sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Razão de ser


Independentemente de aqui aparecerem textos novos todos os dias ou não, não se passa um dia sem que dê ao dedo. É uma coisa visceral, ler e escrever.
Já desisti de tentar editar seja o que for, e embora continue a escrever romances, guardo-os, como guardo as famosas botas que já correram mundo. Um dia ficarão para alguém que lhes dará o fim que entender e como escrevo como se fosse uma impressora das mais básicas, apenas de um dos lados, sempre se pode usar o outro lado como papel de rascunho.
Já esqueci as incitações dos amigos que me chagam para que edite a estória de Carmem, as colecções de mini contos, os livros infantis ou A rapariga que não gostava de livros com as capas dobradas, completo, do qual há por aqui vários capítulos.
Sobre esta matéria quero aproveitar para agradecer a todos os que me escrevem a pedir o final e informar que falta muita coisa pelo meio.
Porque se sente esta necessidade de partilha? De querer que outros estejam connosco nesta coisa que é escrever e ler? Neste casamento tão perfeito que até a perfeição o inveja?
A escrita é uma forma de dádiva, e não me refiro ao saber escrever, mas ao acto de dar aos outros. No meu caso, no deste blog em concreto, é uma necessidade de partilhar sim, mas também de rever o dia-a-dia, as relações entre as pessoas, de apanhar situações que me fazem rir, pensar e reflectir, reclamar, emocionar, recordar, e tudo em público, de forma aberta e partilhada.
Não deixo de me rir quando me dizem que o Areia às Ondas é um reality show com a diferença que não é em directo… Sim, é um diário que é lido aqui em Portugal, mas também em Macau e na Argentina, em Angola e no Brasil, na Noruega e nos Estados Unidos, em Israel e na Alemanha, na Dinamarca e na Coreia e, não sei dizer porquê, com imensas visitas originárias da Rússia.
Mencionei apenas os países que registam um maior número de pegadas neste areal, mas outros há, e que aqui não se leia qualquer desprezo, qualquer preferência da quantidade sobre a qualidade. Por exemplo, veio de Espanha a mensagem mais engraçada que já aqui recebi, da Venezuela um pedido para reproduzir textos, do Chile, ai o Chile, um dia vou ser tão feliz no Chile, um abraço enviado por que si, como dia o remetente.
Curiosamente, ou não, de Portugal vieram dois pedidos, dois, para retirar textos. Que não eram verdadeiros, que ofendiam, que devia ter cuidado com a prosa. Falo agora desde assunto pela primeira vez pois a importância que lhes dei foi nula e a única cosia que apaguei foi um comentário, de um amigo, que escreveu o meu nome e fez várias referências pessoais, desnecessárias na minha opinião, e assim lho comuniquei quando retirei o comentário.
Tem havido interacções directas com portugueses, que muito prazer me dão, desde logo com um certo ladrão de livros que se deu ao trabalho de vir a Lisboa conhecer-me; com um leitor a quem eu emprestei um livro meu – contra todas as minhas regras!; com autores de livros que leio; com pessoas simpáticas que me dão o prazer de enviar umas linhas – por exemplo a dizer Boas Festas.
De todos, realço uma visita quotidiana, uma amizade de muitos anos, uma pessoa que vive sempre comigo embora a sua natureza de cidadão de mundo, e o asco pelo Portugal que temos, o leve a constantes viagens por esse planeta fora, o V.
A todos agradeço o acompanhar neste percurso.

Amar ou odiar


Amar ou odiar
Ou tudo ou nada
O meio termo é que não pode ser
A alma tem de estar sobressaltada
Para o nosso barro sentir; viver
Não é uma Cruz que não se queira pesada
Metade de um prazer, não é um prazer!
E quem quiser a vida sossegada
Fuja da vida e deixe-se morrer!
Vive-se tanto mais quanto se sente
Todo o valor está no que sofremos
Amemos muito como odiamos já!
A verdade está sempre nos extremos
Pois é no sentimento que ela está.

Fausto Guedes Teixeira

Noite branca


Ontem à noite estava uma claridade inusitada. Fumando um cigarro à janela da cozinha vi pormenores do prédio em frente que nunca tinha visto em dias de sol. 
Chamei o meu filho que me disse que eu estava a alucinar.
A noite era branca, luminosa de tal forma que me deu medo. De quê? Nem sei, mas senti um arrepio de anormalidade.

Chico, grande abraço!


Já ouvi dizer que ser-se chic é ser um aristocrata da aparência. Há quem esteja chic de vez em quando – eu, raramente, mas já aconteceu – e há quem seja chic, de maneira inata. A minha prima Natércia é, definitivamente chic, mesmo que esteja de ressaca, com enormes olheiras e com o cabelo todo revolto. Nunca a vi assim mas acredito piamente que mesmo nessas condições ela mantenha um ar elegante, um porte distinto e um estar refinado.
Ora chic é uma palavra estrangeira que aportuguesada dá, obviamente, Chico! Provas disso são várias.
Comecemos por um dos mais famosos Chicos portugueses, o Chico do Cachené, que não só usa o dito cachené, um chapéu às três pancadas como remata com calções à marialva. Não será isto chic? E como não havia ele de por o bairro em alvoroço?
Outro Chico bem conhecido, o Chico Esperto, é ainda mais português que o anterior e não há alma lusa que não partilhe um pouco desta chiqueza. Adoro pensar num Chico Esperto de meia branca, anel no mindinho, crucifixo estampado no peito e amor de mãe expresso a azul num braço.
Outra prova irrefutável encontra-se no filme a Aldeia da Roupa Branca. Os aldeãos vibram com a chegada de um conhecido que vem da glamorosa cidade. E como se chama o filho da terra que vem visitá-los, bem vestido e garboso? Chico, pois claro! Gritam em uníssono Chegou o Chico, chegou o Chico!, que não podia ter outro nome, evidentemente. Qualquer outra das personagens não era digna de chegar de parte alguma: Jacinto, Luís, Zé ou Simão? Nenhum tem aquele dobrar de língua das duas consoantes que abrem o célebre nome, Jacinto é nome de aldeão, Luís é suave a mais da conta, esbate-se na boca, Zé é muito curto e Simão rima com cão!
Como se isto não bastasse, veja-se o caso de Chica da Silva: escrava alforriada e senhora da sociedade de Diamantina, com influência e poder. As perucas e roupas europeias, os modos, as casas, enfim tudo, eram de uma chiqueza que não poderiam pertencer a uma Maria qualquer e não é por acaso que se chamava Chica!
Mas as provas não ficam por aqui. Chico era o nome de uma moeda, de ouro, pois claro, no tempo dos cruzados. Alguém se lembraria de fazer uma moeda Manel ou Jaquim? Ah pois é, mas havia uma Chico!
E quem não se lembra do Chico Fininho? O Chico não caminhava, repare-se, gingava! E lá por se meter nas retretes não perde fineza, lá está, pois para além de ser fininho, é Chico e ser-se Chico é ser-se refinado.
E que dizer da lenda de Chico Rei? Rei! Nem Conde nem Marquês, Rei!
E como de pequenino se torce o pepino, onde é que as pessoas de bem compram os produtos para os seus bebés, onde? Na Chicco! Os dois cês não são por acaso, destinam-se a ensinar a criançada a dizer as sílabas de forma separada, a marcá-las bem. Quando crescem largam as fraldas e deixam cair um cê.
Conclusão, digam lá o que disserem ser-se Chico é a essência e a nobreza do chic!

