terça-feira, 31 de janeiro de 2012

On e Off

Fosse eu uma máquina, assim que os pés tocam no chão, começavam a acender-se luzes, ouviam-se zumbidinhos de ligação, tique-taques, enfim, todos os sinais de entrada em funcionamento.
O meu filho era assim até há bem pouco tempo mas agora está intratavelmente desligado até sair de casa: responde à terceira, move-se em câmara lenta como se os gestos fossem previamente editados por um qualquer realizador invisível e só abre a boca para me perguntar como é que eu consigo pensar aquela hora. Respondo-lhe que aquela mera pergunta é sinal que ele não está avariado, caso contrário seria incapaz de a articular.
O pequeno-almoço de ovos mexidos com quadradinhos de pimento encarnado e verde fazem um prato lindo, ladeado por tangerinas cor de laranja e pão acastanhado. Mas nem o fumo branco oriundo da caneca de chá com mel dá luz verde à consciência de gestos, palavras ou de si próprio. Não é único e sei que sou mais excepção que ele.
Na sexta-feira deitei-me às seis da manhã depois duma noite de comemoração do meu aniversário, completado a meio da semana. Foi uma saída de gajas, com jantar, copos e dança onde me diverti imenso quer a convencer um pretendente duma amiga que ela era francesa, tendo posto várias pessoas a procurar vocábulos franceses escondidos na memória e que tiveram imensa dificuldade em fazer o percurso até à oralidade, com óbvia desajuda do álcool, quer a ouvir a descrição entusiasmada duma outra amiga que, sentada no banco da frente do táxi, comentava uma cena acontecida em Praga, generalizando a cabranzice dos taxistas, o que provocou um tsunami de riso entre nós, taxista incluído, tendo terminado com ela a dar-lhe palmadinhas no ombro informando-o que cabrões eram os outros taxistas, não ele…
A minha amiga dormiu lá em casa e deitámo-nos cada uma com seu zumbido nos ouvidos, fruto dos decibéis da música que ainda tocava a bom tocar quando saímos.
Eram nove horas quando abri um olho, verdade seja dita porque me pareceu ouvir qualquer coisa. Mas assim que abri o primeiro, o segundo não quis ficar atrás e abriu-se também e sim, tinha mesmo ouvido um telefone. Era o da minha amiga, com o filho lá do outro lado numa urgência que, sendo urgência, mas não era grave: a situação exigia que ela fosse a casa dar-lhe a chave do carro. Disse-lhe que a mãe dormia ferrada, mas que numa hora, pelo menos eu, lá estaria.
Tomei banho, deixei a máquina a lavar com a roupa que tirara três horas antes, vesti-me e fui chamá-la. Respondeu-me com um grunhido vindo das profundezas do sono, abriu os olhos, olhou uns segundos e a seguir pronunciou com voz rouca que já sabia onde estava e como fora ali parar. Eu ri-me enquanto abria a janela e fazia o sol bater-lhe na cara e fui enunciando o motivo de termos que madrugar, acrescentando o que já fizera. Silêncio da parte dela.
Saímos de casa, pequeno-almoço no café da esquina, deslocação de carro durante 15 minutos, rádio ligado, eu a botar discurso sobre qualquer coisa. Chegámos, estacionei, atendi o telefone, fomos beber um café e só aí é que ela disse que tinha acordado.
Concluímos que eu tenho um botão de on que se activa quando ponho os pés no chão, mesmo que tenha dormido duas horas e me deixa os sentidos em estado normal, ao contrário dela, e de muitos outros, Duarte incluído, que são como as lâmpadas que agora se usam que vão intensificando a luminosidade devagar, progressivamente.
Para dormir é a mesma coisa: o botão off liga-se quando deito a cabeça na almofada, e a almofada pode ser qualquer coisa, pois durmo sentada, torta, no carro, no sofá, em qualquer lugar, desde que tenha sono, sono esse que vem assim que me deito, sem comprimidos, nem nada.
Hoje eram três horas quando fui beber água e estava o Duarte deitado na cama mas acordado. Disse-me que estava tudo bem, apenas não tinha sono. Eu bebi água e ele comeu um pão com um hambúrguer dos que estavam prontos para o almoço dele, como tanta vez acontece a meio da noite.
Já não estranho este comportamento, aceito-o, assim como aceito a aparente avaria matinal, a desconexão da vida.
Apenas acho que aproveito mais embora corra o risco de gastar as pilhas mais depressa que aqueles que vão entrando devagar no dia que começa.
A próxima vez que sair à noite vou convencer as minhas amigas a estender a noite, a prolongá-la verdadeiramente pelo dia e tomamos o pequeno-almoço de seguida na praia, pois claro. Algo me diz que nenhuma delas vê o sol nascer há anos…

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

FNAC: Festival Não À Cultura!

Estimada Dona Fnac
Sou sua cliente pontual, talvez reconheça o número do meu cartão multibanco, de quando pago as minhas compras.
Escrevo-lhe para a alertar sobre um engano cometido pelo vosso departamento de publicidade e marketing. Já pensei em fazê-lo várias vezes, quando colocam livros de Arte na Floricultura, porque na capa está uma planta, engano muito legítimo, e culpa do Autor que escolheu uma capa em nada adequada ao conteúdo e, que pensa ele?, que os seus funcionários estão aí para terem o trabalho de saberem o que está dentro dos livros? Ora esta…; ou quando os mesmos funcionários informam que determinados livros estão esgotados no Editor, logo não podem fazer a encomenda e, coincidência, quem faz a pergunta, ali de carninha e ossinho, é o próprio Editor…; ou ainda quando pedimos uma edição em língua inglesa e os mesmos funcionários nos perguntam – muito legítimo! – se há a portuguesa, para que quero eu a inglesa…?
Mas sabe Dona Fnac, este engano em particular pode ser confundido com ignorância total da sua parte, o que está completamente fora de causa, como é óbvio.
Refiro-me à publicidade onde se lê Troque os Maias pela Meyer e, devo frisar, a ideia de brincar com as iniciais dos nomes, é genial, brilhante, épica! Nunca alguém se lembraria duma coisa assim e está visivelmente de parabéns. Imagino que tenha sido uma gralha da gráfica pois não me ocorre que o pedido tenha seguido assim, pois os Maias, embora português, é ouro puro, e a Meyer é sangue estragado, não serve para transfusões, cabidela, chouriços de sangue, sarapatel, surraburra, ou outros fins; o que fica, a essência que permanece, é uma grande nódoa, dificílima de tirar.
Além disso, Senhora Dona Fnac, será que a cultura se renova mesmo? Depende da cultura, verdade? A sua é a cultura do cifrão e acredito que se renove, mas na minha perspectiva quando fala em renovar, refere-se a trocar, a substituir e pede-me que troque um grosso cordão de ouro por uma imitação de bugiganga, pede-me que troque uma garrafa de água cristalina por um bidão de água pantanosa.
Eu até gosto de mostrar a minha boa vontade e não me importava de participar na sua campanha, mas não tenho por hábito nem deitar fora restos de arroz, muito menos o conteúdo da minha caverna de Ali Babá, logo não tenho nada para a troca… além disso, teria que pagar com notas do Monopólio, sabe, é que são as únicas que estão à altura da presente proposta.
Cordialmente
Areia às Ondas

