podia continuar a respirar, já não era mau.
O segundo caso, de demência na categoria de estupidez, apresenta perda de capacidades cognitivas, verificando-se em alguém que também sofre de dupla personalidade: a pessoa em questão pensa que é escritora, o que torna o caso muito grave.
Não é caso único e é altamente lesivo para a saúde pública que existam editoras que sejam cúmplices de pessoas assim, fazendo-as crer que são o que nunca foram.
A doença apresenta sinais depressivos e psicóticos, que derivam em alucinações e em delírios, constatando-se o uso inadequado do juízo; em simultâneo confere-se a existência de imbecilidade que se caracteriza por uma sujeição ao que lhe é sugestionado, com eventual criação de perigo para os outros, ou seja, quando alvitrado para a perversidade não mostra ter escrúpulos.
Há ainda demências com gradações que levam a criatura a pensar que é inteligente; até se podia sugerir a estes seres a consulta de manuais da especialidade para verem que não há aqui uma linha de invenção, nem um simples ramal, mas não vale a pena pois "O idiota completo, ou profundo, possui um desenvolvimento inferior ao de muitos animais inferiores tais como répteis, com quem podem ser comparados em relação à evolução e integridade do sistema nervoso".
A utilização de aspas deve-se ao facto de ser uma citação, ou seja, o que alguém, mesmo que fossemos nós próprios, já escreveu antes, e essas coisas devem ser assinaladas. No caso é da Wikipédia, para não complicar.
Em conclusão, verificando-se que as doenças têm nomes estrangeiros, por exemplo, Alzheimer, Parkinson, doença de Creutzfeldt-Jakob, com origem na chamada doença das vacas loucas, esta demência que descrevi, com elevados níveis de estupidez, de imbecilidade e idiotia podia ter um nome português, uma coisa que inspire o peso desta realidade, que transporte abominação e asco, que seja mesmo repelente, que não seja uma mera coincidência. Já agora que não induza à gordura, mas antes ao ralo, ao delgado, sim, pode ser ao intestino.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

SIG o DeGóis!

Os investigadores devem estar todos registados, seus cães de raças perigosas, na FCT, Financiamentos, Cunhas e Tal, desculpem, Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Devem também ter um currículo oficial, fiz isto, aquilo e aqueloutro.
Há uns anos, na era do Ministro Gago, acho, à Universidade do Minho, acho, foi encomendado, acho, um sistema, acho, para que cada um fizesse o seu currículo, uniforme, disponível em plataforma bonita e arrumada. É o currículo DeGóis.
Damião de Góis - aquariano (isto sou eu a meter-me comigo) - deve estar de chapéu enfiado a procurar sem descanso uma forma de voltar para pedir encarecidamente - estou a vê-lo de mãos postas, casaco de abas largas a arrojar, um joelho no chão - mudem o nome a esta coisa, por vossa e por minha mercê.
É preciso um curso para preencher o CV DeGóis. Duas pessoas que tiverem feito a mesma coisa podem preenchê-lo de forma diferente, não porque não saibam ler, não porque tenham problemas de literacia, simplesmente porque o labirinto, as ambiguidades, as repetições, são demais.
O detalhe, o pormenor levam a catalogar o DeGóis no barroco, um barroco exagerado, não um rococó, mas um re-cocó.
Enfim, mais à frente na narrativa, e depois de, muito à portuguesa, se querer deixar a nossa marca, a nossa cicatriz, mas sem nos apercebermos que, por norma, o que deixamos é um rasto de destruição do que foi feito, mudam-se os governos, mudam-se as pessoas e destrói-se tudo o que foi construído, os novos é que são os Presidentes da Junta!, e começam de novo sem verem se havia algo a aproveitar, rodam as cadeiras e DeGóis, já foste, siga o FCT-SIG!
Mais fácil, de acesso restrito aos senhores da FCT e ao próprio, tem um visual amigável e uma liberdade de expressão enorme, inserido num movimento artístico a que se pode chamar À vontade, numa alusão à posição militar de descontracção, embora sem baldas, pernocas ligeiramente afastadas, mãos em descanso atrás das costas, tronco direito, onde cada um escreve o que quer, como lhe der na real gana. Quem tem bom senso, atina, quem não tem, enjorca!
Mas porque é que temos que preencher dois currículos, perguntam as pessoas. Não têm, e se tiverem é o FCT-SIG, mas esse não dá visibilidade alguma, esconde-os, senhores investigadores, coloca-nos num limbo só conhecido pelo Big Brother FCT, não dá oportunidade de alguém os contactar a convidá-los para integrarem outros projectos, mudar de trabalho ou coisa que o valha, e hoje em dia não se habita em casas, vive-se na rede e só existimos se estivermos ON. Se não estão ON,estão a dormir, a vida é um sonho e quando acordarem é de um pesadelo.
Mas, como enquanto há vida há esperança, lá se vai preenchendo o DeGóis e o SIG, um mais que outro, Everest que se sobe dando um passo a cada vinte golfadas sugadas de ar.
Com o Inverno à porta, em dias de chuva sem hipótese de pôr o nariz fora da porta, rezemos ao grande humanista que foi Damião,  pedindo-lhe inspiração para esta epopeia, mas atenção com as santas preces, pois até ele, cidadão do mundo, emigrado e regressado, autor de crónicas reais que não agradaram a gregos e tiranos, desculpem, troianos, acabou nos braços do Santo Ofício. Amén. 

