sexta-feira, 26 de junho de 2015

Ave Riso!

Antes de jantar pinto o cabelo e dou-me ao trabalho de o secar, esticando-o. Escorre pelas costas, de comprido, agora ruivo, em harmonia com o bronzeado que muitos gostariam de ter no fim do Verão.
Uso duas das várias escovas para esticar e enrolar e vejo que a escova da cadela está na casa de banho, em cima de um banco.
Acabado o penteado pergunto ao meu filho o que acha, com segunda intenção. Que sim, que está muito bem, a cor fica-me bem, o cabelo está enorme, admira-se ele. Explico que parece estar enorme, porque ficou bem esticado e, pondo a voz mais indiferente do mundo, agradeço ele ter comprado aquela escova, adiantando que ainda não me tinha lembrado de o mencionar... que bela compra!
A resposta não se faz esperar, acompanhada de olhos esbugalhados:
- Tás a brincar, certo? Mãe, tens que ir lavar a cabeça outra vez! Aquela escova é da Tróia!
Não aguento e desato a rir ao mesmo tempo que ele suspira. Rimos os dois.
Longa vida ao riso entre nós.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Na voz de Dean Martin... um mimo...

When Marimba Rhythms start to play
Dance with me, make me sway
Like a lazy ocean hugs the shore
Hold me close, sway me more

Like a flower bending in the breeze
Bend with me, sway with ease
When we dance you have a way with me
Stay with me, sway with me

Other dancers may be on the floor
Dear, but my eyes will see only you
Only you have the magic technique
When we sway I grow weak

I can hear the sounds of violins
Long before it begins
Make me thrill as only you know how
Sway me smooth, sway me now

Other dancers may be on the floor
Dear, but my eyes will see only you
Only you have the magic technique
When we sway I go weak

I can hear the sounds of violins
Long before it begins
Make me thrill as only you know how
Sway me smooth, sway me now
You know how
Sway me smooth, sway me now

Para ouvir e dançar aqui.

From Keats

Bright star, would I were stedfast as thou art
Not in lone splendour hung aloft the night
And watching, with eternal lids apart,
Like nature's patient, sleepless Eremite,
The moving waters at their priestlike task
Of pure ablution round earth's human shores,
Or gazing on the new soft-fallen mask
Of snow upon the mountains and the moors
No yet still stedfast, still unchangeable,
Pillow'd upon my fair love's ripening breast,
To feel for ever its soft fall and swell,
Awake for ever in a sweet unrest,
Still, still to hear her tender-taken breath,
And so live ever or else swoon to death. 

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Quadro de honra

Os meus sobrinhos estão no quadro de honra da nossa felicidade. Ela com um 4 a Música, ele a Trabalhos Oficinais, Educação Visual ou algo do género. De resto, nota máxima.
Os gaiatos só servem para pensar, não para fazer; darão dois péssimos ministros pois são excelentes alunos, ambos muito criticos do sistema e com uma capacidade, inusitada nas idades, para relacionar questões e perceber a multiplicidade de aspectos do quotidiano, no fundo, o desiquilíbrio da vida.
É claro que estralejamos de alegria com tão distintas notas, ufanamo-nos com uma carreirinha de cincos, temos a certeza que não davam seis, caso contrário, lá estariam.
Porém, há que dar os parabéns a mãe e pai, cuja atenção e dedicação contribui para estes sucessos. Não se trata de obrigar a fazer trabalhos de casa, eles fazem-nos sozinhos, espontaneamente. Trata-se de falar, de ler, de consumir informação, de discutir, de reflectir e, parecendo pouco, mas é talvez a fatia mais importante, trata-se de ouvir.
Por norma, são os filhos que ouvem os pais, mas o contrário é essencial, dar-lhes a palavra, não os acusar de dizer parvoíces, ouvi-los como pessoas que são.
Tenho imenso orgulho nestas duas pessoas tão especiais e acredito que estão ambos destinados a altos voos. Acredito porque eles manifestam a intenção, sem medo do futuro, de fronteiras, de línguas ou geografias, filhos do pai, um andarilho de meter inveja ao próprio Marco Polo.
Férias, venham elas que são muitíssimo merecidas!