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Aniversário

Até há meia dúzia de anos comemorava os meus anos de forma saborosa, leve e gratificante. Depois aconteceu ter calhado o funeral duma pessoa que prezo muitíssimo, um primo, no dia do meu aniversário. Foi um dia de muitas, muitas lágrimas, de profunda tristeza e mágoa, foi um dia inesquecível, dentro do pior que há.
No ano seguinte no mesmo dia morreu um jovem muito próximo de nós, que não sendo primo era como se fosse e a morte na juventude é sempre uma coisa não só inexplicável como revoltante.
Dois ou três anos depois decidi organizar um jantar de aniversário que tinha várias valências: fazer uma surpresa aos meus pais (que estão sempre de parabéns quando os filhos fazem anos); juntar família que não se via há algum tempo, misturá-los com os amigos e fazer aquilo que é tradição em todo o mundo: uma comemoração à mesa.
Mas quis o destino que o restaurante eleito estivesse fechado naquele dia e o substituto foi a pior escolha possível, da qual nem me quero lembrar…
Ora, calhei a fazer anos ontem, novamente. Não dei notícia disso e o dia passou-se como qualquer outro, embora o telefone tivesse começado a tocar às oito – a minha sobrinha – e tivesse recebido o último contacto com o mesmo propósito às 10 da noite. Como não assinalo o aniversário na página do facebook, onde se recebem e se dão parabéns a amigos virtuais que nunca vimos, não recebi mensagens. Porém, dando-lhe uma espreitadela, como sempre faço todos os dias, vi uma mensagem duma colega de trabalho a glorificar um sobrinho que fazia anos e comentei a verdade: gosto de saber de pessoas que fazem anos no mesmo dia que eu.
Vendo o meu comentário, ela teve a gentileza de me desejar parabéns na minha página pessoal dizendo que mais importante que algumas personalidades que nasceram no dia 24 de Janeiro, como o Imperador Adriano, Beaumarchais, Frederico II da Prússia, Sharon Tate, Nastassja Kinski e tantos mais, eu era mais importante que todos eles.
Para quem me ama sou com certeza mais importante, mas para todos, sejam quem forem, espero sempre poder fazer alguma diferença.

A arte de matar dragões

Ignacio del Valle é o autor duma trama que ganhou o Prémio Felipe Trigo de Novela. Li-o em português, edição da Porto, e arrependi-me de não ter usado uma edição castelhana: há expressões, palavras, invisibilidades muito palpáveis que não senti, apesar de suspeitar que estavam lá.
Não foi tanto o trabalho de Alcinda Marinho, a tradutora, mas antes a tarefa de revisão – perdoem-me por não ter apontado se o livro teve revisor, mas foi emprestado e já não o tenho. Faltam elementos de ligação nas frases, como se fosse aquele jogo em que se eliminam letras das palavras e, mesmo assim, conseguimos ler sem perder o norte do conteúdo. Desapareceu um e aqui, um da ali e por aí fora.
Por outro lado, Robert Taylor virou Robert Tailor… se foi assim que o autor escreveu (??) a tradutora devia ter incluído um N.T. dizendo isso mesmo, caso contrário é bizarro que tenha saído assim.
Por outro lado, Arturo Andrade, o protagonista, é novo demais para certos pensamentos, atitudes, conclusões, o que faz com que a menção à sua idade pareça um elemento irreal na narrativa.
Ainda assim, a mescla entre a arte a Guerra Civil, as andanças do espólio do Prado por aqueles caminhos desviantes, que levam onde não se espera e onde não se quer, merece ser lida e aplaudida, embora esperasse mais.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Os Descendentes… com banda sonora

As manhãs do fim-de-semana foram passadas a caminhar, auscultadores nos ouvidos, para me actualizar na música que o Duarte ouve. Domingo à tarde fui ao cinema. Péssima ideia, péssima…
Fiquei na terceira cadeira a contar da coxia e os dois lugares antes eram ocupados por um casal entre os cinquenta e os sessenta anos. Enquanto a sala se enchia e acomodava a senhora falava baixo com o marido e perguntava-se porque razão é que as pessoas não chegam a horas e têm que estar a incomodar os que estão sentados, parecendo que os últimos são sempre os que ocupam os lugares do meio das filas.
Às tantas entrou um bando de jovens – certamente atraídos pela publicidade das belas paisagens do Havai e que, pessoalmente, não achei que fossem exploradas como badalaram – e a senhora, vendo entrar as gargalhadas e a descontracção, comentou que era por aquilo que gostava de ir ao cinema à noite.
Eu nem olhava para eles mas ia concordando mentalmente e registei que o casal não tinha pipocas, coca-colas ou quejandos, tal como eu, que apenas me munira em casa da eterna garrafa de água.
Todas as apresentações foram passadas em silêncio, ninguém percebeu porquê, o que realçava o barulho da sala e me fazia aborrecer. No último minuto, já com os Marretas no ecrã, para fazer ver a todo aquele púbico que quem atende telefones, envia mensagens ou incomoda os outros é um Marreta a abater, lá veio o som, o Clooney, a água transparente, uma ou outra paisagem mais de fazer água na boca, as rebeldias das filhas e a incapacidade do pai lidar com elas. E, estranhamente, como resquício do início da sessão ficou a senhora a meu lado a falar com o marido, a aclarar a garganta – movimento ainda mais irritante quando o marido fazia coro com ela! – a ver mensagens acabadas de receber no telefone e a explicar ao marido o que ia acontecendo quando ele dizia, com o ar mais normal do mundo e típico do sofá da sala ‘Agora não percebi’, como se a trama fosse sobre engenharia nuclear.
A estas horas já eu tinha olhado para ela fixamente duas ou três vezes o que a fez remexer-se na cadeira.
Para animar ainda mais um cavalheiro três ou quatro filas acima dava gargalhadas épicas em todas as cenas tristes do filme, o que fazia várias filas inteiras esticarem o pescoço para trás em sintonia para ver de onde vinha a alarvidade.
Quando o filme acabou olhei a senhora fixamente de novo e esperei que me perguntasse o que queria para que lhe respondesse que pretendia fixar a cara dela para nunca mais me sentar a seu lado no cinema. Mas ela baixou os olhos e saiu apressada, arrastando o marido.
Vivam as sessões da meia noite!

