quarta-feira, 31 de março de 2010

9 de Maio de 2007

João
(Esta é a carta que eu gostava de te escrever e que chorasses de alegria ao recebê-la...)
Não te quero doente.
Prefiro ser eu a ficar constipada, com gripe, varicela ou sarampo.
Mas não esperes ter dores, sentir os braços e as pernas cansados e pesados e o corpo febril e não fazeres nada.
Eu estou assim e não é agradável.
A falta de dormir tem o efeito duma gripe.
Quando não se dorme pelos motivos pelos quais fiquei acordada ainda é pior.
Quando se fica doente depois duma noite assim, pior ainda.
Não sabes o mal que me fazes quando estou sentada à tua frente, a olhar-te. Lembra-me um dia, já muito longínquo no tempo, ainda namorávamos, em que pensava que ia ter um ataque cardíaco ou transformar-te em Jesus Cristo e pregar-te, não na cruz, mas na cama, e não com pregos, mas com beijos. Não sei como o peito não rebentou, naquela noite. As imagens passavam-me pela cabeça, como a paisagem passa por quem vai a velocidades impensáveis.
Faço um esforço enorme por te tirar da cabeça, nem que seja por alguns minutos, mas há sempre qualquer coisa que me estraga os planos: uma letra do teu nome, uma canção, um carro igual ao teu, um cheiro, uma mão pousada num corrimão, um perfume, uma brisa…e o meu coração acelera como se estivesse na pull position duma corrida e na primeira curva,…e os meus olhos procuram-te e encontram uma cidade sem ti,…e os meus dedos recusam marcar aquele numero de telefone,…e a minha alma vira-se do avesso e começa outro dia: com manhã, hora do almoço, tarde e noite.
Oh, noites em que o mundo descansa e eu envolvo-me em batalhas perdidas comigo e com os meus sonhos.
Quero sonhar outra coisa, quero não me lembrar do que sonho, quero não sonhar…quero que deixe de ser sonho…
Valem-me as noites que passo sozinha – o Duarte tem dormido com a minha irmã. São dolorosas, mas não nos obrigam à convivência com um corpo que nos queima por nada nos dizer.
De todas as coisas complicadas que já vi e de que já ouvi falar, amar é a mais difícil: o tempo escapa-se por entre o nada, as sensações são como uma enxurrada de lama e água que sobre nós se abate, deixando-nos atolados e presos na invisível, mas texturada, teia do tudo e do nada.
Empreender tarefas complicadas a nível físico pode matar.
Esta é a grande diferença: vou viver nesta tortura, não tenho a benção de morrer como quem morre depois de atingir o cume do pico mais alto do mundo, quem fez a travessia do Sahara ou quem passou o Cabo da Boa Esperança…
Amar dá tonturas, leva a esticar os braços para o vazio, faz sentir que estamos a ser beijados quando estamos sozinhos, faz puxar pela memória em busca de momentos que duraram um décimo de segundo ou de sabores que há muito a nossa boca não sente.
Amar faz com que o intervalo entre cada dia pareça o tempo que medeia a passagem do cometa Halley pela Terra. E quando o dia não acontece? É como se o cometa passasse e nós estivéssemos fechados numa casa sem janelas. É como se, por milagre, tivéssemos asas e não conseguíssemos voar.
Em simultâneo, e por estranho que pareça, amar faz esquecer, secundariza emoções que se consideravam fortes, retira importância a desavenças do passado. Esquecemo-nos que já somos crescidos e queremos crescer novamente. Queremos fazer coisas como se fosse a primeira vez e experimentar a novidade reinventada.
Amar é escrever um livro das mais belas e fantásticas aventuras, com cicatrizes que se acumulam no peito. Um livro que nos faz rir a propósito duma página em branco, chorar sem motivo aparente, mostrar alegria em dias de chuva que se pensava detestar, não ver os dias de sol com bons olhos porque a luminosidade pode não ser aliada da clandestinidade, sentir um arrepio quando os heróis falam ao telefone…
Amar é ouvir o outro falar e contar histórias e senti-las como se nós as tivéssemos presenciado e sentirmos dor e ciúme e raiva e incompreensão e saudade e temor e conseguirmo-nos lembrar duma coisa que não vimos, porque ele está a descrevê-la e através dele vivemos nós e respiramos mais depressa ou mais calmamente conforme a emoção que ele emprega na descrição que faz e…
E por tudo isto, meu João, não gosto que me digas que te sentes doente, porque amar também é ficar doente quando o outro não se sente bem e a terapia que eu te sugiro, não, não é tomares medicamentos, é sentares-te ao meu lado e encostares a cabeça ao meu peito e deixares que eu te cure com uma força que tu desconheces e da qual só sentes um laivo, um vislumbre.
Quero encontrar-me contigo fora de casa, sem a pressão dos meus pais e do Duarte… só para conversar… o tempo será nosso aliado, mas temos que o deixar correr, sem pressas…

Com amor da tua
Camila
PS. Imagino que leias isto e aches que escrevi em chinês...
PS. 1 Um dia alguém vai receber uma carta igual e vai compreendê-la

terça-feira, 30 de março de 2010

A Cidade do Amor

E ela repetia que o amava que ele fora o que de melhor lhe acontecera na vida e que o amava e que tinha que fazer escolhas na vida e que o amava e dava dentadas no pão com fiambre e amava-o com a boca cheia e até mesmo enquanto bebia o sumo de laranja de lata, amava-o.
E amava-o enquanto as pessoas iam passando, imunes àquele amor, preocupadas com o Centro George Pompidou e com os postais que nascem como cogumelos, à porta das lojas. E ela amava-o, toda ela o amava, até as suas tranças bem feitas, que lhe caiam nos ombros pareciam desfazer-se em amor, ou talvez fosse do sol estar quente naquele dia de inverno e ninguém ter desligado os aquecedores que pendiam do tecto, chamariz para aguentar os clientes nas esplanadas, onde se paga mais que no interior.
Não importa, ela amava-o enquanto as mesas iam ficando cheias de gente com fome e sede e vazias quando essa gente matava a fome e a sede, nem que fosse sede de ver as pessoas a passar, como a mulher que estava sentada na mesa ao lado da deles e ouvia a conversa.
Ela, francesa, amava-o em inglês da Austrália, terra donde ele tinha vindo.
Ele suportava o amor dela, ao abrigo de uns óculos escuros e dentro dum blusão preto de cabedal. O sumo de laranja ajudava-o a suportar aquele amor, tantas vezes repetido naquela mesa de café, onde falava pouco e ouvia muito, mas sempre a mesma coisa: as declarações de amor dela.
Prometeu escrever-lhe, do mesmo modo que se promete algo a uma criança, declarada e impunemente, mentindo.
Ela seria dele ali mesmo. Teria bastado uma palavra dele. Ele dizia que os negócios o obrigavam a ir à América, em resposta às palavras dela para que ficasse, com muito amor de permeio. Claro que ele preferia ficar, dizia, enquanto mirava as raparigas que se sentavam ou levantavam das mesas, não fazendo qualquer gesto sequer para segurar na mão daquela que o mergulhava em declarações de amor. Concedia-lhe o olhar e não era sempre. Fazia-o de forma a que ela não reparasse que partilhava aquele sentido com todas as outras pessoas do sexo feminino, usando de grande cumplicidade com os óculos escuros, como se de uma armadura se tratasse.
A mulher na mesa ao lado, no melhor lugar da plateia, usava o mesmo truque dos óculos e via o filme cujo fim se adivinhava triste para um e de alívio para outro.
Em desespero de causa, ele prometeu escrever-lhe e que ela lhe escrevesse também. Para onde? Para o e-mail, claro. A ansiedade dela era tanta, misturada sempre com sucessivas e imparáveis declarações de amor que não reparou que ele, quando ela lhe pediu que repetisse a morada, lhe deu outra, ligeiramente diferente. Prometeu que assim que ela lhe escrevesse, ele responderia. E prometeu e prometeu e ela amava-o e amava-o numa soalheira tarde de Inverno, em Paris ou em qualquer outro lugar, mesmo desconhecido, como aquele onde ele guardou o papel com o endereço electrónico dela.

