terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

L de livros e de ladrão...

Há cerca dum mês atrás falava-se de roubo de livros no blog Pó dos Livros. Um dos protagonistas da coisa confessou-se afirmando que o fazia por razões monetárias, e que nunca privava locais privados dos seus bens, mas fazia-o em grandes superfícies. Era noite quando li o post e respondi:

Senhor Ladrão de Livros, também eu guardo um livro roubado: chama-se O bando dos Ayacks, é um livro para adolescentes e eu era adolescente quando o roubei da carrinha da Gulbenkian. No início de cada mês abasteço-me depois de receber o ordenado, como quem vai ao Casal comprar produto. Quem me dera conseguir explicar a necessidae que tenho em ter livros em lê-los, em consumi-los. Vou dar uma ideia que talvez ajude: escrevo neste momento num computador com o ecran todo partido. É o único que tenho em casa. Escrevo cada palavra tentando não errar porque me é difícil ver o que escrevo ou o que leio... tiro umas pelas outras, afasto o olhar para tentar perceber o que leio. Muitos dizem-me que já devia ter comprado outro computador. É verdade. Porém, acabo por gastar o dinheiro todos em meses. Onde? Já se adivinha... para além de leitora, sou bibliotecária e trabalho numa editora. Sempre entre livros. mas nunca me passaria pela cabeça tirar um bit ao Bill Gates. Também sou viciada em viagens e já tenho uma razoável conta de Planeta Terra mas quando entro numa agência de viagens de viagens peço para levar um catálogo, apesar de serem gratuitos.
Imagino-o uma personagem, direi romãntica, do género de quem rouba pão para comer, saído da imaginação dum Dumas, um Miserável... será? Muitas podiam ser as interpretações, as leituras e, concluo, quem sou eu para dizer seja o que for, pois nada disto é um julgamento, logo, não julgo. Apenas comento: sejam os franceses ou os aimoré, o Belmiro ou o João, há sempre solução, há sempre alternativa para não roubar. A menos que se seja um personagem comandado por alguém, apenas fruto da imaginação de outrem, sem vida própria. As nossas acções são comandadas por nós e roubar não é bonito, mesmo que se assine Robin e se namore uma Marion. Se a miúda não o quisesse iria raptá-la...?
O que não falta por aí são Bibliotecas, fica a informação, just in case...

Dois ou três dias depois vi que tinha um e-mail dum desconhecido sobre o assunto Ladrão de Livros. Era ele. Duvidava de mim por ser bibliotecária e editora e ter de comprar livros. Respondi contando a minha relação de paixão com esses objectos, com o seu interior, com a sua alma. Ele respondeu na mesma moeda. Eu voltei a responder. E assim começámos uma troca epistolar entre gente que ama ler. E livros.
E assim descobrimos coincidências, gostos e coisas comuns, se calhar sem serem de espantar, que as pessoas que se banham nestas águas acabam por ser parecidas. E assim fui deixando cair alguma reticência sobre a pessoa dele. E assim venho descobrindo uma pessoa muito parecida comigo, cujo primeiro contacto foi a matar, mas que estou a gostar de conhecer.
Quando escrevo penso se ele estará a prevaricar… de certa forma, sinto-me cúmplice por dar guarida no meu espaço mental a alguém que rouba livros. Por outro lado, surge-me uma certa confusão por gostar de trocar e partilhar ideias com ele. Sensação estranha provocada por um igual. Começo a acreditar que são mais as semelhanças que as diferenças. Há uma certa síndrome de Estocolmo associada a esta estranha relação, escrita, não visual, nada banal.
Eu que tiro sempre o aspecto positivo de tudo e tento esquecer ou minorar as vertentes menos boas das coisas, concluo que estou mais rica desde que o conheci, apesar de me sobrar sempre a pedra no sapato ao lembrar-me da razão por que nos conhecemos…

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O Médico de Córdova

Feliz o dia em que me sugeriram esta leitura. Lido, está o livro entre muitos mas na prateleira invisível das melhores leituras.
Moisés Maimónides, a Águia da Sinagoga, está na História por ter precedido Tomás de Aquino na conciliação de Aristóteles e da Bíblia. O discurso é em forma de carta dirigida a um ex-aluno e que se prolonga por quase 300 belíssimas páginas em tom sério, mas muito bem-humorado, e com sentenças cheias de significado e que nos fazem pensar muito para além das palavras que lhe servem de suporte, de esqueleto.
O mundo está suspenso da respiração das crianças que vão à escola | A medicina é a ciência da pesagem dos erros, e a arte da escolha entre os riscos e os males | Há aquilo em que creio. Há aquilo em que penso. Há aquilo que faço. Há aquilo por que sofro. | Um pensamento vergonhoso vinha-me ao espírito sempre que passava diante dele: como é que se pode ser refugiado? | O mundo já é muito velho, e, a cada minuto que passa, recomeça | A cozedura das ideias requer mais subtileza que a do pão.
A descrição da preparação da autópsia e a verificação que os órgãos não estavam dispostos de acordo com o que Galeno indicava nos livros, levando o Mestre de Moisés à conclusão que o corpo estava defeituoso, é de levar às lágrimas.
Leitura inspiradora, duma vida atribulada mas verdadeira, uma vida empurrada, como a que está destinada aos judeus. Enquanto livro, é daqueles que o estreitar de páginas não lidas já para o fim nos cria tristeza por sabermos aproximar o epílogo e, aí, lemos mais devagar, lemos duas vezes o mesmo parágrafo, para desacelerar, para prolongar aquela nossa estadia no passado, numa vida, apesar de tudo, invejável.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Conversas banais

Não sei em que estação estou, vou absorvida pela leitura. A repetição de obscenidades, como ladainha de tabuada mete-se-me nos ouvidos. Levanto o olhar, pouco, e dou com ele em dois cavalheiros pouco mais velhos que o meu filho, bonés fundos nas cabeças que se adivinham quase rapadas. Comem sílabas atrás de sílabas, num discurso com palavreado actual. Moderno? Um deles fala do pai que está preso e conta ao outro os planos que tem, com a mãe, para o irem visitar. O outro conta um episódio com ar banal: a gigantesca parvoíce de um terceiro que, imagine-se, se recusou a assaltar um homem. Estavam num café na Damaia e viram o homem pagar puxando de uma nota gorda, guardando troco ainda avultado. Eram três, olharam uns para outros e fizeram menção de seguir o homem. O anormal do grupo disse que roubar, isso, ele não fazia, e foi-se embora. E não é que foi mesmo? A surpresa estava-lhes plantada nas caras. Na deles, na minha, na da mulher que viajava sentada ao meu lado, na meia dúzia que faziam o percurso no raio de audição das vozes.
O meu Médico de Córdova teve que esperar até antes de me deitar para conseguir retomar a leitura.

