terça-feira, 31 de maio de 2011

Do meu pai

Na cidade de Chigaco reinava Al Capone.
O homem mais calmo do mundo passeava numa das muitas vielas da cidade.
De repente ouviu:
- Pare!
O homem mais calmo do mundo, sentindo nas costas o cano frio de uma pistola, voltando-se respondeu:
- Ímpar!

Ps. Sempre ouvi o meu pai contar-nos isto. Ele não se lembra onde a aprendeu, mas eu adoro estas linhas.

Adeus até amanhã, ó batata!

O senhor Paiva era colega do meu pai lá na gráfica. Muito bem-disposto, como trabalhava por turnos, nem sempre tinha alguém com quem conversar e vivia com os ruídos da linotype que matraqueava à medida que os tipógrafos iam escrevendo. As palavras eram transportadas para linhas de chumbo que depois seriam juntas e enlaçadas com um cordel para levarem umas pinceladas de tinta e se deixarem imprimir fazendo jornais, livros, rótulos, folhetos e um sem fim de produtos gráficos.
Quando acabava um turno o tipógrafo deixava uma linha em branco, uma espécie de sinal que dizia, Vou aqui!, para que quem o fosse render soubesse onde devia começar. Todos faziam o mesmo, à excepção do Sr. Paiva, que preferia deixar uma mensagem aos colegas.
O Sr. Paiva era muito brincalhão mas tinha o hábito de usar palavras esquisitas para falar com as pessoas e dizia, por exemplo, a minha chouriça, para se referir à mulher… hábitos!
Numa ocasião quando acabou o turno resolveu deixar uma mensagem carinhosa ao colega e escreveu: Adeus até amanhã, ó batata!
A gráfica tinha aceitado um trabalho – isto na altura em que se tinha que pedir quase por favor que as gráficas aceitassem certos trabalhos, ao contrário de hoje que, face ao advento tecnológico, pouco trabalho têm – que consistia no boletim cultural duma associação recreativa que dava conta das suas andanças, progressos, passeios dos associados e tinha uma página dedicada à literatura onde, por norma, se publicavam poemas da autoria dos sócios.
Quem rendeu o Sr. Paiva não se apercebeu que a última coisa escrita não fazia parte do boletim, riu-se e agiu como de costume não mudando uma letra do que lá estava e bola p’ra frente, que se faz tarde, e ao revisor, dois dias depois, apenas lhe ocorreu pensar que há gente mesmo maluca!
A gente maluca apareceu lá na gráfica umas semanas mais tarde a pedir explicações sobre a razão pela qual o poema da autoria do senhor doutor fulano de tal, logo tinha que ser doutor, bolas!, que era sobre a paz no mundo e os efeitos do sol no coração dos apaixonados, tinha como título Adeus até amanhã, ó batata!
Batata? Isso era a assinatura do Paiva!
O dono da gráfica desfez-se em desculpas, Oh senhor doutor, por quem é, pois foi um engano, e o Paiva aqui não fez por mal, não sabemos como foi a batata parar no meio do amor, no meio, ou seja, a encabeçá-lo, pois, pois, fique descansado, vamos já fazer uma errata, é que é já, desculpe o senhor doutor, desculpe o senhor também na qualidade de director de tão distinta publicação, olhe, fique sabendo que é a que mais gostamos de fazer, de tantas iguais que aqui se fazem, iguais? que digo eu, parecidas, que esta destaca-se e de longe…
E assim se fez a errata que dizia:
Onde se lê Adeus até amanhã ó batata deve ler-se Os Desaguisados do Amor.
Como diria uma pessoa minha conhecida, é quase parecido.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

O meu Rolex...

Aborrece-me imenso não conseguir ter acesso às múltiplas contas bancárias que aparentemente tenho em Portugal, no Brasil, em vários países árabes e nas ilhas Caimão. Recebo extractos, mensagens sobre depósitos e informações sobre movimentos que me farão aumentar ainda mais o meu pecúlio. Resumindo, sou riquíssima mas deve faltar-me uma palavra passe qualquer porque não sou capaz de movimentar as fortunas.
Mais ainda, não deve ser coisa de meia dúzia de milhõezitos, mas sim uma dúzia ou duas de milhõezões pois há entidades internacionais, com nomes distintíssimos, que me vêm propor empréstimos de alto gabarito e só o devem fazer porque sabem que tenho condições para os pagar! Certo?
Mas o que me chateia mesmo é verificar que há imensos e-mails que vão parar à caixa de SPAM, com enormes prejuízos para mim. E-mails importantes que deviam entrar na pasta dos recebidos e ficar ali a piscar – dourado, prateado, dourado, prateado… - chamando-me a atenção para eu os ler.
Na semana passada perdi a hipótese de ter um bê éme dabliu (tenho alguns, mas falta-me o azul bebé) e uma viagem às Caraíbas (ainda não fui a Caicos), mas nada disto se compara com o Rolex que acabei de perder porque não li a mensagem nos 2 segundos e 59 décimos imediatamente a seguir a ter entrado na minha caixa postal virtual e agora não sou capaz sequer de abrir a mensagem!
Só tenho seis Rolexes, falta-me este modelo e até já tinha a moldura pronta para imprimir a imagem e colocá-lo ao lado dos outros!

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Que grande descoberta!

Em arrumações encontro uma peça de roupa estranha. Chamo o meu filho e pergunto-lhe o que é aquilo. Ele também não sabe.
- Vai ver na net…
- Oh mãe, como é que vejo na net…?
- Atão, pões: tipo de vestido em tecido fininho meio transparente com alças e um bordado à frente
- Mãe… dá milhões de coisas mas não diz o que isso é!
- Ok, ok… vamos perguntar à tua avó, liga-lhe aí e pergunta.
- Vó… atão… tudo bem…
-…
-Sim, tudo… e o avô?
-…
- Ainda bem. Olha vó, tou a ligar pa perguntar uma coisa. A mãe encontrou aqui uma coisa e não sabemos o que é…
- …
- É assim, parece um vestido, mas é transparente, é em tecido fininho, tem alças e um bordado à frente, sabes o que é?
- …
- Ah… Ok, beijos vó, obrigada.
- Mãe, isto é uma camisa de dormir!
- A sério? Então eu tinha uma camisa de dormir e nem sabia?

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Sumol

Não tenho o hábito de deixar aqui mensagens que não foram escritas por mim. Mas adorei este texto, que me chegou pelas mãos do meu filho, e o meu refrigerante favorito é Sumol de ananás.

Um dia o mais provável é tornares-te num chato, deixares de sair à noite e começares a levares-te demasiado a sério.
Nesse dia, vais começar a vestir cinzento e bege, pedir para baixar o volume da música e deixar a tua guitarra a apanhar pó.
Vais tornar-te politicamente correcto, socialmente evoluído, economicamente consciente.
Vais achar que tens que ir para onde toda a gente vai e assumir que tens de usar fato e gravata todos os dias.
Nesse dia, vais deixar de beijar em público, as tuas viagens serão mais vezes no sofá e dormirás menos ao relento.
É oficial.
Vais entrar na idade do chinelo e deixar de ser quem foste até então.
Vais deixar de te sentar ao colo dos teus amigos e vais esquecer-te de como se faz um quantos-queres ou um barco de papel.
Vais ficar nervosinho se não trocares de carro de quatro em quatro anos e desatinar se o hotel onde estiveres não te der toalhas para o teu macio e hidratado rosto.
Vais tornar-te muito crescido e começar a preocupar-te com tudo e com nada e a não fazer nada porque ‘vai-se andando’ e a vida é mesmo assim.
Vais dizer não mais vezes, vais ter mais medo, vais achar que não podes, que não deves, que tens vergonha.
Vais ser mais triste.
Nesse dia, o mais provável é que também deixes de beber refrigerantes.
Aqui fica uma ideia: quando esse dia chegar, não lhe fales.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Sorry malta... obrigada malta...

