quarta-feira, 23 de abril de 2014

O cão e o corvo

Alexandre O'Neill deu-nos um Cão. É em forma de poema, mas é um Cão, o chamado melhor amigo do homem, às vezes tão amigo que se confunde com ele.
Um dos trabalhos de casa das férias do meu sobrinho mais velho é refazer o poema, com outro animal. 
Quinta-feira de Páscoa não trabalho de tarde e, à porta do Arquivo Histórico Militar onde esperamos que batam as duas da tarde para entrar, dou a minha contribuição para o poema, escolhendo o animal: o Corvo. 
O resto é dele. Rói-te O'Neill.

Corvo negro, Corvo preto
Corvo escuro como breu
Planador, andarilho
Corvo torto, Corvo morto,
Corvo de penas prateadas
Corvo veloz como o vento
De bico sempre presente
Corvo necrófago, Corvo espião
Corvo capitalista, mentiroso, aproveitador
A desfazer-se num grito
A refazer-se num piu.
Corvo ave, Corvo aqui
Corvo além e sempre Corvo.
Corvo sinal, símbolo de Lisboa
Corvo a debicar a presa
Presente em cada esquina
Corvo indiferente a cada dia.
Corvo elegante, o da Sofia.
Corvo de loiça de crá-crá apagado.
Corvo na mira da escorva
Vítima do caçador
Corvo, vigilante da noite.
Corvo nocturno, Corvo soturno
Corvo discreto, Corvo ausente, Corvo sombrio
Corvo de olhos que afectam
Corvo-feiticeiro
Sai depressa, ó Corvo, deste paradeiro.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Para mais tarde recordar

O Duarte entrou de férias na quinta-feira da Páscoa, almoçou e jantou com pais, avós, tios e primos, gerindo tempos e refeições e fez-se à estrada com dois amigos. Destino, Madrid.
Apesar de ter estado inúmeras vezes no estrangeiro, do continente americano, ao asiático, passando por diversos países da Europa, diz que não se lembra de quase nada e quer recomeçar.
Ele poupou, os avós e o pai contribuem com uns euros e eu dou-lhe a maior força, à falta de mais contributo. À saída dou-lhe dez euros para beberem café no caminho. Recusa, com um forte agradecimento: conhece-me e sabe que preciso deles.
Despeço-me deles com imensa inveja. Não por irem... mas por estarem na idade de ir, aquela idade em que tudo é permitido, aquela idade que é a idade certa para tudo, mesmo que o tudo inclua avarias, porque as avarias têm conserto.
Desejo-lhes boa viagem e digo-lhes que se divirtam. Não evito e acrescento, com juízo. Eles riem, satisfeitos, felizes.
Já foram a Sevilha juntos, mas foram e vieram no mesmo dia, uma saída de Portugal como quem sai em liberdade condicional, não para a capital, vários dias, sozinhos. O Duarte e um dos amigos já lá estiveram, nenhum se lembra de quase nada, vão os três praticamente em pé de igualdade.
Com outro grupo diferente prepara-se uma ida a Londres em Novembro. Vão visitar uma amiga que lá está a aprender inglês para poder assumir um trabalho. Nas últimas semanas, apesar do meu trabalho intenso, temos conversado imenso e aproximado ainda mais: os preparativos desta viagem a Londres têm sido fonte de conversas e mais conversas, o que prova que, tão importante como a viagem é a sua preparação. Pelo menos para mim...
Ambos já estivemos em Londres, eu várias vezes, o Duarte uma, com o pai, tudo controlado e na cama às dez da noite. Ansiamos ir juntos, andar no Soho, ir aos teatros, beber umas cervejas, tanta coisa. Falamos nisto vezes sem conta, mas eu prefiro ajudá-lo a ir com os amigos, pelo menos agora, na idade em que tudo é permitido, na idade certa para fazer tudo, na idade em que se constroem memórias inesquecíveis, aquelas que mais tarde se contam aos netos, com sorrisos malandros.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