Arrasador

Curiosa, a minha irmã. Quis saber do filho mais velho se já namorava. Eu não, mas há quem namore, respondeu ele. Quem, continuou ela a querer saber. Olha, o João e a Maria por exemplo. Ai sim?, mostrou-se admirada, Então e eles passeiam de mãos dadas? continuou ela perdida no tempo. Não, nada disso, não te esqueças que eles apenas têm em comum o facto de respirarem e tirarem negativas.

Hoje deu-me p'raqui

Albert Camus era Escorpião. Não sei se ele saberia, mas nós sabemos. A possibilidade de ele não saber coloca-se na perspectiva de não ligar a signos, nada mais. Porém, e a acreditar no que se diz do feitio dos Escorpiões, não admira que tenha escrito A Peste. Um Aquário não escreveria A Peste, atacava-a para o bem-estar da humanidade.
Mas os Escorpiões são assim, é da sua natureza como diz a anedota, séria, by the way. Veja-se o nosso Saramago, também Nobel, onde terá ele ido desencantar aquele título sádico - As intermitências da morte - morre, não morre, morre, não morre, tipo semáforo, que angústia e que paciência!, e se nestas intermitências estão as pessoas no cemitério, de roda do funeral, o tempo que se perde, e outros a quererem, eles também, morrer, e as pessoas com jantares e almoços para fazer, e filhos para irem buscar às escolas, e compras de supermercado à espera e tanta coisa parada.
Andre Gide, por seu turno, escreveu sobre Édipo, de onde se pode concluir que é um complexado, Odysseus Elytis, com um feitio do contra, levou a maldade bem longe escrevendo em grego!, e Gerhart Hauptmann deu-nos o quê? Os ratos! tal e qual, assim, tipo praga.
Mas não se pense que são só os homens, não; Nadine Gordimer escreveu Get a life que, como todos sabemos é expressão para deixa-me da mão, vai por onde vieste, não deixas saudades, e isso não é bonito nem fica bem, como um preto de cabeleira loura ou um branco de carapinha.
Selma Lagerlof, por outro lado, é uma plagiadora, que ainda por cima baralha tudo, e A lenda da rosa de natal é a prova disso! Não é lenda da rosa e sim Milagre das Rosas, e já desde o século XIII. Note-se o esforço feito para ocultar as provas da óbvia cópia!, e de Natal não é uma rosa, é uma árvore, informação também do domínio público.
Já um Aquário como Mo Yan, é um bem-disposto como se prova com o título Shifu, You'll do anything for a laugh.
Coetzee, tem um Summertime, cenas da vida da província, que nos induz para uma calma e tranquilidades desconhecidas dos Escorpiões.
O senhor Kenzaburo Oe, Nobel desde 1994, autor de Não matem o bebé, Um eco do céu ou Dias tranquilos, é o quê? Aquário, pois claro.
Já a senhora Toni Morrison, escreveu nada mais nada menos que... O Paraíso. É aquário tal como Derek Walcott, que coloriu a noite de esperança com In a green night.
E que dizer de Boris Pasternak, nobelizado desde 1958, que colocou o Dr. Jivago na nossa vida? O que se pode pedir mais?
Sinclair Lewis, outro Aquário, foi um visionário de tal forma que escreveu World So Wide, isto em 1951. Havia de ter sido World Wide Web, mas naquela altura ele usava caneta de tinta permanente, o título ficou um bocado esborratado e acabou assim, o que não lhe tira mérito.
Porém, de quem não sabemos o signo, mas eu apostava num Aquário, pois claro, é de Luís Vaz de Camões. Nem o ano da sua vinda ao mundo é certo, talvez em 1524, talvez. A dúvida sobre se Os Lusíadas foram uma encomenda também não está resolvida, mas eu apostava que sim dadas as condições de vida posteriores, miseráveis.
Quem não é Aquário nem Escorpião
É Dom Sebastião,
O encoberto,
O esperto,
Que fugiu para o deserto,
Portugal boquiaberto,
Para sempre, incerto.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