Olhar versus ver

Desde há vários anos participo com alguma regularidade nos passeios organizados pela SAL, Sistemas de Ar Livre. Os últimos foram sob a égide do conceito ‘Esta Lisboa que eu amo’ e transportaram-nos para uma época pós terramoto até ao século 19.
A menção a valores gastos na época para fazer isto ou aquilo e expressa em contos de réis dá sempre vontade de rir aos participantes. A mim faz-me franzir as sobrancelhas de admiração e, confesso, cria-me uma certa irritação os risinhos da plateia. Porquê? As pessoas ouvem falar dum donativo de quatro contos para o Jardim da Estrela e riem pensando nos vinte euros a que correspondem hoje, sem conseguirem transportar-se verdadeiramente para a época e perceber que era muito, muitíssimo dinheiro. Riem-se como se ririam das partidas que os Três Porquinhos pregaram ao Lobo Mau. Riem-se porque não estão a interiorizar o que lhes é dito e apenas a ouvir. A interiorização das ‘coisas’ é o que nos leva a pensar, para depois reflectir, conduzir raciocínios, concluir, se for o caso.

Passeio Público (Imagem retirada daqui)
 Bem sei que devo ter em conta a heterogeneidade dos participantes, as motivações, o interesse maior por esta questão em vez daquela, bem sei, mas não deixo de pensar como penso e não digo que estou certa, apenas partilho um pensamento.
Eu que trabalho em pleno Marquês de Pombal, e subo e desço a avenida da Liberdade dezenas de vezes no ano, via-a com olhos de ver este sábado pela primeira vez.
Não, não vou com os olhos fechados, e já a tinha olhado muitas vezes, mas nunca a tinha visto. A partir de agora sempre que lhe pisar a calçada fá-lo-ei mais devagar a lembrar, farei curvas até aqui evitadas para ver melhor, pararei mesmo com pressa para readmirar.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Cereja em cima do bolo logo de manhã

Quase às 10 da manhã vou apanhar o metro. A estação está vazia, o café fechado, nem sabia que ao fim de semana aquilo parecia um deserto.
Na plataforma está apenas uma senhora com cerca de sessenta e qualquer coisa anos, aproximo-me e dou os bons os dias que ela retribue. Ouve-se o altifalante avisar sobre as precauções a ter com o que transportamos. A seguir a informação repete-se em inglês e a senhora pergunta-me com ar de espanto:
- Se só aqui estamos nós, p'ra quem falarão eles?

Oh Romeu...

Num concurso de televisão, o apresentador pergunta a Romeu, o concorrente:
- Gosta dos países nórdicos? Conhece algum?
- Sim gosto, mas nunca fui a nenhum.
- E há algum que lhe chame mais a atenção?
- Sim, a República Checa.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A D. Marta e eu

Há muito, muito tempo tínhamos uma vizinha chamada Marta, mulher da idade da minha mãe, mãe dum amigo, minha grande cúmplice e salvadora em mil ocasiões.
A D. Marta era casada com o Sr. Armando, alfaiate de profissão e dono dum temperamento muito nervoso, de meter medo, apesar do seu pouco mais de metro e meio que ele compensava gritando em bicos de pés. Numa ocasião, tínhamos uma tia lá em casa de visita e incharam-lhe as mãos de tal forma que ficou com um anel a querer perfurar-lhe a carne. Procurou ajuda na casa da D. Marta para tirar o anel e quando nós chegámos a gritaria assustava até as pedras da calçada; o Sr. Armando recorreu a uma falha de sabão para fazer escorrer o anel e, não conseguindo, só viu uma solução: agarrar na enorme e bem afiada tesoura de alfaiate e cortar-lhe o dedo! Os gritos dividiam-se entre a minha tia, apavorada, a D. Marta, chateada e o próprio Armando, em fúria contra um bocado de metal. A cena em si era de loucos: ele tinha metido o braço da pobre mulher por baixo da axila e puxava com uma mão, enquanto a outra brandia a arma! A minha tia empurrava-o e abanava a mão como se estivesse a despedir-se de alguém para a eternidade e teria feito as despedidas do anelar não fosse a Marta que também ajudava, mas só com a voz, pois, esperta, não se chegava muito ao louco guerreiro que agarrado à tesoura fazia-a girar em busca do dedo a decepar. A minha mãe entrou, gritou-lhe o nome de forma sonante e no décimo de segundo que ele afrouxou para ver quem o desafiava, a minha tia escapuliu o braço e escapuliu-se toda da casa para fora. Não sei se lá voltou a entrar, mas sei que se lembra dele sempre que passa em frente a uma ourivesaria.
A adoração que eu sentia pela D. Marta era recíproca, de tal forma que quando o filho lhe apresentou a namorada, com quem depois casou, ela lhe disse alto e bom som, que esperava que ela fosse pelo menos metade de mim. Isto comigo ao lado da rapariga.
Os disparates da D. Marta eram célebres na praceta, mas um deles tomou proporções míticas que fizeram rir a freguesia toda, quando um pedinte lhe bateu à porta e ela lhe disse que dinheiro não lhe dava, mas estava a acabar a sopa e convidava-o a comer; sugeriu-lhe que, se quisesse, que fosse batendo às portas do prédio por ali acima (ela morava no rés do chão) e que quando voltasse, a sopa estaria no prato. O homem agradeceu e ela voltou às suas ocupações deixando a porta encostada para que ele não tivesse que voltar a tocar à campainha: os tempos eram mesmo diferentes! Porém, dois minutos bastaram para se esquecer da combinação e resolveu ir tomar banho. Entretanto, um dos vizinhos entrou no prédio e, passando à sua porta e vendo-a aberta, bateu; como não teve resposta, foi entrando e chamando. Nada. Correu a casa e nada. A única porta fechada era a da casa de banho, onde também bateu, e de onde ela saiu toda nua do meio duma nuvem de vapor, e deixando rasto, com a cabeça tapada por uma toalha ainda a limpar o cabelo, não vendo quem estava diante de si mas, julgando tratar-se do marido, atirando-lhe que fossem para o quarto enquanto os filhos não chegavam! Assim que o homem abriu a boca ela levantou a cabeça e viu que estava na presença, não de um, mas de dois homens e nenhum era o Sr. Armando: o pedinte estava plantado à porta da rua de olhos esbugalhados e nem o vizinho tinha dado conta da presença dele.
Ela grita o nome do vizinho de espanto, mete-se no quarto a galope e o vizinho, puxando da sua autoridade no prédio pergunta ao outro quem é e o que está a fazer ali. A resposta veio… sorridente:
- Ela vai dar-me de comer.
O vizinho achando que a resposta é matreira começa a expulsar o pedinte! Desgrenhada mas já ataviada com um fato de treino, ela saí do quarto ainda a ajeitar-se e esclarece a confusão: o vizinho desculpa-se, o pedinte come a sopa e chega o Sr. Armando, que só mais tarde soube da cena e não sabemos que cenas terá feito.