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Mãe é mãe


A minha tia R. tinha um filho que desde cedo quis ser médico. E foi, escolheu a ortopedia como osso do ofício, para além de ser adepto do fê cê pê dos quintos costados e filiado no pê cê pê com todos os ossos.
As minhas férias no Norte marcaram-me essencialmente por causa dele, uma das pessoas mais incríveis que já conheci, sabendo de tudo o que há no mundo, grande viajante – não turista, viajante mesmo – dono de um humor único e de uma enorme boa disposição, maior que ele, e se era grande com os seus cento e não sei quantos quilos e um bom metro e noventa de altura.
Numa ocasião o T., já casado, com filhos, com consultório e a dar consultas no hospital, apanhou anginas. Os meus tios tinham-me levado a jantar em casa dele e a tia R. assim que o viu disse-lhe que estava doente, apalpou-lhe a garganta, diagnosticou uma enorme camada de papeira e mandou-o para a cama, com toda a experiência e conhecimento que detêm as mães donas de casa, como ela.
O T. rindo-se disse-lhe que não sabia que a mãe era médica, que agradecia a consulta, mas já estava medicado e não havia problema.
O jantar decorreu entre mil conversas, quem melhor do que ele para fazer de uma fatia de pão com manteiga um opíparo jantar onde se engoliam as palavras e se saboreavam as histórias que tinha sempre para contar. De vez em quando e a propósito de nada a mãe lembrava-o que estava com papeira e ele retorquía  sempre calmo, que eram anginas.
Ao fim da noite, fomo-nos embora e ela ainda lhe gritou lá de fora que se metesse na cama para curar a papeira.
Quis o azar que o T. morresse cedo de mais para nós que aqui estamos, mas isto é só um pormenor porque força daquela não morre nunca dentro do nosso peito.
A minha mãe anda numa de tia R. e discorda da dieta que a nutricionista me recomendou: pão? Onde é que já se viu?
Explico-lhe – pela enésima vez – que como mil vezes ao dia e que o pão é o ingrediente principal logo de manhã para dar saciedade e que volto a comê-lo a meio da tarde. Ela não concorda e apesar de eu ter muitos quilos a menos, ainda podia ter mais, segundo ela, se me deixasse de gulodices.
Pergunto-lhe, como o T., se ela é nutricionista e diz-me, com falsa calma, que não, eu bem sei que não, mas mesmo os médicos e nutricionistas não sabem tudo, como eu também sei e se não sei devia saber! Sim mãe…
A senhora minha mãe, que é a elegância – e a vaidade… - em forma de gente, pesava 89 quilos quando tinha a bonita idade de 11 anos… Fazendo jus ao provérbio era considerada a rapariga mais bonita da aldeia e qualquer um - o meu pai, amigos ou amigas de infância e adolescência são todos unânimes -  reage quando brincamos e dizemos que ela era a única rapariga da aldeia… Não, não, era mesmo linda, dizem em coro.
Era muito estouvada também e pensamos que era a dose de loucura que lhe dava o brilho que todos confundiam com beleza, mas não se insiste. Um dia achou que era gorda – a sério, mãe? – e fez uma dieta que a enfiou num vestido de noiva cuja cintura se agarra com as mãos, e lindo de morrer, diga-se de passagem.
Nunca mais foi gorda e vive infeliz e de mal com os quilos a mais das filhas, principalmente com os meus que eram muitos. Agora anda satisfeita mas quer mais e mais depressa e bem a vi conter-se quando provei os sonhos e as azevias e por isso me receita que não coma pão.
Minto-lhe e digo que já não como pão? Imponho-lhe a vontade da nutricionista? Sigo o seu conselho e retiro o pão?
Não quero fazer nada irreflectidamente e o melhor é pensar com calma nesse assunto, por exemplo, enquanto como uma açorda.

Mensagem de Natal


No dia de Natal levantei-me cedo, vim para Lisboa para que o Duarte passasse o dia com o pai e com a sua família. Tendo o dia livre já me tinha disponibilizado para trabalho voluntário e acabei por fazer visitas no hospital a pessoas que não conhecia. Duas delas nem se aperceberam que ali estava alguém, que lhes aconchegou a roupa, falou com elas e lhes fez companhia.
O que mais me custou, o que me fez peso, um peso do tamanho do mundo, foi os olhares dos familiares e amigos dos outros doentes, os que tinham família e amigos que os foram visitar: olhavam-me como se eu fosse marciana e olhavam as pessoas a quem eu fazia companhia como se… é difícil explicar e posso estar enganada, mas olhavam-nas como se tivessem peste, como se não ter alguém que as visite de mote próprio fosse uma coisa terrível, uma doença contagiosa mais contagiosa que qualquer doença catalogada nos canhenhos médicos.
Confesso que não foi fácil. Não foi fácil sentir a solidão ali tão sólida, no corpo fraco e quebradiço de velhas mulheres, transformadas em fantasmas vivos daquilo que foram.
Uma delas sorria não sei a quem. Eu não sei, mas tenho a certeza que ela dirigia o sorriso de forma directa, a alguém que amava e que, provavelmente, esperava encontrar. Não sei, mas sei que ela sabe e isso chega-me.
Hoje recebi uma retribuição.
Não sei porquê perde-se informação importante que cai na caixa de spam. Foi o caso de uma mensagem de Natal muito especial: era dirigida a mim, a mim mesma, com explicação da razão de alguém desconhecido me enviar uma mensagem de Natal.
Adorei, pois claro!
Menciona esta pessoa que na sequência da leitura de Presépios para todos os gostos lhe ocorreu escrever-me, ou seja, não foi uma mensagem automática; não o fez porque, não sabendo como ocupar o tempo, resolveu gastá-lo assim; não o fez porque se sentiu obrigado; não o fez porque calhou; não o fez porque toda a gente faz.
Fê-lo porque quis, porque sentiu vontade de, apesar de não me conhecer, me desejar Boas Festas.
Isto não é magnífico? Uma mensagem genuína de estranho para desconhecido, sem dívidas nem deveres! Não, não é uma maçada receber mensagens de Natal de quem não se conhece, é um privilégio se elas nos são dirigidas com todas as letras!
É uma surpresa, das boas, com a qual não contamos, é um presente. De Natal ou de outra qualquer altura, mas é um presente.
Lembremo-nos que o passado já não existe e quando existia, era presente; que o futuro ainda está para vir e quando isso acontecer será presente, ou seja o presente é aquilo que realmente temos, é uma dádiva e por isso sinónimo de prenda, de oferta, de oferenda.
E acontecendo recebermos mensagens assim são diamantes puros feitos de alegria, são rubis com emoções, são esmeraldas cor-de-rosa, a cor dos sonhos. Obrigada. Escreva sempre. 

I Gave My Kids a Terrible Present


Assisti a um vídeo no Youtube que me deixou com vontade de pregar umas estaladas bem assentes.
A ideia era ver como reagiam algumas crianças quando lhes davam presentes de Natal que nada tinham em comum com o presente típico para uma criança. Assim foram desembrulhadas duas enormes batatas, uma banana meia podre, um frasco de gomas vazio, um desodorizante, um rapaz recebeu uma Barbie e um outro, uma camisola com uma qualquer boneca estampada entre outros na mesma linha.
Fiquei estupefacta com as reacções e algo me diz que os organizadores da brincadeira não ficaram e estavam à espera daquele resultado.
Os gaiatos gritam e berram, clamam que odeiam os pais, querem bater-lhes, choram baba e ranho em ataques de raiva que parecem cães a ser atacados por dores inacreditáveis de tal forma choram e gritam.
As estaladas anunciadas nas primeiras linhas não eram para as crianças mas para os paizinhos que as fizeram assim. A nenhum miúdo ocorreu que podia ser uma partida, uma brincadeira, evidenciando uma anormalidade assustadora.
A expectativa gorada não se manifestou em tristeza ou desânimo, mas antes em raiva pura, em descontrolo total, em manifestações de ódio gritado com as veias do pescoço em riste, numa fúria que os assemelhava a búfalos picados. As prendas são desprezadas e atiradas para longe para mostrarem o seu descontentamento.
Quem são estas crianças? Quem são os pais destas crianças que os criaram como lobos esfaimados que, à vista de uma peça de carne que afinal não se revela comida, reagem como animais irracionais mordendo tudo em seu redor?
Igualmente tomava balanço e pregava uma morraças em alguns dos comentadores como por exemplo num que afirma não gostar de ver estas coisas pois não gosta de ver crianças a chorar. Outro diz que não chega tê-los trazido ao mundo como também têm que lhes destruir o Natal e nesta frase está tudo, como é óbvio: o Natal é receber, receber, receber, prendas, prendas, prendas, muitas, muitas, muitas…
Pai Natal… eu nunca te pedi nada e agora que o vou fazer agradeço penhoradamente que acedas ao meu pedido: passa-lhes com o trenó e com as renas por cima! Ah, e não te esqueças de todos os que se estão a rir!