La fille du régiment

O Teatro de São Carlos é a única casa de espectáculos nacional com vocação para receber óperas.
Uma ópera não é um musical, mas antes a sintonia perfeita entre o teatro e a música, ou pelo menos assim a sinto desde a primeira vez, já vão quase trinta anos, quando vi La Traviata, no Coliseu de Lisboa.
Ontem fui à estreia de La fille du régiment, bilhetes ganhos através de um programa de rádio, expectativa de um lugarzinho ao pé dos dourados do tecto e, afinal, plateia central.
Convidei uma amiga que se foi estrear nestas andanças e que saiu a adorar. Fã de teatro, cinema, de música sinfónica e de escultura, andava à espreita de uma oportunidade que apareceu do céu.
Entrando num templo como é o São Carlos, e como me acontece nos castelos e palácios, nem preciso de fechar completamente os olhos para viajar no tempo, basta-me semicerrá-los e logo vejo o José Maria de monóculo com o amigo Ramalho. Ao contrário da noite de ontem, quente demais para a época em que estamos, faz frio, há mulheres que sorriem no meio de arminhos e Eça conta a Ramalho pormenores da sua viagem ao Oriente. Logo a seguir Gaetano Donizetti entra-nos pelos ouvidos.
Parece contraditório mas acabo por nunca me entregar completamente ao espectáculo pois tenho que me segurar para não me levantar a agitar os braços, tal a força que a conjugação da música com o cante têm em mim.
A sala estava cheia e Marie - Cristiana Oliveira - esteve melhor que Toino - Alessandro Luciano - e ambos muitíssimo bem acompanhados pelo Coro do São Carlos e pela Orquestra Sinfónica Portuguesa.
O estilo cómico da ópera levantou sorrisos e a mim ainda me levantou a sobrancelha quando no placard com a 'tradução' aparecia a promessa de fusilarem alguém...
Oh senhores ouvintes... apreciem o espectáculo e deixem-se de biolências.

De A Ilha do Tesouro para a sociedade de consumo

To the hesitating purchaser

If sailor tales to sailor tunes,
Storm and adventure, heat and cold,
If schooners, islands, and maroons,
And buccaneers, and buried gold,
And all the old romance, retold
Exactly in the ancient way,
Can please, as me they pleased of old,
The wiser youngsters of today:
—So be it, and fall on! If not,
If studious youth no longer crave,
His ancient appetites forgot,
Kingston, or Ballantyne the brave, 
Or Cooper of the wood and wave:
So be it, also! And may I
And all my pirates share the grave
Where these and their creations lie!
(Robert Louis Stevenson)