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Fim-de-semana (em) cheio

Fim-de-semana alargado e de recarregamento de força e energia para as minhas amigas com um extra para mim: esquecer.
Fiquei melhor à força das brincadeiras delas e de um mar digno das Caraíbas, sol escaldante, areia fina, copos e muita gargalhada.
Tudo se passou no Alvor, palavra que alvoraça... mas concluo que um exorcismo precisa de confronto, de peito cheio, sem medos e foi isso que aconteceu, perceber o que quero acima de tudo e que se resume a conservar amizades.
Resume, mas não é coisa pouca, antes pelo contrário, é vital e imprescindível, depois de amizades desfeitas sem que eu tenha entendido bem como, há aquelas que me fariam sentir morrer se tal coisa acontecesse, por isso são precisas doses enormes de creme protector, para proteger e conservar, manter, cuidar, que o mesmo é dizer, esquecer certas coisas para guardar outras, mais valiosas.
Como a amizade, para sempre e mais quinze dias.
Ver o sol a despedir-se, sabendo que volta na manhã seguinte, bem cedo, passar a noite mais curta e o maior dia do ano em ambiente de praia, deixou-me bem disposta e confiante.
Curiosamente foi tudo diferente: não li uma página de qualquer livro, mas diverti-me imenso a ler revistas cor-de-rosa, leituras alto sobre os próximos episódios de novelas que nenhuma das três acompanha, mas que davam filmes cómicos com observações e, principalmente, com o facto de se ter instalado uma surdez colectiva provinda de tanto mergulho, fazendo que a alhos se respondessem bugalhos, originado ondas de gargalhadas e boa disposição que me elevaram a moral e me ajudaram a voltar ao meu eu.
Quem disse que a vida é uma maré acertou em cheio, há que esperar que suba e que desça, mas também podemos mudar a posição da toalha: desviar certos pensamentos, aceitar convites, estar disponível e não nos armarmos em Bela Infanta - eu que até desgosto de Almeida Garrett, por me ter desiludido quando percebi que As Viagens na Minha Terra foram feitas entre quatro paredes.
Vou deixar de tremer ao som da voz de Neptuno e vou ler mais revistas de Verão; parece simplório, mas será desafiante. 

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Urgentemente

Se Eugénio de Andrade diz...

É urgente o amor 
É urgente um barco no mar

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.

É urgente o amor, é urgente
permanecer. 

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Da ilusão

Estou confusa e baralhada.
Fui eu que não soube ler os sinais? 
Desaprendi a leitura do mapa da vida? 
Enganei-me na sinalética dos relacionamentos? 
Tão esperta para algumas coisas, tão burra para outras, diriam todas as pessoas que conheço.
Há alturas em que certos verbos parecem pertencer à categoria dos confettis, confiar, acreditar, esperar, essas coisas.
Qual fogo brando, ao qual apontaram um foco de calor, iluminei-me e agora sufoco no meu próprio incêndio, no qual acendo cigarros atrás uns dos outros. 
Isto passa.

terça-feira, 16 de junho de 2015

O mundo e eu

O que têm em comum a TAP, a agendada greve do Metro, as discussões sobre as eleições, a ausência de Ronaldo no jogo da seleção, a prevista subida da temperatura, a crise da Grécia, o IVA e o incêndio na basílica de Nantes?
Passam-me todos ao lado... porque o meu filho faz hoje 21 anos e isso supera tudo!

