sábado, 30 de janeiro de 2010

O gajo das botas

Já chamei muita coisa ao meu amigo V. Muita mesmo. Mas mesmo assim, nunca acho ser o suficiente, ou melhor, ainda não encontrei a palavra certa, eu, que percorro o dicionário dia após dia e o tenho como livro de cabeceira, para que ajude a corrigir-me, para que me melhore.
Um problema técnico qualquer que não é para aqui chamado dificulta-me ouvir as mensagens de voz que deixam no meu telefone. Mas sabia que o V. deixara uma e fiz tudo para a ouvir. Consegui, ouvi e aumentei a sensação de urgência em ter uma palavra que o defina. Mas ao mesmo tempo penso que uma palavra só é infinitamente pouco, mesmo que a palavra seja 'Mundo'. Já pensei em 'Universo' mas também a acho atarracada.
Leio as cartas que me escreve, leio o blog com nome impronunciável para mim que estou habituada ao um dó li tá da vogal e consoante, vogal e consoante sabendo que é uma deficiência não saber ler nem compreender consoante e consoante, consoante e vogal e consoante e consoante e por aí fora.
Aqui fica publicamente dito que leio o V. como quem lê Proust, como um clássico. Com uma diferença fundamental, o V. escreve para mim. E o que é estranho no meio disto é que o ouço dizer na mensagem - e era mesmo ele, eu conheço-lhe a voz - que espera que eu leia o blog dele embora se sinta meio envergonhado da sua pobreza...
O V. fala não sei quantas línguas, disserta sobre a cultura europeia antiga, moderna, contemporânea e futura com a classe da medalha de ouro da patinagem artística, desporto que acho belo, entre muitos, em duas linhas converge no pensamento político de quem acha fascinante e de quem acha uma merda, mistura pensamentos de gente de quem nunca ouvi falar mas sei existir, pelo meio põe um poema em norueguês, chama mortos e vivos à conversa com uma lucidez que me deixa estarrecida e depois... envergonha-me quando deixa no meu telefone uma mensagem a dizer... que se sente envergonhado.
Será a palavra 'Enigmático' uma boa definição? Esperem, eu já tinha decidido que uma palavra só era redutora, portanto não pode ser...
Mas a verdade é que me dava imenso jeito... preciso de catalogar este rapaz!
Leio o blog dele e sinto-me um burro a olhar para um palácio, mais, aqui confesso a minha inveja pela minha falta de capacidade de escrita, pela minha falta de capacidade de relacionamento das coisas, pela minha falta de capacidade de memorizar como ele tem, que não esquece que fulano ou beltrano disseram isto ou aquilo, nos livros tal e assim assim.
Será a minha memória tão selectiva que só consigo fixar a página dos signos nos jornais?
O V. faz-me descrições onde sinto o cheiro da terra que ele pisa naquelas terras do norte da Europa. Sinto frio não a ver fotografias, mas a ler a descrição da neve a cair. Sinto-me empolgada com certos autores não por os ler, mas por deles ter notícias pelos olhos do V.
E a palavra? Que palavra há-de ser...?
Por mais que pense não me ocorre uma adequada... a não ser... talvez, não sei... Rapaz...
Um rapaz tem o mundo nas veias e os olhos no infinito, tem esperanças e não desiste, é teimoso, por vezes até demais, persegue o amor e, acima de tudo, tem uma coisa maravilhosa, deixa-se encantar. Esta capacidade de encantamento não é para qualquer um, é só para quem sabe ser Rapaz. Para quem é rebelde e não se acomoda, para quem não existem fronteiras nem distâncias. Para quem sabe fazer rir e chora connosco das nossas tristezas. Para quem é amigo para a vida.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

12 de Março de 2007

João
Acho que gosto de ti com toda a minha loucura e são para ti todas as lágrimas que eu guardo ao longo do dia e que há muito não derramo.
Nunca pensei que seria capaz de me suicidar, mas deve ser qualquer coisa assim que sentem aquelas pessoas que estão ligadas à máquina, meio vivas meio mortas. Elas próprias são meia máquinas, um relógio, um zombie, caminham não sabem para onde, estão mortas e não sabem. Estou farta de caminhar em estradas alcatroadas e empedradas por onde já passaram milhares de pessoas; esses caminhos seriam delas, meus não são certamente. O meu sítio está à minha espera, que eu o descubra, que eu o desbrave. Mas não o posso fazer porque estou aqui presa; outros diriam que era por causa das responsabilidades que tenho: e eu não sou responsabilidade de ninguém? Sou da minha responsabilidade e é por isso que me sinto coagida a fazer qualquer coisa. A música acalma-me imenso algumas tentações que tenho, mas começa a não chegar. As pessoas aborrecem-me cada vez mais, obrigam-me a esforços incomensuráveis para ter paciência para as ouvir e responder-lhes. Isso não quer dizer que eu não continue viciada em pessoas, continuo. Mas faço esforços para conhecer pessoas novas, talvez através delas eu encontre o que procure.
Olha-me esta agora, com problemas existenciais, anda a ver muitos filmes, a ler muitos livros e fez-lhe mal falar com o Paulo Coelho, e pensa que pode ser como ele: estás tu a pensar!! Problemas existenciais têm os desgraçados do Kosovo, as mulheres do Irão, as crianças da Índia, e mais uns milhões de pessoas por esse mundo: continuas tu a pensar.
Se me conheces um bocadinho sabes que não é assim. Mas descansa, as grades à minha volta não me deixam fazer nada.
Pode ser que um dia, o guarda, deixe a porta aberta por esquecimento...
Camila

A rapariga que não gostava de livros com as capas dobradas - VIII

Os dois dias que antecederam a saída da prisão foram de sufoco absoluto. Agia como um autómato, rezando para que nada acontecesse de repente que quebrasse aquela perspectiva. Passavam-lhe coisas loucas pela cabeça, como a possibilidade duma briga onde se visse envolvida sem intenção e que pudesse prolongar a sua estadia na prisão. Cremilde ainda ficaria e sentiu que deixava ali uma amiga. Muitas das outras atiravam-lhe sorrisos, uns de inveja outros de parabéns. O tempo teimava em correr mais devagar que nunca, as noites eram passadas a passo de caracol, qualquer coisa que fizesse nada ajudava a fazer desaparecer aquela angústia. Uma vez por semana trabalhava na lavandaria da prisão e, já no último dia, completamente alheada e obcecada pela saída dentro de poucas horas, deixou-se ficar muito depois do necessário, o que levou uma das guardas a procurá-la.
- Então Carequinha... hoje dormes aqui?
Ouviu a voz e sentiu-se acordar dum sonho, pondo-se em pé de imediato e começando um balbuciar que nem ela própria percebia. A guarda riu-se e mandou-a sair, sabendo que aquela prisioneira não causava problemas. Sabia também que aquele era o seu último dia ali e já assistira a muitos últimos dias. Uns agitados e até violentos, como uma situação que tinha presenciado há anos, em que uma reclusa esperara pelo seu último dia para pregar um prego na mão de outra, propositadamente, como viria a confessar, devido a brigas antigas. Mas também sabia que a maior parte anda alegre e bem disposta a contar a toda a gente o que vai fazer assim que sair dos portões da prisão, com descrições de abraços aos filhos, de actos sexuais, há muito não praticados, ou de vinganças contra quem ajudou a pô-las na prisão.
Mas a Careca não se encaixava em qualquer destas categorias, estava calada e meia alienada do ambiente que a rodeava. Para além de Cremilde, nunca fizera grandes amizades, exceptuando-se a admiração que sentia por Damiana, uma preta que passava horas a contar como era a vida em Pagué, na Ilha do Príncipe e que ela adorava ouvir. A única discussão que tinha tido ao longo dos três anos fora precisamente por causa de Damiana: numa tarde em que a ouvia com toda a atenção e se deslumbrava com a capacidade de descrição dos pormenores geográficos da Ilha, passou Carla, uma loura platinada com uma enorme raiz preta no cabelo e disse:
- Dá-te com as pretas dá e depois vem-te cá queixar de macumbas...
- Mete-te na tua vida e cala-te.
Carla não respondeu, mas voltou passados minutos com a Taxista, alcunha que lhe advinha da antiga profissão, e que a tinha levado à cadeia, pois insinuava-se aos clientes e depois roubava-os; e com a Rosa Mota, uma pequenina que dava ares da atleta e que alguém assim baptizara.
- A Careca gostava de ser preta... – provocou a Carla.
As outras duas riram-se e começaram a falar com sotaque africano.
- Nem olhes p’ra elas – disse a Careca abrindo os olhos para Damiana.
- Não olhes p’ra nós não...
- Ela quer-te só p’ra ela...
As provocações das outras eram indiferentes para a Careca mas ela sabia que não o eram para Damiana e levantando-se, disse aos berros:
- JÁ DAQUI P’RA FORA ANTES QUE VOS PARTA AS TROMBAS! ANTES DE FALAREM COMIGO VÃO APRENDER A LER E A ESCREVER!
- Olha... tamém quer ser dótora... acha-se mais esperta que as outras – comentou uma.
- É por isso que fala com as pretas que não sabem falar...
No meio dos risinhos a Careca optou por fazer qualquer coisa que sabia que deixaria as outras confusas:
- Oh Carla, diz-me uma coisa... tu que tens um cabelo louro tão lindo porque pintas as raízes de preto?
A Táxista e Rosa Mota olharam para Carla de soslaio, confundidas, e Carla, pronta para responder a uma qualquer ofensa, ficou de boca aberta a pensar o que havia de dizer e, finalmente, olhou as outras duas e disse:
- Esta afinal é mais parva do que eu pensava!
A Careca e Damiana riam-se e Carla ripostou:
- És mesmo estúpida e nem percebes que ainda ficas pior por te dares tanto com a preta...
- Carla põe-te a milhas, já! – Respondeu a outra abrindo-lhe muito os olhos e chegando a cara ao nariz de Carla. - Eu dou-me com quem quero e com quem me apetece e já agora ficas a saber que nem chegas ao calcanhares dela e qualquer preta aqui te deixa a um canto!
E elevando a voz ainda mais:
- Nunca me viste chateada pois não? Um conselho... não queiras ver... vais arrepender-te p’ra vida!
Aquilo foi dito com uma entoação tal, por uma pessoa considerada calma e pacífica e que nunca levantava problemas, que Carla intimidou-se e pensou que afinal a Careca não era a sonsinha que parecia. Levantou as mãos em ar de pedido de desculpa e afastou-se com as outras duas.
- Aquela da raiz do cabelo foi o máximo – riu-se Damiana, depois das outras irem embora.
- Elas nem perceberam... estúpidas...
- Como é que te lembras-te daquilo?
- Olha, foi uma prima minha que me contou como sendo real e a pessoa a quem fizeram a pergunta ainda respondeu ‘Não, eu pinto é o cabelo de louro’
Disse aquilo fazendo voz de tia de Cascais e riram-se as duas, até o momento de boa disposição ser interrompido pela Chinesa, a quem assim chamavam por ser mesmo chinesa, e que estava na prisão por motivos idênticos a Damiana, ajuda à emigração ilegal.
A Careca via a Chinesa também como contadora de histórias e, se bem que não tivesse o poder descritivo de Damiana, também a ouvia com frequência, falar de Macau, dos furacões que assolavam a zona, e de como se ouviam as sirenes a anunciar mau tempo e a sugerir que as pessoas ficassem em casa.
Qualquer uma que a ajudasse a ‘sair’ dali para fora era uma companheira que ela via com bons olhos e, não sendo racista, tanto lhe dava que fossem brancas, pretas, amarelas ou verdes às riscas. Eram pessoas, e isso chegava e, se tivessem histórias para contar tanto melhor, principalmente histórias de sítios onde ela nunca fora mas que sempre ansiara visitar. Quando souberam que trabalhara numa agência de viagens pensaram que conhecia o mundo e ela explicara que não era bem assim. A Doutora também tinha história para contar de viagens a congressos e conferências onde participara e ela ouvia tudo atentamente.
Um dia rira-se a bom rir quando, em conversa com a Doutora, esta lhe contava como era a cidade de Dubrovnik na Croácia, chegara uma das três irmãs da Brandoa e, ouvindo a conversa, rematou dizendo que não precisava de ir a sítio nenhum pois a Amadora tinha tudo! Era centros comerciais, cinemas, lojas, supermercados e a praia de Carcavelos ficava a quarenta e cinco minutos de camioneta!
Agora, quase a ver o ar fresco da liberdade, revia mentalmente vários momentos que ali passara: as zaragatas da Niña, Pinta e Santa Maria, um aniversário de Cremilde, quando o irmão lhe trouxera lampreia de ovos, a noite em que Lurdes, uma das ciganas, tivera uma apendicite aguda que a levara ao hospital no meio de gritos horrendos que ecoavam por toda a prisão, a chegada dos primeiros livros pela mão do pai da Doutora, as descrições de Damiana, a maldade da Castela, o contentamento por lhe terem dado a organização da biblioteca, a morte da Regina, uma madeirense com problemas cardiovasculares e que acabara por terminar os dias literalmente no interior da prisão.
Lembrava também o dia em que pedira para lhe raparem o cabelo, o que lhe dera um nome novo durante três anos. De repente ocorreu-lhe que não ouvia chamar pelo seu próprio nome há imenso tempo. Lembrava-se de ter lido que, antigamente, não se dizia o nome a qualquer um, pois achava-se que através dele poderiam ser feitas bruxarias ou similares ao dono do nome. Riu-se interiormente e, não fazendo qualquer esforço para chamar o sono, deixou-se ficar relaxada no catre a olhar, sem ver, o tecto.
- Amanhã... amanhã... meia dúzia de horas é tudo o que me separa do amanhã...
O amanhã dominava-lhe o pensamento e deixou-se ficar imóvel a sonhar com o regresso à vida.