Hoje levantei-me mais tarde pois tive que atender um problema da casa do meu vizinho, causada pela minha casa de banho, e combinei com o canalizador às nove da manhã. As nossas janelas estão sempre corridas para cima pois dormimos à luz do luar e se for do sol do meio-dia, dá na mesma, pois tanto eu como o Duarte somos de bom dormir.
Tomei banho e saí da casa de banho nua em direcção ao quarto para me vestir. Assim que entrei estava um homem de capacete na marquise do meu quarto a três metros de mim. Fiquei tão espantada que não me mexi por alguns segundos. O homem riu-se, desviou o olhar e continuou a trabalhar. Na verdade, ele não estava na marquise, estava do lado de fora a arranjar o prédio do lado mas a proximidade é tanta que me deu a sensação que ele estava do lado de dentro.
Lá me tapei com uma toalha, fui fechar os estores e, inevitavelmente, lembrei-me da D. Marta…

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Prisão de alta segurança: a Varanda

A Administração da empresa onde trabalho ocupa um andar inteiro. Para além dos senhores administradores há três secretárias cujo posto de trabalho se expande para as varandas, adaptadas a arquivo. Ora as ditas varandas ficam ao fundo dum andar comprido e estreito e imediatamente a seguir às casas de banho, ou seja, quem vai matar a aflição, além de fechar a porta atrás de si, fecha também a porta à frente que dá para a varanda/arquivo.
Uma das secretárias estava em pesquisa aturada no meio duns dossiers com o sol a dar-lhe de chapa na cara, meia ensonada já, e não ouviu a porta da casa de banho fechar-se. Por seu lado, o aflito não fazia ideia que alguém trabalhava na varanda, resultado, fez o xixi e foi embora, mantendo a porta fechada.
A pobre rapariga lá olhou o relógio e viu que já eram mais que horas, deixa-me lá ir embora. Empurrou a porta e nada, estava fechada. Lembrou-se da gaveta de cima onde o telemóvel descansava e suspirou por ele. Bateu na porta e esperou, voltou a bater, a bater, a bater, nunca com muita força pois aquilo é tudo vidro, martelado, é certo, mas vidro. Deu início então a uns gritos, uns chamamentos, uns socorros. O relógio avançava impávido e nada de aparecer vivalma: já todos tinham saído. Abriu a janela e o escuro revelou-lhe que num andar por baixo a luz estava acesa, o que a encorajou a esticar-se e a gritar a plenos pulmões para o ar abaixo de si. A falta de resposta levou-a a concluir, e bem, que alguém se esquecera da luz acesa. Ora bolas!
O sol deu lugar ao fim do dia, frio, desagradável e escuro pois, se quando deu início ao trabalho, não era precisa a luz acesa, agora não via nada e o interruptor ficava do lado de lá das casas de banho. Desligado.
A desgraçada da rapariga estava a ver a vida andar para trás e a pensar no que tinha à mão para partir um vidro sem se magoar e, assim, poder meter a mão e abrir a fechadura, quando ouviu um barulho. Gritou e bateu na porta mas ninguém veio socorrê-la. O desespero fê-la ir às lágrimas olhando a única arma de que dispunha: um lápis. Além disso, começava a inundá-la uma enorme vontade de fazer xixi.
Pensou em usar o cotovelo, virando a cara no sentido contrário ao que iriam os vidros partidos. Deu com ele no vidro martelado com a força que achou suficiente e, para além da asneira que se lhe soltou da garganta, nada mais aconteceu. O raio do vidro era resistente e a dor era enorme. Enquanto amaldiçoava este mundo e o outro ouviu barulho de novo e deu início a outra sessão de gritos que, desta vez, produziram efeitos: a colega que há minutos entrara, quando ouviu a gritaria fugiu, foi procurar um segurança e voltava agora com ele, qual cavaleiro para libertar a dama, na sua altiva torre.
Ufa…