Lá fora a cidade agita-se, como um enorme bicho, ora pronta a dormir, a acordar, a gritar, a chorar, a deambular sempre, néons picantes, vinte e quatro horas por dia, com tudo quanto se possa imaginar. Até a lua, em postais, é certo, mas compra-se e vende-se.
É como um jardim com as flores mais belas, mais bem tratadas, as mais requintadas, ao lado das quais proliferam tantas ervas daninhas como dificilmente se imaginará. Mas convivem lado a lado e complementam-se museus e monumentos com escória social, quadros que valem como palácios e gente que não tem um tecto para se abrigar. Carrosséis de turistas que não sabem o que fazer ao dinheiro e, como alternativa, deixam-no nas lojas de marca, cujas ombreiras são mantidas em pé, durante as noites e fins de semana, por gente que não sabe quando foi a última vez que mudou de roupa e não tem lembrança do último banho.
Curiosamente, não se ouve Piaf em lado algum, a prostituta cantora, que nos marcou a todos, de forma violentamente cor de rosa, afirmando que a vida era bela, quando só dificilmente era melhor que merda. Mas conseguiu ser melhor e isso é que interessa. Nem que se tenha que gastar uma vida para o conseguir.
Ela voltara lá. Como quem regressa ao local do crime. Estava frio. Talvez porque a declaradora de amor e o objecto da sua paixão, já lá não estavam.
Alguém pediu-lhe lume. Ouviu à terceira: Mademoiselle, era algo a que não estava habituada a que lhe chamassem. Meteu conversa com ela. Ou pelo menos tentou. Tinha um blusão preto de couro. Tal como o da tarde anterior. Talvez por isso, encolheu os ombros e disse com uma pronúncia horrível: je ne comprendre pas. Ele desviou de imediato o olhar, para pedir lume noutra direcção. Tinha quatro, cinco minutos até acabar aquele cigarro. Depois voltaria a pedir lume. A outra. Não tinha cara de aviador. Só blusão.
Mais uma vez sentiu que alguém lhe estava a ler o pensamento e supunha quem era pelo bater da bota, ritmicamente, como quem, de propósito, tenta interromper-lhe os pensamentos que viola. A sensação é tão forte que essa pessoa percebe que ela sabe e pára. Pára de bater com o pé, mas não pára de entrar dentro dela como se fosse um vento gélido, frio, que roupas nenhumas conseguem proteger.
Não sabe porquê mas Paris, a cidade do charme e do romance é dos outros, não dela e não concebe qualquer forma de aproximação. Sequer de conversa. Talvez não seja a cidade. Talvez seja o frio. Talvez não seja o frio e mais precisamente a falta de calor. Faz-lhe falta o calor. Precisa dele. Passa os Invernos esfomeada. Nada lhe detém a ansiedade. Só o calor. E espera por ele, ano após ano, como as esposas antigamente esperavam os maridos que corriam pelos sete mares. Não, não vai atrás dele por esses mares. Fica-se na sua condição de esposa, esperando que ele regresse. Oh, sim, ele regressa. Regressa sempre, vem vê-la, tem saudades dela, vem acalmá-la, vem dar-lhe ânimo para mais um ano de espera.
E toda a gente passa, em turba, e olham e ela olha-os. Com olhos de ver. Não se vai esquecer. Os momentos vão viver na sua memória como riscos feitos em pedra, de forma profunda. Não, não se vai esquecer, de T. E. Lawrence, de Oscar Wilde, de Rimbaud, que só de lhes ler o nome e já tem vontade de chorar. É como se tocasse a lua. Tanto talento e nenhum é dela. O talento é como uma paisagem longínqua que já se viu inúmeras vezes em fotografias, imagens, livros, mas que não é nosso. Apenas se lhe toca com o olhar, não nos apoderamos dele, por mais esforço que se faça. É assim o talento e é assim a relação dela com o talento. Quere-o mas não o tem. Quere-o mas sabe que a lua está mais perto.
De regresso ao hotel adormeceu no comboio. E sonhou. Sonhou com crianças pedintes que pediam em nome duma avó muda que não podia pedir. Chegadas ao sótão onde moravam, a avó muda gritava-lhes que não tinham pedido com insistência suficiente para um jantar decente. Comeriam crepes. Sem recheio. E que não se preocupassem, ela estaria de volta de manhã. E saía batendo com a porta de madeira escalavrada. A agressividade do barulho da madeira da porta a fechar-se, fê-la acordar a tempo de sair na estação pretendida.
Entrou no hotel, o Hilton ao lado do aeroporto Charles de Gaulle, e uma das cinco meninas da recepção – devia ser uma por cada estrela – dirigiu-se-lhe com um sorriso forçado, não conseguindo evitar os maliciosos comentários que lhe saiam do olhar, acerca da maneira como estava vestida. Deu-lhe os bons dias e perguntou se queria alguma coisa. No meio das suas roupagens que em nada condiziam com o estatuto do hotel, não teria passado mais despercebida se se vestisse à moda da Revolução Francesa.
Retribuiu os bons dias – em França é dia até ser de noite – e respondeu que apenas queria ir para o quarto e, já agora, tinha mensagens? A estrelinha do balcão, engolindo em seco, perguntou-lhe o número do quarto, confirmou o nome, enquanto era destinatária de um grande sorriso de gozo, não se atrevendo a tocar na mochila que ela depositara em cima do balcão, depois de a ter feito percorrer meia Paris.
Não havia mensagens. Obrigado.
Subiu, sob o olhar das cinco estrelinhas, como se de uma constelação se tratasse. Tomou banho. Um banho demorado e quente que lhe fez desaparecer as dores nas pernas. Vestiu-se e penteou-se da melhor maneira que a sua intratável cabeleira o permitiu.
Comeu uma sanduíche, bebeu duas latas de cerveja, compradas algures no centro de Paris, pois as do mini bar, que de mini nada tinha, vendiam-se a preços incomportáveis. Comer era um mal necessário e se uma maçã matava a fome, porque haveria de comer outra coisa, cem vezes mais cara? A menos que alguém, lhe pagasse… assim, devia experimentar tudo. Como o método experimentalista lhe estava nas veias, resolveu experimentar fazer algo que tinha visto num filme.
Saiu do quarto, desceu ao amplo hall, enquanto decidia se devia manter as mãos nos bolsos ou noutro sitio qualquer. Não tinha mala de mão, verdadeira muleta de qualquer mulher, que a usa quanto mais não seja, para ocupar as mãos.
Seguiu as gargalhadas de um grande grupo de homens, onde se destacava um americano que estava a contar uma anedota. Era um conjunto de mais de 20 pessoas, que se alinhavam como se de uma família se tratasse, onde os apelidos de cada um ganhavam estatuto de nome próprio. O grupo já tinha jantado e depois de uma fenomenal gargalhada provocada pela anedota do americano, levantaram-se e dirigiram-se para o bar. Ela esperou que se voltassem a sentar nos grandes sofás que os aguardavam e quando o empregado, com o seu melhor sorriso atarrachado, acabou de colocar os copos à frente de cada um, como se de um jogo se tratasse, ela avançou para eles, devagar, parando no primeiro, olhando-o fixamente.
De imediato aconteceu aquilo que ela esperava que acontecesse: calaram-se todos e ficaram a olhá-la. Primeiro no silêncio, depois no sussurro, depois no murmúrio e finalmente permitindo-se algumas cotoveladas e risinhos.
Avançou para o segundo, olhou-o, sorriu e fez que não, abanando o dedo diante do olhar dele.
Os risos aumentavam à medida que ela ia repetindo a manobra; sem saberem quem era, cobiçavam o animal que ia passando no meio das pernas, umas que se desviavam, outras que se mantinham direitas, de modo a obrigá-la a saltar por sobre elas.
Voltou a parar diante dum deles, olhou-o demoradamente, agarrou-lhe gentil e elegantemente a mão forçando-o a levantar-se, passou-lhe a mão pelos ombros, pelo peito, abraçou-o e beijou-o, no meio duma estridente salva de palmas e gritos em várias línguas.
Ele fez o beijo demorar um só instante, afastou-se dela, mas de modo a conseguir enlaçá-la pela cintura e, no meio de algumas observações brejeiras, declarou, em inglês:
- Apresento-vos a minha mulher.
Disse-o o mais indiferentemente que conseguiu mas, incapaz de manter a seriedade, sorriu de forma comprometedora. As reacções foram várias. Uns levantaram-se para a cumprimentar com um aperto de mão. Outros fizeram um aceno de cabeça. Outros já se tinham voltado para o parceiro do lado e continuaram a conversa que mantinham antes dela ter aparecido.
Muito brincalhona, esta minha mulher, dizia o marido, meio embaraçado. Rapidamente ela se pôs a falar com quem lhe estava mais próximo e só passados minutos deu conta de alguém, cuja cara lhe era familiar. Talvez um dos estrangeiros que já tinha ido a Portugal e com o qual jantara, num dos jantares onde, por vezes, o marido a levava.
A conversa não podia ter menos interesse, pois o tema central eram pormenores técnicos relativos às telecomunicações e um deles acabava de lhe perguntar se sabia o que eram beta-testes. O marido, calado, emitia um suave sorriso, só para dizer que tinha sinal, mas não dizia nada. Por entre as explicações do que eram beta-testes e qual a melhor maneira para se fazerem, ela lançava pedidos de socorro ao marido, com o olhar. Na primeira oportunidade, ele levantou-se, no que foi imediatamente secundado por ela e disse que lhe ia apresentar alguém de quem ela teria inveja. Não seria difícil, ela era uma invejosa assumida, por quem viajava e tendo em conta que estavam ali representados os cinco continentes…
Sentaram-se dois sofás mais à frente, ao lado do dono da cara que não lhe era estranha que devia ser uma espécie de ovelha negra da família, pois não participava com vivacidade no convívio empresarial que afectava todos os outros.
- Este é o nosso colega australiano... a minha mulher.
Meu Deus, era ele! Estava metido dentro dum fato de impecável corte, sem óculos e de cabelo esmeradamente penteado. Algures num dos quartos, por cima das cabeças deles, descansavam uns óculos de sol, umas calças de ganga e um blusão preto de cabedal.
Era ele, o objecto do amor da francesa das tranças que tinha que partir para a América rapidamente, estava ali, diante dela, completamente remodelado.
Parecia mais velho e… foi interrompida pelo olhar do marido que lhe falava mais alto que a sua voz, ao perguntar-lhe se queria beber alguma coisa.
- Hum...? Sim, qualquer coisa, - e o marido, rapidamente em português:
- O que foi?
- Já te conto, não vais acreditar!
Embora tivessem estado durante essa tarde em mesas que se ladeavam, quase duas horas, ele não a reconhecia. Declarações de amor podem ser como véus que escondem e tapam. Não tudo, mas por vezes o suficiente.
Decidiu não mostrar a sua curiosidade abertamente. Afinal, não seria preciso, ele dir-lhe-ia tudo, pois não suspeitava que ela ouvira as palavras entrançadas e as suas repetidas e mudas recusas dum amor em Paris, numa tarde brilhante de Inverno.
- Ele mora em Brisbane, disse o marido.
Tinha este costume de lhe pregar pregos; não o fazia maliciosamente, fazia-o porque sabia que ela gostava de conversar com gente que lhe pudesse transmitir imagens de sítios e locais onde ela gostaria de ir. Conversar com alguém de Brisbane era poder ver, ao longe é certo, a barreira de coral, aproximar-se dos temidos tubarões, saborear com a pele o mergulho nas águas transparentes do Índico, ah, o Índico, só a palavra fazia-a arrepiar. Não, o marido não a massacrava, à sua maneira, fazia-a viajar. Ainda que virtualmente.
Que sim, que vivia em Brisbane, embora já tivesse vivido em Perth e conhecia toda a Austrália.
- E Paris? Está a gostar de Paris? Com certeza já foi aos lugares míticos da mais charmosa cidade do mundo.
Uma casca de banana e não das da Madeira que, embora deliciosas eram pequenas. Uma casca de banana sul americana, bem grande.
- Sim, já conhecia Paris, estive aqui no ano passado.
Primeira derrapagem.
Ela voltou a ligar o motor e avançou:
- Mas e agora, não me diga que tem estado aqui, sempre em reuniões da empresa, e que ainda não foi sentir a corrente do Sena eternamente guardado pela Notre-Dâme e pela torre Eiffel...
- Bom, ontem passei lá, mas foi a correr e…
- A correr, acelerava ela, mas há coisas que não se podem ver a correr, olhe o Centro Georges Pompidou, por exemplo, tem muito que ver e não pode ser a correr. Não há nada melhor que um banho de contemporaneidade e ficar sentado numa esplanada a beber café – aqui ela evitou a referência directa ao sumo de laranja – e ver as pessoas a passar, quiçá falar até com alguém de Paris, ouvir o que têm a dizer - ele mudava de posição – e com sorte, deixar o espírito da cidade, tomar conta de nós. Sabe qual é o espirito da cidade de Paris? O Amor, claro, o amor…
Esperou que ele chegasse a consenso consigo próprio, sobre qual a posição em que ficaria, temendo por instantes que se levantasse e se fosse embora, bebeu um gole do conteúdo do copo e da expressão de estranheza estampada na cara do marido, recostou-se no sofá, acendeu um cigarro e, finalmente, ele falou.
Claro que era a cidade do amor, mas não do amor dele, a sua cidade natal era a sua cidade do amor. Com as suas ruas largas, em cujos passeios passeavam pares de namorados, casados ou solteiros, mães de mãos dadas com os filhos, onde nasciam flores que decoravam a casa de pessoas idosas saudáveis, com roupa de manga curta, cuidando das suas famílias e da sua comunidade, não faltando à igreja, cantando no coro que marcava, ao lado da câmara, o centro daquele mundo, tão pequeno e tão grande mundo, onde cabia o seu amor.
Falou ainda da chuva que quando cai fá-lo a sério, do sol ardente que queima os desertos, dos animais que todos acarinham, dos visitantes que tratam de forma hospitaleira, do cheiro que é único no mundo, e ele já viajou o suficiente para o poder dizer e para poder acrescentar que, para além de único e exclusivo é bom.
Tudo isso é amor, por isso é a sua cidade do amor.
Disse tudo isto usando a boca e o olhar. Nada mais. Os braços, donde pendiam as mãos não se mexeram, apenas a cabeça se levantava, de vez em quando um milímetro, como se pretendesse apanhar, com o nariz, o cheiro tão ímpar da sua cidade. Falava devagar, como se sentisse dificuldade em partilhar algo quase sagrado, como se lhe custasse verbalizar e expor um segredo, como se estivesse em dúvida se aquelas duas pessoas seriam merecedoras de saberem tudo aquilo, de entrarem na sua cidade do amor.
Decididamente, ela não esperava uma resposta destas, mas recompôs-se e elogiou-lhe o calor que emanava, não tanto das palavras, mas do olhar que se tinha perdido na imensidão australiana, enquanto falava.
Não resistiu e atirou-lhe um dos seus clichés favoritos, certa que ia encaixar no puzzle:
- Vê melhor quem vê com o coração. Também tem desilusões mas tem a suprema vantagem de ver coisas que os olhos não vêm.
E com um olhar rápido ao marido, incisivo, no momento certo, sem palavras, mandou-o fechar a boca, a ele, observador mudo daquela estranha conversa.
No entretanto, alguns dos convivas tinham-se levantado e pretendiam despedir-se daquela que teatralmente lhes iluminara o final do jantar de família da empresa que, como qualquer jantar de família, assim que acaba, deixa uma sala vazia.
- Não sabia que as portuguesas eram tão malandras…
Não são, garantia ela, foi uma brincadeira e não adiantava mais nada, pois a idade deles era suficientemente adiantada.
Interiormente rezava para que ele não se levantasse também e pelos vistos a sua prece foi ouvida pois, assim que a maioria dos outros se foram embora, ele perguntou se queriam beber alguma coisa mais.
Que sim, um igual para ela, uma cerveja para o marido Passados três minutos, estavam os três servidos e ela achou que tinha que continuar a acelerar. Porém, meteu-se por um atalho, deixando a auto-estrada, consciente dos perigos de se enlamear ou até de se atascar por completo.
- Ainda hoje à tarde, estava eu sentada numa esplanada e ao meu lado estavam dois jovens. Ela fez-lhe as mais calorosas declarações de amor que já ouvi e – mostrando-se falsamente surpreendida enquanto abria o jogo, pondo tudo a descoberto – agora me lembro, ele era australiano, provavelmente da sua terra, porque resistiu aos encantos da rapariga, e se era linda…
Dizia-o o mais teatralmente possível, acentuando-o com o olhar para o marido, que continuava o seu papel de antena avariada, captava tudo, mas não emitia nada.
- Sim, ela era linda – e aqui pôs um ar propositadamente de inveja e sonhador - …com duas tranças bem feitas e uns olhos pretos…
E enveredou sem hesitações, mas atenta às reacções dele, por explicações sobre uma antiga cantiga portuguesa que fala em tranças pretas.
Sem saber porquê, ele agradeceu-lhe interiormente, pois sabia que ela lhe estava a dar tempo para preparar a resposta. Dos olhos dela não se lembrava. Tinham estado cobertos por uns enormes óculos escuros. Do cabelo também não. Estava escondido debaixo dum boné. Mas lembrava-se das mãos. As mãos não tinham parado de escrever num caderno com capa de flores. As mãos tinham levado o café e os cigarros à boca. As mesmas mãos estavam agora a brincar com o copo de álcool que lhe pusera à frente. Lembrava-se de, sob o olhar desvanecido da parisiense, se ter questionado o que escreveria aquela sujeita que ali estava como se fosse uma celebridade, daquelas que querem passar despercebidas e usam óculos e chapéus para se manterem na clandestinidade. Escreveria declarações de amor, como aquelas a que ele próprio estava a ser sujeito? Se assim fosse quem seria o objecto da sua paixão? Que homem-pessoa-cidade a levaria a escrever tanto, intervalando e fazendo vírgulas ao levantar da cabeça, aparentemente, só para olhar quem passava? Não tinha nada da beleza da parisiense, mas exercia uma atracção que ele não sabia explicar.
Agora, ali estava ela à sua frente. Sabedora do amor que a dona das tranças lhe dedicava.
De repente, sentiu-se incomodado. Mais incomodado do que com as declarações de amor da outra. A francesa era aberta, amava-o, ou pelo menos assim pensava ela própria, dar-lhe-ia tudo o que ele lhe pedisse. Contar-lhe-ia segredos industriais ou nucleares se os soubesse e se ele os quisesse saber. Esta não. Antes pelo contrário. Estava certo que antes da primeira palavra já o tinha reconhecido e resolvera fazer aquele jogo. Claro que sim. Quem faz uma entrada como a que ela fizera num grupo de homens, não se impede de fazer uma brincadeira seja com quem for. O australiano sorriu, virou-se para o colega, marido dela, e contou-lhe onde se tinham conhecido. O marido percebeu finalmente o jogo dela, dando-lhe mentalmente cinco estrelas... como sempre.
Mais tarde, no avião de regresso, entalada entre duas crianças de vinte anos que falavam americano depressa demais e com quem acabou por trocar de lugar para que pudessem ir juntos e tagarelar ainda mais depressa, ligou os auscultadores, ouviu música e mudou de canal quando começou o Telejornal. Ia ouvir as notícias do seu pequeno grande Portugal. O José Rodrigues dos Santos, sem sorriso de orelha a orelha, abriu as notícias. Não tinha motivo para sorrir. As desgraças sucediam-se, sendo a maior delas a de Moçambique. O comer começava a chegar mas não chegava. Imagens de campos de refugiados, que ela imagina dentro do avião, passavam, dando destaque às crianças. Sim, elas destacavam-se sempre. Assim o confirmava o médico da ajuda internacional que acusava as pérfidas malária e cólera de atingirem, em primeiro lugar, o depauperado sistema imunitário das crianças. Os adultos se morrerem não faz tanto mal. Já viveram um bocadinho, já tiveram filhos, já sofreram as tragédias possíveis e já as sentiram na pele dos seus filhos.
Até parece que África, para além de ser um íman, como fica na parte de baixo do globo, caí lá tudo.
A Austrália também fica em baixo. A terra do amor, segundo aquele homem.
Ah, não fosse ela casada, seria descomprometida para sempre, jogadora implacável, viciada no jogo das palavras e deixar-se-ia levar.
Até onde? Até onde existisse mundo.