Por vezes vale a pena andar de comboio...

Entro no comboio a meio da Linha de Sintra. Ouço imediatamente uma voz altíssima a falar ao telefone. Viro-me e vejo um senhor, dos seus setenta anos, com ar modesto, mas com um sorriso enorme na cara. A conversa era esta:
- Oh linda não digas isso...
- ...
- Tu sabes que eu só tenho olhos p’ra ti...
- ...
- Vá lá, esta noite vens lá beber um copo de três comigo... um ou dois...
- ...
- Assim é que é falar! E depois vamos p’ra detrás do balcão e aí é que vai ser...
- ...
- És agora velha p’ra essas coisas! Tens boa idade p’ra isso! Tens que ver as coisas doutra maneira, tu sabes é tudo, não te comparas com as novas que aí andam
- ...
- Aí não me digas essas coisas ao telefone que eu vou de comboio e o comboio vai cheio...
-...
-Olha linda vou entrar no túnel do Rossio e deixo de ter rede, eu ligo-te mais tarde p’ra combinarmos
- ...
- Um beijo grande, até logo.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A rapariga que não gostava de livros com capas dobradas - VII

Teve por companheira de cela Cremilde, a quem chamavam a Cremalheira, por ranger os dentes a noite inteira e, quando em conversa disse que não conseguia dormir porque Cremilde sofria de bruxismo, uma cigana que dormia duas celas à frente deu gritos até cair para o lado, dizendo que já sabia que Cremilde era bruxa e agora tinha a confirmação.
Cremilde estava presa por roubo, que assumia, e maldizia-se por se ter deixado apanhar, segundo ela, pela sua própria advogada. Três pretas retintas, as Azeitonas, mudaram de nome para irmãs Cajazeras, quando ela lembrou a restante comunidade duma telenovela antiga, o Bem Amado, e das três irmãs que andavam sempre juntas. Porém, um ano depois de ter chegado à prisão, entraram de facto três irmãs, muito jovens, todas casadas e com filhos, que estavam presas por alegados maus tratos aos pais, mas que só se falavam quando entravam em acesas discussões, acusando-se mutuamente do crime que as levara para Santa Cruz. Ela baptizou-as como a Pinta, a Niña e a Santa Maria. Ao todo havia quatro ciganas e três delas faziam a sua inveja pois não se cansavam de falar das visitas que tinham recebido.
Ela, uma das ciganas e mais seis outras mulheres, todas acusadas de tráfico de droga, não recebiam visitas, assim como duas outras, as heroínas da prisão, uma por ter dado uma real sova no marido e lhe ter partido uma dúzia de ossos e outra por ter ido mais longe e ter conseguido matá-lo. Nunca soube qual a verdadeira história pois contava-se que a Malhada, assim conhecida por ter imensas manchas na pele causadas por uma despigmentação, cansada de levar porrada, um dia esperou o marido e quando ele entrou na cozinha empurrou o frigorífico contra ele, derrubando-o e deixando o enorme electrodoméstico em cima do homem que tivera morte instantânea por ter batido com a cabeça na bancada da cozinha. Outra versão dizia que tinha deixado cair o secador ligado dentro da banheira quando o marido tomava banho. Uma coisa era certa, era uma pessoa sorridente, embora muito silenciosa, o que levava a pensar que a prisão era bem melhor que qualquer vida que pudesse ter tido em liberdade.
Ao todo eram dez que não tinham visitas e a quem não era permitido fazer tarefas ao ar livre e para quem as guardas olhavam com especial atenção, entre as quais a Castela – não sabia de onde lhe vinha o nome nem se era nome ou alcunha – que adorava picá-las fazendo circular histórias inventadas, ou não, sobre esta ou aquela e pondo algumas das detidas em polvorosa. Este método simples teve o condão de pôr a cadeia em brasa quando entrou uma brasileira, detida por prostituição, sobre quem a Castela contou que dormira com metade da Brandoa, de onde eram as três irmãs Pinta, Niña e Santa Maria. Foi a única vez que a prisão de Santa Cruz do Bispo viu as três irmãs unidas que, como prémio, viram aumentada a sua sentença e ficaram igualmente proibidas de receber visitas e de trabalhar ao ar livre, enquanto a brasileira foi transferida, primeiro para um hospital e depois, dizia-se, para outra prisão, assim como a Castela.
De início foi-lhe difícil habituar à comida, pois mesmo tendo um aspecto razoável, dava-lhe volta ao estômago e provocava-lhe vómitos. Ela que nunca comera sopa no Âncora, o café onde normalmente iam almoçar, por ser servida em tigelas de metal que a faziam arrepiar, agora tinha sempre um serviço daquele gabarito: tabuleiro, pratos, tigelas e copos, tudo em metal. Emagreceu alguns quilos ajudada pelas saudades e pela falta do sol. Andava sempre calada e desconfiava de tudo e todas, com a certeza de ser diferente pois era inocente. Porém, se muitas havia que faziam gáudio dos seus actos, muitas outras reclamavam a mesmo inocência que ela e, das conversas que tinham, chegava a convencer-se que assim era de facto o que a levava a concluir que a Justiça só era justa quando lhe apetecia. Face a estas dúvidas, passava horas a escrutinar cada uma das mulheres que com ela partilhavam o destino, tentando perceber qual delas seria também inocente, coisa que muitas reclamavam alto e bom som, mais alto que ela própria. Imaginava-as lá fora a serem mães e esposas, donas de casa e as mais diferentes profissionais – havia até uma que tinha sido gerente de um banco, e a proximidade do dinheiro tinha sido a sua desgraça – e mentalmente vi-as de avental, em casas diferentes conforme a sua imaginação lhe ditava, a fazer uma qualquer refeição.
No dia que soube da condenação pediu que lhe cortassem o cabelo o mais curto possível, se fosse rapado tanto melhor, pois a sua imaginação repleta de histórias e romances fizera da prisão um sítio com pulgas e piolhos e pior ainda, com brigas onde os cabelos eram puxados e arrancados e ela preferia prescindir do seu rabo de cavalo castanho a ter que passar por isso e, assim que chegou a Santa Cruz, alguém disse que entrara uma careca e ela ficou a Careca, tanto mais que sempre que lhe era permitido cortar o cabelo, voltava a rapá-lo. Não tinha espelhos e Francisco ficara do lado de fora dos muros, logo, não se importava em nada com o aspecto.
Num dia de boa disposição convenceu algumas das companheiras que cortava o cabelo assim porque pertencia a uma religião diferente, mas arrependeu-se logo pois a brincadeira arranjou-lhe confusões com as ciganas, profundamente católicas.
O que lera em livros e vira em filmes confirmava-se agora: teria que se agarrar a qualquer coisa para sair dali com a mesma sanidade mental com que entrara, mas teve consciência que não podia alimentar a raiva nem a angústia dos condenados inocentes que, com frequência, acabam por ser eles próprios vítimas desses sentimentos, e continuou a ler compulsivamente, afastando-se o mais possível da realidade da prisão, das brigas das companheiras, do consumo de estupefacientes e de qualquer ligação fosse a quem fosse.
Imaginava a sua família e em especial o filho, lá fora, a percorrerem as suas vidas e a esperarem, tal como ela, o dia em que tudo aquilo acabaria para poderem voltar a estar juntos. Via Francisco a tomar conta do filho, como pai solteiro, assumindo todas as responsabilidades pela educação da criança e adivinhou uma ou outra discussão entre eles. Os Natais e os aniversários do filho eram as datas mais difíceis e, numa ocasião em que fizeram uma simulação de incêndio, vira pela primeira e única vez, outras mulheres acompanhadas dos respectivos filhos, o que lhe causou uma dor tão intensa que nem conseguiu seguir as indicações das guardas que gritavam teatralmente, fogo, fogo, por ali, por ali, indicando a suposta saída.
Passava os dedos pelas fotografias do filho, de Francisco, da irmã e dos pais que levara consigo para a prisão e olhava-os como se fossem actores de cinema de que gostava muito mas que lhe eram inacessíveis.
Pensava repetidamente nas circunstâncias em que tinha ido ali parar, mas como se pensasse numa outra pessoa, que não ela própria, e tentava lembrar-se das caras do tal Miguel Vidigal, também conhecido como o Músico, do José Resende e ainda dum Baltasar França, também chamado o Miúdo. Supostamente ela seria cúmplice desta gente, que não conhecia nem sabia donde lhe vinham as alcunhas. Fora confrontada com estes supostos conhecimentos por um juiz com cara de anjo e cabelo tão louro que parecia sueco e não acreditara nela. Questionaram-na sobre as várias viagens que estes homens programaram e efectuaram através da agência onde trabalhava, e que tinham sido marcadas e desmarcadas sucessivamente, tal e qual de acordo com um plano de descarregamento de droga conhecido da polícia, cuja informação lhes foi dada através de informadores que lhes disseram antecipadamente passo a passo o que os traficantes iam fazer; na agência não constavam registos dos pedidos destas viagens, sinal de que só alguém a trabalhar lá dentro podia ter efectuado as marcações e depois apagado as pistas. Muito confusa e completamente atónita ainda percebeu qualquer coisa sobre ela própria escolher o tipo de lugar no avião de acordo com um código qualquer, que informava secretamente sobre a actividade da polícia e que, quando os bilhetes electrónicos eram emitidos e enviados, o passageiro sabia se devia fazer a viagem ou desmarcá-la e esperar data mais conveniente.
Esperava que alguém dum qualquer CSI viesse em sua defesa e declarasse inequivocamente que não era ela e sim outra pessoa a cúmplice daquela gente, mas essa personagem continuou como protagonista de séries de televisão e não fez nada em seu auxílio. Soube que todos os colegas da agência foram ouvidos e interrogados pela polícia e dava voltas à cabeça a pensar o que teria ela feito de diferente que absolvesse os outros e não ela. Pensou que talvez tivesse efectivamente feito as tais marcações, como fazia tantas, dezenas e dezenas delas, mas sem qualquer conhecimento de causa do assunto nem intenção escondida! O que teria indiciado a polícia na sua direcção?
Ouviu a condenação como se lhe falassem aos soluços, retendo apenas parte e reafirmando sempre que não sabia quem eram aquelas pessoas, cujas caras nem chegou a fixar. Decididamente alguém dentro da agência sabia muito mais do que ela sobre o assunto, mas deixou-a ficar com a culpa, ser condenada e cumprir a pena. Quando pensava em demasia neste assunto tentava mudar o pensamento para o filho e para a família, recendo ficar alheada da realidade, presa à ira e à vontade de vingança.
Dava-lhe um aperto no peito não saber se o filho a pensava culpada ou inocente, mas esperava que se lembrasse de todas as conversas que tinham tido sobre drogas e que percebesse que a mãe jamais faria uma coisa daquelas. Mas sabia também que a dúvida é das coisas mais poderosas e um miúdo com treze anos que vê a mãe ser condenada por tráfico de droga, tem direito a ter dúvidas. Porém, era animada com a ideia que os avós e a tia Teresa não deixariam a dúvida enraizar-se no espírito do neto e do sobrinho, respectivamente. Quanto ao seu próprio marido, aí era ela que tinha dúvidas.
Como era a maior utilizadora da biblioteca da prisão, foi-lhe permitido trabalhar lá, o que diminuiu a angústia dos dias e das horas. Muitos dos livros eram do mais desinteressante que havia e mais velhos que os trapos e ela propôs que contactassem editores a pedir ofertas de literatura. O pedido levou tempo a chegar ao director da prisão e os resultados positivos não vieram por essa via, mas antes pela mão do pai duma reclusa, a Doutora como lhe chamavam, uma médica acusada de negligência e que ali estava com uma roupa cinzenta igual à das outras. O pai, que também era médico, empenhou-se e conseguiu dezenas de livros, mas muitos deles eram manuais de medicina e, ainda por cima, em inglês e com anos de edição, o que deixava as potenciais interessadas com vontade de os devolver. Concluíram que os editores não sabiam o que fazer aqueles monos e foi uma maneira de se verem livres deles. Mas pelo meio vieram todas as traduções para português de Arturo Perez-Reverte, vários livros sobre as lendas de Avalon de diversos autores e editoras, livros de economia e política, em que ninguém pegou e, entre várias outras coisas, uma colecção da editora Ática das Obras Completas de Fernando Pessoa que tinha uma pequena grande particularidade, que todas desconheciam, todas menos ela: o volume das Odes de Ricardo Reis, era de 1946 mas fora impresso em 1945! Para ela isto era uma preciosidade e teve imensa pena de não ter ali a sua irmã para partilhar a leitura:

O tempo passa
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos quase
Maliciosos,
Sentir-nos ir.