O mundo numa casa de banho

Quando andava no liceu e estudei alguns clássicos portugueses fiquei danada com Almeida Garrett. Segundo a professora as Viagens na Minha Terra foram escritas sem sair do quarto!
A minha ansiedade por ler um livro que tinha a palavra 'viagens' no título era grande e fiquei sempre com a sensação de fraude. Odeio a Joaninha desde essa altura...
Agora tenho um mapa do mundo na minha casa de banho, cortesia dos meus sobrinhos no Natal, e podemos abrir a torneira com um olho na Sibéria, tomar duche e molhar o deserto do Sahara, lavamos os dentes sob a supervisão do Alaska e fazemos tudo o que se faz numa casa de banho com o mundo a olhar-nos.
Como é que uma coisa tão simples pode fazer os dias começarem de forma diferente? E por diferente leia-se, melhor! Ver o mundo num quadrado de três por três metros dá-nos uma sensação de poder, como se pudesse decidir que quando abro a porta daquele minúsculo compartimento posso ir a qualquer daqueles sítios... Só não percebo porque escolho sempre o mesmo... Lisboa, ali a meia dúzia de passos do Marquês de Pombal.
O que teria escrito Garrett se tivesse uma cortina de duche como nós?

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Viva o Parlamento Europeu!

Conversa entre duas pessoas no metro, enquanto uma delas folheia um jornal gratuito.
- Olha, mudou o Presidente do Parlamento Europeu
- Quem?
- O Presidente do Parlamento… mudou…
- Mas não era uma mulher?
- Aqui diz que era um homem…
- Atão não era uma baixinha, de cabelo branco?
- Isso é cá e isto é na Europa
- Ah pois, eu da Europa não percebo nada.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Velhos, são só os trapos?

Domingo de manhã. Regressada das compras vejo uma ambulância do INEM parada à minha porta. Entro com os sacos e vejo que foi chamada para o rés-do-chão. Os bombeiros preparam-se para levar o velhote que ali mora para o hospital. Pergunto à senhora que está à porta o que se passa com o marido. Ela esclarece-me que é a pessoa contratada pelo filho para tomar conta dele de noite, que não é da família. Peço desculpa alegando ignorância, ela sorri dizendo que não faz mal, que muita gente pensa que são marido e mulher e termina a conversa com ansiedade dizendo que tem que chamar um táxi para a levar ao hospital, pois não pode ir na ambulância. Prontifico-me imediatamente para a levar. Subo na velocidade do elevador, deixo os sacos e informo o Duarte em três palavras.
Quando desço já a ambulância vai em velocidade de cruzeiro e a senhora começa um rosário de agradecimentos, com explicações pelo meio e muita amargura a toda a volta.
O filho não pode dar apoio ao pai porque vive na Alemanha, e para isso a contratou a ela, que dorme todas as santas noites na casa do Sr. G., com a missão de zelar por ele, levá-lo à casa de banho e fazer-lhe o almoço, que ele toma sozinho. O jantar também o faz, quando entra ao serviço.
As orientações que tem se acontecer uma urgência é avisar o irmão mais novo do Sr. G. Foi o que fez ligando para casa dele, telefone 21 etc., etc., e do qual ele lhe respondeu repetindo o que a senhora lhe dizia, Ai ele vai para o hospital? Mas agora? Olhe que maçada, logo agora que estou em Lisboa a tratar dum assunto e não posso ir...
A senhora estava amarga com quem tinha tido o desplante de lhe responder assim, Pois se mora na Amadora, a dizer-me que estava em Lisboa...
Porém, de acordo com as mesmas orientações, em segundo lugar deverá ligar a uma sobrinha que mora igualmente a 10 minutos de carro. Mas, ele há coincidências do diabo..., não é que a sobrinha tinha planeado ir almoçar fora com a filha e não lhe dava jeito agora ir ao hospital?
A senhora que me contara o episódio do irmão com amargura e tristeza, contava agora o da sobrinha com acidez e acrescentava que quando se é velho é-se um monte de trampa.
As minhas tentativas para discordar dela foram fracas porque também eu sentia raiva de pessoas que nem sei quem são. Como se as informações não chegassem, ela acrescentou ainda que tinha a certeza que lhe atendiam o telefone apenas por um motivo: o Sr. G. tinha uns dinheiritos, pois claro, que a sobrinha vinha reclamar em dias de festa, natais e páscoas, alturas em que aparecia com doces que o tio não podia comer. Nas mesmas alturas apareciam sobrinhos que o Sr. G. nem se lembrava que tinha.
Já à porta do hospital a senhora atendeu a filha a quem explicou os motivos de não estar ainda em casa, dizendo que não sabia a que horas chegaria e pedindo desculpa por não ter avisado. Explicou-me que estava de folga, mas tendo consciência, quem é pode ter folgas numa situação daquelas, perguntava-se.
Deixei-a e dei-lhe o número do meu telefone dizendo que não me custava ir buscá-la, que me chamasse quando estivesse despachada.
Eram nove da noite quando recebi o telefonema. Disse que tinha entrado em casa naquela hora, que a filha a fora buscar ao hospital, onde o Sr. G. ficara internado. Tinha acabado de ligar ao filho, na Alemanha, a quem tinha poupado a informação até saber do internamento. Agradeceu-me mais uma vez e em tom de desabafo informou que ninguém da família sequer lhe ligara o dia inteiro.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O botão calão

A minha mãe telefona-me à noite a dizer que está a fazer um trabalho sobre calão alentejano e debita uma lista de palavras à qual eu acrescento mais duas ou três. Desligamos comigo a fazer a promessa que vou recolher mais calões e lhos direi.
Na manhã seguinte vou ao centro comercial tratar dum assunto da PT. A fila é grande e enquanto espero dou uma vista de olhos no corredor e acabo a entrar numa retrosaria onde tudo me faz andar para trás no tempo. A colecção de botões é magistral e como a minha mãe tem a mania de fazer roupa nova apenas com a mudança de botões telefono-lhe a dar conta da loja. Ela não está e o meu pai fica com o recado. Algumas horas depois ela devolve a chamada e a conversa foi a seguinte:
- Teu pai faz cada confusão…
- Ai sim? Então o que foi agora?
- Imagina tu que ele me disse que tu tinhas ligado a falar em botões! Não ouve bem este homem! Vê lá a confusão que ele arranjou… tu querias-me falar dos calões, não era?
- …
- Estás ai? Estás a rir do quê?

Serei boa mãe?