Fui avisada que os comentários não estavam a ser aceites aqui no blog. Não sou uma expert na matéria e tentei perceber o que se passava. Escusado será dizer que não percebi...
Porém, verifiquei que o número de visitas tem sido enorme e quero agradecer a todos quantos se dignam aqui passar e ficar um bocadinho.
Da mesma forma que não sei porque não se conseguiam deixar comentários, agora também não sei porque já se consegue. Quando as pessoas são peritas acontecem estas coisas :)
Abraços!

(In)Justiça

Passei a manhã e parte da tarde no tribunal à espera de botar discurso a favor duma pessoa que não devia precisar de defesa se a justiça tivesse olhos, mas como é cega...
Uma pessoa foi assaltada. Participou à polícia. O caso foi a tribunal e os acusados, absolutamente inocentes!, ameaçaram a pessoa em questão e as suas gerações, para trás e para diante. A pessoa acaba por dizer que não se lembra e os meretíssimos acusam-na então, com uma grandiloquência, de estar a mentir e face a essa situação, que ali não se admitem mentiras!, a pessoa sai daquela distinta casa como arguida!
Passam-se sete anos, sete... quase oito e a distinta casa chama a pessoa e permite que testemunhas abonatórias estejam presentes e digam de sua justiça, ou seja, contem como conhecem a pessoa em questão e como ela tem princípios e valores onde a mentira não tem lugar.
Mas omitir não é uma espécie de mentira? As testemunhas, eu incluída, omitiram... omitimos que aquilo parece tudo uma palhaçada, que demais sabem eles todos a verdade, mas não a podem admitir e por isso carregam na parte mais fraca, para se mostrarem fortes, que achamos que o erário público está a ser delapidado com brincadeiras desta natureza porque as distintas casas de justiça não têm o que é necessário para resolver as questões pela raiz e que quase oito anos de esticanço duma situação como esta só serve para... deixa ver... serve para... bem, quando me ocorrer alguma coisa, aviso!
Sinto-me mal por não ter tido coragem de dizer que tudo aquilo é jogo com dados viciados e que assim não brinco... mas como têm a faca e o queijo na mão e estava em jogo, lá está..., outra pessoa, deixei-me ficar, embora saiba que me vai ser muito difícil conciliar com a almofada.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Viva o Bocejo!

Finalmente temos um programa de televisão interessante: é uma espécie de novela, dá todos os dias, tem estórias que se cruzam, ainda não deu para perceber como, tem muitos intérpretes, etc., e chama-se Direito de Antena.
Não sei quando começou mas gravei o episódio de ontem para o poder ver bem e concluí que tudo se passa à volta duma espécie de Graal que todos querem.
Do que percebi há várias famílias – O quê? Não sei, acho que não são mafiosas… - que se apresentam de diferentes formas, a saber:
Uns são o CDS-PP e comunicam em silêncio, usando placas com palavras. Como sempre, já me conhecem, tenho uma teoria sobre isto: há ali alguém que é gago e para não criarem constrangimentos com o pobrezinho, optaram por esta fórmula. Assim ninguém fala e nem se nota.
Outros são o PCP que falam e falam para todos, pois recorrem à tradução para linguagem gestual.
Há ainda uma família que se chama PPM, cujo presidente é Doutor. Sim, vem lá a dizer, cada vez que o senhor aparece! Como têm um doutor e até pode ser que seja médico, e já se sabe a falta que eles fazem, até agora é a minha favorita.
Do POUS não retirei nada de especial, aguardo a ver se hoje terá mais acção.
Depois havia uma dinâmica que nos remetia, acho eu, para uma estória de emigrantes, do Norte para os Açores ou dos Açores para o Norte, o telefone tocou nessa altura, raios partam, e fiquei sem perceber. É o PDA e o senhor dizia caros conterrâneos nortenhos, com uma prateleira em fundo onde só se via o nome Salazar, mas depois aparecia alguém com sotaque açoriano… ou seja, tenho que ver outros episódios, para entender a trama.
O PH induziu-me em erro! Pensei que era relacionado com acidez e alcalinidade e afinal é o Partido Humanista. Seja como for gostei imenso, embora não tivesse linguagem gestual, tem tudo legendado, para se não percebermos alguma coisa do que dizem e, surpresa das surpresas tem uma candidata chamada Wendy!
Havia ainda o PND que se fartou de mostrar um coração que, visto derepentemente parecia a estrela do BE, que também entrava no episódio de ontem e cuja acção pode ser definida por uma imagem vale mil palavras.
Falta o PNR, onde, se bem me lembro entrava uma rapariga com um acessório giríssimo, tipo coleira, que vai fazer moda, de certeza.
E, last but not least, o PAN, que nos remete logo para a flauta de pã, canaviais, campo, feno e a Julie Andrews a rodopiar e a encher-nos o coração de música em três tempos, o animal, o humano e o ecológico!
Como sempre nas novelas, que eu vejo e sigo diariamente embora com dificuldade pois são várias e tenho que por duas televisões lado a lado para não perder pitada, nem todos os intervenientes entram em todos os episódios e assim concluo que faltam alguns. Como sempre também, sem sabermos como, mas cria-se logo uma predilecção por certos personagens, uma identificação, sei lá, gostamos deles e pronto. Mas quando comecei a pensar sobre a minha preferência, lembrei-me duma coisa que vi na televisão há uns dias sobre dívidas no crédito ao consumo e veio-me à memória uma distinta senhora que abriu a sua casa aos repórteres, mostrando-a mobilada do bom e do melhor, carro novo na garagem e que quando o tipo do microfone lhe perguntou porque razão tinha ela tantas dívidas se sabia que não as podia pagar, ela respondeu, e bem, com toda a propriedade: se os outros podem ter, porque é que eu não posso?
Ora, inspirada nesta senhora, que devia ser uma inspiração para todos, diga-se de passagem, lembrei-me… e porque não, criar eu também uma novela daquelas?
O que é que faz falta a todos os portugueses? A todos sem excepção? DORMIR, para ver se as ideias repousam, se assentam, mas sem ganhar pé, e por isso subscrevo o Movimento das Sestas que, como toda a gente sabe, fazem muitíssimo bem e até tenho a Bela Adormecida como directora de campanha! Quem sabe mais do assunto, quem?
Embora saiba que a Wendy se passou para outro lado, que o Peter está, obviamente, com o Pan, mas conto com a solidariedade das princesas e sei que a Bá – é o nome carinhoso que uso com a Bela… - tem imenso poder sobre a princesada por duas razões: primeiro, ela guarda o resto da maçã e ai de quem se atrever a fazer o contrário do que ela diga e, segundo, quem melhor que as princesas para saberem que o sono é reparador e o principal ingrediente para manterem aqueles peles de… de princesa, pois claro!
Tenho ainda como cabeça de lista o próprio Morfeu que neste preciso momento está a organizar os simpatizantes – milhões! - em catres, tendas de campismo, toalhas de praia, assentos de autocarros, metro, eléctricos, comboios, etc.,
Levantemos pois um enorme bocejo, o símbolo vivo da nossa campanha, fechemos os olhos e façamos do Movimento das Sestas uma prática diária e assim, garantidamente, chegaremos ao futuro mais depressa e com maiores poupanças a todos os níveis!
Conto convosco!