Uma aventura ao sábado de manhã

Saio de casa para ir ao supermercado e faço uma paragem técnica na pastelaria da esquina para beber um café. Fico uns minutos à conversa com a minha vizinha da lado, uma velhota querida, viúva mas apaixonada. Quando vou a entrar no carro lembro-me que me esqueci - esta frase é genial... - dos sacos em casa. Não gosto dos sacos dos supermercados, rasgam-se facilmente obrigando-nos a andar de rabo para o ar a apanhar o rasto de compras que fomos espalhando.
Subo ao meu quarto andar, entro em casa, viro à esquerda para alcançar a despensa onde estão os sacos mas estaco à porta da cozinha: na janela da dita baila uma perna humana.
Demoro uns segundos a processar a informação visual e, qual Miss Marple, avanço para deslindar o caso.
Abro a janela toda, que tinha deixado entreaberta, como quase sempre, e vejo um homem preso por uma corda e respectivo arnês com um minúsculo pincel a pintar o interior das protecções dos estendais.
Mas então... ninguém nos avisa que vêm fazer este serviço? Entabulo conversa e dou por mim a falar com um homem descalço - é-lhe mais fácil para se apoiar, segundo ele - a baloiçar ao nível de um quinto andar, ele em cima e eu em baixo, salve seja.
Para além de não termos sido avisados - há vários estendais com roupa, incluindo o meu - ele afirma que isso não é com ele, tanto mais que ele nem é funcionário da empresa (o quê?!), apenas foi substituir um amigo que lhe pediu (o quê?!).
Então, mas e o seguro? Qual seguro? Então, mas e a roupa nos estendais? As janelas estão abertas e eu atiro-a para dentro das cozinhas. Então, mas e... espera aí! Isto é conversa para o administrador do condomínio, não para o praticante de bungee jumping.
O senhor administrador não estava em casa e, depois de fechar a janela e os estores, que isto somos todos muito sérios até nos começarmos a rir, desci a avisei a vizinha que ainda estava de volta da meia de leite de máquina com uma torrada.
A senhora quis imediatamente ir a casa, certa que a janela da cozinha tinha ficado escancarada; pediu-me que fosse com ela e constatámos que a janela estava de facto aberta, o praticante de trabalhos radicais voltou a cumprimentar-me e disse à simpática velhinha que tinha entrada na cozinha e tirado um pano da louça, é que, sabe, explicava-se ele com naturalidade e legitimidade, o alumínio aqui da sua janela está muito desgastado e dá-me cabo dos pés. 
Eu esperava a todo o momento que aparecesse alguém a gritar Smile, you are on Candid Camera!, mas nada aconteceu, para além da minha vizinha ter resolvido imitar um peixe fora de água, a abrir e fechar a boca, virando a cabeça ora para mim, ora para a janela onde o homem se balançava.
Renovados e polidos pedidos de desculpa acompanharam o fecho da janela e do estore, a pobre mulher quase em apoplexia, eu furiosa com o administrador que, mais tarde, pediu desculpa ao prédio inteiro pelo esquecimento de avisar da intervenção nos estendais. Enfim, é um prédio português...

Uma história de amor

A magia das notícias sobre o estado do tráfego rodoviário tem sido menosprezada de uma forma inqualificável, e injusta, diga-se de passagem.
Descrevendo e realçando os pontos chave que impedem a livre circulação dos veículos, os radialistas produzem obras de arte espontâneas, lamentavelmente efémeras e para as quais se pede reconhecimento.
Os condicionamentos do trânsito consubstanciam a acção de um romance sobre rodas, que ora avança, ora recua, com inesperados e surpresas que até aos Nobel da Literatura escapam.
Somos informados sobre supressão de vias e voltamos atrás no tempo, suspirando como em Simplesmente Maria, a eterna rádio-novela portuguesa.
Os personagens são reconhecidos, o IC-19, sempre rebelde, a Ponte 25 de Abril que, não se percebe como, mas está sempre grávida de carros, a Calçada de Carriche, a quem muitos chamam a Calçada da Carris, os Cabos D'Ávila, onde já desde o Simplesmente Maria não há cabos nenhuns, a vaidosa A-5 que vem todos os dias de Cascais, mais rápida mas sem o fascínio da velhinha Marginal, outra protagonista desta novela.
Já no Porto temos a Via Panorâmica, linda e eternamente demorada em direcção ao Campo Alegre, a AEP, a VCI, quais agentes secretos, em busca da Sidónio Pais ou da altiva Faria Guimarães.
Na trama contam-se inúmeras supressões de vias - são personagens que são afastadas por um ou outro motivo mas que voltam em episódios posteriores - e executam-se trabalhos, sinónimo tantas vezes usado para designar a morte de alguém. Morte, crime, obstáculos, vidas em jogos, sinalizações várias são momentos a que já nos habituámos, mas que em nada se comparam ao ponto alto que são os acidentes: O trânsito está congestionado porque um ligeiro se envolveu com um pesado.
Isto é lindo... até o trânsito pára devido a um envolvimento, lembra os Montecchios e os Capuletos, amores proibidos entre brancos e pretos de famílias racistas, filhos mais novos de inimigos da Mafia envolvidos em escaldantes amores, aventuras de uma manhã, paixões intensas sob a chuva que cai miudinha em Lisboa, numa palavra, romance.
Espero ter contribuído para aguçar a curiosidade auditiva para subtilezas como os problemas técnicos que interditam a passagem de peões e viaturas na Ponte Móvel de Leixões, o que obriga a procurar outros caminhos e que surpresas quentes trarão esses outros caminhos só saberemos por experiência própria..., ou que se passe a ouvir com outros ouvidos a notícia sobre o acidente ao quilómetro dezoito entre Campo e Valongo, que provoca trânsito bastante demorado, qual namoro antigo, que se arrastava por décadas por entre paixão e desejo.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Mas quem é que manda aqui?