A gaveta do chá


Em pleno Wadi Rum sento-me à sombra de uma tenda onde me oferecem chá de menta. A camisa está colada nas costas, não há sequer uma brisa, o calor é sufocante, mesmo para quem conhece o Verão do Alentejo profundo onde 45 e 46 graus são comuns. A temperatura ronda os 50 graus, não é para qualquer um. Beberico o chá e ouço o Oriol sentar-se também, ofegante, e dizer em catalão, devagar:
- Isto está quente. Pode arranjar-me uns cubos de gelo se faz favor?
Risada geral da nossa comitiva, que é composta por quatro pessoas: o Oriol e o pai, catalães, eu e o Duarte.
Conhecemo-nos no nosso segundo dia na Jordânia e os miúdos trataram logo de começar a brincar juntos; nenhum de nós levava grande coisa marcada e acabámos por andar juntos como se fossemos uma família, o que a mim me deu muito jeito pois uma mulher sozinha com uma criança por aquelas bandas são vistos com o nariz torcido.
Do Wadi Rum trouxe areia, que está ao lado da do Sahara, e de outros locais que me fascinaram, e da Jordânia trouxe chá, assim como tinha trazido da Tunísia, de Marrocos, do Brasil, dos Açores, da China, de…
O gosto pelo chá não vem de tempos imemoriais, até porque a minha mãe não gostava de chá e não tínhamos o hábito de o beber em casa: estava na categoria dos remédios. Ganhei-o já depois de casada com o meu marido e hoje é um vício. Na adolescência bebia chá de hortelã para tirar as dores menstruais e não tenho mais memória desta bebida deliciosa. Hoje, experimentar um chá pode ser uma experiência única e guardá-lo é sempre uma surpresa adiada.
Bebo chá em canecas – chá, água, vinho, sumo, adoro beber em canecas. Não faço questão de beber em chávenas ou taças como prescreve Yasunari Kawabata no seu delicioso Chá e Amor, romance que nos descreve também que os verdadeiros apreciadores transportam consigo alguns dos instrumentos para fazer chá; sou fascinada pela figura do Mestre do Chá, e sempre tive uma curiosidade imensa sobre a cerimónia do chá cuja preparação e escolha das taças e do bule leva consigo a tradição de forma inigualável com o espírito da paz, da harmonia e da pureza.
Tenho chá para beber no quotidiano, chá para beber em ocasiões especiais, chá para enfeitar, chá para deitar cheiro, chá para guardar e mais tarde recordar.
Verde, preto ou de sabores são os que mais se bebem lá em casa, com alguma contenção a que a nutricionista me obriga, por causa das toxinas, segundo ela.
O chá que veio de Irkutsk é uma relíquia que lembra Miguel Strogoff, espiões e segredos revelados só a eleitos, de modo que apenas eu o bebo em aniversários reais.
O chá vermelho, comprado num mercado em São Paulo, juntamente com paus de canela chupados ali, na hora, também é usado para especialistas que me visitam com pouca frequência.
As caixas que vieram da Índia estão espalhadas pela cozinha; pendurado na porta da despensa está um saco de pano, meio aberto meio fechado, com folhas de tília que a cada abertura da porta espalham um cheiro adocicado e leve que nos faz lamber a boca.
A maioria do chá guarda-se numa oferta de uma amiga, uma caixa lindíssima com pequenos compartimentos onde se colocam os saquinhos e que está sempre cheia com cores diferentes a que correspondem diferentes sabores. Em pequeno o Duarte fez na escola uma caixa magnífica com o mesmo objectivo e que está no meu gabinete, também sempre cheia.
Mas é numa gaveta grande e funda da cozinha que repousam os segredos do chá lá de casa e onde está a caixa dourada com dois pacotes em cartão duro que trouxemos da China, um de jasmim e outro de amêndoas e cuja história tem duas versões, a verdadeira e a certa.
O Duarte e eu estávamos na Praça Tiananmen quando fomos abordados por um casal que nos pediu para lhe tirarmos uma fotografia. Eram chineses de longe de Pequim, estavam em lua-de-mel e sabiam que Portugal ficava no outro lado do mundo. Ela era professora de inglês, ele só falava chinês, de modo que conversávamos as duas e ela traduzia para o marido e eu para o meu filho.
Convidaram-nos para ir à cerimónia do chá, num local famoso para eles e onde não iam ocidentais. Disse imediatamente que sim.
Metemos por um hutong, um dos antigos bairros de Pequim, os ocidentais começaram a escassear até ficarmos só nós dois. As ruas eram cobertas com milhares de fios eléctricos e com bandeirinhas de papel colorido. Eu ia em êxtase  e a cara um pouco assustada do Duarte chamou-me à realidade: estaria a fazer bem? Afinal não os conhecia de parte alguma e estava a deixar-me ir de olhos fechados. Por outro lado, pensei no quarto do hotel, lá do décimo não sei quantos andar, de onde via um hutong e como pensava todos os dias que gostava de o visitar. Agora estava ali, não devia aproveitar? Vá lá, pensamento positivo!
A meio de uma rua os nossos guias fazem-nos sinal para entrarmos num oculista! A minha indecisão momentânea fê-la indicar o piso de cima e repetir, Té, té! Subimos.
Ao longo de um corredor havia meia dúzia de salas preparadas para a cerimónia. Uma senhora veio apresentar-nos a nossa preparadora de chá e ali estivemos uma tarde a experimentar mil coisas, com gestos delicados e histórias meias contadas pois as dificuldades de comunicação mantiveram-se: a senhora explicava e a professora de inglês traduzia para mim, que traduzia para o meu filho.
No final comprámos dois chás, eu escolhi o de jasmim, o Duarte o de amêndoa, despedimo-nos dos nossos companheiros diante do oculista e saímos do bairro sozinhos, como quem acorda de barriga cheia de um sonho que se quer sonhar há muito tempo.
A verdade é que os chás não foram baratos: foi o mais caro que comprámos durante a viagem e, quando chegámos, não faltou quem nos dissesse que fomos apanhados e que aquilo era tudo filme. Era? Então foi um dois em um: estivemos na cerimónia do chá e entrámos num filme, quem podia querer melhor?
Mais uma vez lembrei-me do Leão da Tunísia: o magnífico trapezista que abandonou o circo devido a um acidente e que me contou a história em idos do tempo, sentados num degrau de uma casa numa viela em Marraquexe, história que me marcou para sempre apesar dos meus companheiros de viagem insistirem que o velho que ma contava tinha uma grande imaginação fomentada pelo dinheiro que previa ganhar com aquelas palavras. Como sempre digo, vim com a carteira mais leve mas com a memória mais enriquecida e, no final de contas, a verdade é que eu estive na cerimónia do chá e conheci o Leão da Tunísia!
Não sei reconhecer a veracidade de uma peça Chanel, Boss ou Dolce & Gabbana, mas conheço bem os sabores da Lipton, os cheiros da Tetley, a variedade da Twinings ou as ofertas da Nestlé mas, ainda assim, os meus preferidos são os que compro, ou que me oferecem, em sacos de plástico, de papel, em latas, sem marca e que foram ali colocados à mão por desconhecidos, sem a uniformidade dada pela dimensão industrial, umas folhas maiores que outras, a pureza do ar artesanal; que viajaram muitos quilómetros até aterrarem na minha gaveta de chá para me proporcionarem vários prazeres e me fazerem companhia.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Garreia de cães


Por vezes esqueço-me do livro e não tenho outro remédio senão ir a olhar para as pessoas no Metro. Outras vezes levo o livro mas as pessoas falam de tal maneira que não tenho outro remédio senão ouvi-las. 
Eu ouço-as, as pessoas que vão ali nas redondezas ouvem-nas, a carruagem inteira as ouve, mas garanto que elas não se ouvem a elas próprias.
Qualquer um pensará que são surdas ou velhotas. Errado.
Há dias iam três senhoras, pela conversa professoras do primeiro ciclo, todas na casa dos trinta e tal anos e, literalmente, todas a falar ao mesmo tempo, sem esperar resposta e sem interrupção. Aquilo sim merecia ser filmado.
Às tantas percebi que não eram professoras, eram lunáticas fugidas de um hospício. Talvez já tivessem sido professoras ou talvez quisessem ter sido professoras, qualquer coisa do género, mas serem professoras, não podiam ser.
Uma atenção bem atenta e concentrada revelava que falavam da mesma coisa, da mesma escola, diziam os nomes dos mesmos miúdos e referiam-se aos pais desses miúdos, mas tudo ao mesmo tempo como se estivessem num concurso para ver quem falava mais e mais depressa.
Nesse dia eu levava um livro, que seguia fechado, e ia fascinada pelo trio professoral, cada qual com sua louca oração de sapiência, apressada e desprovida de sentido.
A coisa era de tal forma que de repente uma delas disse a outra que já tinham passado o Colégio Militar, estação onde a amiga devia ter saído. Ela calou-se uns milésimos de segundo, parecendo estar a processar a informação, voltou a encarrilar no solilóquio e nem deu resposta à outra que, por sua vez, fez a mesma coisa.
Duas ou três estações mais adiante saíram as três em permanentes e paralelos monólogos, virando a cara sucessivamente, como para dar a ideia que falavam umas para as outras, e o comboio continuou a sua marcha.
Um velhote que seguia sentado frente a mim olhou-me e disse:
- Livra, parecia uma garreia de cães!
Desatei a rir pela oportunidade da expressão mas também pela lembrança, pois era uma coisa que o meu avô dizia muitas vezes. 