Há bens que vêm por mal ou Porque é que detesto transferências bancárias

Eu digo que sou distraída, os outros chamam-me idiota! Factos: vendi uma casa e não cancelei o contrato da EDP. Resultado, andei a pagar as facturas do consumo de luz de uns desconhecidos durante quase três anos. Agora dei pela coisa e percebi que tenho a receber algumas centenas de euros o que me deixou por um lado, furiosa comigo, pela monumental estupidez, por outro eufórica com a herança e, por outro ainda, com a perspectiva de poder realizar um dos meus maiores sonhos: fazer uma operação para deixar de usar óculos, que adio há anos. E vou continuar a adiar porque a minha casa de banho assim o decidiu.
Eu que gosto tanto dela, que a tenho florida e arrumada, perfumada e colorida e ela faz-me uma destas… sem mais nem porquê, ao abrigo do sigilo dos canos começa a verter água para a casa de banho do tipo de baixo que tem o tecto todo preto!
Chamado o grande especialista na pessoa do senhor canalizador cai-me o veredicto não em cima da cabeça, mas directamente nos bolsos: tenho que partir o chão, que partir azulejos, que mudar a banheira, consertar o tecto da casa do homem e sei lá mais o quê.
Para além de não fazer a operação à vista ainda tenho um gasto exorbitante de lágrimas…

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Volta Bom Senso, estás perdoado!

O Paredão Marítimo, mais conhecido por Paredão do Estoril, vai da praia da Azarujinha em S. João do Estoril até à praia da Conceição em Cascais e garante-nos um horizonte de mar de beleza ímpar, com casarões que remetem para antigas glórias, passando por praias, esplanadas e restaurantes, por equipamentos de treino físico, ocasionalmente, por exposições de arte, aos fins-de-semana por aulas de ginástica organizada, entre várias outras ofertas. É local de eleição de milhares de pessoas, que ali veraneiam 365 dias por ano, faça chuva ou faça sol.
No domingo estava à pinha: ainda se viam muitos casacos de Inverno, bem como ar de arrependimento em quem os levava, mas predominavam as mangas curtas e os calções, peles ansiosas por sol e calor. Na areia encontravam-se alguns mais aventureiros, já de fato de banho, e eu cheia de inveja.
No meio do paredão serpenteiam umas bolas brancas pintadas no chão, já meias apagadas pelas condições climatéricas e por todos quantos ali passam: identificam a via para ciclistas.
Nas múltiplas entradas para o Paredão as placas a informar sobre as regras de condução de bicicletas são meros postes que servem, quando muito, para os cães fazerem xixi: ninguém lhes liga puto! Os ciclistas pedalam à sua livre vontade, alguns a parecerem querer ganhar um qualquer concurso o que, com milhares de pessoas a circular a pé, torna-se potencialmente explosivo para todos, com manobras, derrapagens e travagens dignas de animais selvagens pois, ninguém com massa cinzenta ao nível dos humanos se lembraria de andar ali de bicicleta, num local onde a quantidade de crianças se equipara à dos grãos de areia.
A Tolerância Zero de algumas estradas tem ali uma nova versão que se podia chamar Vigilância Zero: sou utilizadora do Paredão todos os fins-de-semana e nunca vi alguém ser chamado à atenção, muito menos multado. Além disso, as reacções dos ciclistas quando alguém lhes diz alguma coisa, como já era de esperar, são quase sempre difíceis, digamos assim: reclamam, chamam idiota a quem lhes faz o reparo e continuam. Pois claro.
No domingo, mal se conseguia andar com a quantidade de gente, pedi a um casal, cujo pai levava uma criança de tenra idade na parte de trás da bicicleta e que teimava em passar nos intervalos da chuva entre os passeantes, que lesse o sinal. Não sabiam, que desculpasse, pois não voltava a acontecer, e saltaram das bicicletas. Continuei o meu caminho, vi um jovem fazer uma razia a um garoto com cerca de dois anos que andava de triciclo e cujos pais quase tiveram um ataque cardíaco, vi um casal de velhos a ser injuriado porque não se desviou da bicicleta que vinha por trás deles e, quando regressei, encontrei o mesmo casal com a criança de pendura, montados nas suas montadas a furar no meio da multidão…
A bem da verdade, não devia haver só multas para prevaricadores da lei mas também, e o Estado iria encher os cofres, para gente estúpida e anormal.
Compreendo que a Câmara quis agradar a gregos e troianos ao permitir a passagem de bicicletas naquela via, porém, neste momento tudo se resume a uma gigantesca teimosia e falta de óculos. Da mesma forma que há praias que ‘começam’ a época balnear mais cedo pois verificam que a utilização começa mais cedo e, para garantirem as condições de segurança, contratam banheiros a partir de Maio, por exemplo, a Câmara devia verificar que a quantidade de pedestres é de tal forma que não se coaduna com a possibilidade de passagem de bicicletas. Chama-se a isto adaptação à realidade!
Além disso, a marcação da via, é de design é certo, talvez até tenha custado os olhos da cara a alguém e só por isso devíamos olhá-la como obra de arte mas, se o local foi ou é palco de residência de reis, também é local de passagem de plebeus, milhares deles, cujos ténis vão apagando as bolinhas que fazem linhas e se tornam ténues. A intenção era boa se as pessoas soubessem o que é ser civilizado e cumprissem as regras. Assim, as bolinhas marcadoras fazem-me lembrar pérolas que estão a ser deitadas a porcos e depois de uma pessoa ver porcos a andar de bicicleta, já nada nos admira…
Por outro lado, para além de andarmos sempre a olhar para cima do ombro para evitarmos que um ciclista embata connosco, tem que se prestar muita atenção aos cocós dos cães cujos donos deixam por ali, talvez com a esperança que amanhã estejam transformados em estrume, que a pedra é de bom plantio, como toda a gente sabe. Mais ainda, as trelas vão penduradas nas mãozinhas dos donos e os cães considerados perigosos – vi dois no domingo – não têm açaime, caso contrário não poderíamos admirar a bela cremalheira do animal, bem como ficaria diminuída a possibilidade de arrancarem um braço a um qualquer miúdo que por ali ande aos saltos e, como se sabe, estes cãezinhos não gostam de gestos bruscos e atacam quando menos se espera; mas, mais braço menos braço, quem se preocupa com isso? Talvez até lhes arranquem um bocado da cara e a própria boca de modo a calar os miúdos que, como também se sabe, são muito barulhentos!
Onde andará o Bom Senso?

