sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Relacionamentos genéticos...

A nova equipa do Duarte aceitou o convite para participar num torneio de abertura de época a convite do Ginásio Clube do Sul. O Duarte ficou em êxtase quando lhe disseram que fora convocado e o primeiro jogo onde esteve presente foi na sexta feira.
Na quinta à noite disse-lhe que se deitasse cedo para estar em forma no dia do jogo. Deitou-se cedo, mas antes esteve a ouvir – pela centésima vez! – os Gato Fedorento na internet, a ver vídeos daqui e dalém e sei lá mais o quê.
Assim que se levantou disse-me:
- Mãe, as minhas cuecas de jogar?
- Sei lá...
- Vá lá mãe, ajuda-me a procurá-las...
- Duarte, tu só podes estar a brincar comigo... ontem tiveste imenso tempo e não procuraste nada e é agora a esta hora da manhã que andas à procura de cuecas? Deixa de ser parvo e leva outras quaisquer faz favor!
- Mãe... lá estás tu a chamar-me parvo... achas que gosto de começar o dia assim? Achas justo?
- E tu... achas justo teres tido ontem montes de tempo para procurar as cuecas e andares agora a dar volta à roupa, a esta hora?
Fizemos ambos cara maldisposta e virámos as costas mutuamente.
Ele levou umas cuecas substitutas, que não as pretas bem justas com que joga pois nenhum dos vários pares apareceu.
Já dentro do elevador, enquanto descíamos, pedi-lhe um beijinho que ele deu imediatamente mas aproveitou para reclamar:
- Mãe, mas estou zangado contigo... chamaste-me parvo!
- E não tinha razão? Isto são lá horas de nos pormos à procura de coisas...? Entra mas é no carro e vamos embora.
Na noite anterior disse-me que precisava que eu o levasse, que o Pai se tinha disponibilizado, mas que eu já sabia como ele era, que dizia que sim mas arranjava complicações, para além de andar sempre atrasado. Assenti em levá-lo e, depois do episódio das cuecas, e como ele já tinha tomado o pequeno almoço, disse-lhe que esperasse uns minutos no carro enquanto eu ia ao café comer. Estava eu a beber um golo da meia de leite, entra ele de rompante na Florença, a pastelaria com excelentes croissants com manteiga, chega-se perto de mim e diz-me ao ouvido:
- Mãe, fiz merda e da grande...
Com a afirmação veio-me um engasgo e por pouco não entornei o café com leite em cima da roupa. Abri-lhe os olhos em jeito de pergunta, afinal o que fora que acontecera? Ele percebeu e acrescentou:
- Esqueci-me de dizer ao pai que afinal não era preciso ele levar-me e ele acabou de passar aqui de carro.
O ar aflito do Duarte fez-me pensar no medo que ainda tem do Pai, sem razão alguma.
- O Pai foi em direcção a nossa casa? – perguntei enquanto mastigava um bocado do croissant.
- Não, ele viu-me e parou aqui... deve vir aqui.
Cem anos que eu viva continuarei a não entender este medo do miúdo, esta aflição, esta suspensão da respiração quando algo não corre bem e onde intervenha o Pai.
- Calma... olha ali vem ele – disse eu vendo-o aproximar-se pela montra da pastelaria.
- Mãe – disse o Duarte baixinho – agora é que me lembrei... eu combinei aqui com ele, na Florença...
- Então... está tudo bem... eu estou aqui só a fazer-te companhia e estávamos à espera que ele chegasse e eu aproveitei para comer.
Disse isto muito depressa e baixinho a tempo de estar em silêncio quando ele chegou junto a nós.
É inexplicável o sentimento que se apodera do Duarte quando está diante do Pai, principalmente se fez alguma coisa que eventualmente lhe possa desagradar. Ele que é grande e ocupa um espaço enorme, fica pequenino e frágil, com os olhos desesperados e num pânico que não controla. Já falámos do assunto e ele não sabe explicar. O Pai não é violento, não grita – eu grito pelos dois... – nem amua, logo, aparentemente, não há razão para tal comportamento do filho, mas a verdade é que ele se comporta assim. Por outro lado, se acha que nada tem a temer, mostra uma descontracção enorme e uma despreocupação que caracterizariam um jovem mais velho, não um miúdo com 14, agora já com 15 anos. Responde com gracejos, faz avanços na conversa como se fosse mais velho, faz afirmações sobre a vida que em nada se adequam às atitudes que demonstra quando sabe que meteu o pé na argola. Se a coisa se passa comigo ele é humilde e diz que agiu mal, pergunta o que pode fazer para compensar, mas dá a cara, não foge, não mostra medo nem receio. E eu sou mais do tipo salgueiro zurzidor do Harry Potter... mas ao mesmo tempo funciono também como a bóia de salvação ou a fada madrinha; confesso que também me sinto o tipo que vai limpar a porcaria para não deixar vestígios, que vai resolver... se marcasse golos chamar-me-iam Liedson...

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Obstinações

Vamos fazer uma conferência sobre Juan Bosch, o 43ª Presidente da República Dominicana, e de quem se comemorou o centenário de nascimento em 2009.
O fascínio por gente desconhecida manifestou-se mais uma vez. Confesso que nunca tinha ouvido deste nome, e ainda não folheei os seus livros que foram oferecidos à minha biblioteca.
Não me interessa verdadeiramente sobre o que escreveu... interessa-me que tenha escrito, pensado e levado a pensar.
Como Juan Bosch existem dezenas ou centenas de pessoas, vivas ou mortas que dedicaram a vida a empreender. Interessa-me que, não se sentindo bem, tenham tido força para mudar, não tenham desistido, fosse do que fosse. Porém, com o equilíbrio que traz a luz e não a cegueira da motivação pessoal que leva obstinadamente a maus caminhos.
Por outro lado, e aqui faço um parêntesis para ver bem a beleza da ambiguidade aparente das palavras ou das construções frásicas, fiquei a saber que morreu Orlando Zapata. Morreu de fome na sequência duma greve obstinada.
São duas obstinações onde o foro pessoal é secundarizado em prol de outros valores, mais amplos e abrangentes. Não encontro palavras certas para descrever alguém que morre em greve de fome, que faz dos últimos dias um pingar de água mole em pedra dura, que me lembra Gandhi que se deixava bater voluntariamente pois haviam de se cansar...
E se todos tivéssemos esta força, ou mesmo só parte dela? A pergunta é ingénua mas é legítima...

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A Àgora

Numa tarde de calor a Paciência encontrou-se com a sua prima Prudência, a filha mais velha da Sabedoria. Cumprimentaram-se com um menear de cabeça e caminharam paciente e prudentemente em silêncio. Os seus passos levaram-nas à Àgora.
O espaço estava deserto pois o mercado tinha funcionado, como habitualmente, durante a manhã. Passado algum tempo viram alguns cidadãos marcarem presença, formando um semicírculo à volta de nada. Outros se lhes juntaram e apareceu também a Política de braço dado com a Oratória e a Retórica, um pouco atrás compondo as vestes.
Ia realizar-se uma Assembleia do Povo e a Àgora, pressentindo que ia ter um momento intimamente ligado à sua essência, ficou um pouco nervosa, encolheu-se e rapidamente se encheu de gente e de Artes.
Um dos homens destacou-se e começou a falar sobre o Conhecimento, com a Oratória por trás dele. Outro lhe respondeu com tão subtis argumentos que ninguém duvidava que, não só a Oratória, como também a Retórica, estavam a seu lado. Falava usando perguntas e questionava o ensino e a educação, afirmando que o conhecimento andava arredado de tudo e que o comportamentos dos jovens nunca os levaria a ascender à Sabedoria.
A Política ria-se, voando por cima das cabeças dos cidadãos.
A Àgora recolhia cada palavra, cada exaltação eloquente, cada intervenção, cada argumento. Ninguém dava por ela.
Os homens falaram e falaram e falaram. Reflectiram assim durante séculos, mas pouco concluíram.
Ao início da noite, quando todos já se tinham ido embora, a Paciência e a Prudência que tinham assistido a tudo de longe, despediram-se da Àgora e foram embora, para lugar incerto, sendo raro deixarem-se ver.
A Àgora, uma pegada do tempo na história da humanidade, hoje é recordada aos turistas e só os mais atentos se lembram dela.

Reciprocidades

Os dias correm ao sabor das actividades e com intervalos para refeições. Penso sempre que o Duarte está bem. Quando era pequeno acordava sobressaltada a pensar que podia estar numa qualquer posição que lhe fizesse mal. Muito depressa passaram-me esses medos. Vieram outros. Se lhe telefono e ele não atende tento pensar nas mil coisas que pode estar a fazer ou que simplesmente não foi o momento adequado para atender. Claro que fico um bocadinho amuada, mas passa-me assim que lhe ouço a voz ou que leio uma mensagem via sms.
Sinto sempre também que ele está comigo. A meio do dia, nas reuniões de trabalho, nas conversas com colegas. As minhas amigas dizem-me que devia arranjar um namorado e eu acho que têm razão, mas quem quererá viver esta vida que nós levamos? Bem, este assunto será objecto de tratamento noutra altura...
Ele conhece o meu local de trabalho de cima abaixo, desde sempre. Conhecê-lo é saber visualizar o espaço onde a mãe passa o dia. Conhecer as pessoas que comigo trabalham é outro aspecto importante: dar uma cara a cada nome do qual falo à noite quando contamos como foi o nosso dia, quais os momentos melhores e os menos bons.
Os pais falam dos colegas ou dos chefes mas os filhos não os conhecem, são uma espécie de fantasmas que vivem nas suas vidas mas a quem nunca puseram os olhos em cima. Acho importante conhecerem e poderem fazer a correspondência entre nomes e caras. Da mesma forma, faço questão absoluta de conhecer os amigos e conhecidos do Duarte. Quando ele fala num novo amigo arranjo maneira de ele o convidar para ir lá a casa ou de o conhecer seja de forma for e assim, poder trocar dois dedos de conversa com a nova amizade. Lembro-me de conhecer o Salgueiro e o Filipe, ambos via andebol, e faço imenso gosto em que eles se mantenham amigos. Conheço-lhes a as mães e os pais, com quem o Duarte fica também, deixando-me absolutamente descansada.
Procuro estar presente em todas as raízes e braços que o meu filho vai criando, por todos os lados por onde se vai desenvolvendo e multiplicando, mas tentando dar o mínimo nas vistas e, sempre que possível, sem que ele se aperceba. Sei bem qual é o meu lugar e não quero sentir-me a mais.
No dia em que ele fez o primeiro treino com o novo clube fui assinar uns documentos e falar com um dos responsáveis. Fui apresentada ao treinador dele e a vários outros, bem como a distintas pessoas; esperámos um bocado nas bancadas enquanto o treino chegava ao fim e assim que entrei vi-o logo, mas não me manifestei, não o cumprimentei, não lhe acenei, não dei sinal de vida como mãe dele. Fiz o meu papel e entendo que causa algum embaraço um rapaz estar ali e a mãe estar a mandar beijinhos, a acenar ou a fazer qualquer tipo de sinal ao seu rebento quando ele está no meio de outros iguais e maiores que, com toda a certeza, aproveitarão a primeira oportunidade para gozarem com aquele delfim que anda com a mãe atrás... se fosse o Pai, talvez fosse diferente, mas o Pai anda sempre muito ocupado e fez questão de dar a saber que o andebol rouba muito tempo à escola e que eu sou a responsável por todas estas andanças de mudanças de clubes, de tratar de documentação e outros eteceteras.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Livros ao metro

Lembro-me quando se mediam os livros nas Bibliotecas. O objectivo era arrumarem-se por tamanhos, numa lógica de bibliotecas sem livre acesso, logo, com os assuntos misturados, juntando astronomia com literatura, não que não pudessem estar juntos, mas para poupar espaço.
Hoje continuam-se a medir os livros, como repositório de fazeres de outros tempos, sem justificação. Mas como as regras dizem que temos que os medir, como existe um espaço traço espaço na catalogação, impõe-se a régua e o mencionar os centímetros, prova que as coisas se fazem mecanicamente e que não se pára para pensar... porquê? Se o fizéssemos, provavelmente, uma das coisas que se deixariam de fazer era medir os livros e guardavamos metros de tempo para sorrir aos nossos utilizadores.
Por outro lado, se bem que contenha algum ridículo, não deixo de sorrir quando me pedem o livro amarelo, vermelho ou azul... É uma perspectiva que é comum a muita gente.
Pelo meu lado conheço os livros pelo tipo de papel, pela força da impressão ou pela letra. Há papéis que me emocionam, e se me pedirem para explicar esta afirmação levarei dias...













Fonte: http://www.sfgate.com/c/pictures/2004/11/18/dd_111604_bookstore.jpg
Obrigada à Ana Paula pelo envio desta imagem.