quarta-feira, 24 de março de 2010

A minha sobremesa

Ontem à noite cheguei tarde e jantei tarde. O curso está a ser delicioso, mas os jantares tardios não sabem a nada. Porém, tive uma boa sobremesa.

Depois de arrumar o prato sentei-me a olhar, sem ver, a televisão à qual o meu filho estava, aparentemente ligado.
Aparentemente...
Sentei-me e ele perguntou-me qual o erro do Símbolo Perdido do Dan Brown.
Como?
Respondi que não sabia e ele entrou por explicações com argumentos maçónicos e bases de sustentação com palavras que não sabia que ele conhecia. Sustive a respiração para ver até onde ele ia.
E ele falou e falou e continuou de tal forma que já estava nos Açores, antes de serem Açores, quando ainda eram a Atlântida e era habitada pelos altos, louros e lindos (?) atlantes.
Da forma mais descontraída possível, levantei-me, dei a volta à estante que está no meio da sala, procurei na parte de trás e encontrei um dos meus livros de eleição quando tinha a idade dele: Os extraterrestres na história de Jacques Bergier. Capa dura preta, letras douradas, papel já amarelo, várias dobras nas pontas, costume que ainda mantenho (por isso não gosto de livros emprestados, onde não posso deixar cicatrizes), edição dum clube de livros.
Entreguei-lho como se lhe desse uma maçã, da forma mais natural possível, e viu endireitar-se no sofá e sorrir. Um sorriso que só eu conheço, para dentro, como se mais ninguém percebesse que ele está a sorrir. Mas eu sei.
Disse-me que o iria ler a seguir, depois de terminar um sobre simbologia do Símbolo Perdido. E disse mais:
- Agora, vou dedicar-me a livros de simbologia, todos os meses compro um.
Assenti discretamente por fora e em júbilo por dentro, enquanto nova volta à estante me permitiu encontrar outro do mesmo género, com anos e anos, que ele guardou igualmente no quarto dele, informando-me que leria tudo de seguida.
Mais tarde, ele deitou-se e eu fiquei na cozinha a ler, pois as mil páginas do 2666 não permitem leituras na cama.
Perto das duas da manhã estávamos ambos a comer uma pizza... o vício da leitura manteve-nos acordados... mas dá-nos fome!

The letters of T. E. Lawrence

Na biblioteca andamos numa fase profícua de aquisição de livros estrangeiros. As encomendas sucedem-se e chegam todos os dias. Alguns deles já usados, e foi esta característica que me proporcionou a surpresa total. Mas totalmente total.
Uma das funcionárias entrou trazendo numa mão um envelope castanho e na outra um livro, pedindo desculpa por ter aberto a correspondência. Agarrei o livro como quem dá a mão a alguém, como sempre faço. Olhei a lombada com olhar meramente informativo, para saber o que era e, imediatamente a seguir, devolvê-lo para que seguisse os trâmites do costume: catalogação, indexação, classificação, cotagem, entrega a quem o tinha encomendado.
Mas imediatamente a seguir não aconteceu nada disto porque fiquei logo aturdida com o título: ‘The letters of T. E. Lawrence’.
Quem, mas quem, meu Deus, teria encomendado aquilo? Quem? A rapariga olhava-me com ar espantado e voltou a pedir desculpa por ter aberto o envelope, uma vez que vinha dirigido a mim, a mim pessoa e não a mim bibliotecária.
Fui percorrida por um arrepio que o remetente não sentirá nem quando as temperaturas do norte da Europa, lá por onde ele anda, atingirem mínimos históricos.
O livro era para mim, para mim pessoa.
Pedi para ficar sozinha, como sozinhos ficamos em momentos que são única e exclusivamente nossos, que têm pessoas certas para serem partilhados e as pessoas certas não estavam aqui, de modo que era prioritário ficar só.
Folheado o livro revelaram-se dois postais: outra onda de prazer.
Um mostrava um farol... – e qualquer comentário seria seguido dum mar de lágrimas – e o outro uma cascata fabulosa, quase surreal. Os postais anunciavam a intenção de procurar a primeira edição deste livro e de, igualmente, ma oferecer e traziam uma cascata de beijos.
Perceberá bem o remetente o que senti ao ter este livro na mão...? Vou tentar racionalizar:

1º - O autor, meu eterno companheiro, de dia e de noite, de Verão e Inverno, na perseverança e na fixação de objectivos
2º - O texto: haverá coisa mais íntima do que uma carta?
3º - Escrito na língua que Lawrence falava e não uma tradução.
4º - Escrito em diversos locais geograficamente muito separados
5º - Em edição de 1938, Londres
6º - Enviado do Norte da Alemanha, de Kiel
7º - Comprado sabe Deus onde
8º - Oferecido pelo V.

Desculpem todos... isto é imprestável, ou seja, não se empresta...
Para algo assim, less is more e só há uma coisa a dizer: Obrigada V.

terça-feira, 23 de março de 2010

Olhar para trás

Ontem tive um fim de noite delicioso. Para procurar uma fotografia revolvemos – eu e o meu filho – os álbuns todos.
Vários passados passaram-nos pelas mãos, com risos e gargalhadas, lembranças e surpresas. Imagens que pareciam doutras dimensões, caras de gente parecida connosco e que tínhamos a certeza de já ter visto há alguns anos atrás num espelho.
Fotografias de tudo e mais um par de botas. O meu filho ia dizendo disparates que me faziam rir e rebolava-se às gargalhadas com as poses do Pai, tantas mas tão parecidas, com o bigode do Pai do qual ele não se lembra, com a sua própria colecção de gorros e chapéus, que eu alimentava quando ele era bebé e da qual não tem igualmente memória.
Constatou que o avô Romão é igualzinho ao avô Bento, seu filho; e que o Pai, quando jovem, tinha uma bela figura. Pela qual eu me apaixonei.
Vimos os nossos cortes de cabelo ao longo da história. Os meus davam para fazer uma enciclopédia para enviar aos cabeleireiros e, a partir daí, poderiam escolher-se mil cortes. O dele era quase sempre rapado.
Rimos com os óculos que por ali tinham sido registados, tão variegados que muitos oculistas não terão uma pequena parte daquela amostra. Alguns deles já não os recordava e outros pedi-lhe que os trouxesse quando visitasse a antiga casa do Pai. Tenho saudades deles. São óculos que contam histórias e estórias. São óculos testemunhos de vida, da minha vida. Foi através deles que, naquela altura, eu via o mundo.
Quando chegámos às fotografias do casamento ele comentou que se lá tivesse estado – durante algum tempo não percebia como não o tínhamos levado e estranhava igualmente a ausência do Tio Helder... – tinha abandalhado aquilo tudo. Riu-se do ar alcoólico do primo Alberto, do ar solene da avó Prata e dos dois jovens, ela de branco, ele de negro, que estavam em quase todas as fotografias daquele álbum.
Foi um fim de noite em simultâneo aparatoso e íntimo.
Ainda faltam as caixas de fotografias que ficaram para uma noite da semana que vem, cuja boa disposição já antevejo.

Jerusalém

Ontem terminei o meu périplo pelo interior das personagens criadas por Gonçalo M. Tavares. E pergunto: personagens ou pessoas? Pessoas certamente, ali mascaradas de personagens. A dada altura senti-me uma coscuvilheira por olhar tão intensamente para dentro daquela gente, um olhar que entra nas letras e se mete na pele.

O universo dos loucos é fascinante: somos fascinantes. Mas a veia do escritor que absorve e conta – a nós leitores – é bela, apesar de nos abrir janelas indiscretas. Senti-me a violar a privacidade de alguém, a entrar sem saber se era convidada, apesar do livro estar ali na prateleira para eu o levasse, voluntariamente, ele e eu.
Voltarei a este assunto. Recomendo Jerusalém.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Maus hábitos

Na sexta feira recebi em casa um cheque da Segurança Social a pagar-me uma parte dos dias que faltei por acompanhamento à família em situação de doença. Pensei que não receberia nada, de modo que foi um bónus.
Sábado de manhã levantei-me mais depressa que o costume e fui gastar o cheque... numa livraria.
Ai, que bom gastar dinheiro bem gasto, que bom entrarmos e não termos que escolher um título só, que bom dizer imediatamente sim ao meu filho sem olhar para o preço, quando ele próprio escolhe um livro, que bom carregar aqueles sacos, sentir-lhes o peso e antecipar a leitura.
E foi assim que, finalmente, aderi à Bolañomania, embora ainda não tenha passado do primeiro capítulo de 2666. E porquê? Porque comprei também, e também finalmente, o Jerusalém e, tendo começado o 2666 nos minutos que antecedem a sessão de cinema que fui ver, e tendo continuado no intervalo, cheguei a casa e, como quem tem fome e sede e bebe com a boca bem cheia de pão, decidi começar também o Jerusalém.
Mais ainda, a minha gula faz-me pensar no quarto livro que comprei, para o meu filho oferecer ao Pai como lembrança do Dia do Pai - outro Bolaño – que enviei com uma importante mensagem: Depois de ter sido lido é favor emprestar este livro... a mim!
E assim passei o Domingo, entre aqueles que me eram estranhos e agora já não são.
Porém, por causa de alguns maus hábitos, sou forçada a interromper a leitura, sou obrigada a atirar a esperança dumas páginas para o regresso a casa, no comboio e para a hora do deitar, quando os lençóis brancos de florzinhas coloridas me acolherem e me deixarem mergulhar noutras dimensões.
Maus hábitos estes de se ir trabalhar que nos roubam tempo e impedem o normal funcionamento das coisas. Sou diariamente assolada por um pensamento que, hoje em particular, tento afastar, pese embora o expresse aqui: sinto-me sempre em falta com a leitura; de tanta coisa que há para ler, eu apanho apenas uma migalha minúscula e esfarrapada e sinto-me pobre.
Drucker diz que devemos fazer aquilo em que somos bons e esquecermos o resto: eu sou uma boa leitora, mas preciso do resto.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Hoje é Dia do Pai.