Serviços de limpeza Faça Você Mesma


A limpeza e arrumação do mau vasto palacete são feitas por mim e pelo Duarte com uma ajuda da minha mãe. Não foi sempre assim, e tempos houve em que tinha uma empregada que passava a ferro e limpava a casa. As casas onde tenho morado ultimamente têm diminuído de tamanho, éramos três e agora só somos dois e, acima de tudo, não há dinheiro, pois se o houvesse, pagaria a alguém para fazer o que detesto: arrumações.
A primeira pessoa que contratei com este objectivo andou lá por casa o tempo que demorou até descobrirmos por que razão a conta do telefone era de vários contos de réis, quando nós nunca estávamos em casa.
Quando, finalmente, a Companhia nos enviou uma lista de números para os quais alguém ligava durante o dia, e durante hora e meia seguida!, verificou-se pertencerem todos à mesma aldeia de onde era a senhora, sendo muitos dos telefonemas para casa dos pais e vários outros para a restante família.
Para não haver confusões o dinheiro pago ao final do mês era sempre dado em mão e fui a casa dela, não pagar-lhe, mas pedir-lhe o que faltava face à factura do telefone que levava na mão. O marido da dita correu comigo aos gritos com um sortido de palavras pouco simpáticas, faltando-lhe apenas a espada em defesa, não sei se da sua amada ou da sua reduzida conta telefónica durante os meses que a esposa trabalhara na minha casa.
A segunda era a D. Maria e esteve connosco vários anos apesar de uma enorme incompatibilidade entre as mariquices que eu tinha em cima dos móveis e a sua própria natureza e hábitos: a D. Maria era uma pessoa do campo e limpava o pó olhando gulosa para o quintal que lhe dirigia um chamamento silencioso para que o fosse cavar. E ela ia com alguma frequência, fazendo a lida da casa em velocidade acelerada e tratando do quintal com esmero de mãe e muitos mimos.
Numa ocasião visitei o Teide e carreguei com umas pedras de 3700 metros acima do nível do mar até casa, que muito trabalho me deram a manter durante a viagem. Aterraram em cima da lareira durante uma semana e foram parar dentro da lareira assim que a D. Maria lhes pôs a vista em cima! Quando perguntei pelas pedras ela não sabia de nada, mas depois lembrou-se de qualquer coisa: sim, de facto estavam uns carvões em cima da pedra da lareira, com certeza fora o Duarte, que ainda era pequeno, que ali os pusera, mas eu que não me preocupasse que ela tinha limpo tudo... 
A D. Maria morava perto de mim, numa casa isolada com uma cerca de arame a toda a volta, arame que ninguém saltava a menos que quisesse travar amizade com a meia dúzia de cães que lá moravam também, todos de dente afiado e doidinhos por morderem alguma coisa ou alguém. À pala deles apanhei grandes molhas à espera que a D. Maria, o marido ou uma das filhas ouvissem a campainha, descobrissem as chaves, percorressem a distância até à porta e atravessassem a pradaria que ficava entre a casa propriamente dita e a cerca que punha os intrusos à distância, para lhe pagar.
Muitas das vezes, lá do alto de uma janela que abria para ver quem era, gritava-me que entrasse, que o portão estava no trinco. Entrar? Eu? Tá quieta!
A D. Maria era excelente pessoa mas fraca empregada e começou a acontecer vezes a mais da conta eu ter que limpar o que estava supostamente limpo; assim, com grande dificuldade face a tantos anos de relacionamento e aproveitando as queixas de cansaço dela, disse-lhe que prescindíamos dos seus serviços. Felizmente não houve dramas e com surpresa minha fiquei a saber que ela própria queria deixar o trabalho, mas não sabia como havia de me dizer.
Depois contratei uma senhora que era o oposto da D. Maria e recantos da casa houve que foram lavados e limpos pela primeira vez na vida. A casa andava um esplendor, as horas semanais eram pouquíssimas e pagas mais baratas que as da D. Maria. Um mistério.
Um dia cheguei mais cedo e a senhora ia a sair. Por mero acaso reparei que tinha acabado de passar uma camioneta e ofereci-me para lhe dar boleia pois a minha casa ficava afastada de tudo e qualquer pão tinha que ser comprado de carro. A senhora agradeceu disse que não era preciso pois ela ia e vinha sempre a pé. A pé? Mais uma razão para lhe dar boleia. Fui levá-la no meio de muitos agradecimentos e antes de a deixar em casa já tinha mentalmente decidido aumentá-la e pagar-lhe o passe da camioneta: demorei cerca de vinte minutos a chegar a casa dela e percebi que aquele percurso era feito a pé quatro vezes por semana, com chuva ou com sol.
Na semana seguinte deixei-lhe uma mensagem num papel, para não a constranger com conversa, dizendo que ali ficava um adiantamento em dinheiro para os bilhetes até ao fim do mês e que se fosse inteirar do valor do passe, que eu pagava. Nessa noite lá estava a mensagem e o dinheiro em cima da mesa da cozinha tal como os tinha deixado. Porque não os teria aceitado? Bom, falaria com ela no fim do mês. Assim, uma semana e meia depois cheguei mais cedo propositadamente e perguntei por que razão não aceitara a minha oferta. Qual oferta…?
Ela vira o dinheiro e a mensagem mas como não sabia ler nem lhe passou pela cabeça que fosse para ela.
Esclarecida a coisa, voltei a levá-la a casa onde a deixei feliz com um aumento inesperado e com dinheiro para andar de camioneta. Quem ficou infeliz fui eu quando, meses mais tarde, ela nos disse que se ia embora pois o marido arranjara emprego no Algarve, para onde se iam mudar. No último dia de trabalho fiz questão de estar em casa para me despedir dela. Quando cheguei toquei à campainha, ela abriu e chamou um homem que estava dentro de um carro parado à minha porta. Era o marido que vinha dar-se a conhecer e despedir-se também, agradecendo muito e manifestando pena em irem-se embora.
Depois veio uma senhora muito tímida que me disse que estava com muito azar uma vez que estivera poucas semanas nas duas últimas casa onde trabalhara: começava e o casal divorciava-se! Esteve três meses lá em casa comigo e não sei ao certo se ficou mais tempo ou não porque… sai de casa. Nunca deixei de me rir com esta coincidência e sempre imaginei que a senhora tinha começado a fazer terapia logo a seguir.
Depois de termos decidido viver juntos de novo, e depois de um interregno em casa dos meus pais, comprámos uma casa nossa e arranjámos outra empregada, a mais divertida de todas!
Ligava-me para o telemóvel de um telefone fixo e dizia:
- Já estou em sua casa, quer que passe a ferro ou que arrume a casa?
- Mas… tem a certeza que está em minha casa?
- Sim, por que pergunta?
- É que eu não tenho telefone fixo e aqui no visor aparece o número da sua casa…
A lata e as estratégias para aumentar as horas de trabalho não ficavam por aqui:
- Olhe, estou aqui no café por baixo da sua casa a beber um cafézinho antes de subir, quer que faça alguma coisa em especial?
Verificado o número de telefone era do café sim, mas de um ao lado da casa dela e não da minha.
Este namoro durou apenas mês e meio e terminou no dia que cheguei a casa e estava um monte de lixo à entrada da cozinha. Telefonei-lhe a saber se tinha havido uma qualquer urgência que a tivesse levado a sair de repente e fiquei a saber que não, apenas tinham acabado as horas combinadas e já não tivera tempo de apanhar o que varrera…
Face a esta resposta perguntei-lhe quando lhe devia e disse-lhe que o dinheiro estava disponível imediatamente. Ainda não tinha decorrido uma hora quando a filha tocou à campainha  tendo anunciado que viera buscar o dinheiro da mãe. Não lho dei e mandei o recado que apenas lho daria a ela própria e na frente de alguém. Não quis e acabou por me pedir que o entregasse à minha amiga que a tinha sugerido e em casa de quem também trabalhava, e ainda hoje trabalha, sem queixas nem reclamações, pois que queixas e reclamações se têm de alguém que até para o estrangeiro nos leva de férias?
A última, a derradeira, foi a Teresa, com quem ainda hoje tenho excelentes relações. A Teresa trabalha numa padaria, entra às quatro da manhã e sai à uma da tarde, tarde que tem livre e durante a qual tem várias casas para limpar. Trabalha que nem uma moira, sempre de sorriso na cara, mesmo com problemas, por vezes graves. 
Começou a ajudar-nos ainda eu era casada e depois ainda passou para outras duas casas onde estivemos  sendo que, na terceira, com imensa pena minha, tive que lhe dizer que não podia pagar-lhe. Ela percebeu, perdi uma empregada e ganhei uma amiga, uma simpatia de pessoa, brincalhona e sempre com uma palavra amável para dar. Visito-a bastantes vezes e vou à padaria só para a cumprimentar e receber um sorriso que sei ser generoso e amigo, puro.
Foi para a Teresa o meu primeiro pensamento quando pensei em contratar alguém para fazer uma limpeza específica lá em casa. O tecto da casa de banho e de uma parte da varanda estão a começar a bronzear-se de tal forma que, ali sim, se aplica uma frase que antigamente ouvia com frequência no fim do Verão, aplicada à minha pessoa e na sequência de bronzeados intensos: estás preta que nem um chouriço!
Pois que nem chouriços estão a começar a ficar aqueles que eram albinos e dando luta às tonturas e a um certo síndroma de Ménière ainda me empoleirei em cima de um escadote mas nada feito.
O Duarte também já pincelou os tectos com um esfregão com lixívia, tarefa onde levou negativa. 
A Teresa mora longe e perguntei à dona do café por baixo da minha casa se conhecia alguém que tivesse disponibilidade para me ajudar, já que durante tantas e tantas vezes que ali estou, a ouço dizer que vai ali toda a gente à procura de trabalho. Que ia saber, disse-me. Três semanas depois desistiu.
Indaguei junto das senhoras que fazem limpezas na empresa onde trabalho, se alguma estaria disponível,  explicando que será trabalho para uma manhã ou tarde, explicação um tanto enfiada pois tenho bom corpo para trabalhar e sinto-me um bocado anormal ao fazer o pedido. Nada. Uma tem uma neta de quem toma conta nas horas vagas, a outra mora do lado de lá do rio, a outra tem uma dor nas costas agora não pode, uma outra - que mora em Odivelas - acha que a Amadora fica muito longe. Ofereço-me para a ir buscar e levar, agradece e reforça o não, diz que não quer incomodar... 
Oh minha senhora, por quem é!, eu é que não a quero incomodar a si!
Isto é o que dá viver em alturas das chamadas vacas gordas! A bem da verdade eu é que não estou a ver bem a coisa e vou fazer como o homem que comprou um carro e passada uma semana foi devolvê-lo alegando que queria um novo pois aquele tinha os cinzeiros cheios. Não vou gastar tempo em limpezas e vou comprar uma casa nova!