Em E

Enveredo no envelhecer
Envolve-me a epiderme de ébano
Equiparo o epílogo ao entardecer
Escrupulosa, escapo ao escândalo
Enquanto entro enraízo-me
Emito energia emergente
Eis o eixo do eclipse excêntrico

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O desaparecimento

Chego ao trabalho e tenho um mail do Duarte, supostamente, a enviar-me um relatório médico. O mail chegou mas o relatório perdeu-se pelo caminho.
São 8.51h.
Ligo a pedir que me mande o mail novamente, desta feita com o relatório. Não atende.
Ligo de novo passados 10 minutos. Repito a acção 10 minutos depois.
Mando uma primeira mensagem a pedir para me ligar. Nada.
Ligo e volto a ligar. Nada.
Mando uma segunda mensagem. Nada.
Faço o filme dos acontecimentos: antes de eu sair ele tomou banho pois como tem a mão ligada tenho que o ajudar. Saiu da banheira e deitou-se de novo pois era cedo. Porém, como recebi a mensagem às 8.51 é porque se levantou logo e foi ver os mails.
Mais mil telefonemas e a irritação barra preocupação a crescer.
Ligo ao Filipe e pergunto-lhe se já o viu.
- Não Dona M., hoje ainda não o vi
Peço-lhe para ir lá a casa no intervalo das aulas.
Tento descontrair com o trabalho mas a preocupação é maior que eu e aumenta quando o Filipe me liga a dizer que tocou à campainha mas que ele não atendeu.
Ligo ao pai do Duarte que não atende. Mando uma mensagem às 11.54h:
Liga urgente
O Filipe sugere-me que ligue à Rita, que me atende com voz ensonada o que estranho pois é meio dia. Não falou com ele e promete tentar e dar-me notícias em seguida. Em dois minutos liga de volta e diz-me, já com voz acordada, que ele não atende.
E se lhe aconteceu alguma coisa? Penso eu a correr em direcção a um táxi a cujo motorista peço que me leve a casa o mais rápido que puder.
Ainda não tinha chegado ao cimo da rua... liga o Duarte!
Que estava a dormir, que o telefone estava em silêncio e depois ficou sem bateria e depois...
Pago ao taxista, saio do carro e dou-lhe dois gritos na rua ao telefone, que nunca mais fizesse semelhante brincadeira!
Tenho o coração aos saltos e só acalma depois dum almoço inesperado com a minha amiga Olga.
Entretanto ele manda-me uma mensagem:
Por favor nao fiqes asim.bjs
Respondo também por escrito:
Tu nem sonhas cm fikei sem saber d ti. 1 angustia 1 dor no peito 1 aflicao. Eu amo.te mais k td no mundo nao é razao d preocupacao? Bjs
O pai do Duarte liga às 12.26 a saber o que se passa. Digo-lhe que acabei de falar com ele e conto-lhe a cena resumidamente. Nada é capaz de reproduzir o que se sente numa altura destas.
Felizmente a Olga dá-me conselhos excelentes de calma e descontracção. Adoro estar com ela por isto, parece sempre saber a palavra certa, está sempre calma e tem o dom de aparecer em alturas destas. Será feiticeira?

4 de Março de 2007

Caro Silvestre
Você desconcerta-me na forma mais positiva que posso imaginar… você é a pessoa mais saudavelmente diferente que conheci e estou grata por o ter “descoberto”, por me ter permitido entrar no seu círculo de amizade…diferente.
Descobrir é ir ao encontro do desconhecido.
Há quem o faça por natureza, e cada momento da sua vida assemelha-se a uma escalada, ao atravessar de um rio vigoroso, a uma caminhada ao sol. Mesmo que haja mais maneiras de lá chegar escolhe-se a que contém mais emoção, a que exige de nós mais fibra, não dando sossego ao corpo e à mente, mas alimentando a alma.
Outra forma de caminhar na vida é seguir os trilhos que outros já pisaram e avançar pelo conhecido.
Anda-se mais depressa, chega-se mais depressa. Onde? Ao topo, à glória, ao bom e ao mau e ao fim da vida também.
Quem anda depressa não vê tudo e o que vê não lhe é mostrado com clareza. Vêm com os olhos
Quem vai por onde ninguém ainda se atreveu, é dono, é senhor, é rico, é pessoa completa e cheia. São os que vêm com o coração.
Têm medo? Têm sim senhor; é o medo que os faz avançar. Morrem a meio de certas caminhadas. Morrem sim senhor, mas correram o risco que lhes soube melhor que anos de sossego por caminhos acimentados e alcatroados que nos levam depressa onde os outros querem, não exactamente onde nós queremos ou onde o acaso nos levaria.
Ah, sagrados cânones que nos orientam!
Ah, princípios éticos que nos regulamentam!
Ah, cabeça, tronco e membros do bom comportamento!
Ah, substância formal da boa convivência social!
Ah, teatro da vida, que passas anos sem nos dares um intervalo, sempre com a mesma peça em cena, repetindo o guarda roupa, falando eternamente a mesma língua, para espectadores sentados sempre no mesmo lugar.
As cenas já foram repetidas tantas vezes que todos já esqueceram que o próprio teatro é uma encenação e as deixas não são sentidas, alguém as escreveu para que outro alguém as diga.
O teatro é uma fé. Não sabemos porque acreditamos, não interessa perceber, não interessa dissecar, não interessa contradizer. Interessa contracenar. Já sabemos como vai continuar, conhecemos de cor o actor que vai entrar a seguir: vamos rir, mas o que nos apetecia era chorar? Se esperarmos um pouco, entrará outro actor que nos satisfará, mesmo que nesse preciso momento nos apetecesse mesmo rir. Mas não podemos. Porquê? Porque estamos a seguir o trilho que alguém construiu para nos facilitar a vida.
Pararemos para descansar, não quando estivermos cansados, mas quando encontrarmos o abrigo que foi construído para nos proteger. Lá dentro não faz frio, que nos engelharia as mãos, podemos tomar banho, para que não cheiremos mal…aos outros.
Podemos tirar as botas (da moda) e massajar os pés, para aliviar a caminhada que foi dura porque foi feita à pressa, para quê ir devagar se o caminho era tão bom, sempre ali debaixo dos nossos pés e nos permitia continuar com elegância para sermos os primeiros a chegar?
Os outros, os que andam mais devagar, os que escolheram os atalhos e trilhos pouco conhecidos e por explorar, quando chegam, chegam atrasados e o abrigo está cheio. Ficam lá fora. Conhecem a chuva e o vento, já viram vezes sem conta o arco Íris na lua, que outros nem sequer ouviram falar. Mas, também, a quem interessa o arco Íris da lua? O que se ganha ao ver-se um arco Íris na lua? Só pode ser uma aberração fruto da imaginação de um frustado, de um anormal, de um maníaco, de um obcecado.
Por vezes, alguns daqueles que conseguem chegar ao abrigo, acordam de noite com insónias e fumando um cigarro de sucesso, olham da janela bem calafetada a fogueira cujo fumo vai inquinar ainda mais os que a rodeiam. Sentem a tentação de sair, para saber se a noite está quente ou fria, o que conversam os anormais lá fora, mas não o fazem. Não seria correcto, perderiam o lugar no abrigo e pior ainda, sentir-se-iam a trair todos aqueles que elegantemente dormem à sombra da protecção do abrigo. No dia seguinte, estes olheiros, comentarão com os outros normais o mau aspecto da fogueira, a maneira concupiscente como os outros estavam deitados lá fora e, por meio de metáforas, darão a entender que até os ouviram peidar-se. Que horror!
E o teatro continua, sempre a ser interrompido pelos barulhos e pelos cheiros dos anormais.
Oh, neurónios indigentes que levam a boca a dizer obscenidades e a repetir impurezas e não se curam nunca.
Como podem ter esperança de entrar na peça? Mesmo tendo o papel de pedra da calçada, daria buraco.
Como poderão um dia, ser normais?
Será que não se apercebem que tudo tem uma altura e um momento certo na vida? Há horas para comer e beber, há momentos para agrafar papéis, há alturas para andar de bicicleta, há instantes para ver o por do sol, há minutos para nos pentearmos, etc. e por ai fora.
À força de quererem caminhar fora do empedrado, os anormais, muitas vezes fogem da vista do mundo. Perdem-se.
Coitados, na sua maioria são maníaco-depressivos, com obsessões que não lhes permitem ser normais. Nunca serão felizes. Coitados. São ridículos, teimosos em não quererem ler o guião da peça que deveriam estar a representar. Nunca sabem o que vai acontecer a seguir, que parvos!
Não pensam nas consequências e depois queixam-se. Querem coisas novas querem experiências, querem conversar sobre coisas sobre as quais não se conversa, querem emoções. O que querem é perder o controlo e não saberem nunca o que vai acontecer a seguir, isso sim!
Toda a gente gosta de aventura e mistério. Está previsto que assim seja, e para tal lê-se um livro ou vê-se um filme. Está no guião.
Em última análise estas pessoas, estas criaturas, são um perigo. Como se pode saber que não têm um efeito contagiante, que o seu interior não contém vírus e bactérias como por exemplo vontade de rir, impulsos sexuais incontroláveis, olhares penetrantes, ondas do mar, música por tocar, amanheceres acordados, uma camisola para dois, beijos a desconhecidos, livros emprestados lidos em voz alta, almoços só de vinho e outras barbaridades ainda mais bárbaras que não se podem descrever, porque são actos cometidos fora do tempo próprio, antes ou depois do momento em que estavam programados, absoluta e completamente fora do guião?!
Cada pessoa tem direito a encarnar um personagem e apenas um e tem como missão convencer-se que é esse personagem, de preferência um protagonista de qualquer coisa. Quanto mais depressa decorrer este processo de auto-convencimento, de auto-conhecimento, mais depressa se alcandora à felicidade!
Os anormais mudam de personagem constantemente. Para quê? Só dificultam a sua própria vida. Nem dão tempo a que eles próprios se conheçam e não respeitam a respeitabilidade dos outros, que se mantêm iguais a si próprios, coerentes, uniformes, ou seja, normais!
Aqueles anormais são loucos. Só podem ser.
O pior de tudo é que, por vezes, vestem a pele de uma personagem normal e confundem as pessoas efectivamente normais. Divertem-se a cometer estes crimes.
Como descobrir um deles? Facilmente: arquitectam conversas que nada têm a ver com a realidade, com o guião. Falam de coisas estapafúrdias, dizem o que pensam e o que sentem. Não têm sentido. Se virmos bem as coisas, nem existem. Afinal, não estão no guião.
Bem, agora é o momento de ir à casa de banho.
Camila

Será gula?

Rapariga com brinco de pérola.

Fui conquistada por este livro na primeira linha. E isso não é fácil de acontecer.
A narração na primeira pessoa é (quase) sempre um aliciante, qualquer coisa que me puxa para dentro da acção e, mais ainda, das pessoas, o que foi plenamente conseguido. Sentir as dores e as alegrias dum personagem, cansarmo-nos com os seus cansaços, afoguearmo-nos com as suas ansiedades, tremermos com os seus medos, tiritarmos com o seu frio. Há uma proximidade maior do que através da mediação do narrador, cujo olhar não podemos ter a certeza de ser fiel.
É raro não dar uma olhadela ao final dum livro, ler as últimas linhas. Aqui não o fiz, queria lá chegar depressa, mas sem alterar o curso dos acontecimentos, sem fazer batota. Como quem quer dar uma nova volta no carrossel, antes de terminar a anterior. Tinha pressa em chegar ao fim para recomeçar a leitura, voltar a ouvir a água correr nos canais, a entrar no mercado, a visitar a casa dos pais de Griet ou a sentir pena pelas queimaduras nos braços do irmão. Não é a primeira vez que me apaixono por uma cidade ou um local depois duma leitura e sei que, de novo, esta me levará lá.
Terminei a leitura com a tristeza habitual de quem tem fome mas tem o frigorífico vazio. Depois disso agarrei Jim, o Sortudo, porque, tal como primeiro, custou 1 euro e vem por acréscimo com uma revista ou jornal que não me lembro qual é.
Vou perto da vigésima página e ainda não fui agarrada, nem sei se o serei. Recordo apenas o nome dum personagem e não me lembro onde se passa a acção. Leio por vício, como quem tem de comer.
Na minha mais recente mudança de casa voltei a encontrar um livro – O Código dos Woosters – que de vez em quando me aparecia pela frente desde há anos, mas nada me inclinava para o ler. Como as arrumações dos livros demoraram algum tempo, aquele livro foi ficando por ali até que o agarrei e lá o li. A leitura não era cansativa, tinha acção, tinha até momentos cómicos. Porém, passados três ou quatro meses da leitura, apenas me lembro que decidi que o leria e fi-lo. A cada dia não me recordava do que lera no dia anterior, mas continuava a avançar numa teimosia de o terminar. Será isto gula?
Comer mesmo sem fome, sentir-me obrigada a ler mesmo sem interesse? Pois não sei.
No caso do livro da Rapariga com brinco de pérola ainda tinha como bónus o facto de não haver gralhas e da tradução não demonstrar erros. Pode parecer infantilidade mas ninguém imagina como me sinto feliz quando isto acontece...
Apetece-me guardar o livro, escondê-lo, não o emprestar e, contudo, falar dele a toda a gente.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Hi5