Além disso, apesar de ser uma oferta, nenhum dos livros tinha a capa dobrada, como a irmã fazia questão de os preservar. Recordava algumas das manias de Teresa e, se lhe pedissem que a definisse, provavelmente diria:
-É uma rapariga que não gosta de livros com capas dobradas.

Quando ganhou um bocado de confiança com Cremilde pediu-lhe que pedisse ao seu irmão, que a visitava regularmente, que falasse à sua própria irmã, que lhe dissesse que morria de saudades e que fosse beijar o filho por ela, com beijos longos e calorosos.
Optou pela irmã com receio da reacção de Francisco, que nunca aceitaria falar com alguém que estava proibido de o fazer, mesmo que esse alguém fosse a mãe do seu filho. Mas o irmão de Cremilde regressou com notícias estranhas: a casa dos seus pais estava vazia, à venda.
À venda? Como assim, à venda? Então onde moravam? A irmã teria casado? Os pais mudaram-se? Para onde? Por instantes passou-lhe a Austrália pela cabeça, onde moravam os pais de Robin. Não, eles não tinham ido para tão longe; teria a situação dela causado alguma coisa? De repente deu-lhe um aperto no peito e subiu-lhe uma agonia: Aconteceu alguma coisa aos meus pais...
Lembrava-se do pai sem dizer nada a não ser chorar perante a figura da filha, presa e em julgamento no tribunal, e a mãe a dar-lhe força e a dizer que tudo se resolveria, que não se preocupasse com o pai, que ele já ficava melhor...
Há quantos séculos é que isto se tinha passado? As breves palavras no tribunal pareciam gotas de água que recolhia num frasco para alturas de muita sede.
O irmão de Cremilde trabalhava nas obras em Torres Vedras e não lhe era fácil andar dum lado para o outro, armado em detective, ainda por cima, sabendo que os contactos estavam proibidos. E assim, os dias iam passando sem que ela soubesse onde parava a família.
Estava sensivelmente a meio da pena, desconhecendo que o Presidente da República assinaria dentro de dias um documento que lhe permitiria, assim como a muitos outros, sair em liberdade condicional em poucos meses. Se bem que o diploma publicado em Diário da República levasse algum tempo a fazer efeito, ela foi transferida para Tires onde passaria o tempo que lhe restava e, em simultâneo, ajudaria a criar a nova biblioteca da prisão, dado que tinha feito um bom trabalho em Santa Cruz.
Quando lhe disseram que sairia dentro de um mês, sorriu mas não se mostrou extremamente entusiasmada. Num sítio como aquele, preferia comemorar os golos sozinha e, com a excitação, passou noites em claro, acariciando a cabeça quase rapada, lembrando-se da sua antiga cabeleira de Rapunzel que, não tardava nada, voltaria a renascer.

6 de Janeiro de 2007

Querida Laurinda

Este Natal não foi fácil…
Desde a última vez que conversámos, ao telefone ou por escrito, muitas coisas aconteceram: se bem se recorda contei-lhe que o meu marido não andava bem, que se mantinha muito calado e estranho.
Desde as férias de verão deste ano, as coisas agudizaram-se e culminaram com a minha saída de casa, com o Duarte, para casa dos meus pais, já em Novembro.
Neste momento, o João está connosco, também em casa dos meus pais. Comprámos finalmente uma casa, que eu vinha a querer há quase 12 anos!
O João calou-se completamente e não abria a boca para nada. parece incrível mas é verdade. Claro que eu falava com ele – há anos que o venho a fazer – mas sem sucesso. Nunca me passou pela cabeça que me custasse tanto sair de casa. Mas ainda bem que o fiz.
Ele anda a fazer psicoterapia na sequência de lhe ter sido diagnosticado uma fobia com um nome técnico qualquer daqueles que não se decoram e que parecem um palavrão, mas que traduzido por miúdos, quer dizer medo de viver! Só de escrever isto eu me arrepio.
Os médicos onde fomos disseram que ele precisava de grande apoio e eu nunca lho neguei.
Em pouco mais duma semana perdeu quase dez quilos e andei com preocupações do tamanho do mundo, mas sem nunca pensar em voltar atrás.
O Duarte passou momentos difíceis e até voltou a fazer xixi na cama mas, agora, parece que tudo está bem encaminhado.
Comprámos um apartamento, sem quintal, claro, o que é duro para o Duarte por causa dos cães e da liberdade que aquele espaço lhe permitia. Mas paciência.
Porém, sair duma casa que é dos pais dele e metermo-nos numa que é dos meus pais, parece ridículo, tanto mais que os meus pais vivem lá… imagina que as coisas têm sido difíceis, não é? Se me atraso meia hora, a minha mãe telefona-me imediatamente, como se eu tivesse 15 anos… Enfim…
Espero mudar para a casa na segunda semana de Janeiro, todos os dias rezo por isso.
Por outro lado, a minha irmã, com quem tenho uma ligação fortíssima, como sabe, não tem andado bem: começou com estranhas dores de cabeça, já fez mil exames e não se sabe o que é, suspeitado-se de tudo, inclusive duma bolha no cérebro. Há cerca de dois meses durante uma semana, não consegui fazer nada, nunca me tinha sentido assim. Agora está a fazer uma medicação e está melhor. É muito estranho, pois as dores de cabeça abrandam quanto mais ela estiver ocupada, ou seja, qualquer discussão, leitura, análise dum texto, etc., faz com ela melhore, como se precisasse de ter o cérebro ocupado.
Eu mantenho o hábito de ir caminhar para a praia aos fins de semana, com uma particularidade, caminho dentro de água. No domingo antes do Natal não quis deixar de o fazer, mas fui inconsciente ao ponto de entrar na água… resultado, fiquei com uma amigdalite tão grave que a médica me disse que há anos não via uma garganta tão mal. Injecções de penicilina de manhã e à noite, medicamentos diversos, mudez total, pois falar era doloroso, e caminha. Tudo isto durante uma semana pois, por pouco, quase não me levanto na véspera de Natal.
E foi este o motivo porque não escrevi um postal nem fiz um telefonema a ninguém: não era, simplesmente, capaz.
Ontem já vim trabalhar embora ainda tenha dores de garganta.
Com tudo o que lhe acabo de contar é fácil imaginar que já faltou mais para que eu fosse despedida: não me lembro de ter sido, em tempo algum, tão desinteressada do trabalho, tão aérea, tão negligente, tão ausente. Faço um esforço enorme para me concentrar, mas mesmo agora que tudo parece estar melhor encaminhado, tenho sérias dificuldades. Tudo o que faço é tirado a saca rolhas, honestamente lho digo.
Desde há três anos que faço uma semana de férias sozinha: este ano nos Açores, o ano passado em Moscovo, o ano anterior em Creta. Porém, estes momentos de solidão fazem-me pensar muito e por vezes não sei se pensar me fará bem à saúde…pensar dói, como dizia alguém…
Acredite que também eu não me esqueço de si e gostava de saber novidades com mais regularidade.
Receba um grande abraço e muitos beijinhos de amizade profunda
Camila