Em pinturas


A meio do Verão passado fui coagida pela minha vaidade e curiosidade a usar gelinho nas unhas.
O cor-de-rosa encarniçado durou perfeito duas ou três semanas, mesmo a lavar a loiça e a fazer tudo com as mãos. O problema começou quando me fartei daquilo, tanto mais que, dado o crescimento das unhas, a cor vai avançando dando a ideia não que temos as unhas pintadas, mas que temos as pontas dos dedos cheias de sangue.
Tirar aquilo revelou-se um enorme desafio e passei as férias com manchas ou pintas, conforme o tamanho, nas unhas, que iam saindo à força de fazer pressão com as outras unhas. Aí em meados de Agosto aquela porcaria saiu toda e eu jurei que nunca mais faria semelhante coisa!
E não fiz… conscientemente…
Há dias comprei dois vernizes verdes com o propósito de fazer sessões de pintura de unhas com a minha sobrinha durante as mini férias de Natal. Quando fui pagar a senhora disse-me que quem levasse dois produtos tinha direito a um terceiro gratuito; voltei ao mostrador de vernizes e conclui que tinha as cores praticamente todas, tendo ficado indecisa. Acabei por aceitar a sugestão da senhora que me indicou um frasco com líquido transparente e cheio de minúsculas bolinhas encarnadas e azuis. Ela abriu o frasco e passou uma camada numa das suas unhas e achei aquilo encantador, com a certeza que a miúda ia adorar.
Porém, aquilo que já se sabe provou-se mais vez: a gaiata é mais esperta que eu e, inexplicavelmente, não quis usar o verniz das pintinhas coloridas. Para a convencer usei-o eu mas nem mesmo assim ela quis experimentar. Ainda lhe sugerir, oh ignorância, oh estupidez, que pintássemos as mãos como fazem no norte de África com henna, mas ela recusou.
Assim andei estes dias com as unhas pintadas às bolinhas e ontem à noite sentei-me diante da televisão com a caixa da manicura para apagar o ar festivo dos dedos, mas quem é que diz que as pintas me saem das unhas? Tal e qual como o gelinho do Verão estavam agarradas que nem lapas e nem com a lima se dignaram largar a unha.
Ok, não vão a bem, vão a mal! Usei um dos verdes escuros, três camadas bem dadas, grossas e luzidias e adeus pintas coloridas. Adeus, até nunca mais!

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Bom fim do mundo para si também!

Trabalhando numa Universidade lido com alunos deslocados das famílias e das cidades onde cresceram.
No Natal, mais que em qualquer outra altura do ano, percebe-se a movimentação que os leva de volta à comidinha da mãezinha: as pastas foram substituídas por malas e grandes mochilas e os nossos clientes mais fiéis vêm à biblioteca pedir-nos para lhes guardarmos a bagagem, de modo que hoje isto parece uma cloakroom de um qualquer hotel.
Com franqueza, preferimos guardar malas do que fazer de babysitter, como tantas vezes acontece: vêm fazer exames e trazem os filhos que deixam na biblioteca com o pedido encarecido para tomarmos conta deles. A responsabilidade é grande, não nos agrada, mas também é uma prova de confiança e nunca recusamos, fazendo da biblioteca aquilo que sempre digo que ela é: um mundo!
Hoje vive-se em ambiente de festa com os últimos trabalhos a serem apresentados e entregues, muitos cafés de despedida com amigos e colegas, malas por todo o lado.
A minha grande amiga também vai de viagem e a mala com roupa para o frio parisiense também já cá está.
Pela minha parte preparo um fim de semana prolongado em casa da minha irmã com a gaiatada e com a previsão do Duarte se oferecer para ir à rua comprar tudo e mais alguma coisa... desde que seja de carro.
Não anseio o fim de semana por ser Natal mas por saber que vamos fazer karaoke, jogar às Caravelas, ao Risco, dançar e inventar coreografias, fazer bolos que todos dirão que estão maravilhosos mas que terão dificuldade em engolir, contar histórias e cantar canções inventadas na altura e abrir prendas também.
Como medida de precaução não se acenderá a lareira pois o elemento mais novo da família é rápido que nem um raio e basta tirar-lhe os olhos de cima dois segundos para ele querer ir experimentar o que é aquilo que brilha e se mexe. Mas mesmo com frio estaremos de coração aquecido, não por ser Natal, mas por estarmos juntos.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Uma aventura no metro


Apanhamos o metro cedo. O meu sobrinho com a Castafiore nas mãos a seguir ensinamentos da tia com o Tintin, o Duarte apreensivo com a meia hora que medeia um teste seguido da apresentação de um trabalho, o último do período.
Já em pé para sairmos, a senhora que seguia à frente do garoto encalha nos próprios pés e estatela-se no chão e, como num dominó, o gaiato cai em cima dela.
Contas feitas ao acidente, partiu-se um dente da senhora. Ela tapa imediatamente a boca com um lenço de papel, o dente bandeia visivelmente mas não cai, como um foragido que foi apanhado pelas abas do casaco nos últimos instantes e ali fica. Pede desculpa ao meu sobrinho e diz-me que o meu filho não teve culpa.
Acabamos por sair e na plataforma perguntamos se precisa de alguma coisa, o vigilante aproxima-se e quer saber se chama o INEM, outra passageira que igualmente assistiu a tudo também não arreda pé.
O Duarte abala cheio de pressa e fico eu e o garoto por entre manifestações da senhora, que afirmava que o meu filho não tinha culpa de nada, ela não sabia como aquilo tinha acontecido. Digo-lhe que sei que o miúdo não fez nada, mas que estou ali para lhe valer em alguma coisa que precise. Um dentista,  só preciso de um dentista e onde o vou arranjar agora?
A meio da minha explicação em como lhe vou arranjar um dentista o vigilante diz que esperemos se fazemos favor pois o chefe da estação tem que saber que houve um acidente e ele vai chamá-lo.
A bem da verdade a senhora não parecia completamente bem, um pouco apática, algo vaga nas respostas, quando as dava.
O vigilante puxou do intercomunicador e, calhando, imitou um herói do cinema que tinha visto na véspera (nada de especial, adoro fazê-lo!), com voz grossa demais para o seu pouco mais de um metro, disse meia dúzia de coisas incompreensíveis aos ouvidos civis, tendo desligado com ar ufano, declarando que o chefe da estação vinha a caminho.
Olhei de relance para as horas no mostrador da estação e disse que estava com pressa ao que ele me respondeu que tivesse calma, que o chefe vinha da linha amarela, não era longe, mas ele não era uma flecha, como eu devia saber!
Os segundos que demorei a digerir a informação, fazendo força para não me rir e em simultâneo imaginando eu própria um super herói de capa esvoaçante a entrar na estação, com certeza ao som de uma orquestra, a senhora aproveitou para tirar o telefone do bolso e disse:
 - Já agora… o senhor por acaso não me sabe arranjar o telefone?
Perante o meu olhar espantado, esticou-lhe o aparelho que o vigilante segurou com ar imperial, abriu-o com ar entendido, deu duas ou três explicações técnicas, que o cartão não sei quê, não sei que mais,  e devolveu o telefone à senhora, tal e qual como o Super Homem devolveria uma criança resgatada de uma inundação à sua mãe.
A senhora de sorriso escancarado repetia está a ver? está a ver?, mostrando o telefone aparentemente a funcionar a mim e ao meu sobrinho, agradecendo repetidamente.
Nisto chega o chefe: grande e simpático, de sorriso afável, identificou-se e afirmou ter de pedir os dados à senhora para se registar o acidente, ali tudo se regista para benefício de todos, nós compreendíamos, certo?
A senhora voltou a afirmar que o meu filho não tivera culpa alguma, coisa que o chefe não percebeu, pois ainda não lhe tinha sido contada a história.
Apalpou os bolsos do enorme casaco como quem procura qualquer coisa e acabou por tirar um folheto do Rock in Rio. Com dificuldade lá apareceu uma caneta, encarnada, e ele sentou-se no banco da plataforma a escrever em cima do joelho, no verso da papeleta. Para quem era tão cumpridor das regras pareceu-me um pouco estranho tamanha informalidade, mas estava cheia de pressa, disse o meu nome à senhora e pedi-lhe que fosse ao meu encontro – a cem metros dali – assim que se despachasse.
Vinte minutos depois chegou ela.
Marquei-lhe uma consulta no meu dentista, por coincidência perto da casa dela, para duas horas mais tarde.
Afinal a senhora estava bem e se não respondia a algumas das nossas perguntas era porque… era surda.
Foi embora com muitos agradecimentos pelo meio mas voltou passada uma hora a pedir que desmarcasse a consulta pois quando chegara ao emprego ficara a saber que tinha um seguro, cujos serviços a chefe dela tinha contactado e onde ia ser assistida. Infelizmente não ficara com o meu contacto nem com o da clínica, de modo que decidira vir aqui para me avisar e agradecer de novo. Disse-lhe que se deixasse de agradecimentos pois ela estava necessitava e eu podia ajudar, que outra coisa havia a fazer?
- Se a senhora faz isto a toda a gente, tem lugar no céu, isso é garantido! Onde é que já se viu ajudar alguém que não conhece de parte nenhuma? Mas deixe-me dizer-lhe uma coisa… eu já percebi que a senhora não está convencida: o seu filho não fez nada! Fui eu que cai e provoquei a queda dele!