Inscrevi-me no Hi5 para poder micar a cena do Hi5 do Duarte. Arregalei logo os olhos ao ler idade 17! Isto quando ele ainda só tinha 14... pensei se deveria tirar uns aninhos à minha própria idade, eu que preenchi tudo como se fosse para entregar à Judiciária. Nem uma mentirinha! Demorei-me a reflectir sobre o equilíbrio que nasce entre a malta nova que acrescenta anos e os cotas que os tiram para ficarem mais jovens. Na página do Duarte os contactos com o Filipe, e a sua Kátia, prevalecem sobre todos os outros, mas há mensagens e fotografias e tag’s e post’s e comentários e mais um sem fim de observações virtuais de imensa gente. Logo ao início questionei-me sobre a entrada de novas amizades na página dele. Questionei-o a ele também e a resposta veio pronta e honesta:
- Atão, são pessoas que conhecem alguém meu conhecido e enviam pedidos de amizade.
A conversa sobre ‘não fales com estranhos’ passou a flutuar no meu espírito mas achei que não podia puxá-la a seco e naquele instante e a coisa teria que ser trabalhada melhor.
Dias mais tarde arranjei uma foto duma jovem e inscrevi-me novamente enviando-lhe um pedido de amizade, que teve resposta positiva. Esperei pacientemente um dia em que ele lá andava a navegar e perguntei quem era aquela.
- Não sei, alguém que me contactou...
Fiquei indecisa sobre o plano inicialmente traçado e resolvi abrir o jogo:
- Essa sou eu... e a minha ideia era conversar contigo e fazer-te alguns convites para ver a tua reacção... mas...
- Tu? Esta és tu??
- Sim meu amigo, a tua mãezinha... vês a facilidade com que se consegue mentir? E tu acreditaste...
- Sim, mas não me vou pôr a aceitar convites assim sem mais nem menos... mãe! Não me conheces?
- A ti conheço-te sim, mas não conheço os outros que por aí andam e cujas intenções sei lá quais são!
Perante a cara amuada dele, pela falta de confiança que lhe estava a dar, acrescentei de forma carinhosa, fazendo também uma cara que sei que o faz pensar:
- É assim tão difícil perceberes que apenas me preocupo contigo? Que quero o melhor para ti? Eu compreendo que tenhas segredos e que os queiras guardar, é assim com toda a gente!, mas porque é que achamos que as coisas más só acontecem aos outros?
- Mas mãe...
- Espera, deixa-me acabar... Sabes a quem sai a lotaria? A quem joga! Sabes a quem acontecem acidentes? A quem anda na estrada! E não quer dizer que sejam culpados, mas acontecem! Apenas temos que estar atentos e vigilantes... há tantas formas de fazer mal e nós nem sequer suspeitarmos de nada...
- Mãe, nem pareces tu a falar! Tu que não tens medo de nada que dizes sempre para arriscarmos e essas coisas todas!
- É verdade, mas com limites e acredites tu ou não, ou tenho muito medo, apenas não o mostro e tento controlá-lo e impedir que seja ele a controlar-me... pensa nisto...
Saí do quarto e dois minutos depois ouvi a água do chuveiro a correr. Fui espreitar e o computador estava desligado. O que isso queria dizer, pois, não sei bem, mas uma coisa é certa... faço tudo para ficar atenta.

Em D

Damas dançam daltónicas
Danada desafinação
Desinibidos dons
Deserto desmaiado
Desintegrem-se as diligências
Diminuam-se os discursos
Dissipem-se as doutrinas
Dourada é a dúvida
Dádiva divina

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A conversa

Pai e filho conversaram durante cerca duma hora. Primeiro houve a sessão de cinema do costume, pois enquanto estão no cinema não precisam de conversar. Depois o pai escolhe o local para a conversa: a casa dele? A casa dos avós, onde pelo menos o espaço é familiar e onde, no minímo, se pode mudar de lugar, pois já se sabe que estas conversas são complicadas...? Não... Escolheu o café da FNAC...
Bom sítio para quem não tem um minímo de racionalidade guardada na cabeça, uma vez que o amor no coração se esgotou ou se guarda para terceiros...
Concordaram que eu tenho mau feitio... pois tenho, e vai ficando pior à medida que me apercebo que o meu filho não tem o tratamento que merece... Desculpo o meu filho por dizer isto porque, no fundo, ele é uma criança, estavamos zangados desde o dia anterior e, além disso, eu sou a má da fita que o obriga a fazer tudo quanto ele não quer...
Aparentemente o pai chorou dentro dessa hora, criando o constrangimento que se sabe a um rapaz com 15 anos que é levado para um sítio público para ter uma conversa privada e ainda por cima leva com o pai a chorar...
Não jantaram juntos, porque o pai tem que ir a correr cumprir as suas obrigações familiares... Não jantaram juntos porque uma hora a engonhar (sic) já era demais e o pai já não sabia o que engonhar mais.
Pediu o pai ao filho que ele o ajudasse... que lhe atendesse o telefone e que aceitasse sair com ele. O filho comprometeu-se a fazê-lo. Terá o pai percebido que esse sim, dirigia-se exclusivamente a ele...? Perguntou o pai ao filho se ele não gostava da sua nova família, numa atitude de total ignorância sobre o constrangimento que lhe causa ao colocar-lhe esta questão: se diz que sim, mente e o pai pergunta-lhe então para quê tudo isto?; se diz que não, dá o flanco do ciúme sobre quem leva todas as atenções do pai, e magoa o pai que, se gostasse minimamente dele, por exemplo como gosta do seu programa de televisão favorito, nunca lha colocaria. Diz o filho que respondeu que lhe era indiferente... porque não quer magoar o pai, ainda por cima, tão triste, a chorar e tudo... (sic).
E o filho...? Serei só eu a não querer magoá-lo...? Conta o filho que o pai lhe disse que eu ia sofrer muito quando ele um dia saísse de casa... o miúdo ficou preocupado com a perspectiva, disse-me que nunca ia para longe de mim e mais uma data de coisas para me deixar sossegada... Mais uma vez, o pai não percebeu que a estratégia de lhe dar a mãe como obcecada e... meia maluquinha, não tem grande efeito. Apenas conseguiu perturbá-lo e deixá-lo inquieto. Para além disso, essa preocupação é minha, e virá daqui a uns tempos... até lá estou aqui, um aqui que o pai desconhece por completo, e onde passa só de visita, a correr, como os cometas... deixando um rastozinho, que não alcança que é de destruição interior do próprio filho.
Conta o filho que o pai lhe disse que ele tem que perceber que o outro miúdo na vida do pai é pequeno... que passa a maior parte do tempo com ele e que gosta muito dele próprio... Um pai que se preze, nem que seja um pai crocodilo, não diz isto... nunca, em ocasião alguma. Não se pede a um filho com 15 anos que perceba uma coisa destas... não se criam estas situações para depois não ter que se lidar com elas e se se tiver que lidar é colocando o nosso próprio filho no trono que só a ele está destinado, sem se fazerem comparações nem sequer alusões...
Vamos ver a próxima vez que o convidar para qualquer coisa... será que o mete na casa que o filho não quer frequentar? Ou será no cinema, de onde o miúdo vem a dizer Que seca...?
Esperamos para ver... mas não vou esperar nem sentada nem sozinha.

Ainda o jantar de aniversário

Meia noite e o Duarte não telefona. Saio de casa e dirijo-me a Cascais, onde era o jantar. Tinhamos tido um sábado óptimo, na senda duma sexta feira muito saborosa e tinha dado permissão de ausência até à uma. Mas enquanto eu me tinha expressado que era entrar à uma em casa, ele tinha entendido que era telefonar a pedir para o ir buscar à uma... tendo em conta que demoro mais ou menos meia hora até Cascais, que ele telefonaria depois da uma e que tínhamos o regresso para casa, ele estaria na cama cerca das duas, duas e meia, já contando com o iogurte e os cereais que come sempre antes de se deitar.
A meio da noite tinha-me mandado uma mensagem e perguntar se, para além da R. com quem tinha combinado já dar boleia, e assim tinha ficado assente com o pai dela, se podia levar também duas outras amigas. Claro que sim!
Cheguei à baía de Cascais e continuei devagar até ao forte. Vários grupos de jovens por ali, a caminhar devagar, sem pressa. Dois grupos mal encarados, encapuzados, mas metidos consigo mesmos. Dei a volta por umas ruas e regressei à baía. De repente vejo-os ao longe, ele a destacar-se por causa da altura. Iam todos a conversar e a rir. Aproximei-me devagar e dei um leve toque na buzina que os fez virar a cabeça na minha direcção. Era meia noite e meia.
Estacionei um bocado à frente, em segunda fila e fico dentro do carro, dando-lhe tempo para as despedidas
Eram três rapazes e três raparigas e fui logo questionada, em surdina, porque tinha vindo tão cedo. Aproximaram-se, cumprimentos daqui e dali, o jantar foi bom e barato, etc, etc, etc.
Meia noite e trinta e seis.
-Então vamos?
O Duarte continuava aborrecido por ser tão cedo e, com espanto meu a R., pede ao aniversariante para falar ao pai e saber se a pode levar para casa, porque não quer ir já. Digo-lhe que me comprometi com o pai dela em ser eu a levá-la, coisa que ela resolve em dois minutos ao telefone com o pai, que permite que ela fique. As outras duas recusam igualmente ir já, isto em simultâneo com o fim da conversa do aniversariante - 16 anos - com o seu próprio pai, a quem diz Eu telefono daqui a hora e meia ou duas a dizer onde estou para me ires buscar... e a seguir diz que o pai está fantástico pois já o deixa sair à noite para Lisboa, sendo ajudado pelo outro rapaz - 15 anos - que conta que desde que a mãe lhe deu a chave de casa, ele pode chegar a casa a que horas quiser.
O Duarte ouve aquilo tudo, junta-lhe o facto das raparigas também ficarem e de ele ser obrigado a ir para casa, entra no carro e diz-me, a mim, que eu acabei de causar um grande problema. Perante o meu ar de espanto, ele explica que agora, como eles são 5 e o pai do aniversariante tem um carro com 5 lugares, um deles não sabe como há-de ir para casa... como se isto fosse pouco, a seguir atira que se soubesse que eu ia tão cedo, ele tinha pedido ao pai, pois o pai está muito diferente e agora não se queixa das horas a que lhe pede que o vá buscar, não quer saber e por isso, nesse aspecto, está porreiro...
Ouço aquilo em tristeza absoluta e entra-me uma fúria que expresso mais alto do que devia, mas para meu espanto ainda maior, ele continua:
- Tu dizes que és boa mãe, mas não és, nem me deixas ficar com os meus amigos e agora eles vão pensar que sou um cortes e nunca mais me convidam para sair com eles... o pai não fazia isto!
Em desatino digo-lhe que pense primeiro antes de falar... peço-lhe que me diga que raio de preocupação têm os pais dos amigos, e o seu próprio pai, se agir como ele diz, que preocupção têm com os filhos? Que atenção lhes estão a dar? Que cuidado mostram ter? Digo-lhe que aquilo que ele vê como controlo e proibição, são sinais de preocupação porque se gosta e ama os filhos e não um gozo qualquer por lhes proibir de fazer coisas que eles gostam... antes pelo contrário. Digo-lhe que estou disposta a esperar os anos que sejam necessários para que ele perceba o que estou a dizer.
- Mas no entretanto os meus amigos divertem-se e eu não...
- Tu tens outras responsabilidades... tens um jogo amanhã de manhã, para começar, para além de outras obrigações que eles não têm... andas a trabalhar para seres desportista de carreira e tens que agir em conformidade com essa vontade...
Calamo-nos ambos e fazemos a resto do percurso em silêncio. Ficamos em silêncio durante muito tempo, tempo que não quero que seja demais.
A cada dia que passa é mais difícil... já percebi que ele sabe que o desleixo do pai para com ele pode ser usado em seu proveito. Mas o pai tem outros afazeres e este é assunto guardado para as calendas gregas.
Perceberá o pai o que está a fazer? Terá noção que este caminho é problemático? Ou a noção de pessoa problemática cai noutro campo de prioridades, onde o filho não tem lugar?

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Já a seguir... Crónicas da mãe dum adolescente divorciada ou será melhor Crónicas da mãe dum adolescente orfão?

Sábado à noite o Duarte tem um jantar de aniversário de um amigo. Vou levá-lo e regresso a casa, a fazer horas para o ir buscar. Como o telefone dele tinha ficado sem bateria, trocamos os cartões e eu fico com o telemóvel dele que tem mais botões que o meu e mais mariquices que não percebo. Lá dou voltas à coisa e descubro material interessante...  Ligo ao pai e pergunto se quer ir comigo buscá-lo pois...
- Não, eu vou sozinho ou vais tu...
Perante isto... Boa noite senhor pai que se demite dessa missão e nem sequer pergunta... Porquê? Cada vez mais me convenço que ele é dos que pensam que ter um piano faz de nós pianistas... Ainda por cima tinham passado apenas 24 horas sobre uma conversa, que ficara a meio, e onde ele tinha dito:
- Não tinha consciência que fazia o meu filho assim infeliz...
Mas a consciência adormece novamente assim que ele se afasta de mim, a voz da consciência que ele não quer ouvir, não quer perceber e se recusa a interiorizar...
É engraçado como aqui há uns tempos eu juraria que ele nunca se comportaria desta forma e agora... agora vejo que se confirma a bananice, comum a tantos homens...
Homens que deixam a meio conversas sobre a felicidade, ou a infelicidade, dos próprios filhos, e que nada fazem para as terminar... porque será?
É porque têm muito trabalho e não podem fazer um intervalo? Não...
É porque o assunto é delicado? Pois claro...
É porque são pais só quando lhes apetece ou quando lhes dão margem para isso? Sim...
É porque são pessoas fracas, manipuláveis e pobres? Evidentemente...
É porque têm outras prioridades? Sem dúvida...
É porque sabem que erraram mas os únicos que erram e que podem ser chamados à atenção são os filhos, por serem pequenos? Evidentemente...