Nunca faltou uma lembrança ao meu Pai nem ao Pai do meu filho. Sempre fiz questão disso.
Ontem aborreci-me com o Pai do meu filho porque ele nem sempre sabe ser...Pai.
Custa-me repetir mil vezes as mesmas coisas e constatar que é um ‘aluno’ pouco aplicado.
Os filhos andam em aprendizagem constante e os Pais também, mas com uma diferença, muitas vezes temos que fingir que sabemos tudo... e isso custa, e dói, e é difícil e frequentemente desesperante, mas é o nosso papel...
Se os Pais muitas vezes passam sem as prendas típicas e só querem um mimo dos filhos, estes, quase sempre, querem um Pai cúmplice e camarada, que esteja disponível e que organize, por exemplo, jogos de paintball ou algo semelhante e não deixe estas coisas de homens em mãos alheias.
Querem um Pai que se envolva, que tome decisões, que mostre que tem força, não para mandar, mas para proteger, para salvaguardar.
Os Pais têm que saber ouvir e não divulgar, têm que gerir a informação e guardar segredos, e isso garante-lhes a subida a patamares de confiança que não alcançarão doutra forma...
Os Pais devem surpreender os filhos mostrando-lhes inequivocamente que eles são o que de mais importante existe na vida e, pelo menos de vez em quando, apagarem o resto do mundo e dizerem-lhes:
- Filho... estou aqui e para mim só existes tu.
E aí, quando chegar o Dia do Pai, será celebrado espontaneamente e com genuinidade e não por obrigação.
Feliz Dia do Pai.

A paisagem corre, veloz

A paisagem corre veloz na janela do comboio
Está ali, exposta à vista e ninguém a contempla
Só a olham, sem ver.
Não se apropriam dela, não sonham com ela
Imaginam-se em destinos longínquos que, parados e silenciosos, aguardam
Como quadros de um museu.
A paisagem corre, veloz
Veste-se de prédios, de casas, de construções
Pensa que é bonita, enfeitada com jardins sem relva onde não se brinca
Pensa que é atraente, embelezada com parques de estacionamento repletos de carros
Pensa que é alguém porque abriga pessoas que lhe chamam cidade.
Despreza o campo que é rústico, campónio,
Cheira a fumo das lareiras e a bosta de vaca,
Não tem estradas, não tem prédios que fazem os seus moradores estarem mais perto de Deus, defendendo-se no anonimato
Nas cidades a paisagem corre, veloz

quinta-feira, 18 de março de 2010

Cegos são os deuses

Quando a tristeza é tão grande que não há oceanos que a possam conter, e o próprio Júpiter se assemelha a um grão de areia onde nada cabe, surge uma sensação de desorientação profunda.
É como se as ruas tivessem mudado de sítio, a cidade se virasse do avesso e as emoções deixassem de respirar, de ter vida própria.
É assim que me sinto.
Sufoco ao respirar, atirada para os fundos da galáxia, numa asfixiante despensa do universo. Não faço ideia onde estou. Perderam-me.
Sinto as batidas do coração como a contagem decrescente do lançamento duma nave espacial, envolvas num barulho ensurdecedor e quase terminadas. Sinto que acabam a qualquer momento.
Nada está no sítio, tudo se moveu devido a um cataclismo invisível que se abateu no lado esquerdo do meu peito.
Mentira! Puro engano!
As coisas sempre assim foram... mas a minha cegueira fez-me passar quase cinco décadas a rezar a um Deus que não quer a minha fé.
Como pode um Deus queixar-se dum mortal? Como o pode acusar de lhe ser maléfico?
Haverá prova maior que o mundo está virado ao contrário?
Expulsaram-me do altar onde me ajoelhei a vida inteira, as minhas preces sussurradas foram proibidas por se assemelharem a gritos aos ouvidos divinos, as minhas orações eram discursos agora banidos.
O que se responde a um Deus?
A um Deus que se venera, que se ama, por quem se fazem sacrifícios? O que se responde a um Deus que nos manda afastar? Nada... não se responde nada, cumpre-se a sua vontade.
A ideia dum Deus sentir raiva por quem lhe reza é contra-natura. Serão os deuses assim? Afinal, não são humanos e até me questiono se, do alto de todos os seus poderes, terão eles um vislumbre do sofrimento que causam quando afastam um crente? Não creio... eles não sentem da mesma forma. Por isso, quantas vezes nos perguntamos por que acontecem certas coisas que, para nós, simples pessoas, são inexplicáveis e injustas... e continuarão a ser.
A minha desorientação é cada vez maior... ao longo da vida, não posso ter dado mais provas de dedicação e louvor, de amor e entrega, de acompanhamento e presença. O que devo fazer mais? Dar a vida como nos antigos rituais? Chego a pensar que é o que quer este Deus que me manda afastar por lhe fazer mal, que não pode ouvir-me nem ver-me, que instituiu o afastamento como condição obrigatória para a sua nova vida...
Como se reclama com Deus? Como se faz para o lembrar de todo um percurso de vida, inteirinho, de dedicação absoluta?
Não sei, sou uma simples mortal que sempre foi a primeira a chegar à igreja e a última a sair dela. Sinto-me escorraçada. Friamente escorraçada por um Deus que me fala como se me tivesse chamado a vida inteira e eu tivesse virado as costas, eu que virava as costas ao mundo só para o olhar e adorar. Eu que me sentia abençoada só por ele me permitir olhá-lo...
São assim, os deuses, imprevisíveis, ingratos e injustos. Cegos, são os deuses.
E hoje, a tão poucos dias da ansiada Primavera, quando o sinistro Inverno já se afasta e se avistam azedas nos quintais, quando o sol se deixa ver em espaços cada vez maiores, quando a esperança do calor nos aquece por antecipação, quando os dias crescem e planeamos sair do lugar onde nos escondemos durante as chuvas, quando sorrimos à vista das primeiras tímidas borboletas, somos arrasados por uma convulsão que nos arremessa para o limbo, um lugar de dúvida da própria existência.
Deus diz que está doente e acusa-me de ser parte da doença.
Silencio-me estupefacta com o esquecimento das nossas vidas em comum, com o apagar duma essência que me é indispensável.
Quem soprou e apagou a vela que um dia lhe dei com a recomendação que a acendesse sempre que precisasse de mim, com a certeza que eu iria ter com ela?
Quem a desmembrou e atirou comigo para o cesto dos excedentes?
Quem, quem, quem, o quê, o quê, o quê...?
Tanta pergunta inútil.
Já não existo.
Deus descartou-me. Já não precisa de mim. Se calhar nunca precisou e a minha estupidez não me deixava alcandorar esta verdade.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Jogo do elástico

Um belo dia um engraçadinho lembrou-se de cortar o elástico com uma navalha. Lá demos um nó à coisa e continuámos aos saltos. Ele insiste e torna a cortar o elástico. Eu, em fúria, digo-lhe que se ele repete a brincadeira nem sonha o que lhe faço. Não sabia ele nem eu... porém, como ele se atreveu a cortá-lo de novo, olhei em volta e, em desespero de causa, sem um calhau para lhe atirar acima ou um pau para lhe arrear, tirei o cinto e fi-lo estalar na direcção dele... mas a fivela (enorme!) acertou-lhe entre os olhos e abriu-lhe a cabeça...
E eu, que nunca tive pontaria para nada, vi o meu pai a ir à escola e a ouvir as queixas do director... resultado: castigo!
Que injustiça...

21 de Março de 2007

João…
Esta separação está a custar-me, a doer-me, a magoar-me…
Durmo todas as noites com o Duarte, que se consola com isso.
Mas tu vens-me à ideia e acodes-me ao espírito e o nosso filho faz os trabalhos da escola e diz que o I grande parece que está a pensar e o C de sapato é a letra mais bonita e eu riu-me com ele e tu estás aqui ao lado e ris também.
Céus, como eu queria que me invadisses, como eu queria que me conquistasses e sem luta, sem batalhas, uma entrega total, uma rendição sem precedentes.
À bocado eu e ele fomos jantar e ele não quis sobremesa, quis antes que eu comprasse pastéis de nata para comermos na cama, e logo eu a pensar que engordam tanto, mas ele pediu e vai fazer questão que eu coma também e eu comprei e comemos os dois, nos lençóis lavados – não sei se te lembras, mas a nossa empregada muda as camas às quintas feiras por causa das minhas superstições – e rimo-nos muito e ele vai adormecer com canela na cama, e lá estávamos nós debaixo dos lençóis à luz da lanterna, eu a ler as palavras difíceis, ele a ler as fáceis e o herói da história chamava-se Jonas, olha mãe tem a letra do nome do pai e durante um centésimo de segundo eu fujo debaixo dos lençóis e penso que devia querer entregar-me a ti, e rápido, rápido, volto e digo sim, que esperto que tu és, já sabes ler, e o meu coração, nitidamente dividido em duas partes, onde uma não tem interferência com a outra, mas estão juntas e são inseparáveis, como compete aos ventrículos e às aurículas.
E mãe, conta-me uma história e que seja de Digimons e Pokemons, e lá invento eu uma história de amor, sempre uma história de amor, entre meninos Digimons e meninas Pokemons e adormecemos, ele encostado a mim e rapidamente me assolam aqueles sonhos e não estamos sozinhos na cama, há mais duas pessoas que se nos aconchegam só procurando calor e eu conto outra história, passada noutro planeta onde não há vida nem morte. Só querer. E o querer é mais forte que tudo e basta as pessoas quererem com força e conseguem o que querem e são felizes e adormecem quentes e calmamente dormem de forma repousada a noite inteira.
E eu durmo e acordo, como se estivesse numa pista de automóveis e periodicamente passasse pelo mesmo sítio. E penso. Penso em Santiago de Compustela: sempre lá quis ir, desde há imenso tempo que o projecto ganhou forma na minha cabeça, mas agora tenho um motivo para lá ir: ganhei o motivo naquele domingo, 11 de Novembro, quando tu não paravas de me telefonar, e dizias-me coisas que me punham louca de felicidade e à noite vim ter contigo e queria sentir aquela proximidade, aquela sensação de ser um corpo só, dividido em duas pessoas e a certeza tão certa que se naquela noite tivéssemos feito amor, tu dentro de mim e eu a acolher-te, não teria sido sexo e sim um mergulho no mais fundo do olhar de cada um, um mergulho que podia ter demorado horas, pois a dádiva do momento seria oxigénio suficiente para o resto da vida, e se houvesse gotas de suor a escorrer pela pele não se saberia qual a sua proveniência, porque os dois eram um e nem sequer haveria orgasmo porque a essência do acto era o mergulho no olhar, o mergulho um no outro e nada mais era preciso.
E no dia seguinte, telefonarias e eu pensaria, não, não era possível que fosses tu a telefonar, e não, não era possível que tivesses dito o que disseste, tu sentias mesmo o que dizias sentir por mim? e repetias que era a primeira vez que percebias a profundidade do teu sentir e eu, que tinha vivido tempo sem fim à porta do inferno, agora sentia abria-se a porta do céu e lá estava eu com as minhas dúvidas, estúpidas dúvidas, mas depois lembrei-me, não sei porquê, duma vez na Tunísia, onde encontrámos um homem que dizia ser um famoso trapezista que tinha actuado nos principais circos da Europa e toda a gente gozou com o homem e eu fui a única pessoa que o escutei e deliciei-me com as histórias que ele contou e quase chorei quando ele, no final me disse que tinha abandonado o circo porque tinha tido um acidente, motivo pelo qual coxeava, e todos os que me acompanhavam já não se lembram de nada e eu acredito que conheci o Leão da Tunísia e com ele falei e ele contou-me a história da vida dele pessoalmente e eu fiquei mais rica porque acreditei e acredito. Acreditar pode ser uma coisa poderosa. E eu acredito.
Não podiam ter mandado outra pessoa a Bruxelas? Volta... preciso de falar contigo, de viva voz e não só através destas intermináveis cartas que te escrevo sem parar e que tenho dúvidas se as lês... temos tanto para conversar...
(Acho que) Amo-te ... mas não tenho a certeza.
Camila

terça-feira, 16 de março de 2010

A sublime faculdade de lembrar

A sublime faculdade de lembrar
Leva à memória os tons, os timbres, o brilho, a tonalidade
Paleta indiscritível de saudosas cores
Que há muito não me enebriam
Porque te não vejo
A moldura, rodeia o teu rosto
Parado, imóvel, ele é uma mentira
As gargalhadas, a voz, o sorriso, o olhar
Ficaram de fora
Seria impossível pô-los numa moldura
Sacrilégio só pensar em fazê-lo.