A rapariga que não gostava de livros com as capas dobradas - VI

Foi condenada a cinco anos e esteve presa três. Acusada de cumplicidade pela entrada de droga em Portugal, via Marrocos, e de uso de meios da agência de viagens para os mesmos fins. Fruto do aumento da criminalidade nos últimos tempos, as leis recentemente revistas e introduzidas em Portugal, provocaram uma série de alterações no sistema penal e aplicou-se-lhe um regime excepcionalíssimo e duro, em especial para a sua amada família: foi proibida de ter visitas.
Durante dois meses, ainda em preventiva, recebeu a visita do advogado que lhe comunicou finalmente que nada havia a fazer e que era impossível recorrer. Na melhor das hipóteses reduziam-lhe a pena se tivesse bom comportamento e se, cá fora, a onda de criminalidade amainasse e as coisas fossem revistas.
Passou dias sem dormir a pensar quem poderia tê-la colocado naquele inferno. Alguém da agência era cúmplice mas não ela. Mas quem, quem? Reviu cada um do seus colegas e tentou lembrar-se de algum comportamento suspeito nos últimos meses, tal como já fizera imensas vezes, a pedido do advogado que a aconselhara a fazer esse raciocínio, uma vez que jurava a pés juntos a sua inocência.
Júlia era a mais velha na agência, uma espécie de faz-tudo, principalmente com alguns estagiários que D. Elisabete, a proprietária, contratava, através de programas de estágios e parcerias com universidades. Júlia já era avó e não se passava um dia em que não trouxesse novas fotos dos seus netos, sobre quem falava sem parar, descrevendo as novas gracinhas das crianças. Era viúva e ia todos os dias a casa da filha ajudá-la a dar banhos e refeições aos miúdos depois de sair do trabalho. Para além disso, participava activamente em programas de incentivo à leitura na biblioteca pública do local onde morava, contando histórias ao sábado à tarde, no programa da biblioteca conhecido como ‘Hora do Conto’. Conhecia-lhe duas amigas, ambas viúvas também, com quem ia de férias, mas só até nascerem os netos, porque depois disso Júlia dedicara-se-lhes com o empenho de qualquer avó e esquecera as férias.
Por mais que se esforçasse não via Júlia como uma passadora de droga, nem tão pouco a Fernanda, uma mulher de quase cinquenta anos, casada e com dois filhos, um dos quais com uma deficiência física que levava Fernanda e o marido a escrever repetidas cartas ao Presidente da República, ao Primeiro Ministro, à Assembleia da República, aos partidos políticos e a todos quantos ela se lembrasse, queixando-se das dificuldades que os deficientes motores tinham em andar de cadeira de rodas pela cidade. Fernanda fazia parte da Liga Portuguesa dos Deficientes Motores e, não raro, aparecia na televisão a dar entrevistas. Era uma pessoa calma e que inspirava uma confiança profunda e não se adequava ao perfil de passadora de droga.
- Mas qual será o perfil dum passador de droga? – perguntava-se ela, na solidão do seu isolamento. Na verdade, a única coisa que sabia era que as pessoas mais improváveis também caiam em tentação e o dinheiro que estava envolvido, com frequência, fazia esquecer qualquer moralismo. Mas mesmo assim, não, a Fernanda não.
A estagiária que ia fazer seis meses de trabalho na agência, a Rosário, era uma miúda que gastava horas de vida na camioneta a caminho de Nave de Haver, no concelho de Almeida, a sua terra natal e onde viviam os seus pais. Rosário passava o tempo a contar o que acontecia lá aquelas bandas, como a Câmara de Almeida promovia eventos históricos espectaculares, como a recriação histórica do cerco de Almeida, o que levava milhares de turistas à cidade, falava da exploração de volfrâmio por métodos artesanais onde trabalhavam alguns familiares seus, da Ribeira de Tourões, das idas a Espanha e trazia com frequência enchidos e doce de abóbora para as colegas. Estas brincavam com ela dizendo-lhe que, na verdade ela tinha nascido era em Vale da Coelha ou Vale da Mula, outras freguesias do concelho, mas que não queria dizer a verdade pois tinha vergonha dos nomes. Era uma rapariga bem disposta e franca que tinha vindo para Lisboa para estudar e ainda se espantava com alguns factos da vida, motivo pelo qual também estava de lado como passadora de droga.
Com ela trabalhava ainda o Sr. Malheiro, homem de cinquentas e muitos, cuja mulher tinha ligeiros ataques de ciúmes por o marido trabalhar só com elementos do sexo contrário, e fazia frequentes visitas à agência dizendo que tinha passado ali perto e resolvera visitar o marido. Todas sorriam sabendo que mentia e que a verdadeira intenção era vigiar o pobre homem. Quando o Sr. Malheiro atendia uma cliente, todas concorriam na brincadeira e diziam-lhe:
- Ai se a D. Elsa entrasse agora...
Ele sorria em resposta e chegava mesmo a adiantar:
- Se ela hoje aparecer por aqui, agarro numa destas velhas cheias de dinheiro que vão passar o Inverno nas praias da Caraíbas e ofereço-me para ir com ela!
- Oh Sr. Malheiro, a D. Elsa é uma querida, não diga isso – ao que ele respondia:
- ‘Tou a brincar... Eu adoro a minha mulher... e as casas que a família dela tem!
Riam todos, pois sabiam há muito que o Sr. Malheiro trabalhava porque queria, uma vez que a D. Elsa era dona dum património considerável e, um dia, herdaria ainda mais.
Numa ocasião, a dona da agência tivera uns problemas de insolvência financeira e fora o Sr. Malheiro que, dum dia para o outro, a ajudara, com a intervenção de D. Elsa que mostrara uma generosidade enorme. Todos conheciam a história e sabiam que fora assim que, quando a D. Elisabete pode pagar a dívida, antes de o fazer perguntou-lhe se ele queria o dinheiro ou se queria ser sócio dela, o que ele aceitou, sendo actualmente dono duma parte da agência. Apesar de tudo, o Sr. Milheiro era uma pessoa humilde que nunca fazia valer a sua posição de destaque dentro da agência, nunca esquecia o aniversário duma colega, que brindava com um ramo de flores e era uma espécie de confessor de problemas de amor, de todas as que ali trabalhavam. Ele e D. Elsa não tinham filhos e tinham em tempos adoptado uma criança, que morrera com uma intoxicação alimentar, assunto tabu, mas do conhecimento geral. A pachorrice do Sr. Malheiro era atribuída ao facto de ver a vida com outros olhos depois de ter vivido semelhante situação.
Não, o Sr. Malheiro, não contribuía para a desgraça alheia passando droga, era impossível.
Restava a D. Elizabete, a dona, adorada por todos, mulher incansável e trabalhadora, que abria as portas da agência de manhã e as fechava depois de todos terem saído. Amiúde, quando chegavam de manhã, verificavam que ela tinha enviado e-mails à meia noite ou mais tarde, com informações sobre reservas ou respondendo a qualquer solicitação que não fora capaz durante o expediente normal. D. Elizabete ia à cabeleireira todos os dias e andava sempre muito bem arranjada e maquilhada. Na maior parte das vezes era a filha, uma jovem com vinte e dois anos, que lhe fazia as compras e todas viam saias novas, camisas, casacos ou sapatos ainda antes de serem estreados, pois a filha mostrava as novidades a todos na agência, orgulhosa de ter descoberto qualquer coisa e perguntava sempre com um sorriso enorme:
- Isto não é a cara da minha mãe?
Todos concordavam que sim, que era a cara da mãe dela e, dias depois, lá vinha a D. Elizabete com a roupa nova que todos elogiavam, incluindo o Sr. Malheiro.
Lembrava-se de como fora contratada por D. Elizabete, num dia de temporal, às nove da manhã. Chegara à agência completamente encharcada, sem as mínimas das condições para ser entrevistada; meia envergonhada de ter ar de quem saiu da banheira no minuto antes, com a pintura a escorrer-lhe pela cara e com riscos negros de rímel a fazerem ribeirinhos pelas suas bochechas, fora recebida por uma Elizabete que se revelou uma mulher loura e bonita nos seus quarentas e vários anos. Elizabete mostrou uma aflição não fingida e levou-a à cada de banho, ajudando-a a limpar-se e a compor-se. Arranjou-lhe até um casaco que por ali andava, conversaram sobre o tempo danado que se fazia sentir nas últimas semanas, como era prejudicial para agência pois, as pessoas não sentem vontade de sair de casa com um tempo assim, muito menos de viajar. O pequeno gabinete de Elizabete estava quente e ela aqueceu rapidamente, depois de ter metido o revoltoso cabelo num elástico e de ter limpo a cara de toda a maquilhagem. Desde esse primeiro instante achou que a D. Elizabete era uma mulher com preocupações muito humanas o que se veio a confirmar ainda mais ao longo dos anos: ao menor sinal de doença de qualquer um, D. Elizabete mandava-os para casa sem apelo nem agravo. Dera uma semana extra de férias a Júlia na altura dos nascimentos dos seus netos; via com sentida emoção os esforços de Fernanda com o seu filho e dava-lhe dias para tratar de assuntos diversos; quando morrera o filho do Sr. Malheiro, D. Elizabete não poderia ter sido mais compreensiva e amiga da família. Com frequência Rosário ‘perdia’ a camioneta de Almeida para Lisboa e D. Elizabete tinha sempre uma palavra de apoio para minimizar o constrangimento da rapariga. Além disso, as viagens que faziam nas férias, ou as viagens de familiares e alguns amigos, eram sujeitas a descontos brutais que D. Elizabete dizia serem mais que merecidos. Todos trabalhavam afincadamente e não olhavam a horas extraordinárias quando era necessário fazê-las pois sabiam que a ‘patroa’ era do melhor que havia. Quando o seu próprio filho nasceu, D. Elizabete fora das primeiras a visitá-los ainda no hospital e oferecera-lhe a cama do bebé, com tudo o que ela tinha imaginado, mas que sabia ser de difícil aquisição, face à forretice do seu próprio marido.
Na sua opinião, Elizabete Tavares estava também completamente de fora como passadora de droga.
Por outro lado, havia clientes que nunca se deixavam ver: faziam tudo por e-mail e pagamentos por transferência bancária. Conheciam-lhes os nomes, a alguns conheciam as profissões, mas não as caras. Lembrava-se de uma vez ter ido almoçar com D. Elizabete e desta ter ficado a dar um dedo de conversa a um homem que encontraram e, depois de se despedir, ter comentado que era o Sr. José Arruda, um dos maiores clientes da agência, engenheiro numa multinacional que tinha mais horas de voo que muitos pilotos da TAP, e que só a D. Elizabete conhecia, embora qualquer um deles falasse com ele ao telefone e lhe fizesse marcações; mas como não sabia quem era não prestara atenção à cara do homem e seria incapaz de o reconhecer. Como este havia mais, assim como havia eventuais clientes que não eram regulares e marcavam na agência uma única vez. A quantidade era imensa.
Dos regulares lembrava-se duma família de quatro elementos que, passaram a três quando um dos filhos casou, passaram a dois quando casou o outro, e agora já eram novamente quatro pois os avós viajavam com os netos. Ela era a D. Matilde e trazia sempre uma lembrança para todos na agência quando regressava de férias.
Lembrava-se também duma mulher que trabalhava na Associação Bandeira Azul da Europa, trabalho que invejava, pois a senhora passava a vida a viajar, a verificar a pureza da água pela Europa fora em tudo o que era praia e a ajudar a decidir se seria contemplada com Bandeira Azul ou não.
Vinham-lhe à lembrança inúmeros outros que ia pondo de lado, não lhes encontrando nada que os ligasse à droga.
Miguel Vidigal, José Resende e Baltasar França, de quem supostamente era cúmplice, eram nomes que nada lhe diziam. Nada lhe diziam a ela, mas alguém sabia bem demais quem eram e ela estava a pagar por actos alheios.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

15 de Dezembro de 2006

Caro Sr. Director do Colégio O Sorriso da Criança
Sou mãe do aluno do 3º ano, Duarte Ribeiro e venho por este meio dirigir-lhe algumas palavras a propósito da sessão da passada semana, cujo mérito deve continuar a ser realçado.
Como salientou um dos participantes, com muita facilidade entramos em concordância uns com os outros mas, ao sairmos do espaço de debate, acabamos por nos esquecer de algumas coisas e esfriar a concordância que manifestámos.
Para além da satisfação que me assiste diariamente por ter o meu filho no colégio, muito me satisfaz também que os pais não sejam esquecidos e tenham estas gratas oportunidades de participar, não apenas duma forma limitada, no que a cada criança diz respeito, mas duma maneira mais abrangente e que não se constrange a práticas e comportamentos imediatistas, indo bem mais longe e proporcionando-nos momentos de reflexão, de trocas de ideias, de exposição de dúvidas.
A actualidade do tema proposto e debatido foi muito grande: há que ter consciência do que existe, do que está disponível, mas criando a cada momento, o equilíbrio necessário e tão difícil, entre o que podemos fazer e o que devemos fazer, não caindo em tentações facilitistas, mas antes, criando um espírito de sacrifício, compensado a seu tempo com a recompensa de nos termos transformado em pessoas inteiras, completas, com sentido humanista teórico e prático, solidários, compreensivos e aceitando as diferenças entre cada um, não as encarando como elementos divergentes, mas como complementos à nossa própria identidade, onde cada diferença com que nos deparamos dia a dia, nos enriquece.
O desenvolvimento de competências para abarcarmos este novo mundo, é fundamental! As tecnologias ajudam-nos, sem dúvida, mas temos que nos familiarizar com elas para não passarmos uma herança de receios aos nossos filhos, nossa primordial preocupação neste mundo. Porém, creio que nos devemos consciencializar que somos nós que precisamos de formação em primeiro lugar, e não devemos inverter posições e encarar esta problemática, como um bicho papão que atemoriza, não as crianças, mas os pais delas… nós.
O conhecimento das coisas sempre levou ao desenvolvimento e ao progresso e é conhecendo efectivamente as potencialidades que as tecnologias nos disponibilizam que agarramos a tal competência que nos permite ajudar os nossos filhos a melhor singrar neste futuro que, já hoje, está presente.
Por tudo isto, me agradou tanto ter ouvido falar em escola de pais, eu que incluo no meu currículo o facto de ser mãe, competência que desenvolvo e onde tento evoluir positivamente, dia após dia.
Perigos sempre existiram. Os nossos pais e os pais deles já foram confrontados com situações novas, com as quais não sabiam lidar e que tinham relação directa com o nosso crescimento a vários níveis. Acontece porém, que as mudanças dos dias de hoje são, muitas vezes, mudanças invisíveis que actuam no subconsciente, quantas vezes levadas quase ao grau de doença que, quando nos apercebemos, já nada há a fazer. E é aqui que residem os perigos e a diferença da perigosidade, dos dias dos nossos pais para os nossos dias e as nossas noites.
Sou uma profunda adepta de tudo quanto nos possa facilitar a vida, mas como sempre acontece… tudo o que é demais, não presta…
Quando não tinha computador em casa, fazia questão que o meu filho lhe tivesse acesso e soubesse manejá-lo. Para isso, levava-o a uma das muitas bibliotecas públicas que existem, quer no nosso concelho, quer noutros e, duma forma integrada, sem perder de vista a leitura e a escrita, ele tinha a possibilidade de exercitar a sua própria competência, dando satisfação ao desejo de brincar com um computador. Faço o mesmo com os filmes, levando-o a salas de cinema, satisfaço a sua vontade em nadar, levando-o a piscinas, acedo quando me pede para conviver com animais, levando-o ao Jardim Zoológico, ao Oceanário e a parques diversos, para além da grande mais valia de ele ter uns tios que vivem no campo e têm os mais diversos animais.
Por outro lado, quando falamos da apetência que as crianças têm para todo o tipo de equipamento desta natureza e exemplificamos com o seu à vontade em manejar rapidamente um game boy ou uma consola de jogos, não raro, queixamo-nos de que eles passam tempo demais com estes brinquedos. Mas considero que, se são reclamações com fundamento, por outro lado, não fazem sentido pois, fomos nós que comprámos esses entretenimentos ou que lhe possibilitámos a sua aquisição e somos nós que, no nosso desvario cansado do quotidiano, lhes dizemos para irem brincar com esses jogos porque não temos paciência para fazer um jantar devagar, com a ajuda deles, brincar com eles às arrumações e, com calma mostrar-lhe que há tarefas que podem e devem ser da sua responsabilidade, passear com eles à chuva, explicando-lhes como as nuvens a deixam cair e porque nos devemos proteger com um chapéu,…
Peço-lhe desculpa da abusiva prosa e do tempo que lhe retiro, se tiver tido a paciência de aqui chegar, até porque, quem sou eu para ensinar os outros… mas penso que os valores, dos quais também ontem se falou, existem e têm que ser conservados. Não são uma rotunda que circundamos, com uma estátua a meio, para a qual nunca olhamos. São a essência da vida partilhada e os alicerces da sua construção. Obrigatoriamente lidamos com novos modos de ser e estar, em sociedade, em família, etc. e temos que ser capazes de carregar sempre os nossos valores, não como um peso, mas antes como uma marca que nos distingue, que nos identifica, que nos solidifica, que nos dá consistência como pessoas.
Não posso deixar de dizer também que algumas das intervenções me preocuparam: eu não posso deixar que sejam os outros a decidir sobre as minhas atitudes, os meus comportamentos, o que mostro ter ou não mostro. Penso que subsiste alguma confusão com a ideia de marginalização social, num mundo globalizado e não é por todos os que me rodeiam terem algo que eu não tenho, que vou ser alvo de marginalização. Mas antes de podermos passar esta ideia aos nossos filhos, temos nós próprios que nos convencer disto… mais uma vez, repito que o essencial não é, exactamente, ter tudo, mas estarmos na posse das competências para, se formos confrontados com algo novo, podermos dominar a situação.
Fala-se muito na crueldade das crianças… e através de actos ou palavras de companheiros de escola, encontramos os nossos filhos tristes e desanimados e, pior ainda, revoltados… não têm computador em casa, acesso à internet, CD portátil, roupa da marca X ou Y, não fizeram a viagem que gostaram… mas se o caminho percorrido e a percorrer for assinalado por marcos geodésicos de valores, por correntes e ventos de paciência e disponibilidade e os azimutes permanentemente tirados com um acompanhamento eficaz, então, temos mais condições para podermos sorrir e antever as cores do arco íris num futuro que dizem ser negro.
É comum as pessoas dizerem que não têm tempo… francamente não acredito; eu que desenvolvo várias tarefas e moro longe do emprego, tenho sempre tempo para tudo.
Nas férias escolares do Natal, Páscoa e Verão, levo o meu filho para o meu local de trabalho, durante um dia inteiro, para que ele saiba o que ocupa a mãe e o pai, durante todos os dias, ao longo do ano e donde vem o rendimento da família, para que veja o que lhe rouba os pais durante o dia. Com este conhecimento, torna-se mais fácil para ele perceber a ausência dos pais e cria elementos de ligação na sua memória que lhe permitem um estar diferente… ele conhece o local onde a mãe bebe café, onde almoça, onde lhe compra cromos para a caderneta, identifica os nomes de quem os pais falam à noite, não apenas como um nome, mas como uma pessoa, pois conhece-as. Penso que este relacionamento, esta intrusão das crianças no ambiente de trabalho é fundamental para criar elos de ligação entre algo que pode ser abstracto e distante para eles e não tem que ser.
Tudo isto exige muito esforço, sacrifício, tempo, dinheiro também. Mas exige, acima de tudo, que sejamos pais e pessoas por vocação e, claro, compreendo perfeitamente que há pessoas que gostariam de fazer o mesmo e não podem.
Agradecendo o tempo que me dispensou na leitura destas palavras que, espero, não tenham sido excessivas, subscrevo-me com a maior consideração e aproveito o ensejo para renovar os meus agradecimentos pela iniciativa.
Que se repita!
Bem haja.
Camila Ribeiro