O meu corpo é um rebelde, um ser de convicções, um revolucionário.
Avisado - não sei por quem - que já não havia feriado dia um de Novembro, decidiu rebelar-se e dois dias antes acometeu-se de febres, de dores, de mal-estares, de tal forma que tive que ficar com ele em casa no último dia de Outubro. Enfrasquei-o em medicamentos contra as gripes e as constipações, obriguei-o a beber litros e litros de água e dia um, contra a vontade dele, levei-o até ao trabalho.
Por lá se arrastou, eu bem via que a vontade dele e nada eram a mesma coisa, mas não teve outro remédio.
Só para me aborrecer, no sábado impediu-me de fazer a caminhada e de ir ao mercado, logo agora que descobri uma cigana que vende roupa em segunda mão em excelente estado. Deste distinto estabelecimento veio o meu novo casaco Burberry, por uns meros cinco euros, tendo eu deixado apalavrada outra peça de roupa para este fim de semana, já com o ordenado na algibeira.
Mas não, lá ficámos em casa o dia todo, deitados a olhar a televisão, não a vê-la, ou a dormir. Ao fim do dia consegui arrancá-lo daquele marasmo, acenando-lhe com um vibrante passeio ao supermercado. O teimoso não queria ir, ainda fez uma birra enquanto o vestia e, mais uma vez, foi obrigado.
Tivemos uma longa conversa onde lhe expliquei que não era nenhuma máquina e que não se armasse em futurista a querer controlar-me. Espero ter deixado bem claro quem é que manda aqui, eu!

Eu juro, juro mesmo

Sendo a gasolineira do Jumbo a mais barata em toda a área metropolitana da minha casa, fiz-me à fila. Tempos houve em que não me apanhavam ali, à seca, mas, como dizia Camões, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.
Como calculava, havia fila, não era grande, mas cada bomba tinha cerca de cinco a seis carros à espera. Rapidamente me apercebi que tinha ficado na bicha dos maricas: ele era levantar de mangas de camisas, ele era casacos pelas costas, ele era óculos no alto da cabeça, ele era cem folhas de papel para evitar o contacto com a mangueira, como se fossem um preservativo, ele era luvas, ele era tudo, mas tudo para atrasar ainda mais a espera. Paciência.
Era de noite, embora fossem umas seis da tarde, quando chegou a minha vez. Senti-me como se me tivesse enganado e tivesse entrado na casa de banho dos homens: calções, casaco de capuz e ténis, meti combustível em três tempos, sem luvas nem pergaminhos, a desafiar com o olhar os condutores dos carros de trás, garantidamente maricas, eles e elas, já se tinha percebido, eu é que me tinha enganado na fila.
A pressa era tanta que só não entrei no carro em andamento porque tenho que lá estar dentro para o pôr a trabalhar. Olhei de esguelha para trás, bomba três, enquanto avançava lentamente para pagar, metendo ao mesmo tempo a mão no saco para tirar a carteira,... a carteira..., a mão não queria encontrava a carteira? Nada disso, a carteira ficara em casa. Com mil milhões de macacos, disse eu de mim para mim.
Chegada a minha vez expliquei que não tinha dinheiro, que me esquecera, que nunca tal me acontecera, que era a primeira vez, que apenas tinha os documentos do carro e o telemóvel, não, não tenho ninguém que me possa trazer o dinheiro, tenho que ser eu a ir buscá-lo. Mostrei os documentos enquanto o carro de trás fez sinal de luzes. De dentro da guarita apareceu um papel onde escreveram tudo e mais um par de botas sobre mim e de trás ouviu-se a buzina e um Então? aborrecido. Assinei o papel e prometi com toda a convicção voltar passados vinte minutos. A cancela levantou-se e eu avancei mas ainda ouvi uma reclamação sobre o tempo que demorei... glup...
Fui a casa, lá estava a carteira na mala que usara no dia anterior, voltei, parei o carro fora das filas, meti-me à frente de um veículo com um sinal de desculpe lá, é um minutinho, paguei, rasgaram o papel com a minha ficha mais completa que qualquer relatório policial, meti-me no carro outra vez e fui embora a jurar nunca mais gozar com os molengões. 