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Presépios para todos os gostos

Metade dos e-mails que recebo são mensagens de Natal. Algumas vêm de pessoas que não conheço, mas começam com o meu nome, são-me dirigidas. Outras são de conhecidos que não me dirigem a voz há séculos e as últimas notícias que tive deles foi no Natal passado quando me mandaram um e-mail. Nem devem ter dado conta que não respondi e este ano voltam à carga. Uma carga automática, desprovida de sentimento, seja ele qual for.
Acabei de receber uma mensagem com um poema. Só legitimo as mensagens-poemas-com-palavras-de-terceiros quando vêm de alguém que sabe verdadeiramente do que eu gosto, quando as palavras alheias são nossas de alguma forma, minhas e de quem mas envia, caso contrário, é ridículo.
A mensagem em questão veio de uma senhora de nariz empinado, dona do conhecimento do mundo e a quem o acto de sorrir deve provocar dores inimagináveis, porque nunca o pratica. Só me consegui rir.
Em tempos idos, quando os animais falavam, eu também mandava mensagens de Natal, fazia postais à mão, pintados ou lisos conforme o destinatário, escrevia textos sentidos em cada um deles, mesmo que os enviasse por e-mail, embora a maioria seguisse por correio, com selo, e nomes e moradas escritos a bic azul, uma caneta que continuo a usar.
Mas isso era no tempo em que fazia árvore de Natal, coisa que já não faço há alguns anos, embora tenha vários presépios que estão em exposição o ano inteiro e que vieram de vários locais do mundo, alguns onde nem se comemora o Natal.
Um deles foi comprado à vista de Jericó e antes de chegar a casa caiu-lhe a estrela que estava colada por cima da cabana. As tentativas para a colar foram inúmeras, todas sem sucesso, de modo que, de vez em quando, aparece uma estrela no meio dos livros, por baixo da mesinha que está ao lado do sofá, e até por baixo da janela, o que me faz pensar que caiu do céu, entrou e ali ficou.
Quem é que tem uma estrela de Natal a passear-se em casa? Só quem acredita que todos os dias são dia de Natal e não o comemora apenas uma vez no ano.
Hoje, a caminho do trabalho, chamei a atenção dos meus sobrinhos para um presépio que está à entrada do metro. A minha sobrinha pôs-se a descrever um presépio que está na cidade onde vive, segundo ela um presépio diferente, pois as figuras são feitas de erva.
O Duarte, que nos conduzia, sorriu e disse:
- Conheço gente capaz de fumar esse presépio...
Levando com o meu olhar de desagrado, apressou-se a acrescentar:
-Mãe, gente com elevado espírito natalício, 'tás a ver?

Robinas dos Bosques


A minha sobrinha e eu estamos vestidas como Robin dos Bosques e João Pequeno, que todos sabemos, era bem grande: com collants a fingir que são calças.
As dela são azuis escuras, as minhas um pouco mais claras e salpicadas com cristais swarovski, puros e verdadeiros, ou seja, as minhas pernas valem uma fortuna e sobre esta riqueza ambulante já nos rimos os três, eu e os meus patinhos, até dizer chega.
A melhor proposta dos gaiatos sobre as minhas valiosas calças sherwoodianas foi vender-me bem cara, guardar o dinheiro e, a seguir, raptar-me! Pergunto-me se eles terão visto Trinitá e as vendas sucessivas do cavalo…
As calças de ganga absolutamente banais que ele tem vestidas contrasta violentamente com o nosso glamour mas, afinal, as miúdas são assim… 

I like the way you shake your ass aroud me

O Duarte levanta-se todos os dias cedo para me ir levar à estação. Isto de se ter carta de condução é uma maravilha...
Hoje os meus sobrinhos ocuparam o banco de trás e viemos a ouvir música barulhenta, catalogada por mim como género do Tum Tum Tum.
Ao contrário de outras mães eu ouço tudo, não quer dizer que goste, mas ouço. Tenho níveis diferentes para aguentar diferentes músicas mas, de forma geral, até os amigos do Duarte se admiram como sei trautear um pouco de tudo ou, pelo menos, acompanhar com o na, na, na certo.
Hoje de manhã um tipo qualquer gritava: I like the way you shake your ass aroud me e eu sorri de ladecos ao Duarte sugerindo-lhe que mudasse aquilo.
O meu sobrinho apercebeu-se da troca de olhares e do silêncio cúmplice que se estabeleceu e, não querendo deixar de ouvir a batida, disse:
- Deixa estar Quica, é uma conversa entre o homem e um cão...
Ainda bem que não ia a conduzir porque ninguém aguenta rir tanto e prestar atenção à estrada em simultâneo.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Carta de condução

A dieta hoje foi por água abaixo.
Não, não comi nem uma fatia do bolo rei quentinho que me vieram oferecer, que foi re-oferecido às minhas colegas de trabalho, não almocei em qualquer restaurante, trouxe almoço como sempre, não me armei em glutona com qualquer espécie de comestível ou bebível, antes pelo contrário: quase não comi.
Ora não comer é regra negra da dieta, as mil e quinhentas e noventa refeições por dia são para fazer e não esquecer nem uma, porém, trazia uma angústia desde ontem da qual não me consegui livrar: o Duarte ia fazer exame de condução e mais parecia que era eu.
Passou.
Agora passo eu da ansiedade para a gestão do carrito no dia a dia.
Consola-me saber que é tão pequeno que ele lá mal cabe, ou seja, com certeza nunca irá conduzi-lo... pois... eu sei, eu sei, isto do auto-convencimento nestas coisas não é bom, mas sempre ajuda.
Estou muito feliz e a ansiar pela primeira voltinha, sobre a qual já falámos vezes sem conta e cujas sucessoras estão em risco, não pelo tamanho do carro, mas pelo preço da gasolina. Enfim, deixemos coisas tristes. O rapaz tem uma nova competência e isso é que interessa. E a mãe está inchada que nem um pavão, até parece que a dieta ainda nem começou!