A grande banhada

Se bem me lembro, a última vez que tinha ido ao cinema tinha sido em Agosto. Por insistência do Duarte fomos há uns dias ver Noé, a maior banhada da história, e não é por meter água, é mesmo por não valer um caracol, muito menos os supostos dois que viajaram na arca.
O sexy Russel Crowe cuja presença ajudou à nossa decisão de ir ver este e não outro filme, é uma decepção, e aparenta estar a ser dirigido por um Manoel de Oliveira em câmara lenta, partindo do princípio que os filmes de Oliveira são recheados de acção e movimento imparáveis!
As unhas da mulher de Noé são invejáveis, lindas, limpas e com um verniz protector que aparenta ser de qualidade, lamentavelmente não mostram onde o foi comprar. Da mesma forma, tem umas sobrancelhas impecáveis, o que não é de estranhar pois já reparei que a temática bíblica é consistente nas sobrancelhas arranjadas.
O melhor de tudo são os Transformers, estes em pedra, com vários braços e capacidade de dar porrada e tudo e a todos, nomeadamente aos humanos, pasme-se, que Noé e os filhos encontram várias vezes e dos quais fogem como se eles fossem de outra raça, ou sei lá.
O filme é lento, chato, parvo, sem qualidade de interpretação e lembra muitos outros filmes, como se fosse copiado; tem uma cena ou outra cujos efeitos especiais valem a pena, sem serem deslumbrantes, mas no essencial, se não metesse tanta água era uma seca, assim, é uma banhada.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Guardadores de papel

Pediram-me que reorganizasse os arquivos da instituição onde trabalho. Respirei fundo e entreguei-me à tarefa, mais uma no meio de tantas outras.
As posturas sobre o assunto vão do oito ao oitenta, com pessoas que percebem a importância dos arquivos e outros que estão prontos a eliminar tudo o que não foi produzido por si, passando por outros que guardam tudo, tudo, tudo.
Com os primeiros lida-se bem, com os últimos não há perigo, mas com quem assina a sua falta de profissionalismo com a indiferença sobre a documentação afecta ao seu serviço, é um problema.
Estas pessoas não têm noção do conjunto, da empresa como entidade que se prolonga no tempo, que vem do passado e que se quer projectar no futuro, não sabem o que é pertencer.
Por ser lado, os guardadores de papéis sentem-se seguros rodeados por dossiers e papelada. Como é que uma coisa tão frágil nos pode dar tanta segurança? E se os computadores falham? Perguntam-me com frequência, demonstrando uma falta de confiança nas máquinas que, em simultâneo e paradoxalmente, nos dominam e controlam.
Desde os tempos antigos, não da Grécia mas de quando eu trabalhava no arquivo em Almada, que vejo pastas identificadas com Diversos ou Vários e quando inquiro sobre o seu conteúdo a resposta é sempre a mesma: Não sei bem... Aberta a pastinha nascem papéis de todas as nações e o destino em noventa e nove por cento dos casos, é lixo, acompanhado da expressão, Não sei para que guardei isto

Que confusão!

Entro em casa e tenho um burro e uma vaca no meio da sala.
As flores que costumam estar à entrada, decoram o alto de um móvel e um par de sapatos e meio, de Verão, estão alinhados a meio da minha cama.
Há uma toalha pendurada na maçaneta da porta da cozinha e um pano da loiça descansa em cima do braço do sofá.
Num primeiro instante, nem largo a mala nem o casaco, algo no meu inconsciente me avisa que talvez o decorador ainda esteja dentro de casa. Depois lembro-me que os meus pais estiveram cá com o meu sobrinho mais novo.
O gaiato descobriu as peças do presépio e deixou-as à solta, descobriu o saco com sapatos e decidiu dar-lhes uso mesmo que o tempo ainda não convide e um telefonema de última hora avisou-os de chegada de visitas a sua casa, de modo que abalaram e deixaram tudo às três pancadas.
Ajudada por um gin ao fim da tarde, em homenagem à filha de uma amiga que conseguiu um super trabalho pago condignamente, fartei-me de rir ao telefone enquanto a minha mãe pedia desculpa pela desordem com que sairam.
Certifiquei-me que ele levara os animais da quinta em chocolate que eu lhe deixara na cozinha e acabei a noite a arrumar, mas bem disposta.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Horários de expediente

É horrível os horários de expediente serem todos iguais! A minha biblioteca, e outras, está aberta ao almoço e parte da noite, com horários adequados ao público utilizador. Porque não fazem o mesmo os serviços públicos?
Ando numa roda viva a tentar consultar arquivos que fecham duas horas no período do almoço, encerram às cinco da tarde e abrem às nove e meia, dez e, o horário mais estranho, às nove e quarenta da manhã.
Pior ainda, não tarda mudam para os horários de Verão: os raros que abrem ao sábado de manhã, encerram nesses dias, o horário de fecho ao fim do dia, antecipa-se.
Imagino que sejam todos pessoas com grande actividade familiar, muito calmas, sem stress e imenso tempo livre. Que bom para elas e que mau para mim, e não só.
Os arquivos são só para ociosos? Quem trabalha não pode concomitantemente estudar e pesquisar?
Não.