A rapariga que não gostava de livros com as capas dobradas - V

- Ela foi o quê? - quase gritou.
- Presa! Presa! Meu Deus tira-me deste pesadelo.
A voz da mãe não parecia voz de mãe. Parecia voz doutro familiar qualquer, mas não de mãe.
O coração batia-lhe louco, descompassado dentro do peito. A sua irmã tinha sido presa, a sua mãe, sentada, com a cabeça a abanar era a personificação da tragédia, do drama. Parecia feita de lama e que a qualquer momento se poderia desconjuntar pelo chão da sala, espalhando-se pelo tapete. As suas lágrimas já lhe molhavam o peito, fazendo com que a renda do soutien aparecesse de forma nítida sob o tecido da blusa.
- O teu pai deve estar a chegar, vai à janela ver se ele está a estacionar.
Levantou-se do cadeirão e dirigiu-se ao escritório, abrindo a janela e, debruçando-se, deu de caras com um polícia sorridente. Fechou a janela de rompante.
- Mãe, o que é que faz aqui um polícia à nossa porta? - perguntou em surdina.
- Sei lá o que é que faz um polícia aqui, deve ser por causa dela… não me deixes a cabeça ainda mais desfeita do que já tenho...
- Mas se ela está presa… e da agência, já disseram alguma coisa?
- Já p’rái telefonaram. Disseram para lhes telefonarmos se soubermos de alguma coisa.
- Mas saber de alguma coisa como? Um polícia à porta e, quem sabe, o telefone sob escuta…vou beber café.
- Não sei se podes.
- Não sabes o quê…? Então não posso ir beber café? Eu não fiz nada, só sou irmã dela. Tu és mãe, é mais fácil seres cúmplice.
E de imediato, arrependendo-se:
- Estou a brincar contigo. Vá, vem beber café comigo.
- Não quero sair de casa. Além disso – perguntou a mãe entre lágrimas – tu vais beber café? Nunca bebeste café na vida…
- Ir beber café é uma forma de expressão – disse a filha sentando-se – apetece-me sair, levar com o vento na cara, é só isso.
Ouviram meter uma chave à porta e deram as duas um salto, como se fossem movidas a molas.
- É o teu pai… ai é o teu pai…- disse a mãe choramingando.
O pai entrou, largou uma pasta no meio do hall de entrada, ficou a olhar uns segundos para elas e em seguida aproximou-se da mulher, abraçou-a e desatou a chorar baixinho.
- Ai João – soluçava a mãe – o que nos foi acontecer… ai valha-nos Deus, o que nos foi acontecer…
O pai não parava de chorar e as duas sentaram-no no sofá. Os esforços para que dissesse uma palavra foram em vão e a filha aflita disse:
- Mãe… acho melhor chamarmos um médico
- Ai meu Deus… sim Teresa é melhor… ai homem fala, João diz alguma coisa, por favor João…
Perante o silêncio do pai, Teresa telefonou para o 112 e explicou a situação. Vinte minutos depois tocaram à campainha e chegaram dois técnicos do INEM. Observaram o pai, ouviram Teresa explicar que tinha ficado assim depois de saber o que acontecera à filha, fizeram diversas perguntas, quiseram saber que medicamentos tomava e como não o arrancaram do estado de letargia em que se encontrava e também não o conseguiram fazer parar de chorar, disseram que se encontrava em choque profundo e que era melhor ir para o hospital.
Teresa tinha a cabeça a rebentar. Não podia deixar o pai ir sozinho, não queria mandar a mãe, não queria ir ela não se desse o caso de alguém telefonar com notícias da irmã. Telefonou a Robin e disse-lhe que fosse já para o Fernando da Fonseca e que acompanhasse o futuro sogro.
- Ela não pode ir, não entendes isto?
- …
- Claro. Vá, faz o que te mando e despacha-te!
Desligou e a mãe agarrou-lhe o braço e perguntou:
- Ó Teresa então o pai vai sozinho? Eu vou com ele…
- Não vais nada… tu ficas aqui comigo. O Robin vai lá ter com ele
- Mas ó filha… o Robin? E se o pai quer falar de repente? Há-de querer falar comigo, não achas?
Teresa demoveu a mãe e levaram o pai até à ambulância que desapareceu ao fundo da rua com os pirilampos ligados.
O que teria feito a sua irmã? Em que sarilho se teria metido?

Não basta apagar o fogo


Obrigada Isabel.

Não gosto da escola

Leio no jornal que cerca de 80% dos jovens não gosta de ir à escola. O Duarte não é excepção. Se ele pudesse passava o dia a conversar com os amigos, pessoalmente ou na internet. Ia ao cinema quase todos os dias, instalava um escritório na praia para tratar de assuntos de biquinis, visitava os amigos entre mil outras coisas. Escola? Passo...
Escusado será dizer que conversamos imenso sobre os benefícios da formação – volto a dizer, a educação é da esfera dos pais – e da aprendizagem.
Não me zango com ele quando se manifesta contra a escola. A bem da verdade, eu manifesto-me diariamente contra o levantar cedo com a obrigação de ir trabalhar, não posso escolher os meus colegas da empresa, as chefias são uma lotaria, os transportes dum lado para outro são desesperantes. Porque raio é que os miúdos haviam de gostar de ir à escola? Vão ser avaliados de vez em quando e pensam que aquelas quarenta páginas de matéria são um mundo e custa-lhes memorizar e compreender o mundo, ainda por cima tão repleto de coisas que não entendem para que servem. Digo-lhe que tudo é apenas um teste gigante à nossa capacidade de comunicar – em várias línguas – ao desenvolvimento do raciocínio e do pensamento científico. Explico-lhe as vantagens de ser um cidadão ‘científico’ e como esta forma de pensar lhe dará garantidamente vantagens no futuro. Ele suspira ao de leve, como quem diz ‘ A ver vamos, a ver vamos’ e eu não desisto. Haverá outros dias em que ele está mais disponível e predisposto a ouvir que necessita mostrar a confiança em si próprio pois só assim se perseguem os sonhos que queremos atingir e para isso também é necessário cultivar hábitos de trabalho e ser persistente e responsável. Felizmente ele tem imensos interesses culturais que ajudam a contextualizar as situações mas faço tudo para colocar qualquer discussão ou dúvida ao nível dos sonhos que ele pretende atingir e isso facilita o entendimento e a concordância em que, afinal, a escola é necessária.
Como sempre gostei da escola, ao princípio custava-me entender como é que alguém pode não gostar, como é que se pode ignorar os milhares de livros que existem sem se ter um vontade irresistível de os ler a todos, de saber sempre mais. Depois, e sempre colocando-me no lugar dele, tentando ver a vida através dos seus olhos, à sua altura e à sua dimensão, percebi que dizer só que era boa não chegava. Falar é fácil, sempre ouvi dizer. Por isso arranjo exemplos para lhe demonstrar que a escola vai fazer dele aquilo que ele quiser ser. Sem escola ele será aquilo que alguém – não sabemos quem – quiser que ele seja. Terá uma vida condicionada, mais pobre, mais triste, menos ágil na perspectiva da concretização dos seus sonhos.
A escola não é um edifício, um prédio ou uma casa, é um percurso e temos que saber criar prazer em percorrê-lo. Não é fácil, mas há que insistir.
Se a escola fosse sempre assim...

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Olá Pedro

Olá Pedro

Desculpe a ousadia, mas não costumo encontrar pessoas que pensem como eu acerca de viagens: toda a gente gosta de viajar mas, contas feitas, são turistas, viajantes há poucos. Pareceu-me que o Pedro se inclui nesta segunda categoria e, para além dos pormenores sobre os quais falámos, gostava de lhe dizer para não esquecer uma outra coisa: um par de binóculos. Para quê? Duas coisas simples e grandiosas.
A primeira para, ainda no avião, melhor ver a terra vermelha da Argélia, cujos tons são, quase únicos e dão vontade de saltar pela janela, para mergulhar naquele mar deserto que, quando o contemplamos com os olhos de Deus, como se costuma dizer, parece que podemos fazer coisas impossíveis, que tudo está ao alcance da nossa mão: dentro de nós nasce uma energia que não a sabíamos acumulada, nem percebemos bem qual é a sua origem.
A segunda para, se efectivamente for ao deserto, e puder contemplar aquele cenário único a perder de vista, usar os binóculos e poder ter a noção que, muito para lá de onde a sua vista alcança…ele continua e continua e continua. E mesmo assim, na imensidão do nada e do tudo, do calor aterrador, há quem ali nasça, cresça e morra. Há quem ali viva vidas inteiras a ouvir o barulho do sol a subir no horizonte, a aguardar repetida e aliviadamente que ele se ponha, para voltar a subir no dia seguinte.
Apesar de tudo, duma coisa tenho a certeza: vão recebê-lo com um sorriso fresco!
Dois momentos maravilhosos porque, à semelhança, de quase tudo o que existe parado, parecendo que está sempre à nossa disposição, na verdade, está tudo em movimento, mas para o apreendermos temos que ver com o coração e não apenas com os olhos.
A primeira vez que estive no deserto do Saara, choveu.
As pessoas gritavam de alegria, largaram o que estavam a fazer, abraçavam-se e abraçaram-nos. Houve, inclusivamente, um sujeito que nos agradeceu pois, acreditou que tínhamos levado a água. Disseram-nos que seríamos abençoados para sempre, pois a chuva é rara e abençoa e purifica quem a apanha.
E ali estava eu a gritar também, como se tivesse sido treinada geneticamente, e aguardasse aquele momento desde sempre: a minha respiração em consonância com a deles, os meus saltos sincronizados com os deles, a alegria deles transformada em minha alegria. Naquele momento, eu era uma deles.
Claro que este momento vive na minha galeria de momentos especiais para o resto da vida.
Fui feliz no deserto, tão feliz que guardo essa felicidade sólida para sempre e uso-a de vez em quando em momentos menos bons.
Divirta-se muito e apaixone-se pelo deserto. Vai ver que será uma paixão para o resto da vida.
Camila Ribeiro