Não há mãe no seu perfeito juízo que não se tenha colocado já esta pergunta. Quem pensa e sente, à partida, que a resposta é Sim, sem se questionar, tem muitas probabilidades de não ser…
Quem o afirma não sou eu e sim um conjunto de especialistas, que assim se manifestaram num documentário sobre a matéria.
Julgo que não há uma resposta única para a pergunta. Haverá cômputos gerais, médias de equilíbrios, que se desequilibram cada vez mais, fases da vida, etc., mas ser-se sempre uma boa mãe… tenho dúvidas. Começa por não haver unanimidade sobre o que é ser-se boa mãe… e a linha que divide a boa da má mãe é muito mais ténue do que se possa imaginar. Ainda assim, tenho para mim que ser-se uma boa mãe é agir em função do futuro dos filhos, um futuro saudável, autónomo e seguro. Claro que a plenitude destas premissas nunca é alcançada, mas é objectivável e ter isso em mente já é prestar um bom serviço.
O documentário era sobre mães que se tinham em excelente conta e, afinal, eram consideradas um perigo para os seus filhos, do ponto de vista de vários analistas, psicólogos, médicos e professores.
A questão prendia-se com excesso de zelo, com falta de espaço, com amamentar até à idade adulta, como lhe chamou um dos intervenientes.
Defendia-se que quando a dependência dos filhos para com os progenitores começa a diminuir, há pais e, sobretudo, mães que, continuando a agir como se o tempo tivesse parado, invertem esta dependência, mas de forma dissimulada, até inconscientemente para eles próprios, e continuam a agir como se os filhos tivessem eternamente dez anos: dão o peixe quando os deviam ensinar a pescar.
Isto pode acontecer por duas grandes razões: porque falharam no papel de progenitores ou porque confundem o amor que sentem pelos filhos por uma obrigação de estarem presentes, mesmo que invisíveis, como fadas madrinhas que fazem acontecer tudo.
Estas mães preparam as refeições, arrumam os quartos e a roupa, arranjam desculpas para tudo o que os filhos fazem, muitas vezes até junto de professores ou outros adultos, têm uma noção de ajudar a fazer os trabalhos da escola que passa por serem elas a fazê-los, tudo em nome dum suposto bem-estar dos filhos, que agradecem, claro está, sem se aperceberem que perpetuam a brincadeira com bonecos, em vez de criarem filhos.
Em momentos de tensão com terceiros ajuízam sempre a inocência dos seus filhos, mesmo sem saberem o que eles fizeram, ou seja, é a técnica do atirar primeiro e perguntar depois. As mães que assim agem engolem literalmente as asneiras dos filhos mas guardam as irritações dentro delas, não permitindo que alguém perceba que estão em desacordo com os seus petizes, mesmo que estes sejam bem maiores de idade.
Estas mães dividem-se ainda em dois grupos: as que reclamam do comportamento dos filhos, que não fazem nada, não ajudam, etc., mas, em simultâneo, não os incentivam a tomar responsabilidades, não lhes distribuem tarefas, e as que consideram que esse comportamento é normal, ou seja que, por exemplo, a limpeza e arrumação duma casa de banho depois do duche é tarefa sua e não dos filhos, mesmo que estes sejam adultos.
Os especialistas consideram que, no fundo, estas mães sabem que estão a agir mal mas acreditam que se estiverem de bem com os filhos, é porque são boas mães. Se nem sequer se questionarem se estão a agir bem ou mal, a coisa é mais grave… Ou seja, pensam que o conceito de ser boa mãe passa por estar sempre do lado dos filhos. Nada mais errado e que, com frequência, ocasiona problemas de relacionamentos pois a mãe, cedendo sempre, acaba por perder capacidade de falar, de se manifestar, de tomar o seu lugar, face a hábitos que ela própria criou e que, com o tempo, não consegue controlar.
A dificuldade do caminho é sempre grande, mas quando este se estreita até se tornar um simples arame é a partir da pré-adolescência, etapa de passagem (como o são todas!) para o início da idade adulta. É a altura em que existindo já consciência de si própria, a criança impõe os seus pontos de vista, os seus quereres, cuja satisfação tem que ter um equilíbrio que as mães do documentário não proporcionavam.
O dizer sim, o estar sempre de acordo, terá efeitos futuros nefastos e complicados de gerir, pois a vida não é uma sucessão de sins e as pessoas que se vão encontrando não são nossas mães.
Neste ponto os especialistas batiam de forma reiterada, como algo que as mães em causa não conseguem perceber: o facto de não estarem a preparar os filhos para a própria vida, agindo como placenta, ou seja, com instintos de protecção, por vezes, até sobre o ar que os filhos respiram.
Tal como a introdução de novos elementos na alimentação quando são bebés, a mãe ideal deve ir introduzindo aspectos de novas vivências nos filhos à medida que crescem, como sejam a partilha e posterior aumento de responsabilidades nas tarefas diárias da casa, deixando-os errar e explicando-lhes o erro para que eles possam posteriormente fazer melhor.
Foram dados exemplos de mães galinhas ao quadrado que mostravam uma alegria sem fim ao dizerem que os filhos sabiam estrelar ovos e o psicólogo respondia-lhes que isso não era de admirar pois os filhos estavam a entrar na casa dos trinta!
Por norma estes relacionamentos são caracterizados por rebeldias da parte dos filhos que, mostram desagrado pela forma como são tratados mas, não obstante, também não deixam a saia da mamã pelos privilégios que ali têm, e por permanência para além do normal em casa dos pais.
Não sendo psicóloga, acompanho o tema em leituras, sou uma observadora perspicaz e tenho anos de experiência a trabalhar em infantários, o que sempre me deu um estar como mãe, diferente da maioria das mães que conheço, e que se caracteriza essencialmente por uma despreocupação pelo uso ou falta dele de chapéus, de casacos, de chapéus-de-chuva (penso que o Duarte não sabe o que isto é…), a capacidade de encarar uma valente molha como um momento engraçado, promover passeios à chuva ou mergulhos no mar com a roupa toda, entre muitas outras coisas.
É claro que isto, e muito mais, faz de mim uma má mãe aos olhos de muita gente: porque não quero saber, porque ele até nem parece meu filho, porque não me preocupo e muitas outras frases batidas a que faço orelhas moucas.
Sempre achei que o Sozinho em Casa era um filme pedagógico para mães e pais galinhas pois os miúdos desembaraçam-se muito melhor que aquilo que se pensa e, na maioria das vezes, não fazem imensas coisas porque têm alguém que as faz por eles.
Seja como for, agora, no ano em que fará 18 anos, sinto que o meu filho está preparado para viver sozinho, e tirando a conta da luz – que seria desastrosa pois ele parece gostar de ter tudo iluminado à sua volta – não vejo nada que ele não esteja preparado para fazer. No limiar de atingir a maioridade sinto a consciência tranquila e faço um balanço positivo em função do nascimento dum cidadão do mundo que me deixa orgulhosa. A questão é: estará ele orgulhoso de mim? Espero que sim…

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A crise na cabeça das crianças

O meu sobrinho joga com o pai um jogo de tabuleiro com conquistas, avanços e recuos. Às tantas faz batota e o pai reclama:
- Então… estás a brincar com a tropa, ou quê?
- Eu? A brincar com a troika? Deus me livre!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Vai um cafézinho?