Tolerância Zero

Ontem fui à praia, sítio onde os interiores das pessoas se expõem, não só os físicos, como os interiores mesmo de dentro e que são visíveis nas conversas que calhamos a ouvir. Há algumas que deviam ser enterradas na areia, há outras que nem por isso.
Ontem calhou-me na rifa uma família numerosa, não daquelas que costumam aparecer na televisão, com um quê de benzinho e vozita afectada, mas uma que, embora muito fizesse para imitar as afectações alheias, tinha características muito, muito próprias, como por exemplo o pai fazer concursos de arrotos com o filho mais velho, rapaz aí de 18 ou 19 anos, para gáudio do resto da prole e continuarem a falar uns com os outros mesmo que alguns estivessem dentro de água, obrigando-se a expressarem-se por berros.
A cria mais nova, uma menina de 4 ou 5 anos, chamava-se Francisca – nome bem… - e todos se tratavam por você!
Numa altura aproximou-se um garoto com um balde e uma pá, uma espécie de cachimbo da paz das crianças e perguntou se ela queria brincar. A Francisca disse que sim, a mãe incentivou-a a saber o nome do menino e ela perguntou:
- Como te chamas?
O garoto respondeu mas ninguém ouviu pois a mãe deu-lhe uma sarabanda por usar a segunda pessoa do singular e repetiu à exaustão a fórmula correcta: Como se chama! Como se chama!
A Francisca devia pensar que a tolerância zero era só dentro do círculo de confiança familiar e olhava, ora a mãe, ora o miúdo, sem saber a única coisa que lhe interessava, se podia ou não brincar.
A mãezinha aproveitou para fazer propaganda do tratamento in com o miúdo, explicando-lhe que não se diz TU; o garoto estava aparvalhado mas resistia e quem ficou aparvalhada de todo fui eu quando a mãe explicou ao miúdo que a menina se chamava Francisca mas que todos a tratavam por… Nhinha.
Ora, se por um lado, ter um nick name destes é do mais típico de benzoca que se pode ser, por outro, Nhinha só me faz lembrar nhenha que, como toda a gente sabe é de evitar ao máximo!
Deixei os garotos a brincar e fui à água, coisa que não repeti as vezes que gostaria, pois o facto de ter uma prótese ocular faz com que tenha imensas dificuldades em regressar à toalha numa praia cheia de gente. Até podia dizer que aceitava contributos financeiros para fazer a operação à vista, mas já sei que acabava por dar outro uso ao dinheiro, provavelmente para ajudar a Francisca a fugir de casa.

sábado, 21 de maio de 2011

Manicura no metro

Sábado. Sábado de sol. Sábado de sol com perspectivas de praia. Só perspectivas…
Arrastando-me, lá entro no metro em direcção a um dia de trabalho. Acabei por não fazer a dança da chuva pois lembrei-me de outras pessoas que vão passar um dia maravilhoso a dar mergulhos e espero que algumas o façam erguendo-se bem nas ondas, como se fosse uma taça e o fizessem em minha saúde. Pelo menos sei que a minha mãe o fará!
Sento-me à janela do metro esperando que a paisagem mude, nunca se sabe. Como ando sem fome, o meu querido filho fez o favor de arranjar, não sei onde, um folhado que sabe que eu adoro e, em pequenas dentadas, lá vou mastigando e engolindo sem vontade, mas lembrando-me que foi um mimo do Duarte.
Duas estações mais à frente entra uma lady aí da minha idade, mas que me fez sentir a Miss Universo, pois entalou-me literalmente no meu lugar, com os seus cerca de 250 quilitos. Embora prefira afastar este tipo de contacto humano – mas que não se diga que não sou humanista, bem entendido! – deixei-me ficar concentrando-me na oferenda do meu filho e ali íamos nós até que ela abre a sacola e saca de um corta unhas!
Eu não teria saltado mais rápido e enfiado o docinho que me alimentava na minha própria mala se ela tivesse tirado uma pistola!
Galguei por cima dela e fui sentar-me dois bancos adiante, já sem conseguir comer. Eu que nem sou esquisita. Mas enoja-me imenso estar ao lado de alguém que corta as unhas como se sacudisse migalhas de um pão que está a comer, sem ter noção que aquela porcaria salta para cima das outras pessoas.
A mulher rodou sobre si própria, fazendo-me lembrar uma antiga atracção da Feira Popular onde uma boneca gigante transportava as pessoas na saia, amarradas por cintos, e ficou a olhar-me como se eu fosse um bicho raro. Olhou-me fixamente e eu não desviei o olhar, até que ela perguntou:
- O que lhe deu?
- Não gosto de ir ao lado de pessoas armadas, podem saltar-me estilhaços p’ra cima.
- É maluca, a mulher!
A afirmação foi dela para mim, mas dirigida ao jovem que seguia à frente dela. O rapaz levantou-se e veio sentar-se ao meu lado, ela olhou-o, olhou-nos, rodou novamente para a frente, encolheu os ombros e continuou a tarefa que a maluca a tinha feito interromper.
Ainda não comi.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Lulas recheadas