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Ganhar a lotaria

Era uma vez um garoto obeso e introvertido que aceitou o desafio de experimentar jogar andebol. Tinha sete ou oito anos, era muito alto para a idade mas mal sabia correr e pegar numa bola.
Não creio que os primeiros treinos o tivessem entusiasmado muito, mas a insistência dos pais e a permanente presença do avô, motorista, guarda-costas, amigo e companheiro incentivador e persistente, ajudaram-no a não desistir antes de perceber que só podia dar três passos com a bola na mão, uma das regras elementares.
A experiência transformou-se em vício, os colegas de equipa em amigos, alguns deles com todo o ar de serem amigos para a vida, os treinos e os jogos multiplicaram-se com pelo menos duas fases na vida em que jogava em quatro equipas diferentes em simultâneo: duas no escalão dele (A e B), ocasionalmente, no escalão acima e ainda na Selecção Distrital de Lisboa.
Esta actividade implicou muita deslocação, muito quilómetro, muito fim-de-semana passado em pavilhões desportivos ao longo deste país, e também no estrangeiro, principalmente durante o período em que pertenceu à Distrital de Lisboa e à Selecção Nacional.
Eu deitava jogos e pavilhões pelos olhos mas não faltava a um jogo, de Norte a Sul, batia palmas com convicção e prazer. Lembro uma ocasião, não sei já onde, quando foram para intervalo a perder por nove golos. Ganharam o jogo…
Lembro-me dele marcar trinta, sim trinta, golos por jogo, beneficiando da altura que tinha, lembro-me de ter ido uma vez para o estágio da Selecção Nacional e ter perdido o comboio a meio do percurso e de como me telefonou orgulhoso da forma como tinha resolvido a questão, enquanto outros pais me ligavam em stress a perguntar E agora? E eu, lampeira, Agora? O meu filho resolveu…
Lembro-me de o ver chorar com derrotas, mas só guardo fotografias com medalhas, medalhas às quais vamos juntar a que ganhou este fim-de-semana, Campeão Nacional, outra vez.
O rapazinho gordo transformou-se num adolescente vigoroso e ontem foi já um homem de barba rija que disputou um jogo foi muito emotivo, não tanto por ser para o título, mas por tudo indicar ser o último oficial… durante a partida, e percebendo que seriam campeões novamente, foram-me passando os últimos treze ou catorze anos pela frente, litros de transpiração, roupa a ser lavada à pressa para o próximo jogo, as estradas de Portugal, mesmo as mais pitorescas em busca do pavilhão perdido, os outros pais, igualmente incansáveis, pequenos-almoços, almoços, lanches, jantares e ceias, em carros próprios, em autocarros ou de comboio, a vir dormir a casa e a dormir onde calhava para estar lá à hora do jogo, fosse o jogo onde fosse.
Nos últimos dois anos perdi alguns, os que se disputaram mais longe, fruto da incapacidade de me deslocar e pagar combustível e portagens, refeições e estadias, mas estive sempre com ele, desde a hora do início até ao telefonema, seco, se tivessem sido derrotados, eufórico se tivessem ganho, telefonema esse que, normalmente, servia também para combinar a hora a que o iria buscar a Lisboa, regressado daqui e dalém. E eu lá ia, quantas vezes a levantar-me da cama ao toque da entrada da mensagem – tou entrar lisboa – quantas vezes de pijama, mas vínhamos sempre a conversar, foi assim, foi assado.
É claro que ontem me fartei de gritar no jogo – apesar de a vitória estar garantida por uma diferença enorme de golos ainda antes do intervalo – mas também me fartei de chorar, o que criou uma bizarra oscilação emocional.
Nunca ganhei a lotaria, mas se um dia acontecer não acredito que me sinta mais feliz e emocionada que agora.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Cry me a river

Now you say you're lonely
You cry the long night through
Well, you can cry me a river
I cried a river over you

Now you say you're sorry
For being so untrue
Well, you can cry me a river
Cry me a river
I cried a river over you

You drove me, nearly drove me, out of my head
While you never shed a tear
Remember, I remember, all that you said
You told me love was too plebeian
Told me you were through with me and

Now you say you love me
Well, just to prove that you do
Come on and cry me a river
Cry me a river
I cried a river over you
I cried a river over you
I cried a river...over you...

Dói que se farta

Séculos, sinto que passarem séculos desde a última vez que aqui escrevi.
O trabalho tem sido tanto e tão intenso que não encontro uma sombra para me deitar, menos ainda espaço para teclar.
Hoje vim ao exorcismo, o nublado do dia a fazer jus ao cinzento da alma, depois do frio se ter apoderado de mim, esbranquiçando a pele já morena.
Sinto-me um fantasma, sou mas não sou, visível e invisível, deambulo.
Agarro-me a conquistas e sucessos profissionais dos últimos tempos, a sorrisos largos, a trabalho bem feito e quando dou ouvidos ao relógio de parede, a badalar que há vida para além do trabalho, e me convenço disso mesmo, verifico que foi uma ilusão de óptica.
Como sinto acima de tudo que a minha missão é ajudar os outros, concentro-me desesperadamente nessa tarefa, como alguém que levou um tiro mas continua a rastejar.
Dói que se farta, mas passa.
Tem que passar.
Vai passar.