Na senda da minha decisão de deixar de pagar exageros a garganeiros que se querem aproveitar do nosso vício pelo café, às prestações trouxe a máquina, açúcar, copos (de plástico… desculpem lá…), um recipiente para guardar estas bugigangas todas e não dar ao gabinete de trabalho o ar de bar, e hoje decidi-me a ir comprar o café.
Pesquisei na internet a loja mais próxima e desloquei-me lá durante a hora do almoço.
Entrei também fugindo ao frio e nas minhas passadas (chamavam-me cem à hora no liceu…) já ia quase a atravessar a parede do prédio quando percebi que o faz favor, olhe, por favor, era para mim. Voltei atrás e enfrentei uma funcionária que estava a cinco metros da porta junto a um mini balcão que não tinha tido direito a qualquer atenção minha por não lhe ter visto cápsulas de café. Porém, tinha que lá parar, numa espécie de portagem, onde me perguntaram o que desejava, diga-se de passagem, com firmeza e sem simpatia, como se me estivessem a fazer um favor por me deixar entrar.
- Venho comprar café… posso entrar?
A minha ironia não surtiu qualquer efeito e a menina quis saber se eu tinha o meu cartão. Que não, não tinha. Mas não tem porque se esqueceu, ou é a primeira vez e ainda não tem, quis ela saber. Não estou muito habituada a que estranhos me perguntem assim, por dá cá aquela palha, sobre a minha primeira vez e disse que não era para mim. Assim sendo a menina recolheu uma das senhas (em cartão plastificado, bom material, caro) que supostamente era para fazer o cartão e apenas me deu uma para entrar na fila das aquisições.
Faltavam meia dúzia de pessoas. Avassalada com tanta cápsula, de tanta cor e sabor, agarrei uma coisa – não sei que nome lhe hei-de dar – em vidro, como se fosse um catálogo, com nomes e preços. Mais uns minutos e acendeu-se em todos os televisores que povoam as paredes um C 31, o meu número. Pedi Roma, descafeinado e outro com sabor a baunilha. Estendi o multibanco e a menina perguntou-me o número. Voltei a dizer que não tinha, que a compra não era para mim.
- Então faculte-me o número de telefone do dono da máquina, por favor.
Como? Pensei eu.
- Para quê?
- Para associarmos o pedido a uma pessoa e sabermos o que consome.
- Isso não é ilegal? Se eu não lhe der o número não posso levar o café?
A repetição da ironia voltou a não ter qualquer efeito e antes que lhe pudesse dizer o meu signo a menina, qual soldado, brindou-me com a seguinte pergunta:
- Está a dizer-me que não me vai dar o número?
Correndo o risco de aparecer alguém para me torturar, partirem-me um braço, aplicarem-me um golpe de karaté ou porem-me na rua, respondi:
- Estou a fazer o pagamento e que eu saiba a mais não sou obrigada.
Sem me olhar agarrou no cartão, o pagamento foi feito, o saco com os tubos de café foi-me entregue e eu fui-me embora.
Decididamente tanto salamaleque não é para mim e lembrei-me de Maria Antonieta que ontem tinha estado a rever. As cenas das refeições sempre me impressionaram imenso e, tal como os pressupostos que fazem com que se comprem tantas revistas ditas cor-de-rosa são a frustração de não se pertencer àquele mundo, também aqui registei um atendimento e acolhimento que se quer bom e de qualidade mas, bastam dois dedos de testa para se perceber, acaba por ser ridículo e extravagante.
Acredito que existam pessoas que se sentem bem naquele teatro e que adorariam que lhes dessem o café à boca e, assim, continuarão a existir lojas deste calibre e gabarito.

Em limpezas

O ano que passou foi fértil em conhecer pessoas. Não que tivesse conhecido muita gente que não conhecia antes, mas fiquei a conhecer melhor algumas das que, por um motivo ou outro, se cruzavam na minha vida.
Normalmente não se gosta de pessoas mentirosas, falsas, hipócritas, mesquinhas, invejosas e outras que se possam igualmente indexar a escalões similares. Eu também não gosto de gente estúpida e fraca.
Já diz o ditado que dos fracos não reza a história e uma das características da fraqueza é a incapacidade de não pensar por si próprio, a inabilidade de se recolher a solilóquios reflectivos com o espelho em busca da verdade, da sua verdade... mesmo que seja mentira.
A fraqueza é a falta de contraceptivo que faz emprenhar pelos ouvidos, que tira o descernimento e faz acreditar naquilo que se quer, naquilo que dá jeito. Se as pessoas que semeiam intrigas não são de confiança, os que lhe dão ouvidos sem se darem ao trabalho de espoletar uma conversa esclarecedora, não são melhores. São fracos.
Mas piores ainda que estes são os que constituem uma terceira linha e que ouviram o que se diz e, assim, sem mais sem menos, acreditam! É a sinergia da maldade.
Estes comportamentos no domínio daquilo que se tem por garantido como amizade são confusos e consubstanciam um roubo: dos relacionamentos e dos conceitos, porque afinal o que se pensava que era, não é.
Assim, e para não fazer crescer limbos, fiz uma limpeza por escrito e disse o que me vai na alma, sabendo que a partir de agora os novos relacionamentos serão objecto de estudo aturado e muitos exames antes de passarem de classe. Se estes actos criam tristeza, por outro lado proporcionam alívio, e uma resiliência ainda maior que o costume.
Há dias vi um filme sobre palavras esquisitas e uma delas era tutela. Dizia uma criança que significava tomar conta. As amizades são feitas de tutela e quando esta se demite da sua função, é porque a amizade sofria de falta de oxigénio.
No livro que ando a ler menciona-se a palavra mais longa do dicionário: agonia. Façamos de tudo para a afastar das nossas vidas, dediquemo-nos à leitura - que dá bons temas de conversa! - e sejamos honestos connosco próprios.
Namasté.

Elementar, meu caro Ethan

O eterno companheiro de Sherlock Holmes, Ethan Hunt, usa um cabelo estranho no último filme. Gostei imenso da personagem da cigana, principalmente das roupas dela e lembrei-me duma ocasião em que me mascarei de cigana, vestida com umas farpelas que parecia uma cigana! Mas isso foi outro filme...
Sábado foram dois de seguida, com intervalo para escaldar a língua com cafézinho, quente, quente, e voltar a sentar rapidamente para a segunda sessão.
Começámos com o detective, que entretém e sempre regalamos o olho com o Jude Law, com aquela carinha laroca, e passámos depois para as impossibilidades feitas possíveis graças a um grupo de missionários sempre acompanhados pelas Mission Girls, já que as miúdas do Bond andam desaparecidas, com a salvação do mundo nas mãos, como sempre.
Mas não gostei da ironia maldosa dos chefes do Ethan que lhe pedem um trabalho e dizem sempre 'caso decida aceitá-lo', como se a coisa estivesse para o rapaz se dar ao luxo de não aceitar! Com franqueza!
O melhor de passar quatro horas no cinema com o meu filho é que, seja que filme for, depois aquilo dá conversa que dura para sempre... e é isso que faz de cada filme um filme inesquecível.
No curto intervalo vimos o centro comercial cheio, cheínho, ou não estivessemos em época de saldos.
Restaurantes às moscas, filas só para hamburgueres e pizzas, os mais baratos; ainda assim, muita gente a consumir. Pelo nosso lado, os dois filmes fizeram o Duarte prescindir das habituais pipocas e eu fiquei a olhar para o antigo costumeiro Magnum e decidi que... estava esgotado.
Viemos comer a casa, esganados de fome, mas cheios de conversa e boa disposição.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Uma opinião sobre O Último Segredo