Último grito

Ontem vi um filme onde um cão ameaçava morder os pés de uma mulher que passava na rua. A dona do animal agarrou-o ao colo e acariciou-o, falando-lhe baixinho. Para o acalmar? Não. Para lhe segredar que o compreendia bem pois os sapatos da mulher eram da colecção do ano anterior.
Hoje não corro o risco de ter um cão a querer morder-me os calcanhares porque não trago sapatos da colecção do ano passado - era o que faltava! - trago uns acabados, mas acabadinhos mesmo, de sair da caixa de sapatos de Inverno, comprados numa feira de descontos, a Feira dos Stocks de Coruche, quando a minha irmã estava grávida da minha sobrinha e a minha sobrinha fez nove anos no último quatorze juillet, allons enfants de la patrie, já a mãe dela faz a quatorze mas de Agosto, numa clara e evidente lembrança da batalha de Aljubarrota, o filho mais novo viu a luz do dia a vinte e três de Novembro, o mesmo dia em que nasceu Billy the Kid, e o mais velho, adiantado, como sempre, nasceu a quatro de Outubro.
Os sapatos são tipo sapatos de mãe, com um saltinho elegante, nada de exageros, não porque não gostasse, mas porque não consigo, a pena é grande e é minha.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

A amizade é uma coisa muito bonita

Só nos faltava um cão. Éramos cinco, sempre juntas nas aulas e por vezes brincávamos que para sermos protagonistas dos famosos livros da Enid Blyton, só nos faltava um cão. A conversa era sempre a mesma: a seguir alguém dizia que o Tim, o cão do grupo, era um dos cinco, logo, uma de nós seria o cão! Negávamos, aceitávamos, tirávamos à sorte, qualquer coisa servia, pois não é fácil cinco mulheres darem-se bem como nós nos dávamos.
Passaram-se anos e hoje uma de nós vive no Algarve, outra no Funchal, outra no Fundão, uma no Cacém e eu na Amadora. Foram dois anos das nossas vidas - enquanto durou o curso de Ciências Documentais na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa - que nunca mais esquecemos e a prova disso é que nos continuamos a falar. Porém, o elemento do Fundão não era avistado há anos e ontem estivemos juntas na Gulbenkian.
Pareciam ter passado duas horas desde a última vez que nos víramos e percebi que sentia imensas saudades das gargalhadas dela.
À noite fiz inveja às outras por telefone: estive com a J. que mantém a mesma cara de miúda, o mesmo riso contagiante e alegre e temos mesmo que nos encontrar todas, mas encontrar mesmo, sem ser aquelas mentiras do costume, que temos mas nunca mais fazemos nada para viabilizar a coisa.
Com enorme expectativa combinámos ir ao Algarve a casa da M.
Tenho a certeza que vamos e até me arrepio de pensar no fim-de-semana de boa disposição que se criará. Tomara já que fosse hoje...