Em F

Forço a fuga futura
Ferido é o fardo fosco
Fantástico foi o furacão
Férias, fuligem fantasmagórica
Fogo, ferro e fusão
Fusível frio, fragata familiar
Frondosa é a fronteira
Fútil e frívola é a forma
Folheio a fome
Flecte-se a flecha, floco de felicidade
Fuzilemos a festa

segunda-feira, 15 de março de 2010

Por favor, alguém aplaque a ira dos deuses e me liberte!

Por favor, alguém aplaque a ira dos deuses e me liberte!
Quantos mais dias, ainda, com o coração a bater a este ritmo,
Com o coração a querer sair do seu sítio,
Com o coração a estar tão quente que procura o frio, às vezes da morte…
Como é possível alguém entrar neste Inferno onde estou sem o perceber?
Onde estão os portões cheios de ferrugem?
Onde está o ranger do batente?
Não vi nada disto.
De repente, abri os olhos e estava cá dentro.
Quem vai descer ao inferno para me vir buscar? Ninguém.
Quero fugir, quero sair daqui, quero deixar-me algures,
Quero prescindir de uma parte de mim.
Dizem que amar é morrer um pouco
É claro que é, ou melhor não é
É morrer de vontade, é vontade de tudo e de nada,
É nada fazer, é fazer tudo
É tudo esquecer, é esquecer o ser,
É ser capaz, é a capacidade máxima,
Maior do que correr sob a seara ao Sol, com a boca ressequida e cair à sombra de uma árvore.
Caiu um relâmpago à minha frente, na vida.
Deixou uma escarpa, um abismo, um buraco.
Não sei se salte por cima dele e continue,
Se fique parada
À espera que uma rabanada de vento,
Ou me empurre para o fundo ou me faça saltar por ele,
Ou se me deite e devagar, muito devagar, me deixe envolver
Pela aura de mistério que o desconhecido sempre dá,
Sempre oferece, como compensação por o estarmos a abraçar.
Deixem-me todos, completamente só
Não, não me deixem, o que vou fazer sozinha?
Nunca estive sozinha antes.
Mas deixem-me gritar, esgrimir a minha contenda comigo mesma.
Alguém me ajude, não me deixem transformar num farrapo maior
A música parece ser o único bálsamo
Entra por todos os poros e pelos ouvidos também
Tenho vontade de dançar e danço comigo dentro da minha cabeça
Mas canso-me e desisto
Dançar sozinha não tem graça
Por favor, alguém aplaque a ira dos deuses e me liberte…

Vem, aguardo desvendar o teu mistério

Vem, aguardo desvendar o teu mistério
Vou ser o Sol que lança calor sobre as pétalas que se abrem lentamente
O farol que guia, alumia e cega
A estrada de nuvens rumo onde queiras
Vem, deixa-te explorar
Volta a ser o menino rapaz
Mostra a adolescência e a inocência não perdidas
Mas escondidas
Escancara as portas e as janelas do ser
Mostra que não tens pena de nada, pois tudo está ainda ao alcance da vontade.

Colori o meu olhar

Colori o meu olhar

Era amargo e já doce se saboreia
Engasga-te com o arco-íris
Não, não tão depressa, devagar, devagar
Olha-me de soslaio
Não me olhes nos olhos
Deixa-me antes, apreender-te, tomar-te como meu
Eu sou de quem me conseguir apanhar
O meu olhar colorido é do mundo.

Quero colar o olhar com o de outrem

Quero colar o olhar com o de outrem
Entrar pela alma dentro, invadir-lhe o íntimo
Quero fugir e não ser capaz
Quero ficar prisioneira do olhar que ainda não vi
Apreender-lhe a imobilidade que, incansável, me vai falando.
Não, não são as palavras que ouço, essas são a máscara.
Olhem olhos, falem, cheirem
Explorem com os dedos que as vossas mãos são as grandes e verdadeiras aventureiras
Olhem-me!
Ah!, se nós pudéssemos ouvir o olhar
Que palavras inebriantes
Que emoções incontroláveis
Que fluídos avassaladores
Que ruídos insuportáveis
Que desejo escondido…já o desmaio se adivinha
Não, não feches os olhos
Arrepia-me o que não vejo, a esperança do que talvez vou sentir
Não, não feches os olhos
Quero colar o olhar com o teu

Para um desconhecido...

Não me mostres o que quero descobrir sozinha

Não me ajudes a procurar
Tacteio, devagar, como cega, com os olhos bem abertos
Gasto palavras sem sentido na busca de um leito feito de rosmaninho
Um leito de um rio que corre e onde eu navego,
Ladeada por tufos que antecipam a leveza do toque, o veludo da carícia
Quero ficar e olhar
Absorver o imenso glaciar que espera uma oportunidade para se derreter
Apesar do calor, teima na altivez da dureza
O branco do gelo, transformado em vermelho de desejo
A mentira flui e é verdade
A distância passa ao largo
O movimento existe mas vai para outro lugar
A espera é fabulosamente mantida sem que as partes a quebrem
Como uma cerimónia cujo êxtase consiste nos momentos que a antecedem
A espera é o ritual mais precioso
Não, não abras a caixa de Pandora
Basta-nos saber o que contém
Não precisamos de ver, acreditamos mesmo que seja mentira.
O barulho da respiração antecede o que não vai acontecer
Sabemos que a Lua está ao alcance da mão, aquecida pelo Sol
Com os seus cheiros e os seus sons mudos
Como a melhor das sinfonias
E nos faz esperar…
Aquilo que não aconteceu prolonga-se, antevê-se, arrepia-nos
Faz ebulir a fúria da chegada ao instante que demoniacamente esperamos e afastamos.
O mais conscientes possível.

quinta-feira, 11 de março de 2010

A rapariga que não gostava de livros com capas dobradas - XIV

Acordou imensas vezes a meio da noite com os solavancos do comboio e foi das primeiras a tomar o pequeno almoço na carruagem bar. Não viu o filho, com pena dela, mas pensou que assim era melhor. Eram nove horas em ponto e o comboio estava a entrar na estação de Chamartín.
Saiu com a sua reduzidíssima bagagem e foi para a fila dos táxis que era enorme. Se demorassem muito, o Paulo chegaria primeiro de metro.
Finalmente lá se meteu no táxi e pediu para ir para o aeroporto. Cerca duma hora depois do comboio chegar a Madrid, entrou em Barajas e achou o aeroporto lindo, como lindos deviam ser todos os aeroportos do mundo. Pensou que ali se daria o derradeiro passo na irreversibilidade da sua acção. Andou ao acaso, procurando Paulo com o olhar, mas não o viu. Viu indicações de, pelo menos, quatro terminais, e achou o aeroporto amplo e muito luminoso.
Olhou em volta e viu que era quase meio dia. Sentou-se numa mesa e ia pedir qualquer coisa para comer quando viu a filho a acenar-lhe e a chamá-la. Levantou-se imediatamente e foi na direcção dele com o sorriso a morrer-lhe nos lábios à medida que se aproximava e que via a cara transtornada do filho. Acelerou o passo até dar uma pequena corrida enquanto o rapaz fazia sinal para se despachar. Antes que tivesse tempo de abrir a boca empurrou-a para dentro duma casa de banho, entraram num dos compartimentos e disse:
- Mãe... tem calma, ‘tá tudo bem mas... acabei de ver o pai.
Ela não disse mas o seu olhar de terror dizia tudo, enquanto as lágrimas teimaram em saltar.
- O pai? Aqui? Como é que ele soube? E a polícia? Ele andava com polícia?
- Não mãe. Dei com ele por mero acaso. Apanhei um susto enorme, mas depois percebi que ele não está atrás de nós.
- Então o que está aqui a fazer?- perguntou a mãe em aflição total.
O rapaz fez-lhe sinal que falasse baixo pois, afinal, estavam dentro do mesmo compartimento, na casa de banho dos homens.
- Quando entrei no aeroporto ia a sair um monte de gente em direcção aos táxis a falarem português...
- Sim... e então? Por favor, explica rápido!
- O avião de Lisboa para Paris teve uma avaria qualquer e pararam aqui, só que o pai perdeu as malas e toda a gente saiu mas ele anda aí. Ele tinha-me dito que íamos fazer escala em Paris e depois é que íamos do aeroporto Charles De Gaulle para a República Dominicana. E agora ouvi-o dizer à Adelaide que ia ter com ela ao hotel logo que encontrasse as malas.
- Estamos atrasados... o que fazemos? Ele por aí pode dar connosco a qualquer momento...
A cabeça estalava-lhe com a dor que se tinha instalado durante a breve explicação. Sentia-se nauseada novamente e pensou que o melhor era aproveitarem os bilhetes de comboio ida e volta e regressarem a Lisboa.
- Nem pensar mãe. Temos que ter calma e vamos apanhar o nosso avião, percebes?
O tom do filho era firme e não admitia contestações, mas ela estava apavorada.
- Como? Já viste a nossa figura metidos numa casa de banho pública? Ele pode entrar por aqui a dentro em qualquer instante!
As mãos tremiam-lhe, suava abundantemente, estava com tonturas e nauseada. Assim que se aproximasse do avião e a vissem assim pensavam logo que transportava droga e aí sim, estava tudo estragado.
- Mãe, vamos sair daqui os dois devagar e tu vais pela direita e eu pela esquerda. O balcão é o 14. Abre bem os olhos e pensa que ele não está à espera de nos ver aqui, mais ainda, assim é mais uma ocupação para ele e...
Paulo foi interrompido pelo toque do telefone.
- É o pai...
Olharam-se e o rapaz rapidamente ganhou a compostura, fez sinal de silêncio à mãe e atendeu:
- Atão, tudo bem?
- ...
- A sério? Não acredito...
- ...
- Pois, ‘tava a estranhar ‘tares a ligar a esta hora, atão e agora?
A mãe bem se esticava para ouvir alguma coisa mas não conseguia. De repente o filho abriu a porta da casa de banho, deu um encontrão num homem que levava as mãos no lavatório e correu disparado em direcção à rua. A mãe ficou atónita com aquele comportamento e, sem saber se devia ficar ali ou sair, optou por sair, principalmente depois dos olhares de que foi alvo por parte dos dois homens que estavam na casa de banho.
Saiu e ficou à porta tentando perceber para onde tinha ido o filho. Quando achou que ia desmaiar com tanto susto viu o rapaz caminhar na sua direcção.
- Mãe... ‘ta tudo bem...
- Onde foste? Perguntou ela entre o zangada e assustada.
- Ouve- pediu o rapaz – Nas casas de banho também se ouve a chamarem para os aviões e se ele ouvisse, podia não perceber, mas achava logo muito estranho.
A mãe sorriu perante a agilidade mental do rapaz.
- Tens razão... e que disse ele?
- Contou da avaria, das malas, disse que vão ficar pelos menos até às cinco da tarde aqui em Madrid e que estava a ir para um hotel. Vamos mãe, é a nossa oportunidade.
A voz do filho estava cheia de pressa, disse tudo a correr, comendo metade das palavras e empurrando a mãe para a frente, enquanto carregava as duas pequenas mochilas e a incentivava:
- Vamos, depois disto tudo não queres perder o avião, pois não?
Com uma mochila às costas e outra por cima dum braço, meteu o braço livre no da mãe e puxou-a em direcção ao balcão.
Acabaram por fazer o check in juntos apesar de darem os bilhetes isoladamente.
Entregou o passaporte em nome de Rosa Maria Gamarra de la Torre e obrigou-se a concentrar, embora só pensasse que a rapariga que o recebeu ia detectar imediatamente que não era verdadeiro. Olhou para o lado e viu um casal com um bebé; tentou sorrir-lhe e centrar-se noutra coisa qualquer que não a sua clandestinidade. A mulher do balcão devolveu-lhe o passaporte com o bilhete de embarque dentro e perguntou se tinha bagagem. Acenou que não com a cabeça, achando imediatamente que acenara com muita intensidade. Indicou-lhe a porta de embarque 71 e afastou-se do balcão a perguntar-se se alguém acharia estranho que não tivesse bagagem.
Procurou com o olhar as indicações quando viu que Paulo, ou melhor Luís Vargas Rivera, a chamava com gestos. Avançaram rapidamente na direcção da porta 71.
- Mãe, vai a uma casa de banho e lava a cara. ‘Tás cá com um ar... eu vou andando e encontramo-nos dentro do avião. Olha é ali.
Entrou na casa de banho e constatou que estava com péssima cara. Lavou-a, fez exercícios com os músculos faciais, passou os dedos molhados pelo cabelo, inspirou fundo várias vezes e empurrou a porta para sair da casa de banho. Assim que a entreabriu ouviu uma voz conhecida, uma voz que já lhe dissera muitas coisas, até que a amava:
- Yo no tengo suerte... un avión estropeado y mis maletas perdidas, hem, ¿que suerte es esta?
- Calma señor, que sus maletas no están perdidas… ya las vamos a encontrar y…
Não ouviu mais mas foi o suficiente para ter uma tontura que a obrigou a apoiar-se na porta. Sentiu-se petrificada ao pensar que por pouco, por muito pouco não dava de caras com Francisco. De repente sentiu uma dor no peito: Paulo... o filho não estava à espera dele e iam encontrar-se de certeza. Abriu a porta devagar e espreitou. Havia uma fila em movimento diante da porta 71 e Paulo estava na fila com um boné azul com a pala virada para trás. Ela que nunca gostara que ele fizesse aquilo, agora sentiu-se segura com aquela visão.
Hesitou sobre o que fazer a seguir, espreitou mas não viu sinais de Francisco. Deixou-se ficar ali parada, o coração a bater desenfreadamente, de tal forma que pensou que as outras mulheres na casa de banho o poderiam ouvir. Em pouquíssimo tempo era a segunda vez que ficava plantada à porta duma casa de banho pública. Espreitou a medo, viu que a fila ia andando e, num minuto viu Paulo desaparecer no meio das pessoas que avançavam. Decidiu ficar ali até que todos entrassem. Se Francisco passasse novamente ela metia-se dentro da casa de banho; quando a fila não tivesse ninguém ela corria, dava o bilhete e em dez segundos entrava.
Foram dois minutos que pareceram duas horas. Passava imensa gente e todos pareciam falar português, parecia-lhe ver o cabelo do marido em todos os homens, a voz vindo ao seu encontro, acusando-a como uma criminosa que era por raptar o filho.
Estava em choque quando ouviu o altifalante dizer que era a última chamada para o voo para Lima. Encheu o peito de ar, tentou mostrar passos seguros, dentro dos ténis novos e avançou em direcção à hospedeira.
Entregou-lhe o bilhete e o passaporte devagar, com uma calma que parecia pertencer a outra pessoa, sentindo que fazia tudo em câmara lenta. Ouviu a rapariga desejar-lhe boa viagem e viu-a sorrir, como se as palavras e o sorriso não fossem para si. Caminhou em direcção à manga que a levaria ao avião para Lima e foi recebida por um rapaz de uniforme que lhe estendia a mão pedindo o bilhete e a encaminhou para a segunda fila do avião, com mais sorrisos e simpatias. Sentia-se planar, nem se apercebeu que ia em primeira classe e ignorou o ar intrigado do filho a questioná-la. Sentou-se, pôs o cinto de segurança, abriu a mala e tirou um comprimido com mãos trémulas, que engoliu sem água nem nada. A dor de cabeça era insuportável, os batimentos cardíacos eram sobre humanos, as tonturas equivaliam às vertigens que teria na varanda dum prédio de cinquenta andares.
Passaram vinte longos minutos até que o avião descolou da pista. Quando o filho se sentou a seu lado e lhe perguntou com ansiedade o que se passava, ela só conseguiu chorar. Chorou até adormecer.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Engolir em seco