Cada filho é um mundo e há pais que não fazem a mais pálida ideia em que planeta estão... e pior ainda, que se recusam a abrir os olhos.
E assim, as minhas descobertas no telefone, a leitura de históricos de conversas que me puseram a chorar desalmadamente, uma fotografia amarrotada no meio dos livros... vão ser coisas que ficam comigo porque há pais que têm como prioridade os filhos dos outros.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O Messanger

Cheguei a casa, preparei o jantar e ia ligar o computador para ver uma coisa urgente quando verifico que estava ligado.
Abro o MSN e imediatamente aparecem várias janelas de várias pessoas diferentes: uma rapariga e três rapazes.
- boa noite para siii tb... (e um coração a palpitar...)
- o cristianismo sai amanhã no teste?
- atão vamos ver do Reis o nao
Senti-me o Ali Babá diante da porta da caverna a olhar para arcas cheias de ouro e jóias, sem ter que ter pronunciado qualquer fórmula mágica. Fiquei uns segundos indecisa e respondi à menina em primeiro lugar dizendo-lhe que era a mãe e não o filho. Como somos conhecidas a conversa foi cordial e até combinámos fazer uma surpresa ao Duarte.
Já com os rapazinhos a conversa foi diferente pois não lhes disse quem era...
Respondi que sim, que o cristianismo saia e fiquei a saber que afinal era uma outra colega que estava a perguntar.
Verifico que três das janelas de conversação fazem a mesma pergunta:
Então hoje não houve treino?
Bolas, ele está no treino e todos sabem isso... respondo que não, que estou muito cansado e que faltei. Leio risos em forma de bola com bocas gigantes que se abrem indiciando gargalhadas e leio repetidas vezes LOL...
Escrevo a mesma mensagem nas três janelas:
- vai falando k vou ver o k minha mae ker volto ja
Dispus as caixas de conversa lado a lado para as poder ver todas em simultâneo e fiquei a olhar para o monitor como se dali fosse saltar o número do euromilhões...
Nem uma vez foi usada linguagem menos própria, não se disse nada que me fizesse corar, nem ficar apreensiva ou minimamente preocupada... o assunto era a escola e o teste do dia seguinte. Sorri.
Deixei o computador na mesa da cozinha aberto e esperei que o Duarte entrasse em casa. Quando abri a porta estava ele sorridente a olhar-me.
- Com que então no messanger a falar com os meus amigos...? Boa noite mãe...
- Olá – disse eu a rir – foi só uma brincadeira, quem te disse?
- A Rita
- Só a Rita?
- Como assim só a Rita? Com quem falaste mais?
Apontei o computador, mostrei-lhe as janelas abertas e perguntei quem eram as personagens. Lá disse que eram colegas e que, como eu via, só tinham uma preocupação, a escola. Quando me virou costas para ir tomar banho acho que o ouvi suspirar e calculo que tenha sido de alívio...

A rapariga que não gostava de livros com capas dobradas - XIII

Havia duas noites que dormia como queria e apesar disso tinha pesadelos. Talvez fosse do cheiro a mofo do colchão, palco de intensas aventuras de vários casais de pulgas e outros bicharocos que por lá decerto passaram, ou talvez fosse do facto de dormir acompanhada, pois tinha dormido com o filho, num encantamento que lhe parecia um sonho, ele ali ao seu lado, ela a mexer-lhe e a cheirar-lhe o cabelo.
O dia seguinte começou com uma sessão de cabeleireiro e manicura. Não que o seu cabelo desse para grandes penteados pois só o deixara crescer quando soube que sairia da prisão, mas uma lavagem por outras mãos e um shampoo aplicado com uma massagem, valiam pela vida. Depois entretiveram-se nas compras numa loja onde Paulinho também foi brindado com algumas peças de roupa, óculos de sol para os dois e um passeio a pé perto da praia onde costumava ir e onde constatou que em três anos pouco tinha mudado. O telemóvel do filho tocou várias vezes e, pela conversa, percebia que era o pai a querer saber da condenada.
- Em que estás a pensar mãe?
- O que fará a tua tia, o marido e os avós...
- Não sei... ao princípio ela teve bué discussões com o pai, gigantes, ‘tás a ver? E depois disso só a vi mais duas vezes. Disse-me que ia embora e que quando chegasse me escrevia a dizer exactamente onde estava, o que nunca aconteceu. Os avós convidaram-me também muitas vezes mas era o pai que me levava lá e ele ficava no carro e dizia-me para eu não me demorar. E depois foram-se embora e eu fiquei sozinho com o pai... e depois veio a Adelaide.
- Fala-me da Adelaide...
- Ela até é porreira... o pai conheceu-a numa viagem que fez e começaram a namorar poucos meses depois de tu teres sido pr...
O miúdo estacou com o ...esa na garganta pensando que magoava a mãe. Ela sorriu e disse-lhe que as palavras não interessavam nada e que, afinal ela tinha mesmo estado presa por isso, que outra coisa haveriam de dizer?
- Um dia contas-me mãe? Contas-me mesmo à séria como era lá dentro?
A mãe sentiu uma tristeza profunda e respondeu:
- No avião, boa? Teremos imensas horas para conversar. Prometo.
- Isso quer dizer que vamos? – perguntou Paulinho no auge da excitação.
- Sim, vamos – respondeu enquanto abraçava o filho e rezava interiormente para não estar a fazer, agora sim, a asneira da sua vida, agora sim, consciente e de livre vontade.
Sabia que as palavras de Francisco e a forma como as pronunciara, com o pronome carregado de desdém e de desprezo, a tinham influenciado na decisão. Ouvia ainda aquele ela, dito com altivez, como se se referisse a alguém que nem conhecia, quando estava a falar da mãe do filho. Além disso, pensara e repensara que a irmã devia ter tudo pensado e o X falou mais alto, sinal que podia confiar nela.
A cada minuto mais se convencia que havia um motivo muito forte para tudo aquilo e a irmã saberia que os riscos iriam valer a pena, caso contrário não lhe proporia aquela aventura louca.
Sim, iam ao Peru. Sim, iam em direcção das pessoas que mais amavam. Sim, iam em busca de respostas. Sim, iam confiar.
Depois de mais dúzias de recomendações via telefone o pai lá se preparou para viajar no dia seguinte bem cedo, atormentado como uma rocha onde as ondas batem sem cessar, assolado por maus agoiros que lhe vinham do conhecimento da sua – ainda – mulher, com queda para a aventura, com desejos de mudança, com vontade de correr riscos e tinha a certeza quase absoluta que ela era culpada da acusação que lhe fizeram pois vira naquela oportunidade, uma oportunidade de fazer qualquer coisa fora da sua rotina que tanto odiava.
De vez em quando era afogueado pela dúvida e quando colocava, ainda que longinquamente, a possibilidade de ela ter sido vítima das circunstâncias, logo se lembrava que ela sempre vivera com os pés na lua e talvez fosse influenciada pelo Peréz-Reverte e tivesse resolvido brincar às rainhas do sul, pois dificilmente distinguia a realidade das leituras que fazia, e ele sabia que aquela mania dos livros que ela e a irmã cultivavam não era de todo saudável e já lá diz o povo, nem tanto ao mar nem tanto à terra e agora que tinha uma vida sossegada, sem os temporais dela – e da família dela! – por perto, estava decidido a fazer tudo para que ela não a viesse perturbar. Daqui a uma semana regressaria para pôr tudo nos eixos, tanto mais que a escola começaria em breve e ela iria participar o menos possível na vida escolar do filho. Este pensamento provocou-lhe um sorriso pois lembrou-se subitamente que ela lhe tinha mencionado o facto de esperar um contacto para arranjar emprego e ele consolou-se pensando que seria bem longe de Lisboa e, já que ela gostava tanto de viajar, pois que fosse para a Sibéria e ele até ajudaria a pagar o bilhete!
Se ele sonhasse com os planos da mãe e do filho – Rosa e Luís – dava-lhe uma apoplexia que o deixaria morto.
- Mãe, vamos quando? Ainda vais ver a Luísa e a Lena?, perguntou o filho referindo-se às amigas mais chegadas da mãe.
- Não, elas não sabem que saí e é melhor que fiquem assim. Quantas menos pessoas contactarmos mais fácil será, até para não terem que mentir por nós. Vamos embora amanhã, o mais rápido possível.
- Como vamos para Madrid mãe? De avião?
- Não, de comboio. Assim os registos só terão informação duma Rosa e dum Luís a partir de Madrid.
- Mãe, vou já telefonar p’ró tal número a dizer que vamos amanhã e...
- Espera... não telefones do teu telemóvel, vamos aos Correios.
- Porquê? Os Correios estão fechados hoje...
- Porque é mais seguro... filho, tu já te apercebeste da dimensão daquilo que vamos fazer?
- Sim mãe, eu...
- Espera, deixa-me falar... bem sei que uma viagem ao Peru, é qualquer coisa muito atractiva, mas nós não vamos de férias, nós vamos clandestinamente, com nomes falsos – e aqui baixou a voz, como se pudessem estar a ser escutados – e nem sabemos quando voltamos, mas uma coisa é certa, o teu pai vai pôr a polícia do mundo inteiro atrás de nós... todos os cuidados são poucos e a tua tia dá-me todas as indicações para não confiar em ninguém.
- Tens razão mãe, tens razão... mas como temos que telefonar com 24 horas de antecedência, vamos ver a que horas são os comboios e vamos marcar tudo o mais depressa possível.
Abriu o computador portátil, entrou na página da CP e viu que o Lusitânia saia de Lisboa diariamente às 22.30 e chegava a Madrid às 8.58h.
- Mãe, só há comboios de noite, temos que dormir no comboio. Temos dinheiro, não podemos ir de táxi? Quanto será ir de táxi até Madrid?
- Nem pensar! Com toda a facilidade falavam para as empresas de táxis e em três tempos descobriam o taxista que nos levou a Madrid!
- Oh mãe e se tu pedisses à Lena? Ela não nos levava sem dizer nada?
- Levava filho, tenho a certeza, mas já te disse que é melhor não meter ninguém ao barulho... Olha, vê aí os aviões para Lima.
Paulo começou a pesquisar mas de repente disse:
- Mãe, não é melhor telefonar primeiro?
- Sim tens razão, mas não do teu telefone...
- Tenho uma ideia: vou comprar um cartão de telefone e ligamos desse número, o que achas?
Perante a anuência da mãe, Paulo saiu de casa e foi ao Centro Comercial fazer a compra. Ela ficou em casa agarrada às estantes à procura de algum exemplar do tal livro que a irmã lhe falara, O Ingénuo. Podia não ser nada, mas já agora, era melhor ter a certeza e, se tivesse o livro em casa, tanto melhor.
Paulo regressou com dois sacos com caixas de comida já pronta.
- Mãe, para não termos que sair de casa, comprei comer. Não sabia bem o que trazer e então optei por bacalhau com natas e entrecosto com arroz de feijão e uma sobremesa.
Sopa, feijão, arroz, frango, carne à jardineira e muito peixe frito, tinham sido a base da ementa dos últimos anos. Muita fruta onde as pêras eram rainhas e os pêros estavam sempre presentes, apesar dela teimar em pedir a todas que lhe chamassem maçãs porque vinham das macieiras e não dos pereiros. Sobremesas só no Natal, quando havia também bolo-rei, umas filhoses e mais nada. Espreitou o interior do saco, sorriu ao filho, foi buscar uma colher, destapou uma das tacinhas e comeu o tiramisu com prazer. O filho riu-se, fez o mesmo e só depois da sobremesa comida é que jantaram. No final da refeição, o rapaz disse:
- Mãe vou fazer o telefonema.
Trocou os cartões de telefone, ligou, deu as referências dos bilhetes e do outro lado disseram que tinham lugares já no dia seguinte no voo das 13 horas locais.
- Um momento por favor – pediu o rapaz e virou-se para a mãe
- Dizem que pode ser já amanhã, saímos à uma da tarde e chegamos lá à uma da manhã. O que achas?
- Amanhã? Mas ainda precisamos de chegar a Madrid e... olha, pede para confirmares daqui a bocado.
Paulo fez como a mãe lhe pedia e quando desligou o telefone disse:
- Mãe, ainda estamos a tempo de apanhar o comboio de hoje. Chegamos lá cedo e a horas de apanhar o avião! Na boa!
Sorrindo ficou à espera que a mãe comungasse do seu entusiasmo, e a mãe começou a fazer contas:
- Paulo, afinal para onde vai o pai? Nem fiquei a saber...
- Eles vão para a República Dominicana, o avião saí amanhã às 8 da manhã e chegam lá às 6 da tarde. Mãe, é perfeito, ‘tás a ver? Quando eles saírem daqui no avião já nós estamos em Madrid. Mãe...
A mãe tinha o coração aos saltos no peito, a respiração ofegante como se tivesse corrido e sentia-se desconcentrada com tanta informação.
- Que horas são? Perguntou devagar quase a medo.
- Sete e meia... apanhamos um táxi a vamos apanhar o comboio a Santa Apolónia. Mãe... se for assim, depois de amanhã estamos com a Tia Teresa...
A mãe suspirou e não conseguiu evitar começar a chorar. Ia mesmo? Ia mesmo levar o filho de acordo com as indicações da irmã? Sabia que no momento em que saísse de casa tudo seria irreversível. Ia ou não ia? Não podia pedir conselho ao filho pois já sabia o que ele ia responder. Meu Deus, ajuda-me, pensava com o coração a bater aceleradamente. E se as pistas das cartas fosse tudo imaginação da sua cabeça e não passassem duma loucura de quem acumulou saudades ao longo de três anos? A dúvida mantinha-se mas a confiança falou mais e disse:
- Está bem... mas vamos fazer as coisas com precaução. Liga já outra vez e pergunta se podemos de certeza ir amanhã a essa hora. Se pudermos, vamos apanhar dois táxis: eu apanho um ali em baixo à porta do centro comercial e tu apanhas outro ao pé da igreja, vais ter que ter paciência e vais a andar até lá e...
- Na boa mãe!
- Depois cada um compra o seu bilhete no comboio
- Mas mãe, assim não podemos ir juntos e são muitas horas e...
- Calma, podemos sim... eu já explico como. Vá, liga lá e confirma que eu vou ali arrumar umas coisas.
Paulo, utilizando o novo cartão que tinha comprado para o efeito, confirmou as marcações ao telefone, desligou e a mãe ouvi-o a falar novamente:
- Boa noite, eu estou atrasado para apanhar o Lusitânia e não tenho bilhete. Sabe dizer-me se ainda há lugares?
- ...
- Hã... não sei, um qualquer.
- ...
- E tenho que comprar o bilhete até que horas?
- ...
- Obrigada, boa noite.
- Mãe, têm bilhetes, disseram para comprarmos o mais depressa possível e perguntaram se era sentado ou com cama...
- Senta-te aqui e ouve-me com atenção: a Tia disse para não levarmos roupa por isso leva o essencial. Sais daqui, apanhas o táxi onde eu disse, sais em Santa Apolónia e compras um bilhete com cama, mas ida e volta, percebes? Eu faço o mesmo e compro outro e depois a meio da noite um de nós muda. Vamos embora.
- Ida e volta?
- Sim, assim levanta menos suspeitas, pedes a volta para daqui a dois dias.
Abraçaram-se e Paulo carregou o portátil na mochila e foi buscar outra mochila com roupa que tinha trazido da casa do pai e começou a tirar peças de roupa para fora.
- Levo as calças que tenho vestidas, mais duas t-shirt’s e dois boxeurs, achas bem?
- E o blusão de ganga que trazias.
- Sim, tásse bem mãe – respondeu com um sorriso de orelha a orelha.
A mãe meteu duas mudas de roupa interior, um casaco leve e um par de ténis que comprara no dia anterior. A calças eram novas e iam durar a jornada inteira tal como as do filho.
Fecharam a porta à chave e saíram agindo tal como tinham combinado. Porém, quando entrou no carro, pediu para ir em direcção à casa do marido. Escrevera-lhe um bilhete como se tivesse sido escrito uma semana depois, no dia da chegada de Francisco de férias, e meteu-o na caixa do correio da casa ao lado. Rezava para que o vizinho pensasse que tinha sido engano e o colocasse no sítio certo sem comentar o dia em que o tinha recebido. Como no dia seguinte se levantariam muito cedo era altamente improvável que o vizinho lho entregasse imediatamente. Assim, quando regressasse leria o bilhete que dizia sumariamente que tentara falar-lhe e que o telefone desligado não o permitira, comunicando-lhe também que iria ‘passear’ com o filho e logo que possível, dariam notícias.
Como tinha tido o cuidado de pedir ao taxista que parasse uma rua antes daquela onde Francisco morava, foi a pé até à outra rua, em sentido contrário e aí apanhou outro táxi em direcção a Santa Apolónia. Levava consigo quase 500 euros, um saco com meia dúzia de coisas, entre as quais as fotografias mas onde já não constava a de Francisco, e algo lhe dizia que se ia passar algum tempo até regressar de novo.
As viagens de táxi eram angustiantes como quase tudo desde que saíra da prisão. Pensava se apareceria alguma operação stop, se o táxi tinha um furo, tudo lhe passava pela cabeça e não perdia aquela sensação de estar a sonhar.
Quando chegou à estação agiu como combinado; não viu o filho mas pensou que ele devia andar por ali, cumprindo a combinação e não se aproximando; dirigiu-se à bilheteira e registou com agrado que havia fila na bilheteira. Óptimo, assim não seria notada.
Pediu uma cama e o homem perguntou-lhe em que classe, enumerando as disponíveis. Decidiu-se pela turística pensando que devia ser a que levava mais gente e era mais um passo para não darem por ela.
Viu que faltava um quarto para as dez, foi beber um café e comprou uma mão cheia de revistas, tal como viu fazer a outros passageiros. Tanto tempo sem ler coisas frescas, mesmo que fossem sobre o jet set nacional ou sobre as novelas que não via há séculos, criaram-lhe uma perspectiva agradável. Sentia uma euforia interior por poder fazer o que lhe apetecesse, mesmo que fossem coisas simples, como entrar num bar e pedir um café.
Não via Paulo em lugar algum e começou a ficar de tal forma nervosa que sentiu vontade de vomitar, uma vontade que não conseguiu controlar e dirigiu-se à casa de banho da estação. Quando ia a entrar, saiu um polícia, o que a deixou pálida de tal forma que o homem perguntou-lhe se se sentia bem. Respondeu que sim, mas que acabava de chegar e costumava enjoar no comboio. O homem deixou-a entrar na casa de banho, onde lavou a cara e imediatamente se sentiu melhor. O filho andava por ali e devia estar preocupado de não a ver. Olhou-se profundamente ao espelho e pensou Tu tens coragem para isto e para muito mais. Aguentas-te três anos naquele sítio, aguentas tudo. Não conheces o motivo pelo qual aqui estás nem porque vais fazer o que vais fazer, mas há uma razão forte e brevemente vais ficar a conhecê-la.
Saiu da casa de banho e dirigiu-se à gare. Continuava sem avistar o filho, mas entrou no comboio. Acabou por sair novamente pois a carruagem não era aquela e um dos revisores encaminhou-a para a carruagem certa. O comboio era enorme e levariam algum tempo a encontrar-se; ia deixar que começassem a andar e ia procurá-lo. Deitou-se na cama da pequena divisão que lhe serviria de quarto nessa noite e fechou os olhos, com o coração a bater descontroladamente e a sensação de náusea ainda presente. Acordou estremunhada com o revisor a bater-lhe à porta e a pedir-lhe o bilhete. Sentiu o andamento do comboio e perguntou:
- Onde estamos?
- A chegar ao Entrocamento.
E o Paulo? Onde estava? Teria perdido o comboio? Teria desistido? Sentiu um nó no estômago, mostrou o bilhete, e quando o revisor ia sair, baixou-se, apanhou um papel e perguntou:
- Isto é seu?
Tirou o papel das mãos do homem, que avançou de couchete em couchete e pensou que estava farta de cartas por baixo da porta. Quando leu sorriu.
Mãe
Quando acordares vai ter comigo ao bar do comboio. Só o apanhei na estação do Oriente pois assim nem sequer entrámos na mesma estação
Bjs