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Palavra de cigana

Aos cinco meses de gravidez comecei a perder sangue. O médico culpou uma viagem a Bruxelas feita uma semana antes, bem como a emoção forte e profunda da morte da minha avó Nicácia, na mesma semana. Internaram-me  no Hospital Garcia de Orta.
Como companheiras de gravidez e de quarto tinha as duas mulheres mais diferentes que podia imaginar: à esquerda, uma cigana acabada de sair da adolescência, cuja família enchia o quarto durante as visitas e a enchia a ela de bolos, apesar de ter sido a diabetes quem a internara aos cinco meses de gravidez, tal como eu, e o motivo secreto, de que ninguém se dava conta, da razão dos valores das análises não darem descanso e continuarem a ser uma preocupação.
À direita estava uma mulher mais velha, com cerca de 45 anos, também no quinto mês de gestação e que era tão gorda que não lhe conseguiam por o aparelho da cardiotocografia, ou CTG como é conhecido, e que nunca teve uma visita.
Lembro-me que nas horas das visitas virava-se para a parede e eu imaginava sempre que ela o fazia para chorar pela tristeza de não ter ali alguém. Assim, o número de visitas oscilava entre a tribo inteira, à esquerda, um número mais equilibrado, ao centro, e zero, à direita.
Quando todos saiam, depois de mil avisos e praguejos das enfermeiras, a cigana levantava-se, agarrava numa mão cheia de papéis de limpar as mãos e limpava o chão do quarto, afirmando que eram todos uns porcos que deixavam o chão do hospital naquela miséria! Fazia ouvidos de mercador aos meus avisos sobre tanta actividade, e nem me ouvia quando lhe dizia que não comesse bolos porque podia morrer. Conclui que ela não tinha medo da morte porque continuou a enfardar doces, apesar de ter sido admoestada com palavras vigorosas dos médicos, depois de eu ter contado as orgias doceiras que ali se viviam, e para as quais era convidada com generosidade, bem como a nossa gigante companheira de quarto que, ao contrário de mim, ainda se deliciou com duchesses, pirâmides e éclaires. Não me lembro de terem levado bolas de Berlim, caso contrário, também eu teria molhado o bico e não ficaria com água na boca como ficava sempre ao ouvir o fru-fru do papel e da caixa a ser aberta.
Mas se foi impossível tirar-lhe o vício da bolaria, mesmo com ameaças de morte iminente, foi duma facilidade extrema obrigá-la a deixar-se da ménage do chão: disse-lhe que dava azar limpar o chão com papel e foi um ai! Azar? Isso é que não!

Eu, leitora, era agraciada pelas minhas visitas com toda a espécie de literatura que muito me ajudaram a passar o tempo. À vez, lia para mim, para o meu bebé e para elas, pois ambas sabiam ler mas não o faziam por preguiça e falta de hábito, à excepção duma ou outra revista cor-de-rosa que circulavam pelos quartos e que saiam dali mais magras pois a cigana arrancava-lhes páginas com o pretexto de terem bonitos modelos de vestidos, imagens que se encaixavam na perfeição nos seus anseios profissionais: ser costureira.
Numa ocasião levaram-me uma revista de viagens, das quais sou fã. Ora, se pelos livros elas não manifestavam qualquer interesse, pelas revistas deixavam os olhos correr, o que me criou alguma preocupação. Assim que a segurei nas mãos, e ainda com as visitas à minha volta querendo conversa, passei as páginas de cabo a rabo procurando um vestido, uma saia, rezando interiormente para nem um lencinho de bolso encontrar, caso contrário, as mãos da ciganita mutilariam a revista que ainda hoje, cerca de 17 anos depois, guardo lá em casa. Intacta! Depois de revistar as peças de roupa, e depois do exército de gente sair, ofereci-lha emprestada – ainda com alguns arrepios, a bem da verdade – mas nem uma nem outra se interessaram por percursos pedestres nos Pirinéus nem por mergulhos no Mar Vermelho. Estava safa.

Ao fim do dia a visita era exclusiva para os pais dos nascituros e o pai do Duarte fazia o tempo de espera no átrio bem como o percurso no elevador com o jovem cigano, pai da criança que nasceria meses mais tarde no mesmo dia do nascimento do meu filho, por coincidência, coincidência maior já que também eu nasci ao lado dum cigano, sobre quem já aqui falei.
Porém, havia uma pequena grande diferença que fazia o homem invejar o pai do Duarte: nós íamos ter um rapaz e eles, uma menina. Ao contrário de mim, que estava proibida de me levantar, ela podia receber as visitas ocasionalmente na sala de visitas e não no quarto. Nos dias em que isso aconteceu o meu marido contava-me as conversas que tinham enquanto esperavam que os deixassem subir, e em como o outro lhe garantia que no dia em que a mulher regressasse a casa depois do parto ia engravidá-la imediatamente! O pai do Duarte argumentava que era muito perigoso para as mulheres, que as gravidezes deviam ter um tempo intermédio, que falasse com o médico. O outro encolhia os ombros afirmava que as mulheres eram fortes que nem vacas e que Deus o livrasse de ter que pedir conselho a alguém para engravidar a mulher! Era o que faltava!

Mesmo com visitas, leituras, análises, exames médicos de várias espécies e apitos dos CTG’s havia muito tempo para conversar. Quer eu, quer a minha jovem vizinha tínhamos curiosidade em saber a razão pela qual a gigantesca mulher com quem dormíamos no quarto não tinha uma só visita, nem do pai da criança. A curiosidade levou a melhor com ela, talvez pela idade, e um dia, a propósito da oferta beneficente de bolos, perguntou porque razão ninguém a visitava, a família morava longe, era? O marido era emigrante? Apesar das ajudas consubstanciadas nas perguntas, a mulher não as aproveitou, contou a sua história que nos deixou de olhos esbugalhados e dava um filme.