O meu amigo V. ligou-me hoje de manhã. Eu ia a conduzir em direcção à estação de comboios e foi uma conversa muito rápida. Percebi que ele estava no aeroporto em Lisboa, provavelmente em trânsito de São Paulo para a Noruega. Como ia a conduzir não tive oportunidade de falar em condições com ele. Desliguei o telefone e continuei à espera que o semáforo vermelho se vestisse de verde.

Em sentido contrário está parado um carro branco com umas riscar azuis e umas luzes em cima. De dentro do carro, um jovem com um belo sorriso fala comigo:
- Minha senhora... não sabe que não pode conduzir e falar ao telemóvel?
- Claro... sabe, foi instintivo porque estava aqui parada... não estou a conduzir, quer dizer, concretamente, a conduzir...
Calei-me a olhar para ele com um sorriso forçado. É bom sabermos quando nos devemos calar...
Ele despediu-se de mim:
- Tenha um bom dia e faça um favor a si própria: não fale ao telefone quando for a conduzir.
Ele arrancou, para dar passagem a uma pequena fila que se formara atrás dele, na qual ninguém ousava apitar, pois não se apita aos carros da polícia...

É a vida...

Comecei ontem a fazer uma formação, pós-laboral, e o primeiro dia foi auspicioso.
Não por causa da matéria, nem do formador, nem dos colegas, apesar de serem todos muito bem dispostos e com muita informação para trocar. O interessante da coisa deu-se quando saí e estiquei o braço para mandar parar o táxi que vi aproximar.
O táxi até parou mesmo à minha frente, mas por causa do sinal vermelho. Com a pressa, nem reparei que estava ocupado.
Já eu desviava o olhar tentando desencantar uma luzinha verde no telhado dum carro quando a porta do pendura do táxi, se abre e vejo umas belas pernas tapadas por uns collants de renda pretos emergirem de dentro do veículo.
Ia desviar novamente o olhar quando percebo que a dona das pernas fala comigo:
- Quer um táxi, não é?
- Sim... – balbuciei.
- Então venha neste... não se importa de me deixar um bocado ali mais em cima?
- Não, de modo algum – respondi eu cheia de fome e com pressa em chegar a casa.
Lá entrei, o táxi arranca Almirante Reis acima e o taxista pergunta-me o destino.
- Amadora – digo eu e acrescento – desculpe... estou tão cansada que nem me lembrei de dizer para onde quer ir.
A senhora vira-se para trás com um ar cândido, que me fez sentir ser a filha daquele casal e, por instantes, suspeitei que me diria, como quem diz a uma criança no banco traseiro:
- Põe o cinto!
Mas, ao invés, solidarizou-se com o meu cansaço e perguntou:
- Mora na Amadora? Ai tão longe e vem para aqui todos os dias trabalhar, não? É a vida...
- Por acaso não venho para aqui, vou para o centro de Lisboa, mas é muito rápido...
- Pois, com metro e essas coisas, não é?
- Sim, apanho os transportes públicos, mas já agora digo-lhe que já morei em Sintra e trabalhei em Almada e apanhava todos os dias dez meios de transporte. Quem precisa tem que fazer sacrifícios...
E então ela responde da seguinte forma:
- A quem o diz... olhe, eu trabalho ali ao pé do Técnico, aliás, é para lá que vou agora... e são noites e noites em pé ao frio e ao vento, e de Verão, é calor até dizer chega... é isso mesmo, é preciso fazer sacrifícios.
O taxista conduzia calado e eu calada fiquei sem saber o que dizer, até que acrescentei repetindo as palavras dela:
- É a vida...
Dois minutos adiante, depois de virarmos à esquerda a seguir ao antigo Império e de termos subido a Alameda, o taxista encostou ao passeio, a senhora virou-se novamente para trás e disse:
- Linda, obrigadinha por este favor... – e virando-se para ele e para mim em simultâneo continuou falando do taxista – ele agora vai mais aliviadinho, vão com Deus, façam boa viagem, vão com Deus.
- Boa noite – despedi-me eu
- Eu depois ligo – despediu-se ele
O sinal estava vermelho o que me deu tempo de a ver afastar-se um pouco e rever as pernas só com os collants pretos de renda, em cima duns saltos agulha e o resto dum guarda roupa típico da sua profissão.
Enquanto isto o motorista achou por bem esclarecer-me:
- Não é flor que se cheire... mas eu preciso dela, sabe, ela faz-me uns favores e...
E o homem falava e eu via o Kevin Spacey, mergulhado na personagem de Eugene Simonet, em Favores em Cadeia e tentava perceber qual seria a minha personagem...
- Claro, é a vida – repetia eu como se tivesse ficado sem vocabulário e só pudesse recorrer àquela frase – temos que nos ajudar uns aos outros – acrescentei sentindo-me uma idiota com a profundidade versus banalidade da frase.
Porém, reparei que ele estava mais embaraçado que eu e ouvi-o dissertar sobre o que faria no dia seguinte, como quem não quer dar espaço de conversa ao outro, para não ouvir o que não quer. Mesmo que fosse o silêncio.
Aqueles minutos foram como uma cena dum filme onde fui apanhada por acaso, um bocado à Woody Allen que, dizem, dá as deixas aos actores e deixa-os representar sozinhos, duma forma espontânea.
Tenho imensa pena da formação não ser de escrita criativa ou qualquer coisa semelhante, caso contrário, teria aqui material para explorar, dar e vender, até sabe Deus quando.
É a vida...

terça-feira, 9 de março de 2010

Os potenciais e inusitados efeitos malignos (ou maléficos!) do sol!

O domingo passado trouxe-nos a luz do dia. O sol espreguiçou-se, ainda que timidamente, mas foi uma aparição gloriosa, depois de tanto tempo de greve, de férias, de ausência injustificada, de abandono, sei lá eu as razões dele, há tanto tempo não o encontro para conversar e pedir explicações deste amuo que o arredou destas paragens.
Mas dizia eu, ele apareceu, e foi ver as donas de casa a lavarem, a secarem roupa, a abrirem janelas, a sacudirem tapetes, a amornar os móveis com os raios que entravam pelas janelas. E eu não fui excepção.
Porém, assustei-me verdadeiramente quando o telefone tocou e do outro lado me perguntaram o que estava a fazer. Nesse momento tomei consciência da minha pessoa - que detesta arrumações e limpezas – de cotonete em punho a limpar as entranhas da caixinha da máquina de lavar onde se põe o detergente! E mais grave ainda... estava a cantar!
Não confidenciei ao telefone o que estava a fazer, com receio que a pessoa corresse até minha casa para verificar 1) Se eu estava a mangar com ela, 2) Se eu estava bem de saúde.
Mas a verdade é que eu me deixei levar pelo sol, pela sua influencia e pela sua força e me entretive em limpezas loucas. Quando percebi o que estava a fazer, afastei-me imediatamente da máquina de lavar, para um distância, digamos, segura, sai da cozinha às arrecuas e fui à sala em busca dum livro, com o qual me sentei em segurança. Deixei-me ali ficar uns minutos sem saber se devia chamar o 112 ou se conseguia controlar a situação sozinha.
Aos poucos comecei a andar pela casa, normalmente, e não registei qualquer recaída.
Há que tomar cuidado com estes efeitos directos ou secundários do sol. Podem ser extremamente perigosos e até viciantes!
Felizmente hoje estou a trabalhar, hoje que também há sol, pois nem quero pensar o que podia acontecer se estivesse em casa. Temo por todos quantos estão no sossego do seu lar e que, inadvertidamente, podem ser apanhados por estes efeitos.
Cuidem-se! Depois não digam que eu não avisei...

segunda-feira, 8 de março de 2010

Sem palavras... só lágrimas...

Agradeço à Graça que me enviou este texto. A todos quantos se conseguirem rir sem pensar no conteúdo, sugiro que façam uma segunda leitura e projectem 'a coisa' no futuro. Vão perder o sorriso... e muita da culpa é nossa, mães e pais, que não percebemos que comprar um bilhete de lotaria não é sinónimo de nos sair a taluda, ou seja, os nossos filhos andarem na escola não é sinónimo de aprendizagem... Há muito trabalho de casa a fazer e deve começar em nós.

Aventura na escola - o diário de um aluno

Querido diário

29 de Junho de 2009
paçei o 5º anuh. A p*ta da stora de mat, k é a nossa dt, n m kria deixar paçar pk eu tnh nega a td menus a ginástica, pk jogo bem há bola, e o crl... mas a gaija f*deu-se puke a ministra da idukaxão mandou dizer ao ppl k penxam q mandam aí nas xkolas masé pa baixarem os kornos k tds os socios com menos de 12 anus teiem de paçar... axu bem.