Num belo dia de sol de Inverno fui informada que o Arquivo do qual eu era responsável passaria a ter uma pessoa dedicada às limpezas, reivindicação que já era velha. Foi assim que a D. Helena entrou na minha vida.
Dois ou três dias depois quando cheguei era esperada por uma bela mulher, alta, loura com o cabelo esmeradamente arranjado, de olhos claros e envolta num enorme casaco de pele de raposa. Verdadeiro. Foi a primeira vez que vi a D. Helena.
Queria dar-me uma palavrinha e explicar que não podia trabalhar pois estava com uma depressão. A sério? Não parecia nada!
Lá a convidei a entrar e fiquei a saber que o lugar que ocupava antes era como encarregada mas, fruto duns malandros maldizentes que tinham alvitrado que a senhora andaria em vale de lençóis com o chefe, agora tinha sido relegada, não só para fazer mesmo limpezas, como para fazer limpezas no Arquivo, o lugar mais infernal daquela instituição, onde nunca ninguém ia mas que todos julgavam ser uma coisa dantesca.
Puxei da minha melhor boa disposição, dos meus sorrisos para ocasiões difíceis e a depressão dela melhorou, com a promessa de vir trabalhar não nessa semana, mas já na próxima. Para quem tinha esperado tanto tempo, também podia esperar mais uma semana. Sim, senhora, vai ver que já está melhor e o Arquivo só morde aos sábados e domingos, dias em que nós não estamos cá, e esqueça lá essas más línguas, esta gente não tem que fazer e dedica-se a isto, ora já viram?, com franqueza e blá, blá, blá.
A seguir teve início um verdadeiro romance entre mim e a D. Helena a quem eu tratava nas palminhas nas mãos e, quando ela chegava, lá estava eu de pano do pó ou de vassourinha e logo ela, a tirar-mos da mão, que não senhora, que aquilo era tarefa dela e eu a sorrir-lhe e a agradecer-lhe e a dizer-lhe, sentidamente, como a minha vida profissional se tinha facilitado desde que ela para lá fora.
Comecei a ser confidente da D. Helena, viúva com uma filha, e que me começou aos poucos a fazer a apologia do tal chefe, com quem ela mantinha uma relação de amizade, mas mais nada, está a perceber? Então não estou? Mas isso a mim, que me importa?
Destas conversas todas começou ela a insistir que eu tinha que ir almoçar lá a casa, e eu que sim senhora, mas sempre a adiar, sempre a adiar, pois visitas a casa de outros é de oito ou oitenta, ou me posso descalçar e sentir-me em casa ou não gosto de cerimónias. Bem, os adiamentos foram tantos que um dia ela encostou-me à parede e lá disse que sim, com dia e hora marcados e a promessa de lulas recheadas que, vá lá saber-se porquê, ela achava que eu amava, e eu gostava tanto como de qualquer outra coisa.
Fomos no carro dela sempre com muitos salamaleques e eu sempre à espera que ela fizesse vénias enquanto conduzia; supostamente a filha almoçaria connosco, tendo para o efeito faltado à escola! Eu lá me penalizei, então mas oh D. Helena, agora faltar à escola, onde é que isto já se viu…
Estávamos no Verão e foi com uma camisa de alças branca e uma saia azul clara que entrei na casa dela onde fui recebida, não pela filha, mas pelo tal chefe, de quem ela era… muito amiga. Fiquei um bocado embasbacada, mas lá dei andamento aos cumprimentos e suspirei pois agora em vez de ter uma pessoa que se me dirigia de 30 em 30 segundos a dizer senhora doutora, tinha duas!
Olhei a mesa e vi que estava posta para três pessoas ocupando apenas parte dela, estando a outra metade repleta de sobremesas, queijos e frutas, como se fosse um casamento. Aproveitei logo para meter a deixa e dizer que atenção às horas, que não tínhamos muito tempo, para ver se aquilo não se prolongava e ele a informar sobre a ausência da miúda, por isto e por aquilo.
Sentámo-nos comigo a elogiar as fotografias no móvel e a perguntar quem eram e ela a explicar e eu a pensar e agora, falo do quê?, enquanto ela vem ufana com a travessa das batatas cozidas e outra com um carregamento de lulas recheadas, com aquele molhinho avermelhado ali a sorrir-nos, a fumegar, e por entre bons proveitos e guardanapos estendidos e esticados e vinho servido e, hum, estão deliciosas, eu resolvo esticar-me para tirar uma fatia de pão. É nesse momento que acontece a tragédia…
Conforme me estico, não sei como me arranjei, mas meto uma mama no prato e fico a escorrer molho cor-de-rosa pela camisa abaixo! A D. Helena abre desmesuradamente os olhos, o seu amigo, por respeito, desvia-os, e eu tive que me conter para não dizer uma imprecaução. Ela, célere, saltou logo da mesa e foi buscar um pano, furiosa com as lulas, mas que estúpidas, logo haviam de me sujar, a mim!, e ele que sim, mas que drama, e eu a repetir que não fazia mal, mas nenhum dos dois me ouvia e o pior foi quando ela resolveu ir buscar um tira nódoas e com a pressa e a aflição, entregou o pano ao amigo para que ele continuasse a limpar-me mas, em simultâneo os dois se apercebem do erro crasso e ele, de braço em riste mas sem me tocar, afinal era a mama da senhora doutora, volta a dar-lhe o pano e diz que vai ele buscar o tira nódoas, enquanto ela continua a esfregar a camisa e a saia furiosa e nervosamente.
Seguro-lhe na mão, olho-a nos olhos, vejo que chorava e digo-lhe que não faz mal algum e que me deixe ir à casa de banho. Ela cai em si, pára com aquela ânsia e indica-me a casa de banho, onde dispo a camisa e vejo que o soutien está igualmente encarnado.
Ora a D. Helena era esbelta e eu bem generosa, logo não havia roupa dela que me servisse e o almoço acabou por terminar com a senhora doutora sentada à mesa vestida com um roupão de banho, numa imagem que faria rir o mais sisudo.
A camisa e soutien foram lavados e secaram em poucos minutos debaixo dum sol ardente, mas as manchas encarnadas não saíram, de modo que deixei a casa com uma camisa do chefe, que era apenas amigo dela, mas que tinha ido parar-lhe ao quarto, ninguém sabe como.
E assim, regressei ao Arquivo com uma camisa de homem, grande para mim e desajeitada em cima da saia que, embora manchada, mas não dava tanto nas vistas como a camisa.
Durante meses ouvi pedidos de desculpa da D. Helena, mas onde estava ela com a cabeça para fazer lulas recheadas, e eu sempre a rir-me e ela a olhar-me com ar de quem pensa que aquele riso deve ser proveniente duma qualquer falha cerebral, mas como chefe é chefe, nunca se atreveu a mencioná-la.

É oficial, I'm in love...

Quem espera sempre alcança, lá diz o ditado e este homem andou, andou, andou, mas já cá está outra vez!
Ontem à noite consolidámos a nossa relação, estivemos juntos depois de jantar até quase à meia-noite, num encontro onde também levei o meu filho que, felizmente, tem uma grande predilecção por ele.
Como sempre, as coisas não são perfeitas: ele tem um ar meio amaricado, pinta os olhos – mas isso, já os Faraós faziam! – e usa sempre a mesma roupa que, embora eu a adore, mas uma mudançazita de vez em quando não lhe faria mal, hei-de conversar sobre isso com ele.
Ontem ainda houve ali uns quid pro quos, pois apareceu uma tipa qualquer que ele tinha conhecido não sei onde, não sei quando, não sei como, nem quero saber, o que lá vai, lá vai, mas ele abandonou-a! Ali, bem diante dos meus olhos, largou-a numa ilha deserta! Toma lá!
Só quando já lá estava é que me lembrei que tenho um chapéu igual ao dele, o tal que o meu amado sobrinho diz que me fica a matar, que fico mesmo com ar de pirata, e achei que ele ia gostar que eu o tivesse levado, mas esqueci-me.
Aquele homem leva-me à loucura com tanta aventura e como sempre quis ir ao Havai e a Porto Rico, locais por onde ele andou ontem, com certeza quererá levar-me lá e servir-me de guia. E nessa altura, vou-me lembrar da letra do Mestre-Sala dos Mares e dizer-lhe, Glória aos Piratas!

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O Monopólio

A minha amiga Lu já nasceu vendedeira! Admiro-a porque eu sou daquelas pessoas que não conseguiria vender uma mantinha no Pólo Norte, mas ela vende aquecedores até no deserto do Sahara!
Depois de várias experiências ao longo da vida, curta, diga-se de passagem, porque ela tem só trinta aninhos e mal feitos e quem disser que essa é quase a idade da filha mais velha, leva logo com o meu olhar de olhos bem abertos a pedir para corrigir o disparate, mas, dizia eu, depois de outras experiências, agora é consultora imobiliária.
Um título destes tem imensa supless – soletremos por favor con sul to ra i mo bi li á ri a, que nos leva logo para uma dinâmica aparentada com sangue azul – e a Lu pediu-me ajuda no sentido de contactar pessoas a quem possa apresentar os seus serviços, dentro da sua zona de posicionamento/trabalho.
Confesso – estou de joelhos a penitenciar-me – que a zona de posicionamento levou a minha mente perversa para um cenário cheio de cetins, veludos e cintos-liga a atarem as barrigas gordinhas de certas meretrizes. Abanei a cabeça para afastar tão indignos pensamentos, centrei-me na candura da Lu, que parece um anjo e acedi a falar com algumas pessoas.
A bem da verdade, isto é um aviso pois a Lu planeia mudar a configuração da cidade, coisa que algum Plano Director Municipal conseguiu e ontem à noite esteve em minha casa a contar-me os planos da pólvora. Conclusão, ela vai reinventar o Monopólio!
Começou com os Jardins da Gulbenkian, que quer comprar a todo o custo, e quando percebeu que tenho um primo revisor da CP, os olhos brilharam-lhe já a ver as estações de Santa Apolónia, Campanhã e São Bento, debaixo da sua alçada!
Também no Quartel do Carmo se vai erguer um hotel – vão poder reconhecê-lo, era uma daquelas pecinhas vermelhas, maiores que as verdes, que eram as casas – e o meu amigo da GNR que falou com ela já anda a fazer terapia…
O parque Eduardo VII também está na mira da espingarda da rapariga, embora não saiba o que lá vai nascer, mas apenas que ela não gosta da inclinação, motivo pelo qual vai mandar terraplanar aquilo tudo para ficar com o terreno à mesma altura. Quando lhe disse que assim ia criar uma espécie de abismo em frente à rotunda do Marquês do Pombal, ela só me perguntou o que achava eu de por ali uma cascata que caísse em direcção à avenida da Liberdade…?
Também me explicou que o Rio Tejo está num local pouco razoável e avançou com umas ideias de o atapetar, para ficar mais estreito e criar espaço para mais construção, isto para além de projectar a compra e venda do Parque das Nações para ali sim, instalar o novo aeroporto!
Isso é que vai ser… os cámones a chegar, todos aos gritos a pensarem que vão cair no rio, atirar com o Oceanário e já a verem-se com a Amália e o Eusébio a onk, onk, onk pelo corredor do avião em chamas…
A danada da Lu faz um esforço enorme para acertar na Casa da Sorte, acho até que ficou com as cartas todas, e eu aviso-a que tenha cuidado que o Monopólio tem também uma prisão! Mas ela, forte e determinada, diz-me que se lá for parar conta com os amigos para lhe levarem uns cigarritos e, não tarda nada, está a passar outra vez pela Casa Partida!
Assim mesmo é que é!