Suspirou de alívio. O filho estava no comboio. Agarrou na mala de mão e foi avançando à procura do bar. Avistou Paulo assim que entrou, mas verificou que ele estava acompanhado por um casal estrangeiro. Pediu um chá e uma torrada e, como todas as mesas estavam ocupadas, dirigiu-se à do filho e perguntou se se podia sentar ali. O rapaz fez o papel na perfeição, disse que sim e continuou de conversa com o casal de espanhóis. Finalmente lá se foram embora e ele disse que assim que entrara fora procurá-la, mas encontrara-a a dormir, motivo pelo qual se viera ali sentar e lhe deixara o bilhete.
- Já estou um bocado farta de bilhetes e de cartas. Ansiei por elas durante três anos e agora em dois dias recebo mais correspondência que o Pai Natal...
O filho riu-se da comparação e a mãe continuou:
- Paulo, estou muito nervosa... estaremos a fazer bem?
- Calma... está tudo bem e vai correr tudo bem... vamos deitar-nos e quando acordarmos estamos em Madrid.
A carruagem bar estava meio vazia e lá foram aos tombos até à cama dela.
- Não sei se vou conseguir dormir...
- Eu fico aqui até adormeceres mãe. Olha e amanhã quando chegarmos à estação?
Ela não parava de suspirar e sentiu novo aperto no peito: ainda nem tinha pensado nisso. A estação seria longe do aeroporto? Bem, tinha ouvido dizer que o aeroporto de Lisboa era o mais próximo do centro da cidade de todas as capitais da Europa logo, partindo do princípio que a estação seria no centro da cidade, o aeroporto não devia ser perto da estação.
- Fazemos da mesma maneira: cada um apanha um táxi diferente e encontramo-nos lá.
- Olha eu estive a perguntar aqueles dois como ia para o aeroporto e eles disseram que de metro não chega a meia hora. Tu podias ir de táxi e eu de metro, o que achas?
- De metro? E se te perdes? Se há um atraso, uma avaria, sei lá...
- Mãe, não vamos pensar nisso... mas eu acho melhor. Olha outra coisa, nos passaportes diz que somos brasileiros, não era melhor começarmos a treinar?
Enquanto dizia isto imitava o sotaque brasileiro e conseguiu arrancar um sorriso à mãe. Combinaram tratar-se desde já pelos novos nomes, embora ela tivesse reticências sobre a utilização do sotaque.
Paulo ficou com a mãe até ela adormecer e só depois se foi deitar.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A rapariga que não gostava de livros com capas dobradas - XII

Minha querida Irmã

Finalmente és livre de novo. Nem imaginas a nossa alegria...
Lamentamos não vos poder ver já, mas vamos fazer os possíveis para ir ao teu encontro em breve.

À medida que lia estas palavras ia chorando pela emoção da carta em si e a constatação que não se iriam encontrar tão depressa criou-lhe uma amargo na boca que a obrigou a baixar o tom de voz da leitura. Mas onde estaria esta gente que não aparecia, pensava ela com alguma raiva de permeio, continuando a ler.

Tudo isto parece saído da pena do nosso adorado Robin Cook.
Já viste as fotografias dos teus sobrinhos? Mandei duas ao Paulinho, pois ele também não os conhece. Devemos-te uma explicação sobre o motivo do nosso afastamento do Francisco. Não te vou esconder nada: ele nunca acreditou na tua inocência e garanto-te que só não trouxemos o Paulinho porque ele é pai dele e não deixou. Mas agora tudo será diferente, embora ainda tenhamos que ser filhos dum Deus menor. Por favor não faças nada que possa prejudicar-te e mantêm-te sossegada e calma. Adorávamos presenciar o teu reencontro com o Paulinho, que deve estar enorme e já não deve brincar com o Pinóquio nem gostar de ler estórias do Zé Carioca.
Não posso deixar de te dizer que descobri uma pérola!
Provavelmente já a manuseaste e já te deu as mesmas delícias que me tem dado e iguais ou semelhantes gargalhadas. Chama-se O Ingénuo e vem da pena de Voltaire logo, é coisa recente, dada à estampa com certeza absoluta durante estas tuas ‘férias’, aproveitando a tua ausência... não tem mais que meia dúzia de páginas e conta uma história fabulosa onde cada palavra se identifica com crítica social e grita bem alto, como um xis na janela.
Não me alongo mais, desejo que o nosso reencontro seja em breve para te ver e te abraçar.
Conforta-te a ler a Bíblia e recebe beijos de muito amor e confiança de todos nós.
T.