29 de Junho de 2010
passei o 6º anuh. ainda bem q ainda n fiz 13 anus, q ódpx podia n passar, qesta cena de passar com buéda negas é só até aos 12... f*da-se, fiquei buéda f*dido na m*rda deste ano, e ó c*ralho, o pan*leiro do stor d educassão física deu-me a m*rda do 2... assim tive nega a tudo... ainda bem q a ministra da iduqaxão é porreira, ela é qé uma sócia sbem: a xqola n serve pa nada, é uma seca. tive q aprender que os K´s se escrevem Q, qomo em "xqola" e não "xkola", e que "passar" não é qom Ç... a xqola é porreira só pa qurtir qas damas qd gente se balda...

29 de Junho de 2011
Passei o 7º ano. Exte anuh ia chumbando pq tive nega a qase td menos a área de projetuh, mas aqela cena tb é facil, n se fax nd... Exte anuh a dt disseme q eu passava pq tinha aprendido qas fraxex qomexam qom letra maiúscula e pq m abituei a exqrever qom Q em vez de K, tipuh agora ja xei xqrever "eu qomo qogumelos qom quentruhs" em vez de "eu komo kogumelos kom kuentruhs". É fixolas, pode xer qum dia venha a ser um gamela famôzo...

29 de Junho de 2013
Passei o 9º ano. Foi buéda fácil, pqu a prof paxou-me logo. Fui ao quadro xqurever uma sena em qu dezia tipuh "aquela janela", e eu exqurevi "aqela janela", pqu dixeram-me qu n se xkqureve "akela", é quom Q e não quom K. Mas a profs desatinou quomiguh e dixe qu eu tnh qu pôr o U à frente do Q... Pur ixu exte anuh aprendi qu o Q leva U à frente. No próximuh anuh é o 10º, vou pá sequndária...

29 de Junho de 2014
Aquabei o 10º ano. Não foi muituh difícil só tive que aprender-mos a não exqureverem quom aberviaturas purque nem todas as palavras xe puderam aberviar mas ixtu foi uma bequa para o quompliquado purque quom esta sena do QU em vex de K e das aberviaturas exqueceramme de quomo é que se faxião os verbuhs nos tempuhs e nas pexoas, ou lá o que é... Mas a prof disse tass bem que no prócimo anuh a gente vê ixu.

29 de Junho de 2015
Passou o 11º ano. Foi mais fácil que o 10º. Aprendi que as frases devem ser mais qurtax. E aprendi também que "ano" não esqureve "anuh". Axo que no prócimo ano vai ser mais difícil. Purque a xeguir é a faquldade.

29 de Junho de 2016
Acabou o 12º. Fiquei buéda confuso porque tive de aprender a diferenxa entre usar o QU e o C, tipo "esCrever" e não "esQUrever". Quando eu usava o K era buéda mais fácil... A prof de português é buéda religiosa e anda a ouvir vozes de deus, porque dixe-me que eu não merexia passar, mas "xão ordens lá de xima"...

29 de Junho de 2017
Já fiz o primeiro ano da faculdade. Estou em ingenharia cevil na universidade lusófona. Tive um stor buéda mal iducado que me disse que eu era um ignorante porque às vezes escrevia com X em vez de CH, S ou C. Mas o meu pai veio cá com uma moca de rio maior e chegou-lhe a rôpa ao pelo. E depois fomos fazer queixa do gajo e a ministra despediu-o porque o gajo, não sei quê, parece que quis vir estragar aqui um muro nosso. Mas não sei essas senas. O meu pai é que me explicou uma cena qualquer de "danos murais"... O que é bom é que a ministra da iducação continua a mandar aqui nestes sócios da faculdade para eles não levantarem a garimpa contra nós.

29 de Junho de 2019
Acabei a minha licenciatura porque a ministra da iducação disse que tinhamos que passar sempre mesmo que não tivessemos notas, para não ficarmos astigmatizados. Acho que é uma cena que dá nos olhos quando se estuda muito. Agora vou fazer um mestrado e disseram-me que, quando acabar, vou ficar mestre. Eu quero ser de Kung-Fu.

29 de Junho de 2021
Já sou mestre. Afinal não sou de Kung Fu, sou de engenharia cevil. Os meus profs disseram que eu não devia estar em mestrado porque ainda não estava preparado, mas eu disse que o meu pai tinha uma moca de rio maior e que era amigo da ministra e já tinha mandado um bacano da laia deles para a rua e eles calaramsse. Agora vou fazer um doutoramento, porque a ministra da iducação diz que se não deixarem um aluno fazer o doutoramento só por causa das notas, ele fica com a auto-estima em baixo e isso perjudica a aprendizajem.

29 de Junho de 2023
Sou doutor. O meu orientador da tese ficou muito satisfeito porque eu já não dou erros ortográficos: ao longo destes dois anos, aprendi a escrever "engenharia civil" em vez de "ingenharia cevil" e também porque aprendi que a ministra é da "educação" e não da "iducação", mas lê-se assim. Entretantos casei. A minha dama chama-se Sónia e os pais dela ficaram muito felizes por ela ir casar com um doutor em engenharia civil. Ela não sabe ler nem escrever: só fez até ao 2º ano da licenciatura e depois foi tr*b*lh* para o Minipreço. Já tá grávida.

29 de Outubro de 2023
Nasceu o meu filho! Chamei-lhe Júnior porque ele é mais novo que eu.

29 de Agosto de 2029
O Júnior vai fazer 6 anos daqui a 2 meses. Devia entrar para a escola este ano, mas estive a pensar muito bem e não o vou pôr na escola. Ele não precisa daquilo para nada, aprende em casa. Eu ensino-lhe a ler, que sou doutor, e a mãe ensina-lhe a fazer contas, que é caixa no Minipreço. A escola não vale nada. Acho que o sistema de ensino hoje em dia é uma m*rda. No meu tempo é que era bom.

O dia duma mulher normal não cabe num relógio!

Sou a favor das comemorações. Mas só se forem sentidas, caso contrário é a manifestação duma hipocrisia. Tenho igual sentimento com o Natal ou com o Dia Internacional da Mulher, que hoje se comemora, em lembrança das mulheres trabalhadoras têxteis que morreram num protesto contra as más condições de trabalho e salários baixos.
Quando trabalhava na Câmara Municipal de Almada, a Câmara organizava um almoço para todas as mulheres da autarquia, que se prolongava pela tarde, com momentos musicais e de entretenimento diverso. Para além disso, todos os anos recebíamos uma prenda, das quais guardo algumas, como a serigrafia que está visível na minha sala.
Penso sinceramente que a mulher é um ser fabuloso e acho que se fosse homem pensaria o mesmo.
Não quero um dia para mim, para não trabalhar, para ter privilégios que os homens não têm. Gostava dum Dia da Mulher por aquilo que a mulher é, sem más recordações que colocam a comemoração neste ou naquele dia.
Quando me pedem um currículo, tenho sempre a tentação de lá colocar todas as minhas competências – o que não seria despiciendo, face ao programa de Novas Oportunidades do governo...
A bem da verdade, eu nem sou uma dona de casa fabulosa (nem de perto nem de longe!) mas há quem seja e essas competências ficam sempre de fora nos CV. A nossa capacidade de gestão do tempo devia ser igualmente validada: trabalho(s), filhos, marido, casa, estudos, amigos, família, e sei lá mais quantas coisas.
O dia duma mulher normal não cabe num relógio!
Por outro lado, a gestão do dinheiro é feita como se tivéssemos um PhD no assunto! A paciência com todos os assuntos que impacientam a maior parte dos homens, a multiplicação do amor e a sua manifestação por filhos e enteados, a disponibilidade, entre tantas outras características fazem da mulher um mistério.
Quando era pequena queria ser homem. A minha avó contava-me histórias de homens que ‘iam correr o mundo’... Eram sempre homens e eu queria ser um deles. Depois percebi que as mulheres também podiam correr o mundo e comecei a fazê-lo muito cedo, lendo. E lendo aprendi que homens e mulheres são igualmente pessoas. Vivi e constatei o mesmo. Com frequência vejo também mulheres que não sabem que o são e perdem-se em pena delas próprias pela incapacidade de assumir a sua essência, pela incapacidade de porem pés ao caminho e irem correr mundo...
Porém, estou rodeada de exemplos maravilhosos e conto com amigas mulheres de mão cheia, que sabem chorar e rir ao mesmo tempo, que fazem da vida uma sucessão de estações onde saímos de bom grado e onde nos deixamos ficar esquecendo-nos do nosso destino... elas são o nosso destino.
Algumas das mulheres que conheço pertencem à Liga das Mulheres Extraordinárias.
Um abraço forte para todas elas.

Noite de Óscares

Não vi a cerimónia - longe vão os tempos em que ficava acordada a noite toda, até muito depois daquilo ter acabado, a sonhar com filmes, actores ou realizadores. Porém, achei que fazia sentido colocar aqui um texto que escrevi há uns meses sobre um dos filmes a concurso: Sacanas Sem Lei.
Um filme bem feito, literalmente a ponto cruz, mas sem puxões nem linhas arreganhadas.
O interesse da coisa começa com as primeiras letras do genérico: usam uma fonte que nos remete para os western spaguetti do Sergio Leone e a música leva-nos para esses anos 60... depois, devagar, como quem nos quer apanhar desprevenido, mudam para uma fonte que é indubitavelmente associada ao Padrinho... termina com Garamond, letra usada por quem escreve... a meio aparecem de vez em quando legendas cuja ideia original ainda não processei bem (é claro que o verei uma segunda vez... acho que houve coisas que me escaparam). Conclusão: o filme mostra as suas influências, ou do realizador bem entendido, sem vergonha de afirmar que tudo o influencia, desde o ridículo até ao intrínseca e supremamente mau da natureza humana, formas e conteúdos históricos a mesclarem-se numa narrativa onde a violência e a comicidade andam de braço dado. Culmina com a estória do filme em si, que alterna entre momentos burlescos e chocantes: o protagonista, com cerrado sotaque do Tenessee, quer fazer-se passar por italiano, sabendo apenas dizer Grazie ou um caçador de judeus que mata uma família judaica duma forma que cada bala parece entranhar-se no nosso próprio corpo.
O filme processa-se como se estivessemos a ler um livro e à medida que avançamos na leitura vamos imaginando as cenas na nossa cabeça. O realizador até nos ajuda nesta tarefa, fazendo as entradas dos capítulos... ou seja, logo aí, há uma marcada 'esperança' que 'aquilo' não seja visto/lido por todos da mesma forma, faço-me entender?
Os momentos cómicos dum filme sobre uma equipa cujo único objectivo é matar nazis, são colocados nos momentos certos, pertencem àquele lugar e não os senti como um aligeirar da acção, nada disso: estão lá pois a imaginação dos resistentes seria de tal ordem que recorreriam a tudo, literalmente tudo, para acabar com a guerra e terminar com o sofrimento das populações. Duma forma, aparentemente, idiota e desenquadrada os westerns estão sempre presentes pois os caçadores de nazis arrancam-lhes o escalpe. Noutro filme, todos viraríamos a cara perante tão violento comportamento e tão brutal exibição de imagens, mas aqui não. Em toda a sala às escuras sente-se uma onda de regozijo.
Há uns anos vi um filme sobre o Holocausto que se chamava A Vida é Bela: uma parvoíce em três actos, como se costuma dizer e, de certa forma, um atentado à homenagem que aquelas pessoas nos merecem. Nunca percebi como pode ser tão aclamado e adorado.
Ontem havia um coronel alemão, um caçador de judeus, com uma personalidade marcante e empática que não mais esquecerei: simpático, inteligentíssimo, com uma perspicácia fabulosa, nada fictícia. Imagino que os verdadeiros caçadores de judeus fossem assim mesmo, que conseguissem fazer com que confiassem neles, que conseguissem cegar as pessoas a tal ponto, de modo a que só vissem uma sua faceta e os fizessem colaborar nas suas maquinações. Esta personagem é a fixar, definitivamente, interpretada por um actor austríaco fantástico, que merece meia dúzia de óscares. É a fixar para nos lembrar que a maldade tem qualquer cara. Ele falava e quase se lhe podia ler o pensamento, negro e sedento de sangue, sedento de fim, completamente oposto ao seu sorriso, desadequado da musicalidade do som das suas palavras, nos antípodas dos seus gestos cavalheirescos, dissidente da sua postura.
A acção desenrola-se e termina concretizando um sonho comum ao mundo inteiro: a morte de Hitler e dos seus principais sequazes. Um Hitler chapliano e esganiçado (outra influência que me esqueci de referir). Pelo menos ali, durante alguns segundos, é como se nos dessem uma prenda e suspirássemos de alívio: o cabrão morreu e a guerra acabou! Naquele instante acreditamos que foi assim, que é assim! Ah, que bom... pensamos todos em uníssono desejando ardentemente viver aquele dia, sair do cinema aos gritos e poder dizer que assistimos à morte do fuher, empunhar bandeiras pequeninas e fazer festas de rua, ir a correr comer e beber, sem fazermos a mais pequena ideia do que são senhas de racionamento, rasgar os pijamas às riscas e atirar as estrelas ao ar, esperando que fiquem lá em cima, no lugar delas...
Mas o momento supremo do filme, e aqui na minha opinião, é que o final não se passa na tela e sim em cada uma das nossas confortáveis cadeiras onde estamos sentados e isto é que é a substância dum bom filme: é-nos dado a ver a morte de três centenas de pessoas - através da acção da vingança duma judia e do grupo de caçadores de nazis - e nós simplesmente adoramos e não nos sentimos repugnados por ver uma sala de cinema inteira a arder - igual aquela onde nós próprios estamos! De certa forma nós somos também o instrumento da matança, o nosso olhar é cúmplice e associa-se prazenteiramente às chamas que consomem os corpos, satisfazemo-nos com os gritos suplicantes dos que batem nas portas previamente fechadas, sorrimos ao fumo que asfixia aqueles pulmões. Afinal, são só nazis...
Sentimos uma empatia com a rapariga judia que consegue levar a bom porto a sua vingança e mesmo quando ela morre sentimos que valeu a pena porque no fundo, no fundo, o que nos sacia é a vingança... não devia ser a justiça?
O ódio aos nazis é supremo e supremas são as medidas a tomar. Mas isso não faz de nós nazis? Não sei. Sei que me perturbou bastante este filme, que pretendo voltar a ver para melhor garantir que nada me escapou, pormenores que podem ter-se escapulido por entre a minha admiração e estupefacção de estar a fazer duas coisas em simultâneo: ver um filme e ler uma mensagem forte sobre a natureza humana, com escapes de riso que mais não são do que armadilhas, colocadas pelo realizador para distrair o espectador, e testá-lo se está de facto atento ao essencial. E o essencial é que somos todos naturalmente maus. O essencial é que não perdoamos. O essencial é que só nos satisfazemos com vingança. O essencial é que a preversidade muda de roupa quando aplicada a diferentes situações.
Fonte da imagem: http://www.idademaior.iol.pt/albuns/sacanas-sem-lei-album/2