A senhora era proprietária dum humilde café numa das freguesias bem perto do hospital onde estávamos; tinha sido casada mas o marido era muito violento, bebia muito e ela tinha-o posto na rua. Para matar as agruras da vida viciara-se na comida e, segundo contou, comia a propósito de tudo e de nada: a antecipação das discussões dava-lhe fome, o fim das brigas levava-a ao frigorífico, as noites de espera pelo marido, sabendo que chegaria embriagado, eram passadas a comer, qualquer problema, fosse de que espécie fosse, dava-lhe uma fome que nem comendo passava. E assim foi engordando até chegar aquele estado que já mantinha há vários anos. Passado pouco tempo de ter conseguido afastar o marido descobriu que estava grávida, com uma gravidez já avançada de quase meia dúzia de meses da qual não se apercebeu pois o seu imenso peso tinha-lhe trazido imensas complicações de saúde. Apesar de tudo, a criança lá nasceu. O pai, que andava em parte incerta, soube por portas e travessas e quis conhecer o filho. O bebé já sorria quando ele veio à sua antiga casa e lá ficou apenas uma noite, tendo desaparecido no dia imediatamente a seguir, mas o suficiente para a mulher ter engravidado de novo! Mais uma vez descobriu tarde que estava de esperanças e, desta feita, com queixas de dores abdominais deu entrada no hospital na clínica geral e foi rapidamente transferida para a obstetrícia com grande surpresa. Nasceu o segundo filho que foi acarinhado, tal como o irmão, por amigos e vizinhos uma vez que não tinha mais família.
Como quem revê um filme já visto, meses mais tarde o pai quis conhecer o seu segundo rebento e voltou a casa com esse intuito, tendo permanecido apenas algumas horas durante as quais o amor, a paixão, a saudade ou o álcool, nunca se saberá, fizeram das suas e a senhora engravidou novamente, gravidez com tanta complicação, tanto mais que nunca perdera os quilos ganhos nas gestações anteriores, que ali estava ela, diante de nós, a contar-nos a história com um sorriso triste. Os dois filhos estavam com uma vizinha cujos afazeres a impediam de a visitar e trazer as crianças e cujo marido, desempregado, lhe mantinha o café aberto.

Fiquei extremamente impressionada com a história e a ciganita chorou a vida atalhada agarrada à mulher que o destino tinha colocado durante duas semanas na nossa vida. A cigana, um exemplo de elegância mesmo grávida, pesava o mesmo que um braço da protagonista daquele percurso de vida único e desde esse dia cresceu-lhe um sentimento de culpa por lhe estar sempre a oferecer bolos, passou a dar-lhe dicas para emagrecer, incentivando-a a embelezar-se e garantindo-lhe que um dos clientes, um dia destes, ia interessar-se por ela. Nestas tentativas de aumento da auto-estima da mulher, virava-se para mim e pedia ajuda para confirmar o que dissera. Ora eu estava com quase vinte quilos a mais e sofria interiormente sabendo já que seria o inferno para os perder, logo, não tinha grande força nem credibilidade para falar do assunto, mas a cigana lá me convencia com a sua jovialidade, fazendo até parecer que tudo seria muito fácil, e afirmando que ela própria ia fazer uma grande dieta, enquanto eu pensava que a pobre mal sabia o que a esperava assim que desse à luz face às promessas do marido de aumentar a prole.
Fui a primeira a deixar o hospital, elas iriam no dia seguinte. Prometi à cigana visitá-la no mercado e ela prometeu ter roupa exclusiva à minha espera. Prometemos ambas ir beber café ao estabelecimento da outra e nenhuma delas fez sequer menção em visitar-me uma vez que eu tinha a ocupação mais idiota e inútil das três: era bibliotecária. Fosse como fosse, os nossos filhos haviam de nascer no mesmo dia, palavras da cigana, de modo que ainda nos voltaríamos a ver.

A meio de Junho, o Duarte não se resolvia a vir ver como era o mundo e o médico determinou que seria internada e me provocariam o parto, caso contrário ele havia de ter idade de escola e ainda ali estava. Nem com provocações nem sem elas, a raça do rapaz não se decidia a sair e já eu estava farta de três dias no hospital quando vi entrar no mesmo dia a cigana que se fez anteceder por muitos ais gritados e berrados e a enorme mulher, a quem tinham rebentado as águas em silêncio e em silêncio solitário ali estava. Ali estávamos, de novo, as três. Pelo meio dos ais aflitos a cigana lembrou-nos do que dissera meses antes, que os nossos filhos haviam de nascer no mesmo dia e assim aconteceu. O pai cigano sorridente e feliz, apesar de ir ter uma rapariga, ainda nos disse que era pena que não fossemos ciganos, pois ninguém sabia o que podia acontecer anos mais tarde – que novidade! – e talvez os nossos filhos se conhecessem e gostassem um dos outro. Bem, para superar a história inusitada da nossa companheira, só mesmo o Duarte apaixonar-se pela ciganita que nascera no mesmo dia que ele…

O nascituro

Lembro-me da primeira vez que ouvi falar na palavra nascituro. A empresa onde trabalhava organizava uma festa de Natal para os filhos dos funcionários, que deviam ser inscritos antes, a fim de beneficiarem das melhores e mais bonitas prendas de Natal que já vi oferecerem-se em circunstâncias do género: as crianças eram contempladas com lembranças adequadas a rapazes e raparigas, sendo diferenciadas também de acordo com a idade, bebés, dois, quatro, seis, oito, dez e 12 anos, o que demonstrava um trabalho árduo mas eficaz e muito satisfatório para a canalhada e respectivos pais.
Uma amiga e colega de trabalho estava grávida quando escreveu o papel a informar que em Dezembro haveria mais uma criança a quem dar prenda. Um dos quadradinhos pedia que se escrevesse o nome da criança e como ainda não o tinham escolhido, escreveu nascituro.
A lista, enorme, ia para aprovação superior mencionando as secções, o nome da ou do progenitor, o sexo, a idade e o nome da criança. Assim, quem tinha a missão de autorizar aquele gasto, tinha também acesso a vária informação sobre a filharada dos funcionários e, dando uma vista de olhos na algazarra de nomes, no meio das Vanessas e dos Jorges, saltou-lhe à vista o Nascituro Serrano! Incomodado com o nome, nunca ouvido, nem em família nobre - talvez estrangeiro (!) -, e para satisfazer a curiosidade pessoal, uma vez que as prendas se davam da mesma forma a Josés ou Marias, telefonou para a pessoa responsável pela recolha de informação que confirmou ter sido a futura mãe a dar semelhante informação. Não satisfeito, o zeloso funcionário telefonou para a minha amiga, no fundo no fundo, com a verdadeira intenção de a avisar sobre as consequências, quiçá, caóticas, da atribuição dum nome daqueles a uma criança e já tinha o discurso alinhavado para a lembrar que os nomes não se mudam assim por dá cá aquela palha, bem como disposto a enviar-lhe uma lista com alternativas, quando ela, com uma frieza glacial na voz mas com um sorriso de gozo na cara, que eu via deliciada e expectante, lhe explicou o queria dizer nascituro.
O nascituro em questão recebeu a sua prenda de Natal, alheio a ela face aos seus poucos meses, com o nome de Pedro.