A rapariga que não gostava de livros com as capas dobradas - IV

O cunhado era alguém à parte. Claro que fazia parte da família, mas era diferente de todos eles. Ela e a irmã perguntavam-se com frequência, como é que ele existia…e como é que esta tinha casado com ele.
Chegava a casa e despia o fato, comprado à força de choros e súplicas da mulher, que os que tinha estavam velhos e era mesmo preciso, que o trabalho que desenvolvia obrigava a um fato novo e mais cem por favores, vestia um casaco de malha aí com vinte anos, coçado até mais não, mas cumprindo a sua função de casaco, aquecendo e, principalmente, protegendo a camisa cujo preço ele nem sonhava, pois tinha sido a mulher a comprá-la e escondera-lhe a etiqueta. A estas horas já a gravata estava pendurada no seu devido cabide, bem como sapatos, limpos e no sítio certo. Passava a vida a dizer cuidado com os pés, quando se entrava para o carro, de modo a que os outros ocupantes batiam com os sapatos, chinelos, botas, para que não entrasse areia, lama, terra, pó e tudo quanto vem agarrado aos pés. Não suportava nada desarrumado, loiça, roupa, papéis, livros, fosse o que fosse e dedicava tempo sem fim às arrumações, de brinquedos do filho, que andavam sempre num virote, espalhados pela casa, as revistas da mulher que andavam dobradas nas páginas das reportagens que eternamente lia e que se encontravam debaixo do sofá, na casa de banho, na cozinha, na cabeceira, no carro, fora as que perdia em cafés, restaurantes, comboios e afins.
Ele raramente perdia fosse o que fosse, se bem que houvesse uma espécie de teatro instituído e oficializado antes de saírem de casa, pois ele nunca sabia onde tinha posto as chaves. Tirando isso, era perfeito. Baixava sempre a tampa da sanita, não apertava a pasta de dentes em cima e sim em baixo, de modo a que toda a pasta fosse aproveitada, não só apanhava a roupa da corda, como a dobrava, limpava janelas quando as via com pó, mesmo tendo uma empregada em casa quatro dias por semana, depois de jantar, limpava o fogão que era um mimo, não deixava o lixo sair do caixote, despejando-o diariamente, dobrava as toalhas do banho depois de se limpar. Quando viajavam, o porta bagagens era escrupulosamente arrumado e tudo acondicionado como uma prateleira de supermercado acabada de compor. Os CD’s dentro do carro tinham um lugar certo e só aquele. Os bancos de trás eram tapados com um lençol, o que não evitava o eterno cuidado com os pés.
Uma ocasião, em férias na Bretanha, ele, a mulher e o filho, a irmã da mulher e o respectivo Robin, procuravam o túmulo do grande feiticeiro Merlin. Andavam para a frente e para trás há quase duas horas, perdidos numa floresta digna das lendas do Rei Artur, da fada Viviane, e de todas as Morganas e Lancelotes que viviam na imaginação da mulher, quando, fartos de tanto andarem de carro resolveram parar e perguntar se o local era mesmo aquele. Depois de lhes confirmarem que era ali sim senhor, só tinham que andar um pouco pela floresta e rapidamente dariam com o sitio, lá mais à frente no meio do matagal havia indicações, não havia que enganar, e lá foram eles no meio dum lamaçal enorme e eis que de repente a cunhada perde o equilíbrio e cai de chapa na lama que era mais que muita e diz uma das famosas frases que ficaram para toda a eternidade, na família:
-Ai... Ai... Caí... Caí...
Seguiu-se uma gargalhada geral perante o aspecto dela e rapidamente todos pensaram o mesmo: como iria ela entrar agora, assim, naquela figura, dentro daquele imaculado carro? Como por magia, talvez com uma ajudinha do próprio Merlin, apareceu um outro lençol, que não aquele que se costumava pôr para ocasiões normais, e lá a rapariga se sentou com a lama já meia seca e agarrada à roupa e às botas e a todo o lado.
Ele tinha um especial cuidado em que o filho andasse com as unhas cortadas, no banho lembrava sempre a necessidade do filho puxar a pila, tal como a médica lhe tinha ensinado, não deixava passar as consultas do dentista, do oftalmologista, fazia análises com regularidade. Não se importava que a mulher saísse sozinha com amigos, fosse ao cinema ou beber uns copos. Ao cinema ele ainda ia, beber uns copos dispensava. Um café, vá lá, ainda aceitava. Mas tudo o que fosse deitar depois da hora da Cinderela, nem pensar. Também não se queixava quando o filho lhe dizia que ele estava velhinho.
Era impecável no trabalho que fazia. Impecável e admirado por todos. Invejado também, claro. O laboratório de análises clínicas, onde trabalhava como analista, ficava perto de casa o que lhe permitia ir buscar o filho à escola, preparar o jantar, pôr a mesa, dar banho ao filho, vestir-lhe o pijama e esperar com calma que a mulher chegasse.
Sempre calmo, sereno, mesmo que o filho gritasse que não queria tomar banho, que o dia de trabalho tivesse sido agitado e stressante, que estivesse maldisposto ou doente, a serenidade não o abandonava, falava devagar, dizia o que tinha a dizer e quando a mulher gritava com ele, era incapaz de responder no mesmo tom.
Quando soube que ela tinha sido presa, ficou horrorizado mas não surpreendido.

Acho tão natural que não se pense

Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa
Que tem que ver com haver gente que pensa...

Que pensará o meu muro da minha sombra?
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
A perguntar-me cousas...
E então desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um pé dormente...

Que pensará isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas cousas,
Deixaria de ver as árvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver só os meus pensamentos...
Entristecia e ficava às escuras.

E assim, sem pensar tenho a Terra e o Céu.
 
Fernando Pessoa

Diferenças entre hoje e ontem

Vou beber o meu café à Florença e apanho a conversa a meio:
- ... não se preocupam com nada e só exigem... tenho que ter a roupa pronta porque só quer vestir aquilo e mais nada – a opinião é duma cliente que, sentada, fala com um dos empregados, o Paulinho.
- Deviam era usar bata – a ajuda vem de outra mesa, deste vez duma senhora mais velha – Eu sempre a usei e não me fez mal e já não havia cá quem é que vem mais bem vestida ou mal vestida.
A primeira volta a investir:
- Não fazem nada! Em vez de se preocuparem em terem a mochila arranjada para o dia seguinte, terem o quarto arrumado e essas coisas, não! Querem é ir bem preparadas para se mostrarem aos rapazes...
Pelo meu lado, tinha dois desses rapazes dentro do carro à minha espera e fiquei cheia de pena de não ter tempo de lhes contar um episódio da minha vida, passado há cerca de trinta anos, quando andava na secundária Visconde de Juromenha em Mem-Martins.
Instituímos o Dia do Vestido da Mãe e, uma vez por mês, mais ou menos, íamos para a escola enfiadas em vestidos de gente adulta, com sapatos de salto, a fazer uma figura que hoje nos arranca gargalhadas. Parecíamos maluquinhas fugidas dum hospício.
Um desses belos dias, logo que me levantei vesti-me a preceito e fui a casa da Cristina Madeira, minha grande amiga. Encontrei-a a preparar-se para lavar o cabelo e, enquanto ela estava de rabo para o ar com a cabeça metida na banheira, eu encostei-me ao lavatório a conversar. Levantei o rabo e sentei-me no lavatório e um segundo depois este caia com pompa, barulho e muita, muita água a jorrar dum buraco enorme que se tinha aberto na parede e que me projectou para dentro da banheira com ela.
Completamente encharcadas desatámos a gritar imunes à água que escorria pela casa e que, rapidamente, atingiu a escada e a rua.
Uma vizinha alertada pelos nossos gritos disse-nos que fechássemos a torneira de segurança, coisa que nem sabíamos existir, muito menos o que era. Lá se procurou e se encontrou e lá a fechámos.
Entretanto alguém fora avisar a mãe da Cristina que tinha ido às compras – isto era no tempo em que havia domésticas e em que estas domésticas compravam pão e outras mercearias na mercearia da esquina diariamente.
A mãe dela veio a correr e ficou incrédula, parada uns segundos a olhar para mim, com uns saltos altos e um vestido de gala colado ao corpo por causa da água.
Levámos o maior raspanete possível, com muitos gritos à mistura. Hoje penso que a casa era antiga e a bem da verdade já precisava de obras e eu apenas as adiantei...
Quanto ao Dia do Vestido da Mãe deixou de existir nesse dia em que eu e a Cristina fomos para a escola vestidas normalmente e perante o interrogatório das outras, afirmámos que afinal não achávamos graça e que tínhamos desistido de nos vestir assim, mas tudo dito com ar de inveja a olhar para as nossas colegas vestidas solenemente.
É bem verdade que os jovens se vestem de maneira estranha e que têm taras e manias com certas peças de roupa mas, e nós, não temos? É bem verdade que pouco ou nada fazem em casa, mas quando tínhamos a idade deles fazíamos de livre e expontânea vontade?

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

A rapariga que não gostava de livros com as capas dobradas III

O Robin era uma pessoa muito especial. O espaço por ele ocupado era muito em metros cúbicos e em espaço mental. Falava de tudo, estilo Vasco Graça Moura ou Vasco Pulido Valente, mas não se chamava Vasco. Ninguém se aborrecia ao pé dele por falta de conversa e era um contador de anedotas exímio. Barcelona era um dos seus assuntos favoritos, embora estivesse farto dela, pois conseguia sempre provocar inveja, já que descrevia cantos e recantos da cidade, como se lá tivesse vivido toda a sua vida.
Quando soube que ela ia fazer um estágio em Hannover foi ao gabinete Erasmus da faculdade e inscreveu-se, tendo entrado imediatamente em contacto com um professor qualquer que, segundo ele, estava a fazer investigação de ponta, mas nunca explicou bem qual era, e foi a correr ao seu encontro para a capital da Baixa Saxónia. Arranhava o alemão, mas quem o ouvisse, diria que era nativo. Ninguém o percebia.
Tinha um sonho, como o outro. Pedia-lhe ajuda para o concretizar mas ela, lá de baixo, dizia-lhe que esperasse. Irem viver para a Malveira da Serra e criarem animais, tudo bem, a perspectiva até era agradável, o local era sossegado, viriam a Lisboa a banhos de cultura uma ou outra vez na semana, enfim mas, e a sua família, com quem se zangaria, com quem gritaria? Ele que esperasse e tivesse calma. E ele tinha. Toneladas de paciência.
Tinha também toneladas de familiares. Encontravam-se em casamentos e baptizados. O último baptizado onde tinham ido tinha seiscentas pessoas e eles não chegaram a ver o petiz, em roupa branca comprida, com touquinha de laçarotes e ar de quem não percebe porque é que não podem ir para casa descansar e livrarem-se de todas aquelas pessoas. Afinal, eram só seiscentas.
Quando falavam do casamento, ele dizia logo que não iria aquela catrefada de gente, e ela e a irmã gozavam dizendo que os veigas e os viegas, e os vasconcelos com dois éles, e os betencourtes com três tês, para além dos corte-reáis, e dos não sei quê e dos não sei que mais, bem, esses teriam que ir. Para além da família chegada, claro. Mas só a mais chegada, condescendia. Bem, pensava ela, são os teus pais que pagam, que os meus, só pagam para a meia dúzia de gatos que hei-de convidar. Tudo isto era pensado se os pais de Robin viessem ao casamento, o que teria poucas probabilidades de acontecer pois, recentemente, tinham surpreendido toda a gente no dia em que declararam que iam viver com um irmão há muito radicado na Austrália e fora a sua própria irmã que lhes preparara a viagem na ‘sua’ agência, com muito amor e carinho, como se fosse ela própria a ir visitar cangurus e koalas.
O Robin entrava em todas as conversas, fossem de pessoas mais velhas ou mais novas, em português, castelhano e catalão, inglês, francês, alemão, claro, tinha um jeito especial com as crianças, percebia de animais, plantas, construção civil, touradas, geografia, história nacional, europeia, mundial e etc., gestão de empresas e recursos humanos, astronomia, gastronomia, e mais mil coisas acabadas ou não em ia.
Tinham em comum o gosto pelo jogo: cartas, trivial, jogos sociais, tudo onde alguém pudesse ganhar ou perder. Um dos jogos favoritos deles era o Personagem Incógnito, que consistia em escolher uma personagem real ou não, morta ou viva, homem ou mulher e escrever esse nome num papel, que era colado com fita cola, na testa de quem tinha que adivinhar quem era, através de perguntas às quais os outros iam respondendo. Resultado, sempre que alguém entrava na sala onde se jogava o Personagem Incógnito, dava de caras com quatro ou cinco pessoas todos com papelinhos colados nas testas, tentando adivinhar quem eram. Mas as jogatanas de cartas eram as preferidas, especialmente rami. Chegavam a coleccionar cadernos onde escreviam as pontuações de cada um e que, a cada jogo, recordavam, sendo ela quem conseguia sempre maiores e melhores pontuações.
De vez em quando iam a casa da irmã e jogavam jogos de computador ou faziam loucas corridas de carros na televisão, sem levantarem os rabinhos, respectivamente de príncipes e princesas, dos sofás. O sobrinho queria sempre participar e eles inventavam sempre qualquer estratagema para que se interessasse por qualquer outra coisa. A irmã ajudava-os, brincando com o filho, pois odiava estes jogos, ficando-se pelas cartas e pelo trivial.
O Robin era já um elemento da família e tinha sempre lugar marcado fosse para o que fosse: festas familiares, férias, fins-de-semana no Alentejo, casamentos e funerais e eteceteras.
Quando soube da prisão, pensou que estavam a brincar com ele e só acreditou quando falou com o cunhado.