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Tanto e tão pouco

Jurgen Habermas é o cabeça de cartaz da Conferência Internacional de Educação promovida pela Gulbenkian, Os Livros e a Leitura: Desafios da Era Digital.
Cedo ainda, já eu lá estava e foi com dificuldade que encontrei lugar numa sala: para além do auditório reservado para o efeito, todos os espaços foram ocupados com os interessados na matéria e, claro, interessados em ouvir o grande pensador; cadeiras, escadas, chão, vãos de janelas, encostados à parede, qualquer sítio era bom.
Porém, o grande pensador - estatuto inegável - é alemão, todos sabíamos. Também todos calculariam que falaria em inglês, no surprise; também sem Überraschung verificou-se um forte sotaque alemão, mas, pelo menos para mim, a surpresa maior foi o facto de o senhor ser fanhoso e, aparentemente, estar constipado. Assim, uma voz com as debilidades naturais de oitenta e quatro anos, a falar uma língua estrangeira com marcadas cicatrizes da língua original, fortemente nasalada é igual a falta de passagem da mensagem, perceptibilidade zero.
O filósofo por quem eu ansiara mostrou-se-me ausente: a pessoa muito capaz de escrever, de pensar, reflectir, ponderar, pode até ser fisicamente capaz de ser entrevistado, de conversar, mas não de dar uma conferência, onde se afiguraram fantasmagóricas as partes visível e audível, no fundo, o contacto com quem o escutava.
Não se pode prescindir de certas cabeças, aquelas que parecem ter um exército de átomos sempre a renovar-se, produzindo visões e conceitos e abordagens e críticas, mas também não se devia pedir, nem aceitar, uma situação que roça o embaraço, uma pesca à linha de palavras, como quem sorve, mas não saboreia.
Em Outubro do ano passado, também na Gulbenkian, ouvi Alberto Manguel, durante quinze minutos. Na altura dei conta disso. Foi um inspirar, não chegou a ser respirar... tanto e tão pouco, agora reproduzido, noutra versão, outra desilusão.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Chuva, chuva, chuvinha...

Combino com o Duarte estar em casa antes das oito, hora a que ele tem de sair para chegar a horas ao treino. Esqueço-me das horas e saio do trabalho atrasada. Corro. Apanho o metro e não tenho outro remédio se não ir ao ritmo dele, parando nas estações, esperando as pessoas sair, entrar, fechar portas, arrancar devagar em cada estação, essas coisas.
Na paragem final, a minha estação, levanto-me bem antes da carruagem começar a diminuir a velocidade, tenho pressa. Assim que pára, diante da porta, sou a primeira a sair, e ao som da música que me habituei a ouvir com headphones, fruto do zumbido que nunca passou e para o qual não tenho verba para a operação, subo as escadas a correr, a correr continuo nas primeiras escadas rolantes, mais rápidas que as primeiras, subidas a poder de músculo, salto para as segundas, também rolantes, sempre a trautear a música, e dali salto para a rua.
Não me contive e FUCK... ouço-me a mim própria, vejo pessoas paradas a olharem-me. Os headphones caem. Dou um passo atrás, tiro o impermeável da mala, mas o mal está feito: estou irremediavelmente encharcada.
A pressa era tanta que nem dei conta que chovia a canivetes e saltei literalmente para a rua. Nada a fazer. Caminho para o carro, a cantarolar, com o impermeável pela cabeça, afinal, não devemos ter medo da mudança do tempo, apenas devemos aprender a dançar à chuva, não é assim?

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

CHULO

O email vem com o assunto em maiúsculas. CHULO.
Tal como nas imagens televisivas que engolimos com a sopa do jantar, de guerras, pobreza ou da miséria instalada, imagens e situações que já não transmitem novidade, que já se esgotaram, também a situação do senhor Jorge Viegas Vasconcelos da ERSE, aborrece-nos mas vai para o saco do nada.
Demitiu-se mas vai continuar a receber não sei quantos milhares, à pala da malta, mais um, são tantos que nem todas as equipas de futebol do mundo inteiro lhes conseguem ganhar.
Por vários motivos isto lembra-me Começar do Nada, de Konsalik, relido recentemente e do qual se extraem as duas seguintes passagens (com um pedido de desculpa pela imperfeição da digitalização):




Se os truques são os mesmos há séculos, porque nos deixamos entruquizar?