Haverá pessoa que cative mais nas suas alocuções do que o Prof. José Hermano Saraiva? A sua estatura é oposta à estatura das suas conquistas, Napoleão feito cronista oral da História de Portugal e dos portugueses por esse mundo.
O Prof. JHS é o deus da oralidade, vemo-lo na televisão e pensamos ver a História de Portugal em linguagem gestual que, com uma forma muito própria, agarra ouvintes. Adora uma boa lenda que, dita muitas vezes, se transforma numa verdade com selo e tudo. É o grande divulgador, fala para massas, e o discurso tem obrigatoriamente que contemplar os que sabem o significado de 1143, os que dão valor máximo na História aos cognomes dos monarcas, os que consideram que alguém é um sábio digno de respeito com joelho no chão e tudo quando sabe de cor e salteado a genealogia real, embora não saiba perscrutar os caminhos económicos ou sociais aqui do jardinzinho. A linguagem tem que se adaptar a uma média de pessoas e evitam-se palavrões como miscigenação ou ostracizar (não, não é a técnica de apanhar ostras), ou seja, no entendimento da mensagem têm que caber todos os ouvintes. As televisões estão cansadas de saber como se faz, os média em geral sabem a cartilha toda.
Se a ‘coisa’ fosse escrita outro galo cantaria. É que a palavra escrita aloja-se, fica ali, deixa marca e não podemos dizer, ah, foi uma gralha e tal… ah, foi o revisor, aquele malandro… não senhor. Nos livros, para além de faltar o apoio do gesto, mantém-se a necessidade de esclarecer o destinatário, neste caso, o leitor.
Como é óbvio há várias maneiras de o fazer e uma delas é partir do princípio que o leitor é um tolinho a quem tem de se explicar tudo, incluindo longas deambulações por pormenores, mais ou menos ‘técnicos’ e, não contente, repetindo-os! Só assim garantimos que o nosso livro é percebido por todos desde o totó ao ‘senhor doutor’.
Também pode ser manobra comercial para aumentar o número de potenciais compradores, mas aí o Autor está a escrever batatas e não livros, está a fazer cadeiras de diferentes cores, para totós, desculpem, para todos os gostos e talvez fosse boa ideia enviar um currículo para a Ikea.
Nesta linha de escrever para totós, para fazer chegar a informação ao leitor o Autor arranja as formas mais disparatadas que, frequentemente, são as menos credíveis. Será que se dá conta? Umas vezes sim, outras não. No primeiro caso, sabe também que está em jogo aquela malta que pode comprar o livro para fazer estante…, no segundo caso, é mais grave pois se escreve como se o fizesse para si, então algo vai mal no reino da Dinamarca… Mas se pensarmos que o público inclui os telespectadores da Casa dos Segredos, está perfeito! Tem que ser tudo explicado, explicadinho… enfim, é assumidamente para totós!
Assim sendo, aos escritores – e não só – bastam-lhes as vendas chorudas. Se introduzisse aqui uma nota de rodapé, ao jeito dos livros de Direito, diria: Sobre este assunto ver também Paulo Coelho, entre outros. Porém, são campeões de vendas! Indiscutível. Mas como bibliófila, como amante de livros e da escrita, como crítica também, mas acima de tudo como Leitora, tenho que mencionar que há livros que são uma fraude: uma fraude nas traduções, uma fraude nas revisões, uma fraude enquanto livros, porque me desapontam, não me desiludem, porque com certos autores já não tenho ilusões mas, ainda assim, conheço muitas pessoas que compram a banha da cobra. Embora não dite comportamentos ou acções seja de quem for, mas a minha consciência diz-me para avisar.
Já tinha lido José Rodrigues dos Santos e não tinha gostado, nomeadamente A Fórmula de DeusO Sétimo Selo. A leitura do segundo confirmou o que pensava do primeiro: excessiva repetição de explicações científicas, como se o acto do repete-repete-repete, como quem decora, fosse mais esclarecedor quando, no fundo, é aborrecido e, a bem da verdade, é sinal de que os leitores são uns tolinhos.
Conhecedora dos meus gostos, uma amiga pôs-me O Último Segredo na mão, de empréstimo, e pediu-me opinião sobre o romance.
A construção de personagens é fraca, fraquíssima, fazendo lembrar os filmes que parodiam outros filmes e que pretendem ser sátiras de alguma coisa. Há um aflorar, nunca um aprofundar, do interior das personagens, e a sua solidez esbate-se como barro misturado com água.
JRS escreve para tontos, com personagens tontas – um historiador que vê palhaços no Vaticano e só depois se lembra que são os guardas suíços? Ainda por cima está a fazer trabalho de arqueólogo… e se se lembra de dar um osso ao cão? Mas apesar de ser muito inteligente e ter conhecimentos acima da média estranha quando lhe falam em ADN fóssil… Estranho…
Valentina Ferro é inspectora da Polizia Guidiziaria. Está no local do crime – no interior do Vaticano – com ‘dois guardas suíços, três carabinieri, dois religiosos e mais umas pessoas à paisana’. Não há alguém do Corpo della Gendarmeria, a polícia da Cidade do Vaticano. Estranho…
A inspectora é uma pessoa crente em tudo o que lhe dizem, violando o espírito de polícia que, por norma, ouve para reflectir e mais tarde decidir. Valentina vai acreditando em tudo o que Tomás diz, atrapalha-se com frequência perante a eloquência deste, engasga-se, não questiona nada, fazendo desaparecer a perspectiva científica dum agente da Judiciária. Estranho…
A mesma personagem não se exalta: entra em fúria, o que acontece várias vezes ao longo da narrativa! Se por um lado, vai acreditando em tudo o que ouve, por outro, tem lampejos esquisitos e saídas nada dignas de uma Judite: “Oh, não diga isso” é o melhor que consegue para ripostar sobre uma incongruência da Bíblia. É a personagem palerminha do livro que oscila entre atitudes infantis (perante letras gregas afirma: “Parecem sinais alienígenas, daqueles que vemos desenhados nas naves dos extraterrestres em filmes de ficção científica. Star Treck e coisas do estilo”), caprichosas (“Problemas? Que problemas? Dio mio, lá está você a complicar”), birrentas (“Eu estou calma ouviu?”, quase gritou a italiana. “Não me enervo facilmente! Não sou dessas! Mesmo quando por vezes tenho motivos para me enervar. Como quando escuto certas alarvidades!...“), completamente estúpidas (“Tomás fitou-a com intensidade, para sublinhar o significado das suas palavras. ‘O reino de Deus irá ser instituído já amanhã’. ‘Amanhã?’ Interrogou-se Valentina, verificando no relógio o dia em que estavam”). Estranho…
A memória do académico português (expressão repetida à exaustão até cerca de meio do livro e depois abandonada, para se usar mais uma vez lá para o final) é fabulosa no que se refere aos versículos da Bíblia. O Autor não encontrou outra forma de fazer chegar a informação ao leitor e põe o protagonista, qual evangelista, a citar a Bíblia. Como ele próprio considera isto uma atitude estranha – nem os Jeovás! - tenta dar credibilidade ao facto colocando uma personagem a dizer isso mesmo. Não atinge o objectivo mas consegue abrir buracos na personagem do historiador ‘criptanalista e perito em línguas antigas’.
A minha personagem favorita neste livro lembra Johnny English: Sicarius é o assassino mais trapalhão da história da literatura. Apanha táxis a caminho dos alvos, perde-se, pergunta a quem passa, pára em quiosques e faz mais perguntas, comportamentos completamente anormais para a sua posição secreta e sigilosa. Embora seja descrito como “… um autómato, uma máquina programada para cumprir a sua missão, fosse qual fosse o preço” mas depois contacta com o Mestre (que falta de imaginação no nome!) por telemóvel e este envia-lhe os planos dos assassinatos por e-mail, mas nem lhe deu uma gazua, obrigando o pobre a roubar a chave mestra na sala das empregadas de limpeza! Mas a cereja em cima do bolo atinge-se quando o Mestre lhe dá instruções por telefone, instruções essas que ele anota num bloco de notas que trás no bolso juntamente com uma caneta. O zénite é dividido por dois momentos: um, quando ambos s…o…l…e…t…r…a…m o nome duma Biblioteca a que optam por chamar Library e outro quando o Mestre se exprime ao telefone manifestando alívio através da palavra Ufa... Hilariante!
Convenhamos que uma ‘entidade’ como um Mestre deste gabarito se descredibiliza ao usar um tão vulgar Ufa…
Na página 40 do livro está outra aberração: o Codex Vaticanus fica ao alcance de todos quantos por ali deambulam, põe-se-lhe o dedo em cima para melhor se indicarem as leituras, bebe-se água nas imediações, enfim, é um forrobodó que nos traz de novo Johnny English à memória, numa sucessão de improbabilidades, (para não se lhe chamar impossibilidades) que criam osteoporose na narrativa. Já a leitura do Codex sem acompanhamento é uma fantasia, e a acontecer alguma coisa do género, seria imediatamente retirado por um batalhão de centuriões bibliotecários do Vaticano… antes de chamarem a Polícia, qualquer Polícia que fosse…
Muitas páginas adiante deita-se o protagonista numa cama do hospital Bikur Holim em Jerusalém, onde abre a gaveta da mesinha de cabeceira e tira uma Bíblia de onde lê excertos do Novo Testamento. Num Hospital que observa a dinâmica judaica com todo o rigor – só os não judeus trabalham ao sábado e até o aquecimento das refeições é pré-programado para esse dia sagrado – porque razão teriam Bíblias com o Novo Testamento nas gavetas dos quartos?
Na contra capa, uma afirmação atribuída ao holandês Tros Nieuwsshow, diz: ‘Melhor que Dan Brown’. E quem é este holandês? É um programa de rádio semanal que acorda os ouvintes às 8 e meia da manhã de sábado e, com certeza tem alguém que fala português, uma vez que o livro não está traduzido para holandês. Estratégia de marketing da editora, eu sei, eu sei… todos o fazem.