O Dicionário 2

- Mãe, o que é fogo-de-santelmo?
- Estante da entrada, prateleira de baixo...
- Mãe, isto não é uma palavra só!
- Procura na mesma... se não estiver, eu depois digo-te.
Passam uns minutos silenciosos até que ouço a voz dele, baixa, a falar ao telefone:
- A sério meu! Vem cá tudo!
- ...
- Vê lá bem... tem capa azul e são só dois volumes, talvez tenhas isto em casa...
- ...
- Pá, na capa diz: ‘Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea’ e a seguir diz: ‘Academia das Ciências de Lisboa’... são dois volumes grossos azuis escuros, pergunta à tua mãe!
- ...
- Na boa, amanhã levo isto, a minha mãe vai ficar toda contente de eu levar o dicionário p’ra escola.
Olha de esguelha, vê-me à porta do quarto, com feijão verde e uma faca na mão e diz para o telefone:
- Já falamos, tenho que ir – e desligou à velocidade da luz.
- Posso saber o motivo de tanto interesse nesse dicionário? – pergunto enquanto volto para a cozinha. Ele vem atrás de mim, senta-se na mesa da cozinha e responde:
- Podes... mãe, tu já tinhas visto isto? – o sorriso dele é matreiro, malandro e provocador. – Ora procura aí fogo-de-santelmo...
Limpei as mãos, folheei o volume e li o significado: ‘Penacho luminoso, semelhante a uma chama, que se observa principalmente durante tempestades nos mastros e vergas dos navios e que é devido à electricidade atmosférica. Plural: fogos-de-santelmo’.
Levantei a cabeça e ele sorria enquanto apontava para a página ao lado e para a palavra ‘foder’.
- Ganda dicionário que tu tens mãe... – ele continuava a rir e eu virei-me de novo para o lava loiças.
- Imagino que já o tenhas revirado e que estivesses ao telefone a contar a descoberta.
- Pois... é verdade... não sabia que as asneiras vinham no dicionário...
- As asneiras vêm com as atitudes das pessoas... os dicionários apenas trazem palavras... ora, lê aqui esta palavrinha e diz-me o que quer dizer... – aponto para uma palavra em itálico, entre parêntesis.
- Gross.
- Isso é a abreviatura de grosseiro. Quer dizer que essa palavra é usada quando se fala grosseiramente e...
- Sim, já dei isso na escola, linguagem grosseira, linguagem coloquial, familiar e outras
- Exactamente... vê lá o que diz a seguir...
- Pop. Pop é o quê?
- A abreviatura de popular... usando a linguagem popular substitui-se essa palavra por... – e esperei que ele lesse.
- Copular, fornicar.
- Isso mesmo. Sempre que encontrares uma palavra com vários sinónimos cabe-te a ti escolher o que queres utilizar mediante o tipo de linguagem que te for pedido.
- Mãe, mas se está no dicionário, eu posso utilizar essas palavras?
- Podes usar as palavras todas... para isso é que existem, mas da mesma forma que não vais de cachecol para a praia, também não vais usar linguagem grosseira na escola, certo? Até te digo mais, para além das palavras que estão no dicionário, podemos usar outras... podemos inventá-las, desde que saibamos defender a sua criação, ou então que as utilizemos em determinados circuitos... como é que aparecem palavras novas? Porque alguém a inventa, as cria, e vão ficando no vocabulário das pessoas... Olha por exemplo a quantidade de palavras e expressões que entraram na vida das pessoas com as tecnologias...
- Mas muitas são em inglês...
- Sim, é verdade, mas há adaptações, palavras novas e novos conceitos. Por exemplo, teclar... ninguém usava essa expressão! Navegar, navegar era no mar e não sentadinho com pantufinhas calçadas! Há uns dias atrás não me disseste que eu tinha que fazer um upgrade??? Isso é transferir o uso de palavras para outros contextos diferentes daqueles para o que foram criados e isso tudo, embora seja uma grande confusão, também enriquece uma língua.
- Mas tu estás sempre a dizer que devemos procurar palavras na nossa língua e não usarmos palavras estrangeiras, mas se as usarmos, estamos a enriquecer a nossa língua...
- Não é bem assim... há palavras e palavras...
- Além disso, se eu usar as palavras em inglês isso ajuda-me a perceber a língua inglesa... não és tu que estás sempre a dizer que temos que falar bem inglês, que não sei para onde vou trabalhar e se calhar vou para o estrangeiro e sei lá mais o quê?
- Pois é... mas não é fácil de explicar... é um jogo de xadrez onde as peças nem sempre valem a mesma coisa, depende das circunstâncias... a propósito, já há algum tempo que não jogamos... queres levar uma sova esta noite?
- Deixa-me rir... uma sova, como se fosses capaz... mas olha lá, é impressão minha ou estás a fugir à conversa?
Eu sorrio de esguelha, enquanto continuo a descascar feijão verde, e ele diz para rematar a conversa:
- Olha, afinal não sou só eu...

O Dicionário 1

- Mãe, o que quer dizer ‘concomitante’?
- Vai ver ao dicionário...
- Já fui, mas a net tá em baixo...
- AO DICIONÁRIO... eu não disse à net!
- E eu sei lá agora onde está um dicion...
- Na estante da entrada, prateleira de baixo – interrompi-o eu.
- Mas mãe, isto tem p’raí 20 volumes!
- Eu sei e num deles está a palavra ‘concomitante’...
- Mãe... deixo-te tirar uma borbulha se me disseres o significado – tenta ele negociar, sabendo que não posso ver borbulhas sem as querer espremer.
Refreio a vontade de lhe apertar a bochecha donde espreita a borbulha e agarro o volume que contém o ‘concomitante’.
- Está neste... procura!
O Duarte lá se sentou na mesa da cozinha e de repente dá uma gargalhada e diz:
- Mãe, vou concitar-te!
- Vais o quê?
- Concitar-te! Ah pois... não sabes o que é, verdade? Diz aqui que concitar é agitar e perturbar!
- Muito bem... já aprendemos os dois uma palavra nova... então e ‘concomitante’?
- ‘Pera... tá aqui... concomitante é simultâneo, coexistente!
- Muito bem... custou? Doeu muito?

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Linguagens...

- Foda-se meu, assim não!
- DUARTE!
- Mãe!
O telefonema acabou-se rapidamente e o Duarte veio ter comigo com um sorrisinho malandro:
- Mãe, sabes que entre nós...
- Sim sei, mas fazes o favor de evitar essa linguagem aqui em casa e diante de mim.
- Mãe... se não te zangasses comigo contava-te uma anedota... mas tem umas palavrinhas menos bonitas e tu se calhar não vais gostar...
- Vá, conta lá a anedota – respondo eu à laia de fazer as pazes...

As Férias

Não, não vamos fazer nenhuma excursão, que isso é coisa de pobre, todos em cima uns dos outros, com cestos de pic-nic, a oferecerem panadinhos e o condutor da camioneta, então não vai um pãozinho de leite?
Não vamos fazer nada disso, vamos fazer qualquer coisa diferente: vamos a Cuba, ver o Grande Chefe Touro Quase Deitado, ou melhor ainda, e mais barato, vamos à República Dominicana!
Bom, são sete horas de avião, com as pernas encolhidas, mas é um avião, não uma camioneta. Comemos apenas uma refeição, e ligeira, mas é servida nuns pratinhos tão giros e nem temos que fazer psst para chamar o empregado, para mais uma garrafinha de tinto ou para encher o copo de sumo ao puto que, com tanto salto, já entornou o tabuleiro, e lá foi o pãozinho - tão giro - acertar na cabeça do passageiro da frente, que não ripostou, impedido pelo tabuleiro e pelo cinto de segurança.
Chegamos a Punta Cana, entramos numa camioneta - tão gira - que nos leva ao nosso bunker, perdão, hotel: umas instalações defronte da praia, com segurança à entrada e à saída, de onde podemos sair, mas não somos aconselhados e onde os únicos nativos que se vislumbram, são os que ali trabalham. Não é um bunker, é um hotel. Pois claro.
A água quente e muito salgada é a única diferença efectiva com algumas praias portuguesas. Mas não faz mal, no Algarve não teríamos direito a carimbo no passaporte.
Férias...

Welcome




A Helena manda-me esta imagem e diz-me que poderia servir para colocar em cima da porta da entrada lá em casa...

Surpresa


Encontrei uma foto minha perdida num blog...


Fonte. http://cybelemeyer.blogspot.com/2008/08/incentivando-leitura.html

Momento de Leitura



Campanha de incentivo à leitura na Malásia

A rapariga que não gostava de livros com as capas dobradas - II

O pai vendia andares e lojas e garagens e vivendas e era tão persuasivo que os clientes entravam na imobiliária a dizer quererem uma casa em determinado local e compravam-na noutro, pagando ainda mais, pois consideravam que lhes tinham feito um favor. Guardava fotografias do tempo da tropa quando era responsável pelas rádio-transmissões e pregava partidas a todos os moradores do quartel. Adorava contar a história de quando faziam rondas nocturnas e roubavam os vasos com plantas que os moradores deixavam ao fresco, às suas portas. A situação foi de tal ordem que um dia, os moradores foram queixar-se ao quartel, no sentido de pedirem ajuda contra aquela malandragem que agora tinha dado em roubar vasos. Qual não foi o espanto dos procuradores dos habitantes de Beja, quando viram as suas adoradas e bem tratadas plantas a decorarem os corredores e a sala de espera do quartel!
Estivera quase a ir para África. Mas não fora. Com grande pena da filha que vivia na esperança de um dia lá ir, àquela África longínqua e distante, quente e misteriosa, verde e castanha, de largas avenidas como lhe contavam inúmeros ‘retornados’ que conhecia. Onde as pessoas passavam a passagem de ano na praia e andavam de cavas no Natal. Não lhe restava mais do que vê-la através do panfletos da agência onde trabalhava e pensar que a esperança é a última a morrer.
O pai sempre arranjara bichos-da-seda para as filhas e agora enchia caixas de camisas e de sapatos, para o neto. O grande móvel da sala tinha uma espécie de tiara feita de caixas onde os bichinhos viviam, cobertos por folhas de amoreira. Os bichos-da-seda eram uma das suas duas ocupações favoritas. A outra consistia em ler na casa de banho: guerras e pazes, histórias das segundas guerras mundiais em doze volumes, histórias da humanidade noutros tantos, já tinham marchado, durante a satisfação daquela necessidade fisiológica que, de tanto ler em simultâneo, ninguém percebia qual era a tarefa mais importante e não conseguiam separar uma da outra. Estava na casa de banho, estava a ler. No meio, devoravam-se revistas femininas, de informação geral, portuguesas ou estrangeiras. Tudo o que vem à rede é peixe.
O pai devia ser o elemento da família que menos gritava, mas lançava uns olhares mortíferos que assustavam qualquer quadro pendurado nas paredes. Passava-lhe a fúria como uma onda se desfaz na areia e ele arrependia-se sempre de não ter gritado, como todos os outros faziam. Adorava a mãe, de uma forma doentia. Se ela estava doente ele agia como se ela estivesse à beira da morte. As filhas reagiam e todos acabavam aos gritos. Namorava com a mãe desde os catorze anos. Quando o pai dela descobrira, dera-lhe uma sova, a ele, com um pau de marmeleiro, que o deixara negro durante três quinze dias. Mas o namoro vingara e eles casaram. Pelo meio ele namoriscava amigas dela e ela, menina de bem, ainda por cima sempre com a sombra do pau de marmeleiro na consciência, não só o ocultava de toda a gente, como lhe perdoava. E lá casaram. Fotografias do casamento, só uma. O fotografo contratado para o efeito pelo pai dela, não apareceu e foi o vizinho Zé, com a máquina que o filho lhe trouxe da Suíça, quando a Suíça ainda não era Suice, pois os emigrantes ainda não a tinham baptizado assim, que tirou a única fotografia do casório, e mesmo assim conseguiu apanhar melhor os bêbados que vieram brindar à noiva, ao lado da porta da igreja, do que os próprios noivos.
Mas, paciência, tinham uma certidão de casamento e, essa, haviam de ficar com ela para toda a vida.
O pai, quando soube que a filha tinha sido presa, emudeceu.