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A alcofa do Duarte


Diz-me a minha irmã que deu um objecto meu, de grande estimação, que estava na sua casa. Diz-me que já o deu há dias mas que esperou para me contar pessoalmente. Visualizei uns sapatos de Verão que lá deixei e questionei-me interiormente a quem os teria dado…
Afinal, era mesmo de estimação: a alcofa do Duarte, um objecto com cerca de 19 anos e que já serviu a outras pessoas da nossa família, a filhos de amigos e aos meus três sobrinhos. Para maior surpresa diz-me também que a ofereceu a uma desconhecida.
Como é que isso aconteceu?
Num fim de tarde muito chuvoso e frio, o meu cunhado ficou com os miúdos em casa e ela foi ao supermercado. Ao pôr as compras no tapete rolante repara que está uma grávida, três pessoas atrás dela, com um vestido típico de Agosto e chinelos de enfiar no dedo, carregando uma palete com seis litros de leite e um pacote de bolachas.
A minha irmã pagou, pôs as compras no carro e voltou ao supermercado.
Quando a grávida saiu, percebeu que estava acompanhada pelo marido e por uma criança com cerca de três anos, cuja indumentária também anunciava Verão, tendo umas meias calçadas por baixo dos chinelos de enfiar no dedo, e juntos dirigiram-se ao carro, um veículo pequeno, velho a cair de podre.
Aproximou-se deles e disse-lhes que tinha tido um bebé há pouco tempo e que tinha muitas coisas das quais não precisava, se eles as quisessem…
Quiseram. Ela levou-os a sua casa e foi tirando peças de roupa do armário. A garota pequena olhava o quarto como quem olha o pote no fim do arco-íris e ficou imóvel quando deu com os olhos nos brinquedos.
Chamada a dona dos brinquedos, esta pediu à menina para escolher o que quisesse e a preferência caiu num Nenuco, com carro e cesto e roupas e sapatos, tudo o que ela própria não tinha.
A minha irmã continuou a juntar coisas das mais variadas, o pai sorria como se estivesse a sonhar, a mãe grávida não conseguia falar, a minha irmã também não.
Até que o olhar do pai caiu na alcofa, perfeitamente arrumada no alto de um armário. Não disse nada, não se mexeu, apenas olhou e a minha irmã viu. Viu o desejo, mas não a cobiça, viu o querer, mas também a vergonha de quem estava a ser presenteado e não podia pedir. Então perguntou-lhe onde ia dormir o bebé quando nascesse, em Janeiro, e ficou a saber que seria no meio dos pais.
Sabendo que eu própria daria de olhos fechados fosse o que fosse, explicou que não era dela, embora os seus filhos a tivessem usado, que era do sobrinho já com 18 anos, mas que sabia que eu não me importaria e deu-lhes a alcofa.
O pai, o mais falador, segundo a descrição, ficou calado. A mãe começou a dizer baixinho que a filha – era outra menina – já tinha cama, repetindo aquilo, como um mantra.
Quando saíram o pai disse à filha que o Natal é quando as pessoas quiserem e que tinha sido dia de Natal para eles todos.
A minha irmã segurava as lágrimas com dificuldade, impotente por não poder fazer mais, eu deixei-as correr só com a descrição e lembrei-me logo de uma gabardina que me está pequena e não uso, de sapatos e botas de,… de…, de…
Tenho o hábito de muitos anos de dar tudo o que não uso, brinquedos e livros infantis incluídos, e entendo a angústia daquele momento.
Fiquei feliz por ela ter dado a alcofa: qualquer das pessoas a quem a pudesse emprestar novamente não precisam dela daquela forma e conseguirão substituí-la.
Não está aqui em causa a caridade versus acções concretas para erradicar a pobreza, está aqui a prova que podemos sempre fazer alguma coisa. Basta querermos e não termos medo de nos aproximar de quem precisa.
Desejo as maiores felicidades à menina que vai dormir na alcofa que foi do meu filho e dos meus sobrinhos, a quem amo desesperadamente.
O nó na garganta que se cria ao pensar no assunto remete-me para milhões de pessoas que vivem como fantasmas aos olhos alheios, que fingem não os ver, e cujo número cresce assustadoramente. 

O Derby


Os meus conhecimentos de futebol resumem-se a saber que uma mão cheia de gente anda a correr atrás de uma bola para tentar marcar golo. Equipas, conheço-as de nome, pois é impossível não conhecer os três grandes, e não, não me refiro, a Pessoa, Eça ou Camilo, uma vez que os noticiários abrem com notícias da bola, as manchetes dos jornais mostram as caras de jogadores e treinadores e os programas de rádio vibram com a dinâmica do esférico.
Ontem fui ver o jogo entre o Sporting e o Benfica com duas amigas, ambas conhecedoras, cada uma a torcer por seu clube e eu ali, de árbitro. O local escolhido foi uma tasca maravilhosa cujos clientes davam para fazer um filme e que será objecto de um texto em altura oportuna.
Com um jarro de vinho e uns petiscos ocupámos a melhor mesa do distinto estabelecimento e posso dizer que adorei o jogo cujo resumo aqui deixo:
A menina sportinguista continha-se para não gritar, a benfiquista estava mais calma; a malta da mesa à minha frente também se dividia por preferências e um dos ocupantes, de brinco na orelha, era bem giraço – gosto de homens com brincos porque me fazem lembrar os piratas…
Marcaram-se alguns golos, mas eu só vi um porque o meu jogo continuava na esplanada da tasca onde uma família… diferente, digamos assim, jantava enquanto o elemento mais novo fazia os trabalhos de casa, ajudada pela mãe.
Perto do intervalo entrou um sem-abrigo, aparentemente já conhecido. Ao balcão alinhavam-se curiosos do jogo e que repartiam essa curiosidade com a sportinguista que estava na minha mesa, levando-me, em conjunto com a benfiquista, a grandes gargalhadas e chamadas de atenção, que passaram despercebidas pela equipa contrária. Não se marcou golo…
Ao intervalo foi tudo fumar lá fora.
A segunda parte decorreu ainda com mais animação, e percebi quem tinha ganho pela cara de tristeza da minha amiga sportinguista: foram os de encarnado!
Com pena de uma alma que estava ao balcão, em pé, com certeza com imensas dores nas pernas, convidei-o a sentar-se diante da minha triste amiga, que ele tentou animar lendo-lhe coisas maravilhosas na palma das mãos. Golo!
Não querendo ser mal-educado acabou por ler também as nossas linhas e disse-me o que eu já sabia: que sou uma pessoa sem interesse e não há nada de relevo na minha vida. A benfiquista teve mais sorte e ele lá vislumbrou duas ou três coisas positivas para lhe dizer, mas nada que se comparasse com a sorte e saúde em barda que previa para a sportinguista, ou seja, uma grande jogada, cheia de compaixão e boa disposição.
O jogo acabou com a benfiquista a entrar em casa, o nosso companheiro de ocasião a debandar e a sportinguista e eu a apanhar um táxi.
Foi um belo jogo!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

'A nova ordem industrial no Estado Novo'