Ainda não tinha terminado a leitura da carta e rebentou num pranto enorme, acumulado, misturado de saudades incríveis e de uma enorme confusão. A carta era estranhíssima mas o facto da irmã ter mencionado um qualquer livro que lera mostrava-lhe que para ela tudo era como antes e que nada mudara. À memória vieram-lhe momentos que até à leitura da carta lhe pareciam ter acontecido há várias eternidades e agora, de repente, pareciam ter sido ontem, de cumplicidade com aquela irmã, que lhe manifestava o seu amor daquela forma. Por outro lado, não sabia o que pensar da irrealidade de tudo aquilo, era da sua cabeça ou havia uma carta secreta dentro daquela carta, escrita com palavras cujo sentido só ela entendia?
O filho abraçava-a e ela não conseguiu esconder-lhe o que pensava e depois de ter limpo as lágrimas novamente disse:
- Esta é a carta mais estranha… para começar, nós detestávamos Robin Cook, ao contrário do que ela diz, ou seja, primeira mentira. Depois, nova referência aos filhos dum Deus menor, o que quer dizer que me está a mandar ficar calada. Depois, o Pinóquio e o Zé Carioca… dois mentirosos inveterados…
- Mãe, as coisas que tu vês numa simples carta… e que mais?
- Para finalizar, isto se não me está a escapar nada, o xis na janela, que significa que eu devo confiar… mas confiar em quê e em quem?
- Não sei mãe… acho isto tudo muito estranho…
- Escreve claramente para eu ficar sossegada e depois enche a carta de pistas que me indiciam mentiras! Mas a tua tia estará bem de saúde…? – disse, enquanto lhe passava pela cabeça que a irmã pudesse ter enlouquecido – Até me pede para ler a Bíblia!
- E esse outro livro de que ela fala?
- O Ingénuo? Não sei o que é...
- Teremos isso cá em casa mãe? Se calhar quer-te dizer qualquer coisa... tens a certeza que não o leste?
- Absoluta! Por uma simples razão, é que se eu o tivesse lido, ela lembrava-se; mas tens razão, lá dentro pode estar qualquer coisa, mas agora deixa-me reler isto tudo outra vez.
Enquanto se voltava a sentar no sofá poeirento o filho levantou-se como se o assento não aguentasse duas pessoas ao mesmo tempo e quando um se sentasse o outro tinha que se pôr automaticamente em pé. Dirigiu-se a uma das estantes e perguntou com pressa na voz:
- Mãe, temos uma Bíblia cá em casa, certo? Onde está?
- Onde está… onde está? – respondeu a mãe levantando-se novamente e começando à procura da Bíblia pois mesmo sem terem dito nada, ambos pensaram o mesmo, e foi com uma enorme excitação que tiraram o grosso volume encadernado a castanho duma das prateleiras e nem queriam acreditar quando viram cair de dentro dele um envelope.
Rasgaram-no apressadamente e ficaram estupefactos ao encontrarem dois passaportes com nomes falsos – ao lado das suas fotografias estavam os nomes de Rosa e Luís, de naturalidade brasileira - indicações para ir até Madrid, aí apanhar um avião e não levar bagagem. O cartão com estas recomendações era de pequenas dimensões e estava escrito a computador. Por cima tinha uma fita-cola transparente a fazer um xis.
Agora não tinha dúvidas, a sua irmã, a sua família toda tinham enlouquecido! Teriam ficado tão perturbados com a sua prisão que tinham perdido o juízo? Mas que loucura era aquela? Ela tinha saído da prisão no dia anterior e já lhe tinham posto em casa um passaporte falso? E o filho? O Paulinho era menor… mas estavam todos malucos, ou quê?
Paulo andava atrás dela a acalmá-la mas parecia não ter qualquer efeito tranquilizante sobre a mãe que, ora ria ou chorava, lamentando a sua pouca sorte.
- Querem matar-me do coração? Será isso? – os olhos quase lhe saltavam das órbitas com o espanto de tudo aquilo – Eu que resisti a três anos de cadeia, agora saí para isto…?
-Mãe, mãe olha só… – dizia o filho com um dos passaportes na mão – nasci em 1992! Sou maior! Este passaporte diz que tenho 18 anos!
Mas a mãe não o queria ouvir, era emoção de mais para um dia só, o pequeno almoço do dia anterior fora tomado numa prisão, tinha saído dela pela porta principal com cumprimentos das guardas e desejos de boa sorte, soubera que o mundo que deixara cá fora estava virado do avesso e agora ainda isto? Que raio de brincadeira de mau gosto vinha a ser toda esta história?
As cartas dirigidas ao filho cheias de pistas, a carta dirigida a si própria – e metida debaixo da porta! – cheia de sinais de mentiras! Os documentos falsos e as indicações para fugir do país, raptando o seu próprio filho? Mas onde estava aquela gente com a cabeça? Saberiam o que era estar-se preso? Porque razão lhe indicavam que agisse de forma a voltar para a cadeia? Eram demasiadas perguntas sem resposta, isto sem falar do facto indiscutível que estavam a ser vigiados ou seguidos, caso contrário como lhe eram entregues as cartas e como lhe tinham posto o envelope dentro da sua própria Bíblia? Ela é que fora presa, acusada de ter traficado droga, mas aqueles comportamentos eram dignos duns mafiosos quaisquer! Em que se teria metido a sua família?
Estava tão absorvida por toda aquela loucura que quando o telemóvel do filho tocou, deu um grito e dois passos atrás, assustada.
- Calma mãe… é só o telefone – tranquilizou-a o filho.
- Olá pai
- …
-Sim, está tudo óptimo… levantámo-nos agora
- …
- Não pai… eu fico aqui com a mãe.
- …
- Pai, ouve-me por favor… eu não vou de férias contigo, vou ficar aqui com a mãe – e levantando a voz acrescentou – e não vamos discutir pai, por favor, hoje não…
- …
- Tá pai… tá… daqui a pouco vou a casa
- …
- ‘pa ti também.
O rapaz desligou e abraçou a mãe.
- Mãe, acho que a tia quer que tu deixes a carta aqui para se alguém a ler, pensar que ela te aconselha a fazer tudo direitinho… não achas?
- Paulo… não acho nada… diante disto tudo estou incapaz de achar seja o que for…
- Olha, vamos comer, sim? – disse-lhe o filho para a acalmar -Vamos a uma pastelaria nova que abriu há uns meses e tem uns pães com chouriço divinais. Vamos esquecer esta história toda por uma hora, mãe…
A mãe nem conseguia sentir o bem estar com que sonhara que seria a primeira noite fora da prisão, sem barulhos, sem toques para o pequeno almoço, sem guardas e sem tabuleiros e louça de metal. Sentia que tinha sido pisada por uma manada de elefantes e achava impossível esquecer fosse o que fosse, porém a fome falou mais alto. Antes de saírem ainda pensaram o que fazer com as cartas e com os passaportes, manifestando uma certa inquietude pelo facto de alguém ali ter entrado, pois era óbvio que isso tinha acontecido e, à falta duma ideia melhor puseram tudo na mochila de Paulo e levaram-na com eles.
Não se cansava de pensar na referência ao xis na janela, sinal indiscutível que devia confiar, e que vinha dos tempos em que viam os Ficheiros Secretos, bem como a necessidade de segredo absoluto, dada pela indicação dos filhos dum Deus menor, cuja acção se centra numa rapariga muda.
A sua saída da prisão coincidira com as férias escolares e passou-lhe pela cabeça agarrar no filho e meter-se no avião, sem dizer nada ao – ainda – marido. Depois pensou que viriam atrás dela uma vez que o filho era menor e que passaria o resto da vida na prisão, não, não, não, não podia embarcar naquela loucura, tinha que seguir as indicações expressas na carta, esquecendo as entrelinhas, os passaportes e tudo o resto. Por outro lado, a sua família era tudo para ela e a ideia duma aventura assim, de mão beijada, não deixava de a atrair, tanto mais que o filho não se calara um segundo incentivando-a a aceitar.
- Mãe, é fácil... o pai vai agora de férias e eu fico contigo... quando ele for embora, nós também vamos e tu podes dizer que lhe telefonaste e ele nunca atendeu.
- Tu estás tão doido como a tua tia, o teu tio e os teus avós!- respondeu-lhe ela, abrindo-lhe os olhos pela primeira vez.
- Mãe, tu própria viste as pistas que ela te deixou, leste as cartas dentro das cartas… por favor, deve ser qualquer coisa muito importante… temos que ir… mãe…
- Vamos dizer ao teu pai que ficas comigo esta semana. Não quero falar daqueles doidos agora.
Paulo ouviu então mil pedidos e recomendações de segredo absoluto sobre tudo aquilo, mesmo ao amigo mais próximo que ele jurou cumprir.
Enquanto o filho falava ao telefone com um amigos, e antes ainda de ir a casa do pai buscar roupa e reafirmar que não viajaria no dia seguinte com a sua nova família, ela deteve-se a pensar como é que a irmã, cuja última actividade que lhe conhecera era entregar correio numa agência de publicidade, tinha dinheiro para estas coisas, e que contactos mantinha para mandar fazer, por exemplo, passaportes falsos. O que teria acontecido em três anos que ela ainda não sabia?
Era sábado. Durante três anos pouca importância tiveram os dias da semana, à excepção de domingo onde, quem queria ouvia missa. Foi com o filho e ficou a saber onde era a casa nova de Francisco, que reagiu tal como ela esperava: fez um pé de guerra à porta da sua nova bela casa, onde não lhe foi franqueada a entrada, insistindo que o filho não ficaria com ela, nunca na vida, e ela pensou que iria novamente para a prisão, não por passar droga mas por homicídio do próprio marido.
Paulo berrou e gritou e ameaçou com mil argumentos incluindo que fugiria na primeira oportunidade se o pai não o deixasse ficar com a mãe.
- Uma noite, uma noite só e já lhe fizeste a cabeça, não foi?
Francisco destilava raiva e olhava-a com os olhos semicerrados.
– Pai, a mãe não...
- Cala-te! Já disse que vens comigo e não ouço nem mais uma palavra.
- Paulo, vai a casa por favor e deixa-me falar a sós com o pai por favor.
O rapaz olhou os dois com as lágrimas a rebentarem-lhe pela cara abaixo, ainda hesitou, abriu e fechou a boca, mas lá deu meia volta e deixo-os sós.
- Francisco, eu sei que tu... – começou ela.
- Tu não sabes nada! Tu não sonhas o que é que eu passei nestes anos, eu e o Paulo! Tu não imaginas o que foi lidar com as pessoas, com mil perguntas, com sorrisos fingidos a dizerem ‘Coitadinho’, por ironia, aquela palavra que tu odeias! Tu não sabes nada...
- Francisco, posso falar?
- Não, não podes... acabaste de sair da prisão, ele é teu filho, é verdade, mas não vais ficar com ele, nem hoje nem em tempo algum. Olha bem para ti... não tens trabalho, a tua família abandonou-te, não tens do que viver, vais fazer o quê? Escrever um livro sobre a vida na prisão e esperar que renda e viver disso? O meu filho vai comigo de férias como estava planeado e se tu gostas dele, se amas o teu filho, o bom senso diz-te para fazeres como eu digo, pois sabes que eu tenho razão.
As lágrimas corriam-lhe pela cara misturando a tristeza com a confusão de sentimentos, emolduradas por uma gigantesca desilusão.
- Francisco, tu sabes o que foram para mim esta longa sucessão de meses? Tu consegues ter uma pálida ideia ao menos? Não consegues, tu...
- Deixa-te de...
- Não te interrompi! Ouve-me agora a mim e não mais teremos que falar! Não quero nada de ti, nada! Mas o Paulo é meu filho e tem 16 anos... se formos a tribunal, o meu bom comportamento vai ser tido em consideração e vai prevalecer porque eu sou mãe! Vão perguntar-lhe com quem é que ele quer ficar... eu vou estar empregada, sim porque eu vou começar a procurar hoje já e ainda há pessoas boas que me darão emprego, e ele vai dizer que quer ficar comigo! E ainda há outra razão para ele ficar comigo: ele sabe e acredita do fundo do coração na verdade: eu sou inocente, coisa que tu nunca questionas-te porque me deste logo a sentença, ainda antes do juiz! Por isso Francisco, se não queres uma guerra para a vida, e eu faço-ta até depois da eternidade, deixa o Paulo ficar comigo! Deixa o Paulo escolher!
O marido não a olhava de frente, cerrava os dentes na direcção do infinito, com vontade de lhe bater. Se fora declarada culpada, é porque havia motivos para isso e agora, depois das dificuldades que ele tinha tido durante aqueles anos, a educar e a tomar conta do filho, como é obrigação dos pais, ela aparecia e estragava tudo? Por outro lado, ele sabia da teimosia dela quando metia uma coisa na cabeça e os mesmos anos que ele vivera só com o filho, a tentar domar-lhe o espírito rebelde, parecido com a mãe, sempre com respostas na ponta da língua como se o pai fosse culpado de eles estarem na situação em que estavam, ela tivera tempo para pensar o que faria se isto acontecesse. Além disso, o filho, só para o chatear, era bem capaz de fugir de casa ou fazer disparates ainda maiores. A sentir uma raiva enorme, mas sem querer ceder, disse:
- Deixa-me falar com a Adelaide, que...
- Com quem? Tu estás bêbado? A vida do meu filho não é discutida com outras pessoas sem ser o pai ou mãe! Decide-te aqui e agora!
- Vê como falas... enquanto estavas a cumprir aquilo que o tribunal determinou – e Francisco carregava e a arrastava as palavras para as fazer doer ainda mais – ela ajudou-me e muito e ajudou o Paulo... se ele te contar a verdade, já que dizes que ele acredita na verdade, ele vai-to contar.
- Não digo o contrário, apenas te reafirmo que ninguém decide por nós e por ele: só nos três.
Ficaram em silêncio uns momentos, Francisco virou-se de costas, fechou os punhos e baixou a cabeça. Olhou na direcção da sua casa e viu Paulo encostado à ombreira, à espera do fim da conversa entre os pais. Acenou-lhe com um braço, fazendo-lhe sinal para que se aproximasse e disse:
- Paulo, ouve e não me interrompas: ficas com a tua mãe mas quando eu voltar, vamos ao tribunal e eu vou pedir para ficares comigo e...
- Mas pai eu...
- ESCUTA-ME! Se queres ficar em Portugal esta semana é assim e eu confio em ti para cumprires este acordo quando eu vier. Vamos esperar que a tua mãe encontre trabalho, que estabilize a vida dela e depois, depois logo se vê novamente... entretanto já tens dezoito anos e depois então decides o que...
- Pai! Vou esperar dois anos?
- Ou é assim ou... – Francisco levantara a voz e ela decidiu intervir.
- Ouçam-me –e virando-se para o filho – Paulo, vamos fazer assim como o pai diz, vamos passar esta semana juntos, vamos conversar os dois e voltamos a falar com o pai quando ele vier. Está bem assim para todos?
Para Francisco não estava nada bem, mas lá condescendeu deixar o filho com a suposta passadora de droga, exigindo mil garantias e expondo repetidamente o desgosto e a vergonha por que tinha passado por culpa dela, bem como a serenidade da sua vida actual, coisa que ele não ia permitir que uma ex-presidiária lhe roubasse. Ela ainda se riu interiormente e pensou que fora presa sim, mas nunca acusada de roubo e que mesmo que lhe roubasse alguma serenidade, ele tinha-a para dar e vender, pensou tudo isto, mas nada disse, com receio de que ele voltasse atrás na sua decisão e estragasse os planos todos. Calou-se com um nó gigante na garganta ajudado pelos papéis que ele lhe entregava e onde pedia o divórcio.
- Queres que assine já?
O silêncio dele dizia-lhe que podia ler e que os esperava assinados quando regressasse uma semana depois, duma viagem que ela adivinhava guiada por alguém com um bandeirinha na mão, ou um chapéu de chuva, dependendo do tempo e do lugar para onde iam, com o rebanhinho todo atrás em ordeira filinha.
Despediram-se com a ligeireza fria duns adeuses rosnados e Paulo disse ao pai:
- Eu ligo mais tarde...
- Não, não ligas, tu ficas aqui comigo o dia de hoje! Temos que conversar os dois sozinhos sobre a lavagem ao cérebro que ela te vai fazer.
Ouviu aquilo e sentiu perder a força dos braços. A onda de lágrimas que quis invadir-lhe os olhos foi travada por uma onda enorme de revolta e de humilhação. Beijou o filho em silêncio e afastou-se a passos largos em direcção a casa, sem vontade de visitar fosse quem fosse.
Francisco passou o resto do dia com o filho a orientá-lo sobre o que devia fazer na sua ausência e a acautelá-lo sobre a mãe pois as pessoas quando saem da prisão vêm com certos vícios, paranóias e manias. Garantiu-lhe que teria o telefone ligado 30 horas por dia e exigiu-lhe que lhe ligasse à menor coisa, para além do telefonema diário que ele próprio faria para o telemóvel do filho. Adelaide, a sua companheira, ainda tentou demover Paulinho, falando-lhe da maravilhosa estância de férias para onde iriam e prometendo-lhe comprar este mundo e o outro, tendo obtido tanto sucesso como um palhaço num cemitério. Jantaram cedo e Paulo conseguiu que o pai o levasse a casa da mãe, onde esta o esperava com maior ansiedade do que tinha sentido para sair da prisão.
Nessa noite, o filho chorou intensamente e contou-lhe que houve momentos muito difíceis e que logo no primeiro ano tinha passado na escola graças a uma professora que o ajudara muito pois, caso contrário, teria chumbado. A mãe ia acariciando-lhe a cabeça de forma terna e dizendo-lhe que tudo fazia parte do passado. Mas o miúdo tinha uma pergunta, entre muitas, que o queimava:
- Mãe… achas que ficaste com as culpas de alguém que tu conheces?
- Não sei... não sei nada... e agora não quero saber, não quero pensar nisso... na prisão não há muito tempo para pensar ao contrário do que te possa parecer... temos tarefas distribuídas e chegava ao fim do dia cansada... só com tempo para pensar em ti, mais nada. Alguém da agência falou convosco?
- A D. Elizabete é quem telefona sempre... manda beijinhos e diz-me que se precisar de alguma coisa que lhe diga.
- Ai a D. Elizabete...
- Mãe, ela até me dá prendas nos anos e no Natal e eu... bem, eu até pensei que ela...
- Ela o quê? – quis saber a mãe
- Bem, eu até pensei que ela fazia isto como uma forma de... uma forma de se desculpar...
- Oh filho, não acredito nisso- disse ela percebendo o raciocínio do filho. – A D. Elizabete não está metida em nada, além disso, ela sempre te deu prendas no Natal e nos anos, verdade?
Conversaram ainda por bastante tempo, vendo e revendo as fotografias de Santiago e Elena, tiradas num fundo com cenário de árvores e floresta, tão bonito que parecia verdadeiro. Finalmente, o filho adormeceu e ela sentou-se a fumar, com as palavras de Francisco dirigindo-se ao filho a ecoarem-lhe na cabeça “Temos que conversar os dois sozinhos sobre a lavagem ao cérebro que ela te vai fazer” e imaginando a conversa que teriam tido sobra a qual o rapaz nada dissera. Olhou a papelada que a irmã lhe enviara. Um envelope com mil euros, um cartão com o nome de alguém que os esperaria no aeroporto – Manuel Vega – e dois bilhetes de avião para Lima, a partir de Madrid, sem data marcada. Vinha também a recomendação da necessidade de telefonar para determinado número a informar que viajariam com, pelo menos 24 horas de antecedência.
Lima. Então eles estavam mesmo no Peru.