Aulas de Condução

- Mãe tens que me ensinar a conduzir. - Claro que sim! Com essa altura ninguém te manda parar para perguntar a idade. Um dia destes escolhemos um bom sítio e vou dar-te umas aulas.
- Bem mãe, vê lá não me leves para onde o vô levou a avó Prata para a ensinar a conduzir.
Esta história faz parte dos anais da família pois o meu pai querendo ensinar a minha mãe apenas tinha conseguido que ela se enervasse e, sem saber como, pregasse o acelerador a fundo e levasse o carrito – um Fiat 800, coisa de outras eras – a dar piruetas sobre si próprio e a aterrar num riacho com os pneus para cima, enquanto eles apanhavam um valente susto. Graças a Deus ninguém se magoou – milagre! O carro não se aproveitou e a D. Prata ficou por ali em matéria de condução.
Um pouco mais tarde os esforços do meu pai tiveram sucesso comigo. Meteu na cabeça que me ensinaria a conduzir pois falava-se muito que os engenheiros responsáveis pela atribuição da carta de condução era corruptos e aproveitariam qualquer erro, mesmo pequeno, para pedir uma contribuiçãozinha caso o candidato não quisesse lá voltar outra vez; se eu já soubesse conduzir, não poderiam pegar em nada. E assim foi: as lições eram a partir de casa, e com o meu pai anunciando que queria ia a Mafra. Da freguesia das Mercês, concelho de Sintra até Mafra, ainda hoje o caminho é malaico, quanto mais naquela altura! Eu ao volante dum Opel grande, vermelho escuro do qual não me lembra o modelo, o senhor meu Pai ao meu lado e a minha atrás, meia a falar meia a rezar, e cujo tom de voz aumentava quando, antes de chegarmos à Foz do Lisandro, o meu Pai dizia que afinal já não queria ir e que eu fizesse ali – ali mesmo, no meio das curvas – inversão de marcha. A minha mãe gritava que ele era doido e que eu esperasse até encontrar um local mais a direito para voltar para trás. E eu... fazia a vontade ao meu Pai. Outras vezes ele dizia que íamos visitar a Tia Josefa, que morava em Moscavide e o caminho obrigava-nos a passar pela rotunda do Relógio, que parecia Istambul nos dias de hoje em hora de ponta! Quando ela dizia que seria o meu Pai a conduzir já eu estava sentada ao volante; a última prova – de acordo com os critérios do meu Pai – foi passar a ponte 25 de Abril, para lá e para cá. A partir desse dia, ainda sem carta, mas a família já entrava para dentro do carro sem grandes preocupações e, passado algum tempo, lá tirei – oficialmente – a carta de condução.
Sei que o Duarte conhece todas estas aventuras, e por isso quer passar pelo mesmo; deixo passar uns minutos e pergunto:
- Mas olha, sabes que se fores apanhado, como és menor não serás preso, mas eu sim, pois sou tua mãe e tu vives à minha responsabilidade. Isto hoje não se compara ao que era há vinte e tal anos, percebes? Depois terás que ir viver com o pai enquanto não me soltarem...
- Mãe, deixamos as aulas de condução para outro dia – conclui ele com um sorriso matreiro.
Quando estou cansada e vou a conduzir, digo que nunca mais é hora de ele ter carta e de ser ele a conduzir-me a mim; o Duarte ri-se e diz-me que ainda não é assim porque eu serei presa e lá terei que esperar que ele complete dezoito anos. E eu, não digo mas penso:
- E quando tiveres essa idade também não quererás ir comigo...

Em C

Ciclo de cicatrizes na cutícula
Constante curva cinzelada como a concha
Constelação de cor que carece de calma
Cospe a cicuta cravada com um cutelo na
Complexa compleição do cidadão cariado
Conspurcado com uma cópula, copiada de uma cerâmica
Cacarejada num concerto
Cantem os corvos na costa, costurados em cera
Coragem!

A Macieira que Cresce Debaixo do Sofá...

- Mãe! Traz-me uma maçã! – Grita ele do sofá onde está deitado, para mim que estou na cozinha.
Desde há muitos anos que as maçãs para nós não têm caroços: comemos tudo. Tudo, à excepção dos pauzinhos dos pés da maçã, que se vão acumulando debaixo do sofá... Quando lhe entrego as maçãs, dou-lhas sem pauzinho e sei que desaparecerá tudo, mas as que ele vai buscar sem eu ver, fazem parecer piras funerárias de troianos ou gregos.
Com frequência obrigo-o a apanhar os paus das maçãs e já se tornou um hábito a avó ou a tia entrarem, sentarem-se no sofá e espreitarem a pira de paus.
Está a ser difícil mudar-lhe este hábito...

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A rapariga que não gostava de livros com as capas dobradas - I

Estava cansada de ler o jornal. Bem, não se podia dizer que estivesse a ler. Vasculhava a secção de anúncios à procura de trabalho. Estava farta de ter um emprego, com dinheiro ao fim do mês, é certo, mas não era o que pretendia. Afinal, tinha tirado um curso para quê? Para trabalhar em algo ligado ao que lhe tinha ocupado cinco anos da sua vida. Cinco anos. Num dos cinco anos, no primeiro, conhecera o Robin, nome dado a um débil rapazito com quase um metro e noventa e cento e dezasseis quilos de corpinho. Um Robin, com quem a família brincava, dizendo-lhe que, quando casassem, tornar-se-ia num pombo, com uma anilha no dedo.
A enormidade dele era pequena diante da força da pequenez dela. Um metro e sessenta chegava para fazer frente fosse ao que fosse: um polícia que teimava ser mais zeloso que toda a corporação junta; um professor de Teoria da Literatura em fúria; uma trovoada seca no Alentejo; uma vaca, esperando que ela, se fosse forcada, a agarrasse; a sua família…
A sua família era um verdadeiro espanta espíritos: nunca se calava e nunca se sabia para que lado o vento os levava. Pareciam uma família de italianos, mas eram uma família alentejana radicada em Lisboa.
Ela adorava a família embora parecessem estar sempre zangados uns com os outros, os gritos fossem constantes, as acusações permanentes e o amor eterno. Não podiam estar longe uns dos outros: ela e a irmã, o pai e a mãe. O namorado e o cunhado. E o sobrinho. E os amigos. E a lembrança dos avós que moravam na parte mais ensolarada do cemitério da aldeia.
Ela falava alemão correctamente, tão correctamente que dava inveja. Fizera um estágio de um ano em Hannover, o que lhe deu uma fluência, que lhe permitia ajudar estrangeiros na rua, ler Gunter Grass na língua original e irritar a família quando decidia falar alemão sozinha. Uma coisa era certa: por muito grandes que fossem as palavras, não continham palavrões. Ela não os utilizava. Deixava-os para a irmã.
Liam as duas compulsivamente. Liam todos os livros de um determinado autor de seguida, trocando-os quando os terminavam. Liam mais depressa que qualquer outra pessoa, e as suas conversas eram quase sempre sobre o que liam, contando passagens dos livros, lendo parágrafos dos livros, de modo que quando a outra pegava no título em questão, já lhe conhecia o enredo.
Desta forma, conversavam numa espécie de código. Bastava uma delas referir qualquer coisa relativa a um livro para as duas contextualizarem a cena e perceberem-se em quase total silêncio, interrompido pelas gargalhadas que davam, se fosse caso disso.
A maior parte das vezes, quando iam de comboio, a irmã falava sobre qualquer coisa, geralmente sobre um livro…, e ela repetia tudo o que a irmã dizia, em alemão, fazendo uma tradução simultânea para os pouco prováveis alemães que se encaminhassem para Lisboa, àquela hora tão matinal, naqueles comboios e metros tão apinhadinhos.
A outra mandava-a calar vezes sem conta e ela mandava calar alguém, em alemão, não só repetindo as palavras, como imitando o ar zangado e enfadado da irmã. E lá se despediam no meio de beijos e adeuses e palavras a sair dos lábios sem que ninguém as ouvisse, pois elas entendiam-se em silêncio.
E uma ia para a sua agência de viagens, sua porque o local de trabalho é tão nosso, como qualquer outra coisa onde passemos muito tempo ou que utilizemos com frequência, o nosso café, a nossa aldeia, o nosso prédio, o nosso detergente e sei lá quantos nossos mais, e a outra ia para a agência de publicidade, também sua, na mesma medida em que a de viagens era da outra.
A irmã, que trabalhava na agência de viagens, vivia na lua. Cada bilhete comprado e passado e impresso, fosse para onde fosse, era como se lhe pertencesse. Conhecia o mundo embora nunca tivesse ido muito longe. Claro que conhecia Badajoz. Coleccionava mapas e passeava-se por eles de modo a poder dar indicações sobre aldeias perdidas nos Alpes, oásis na Argélia e postos de recepção de correio na Terra do Fogo, lá para os lados do fim do mundo, exactamente como tinha lido num livro do Sepúlveda.
Só o facto de passar o dia rodeada de cartazes com praias onde mares azuis inexistentes brilhavam como um convite, fazia-a sonhar e estar permanentemente no mundo da …lua. Daí que o seu posto de trabalho, raro fosse o mês que não era posto em perigo.
Ao contrário, ela, na agência de publicidade, era rainha. Rainha do correio é certo, mas era correio azul.
Ansiava todos os dias por cartas de amor em vez das insípidas cartas comerciais. Não, não as achava ridículas. Mas não chegavam. Ia aos correios, recebia a correspondência e distribuía-a pelos empregados da agência. A agência já ganhara variadíssimos prémios e ela, sem ter contribuído directamente para essas vitórias, nunca era esquecida nos agradecimentos e nos convites para as festas, festinhas e festarolas que davam a pretexto de tudo e de nada.
Voltava para casa cansada mas feliz. Pronta para ouvir as queixas da mãe sobre a ervanária onde trabalhava, as do pai sobre a imobiliária que lhe pagava ao fim do mês, as da irmã que não tinha chegado a sair da secretária, se bem que tivesse passeado sobre o mapa da Austrália e falado como um aborígene sobre os trilhos do canto, as do namorado que estava farto de viajar com frequência para Barcelona, mas porque é que não o mandavam para outro lugar, já não podia ver tapas e as ramblas já tinham perdido o interesse, as do sobrinho que com frequência dava pontapés nos tomates do Rui ou do Rodrigo, porque eles não lhe emprestavam o Action Man e ele emprestava-lhes sempre os brinquedos que levava para o colégio, as dos amigos que ainda não tinham terminado o curso e aquela cadeira era tão difícil de fazer, era a última, mas isso não os animava, quando é que iam ao bowlling, ou então jantar, vais ao casamento da Raquel, …
E o telefone sempre interrompido e uma voz de mulher sempre a dizer que deixasse a mensagem no voice mail do número de telefone tal e de imediato outra mulher, não estavam combinadas com certeza, a dar a informação que afinal o voice mail não estava activado. E quem ligava desligava, e ligava mais tarde e a mulher, que monótona, a dizer sempre o mesmo. E umas vezes desistiam e outras, a persistência levava a melhor, e lá conseguiam falar com ela.
Os amigos que ficaram na Alemanha também telefonavam. A mãe, que muitas vezes os atendia, já tinha uma mensagem ao lado do telefone onde dizia que ela não estava, para ligarem mais tarde. Os sons macarrónicos voavam por essa Europa fora e chegavam aos ouvidos dos alemães que voltavam a ligar, muitas vezes para ouvirem a mesma voz de mãe que, como a outra do voice mail, parecia uma gravação, apenas interrompida por risos surdos. Antes de terem a ideia da folhinha de papel, a mãe gritava que ela NÃO ESTAVA, como se o facto de se falar uma língua diferente fizesse dos outros surdos. Um dos alemães já tinha aprendido algumas palavras em português, segundo ele, para falar com a mãe dela.
Era uma paródia.
Muitas vezes, sentadas as três na sala, depois de verem um filme pediam à mãe que lesse tudo o que aparecia no genérico, e a mãe lia, rindo à gargalhada e fazendo ainda pior, acentuava palavras que até sabia como se liam. Ou então ensinavam-lhe o refrão duma canção em inglês ou francês e a mãe repetia-o até à exaustão, repetindo os erros que sabia darem vontade de rir às filhas.
Um dia, uma das filhas foi presa.