quarta-feira, 18 de maio de 2011

A culpa é da chuva!

A chuva e a trovoada são teimosas até dizer chega! Vadias, andaram a noite inteira à solta, quais cães a ladrar à lua, sem deixar as pessoas descansarem em condições.
De manhã o céu estava cinzento-escuro, carregado de promessas de água. Como dormi mal, levantei-me à pressa e tirei umas calças do armário, as primeiras que vieram à mão. Sapatos fechados, de inverno, transportam-me para fora desta estação que, não obstante, se chama primavera.
Quando cheguei ao local de trabalho vi que as calças estão rasgadas! Ora bolas!
Lembrei-me depois que o rasgo era antigo e que permaneciam naquele lugar porque estavam em fila de espera para serem arranjadas, mas como são de ganga e eu não uso calças, muito menos de ganga, na primavera e no verão, não tinham uma senha de urgência no hospital da roupa.
Resultado, vesti-as e, embora não se veja explicitamente, sinto-me uma adolescente daquelas que usam calças rasgadas de propósito. Tenho que me segurar, não vá colocar um piercing logo à tarde…

terça-feira, 17 de maio de 2011

Fim de noite

O dia de ontem acabou em GRANDE. Jantámos no célebre restaurante CdM – para os órfãos que não saibam o que é, significa Casa da Mãe – e quando entrámos no carro para regressarmos ainda chovia e trovejava.
- Vá lá mãe, vamos afastar essa cara mal disposta…
- Eu não estou mal disposta – menti eu até com os dentes que me faltam, enquanto fazia marcha atrás para tirar o carro do estacionamento e me danava por ele me conhecer tão bem.
- Está bem, então vais ficar ainda mais bem-disposta! Vamos abrir as janelas, ouvir música bem alta com os braços de fora e deixar a chuva entrar!
Sorri-lhe, corri os vidros até abaixo enquanto ele metia a pen no rádio, cheia de músicas especiais, músicas que contam histórias para além das letras e das músicas em si, músicas que nos ligam um ao outro, que nos fazem saber o que estamos a pensar.
Arrancámos aos berros e cem metros adiante a minha perna esquerda tremia que nem varas verdes encostada à porta e à coluna de onde vinha a música.
À passagem do palácio de Queluz, instintivamente metemos os dois os braços para dentro e a rir fechámos as janelas: caia granizo. Chegámos a casa encharcados, eu quase ao colo dele pois as sandaletes não estavam preparadas para dias de chuva e escorregava a cada passo.
Depois de nos limparmos convidei o senhor Faulkner para se meter na cama comigo com as suas Palmeiras Bravas. Porém, fui interrompida pelo telefone que durante mais duma hora não me deixou seguir as venturas e desventuras de Charlotte e Harry que, como tantos personagens de Faulkner não dialogam nunca, construindo monólogos infinitos. As palavras que se haviam de dizer já estão escritas e são confessadas em olhares.
Para ser franca deixei que falassem lá do outro lado, tentando acompanhar, mas não fechando o livro, sempre na esperança que desligassem pois a iniciativa tinha partido de alguém que não gosta de telefones e se despede rapidamente. Mas não foi o caso e, resultado, estou em falta com a leitura, naquilo que Jorge de Sena, o tradutor, classificou como um dos mais belos e audaciosos romances de amor que jamais se escreveram.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Uma noite em cima do meu ex-marido!

O fim-de-semana foi passado em Guimarães. Sábado quente e pegajoso, sem história, mas também quem precisa de história no berço da nação, na terra do Afonso?
O jogo do Duarte foi ao final do dia e ganharam. A seguir aconteceu uma coisa extraordinária: o meu ex-sogro, sussurrou ao meu ex-marido, porque não me convidavam para jantar?, à vista do facto – eterno – de eu ser a única pessoa desirmanada, como os pratos que se vão partindo ou os copos de diferentes raças. O pai do Duarte estava sem a sua cara-metade e acedeu ao pedido do pai:
- Queres jantar connosco?
Espantada, perguntei:
- Vais pagar-me o jantar?
- Não, são os meus pais que oferecem…
Conhecendo-o era escusada a pergunta, mas enfim…
Lá fomos jantar, numa casa de pasto Vitoriana, que ostentava uma placa a permitir que um homem mudasse de casa, de carro, de mulher, de mil coisas, até de sexo, mas nunca, em caso algum, poderia mudar de clube e devia ser Vitoriano até morrer.
Assim é que é!
O restaurante era um bunker: no piso de cima, da entrada, as mesas estavam cheias de gente com os olhos postos na televisão, em cujo fundo predominava o verde, tipo verde relva…
O piso imediatamente a seguir tinha uma mezanine de onde se via o piso inferior, onde jantámos: aquilo parecia um poço e fiquei à espera de ver os leprosos aparecer para alguém lhes atirar comida da mezanine!
Descendo em caracol, lá chegámos à barriga do restaurante onde estava um cozinheiro que nos fez o enorme favor de nos servir. Com cara incomodada levou o pedido de quatro pregos no prato, duas cervejas e dois sumos.
Desviou-se, tocou uma sineta e apareceu alguém do piso de cima, para quem ele gritou os pedidos das bebidas, que nos foram colocadas diante da vista em 3 minutos.
Depois dos pregos aparecerem na mesa vimos o homem abeirar-se duma televisão onde estava a dar um programa sobre acidentes de trabalho, e para a qual ele ia abanando a cabeça afirmativamente, como se conversasse com alguém.
Lá jantámos, subimos à superfície, como mineiros ao fim do dia de trabalho e fomos para o hotel. Estávamos no mesmo.
Eu tinha ficado com a minha chave e nas despedidas ouvi o pedido das chaves deles: o pai do Duarte estava no quarto por baixo do meu! Foi o mais perto que estivemos a dormir desde que nos divorciámos.
Ainda me convidaram para vir para Lisboa no dia seguinte, o que agradeci e aceitei, tendo o Duarte vindo também e assim refez-se a imagem da família, só a imagem, e ficámos a par das novidades de primos e tios dos quais não ouvia falar há anos, pois os meus ex-sogros estavam com a corda toda e esbanjavam simpatia, de tal forma que me questionei se não a gastavam com a actual nora.
No domingo não vi bem o jogo mas sei que perderam: devo ter trocado de óculos com alguém e parecia-me estar tudo deslocado, fora do sítio, até os miúdos pareciam peças de puzzles mas desencaixadas! O problema é meu, é claro, mas aguardei que o meu filho fosse chamado para a baliza o que, estranhamente, não aconteceu.
Esta semana se calhar vou ao oftalmologista. Ou talvez não vá e espere para o início da época, logo se vê…

Solstício

Deu-se em mim um solstício de Inverno
Foi num Domingo, depois da missa e antes do almoço
Ninguém viu nem sentiu
O mundo continuou a sua jornada
E eu a minha.