Conheci o mítico Rogério de Moura há vários anos por intermédio de amigos que eram autores na Editora que dirigia. Assistir a conversas entre Rogério de Moura e um dos meus amigos, ou com José-Augusto França, por exemplo, situação que também tive o privilégio de presenciar, era um fenómeno, uma viagem sem tempo nem espaço, projectada para o passado, reflectida no futuro, profundamente presente.
A determinada altura, a Editora onde eu própria trabalhava fez uma co-edição com os Livros Horizonte e foi na primeira pessoa que reuni com ele, que o vi trabalhar o que, com Rogério de Moura, era sinónimo de viver ou respirar.
Numa sala ampla, onde recordo a madeira como elemento muito presente, dispunham-se manuscritos de várias qualidade e feitios, bem como o temperamento do Editor que, parafraseando Coetzee, era a parte mais dura do seu corpo.
Semicerrava os olhos e exalava conhecimento, abria-os de curiosidade como um gaiato, não se limitava a ouvir, mas escutava bem para responder melhor. A este propósito, nunca os problemas de audição, de que sofria, se mostraram invasores das capacidades de apreciação do Editor.
Era impossível não respeitar Rogério de Moura, assim como era muito difícil, principalmente para alguém na minha área, não o invejar.
Há dias comprei um livro da sua editora e apanhei um baque. Quem conhecesse Rogério de Moura saberia que algo ia mal no reino da Dinamarca ao ver o livro, que nos apresenta uma outra Livros Horizonte, outra no sentido de vulgar, de denúncia da ausência do seu criador.
Tendo amigos e conhecidos ligados à CUF, sempre me interessei pela matéria nas suas mais variadas vertentes e, sempre que possível, acompanho o que se faz, o que se produz, o que se escreve. Assim, fui ao lançamento de A nova ordem industrial no Estado Novo: da fábrica ao território de Lisboa: 1933-1968 e comprei o livro.
A obra é o resultado de uma tese de doutoramento e a orientadora usou, abusou, violou, gastou à exaustão a palavra perseverança e toda a sua família, para se referir à sua orientanda, num discurso curto mas grosso de perseverações.
Ainda não o li, mas um livro é fonte de informação rica e variada mesmo sem ser lido de fio a pavio e, em duas penadas de vistoria, fico desanimada com várias coisas.
Na ficha técnica aparece uma tradutora! Assim se delineia a versão de mistério do livro: o que terá traduzido?
Não há notas de rodapé: a informação está alinhada no final do livro, de forma incómoda, com total prejuízo do leitor.
A bibliografia parece uma árvore de Natal… quer fazer-se tanto e depois sai um aglomerado de informação que, junto, perde o nexo, o norte, o sentido. A informação constante no livro pode ser preciosa para outros investigadores mas o código com que está apresentado, digno da CIA ou da Mossad, torna as referências bibliográficas, as pistas e os caminhos num labirinto difícil de percorrer.
Terá a autora querido alcandorar a sua obra à vastidão de uma enciclopédia? Se não quis, parece, e caiu no ridículo.
O capítulo das Fontes e Bibliografia tem divisões com critérios duplos imperceptíveis: de suporte e temática. Assim, por exemplo, temos uma secção de Periódicos e logo a seguir de Industrialização. Há uma secção de Indústrias, Implementação e Ideário e outra de Indústrias. Esta está ainda dividida, alfabeticamente por empresas. Ou seja, a árvore de Natal ganha consistência debaixo de tantas fitas e bolas.
Por falar em alfabeticamente… bem, se calhar é melhor saltar este aspecto…
Enfim, o carrossel do costume para os autores que querem mostrar, mostrar, mostrar, e não se centram em provar de forma clara e transparente os documentos a que recorreram e ponto final.
Com uma bibliografia tão pormenorizada, aparentemente, não faltaria nada, mas há notas a remeter para um autor e uma data, e quando, garimpando com vigor e paciência, dermos conta da referência na Bibliografia verifica-se que o dito autor tem mais que uma obra da mesma data. Em que ficamos, qual delas é?
Escrever livros não é difícil, fazer investigação também não, fazer investigação séria é um osso duro de roer e a falta de pormenor e rigor na Bibliografia é um dos aspectos que denunciam a falta de seriedade da investigação.
No final há um índice onomástico mas vários autores foram eliminados, esquecidos, obliterados, a começar pela própria autora do livro.
Depois não se encontram referências a quem é batido na CUF, verificando-se uma ausência por exemplo do biógrafo dos últimos senhores da CUF, Miguel Figueira de Faria.
Das fontes impressas da Fundação Calouste Gulbenkian só uma está identificada, as outras têm autor, um deles mal referenciado, e título, nada mais. Editoras e datas estão em branco; calhando, apareceram de geração espontânea.
As páginas das Fontes e Bibliografia são elas próprias uma fonte, um rio, um mar de disparidades, disparates que não deviam acontecer num trabalho de doutoramento.
Se cada um de nós começar a interpretar os sinais de trânsito à sua medida, se eu pintar de azul o sentido proibido que está numa das pontas da minha rua, muita confusão vai nascer, garantidamente.
As Bibliografias são mapas que devem ser precisos e fiáveis, mas há quem os codifique e este é um desses casos. Porém, a codificação de uma bibliografia pode acontecer propositadamente ou por desconhecimento, por desleixo e desleixo é a palavra certa para alguém que faz um doutoramento e desleixa tão importante parte do seu trabalho.
Não se percebe o critério da utilização de maiúsculas e minúsculas; não se percebem as vírgulas ou a falta delas – o que faz com que, entre muitos outros, Raquel Henriques da Silva apareça como RAQUEL HENRIQUES DA DIRC SILVA.
A falta de precisão leva a que títulos espanhóis estejam escritos em português (como por exemplo o de Sobrino Simal) e que se aportuguesem títulos franceses, como o de Michel Rautenberg.
Por outro lado, a páginas tantas a Bibliografia desdobra-se em Bibliografia Específica, onde têm lugar, novamente, secções como 5.2 -Indústria, implementação e ideário; 5.3 – Indústrias e 5.4 – Exposições industriais e outras; contudo a primeira secção é 5.1 – Artigos, e pergunta-se, é específica de quê?
AAVV, que remete para autores vários, já não se usa, e é recurso de ignorância ou facilitismo. A NP 405 indica que as obras com mais do que três autores devem entrar pelo primeiro, seguido da expressão [et. al] e não et. all, que parece querer inglesar a expressão original.
Nas notas usa-se o sistema Autor-data e na Bibliografia não, o que me leva de volta ao exemplo dos sinais de trânsito: quando vejo um 100 dentro de uma placa quererá dizer que não posso baixar a velocidade daquele limite?
No índice onomástico Le Corbusier entra no L mas na bibliografia entra em C…
Os Júniores entram por Júnior ignorando a regra do parentesco.
Fico-me por aqui. Guardarei a leitura do livro em si para quando se esbater a surpresa negativa que o primeiro embate me provocou. Mantenho a esperança de poder gostar da leitura, porque, como é sabido, é a última a morrer.
Deolinda Folgado - A nova ordem industrial no Estado Novo: da fábrica ao território de Lisboa: 1933-1968. Lisboa: Livros Horizonte, 2012.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Que susto!


Na noite em que o meu cunhado dormiu na nossa casa deitei-me o mais cedo possível, sabendo que madrugaria no dia seguinte.
O Duarte chegou tarde com compromissos importantes e inadiáveis que passaram por andar a namorar; esta escrita foi posta em dia ao telefone, comigo a fazer-lhe a acta do que ia acontecer e a rezar-lhe a missa, aqueces o jantar quando chegares que eu vou deitar-me cedo. E assim foi.
Porém, não mencionei que o tio estava em nossa casa. 
Assim, já eu dormia a sono solto quando ele chegou mas, como a luz da sala estava acesa, pensou que eu me mantinha acordada e investiu com um Boa noite mãe.
As boas noites acordaram o tio, que adormecera na sala, e que lhe retribuiu um cumprimento amarfanhado, rouco e de voz arrastada, voz de homem, forte e grossa que deixou o Duarte gelado.
Deu um salto na entrada da casa e vislumbrou um homem a levantar-se do sofá e, de acordo com o relato posterior, pensou, onde está a minha mãe?
Os reconhecimentos faciais vieram quase instantaneamente mas não extinguiram o susto, do qual ele ria a bandeiras despregadas no dia seguinte a contar à tia e a mim.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

1 metro a menos

Há dias vivi um momento inolvidável: verifiquei que tinha um metro a menos! Muito satisfeita, comentei que ainda bem que era em largura e não em altura, caso contrário seria anã.
A largura combinada de ancas, rabo, peito, pernas e braços perfaz um metro! São cem centímetros! E mil milímetros! É obra!
Como se isto não chegasse, adorei ir às compras pela primeira vez na minha vida: do 50 passei para o 42, mas como não gosto de experimentar roupa, vai tudo a olhómetro, levei dois pares de calças 44. Cheguei a casa e foi num virote que voltei à loja, para as trocar pelo número abaixo. Noutra altura qualquer, o regresso à loja tinha sido um martírio digno de santo, mas para trocar peças por números mais pequenos, fui a correr, orgulhosa e feliz.
Hoje vesti uma saia que me servia nas orelhas - expressão lá minha terra, pouco feliz, na verdade... - e que agora me assenta tal como há anos quando a comprei, já não sei onde.
Com a aproximação do Natal, assusto-me com as tentações, qual santo Antão, a que vou ser submetida. Como solução, o meu filho sugere-me que vá passar o Natal a um sítio onde não haja Natal; quem me dera, penso eu, mas e os cobres para lá chegar?
Lembro-me logo do Natal passado em Pequim e da visita à igreja católica na noite de 24 de Dezembro, onde nos diziam repetidamente Happy Birthday, ao que os ocidentais respondiam com um sorridente Merry Christmas.
Adorava passar o Natal, o Inverno todo!, num sítio quente, com água translúcida, areia branca e muito calor. Recordo as descrições dos meus primos africanos em Angola e Moçambique e fico invejosa das memórias deles. Vou rezar um mantra para ver se tenho sorte:
Euromilhões meu, euromilhões meu, haverá alguém tão desejoso de viajar no Natal para um sítio quente como eu? Quem?? A Branca de Neve? Ai sim? Zangou-se com o Príncipe? Olha, não sabia...

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Momentos


Na semana passada correu mais um evento internacional de relevo da minha responsabilidade ao nível da organização. O triângulo de pessoas que põe estas coisas de pé estava desfalcado e faltava a C. O evento só correria melhor se ela tivesse cá estado, mas a apanha da azeitona chamou-a, num chamamento antigo e visceral, que nos faz correr para a terra, para a família, para a tradição.
Todos os dias púnhamos a escrita em dia, mas não era a mesma coisa.
Em simultâneo fui inundada de trabalho de outras origens: levanto-me às quatro e meia da manhã e venho trabalhar. O meu cunhado ajuda-me pois vem dormir cá a casa para que o leve a apanhar o primeiro avião, hoje para a Holanda, há dias para Casablanca, antes para Águas Calientes no México, e Paris, e Barcelona, e Jacarta, e não sei onde no Brasil, e Rennes, e… é um triste aquele rapaz, sinto-me tentada a dizer cheia de inveja.
Hoje quando nos levantámos o Duarte ainda estava de volta de um trabalho para a faculdade. Foi cómico porque ainda estendi roupa e com o meu cunhado a vestir-se e o Duarte na sala, de televisão acesa para fazer companhia, pareciam oito da noite, mas eram quatro da manhã, pouco passava.
Dei-lhe na cabeça por estar a fazer as coisas em cima da hora, mas não fui severa: lembrei-me de como eu era igual, como sou igual, sendo capaz de ficar até ser dia a trabalhar.
Na idade dele esperava que a televisão acabasse, pois tinha um casal de velhotes surdos a viver no andar de cima, que ouviam a televisão aos berros e não me deixavam concentrar. Começava a estudar quando todos recolhiam à cama, ao contrário da minha irmã que se levantava cedo.
Hoje também prefiro levantar-me cedo para trabalhar, embora, neste aspecto, dê para os dois lados e tanto faça.
Embora continue a sentir que as férias são das melhores coisas do mundo, gosto imenso de trabalhar, do trabalho que faço, o que é uma sorte e espero continuar assim sempre, pois a expectativa de reforma é no dia em que morrer. Aguenta!