É do dia, só pode ser do dia

É do dia, só pode ser do dia, da chuva, do cinzento que me transmite esta tristeza profunda, não há-de ser de mais nada.
Não pode ser da surdez de quem eu precisava que me ouvisse, da insensibilidade de quem eu esperava que fosse sensível, da falta de preocupação de quem tinha obrigação de se preocupar, da cegueira de quem devia ter olho de falcão.
Escolho a música, escolho-a alegre e descontraída mas de repente já estou a ouvir melodias que cavam mais fundo nesta tristeza; desligo o rádio, forma de expressão para dizer que fecho o youtube, e daí a nada lá está ele a tocar novamente, como se a música fosse a última companhia, o derradeiro afago, um abraço compensador.
Acredito que o problema será meu, que nunca me mostro frágil e de repente é como se todas as fragilidades e fraquezas viessem ao cima, com a água da chuva, ficam a boiar diante de mim e não tenho forma de as afastar. Quando dou conta explodem à minha volta, trazendo lembranças e memórias, injustiças, falta de reconhecimento, infidelidades, esquecimentos, risos cínicos, e trabalho, muito trabalho, que uso da melhor forma possível para me afastar de tudo, até de mim. Afasto também as lágrimas cerrando os dentes, tanto, tanto que temo parti-los. 

domingo, 20 de outubro de 2013

A arma lá de casa

Um dia chamaram-nos à escola para dizer que o Duarte tinha batido num colega. Isto dito assim, não é bonito, mas muda de figura quando sabemos que bateu num colega para defender outro, vítima daquilo que hoje se conhece como bullying. O defendido era surdo, usava um aparelho e comunicava por linguagem gestual, emitindo uns sons que a crueldade infantil identificava como grunhidos. Na escolha das equipas de futebol, garotos em linha à espera de serem chamados, os auto-denominados capitães de equipa, não só excluíram o miúdo como o atormentaram chamando-lhe nomes. O Duarte fez justiça pelas próprias mãos.
Nós mantivemos um olhar sério enquanto nos descreviam a besta que era o nosso filho, eu abri a boca mas não falei, impedida pelo pai do Duarte, sempre conciliador e apenas consegui emitir um 'nós falamos com ele em casa'. Contra mim tinha já um episódio: já nos tinham chamado para sabermos que o nosso filho era um herege, condição que tinha demonstrado, sem apelo nem agravo, quando tinha levado para a escola um tubo inseminador de porcas, (escrevo inseminador e dá erro, farto-me de rir!) que tinha trazido da exploração de animais dos tios. Não só levara aquela ignomínia de objecto como fora apanhado a dizer vagina da porca - Oh, valha-nos Deus, era preciso repetir para que nós percebêssemos a dimensão da coisa - enquanto explicava, sabe Deus o quê, aos colegas. Tinha que ser castigado! E seria, garanti eu, mas com tal convicção que a professora percebeu que era mentira e houve discussão, principalmente quando ela mencionou que podia não ter filhos mas tinha onze - ONZE - cães em casa e eu reagi perguntando qual era a relação entre cães e crianças e a resposta, do meu ponto de vista, veio errada.
Assim, quando pediram que ele fosse admoestado por bater num colega eu, que já tinha tido tempo de praticar a minha faceta de actriz, respondi daquela forma.
Saindo da escola quis saber porque razão não contara ele o sucedido e ele explicou: não foi nada do outro mundo, ele foi um estúpido e o Diogo não se podia defender porque nem percebeu e eu passei-me.
Foi um passar mais que legítimo, venha quem vier dizer o contrário, principalmente agora que estou divorciada do senhor Calma que, pelo menos naquela altura, agora não sei pois está muito mudado, mas podiam-lhe violar o rabo que ele ainda pedia desculpa.
Uns anos mais tarde no intervalo de um jogo de andebol onde ganhávamos por muitos golos contra uma equipa do Algarve, o treinador da equipa adversária ligou para alguém e disse que estavam a jogar contra dois bisontes. Um deles era o Duarte. O pai do outro animal também ouviu a conversa e dirigiu-se-me esperando uma aliança, ao filho dele ninguém chamava bisonte, que diabo!
Encolhi os ombros e disse-lhe que era um elogio, e tive que encarar duas fúrias: a do treinador algarvio e do pai ofendido, quando na verdade lhe elogiavam o filho.
Hoje durante um jogo o Duarte levou cartão encarnado directo. Já tinha levado dois minutos de expulsão por dar uma estalada, visivelmente por acaso: a palmada era para a bola, mas acabou por ser assente na cara de um jogador adversário. Depois deu em encontrão, aparentemente natural e dentro das regras, mas que resultou mal e o jogador ficou mesmo mais para lá do que para cá.
Ao sair do campo um dos pais na bancada disse: 'Isto que aí vai é uma arma'.
Ele não sabe e perde a noção da força quando está em campo. Não é uma desculpa, é um facto.