Peregrino em busca do meu altar

Peregrino em busca do meu altar
O perfume fugiu das lágrimas
A distância não existe
O longínquo está aqui.
A dor crepita levemente
As imagens à minha volta são sombras de vitrais em dias sem sol
Olho e vejo um cemitério branco e negro
Tapeçaria de pedras e corpos
Que as almas estão guardadas nas torres que se alcandoram pelos castelos
Estátuas com semblantes doridos imploram movimento
São os guardiões de nada que todos querem ver
Cabe-lhes a honra de montarem guarda ao passado.

Adeus

Quero esquecer
Mas ouço o barulho da dor a doer
Arde ardentemente
O sabor do sangue quente
Vinhos, tisanas sobre mim derramem
Vozes silenciosas não clamem!
Acabo de acabar o corte
Pareço-me com a morte
Não, não e não, quero a vida
A por viver, não a vivida
Vou saltar penhascos, todos
Em tempo algum seguirei engodos
Mesmo com a alma quebrada
A cabeça estará levantada
O tempo terá que fluir
O espaço vai fugir
Viver, será o meu cais
Voltar a ti, jamais
E quando tiver terminado
Sim, dormirei descansado

Pinto-me para mim

Pinto-me para mim.
Cuidadosamente, passo o baton pelos lábios
O espelho diz-me que o carregue mais e mais
E eu, provocando-o, passo a ponta vermelha uma e outra vez
No lábio inferior, que esfrego no lábio superior, besuntando-o
Imaginando que não é o meu lábio
Gasto deliberadamente a cor
Transformando a boca numa bandeira ao vento
Para que quando passes me faças uma continência.

Pedido de desculpa

Não sei como nem porquê, mas verifico o desaparecimento de vários comentários, sem que tivesse havido intervenção minha. Aos autores as minhas desculpas.

domingo, 15 de maio de 2011

Borboletas

Mato as borboletas que esvoaçam em mim
Mato-lhes a cor, o exotismo
As asas, arranco-as
Mato-lhes o rodopiar, a beleza
A emoção, sufoco-a
Mato-lhes a fome, a sede
Porque a vida tem que começar hoje

Vou inventar uma nova vida
Selar a antiga, esquecê-la
Domar o que havia de ser
Mas não foi.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Galáxia de beijos

Gosto de ouvir falar de coisas que desconheço, principalmente se vêm pela voz ou pelas mãos de alguém que eu idolatro. É o caso.
A pessoa em questão fez o favor de fazer escala em Lisboa durante umas horas e tive a oportunidade de lhe fazer companhia ao jantar, por entre conversas, recordações e novidades.
Deu-me um livro do qual falarei quando o tiver terminado, mas sobre o qual posso adiantar que, como objecto, é belíssimo e, sendo sugerido por quem é, só pode ser de boa cepa: We, the Drowned, de Carsten Jensen.
Como a saudade entre nós é uma nascente cristalina, vamos trocando mensagens por e-mail e ontem reclamei pela falta de despedida em condições!
Para se redimir, para além de me ter sugerido ver Genesis, de Nacho Cerdá, despediu-se de mim com o envio de uma galáxia de beijos, que recebi e na qual ainda me osculo.
É nestes momentos que sorrio, toda, cheia, feliz.
Melhor, só se tivesse recebido uma carta, à moda antiga, escrita à mão, em papel de preferência amarelecido, com pétalas de rosas que podiam ter sido colhidas nos maravilhosos jardins de Serralves, uma carta de amor, pois que outro nome têm as cartas verdadeiras?
Porque procuramos sempre o óptimo? Porque sabemos que podemos lá chegar! Com esta certeza vivo na esperança de um dia receber uma carta assim, uma coisa muito adolescente, mas muito viva, crua e imediatista. Uma carta que viesse da própria Terra do Nunca, era isso mesmo que queria receber.
Sonho demais, diz a minha mãe, que não se cansa de afirmar diante de tudo e todos que sou uma sonhadora, como se fosse sinónimo de mentecapta. Vou passar a dizer que acredito em milagres!, e talvez assim, pela vertente religiosa, ela não abane tanto a cabeça olhando para mim, em sinal de desaprovação. Além do mais, eu acredito mesmo em milagres!

terça-feira, 10 de maio de 2011

Strangers in the night

Vá lá saber-se porquê, ontem vomitei o almoço a meio da tarde. Má disposição, ansiedade, simples peso no estômago, não sei. Sei que parecia ter facas a girar cá dentro. Nestas alturas não há nada como a nossa caminha, um chá e uma torrada. Por coincidência o pai do Duarte convidara-o para jantar e não tinha preocupações com jantares.
A pena é ter que ser eu a fazer o chá… sei que é uma perspectiva egoísta, mas ontem senti ainda mais a falta de alguém que pusesse a água a aquecer e lá metesse um saquinho de chá.
Quando o Duarte chegou prontificou-se a fazer uma série de coisas e, para me agradar, disse que tinha um filme para vermos juntos, que era um filme que eu gostava muito, que eu estava farta de lho recomendar, que finalmente íamos vê-lo. Fiquei logo melhor com esta perspectiva e quando esperava ver sair uma comédia romântica, um filme para rir, quem sabe um Indiana Jones que tem a capacidade dum analgésico misturado com antibiótico e xarope para a tosse, começa a passar Pulp Fiction…
Lá me ri e disse-lhe que aquilo não era propriamente um remédio para a má disposição, mas vimo-lo com várias paragens, explicações e muita conversa.
Tanto sangue deu-me fome e algures pelo meio fui fazer outra torrada. No entretanto, elogiando a atitude do pai por o ter convidado para jantar, perguntei porque razão o convite viera num dia em que nunca estavam juntos. Fiquei a saber que se devia ao facto de estar impedido o resto da semana. Maquinalmente perguntei porquê e a resposta veio calma e serena:
- Mãe, e tu achas que me meto na vida das pessoas? Ele não disse porque não quis, não era eu que lhe ia perguntar.
E assim seguimos vendo as trapalhadas de Vincent e Jules, saídas da imaginação do poderoso Tarantino e palavras para quê? Guardemo-las, pode ser que um dia sejam utilizadas.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Um bom dia