Quis-se acentuar a questão religiosa e deixou-se um pouco ao acaso a musculatura do enredo, deixando mais buracos que a Estrada da Morte na Bolívia.
Os autores que pretendem fazer divulgação científica, pseudo, o que queiram, devem escrever manuais, artigos que submeterão a revistas da especialidade, entre outros, mas a escrita dum romance implica a assumpção de certos pressupostos que aqui se encontram ausentes.
Por outro lado, e em termos formais, a Editora devia saber que o excesso de aspas para indicar os discursos directos é prejudicial à fluidez da leitura, povoada assim por elementos gráficos absolutamente desnecessários.
Da nota inicial 'Todas as citações de fontes religiosas e todas as informações históricas e científicas incluídas neste romance são verdadeiras' esperava-se uma bibliografia final bem organizada e completa, por dois motivos: primeiro porque o tom afirmativo da nota inicial indiciava que assim seria e, nestes casos, só é verdadeiro o que se prova; em segundo lugar, pela delicadeza do tema, digamos assim, que suscitaria dúvidas e necessidade de credibilidade documental. 
Porém, a nota incial tem eco na nota final que descreve nomes de autores e títulos, sem qualquer referência bibliográfica, e ainda se afirma "Toda a informação relativa ao processo de clonagem (...) encontra-se disponível em toda a literatura científica relacionada com o assunto".
É caso para dizer, Obrigadinha José... havia de ser relacionada com quê?
Edição da Gradiva, 2011

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Os últimos serão os primeiros