Cavalo à Solta

Minha laranja amarga e doce
Meu poema feito de gomos de saudade
Minha pena pesada e leve
Secreta e pura
Minha passagem para o breve
Breve instante da loucura
Minha ousadia, meu galope, minha rédia,
Meu potro doido, minha chama,
Minha réstia de luz intensa, de voz aberta
Minha denúncia do que pensa
Do que sente a gente certa
Em ti respiro, em ti eu provo
Por ti consigo esta força que de novo
Em ti persigo, em ti percorro
Cavalo à solta pela margem do teu corpo
Minha alegria, minha amargura,
Minha coragem de correr contra a ternura
Minha laranja amarga e doce
Minha espada, meu poema feito de dois gumes
Tudo ou nada
Por ti renego, por ti aceito
Este corcel que não sussego
À desfilada no meu peito
Por isso digo canção castigo
Amêndoa, travo, corpo, alma
Amante, amigo
Por isso canto, por isso digo
Alpendre, casa, cama, arca do meu trigo
Minha alegria, minha amargura
Minha coragem de correr contra a ternura
Minha ousadia, minha aventura
Minha coragem de correr contra a ternura

Fernando Tordo

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Em Z

Zumbem zagaias em ziguezague
Zarolhos zurram zangados
Zombis zurzidos zombam
Zodíacos zunem zarzuelas
Zepelins e zagalotes zelam as zonas

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Se bem me lembro...

Há muito, muito tempo, eras tu uma criança… não, não bem assim que devia começar, vou tentar de novo.
Há muito tempo, era eu de facto uma criança, quando o meu pai decidiu ensinar a minha mãe a conduzir. Tínhamos um Fiat 850, mais animal de estimação do que carro, numa altura em que se metiam lá dentro sete e oito pessoas e fazíamos o percurso das vizinhanças de Lisboa, onde moram os bons suburbianos, e chegávamos ao Alentejo profundo no meio de cantorias e dormência de pernas.
Num dia de folga levou-a para um arrabalde, onde andavam a construir prédios e já se viam as linhas da rua, fronteiras marcadas a lajes de passeio, com mais de meio metro de altura pois ainda não se tinha alcatroado o pavimento.
Sentou-a no lugar do condutor e, com a mão direita a agarrar a alça por cima da porta para se segurar, por entre ordens de carrega no acelerador devagar e levanta o outro pé ao mesmo tempo, trava, volta a ligar o carro, pára, avança, tudo sequenciado por grandes movimentos para a frente e para trás devido às travagens bruscas, não viu que outro carro se aproximava. Quando deu conta gritou-lhe que travasse!, mas ela carregou no primeiro pedal que os seus delicados pés encontraram e calhou a ser o acelerador. Ele, qual general, repetiu a ordem, ela, qual subalterna inexperiente carregou no erro, que o mesmo é dizer no acelerador e o carro avançou descontrolado. Ele, querendo remediar a tragédia, puxou o volante e atirou um dos seus pés ensapatado por cima da manete das mudanças para carregar no travão, mas não evitou que embatessem nos altos passeios que ali nasciam e em décimos de segundo viram o carro levantar um dos lados e dar uma primeira cambalhota.
Como se sabe, os anos 80 do século passado fizeram parte duma medievalidade onde o cinto de segurança era coisa não obrigatória e que ninguém se lembrava de usar, os bebés seguiam ao colo de suas progenitoras no banco da frente, a indústria das cadeiras e bancos para cómodo e segurança infantil dentro das viaturas era ficção científica, assim como o limite de pessoas dentro de cada carro era estabelecido pelo dono do mesmo ou pela necessidade de transporte da totalidade da família. Isto para dizer que as alminhas não levavam cinto, pois claro.
Experimentaram a montanha russa numa segunda cambalhota, antes mesmo de ser instalada na Feira Popular, sendo empurrados pela força da gravidade dum lado ao outro e, iam a caminho da terceira, quando o bólide assentou de costas numa rocha a meio dum pequeno riacho que ali passava.
Ficaram em posição de desenho animado com braços e pernas ao contrário e valeram-lhe os operários dos prédios em construção que, vendo o aparato da coisa, largaram o que estavam a fazer e correram na direcção do carro, levantando-o em peso e depositando a carcaça em terra firme, não sem antes terem tirado a tropa lá de dentro.
O meu pai estava atónito com o resultado da sua boa acção e só pensava na dificuldade que tinha tido em comprar aquele, como iria arranjar forma de o substituir. Ela, por seu turno, sacudiu-se, deu um jeito ao cabelo e olhou o mostrador do relógio, de marca branca comprado meses antes numa feira por meio tostão ou algo semelhante e disse, alto e bom som:
- Olha, felizmente não parti o relógio.
Levado o resto mortal para a oficina dum amigo, chegaram a casa fora de horas, criando-nos uma ligeira preocupação, nada que se compare às que temos hoje se alguém não nos atende o telemóvel imediatamente, e o meu pai lá nos contou a cena. Quando chegou à parte do relógio, rimo-nos todos, como é óbvio, e ainda hoje, quando ouvimos falar em acidentes de automóvel, perguntamos se o relógio escapou, deixando as pessoas um bocado à toa.
A faceta de instrutor de condução do meu pai teve êxito anos mais tarde comigo. Pelo sim, pelo não, nunca usei relógio.