Ao princípio da noite de ontem, a caminho de casa, o Duarte resumiu o dia duma forma simples, mas verdadeira, Foi um bom dia mãe.
Levantámo-nos cedo com o objectivo de assistir ao baptizado do meu sobrinho. A minha mãe sobressaía no meio de toda a gente e, se estrelas de Hollywood ou protagonistas da realeza europeia por ali andassem, olhá-la-iam com inveja.
Inveja foi qualquer coisa que não consegui deixar de sentir, eu, que não gosto sequer das palavras padrinho ou madrinha e que aviso com antecedência que não me convidem, porque não me assenta bem o papel; mas ali, diante de Darwin, himself, que sorria enfiado nuns calções aos quadrados, com uma camisa já por fora do cinto, senti-me uma figurante das que se contratam à última da hora, quando na realidade se há alguém por quem eu sinta um madrinhamento a subir-me pelo corpo, é por ele.
Por sorte – minha, não deles – gosto imenso dos que tiveram a sorte – deles, não minha – de serem padrinhos. Também compreendo que não se convide alguém cujas condições de saudabilidade deixem a desejar e concentro-me em pensar que ele me sorri como a mais ninguém.
Guardaram-me o melhor lugar na igreja! A minha sobrinha exigiu a minha presença ao seu lado e estipulou quem se devia sentar do outro lado, pois teima em não me querer partilhar com qualquer um; dessa forma, afastou outra garota com quem, eventualmente, eu poderia falar, guardando-me para ela. Apesar de ter apenas seis anos, lê melhor que muitos adultos que conheço e cantámos juntas as canções que iam aparecendo nas paredes da igreja, sim nas paredes da igreja, projectadas por um equipamento qualquer, para que todos pudessem cantar.
Lá à frente, ele rodeava-se dos padrinhos, dois homens e uma mulher, com quem se brincava dizendo que os padrinhos eram gay e que ela só ali estava para disfarçar. Na verdade ela é casada com um deles, e o outro estava sozinho porque a esposa estava no hospital, recém mãe, e não foi à cerimónia.
Avós e irmãos dos pais do rapazinho que acabou de conquistar um lugar à mesa dos adultos, juntaram-se depois a comer e a beber, a conversar, a rir, a recordar coisas do passado, a contar planos de futuro, até ser noite.
Como disse o meu filho, foi um bom dia.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Mais vale um pássaro na mão...

Se não tenho canecas, bebo por um copo
Se não tenho dinheiro, vejo televisão
Se não bebo Cabeça de Burro, bebo Alabastro
Se não tenho um vestido novo, visto um usado
Se não tenho caneta, escrevo com um baton
Se não tenho gasolina, vou a pé
Se não ganho, tento de novo
Se não consigo, esforço-me
Se não sei, pergunto
Se não acerto, corrijo
Se não mergulho, sonho
Se não vou, replaneio
Se não durmo, bebo café
Se não corro, faço ginástica
Se não vejo, telefono
Se não saboreio, abro a mala de recordações
Se não sinto, morri

Há quem seja grato ao que tem, às alternativas que encontra, e quem só goste de viajar em cinco estrelas, esquecendo que a vida não existe nesses locais e que só se vive a outro nível... por isso há quem viva e quem apenas respire.

O casal de miúdos

Foi milagre, será possível?
Dona Prata e Senhor Bento
Assim é que é subir de nível
É um grande acontecimento!
O parzinho está irreconhecível
Deu-se um renascimento
O culpado é o Criar Afectos
Assim são os bons projectos

Ai filha, queres que vá passar a ferro?
Hoje não posso, talvez amanhã
Tenho que estudar, senão erro
Tenho piscina, vou ser campeã!
Vou ginasticar, a ver se desemperro
Domingo, nem pensar, eu sou cristã!
O quê? O pai arranjar o exaustor?
Não pode ser, tem aulas de computador!

Agora vê se te calas que estou a ler
O pai está de volta da internet
Não temos tempo para comer
Logo lanchamos com a Laurette
Temos imensa coisa para fazer
Onde está a minha bracelete?
Vá, vá, manda beijos ao teu filho
Adeus, que nos vamos de afogadilho

Estamos roucos? Foi de cantarmos
Roucos mas muito bem-dispostos
Não nos cansa nada viajarmos
O que foi o almoço? Dois entrecostos!
Não ouviste o telefone? Mas nós telefonámos!
Achas que estamos descompostos?
Foi dum dia inteiro de viagem
Ai, se tu visses a paisagem…

Andam contentes os petizes
Criam afectos por todo o lado
Parecem dois aprendizes
Andar assim é ser-se abençoado
Ela tira e põe vernizes
Ele veste-se com predicado
E nós vemo-los vivos e contentes
Em excelentes ambientes

A utilização das palavras

Com frequência usamos palavras que não são as mais adequadas mas que, com frequência também, são usadas com um propósito.
Quando pensamos em férias, por exemplo, e dizemos já não falta muito com reticências invisíveis mas sentidas a seguir à última palavra, não estamos a mentirmo-nos a nós próprios, mas apenas a alimentar a esperança e a fazer tudo para diminuir a distância com esse dia mágico que acontece para muita gente uma vez no ano, o primeiro dia de férias.
Quando falamos com alguém que nos é querido e pedimos ligas-me daqui a bocadinho, não significa que seja daí a dez minutos ou lá quanto mede um bocadinho, é apenas a intenção de querer que o intervalo demore o menos possível.
Se perguntamos vens comigo?, quantas vezes só queremos saber do desejo da outra pessoa e não o fazemos para saber se devemos levar a mala maior.
Um levas-me? significa mais ou menos a mesma coisa, é a nossa demonstração de que gostaríamos de manter a proximidade.
Chamar a alguém miúdo não é só uma substituição do nome, é uma forma de expressar e enviar carinho, ou mera simpatia.
Como penso que é das palavras mais bonitas que existem, quando alguém me chama miúda, sinto-me no céu, e como o meu filho sabe, chama-me assim com frequência. Principalmente se quer alguma coisa…
Quando uso certas palavras ou expressões que aparentemente não fazem sentido, são forçadas, parece que não encaixam, faço-o naturalmente mas porque é uma forma de expressar o que sinto pelas pessoas. Depois ouço a resposta e fico à toa, como diz o Duarte, porque há quem responda contextualizando a resposta no sentido literal das palavras e não no sentido com que foram ditas.
Há coisas que repito porque quero que aconteçam, como fazia o Peter Pan, acredito que vão acontecer, acredito com tanta força que só podem ser verdade, não uma verdade de hoje, mas uma verdade que ainda vai ser verdade, e que ainda tem mais força porque é uma verdade construída dia a dia, desejada, pensada, consolidada no sonho que vai ser realidade, como o facto de ir à Lua com o meu sobrinho. O mundo pode ter dúvidas disto, eu não tenho nada tão certo como esta certeza!