quinta-feira, 4 de março de 2010

O corner das nails...

Quando a Alda S. fazia anéis... lembram-se...?

Ex.mas Sr.as Denise Magalhães e Maria Delfina Caroço

Rendo-me ao vosso talento de escultoras de nails...
V.as Ex.as não me fazem rir, ensinam-me! Em particular, a Sr. D. Denise, cuja capacidade e propriedade da explicação acerca de tudo, é única e imparável. Confesso que não sei para que põem o Diogo Infante a ensinar-nos a falar português quando, duma assentada só, podemos aprender com V.ª Ex ª, não só a falar, como a arrecadar cultura!
Sendo pessoa do povo não me alcandoro a sentar no vosso corner de nails por temer não estar à altura, e a última coisa que quero é causar mancha debaixo da escada do Fórum.
Sabendo que a situação financeira da Sr.ª D. Denise de Magalhães é proporcionalmente inversa à sua cultura e nem se compara à sua prodigiosa imaginação, tomo a liberdade de lhe enviar, gratuitamente é claro, umas poucas jóias que, embora feitas por mim, são originais das rainhas e imperatrizes mais importantes e poderosas do Mundo e algumas têm séculos.
Os objectos de joalharia que envio contêm gemas verdadeiras e pedras que nem foram ainda descobertas! O seu valor é tão grande como o vigor dos tempos de onde vêm...
Parecem argolinhas e aros, círculos e circunferências, talvez até uma espiral ou outra, mas isso é de ter ficado torta com o transporte. São anéis, Senhora... e eu pensei que pudesse fazer o milagre de os mostrar no seu corner e de dizer que foram feitos pela Senhora dos Anéis, esta sua criada...
Despeço-me com cortesia, pedindo que aceitem os cumprimentos e a disponibilidade da
Senhora dos Anéis.

Fonte da imagem http://televisao-opiniao.blogspot.com/2009_07_25_archive.html

A nossa casa da infância

Composição integrada no teste de Língua Portuguesa de 10 de Fevereiro de 2010, do Duarte.

A nossa casa da infância marca-nos sempre. Ao longo da vida sempre nos lembramos do lar ideal como o nosso. As pessoas, as coisas, tudo. Fica-nos na memória para sempre. Há quem diga que só em crianças somos livres e tendo em conta esta forma de pensar o lugar onde somos livres é marcante.
Lá vivemos os nossos primeiros anos de vida, lá conhecemos o mundo à primeira vista, e lá é que fazemos as nossas primeiras asneiras que, é de salientar, que em jovens não são poucas.
No meu caso marcou-me muito. Era lá que morava a maioria da minha família, logo quando mudei de casa senti uma solidão dentro de mim. A solidão foi pouca, comparada com o facto de ter uma nova escola e não conhecer ninguém e isso a um miúdo envergonhado como eu, devastou-me. O meu único pensamento era voltar para a minha casa. Casa, casa, casa, casa... nada mais.
Ainda hoje penso se algum dia vou satisfazer o meu desejo de voltar a minha casa. Sim, mesmo que a casa não seja minha por título de propriedade, é minha porque lá passei a minha infância e isso diz muito.
Neste caso, como em muitos outros, o sentimento é mais forte que o dinheiro e não há ninguém que diga que aquela casa não é minha.

A Loucura

Hoje fiz uma loucura!
Resolvi calçar umas coisas que são como as botas normais que costumamos usar mas... não têm cano, ou seja, não têm nada nas pernas.
Isto era uma coisa usada antigamente, quando não chovia, e as pessoas da altura chamavam-lhes Sapatos. Alguém se lembra disto?
Pois eu descobri uns lá em casa e hoje calcei-os...
Na verdade, está a ser-me difícil habituar a não ter nada nas pernas e a ver o peito do pé.
Só tenho receio que alguém se meta comigo por ter tido o arrojo de mostrar esta parte do corpo, eu, que ando de djellaba não me lembro desde quando!
Sinto-me uma personagem de Cem Anos de Solidão, quando choveu 4 anos, 11 meses e 2 dias e tudo apodreceu...

quarta-feira, 3 de março de 2010

O Tiago e o Romão

Há muitos anos atrás… long, long time ago... os meus pais tiveram um colégio infantil que se chamava Viveirinho.
Dificuldades à parte, a vida não era fácil, principalmente para mim que estudava e trabalhava arduamente, daqueles tempos ficaram-me memórias muito felizes e meia dúzia de nomes que nunca vou esquecer. Nomes de miúdos que me marcaram e me ajudaram a fazer como sou hoje.
A Paulinha e a Sílvia, o Paulinho, o Tiago e o Romão. Houve outros, mas estes adoravam-me e eu adorava-os a eles.
A bem da verdade, o contacto com a Sílvia vinha da forte ligação que eu tinha com a irmã, a Paulinha, a mais nova de todas as crianças a que me liguei; custou-me muito quando elas saíram do colégio e foram morar não sei bem onde. A princípio, ainda fazia algumas dezenas de quilómetros por dia para as ir buscar, quando mudaram de casa a primeira vez. Depois, mudaram para parte incerta e perdi-lhes o rasto. Ouvi dizer que o pai se metera em negócios ilícitos e até que fora preso, não sei se é verdade ou não.
O Paulinho era um miúdo que ninguém conseguia deixar de gostar dele: com o cabelo escorrido e grande a pender-lhe na cara, era muito traquinas mas, em simultâneo, muito amoroso. Ficava no colégio até muito tarde e, apesar de eu não o ir levar a casa – uma das minhas tarefas era fazer o transporte das crianças de manhã, recolhendo-as em casa e leva-las de volta à tarde – ele ia frequentemente comigo, para me fazer companhia e ia sempre a conversar.
O à vontade e jeito especial que tenho com os miúdos e adolescentes vem desse tempo, em que eu os ouvia e conversava com eles, em que me zangava se faziam disparates e ainda me lembro de lhes dar umas palmadas. Mas o relacionamento que tínhamos ultrapassava tudo: eles não perdiam uma ocasião de ir comigo para casa, eu ajudava-os na escola, eles ajudavam-me até nas tarefas em casa, onde passavam horas comigo. Cheguei a levá-los ao Alentejo, pelo menos duas vezes que me lembre, e as viagens eram um desatino de risos, conversas e boa disposição, com histórias e cantigas à mistura.
O Tiago e o Romão recusavam sistematicamente ir embora para casa e com frequência acabavam por jantar comigo e só depois os levava a casa. Isto nas noites em que não ficavam a dormir na nossa casa.
Sempre senti que muitas vezes não era preciso falarmos para nos entendermos, bastava olharmo-nos e tudo fazia sentido.
Dos mil momentos que passámos juntos lembro-me dum em particular que me fez chorar desalmadamente e... ainda faz.
Fomos passar o Natal ao Alentejo e no dia seguinte ao regressarmos a casa tivemos um acidente, à entrada da ponte 25 de Abril. Eu parti os dedos dos pés e os ossos da cara e fui operada no Hospital de São José. Com gesso na cara que me fazia parecer o Homem da Máscara de Ferro, consegui que me deixassem vir passar o fim de ano a casa. No dia útil a seguir, com a ajuda de canadianas fui até ao Viveirinho, muito devagar.
Eram as férias de Natal e os miúdos estavam todos na brincadeira no quintal. Lembro-me que trazia um casaco preto comprido quase até aos pés, que se enleava nas canadianas e tinha feito o caminho a desviar o olhar de quem me olhava com a cara coberta pela máscara de gesso.
Entrei no colégio e, depois dos cumprimentos aos adultos, fui até ao cimo das escadas que davam acesso ao quintal onde os gritos dos miúdos lhes misturavam as vozes.
Deixo-me ali ficar uns segundos até que um deles, não me lembro quem, gritou aos outros de braço estendido, apontando-me:
- Olhem!
As cabeças viraram-se, os gritos pararam e impôs-se um silêncio só interrompido por uma bola que saltava, largada da mão por um deles. Todos pareciam hipnotizados a olhar para mim, até que um deles disse:
- É a Lena.
Os gaiatos que se encontravam dispersos pelo quintal aglomeram-se ao fundo na escada, no cimo da qual eu me equilibrava nas canadianas, querendo subir para me falar mas...
Mas houve dois de entre eles que correram mais depressa que os outros e se puseram literalmente à minha frente, não a beijarem-me nem a abraçarem-me, mas a afastar os outros, com interjeições e impropérios de toda a qualidade e feitio.
Estavam a defender-me...
Eram o Tiago e o Romão. Quem se pode gabar de ter tido defensores assim...?
Passados poucos anos os meus pais venderam o colégio, mudámos de casa e os relacionamentos fragilizaram-se. Há uns anos procurei e encontrei o Tiago mas voltei a perder-lhe o rasto.
Agora, passados muitos anos, mais de vinte, resolvi procurá-los e a minha (famosa) teimosia ajudou-me a encontrá-los. Porém, a felicidade de ouvir a voz do Tiago, tão espontâneo como sempre foi, com uma voz que nos faz perceber o azul dos seus olhos e me leva para as boas lembranças do passado, foi igual à tristeza que senti ao saber que o Romão já morreu.
Primeiro não quis acreditar que era ele: um nome num Edital da Câmara a anunciar a exumação. Depois fui aprofundando a pesquisa e falei com um colega de trabalho que me disse ‘Ele já não está entre nós’. Tentei iludir aquela verdade que me deixou as lágrimas à beira dos olhos: mas seria mesmo aquele, era novo, a mãe como se chamava, onde morava...
Todas as respostas se encaminharam no mesmo sentido e percebi que conduziam ao ‘meu’ Romão. Pelas minhas contas tinha 24 anos quando morreu, num acidente de viação, como me contou depois o Tiago.
Tenho um relacionamento pacífico com a morte. Há excepção dum livro infantil horrível que li em criança e que me deixou gravada uma imagem aterradora, em adulta, lido bem com o adeus, os despedimentos e os fenómenos da morte. Choro, é claro, sinto saudades e fico magoada por dentro, mas encaro-a como algo que pode acontecer... e acontece mesmo.
Mas mesmo assim, nunca pensei que pudesse sentir aquilo que sinto: uma tristeza avassaladora e funda.
Só a voz do Tiago me ajudou, bem como o facto de saber que tem dois filhos e de lhe adivinhar a mesma boa disposição.
Reencontrá-los hoje foi emoção demais, mesmo para mim, que sou... bem, sou como vocês sabem...
Aqui fica um beijo enorme para o Romão.
Para o Tiago guardo-os para lhos dar pessoalmente, muito em breve.