Há dias ajudei uma amiga a fazer um trabalho sobre as razões da mudança semestral das horas, em Março e em Outubro. Mais tempo útil diurno, poupança energética, maior uso de energia solar, coisas de somenos importância quando comparadas com a possibilidade de estarmos mais tempo nas esplanadas ao fim do dia.
Andamos ao toque dos relógios atómicos que se escondem em bunkers por essa Europa fora, todos os países os têm, e são eles que dizem a hora certa.
Em finais do século XVIII Benjamin Franklin pôs-se a fazer contastrês vez nove, vinte e sete, noves fora nada… - e deu conta da possibilidade de se pouparem toneladas de cera de vela se se mexessem nos relógios.
Hoje em dia, para além de estar provado que há menos criminalidade durante a hora de Verão, e os dias serem maiores dando mais oportunidades à execução de tarefas como passar a ferro ou varrer a casa, há a questão da Bolsa… abrir e fechar a Bolsa sem ser à hora certa pode dar origem a prejuízos de alguns milhões. Assim, bancos, transportes e empresas várias andam direitos que nem fusos, à espera da badalada que os porá a correr, como tiro de partida.
É tanto assim que a velha e boa Samoa, a querida Samoa, através do seu querido e nada controverso governante Tuilaepa Sa'ilele Malielegaoi, Tutu para os amigos, desistiu do dia 30 de Dezembro para alinhar os negócios com a Austrália e Nova Zelândia. Assim passaram de 29 para 31 de Dezembro, eles que ficam ali ao lado, mas cujo fuso horário os deixou um dia no século passado quando os vizinhos do lado já cantavam as glórias do século actual. Está mal, isto não se faz! Há algum tempo, o mesmo governante decidira passar a conduzir à esquerda para facilitar o aumento da importação de carros e parece que aumentou também a sinistralidade rodoviária, mas isso é outra conversa.
A Samoa faz-me lembrar Santo Aleixo da Restauração, aldeia do Baixo Alentejo, que consta no obelisco da Praça dos Restauradores, em Lisboa, como tendo tido importante participação nas guerras da altura, quando ganhou o apelido ‘da Restauração’.
Reza a lenda que se preparava o padre para dar a bênção num casório quando se anunciam tropas inimigas nos arrabaldes de Santo Aleixo. A sede de concelho, Moura, ficava a mais de duas dezenas de quilómetros, mas era preciso ser avisada da proximidade dos meliantes.
Monta-se a noiva a cavalo e manda-se a Moura com as terríveis notícias; encerram-se as mulheres na igreja e ficam os homens de fora a dar luta aos castelhanos, sabendo que não os venceriam, mas que o atraso provocado seria suficiente para Moura se preparar. E assim foi. Morreram todos ou quase todos na vida real mas ficaram eternamente na História.
Mas Santo Aleixo não faz lembrar a Samoa pelas glórias militares: reza outra lenda que durante anos o mês de Abril trouxe ventos e chuvas tais que deu cabo das colheitas. A coisa foi de tal forma que os habitantes se recusaram até a dizer o nome do mês, enunciando as crianças na escola os meses da seguintes forma: Janeiro, Fevereiro, Março, o mês que não se diz, Maio, e por aí fora.
Há uma outra lenda que diz que a Rowling se inspirou aqui para criar o mito do Voldemort, aquele-cujo-nome-não-se-pode-dizer, mas não se confirmou nada até agora.
Mas o medo de Abril era tal que até se conta uma historieta segundo a qual ia uma família cigana com muitos filhos pela estrada fora e pediram boleia a um homem que viajava num carro de burro. O homem assentiu e todos subiram à excepção dum ciganito que, de tão pequeno, não conseguia erguer-se para entrar no carro. Um dos irmãos incentivou-o dizendo:
- Força Abrilito, força!
O dono do carro ouviu aquilo e quis saber o nome do gaiato. Quando lhe confirmaram que era Abril correu com eles todos do carro!
Abril voltou a entrar no vocabulário de Santo Aleixo com o 25 de Abril… com tanto mês, logo tiveram que escolher aquele mas, por outro lado, acabou com o estigma de os habitantes serem conhecidos como tendo um mês de atraso, coisa com que eram atormentados por todas as terras ali ao redor, que não perdiam oportunidades de o lembrar.
Assim, se Santo Aleixo viveu durante anos com um mês de atraso porque não pode a Samoa passar a viver com um dia adiantado? Além disso o novo fuso horário não foi escolhido numa base de ita nuita, ita noá, quem está livre, livre está e sim devido ao fomento de relações comerciais com vizinhos que não eram parceiros por incompatibilidade de calendário. Ali sim, via-se o dia de amanhã quando os samoanos olhavam na direcção da Austrália e os australianos miravam o passado quando visitavam a Samoa. Mais ainda, conseguiram um feito notável, eles que eram os últimos a passar de ano, agora inverteram a coisa!
É ou não verdade que os últimos serão os primeiros?

Mercados paralelos

Diz-se que em alturas de crise as pessoas se dividem em dois grupos: os que choram e os que aproveitam para vender lenços. Diz-se também que a letra chinesa que designa crise também mostra a oportunidade. Diz-se muita coisa… mas o certo é que já se vendem legumes porta a porta.
Os tradicionais pontos de venda nas estradas, de fruta, batata e outros comestíveis, aumentam agora: aumentam os pontos de venda e os clientes. Aumentam os roubos a mercearias – dois na semana do Ano Novo na mercearia onde costumo ir – aumentam os roubos legais com a subida dos preços.
Um dos produtos que consumo diariamente é café. Como também tenho as minhas manias gosto de o beber em sítios que me dizem alguma coisa: no metro porque têm um quadro com motivos relativos à apanha do café que gosto de ver enquanto o saboreio; no Marquês porque a funcionária é muito simpática; na Florença porque têm sempre o rádio ligado com música antiga.
Mas agora as coisas mudam… porque há locais que mantêm o cafezinho a 50 cêntimos, enquanto outros o aumentam para 65? Será que os que o vendem a 50 estão a perder dinheiro? Não me parece, logo, são os outros que são garganeiros e assim sendo vou apurar de simpatias e pinturas para outros locais, que os há por aí.
Mais, acho que acabaram os dias de inutilidade da máquina krups que tenho em casa: vou trazê-la e comprar cápsulas que venderei a preços razoáveis com copo de plástico incluído. O bar está aberto!

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Calendário

Fechei o calendário de 2011. Era de secretária, triangular, com belas imagens do Brasil, oferecido por amiga brasileira e que me acompanhou um ano inteiro, dizendo-me a que dia calhava 16 do mês que vem, quantos sábados tinha o próximo mês ou qualquer outra informação de datas. Também me ajudou a passar momentos lentos, fazendo-me sonhar com paisagens e imagens, como a de Junho, com o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, aparentado com uma bela nave espacial.
Na cozinha lá em casa tinha um chinês e que me encantava pela grafia dos caracteres que são à confiança, ou seja, acreditamos que diz Janeiro, mas também pode dizer outra coisa qualquer pois não os sabemos ler.
Há calendários que são obras de arte – como os da Michelin, diriam muitas vozes – os da Coca-Cola de há umas duas décadas, que esperávamos ansiosos que aparecessem na parede do café do Sr. Paixão.
Abre-se agora o novo calendário e ouço a voz do meu pai, com décadas, a martelar no mesmo: o mundo acaba em 2012, mais concretamente a 12 de Dezembro!
- Como é que o pai sabe?
- Disseram os Maias!
Ouvido isto voa-me a imaginação directamente para o Eusebiozinho, que se vestiu de anjo e acabou desasado com as penas a fugirem enquanto se escondia num reposteiro.
- Mas eu li os Maias e não me lembro de falarem em 2012…
- Não são esses Maias, são os da América do Sul…
- Ah…
Assim esclarecida, e passados anos penso que deve haver poucos objectos tão ecléticos no que diz respeito a imagens, com paisagens, crianças, animais, logótipos de empresas, mas fico sempre na dúvida sobre o que levará a palma de ouro: os motivos religiosos ou um belo par de mamas? Decido-me pelas mamas, por serem universais como é óbvio!
Porém, face ao fim do mundo iminente vou arranjar um calendário com Nossa Senhora de Fátima!