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A luz da voz

- Sabes quando vais a conduzir e ficas encandeada com as luzes dos carros? Acontece-me o mesmo quando te ouço, a tua voz tem o poder de me encandear.
Quem não gostava que esta frase lhe fosse dirigida? Para além da beleza e do levantamento do ego que consubstancia, não consigo desligá-la dum episódio engraçado que aconteceu há meia dúzia de dias.
Ofereci o meu telefone para uma amiga ligar ao filho que é da mesma rede que eu, que tenho um tarifário que não pago chamadas para a minha rede, ao contrário dela que as paga. O Jorge não atendeu, concluímos a rir que estaria num momento em que as mães não devem intervir e fomos jantar juntas. Nessa noite gravei o número para uma qualquer eventualidade.
No dia seguinte a meio da manhã o telefone toca, verifico que é o Jorge e atendo:
- Olá Jorge, tudo bem?
Do outro lado chegou uma voz com sotaque carregado, de Bizheu, que disse ser o José e não Jorge mas afirmou que lhe ligaram daquele número no dia anterior ao fim da tarde. Percebi o engano, pedi desculpa e adeus.
Liguei à minha amiga a comentar a cena e a dizer-lhe que se tinha enganado e verificámos que ela tinha trocado um cinco por um dois.
Não tinha passado um quarto de hora quando o telefone voltou a tocar, anunciando outra vez o Jorge, que eu já sabia chamar-se José e que, duma assentada, disse o seguinte:
- Peço desculpa pelo incómodo, sinta-se à vontade para desligar o telefone quando quiser e juro-lhe que não mais voltarei a usar este número, mas tenho que lhe dizer que fiquei fascinado pela sua voz e não consigo deixar de pensar nela.
Uma mulher ouve uma coisa destas e fica muda, principalmente se não estiver habituada a ouvir elogios. A seguir engolimos em seco e dizemos ãh… obrigada. Se a experiência elogiosa fosse outra talvez deixássemos ouvir um riso maroto e a seguir disséssemos uma frase simpática que levasse o elogiante a continuar. Não foi o caso pois fiquei-me mesmo pelo ãh… obrigada.
O homem não se fez rogado e viu no meu garatujo linguista uma permissão para continuar o discurso e foi assim que fiquei a saber-lhe a profissão, as origens e as heranças, os gostos e fiquei a saber que é livre (sic).
Lembro-me de ter pensado que o telefonema se devia à minha voz que eu agora calava e aquilo parecia a gravação duma mensagem porque eu não dizia nada, parada no intervalo minúsculo entre o espanto e o rebentamento à gargalhada!
Por fim lá o interrompi, agradeci os elogios e a informação recebida e agora tenho um motivo de riso enorme com as minhas amigas.
Que cada um fique com os fascínios, que eu prefiro os encandeamentos.

O melhor de dois mundos

Fui ver o melhor de dois mundos. Para se ser líder em desenvolvimento pessoal temos que nos chamar… Daniel? Achei curiosa a coincidência dos dois Daniéis… ou não há coincidências?
Como diz a publicidade, Há que vê-lo para entendê-lo, falando de Daniel Sá Nogueira, o guru do desenvolvimento pessoal em Portugal.
Abraçar o caos? O homem terá ideia do que diz? Tem e eu concordo.
A tradição já não é o que era, tudo mudou, tudo muda, tudo continuará a mudar a velocidades estonteantes para as quais não estamos preparados porque, com frequência, não nos queremos preparar e deixamos a vida, a existência, passar-nos em frente do nariz, sem darmos conta.
Há muitos anos tive uma chefe que tinha um nome delicioso, a D. Regina. A senhora era uma funcionária pública sem mácula, saída do lote dos funcionários públicos perfeitos, que o mesmo é dizer, alguém pode estar a morrer, mas já bateram as cinco e meia da tarde, logo, venha amanhã se faz favor, porque não podemos violar o horário de trabalho e atender pessoas para além desta hora.
O director do departamento foi buscar a arquivista – eu – para organizar a mudança de todo o departamento para outro edifício. Iniciei-me nas lidas da organização, a vários níveis, e adorei, mas eu não contava com a D. Regina…
A ideia da mudança passava também por criar ambientes mais amigáveis ao munícipe e aos próprios funcionários, mas ela disse que se não tivesse um guichet… nada feito.
Enquanto a maioria colaborava na mudança, mostrando entusiasmo e empenho, eu passava e ela dizia, e o meu guichet?
Foram meses de árduo trabalho onde eu ia para casa e sonhava que corria, em câmara lenta, ao longo duma praia de águas translúcidas e areias brancas, com uma camisa que esvoaçava atrás de mim e do outro lado, não, não estava um tipo giríssimo que também corria para me abraçar, estava um guichet que eu partia à martelada, com um prazer inimaginável!
No dia da inauguração do novo edifício, a D. Regina meteu os papéis para a reforma, ou seja, não a consegui convencer que a mudança era um passo em direcção a um futuro melhor e a D. Regina continua a ser a pedra no meu sapato, bem, talvez seja melhor uma pastilha elástica ou um rebuçado, mas que me fazem escorregar.
Always look on the bright side of life, com a maior simplicidade possível, duma forma grata pelo que temos e não estejamos sempre à espera que os outros façam seja o que for por nós, levantemo-nos a cada dia.
Cada empresa, cada família, cada clube recreativo devia ter um Daniel Godri a servir de despertador! Acordávamos todos de forma serena mas altamente motivados para atingir os nossos objectivos, que podem ser as coisas mais diversas, como ser independente, como disse o Paulo Azevedo, cuja existência e presença são lições de vida sobre as quais todos devíamos reflectir.
Abraço apertado à minha amiga L. que me levou, com o seu entusiasmo e as suas fabulosas gargalhadas.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Dia da Mãe

Ontem foi o melhor Dia da Mãe de sempre. Durou 24 horas e logo na primeira puseram-me um livro nas mãos, um livro de aventuras, com uma livraria e uma biblioteca de permeio, em Copenhaga.
A manhã, já refeita do susto do granizo chamou-me para respirar fundo e caminhar, e a meio dum passo, dum certo passo, liga-me Darwin com uma voz terna e doce e diz-me sem aviso prévio que vai ter um maninho. Teve que repetir porque a informação não me entrou à primeira. E ele repetiu e disse-me a sorrir que o sorriso feliz não lhe saia da cara e eu imaginava-o feliz a sorrir, feliz a pairar, feliz a voar. Também ela estava contente mas sem a poesia dele. Depois veio a mãe ao telefone e rimos e ficámos pensativas e felizes e voltámos atrás.
Larguei a ginástica ali mesmo, no meio do parque e corri para casa, a contar a novidade ao Duarte. Assim que meti a chave à porta, ouvi bem alto:
- FELIZ DIA DA MÃE!
Gritei um Obrigada, enquanto tirava a chave da fechadura e em seguida aconteceu uma coisa inacreditável:
- Mãe – continuou ele lá da sala – é possível que a Tia M. esteja grávida? Sonhei com isso a noite inteira.
Fiquei de olhos abertos a olhá-lo sem dizer nada.
- Mãe… diz alguma coisa! O que foi?
Então expliquei porque estava afogueada, porque tinha vindo para casa a correr: a Tia M. acabava de ligar a dizer isso mesmo, que estava grávida.
O almoço com a avó Prata foi cheio de conversa da novidade, com alegria mas com igual quantidade de preocupação porque a saúde da Tia M. não é a saúde duma mulher com 36 anos. Infelizmente.
Mas aquelas palavras – Quica, vou ter um maninho… - não me saiam, não me saíram, da memória e merecem ser verdade.

O Duarte ficou em casa comigo de tarde e fomos jantar fora – a um delicioso restaurante que acabámos de descobrir, chamado McDonald’s… - e depois, cinema!
Ficámos indecisos no filme, empurrámo-nos mutuamente na escolha, a querer agradar ao outro. Nas duas horas que faltavam ficámos a conversar no meio dum livro de poesia, de onde eu ia retirando uma ou outra frase que dizia alto.
Não faltou, não podia faltar, uma peça de roupa nova, para ele não para mim e quando eu perguntei o que ganhava, ele informou-me rápido que tinha guardado um beijo gigante para me dar. Quando lhe disse que queria que ele gritasse o beijo, desatou a rir, a rir daquela maneira que eu amo tanto, com um riso que nasce lá do fundo e vem aos trambolhões pela garganta, sai pela boca, pelos olhos, pela cara toda e estampa-se nos meus ouvidos e na minha pele de mãe duma forma tatuada. Já nem precisava do beijo, mas mesmo assim ele deu-mo, vestiu logo a camisa e foi nela que encostei o braço quando nos sentámos a ver o Thor e eu sentia-me como se o próprio Thor estivesse sentado ao meu lado.