Da natureza humana

Chego ao parque de estacionamento em cima das sete da tarde pensando se a mochila da ginástica estará no porta-bagagem. Estava. E também estavam dois carros a impedir a saída do meu!
Sem meias demoras chamo a polícia e explico a situação. Que vão mandar já alguém, que espere um bocadinho. O bocadinho foram apenas 10 minutos mas antes veio o proprietário dum dos veículos a quem me dirigi perguntando se achava bem o que fizera, se não via que naquele espaço não passava uma bicicleta muito menos um carro!
A simpatia estava em parte incerta no dia em que o senhor nasceu, a civilidade estava de férias, a cidadania ainda não tinha nascido, o bom senso estava numa brincadeira pegada com o respeito e ninguém deu conta do nascimento do pobre do homem que veio ao mundo sem as mais elementares noções de vida em sociedade, desconhecendo a existência do outro, quiçá, negando-a!
O homem cresceu para mim e em décimos de segundos ficou com mais dois palmos de altura e outros dois de largura e eu, bem, eu meti-me no carro e tranquei a porta enquanto ele dava a volta, praguejando, entrava no seu próprio carro e seguia viagem!
Entretanto chegou um carro da polícia com dois agentes que, verdade seja dita, foram muito rápidos. Expliquei o que acontecera e que os chamara pois nada me dizia se o Lobo Mau que tinha acabado de sair dali chegava em dois minutos ou às duas da manhã. Claro que sim, fez bem em chamar-nos, este aqui vai ser rebocado, e eu com um sorriso compensatório na cara, pois apesar de já conseguir sair, apetecia-me que alguém fosse, bem, não digo crucificado, não cheguemos a tanto, mas açoitado! Como não se usam já os açoites, olha, que lhe rebocassem o carro!
Contei-lhes a atitude do Átila, desfizeram-se em apreciações sobre a natureza humana, respondi-lhes falando dum dos canais de televisão lá de casa, um que dá desportos americanos e onde passam muitos jogos de basebol e filosofei sobre onde poderei comprar equipamento para jogar.
Talvez assim, o Adamastor na próxima vez pense duas vezes antes de querer fazer placagens.
Vai ser já hoje!

Em X

Xadrezes xingam Xás, Xeques e Xerifes
Xeque-mate.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Um assalto moderno

Cinco da tarde. O meu telemóvel toca e ouço uma voz feminina a identificar-se como funcionária do banco onde é depositado o meu ordenado. Penso instintivamente O que me irá querer vender? Numa voz de dó diz-me que suspeitam de tentativa de fraude com o meu cartão multibanco. A surpresa da revelação é acalmada interiormente pela certeza que o tenho comigo, logo, deve ser engano, toda a gente se engana e os bancos não são excepção, o meu cartão repousa dentro da carteira e a suposta tentativa de fraude, não passa dum engano deles. Digo-lhe isto e a senhora responde que o cartão foi imediata e automaticamente cancelado por medida de precaução e pede-me que vá a uma agência verificar se os movimentos da conta correspondem aos que eu fiz ou se há qualquer coisa que não bata certo.
Por coincidência há uma agência dentro do campus onde trabalho, chego lá em dois minutos, o senhor que me atende lista os movimentos e vejo uma transferência para uma conta no estrangeiro no valor de 1363 euros que, como se adivinha, eu não fiz.
Não consigo explicar a má disposição que me assola, o vómito gigante que quer sair das minhas entranhas, a onda de mal-estar que se tsunifica em mim.
Como se me tivesse acabado de dar a notícia duma doença grave o homem diz-me que tenha calma, liga não sei para onde, dá o número da minha conta, ouve com atenção, ar grave e sério, calado. Agradece, desliga e diz-me que o cartão foi clonado. Onde? Como? Quando? Por quem? Provavelmente numa das últimas caixas que utilizei, mais provavelmente ainda numa que seja ao ar livre, pois debaixo de tecto os artistas da coisa têm mais dificuldade em trabalhar.
Conversamos um bocado, ele diz-me que pode acontecer a qualquer um, que ninguém está a salvo, grande consolo; fala-me em kit’s que se colocam nas caixas multibanco, onde a certeza de estarmos a clicar nas teclas da máquina é pura ilusão pois, na verdade, estamos a clicar numa réplica que alguém ali colocou. Vou para casa com a respiração alterada e inconscientemente elenco as coisas que me aconteceram nos últimos tempos: assaltaram-me o carro, tive um acidente na auto-estrada, o carro avariou-se, as Finanças assaltaram-me ao abrigo duma informação mal prestada, para não falar de precariedades de saúde.
Já em casa, puxo da minha voz mais melodiosa para falar com os meus pais no telefonema nocturno do costume, de modo a que não suspeitem do sucedido, e desfaço-me em tristeza compensatória e verdadeira noutros telefonemas com amigos.
Combino com o meu filho que nos próximos dias andarei com o cartão multibanco dele, uma vez que o banco me avisou que demoraria cinco dias a enviar-me um novo. O Duarte diz-me o código, que não fixo e peço-lhe que mo envie para o telefone numa mensagem.
Hoje de manhã recebo uma mensagem dele: quatro letras. Devolvo a mensagem a avisar que tenha cuidado pois tem o telefone desbloqueado e anda a enviar mensagens sem querer. Ele manda outra a dizer que não, que apenas me mandou o código do cartão. Eu respondo a dizer que ele se enganou pois só vieram letras ao acaso. Ele liga-me a sorrir e diz-me para fazer a correspondência entre as letras e os números das teclas, e usar aquela combinação de números como código do multibanco. Vivendo e aprendendo…
Finalmente consigo arrancar-me um sorriso.