Dieta!

Com a mudança do clube veio um tratamento prescrito pelo fisioterapeuta e com o título: Dieta!
Pequenos almoços bem ricos, almoços variados e jantares... bem, os jantares são sempre iguais: dois iogurtes, três peças de fruta e quatro tostas...
Ora o Duarte é menino para um metro e oitenta e tal e noventa e três quilinhos logo, assim que lemos o papel da dieta, arregalámos logo os olhos.
Nunca fui muito exigente em matérias de comer e confesso que pensei imediatamente que a dieta seria uma sugestão e não uma regra...
Depois dum dia de aulas e dum treino de hora e meia ao fim do dia, que o obriga a entrar em casa quase às dez da noite, vou dar-lhe dois iogurtes e umas peças de fruta?
Não, desculpem lá, mas desta vez concordo com ele. Colocámos o papel da dieta na porta do frigorífico mas já conversámos sobre a necessidade de o tirar dali não vá o Pai aparecer lá em casa e com o amor que ele tem por regras havia de beijar o papel e levar aquilo às últimas instâncias...

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A rapariga que não gostava de livros com capas dobradas - XI

Paulinho querido
Nunca esqueças que mesmo em dias carregados de nuvens, o sol está lá atrás sempre presente, não nos abandona e mesmo que não o vejamos ele dá-nos vida. São palavras da tua mãe, deves tê-las ouvido muitas vezes, e tens que acreditar nelas. Por mais bêbeda que esteja a casinha, o resultado final vai ser feliz.

- Olha isso aí... não percebo o que isso quer dizer...
- A casinha bêbeda? – perguntou a mãe a quem as lágrimas caiam pela cara baixo.
- Sim. Isso quer dizer o quê?
- Espera que já te explico...

A tua mãe está inocente e nem que demoremos vinte anos vamos provar isso. Sabes que queremos muito estar contigo mas agora não é possível. O teu pai gosta muito de ti e tens que o perdoar quando ele se arrepender de não ter acreditado na tua mãe.
É importante que dês a ler o que te mando à tua mãe logo que ela esteja contigo.
Não te esqueças de comer um pãozinho de leite todos os dias e...

- Oh mãe... eu nem gosto de pão-de-leite! E ela sabe isso... – interrompeu o rapaz.
- Espera filho – respondeu a mãe, para quem aquilo fazia sentido e continuou:
Não te esqueças de comer um pãozinho de leite todos os dias e estuda muito, bem sabes que a escola é a coisa mais importante.
Recebe beijos e abraços muito fortes de todos nós e rios não poluídos de saudades
TT

- Atão mãe...?
- Espera... dá-me outra... explico tudo no fim – disse-lhe a mãe ainda digerindo o TT de Tia Teresa e adoçando a ponta dos dedos sob a fonte arial, mas imaginando a caligrafia redonda e perfeita da irmã.

Paulinho querido
Ou será só Paulo? Deves estar enorme...mas garanto-te uma coisa, não estás maior do que as saudades que temos de ti...
Esperamos que a escola vá bem e que te apliques, sabes como isso é importante para o futuro e como a tua mãe deve pensar nisso. O tempo vai passar depressa e brevemente estaremos juntos de novo. Adorava saber que leituras fazes, se já leste Júlio Verne e se o trauteias.

- Mãe... quem é que trauteia Júlio Verne?
A mãe não conseguiu evitar uma gargalhada e continuou:

Deves ler também autores estrangeiros e aconselho-te as Vinhas da Ira, dum autor americano chamado John Steinbeck. Como é um bocado pesado podes compensar vendo um filme divertido, por exemplo o Beijo Francês. Garanto-te que te vais rir.
A fotografia que enviamos é do Santiago, teu primo, com quem esperamos que tu te dês muito bem.
Os avós mandam galáxias de beijos e nós também.
TT

Paulo estendeu-lhe outra dizendo:
- A seguir foi esta.

Querido Paulinho
(vais ser sempre Paulinho até aos 100 anos)
Já namoras? Deves estar um rapaz fantástico e andar por aí a partir os corações das miúdas lá da escola, temos a certeza! Imagino-te como se fosses uma maravilha do mundo, a mais alta, a mais cultivada, a melhor. Todos os dias abrimos os braços como se fossem asas de desejos, para te abraçar e damos graças por faltar cada vez menos tempo para nos voltarmos a ver e temos a certeza que a ânsia da tua mãe por fazer o mesmo é enorme e calorosa, como o continente africano de que ela tanto gosta. Por falar nisto, já viste um filme que se chama África Minha? Tem paisagens encantadoras e conta uma história muito bonita. Não percas a oportunidade e vê-o e quando estiveres com a tua mãe conversam sobre ele.
Tem força Paulinho, que isto está quase a acabar e vamos encontrarmo-nos em breve.
Triliões de beijos e saudades
TT

Demoraram imenso tempo a ler dez cartas, pois ela leu algumas três e quatro vezes, a pensar se não lhe estaria a escapar nada, viram as fotografias de Santiago e Elena dezenas de vezes e quando terminaram, o rapaz pediu-lhe irrequieto:
- Vá lá mãe...
- O pai leu as cartas? – perguntou a mãe inquisitiva.
- Sim, leu tudo.
- E tu disseste que não percebias algumas coisas?
- Ele também não percebeu! Disse que a Tia Teresa tinha parvoíces destas e que devia pensar que eu já tinha vinte anos para perceber certas coisas...
- Como te hei-de explicar isto... – começou a mãe indecisa e trémula, de pé, a andar dum lado ao outro da sala– quando a tua tia disse para mas dares a ler era porque, na verdade, estas cartas são para mim e estão cheias de pistas!
- Pistas? Pistas de quê? - o rosto do rapaz iluminou-se.
- Ela dá-me informações através das cartas, ora vamos ver: a casinha bêbeda é dum livro, cujo nome não me lembro, e conta a história de duas irmãs separadas.
- Vocês!
- Sim, nós. O pãozinho de leite é doutro livro que se chama O Mistério do Jogo das Paciências e...
- E quer dizer o quê? Que tenhas paciência? - perguntou o jovem impaciente.
- Calma... sim... pode ter várias interpretações: para eu ter paciência, que há aqui um mistério qualquer e...
- Há isso há, estou a ver que sim...
- ...e também pode fazer referência a um jogo... mas não estou a ver qual... nós jogávamos tanta coisa… cartas, trivial, personagem incógnito… espera… - e a mãe de repente sorriu – é isso!
- Isso o quê mãe? – perguntava-lhe o filho ansioso.
- Personagem incógnito! Eles estão incógnitos em qualquer sítio, só pode ser isso!
- Incógnitos?? Porquê??
- Isso também eu queria saber, mas nós chegamos lá… se ela nos manda estas pistas é porque não pode falar, percebes? Mas ela quer dizer-nos alguma coisa…
- E o Júlio Verne trauteado? Quer dizer o quê?
A mãe continuava a andar dum lado para o outro com as cartas meias amarrotadas na mão a fazer raciocínios.
- Ela não se refere a um livro e sim a uma série da televisão com muitos anos e que era baseada num livro do Júlio Verne: Dois Anos em Férias! E eu passava a vida a trautear a música!
- Sim, mas quer dizer o quê? – perguntava Paulinho entusiasmado e acrescentando: - Eu tenho o livro, se soubesse já o tinha lido...
- Não sei bem... pode referir-se à minha ausência... mas ela sabia que eu adorava aquela história... e eu não adorei a minha estada na prisão... – ia dizendo a mãe mais para ela própria do que para o filho enquanto ia caminhando pela sala em volta dum sofá cheio de pó e a cheirar a mofo, e relia passagens das cartas.
- Leste As Vinhas da Ira? - perguntou a rir.
- Não... li aí dez páginas mas aquilo não me entusiasmou... mas vi o tal filme e achei giro...
- A ideia não era fazeres nem uma coisa nem outra, mas ela quer-me dizer qualquer coisa ligada a vinhas, uvas, vinho...
- Ah pois era... no filme ele tinha umas vinhas na França!
- Isso mesmo! Só não percebo a razão de tanto segredo... mas havemos de descobrir... há aqui mais coisas... maravilha do mundo mais alta e cultivada... vês? Outra referência a culturas e depois fala em África Minha... - e voltando-se para o filho – viste o filme?
- Sim, ela tinha uma herdade em África! – disse Paulinho entusiasmado.
- I had a farm in Africa... – repetiu a mãe com os olhos marejados e acrescentou – tenho quase a certeza que a tua tia também tem uma... de quê e onde... não sei... e o motivo deste secretismo todo também me escapa...
- Mãe, a maravilha do mundo mais alta é no Peru... a tia estará no Peru?
A mãe encantou-se com o raciocínio do filho e com a respiração afogueada e o pensamento a grande velocidade disse que era uma possibilidade.
- Ainda há aqui qualquer coisa... – disse a mãe – ou então sou eu que já estou a ter visões...
- O quê, o quê? – quis saber o rapaz.
- Asas do Desejo... isto não é inocente... Asas do Desejo é o nome dum filme que conta a história dum anjo que voltou a ser homem...
- E...? – quis saber o filho.
- E... não sei bem... fala de regresso, é evidente. Dum anjo... que não devo ser eu... e não estou a ver quem é... bem, agora esquece...
- Atão e agora como lhes dizes que já saíste? Como é que eles vão saber que já leste as cartas e já decifraste essas pistas todas? Não temos um telefone para lhes ligar!
- Paulinho... algo me diz que eles já sabem e agora não podemos fazer mais nada. Só esperar...
Conversaram o resto do dia com muito carinho pelo meio, falaram do pai, de Adelaide a sua companheira, dos amigos, da escola, de jogos de computador, de futebol enquanto ela ia pensando o que fazer para descobrir a família e dava voltas sem fim à cabeça imaginando a razão de todo aquele mistério que se mantinha indecifrável.
Foi um dia e noite longos, com um intervalo para jantarem num restaurante familiar perto da sua casa, sempre com muito para dizer e adormeceram já de madrugada com ela a dizer-lhe que no dia seguinte iriam visitar duas das suas amigas.
Mas na manhã seguinte algo lhe mudou os planos e quando se levantaram viram um envelope que alguém metera por baixo da porta. Não tinha remetente mas o filho garantiu-lhe que era dos tios e dos avós.
Foi com enorme emoção que constatou o que já suspeitava, que eles sabiam que ela estava em liberdade. Abriu a carta lentamente como quem quer fazer durar o momento que antecede a felicidade.

Cáceres e Lisboa

Em Junho de 2005 participei numa conferência em Cáceres. As janelas dos prédios estavam literalmente inundadas de bandeiras e cartazes todos iguais. A cidade engalanava-se assim no âmbito do processo de candidatura a Capital Europeia da Cultura... em 2016!
Fiquei impressionada com aquele empenho, aquela dedicação e aquele planeamento. Sentia-se que o assunto era recorrente em conversas, era querido das pessoas e todos queriam um lugar naquela procissão de glorificação da cultura, seja ela qual for, entendida e vista como for.
Faço a transposição para a candidatura de Lisboa a Capital Mundial do Livro e verifico que em 2010 nem as datas anunciadas coincidem, uns dizem 2012 e outros 2013!
Ninguém fala do assunto, não há envolvimento público e se houver privado deve ser às escondidas...
Verifica-se uma enorme falta de vontade, excepção feita aos promotores e a meia dúzia de gatos, passo a expressão.
Imagino que se a Cidade de Cáceres não ganhar isso é um pormenor: já se conseguiu muito com a envolvência duma cidade inteira, com a perspectiva e a expectativa; já se exaltaram as vontades e se pôs a cidade a mexer e, o que é mais curioso, é que, em conversa, fiquei a saber que ainda acham pouco...
(Ler notícia da candidatura no Público)

12 de Fevereiro de 2007

Mana querida

Acabo de comprar a revista de viagens! Adivinhas o que lá vem? Outra carta minha!
Aqui ta envio, para em seguida me telefonares…
“Há algum tempo que suspeito que Deus é vosso prisioneiro.
Agora tenho a certeza e disso quero dar notícia pública! Têm que ser publicamente acusados! Enganam-se se pensam que não estou atenta… aos poucos, desde há tempos para cá, introduzem pinturas em vez de fotografias em reportagens feitas com mão divina, para as quais vocês fabricam a autoria. São pinturas de sonhos, daqueles sonhos coloridos e doces, onde tudo é pintado com pincéis feitos de nuvens… são pinturas de cenários de filmes e não da realidade… sim, não me queiram convencer que AQUILO existe…
Por um qualquer processo, com certeza também com recurso às tecnologias disponíveis, vocês cometem ilegalidades do tamanho do mundo… roubam sonhos íntimos de cada um de nós, comuns cidadãos, e usam-nos sem apelo nem agravo, fazendo-nos crer que existem mundos que não existem… quem poderia cometer tal acto, senão a própria mão de Deus? Que pintou um local, a que aí chamaram Provença, e cujas imagens nos aparecem como se fossem fotografias… mas não são… Muito me agradaria saber como fazem: transportam-se para outros mundos paralelos ao nosso com recurso à física quântica? Ou são mesmo telas pintadas por Deus, de paisagens onde só a Sua imaginação tem acesso?
Provença…? Onde diabo fica a Provença? Na França? Mas a França não é aquele sitio onde está uma torre que se pode subir, com um nome dum francês que também andou por aqui, em Portugal?… ah, a França é muito grande? Fraca argumentação para quem tem em seu poder o poder de fazer o que vocês fazem… e contudo, não posso deixar de o dizer, é tudo tão real, parece mesmo de verdade, as casas, as pessoas, as cores, a mescla de tudo e o texto muitíssimo bem alinhavado, como uma renda, um bordado divino…
É na mistura do conjunto que se percebe que tudo não passa duma ilusão! Não há falhas, buracos a serem preenchidos: as flores são perfeitas, o ocre das casas faz-nos sentir calor, o verde da água dá-nos frescura, as escarpas e os desfiladeiros obrigam-nos a sentir o vento, olhamos o circo romano e ouvimos gritos de centuriões, os arcos da abadia trazem-nos a calma que leva à reflexão…
Como puderam pensar que iam passar despercebidos? Como puderam pensar que todos iam olhar para o vosso trabalho e considerá-lo obra vossa, única e exclusivamente? Como puderam inventar locais que ainda não foram descobertos pelo Homem? Como puderam alcandorar-se a aprisionar Deus e a dar-lhe tarefas como escrever ou pintar… agora percebo o porquê de tanta gente andar com esta Bíblia nas mãos…”
Tua irmã do coração
Camila

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A rapariga que não gostava de livros com capas dobradas - X

O filho, agora com 16 anos, estava de férias escolares e proporcionou-lhe um reencontro quente e cheio de urgência de abraços e partilha de lágrimas. Jurou-lhe que estava inocente e que tinha sido vítima duma grande injustiça. Disse-lhe que estava desempregada mas que havia de se desenrascar. Que desejava acima de tudo que ele a amasse e que passasse algum tempo com ela. Que queria saber de tudo o que lhe tinha acontecido durante a sua ausência e carregava nele o olhar de desejo de perdão pela distância e calou-se surpreendida quando o rapaz lhe agarrou nos ombros e a abanou, obrigando-a a olhá-lo nos olhos e disse:
- Mãe, não acredito que tenhas feito nada daquilo.
- ...e não fiz... mas ninguém acredita em mim.
- Eu acredito mãe, e a tia também e a avó e o avô...
A menção à sua família provocou-lhe um suspiro que parecia electrizado e a fez acordar:
- Paulo, afinal onde estão eles? O teu pai nem me deixou espaço para lhe perguntar... os teus avós estão bem? Não me mintas por favor...
- Para dizer a verdade, não sei – o tom de voz era triste e afastou o olhar do da mãe - Não os vejo à bué, acho que vivem na Alemanha… escrevem-me de vez em quando, mas nunca mais os vi e não lhes posso escrever porque as cartas deles não têm remetente...
- O quê? Nunca mais os viste desde quando? Abandonaram-te? E as cartas não têm selos de correio? E carimbos? E olha...
- Mãe, calma... Não têm nada! Acho que eles pedem a alguém para os pôr na caixa do correio! Isto faz-me muita confusão, mas o pai diz que é melhor assim. Passado p’raí dois ou três meses de tu teres sido... sabes, presa, eles convidaram-me para jantar na casa dos avós e a Tia Teresa fartou-se de chorar e de me beijar e de me dizer que eu nunca a esquecesse e eu não percebi porque era aquilo. Depois disse-me que ia voltar à Alemanha com o Robin e até combinámos que ela me vinha buscar nas férias e...
- E foste à Alemanha filho? – perguntou tentando mostrar um sorriso.
- Não mãe... eles nunca vieram e passado algum tempo os avós foram ter comigo à escola e disseram que iam ter com ela e foi uma cena esquisita e...
Paulo começou a chorar e a mãe chorou com ele, enquanto pensava Que raio de coisa é que se passa aqui? Que não me fossem buscar à prisão é uma coisa, mas abandonarem assim o neto e o sobrinho...
Não, decididamente havia muita coisa a explicar.
- Paulo, querido, preciso que me contes tudo o que te lembrares. Este comportamento não é normal... e o teu pai o que dizia?
- Mãe, sabes como é o pai... achou bem o afastamento e ficou todo contente quando a Tia se foi embora. Houve sessões de gritos entre nós porque ele não queria que eu visitasse os avós porque eles iam estar sempre a falar em ti e o pai dizia que isso não era bom para mim... quando eles também se foram embora, pronto, ficámos só nós os dois... e ela.
A referência era clara à companheira do pai. Para o acalmar, a mãe, embora com dúvidas de convicção, disse-lhe:
- Não te preocupes... vamos encontrá-los.
Era-lhe difícil acreditar que a sua família tivesse desaparecido do mapa por vontade própria, mas cortarem relações com o sobrinho e neto, era outra coisa diferente que ela não compreendia. Havia ali um mistério qualquer muito estranho mas como não queria preocupar o filho e desejava acima de tudo aproveitar aquele reencontro, decidiu pôr o assunto de lado, pelo menos temporariamente e passaram o resto do dia a conversar enquanto iam dando um jeito à casa, suja como um castelo abandonado na Idade Média.
Por duas vezes o telefone do filho tocou e, das duas vezes, ela ouviu-o dizer a rir:
- Não posso falar, ‘tou com uma miúda...
Tudo era motivo de mais beijos e novos abraços, e risos e lágrimas. O filho estava enorme, alto como ela nunca imaginara, já tinha barba e uma voz que em nada se parecia com a vozinha do garoto que ela deixara há três anos com o pai. Fazia-lhe festas na cara e nas mãos sem se cansar e obrigou-o a dar inúmeras voltas para que o pudesse ver bem visto, sempre com interjeições de espanto e de admiração. O rapaz foi pondo-a a par do que acontecera no mundo durante a sua ausência: cataclismos naturais, guerras, eleições, mortes na família, etc. Algumas das coisas ela sabia pois as companheiras iam tendo informações através das visitas, coisa que a ela sempre fora negada. Paulo fez-lhe imensas perguntas sobre a prisão às quais ela respondeu de tal forma que ele lhe retorquiu:
- Algo me diz que tu estás a fazer um relato ‘vida é bela’...
Perante o olhar surpreendido da mãe, ele acrescentou:
- Mãe, lembras-te do filme ‘A Vida é Bela’? Aquele filme é uma treta... quem já tenha estado num campo de concentração sabe isso... não se vê ali lixo, nem ratos, nem nada... eles andam vestidos normalmente, nem sequer estão rasgados... e tudo o que me estás a contar eu já vi em filmes...
- E tu por acaso já viste algum campo de concentração para falares assim?
- Sim, já vi... fui com a escola e estive quinze dias num intercâmbio com uma escola polaca, perto de Cracóvia... tu terias adorado ir... sabes, nem todos quiseram entrar e o setôr que nos levou disse que quem não quisesse, não tinha que entrar. Mas eu fui porque sabia que tu ias gostar que eu visitasse o campo e pensasse em tudo o que vi.
A mãe não conseguiu esconder as lágrimas, abraçou aquele rapaz enorme que nem parecia o seu filho e com quem estava em dívida de afectos, especialmente beijos e abraços.
Deu-lhe razão e explicou-lhe que não era fácil falar daqueles momentos e pediu-lhe que ele lhe falasse do que acontecera logo a seguir à sua prisão. Ouviu o filho descrever-lhe a mágoa dos avós quando ela fora presa, a angústia do pai e a raiva que ele próprio sentira por saber sempre que a mãe tinha sido injustamente encarcerada. Disse-lhe que a tia Teresa escrevera cartas sem parar a pedir uma excepção para a visitar, coisa que nunca lhe fora concedida. Contou-lhe como ultrapassara a sua dor, com palavras e olhares que em nada se adequavam a um rapaz de 16 anos e a mãe leu nessa conversa que ele há muito se tinha tornado adulto pelas circunstâncias da vida.
Falou-lhe das amigas dela que ainda o procuravam e em como sempre lhe davam força e o animavam insistindo na sua inocência. Garantiu-lhe que elas não sabiam que ela saíra, caso contrário teriam dito alguma coisa e a mãe respondeu-lhe que era melhor assim, pois precisava de algum tempo para se adaptar e não queria visitas com a casa assim. Pediu-lhe para, na primeira oportunidade, lhe dar a ler as cartas que recebera da família e foi com imensa alegria que ouviu o filho dizer que as trouxera, pois a tia mencionara que era importante que ele lhas desse.
Retirou-as da mochila, estendeu-lhas e ela viu que estavam atadas com uma fita de cabelo que em tempos lhe pertencera. Começou a choramingar e limpou a cara quando o filho lhe disse:
- Mãe, há aí coisas que não percebo nada...
- Não percebes? Como assim?
- Começa a ler que eu digo-te...
A mãe começou a ler alto mas logo na primeira linha fungou e afastou as lágrimas. Aquilo fora escrito pela sua irmã e ela tinha a certeza que havia um motivo bem forte para todo aquele, aparente, abandono. A explicação residia ali, naquelas páginas e assim que as lesse tudo seria desvendado.
Passou as cartas ao filho e pediu:
- Lê tu, por favor.
O rapaz agarrou nos papéis e começou a ler.