quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Apagar o passado

O pai do Duarte está com obras em casa, motivo pelo qual se mudou temporariamente para a casa onde vivemos juntos, e que ainda mantém. Assim, o passado almoço dominical com o filho foi naquela que já foi a nossa cozinha. Sabendo disto, pedi ao Duarte que me trouxesse uns óculos, dos muitos que lá ficaram, na gaveta de cima da secretária do escritório.
Desde que nos divorciámos o Duarte e eu já vivemos em três casas: a dos meus pais, muito jeitosa em tamanho, mas que não era nossa, depois outra em Rio de Mouro e, finalmente e até hoje, uma outra na Amadora,estas duas pequenas como ovos de codorniz e facilmente cheias com pouca coisa. Como a casa onde morávamos juntos era excepcionalmente grande, com belíssimos roupeiros entalhados, estantes que mandámos fazer à medida e muita arrumação, deixámos lá muita coisa, com o compromisso de as reavermos se a casa fosse vendida ou em caso de necessidade de espaço.
Sempre estive tranquila quanto à comodidade das coisas que ficaram, sentindo também que não constituíam incómodo, uma vez que a casa nunca esteve à venda e o paizinho nunca me colocou o problema do espaço, tanto mais que, passado pouco tempo do divórcio, ele mudou-se para casa dos pais e depois para casa da namorada.
Pouco passara da hora do almoço quando o Duarte me ligou a dizer que não via quaisquer óculos e o pai não sabia deles. Acrescentou que estava no sótão, onde descobrira fotografias minhas antigas, na Turquia, achava ele, Mãe, és mesmo tu a conduzir um barco no Fósforo? No Bósforo, meu filho... Mãe, vou levar isto tudo e mais uns bonecos meus que aqui estão numas caixas... olha, está aqui a fotografia que tirámos no túmulo do Merlin, com os papelinhos que as pessoas lá deixam...
Aproveitei para lhe pedir que me trouxesse a roupa que usei no casamento da minha irmã, um fato verde água, que agora já me deve servir e é daquelas coisas que está sempre na moda.
A noite precocemente cerrada trouxe o Duarte de volta a casa com um saco de plástico em equilíbrio numa mão, onde adivinhei as usuais taças do soberbo arroz doce da avó, um saco de papel na outra mão e um ansioso Olha o que aqui está! a sair-lhe da garganta. Do saco saiu um Astérix em peluche pouco maior que uma mão e dos meus olhos uma cascata de lágrimas.
Não me contive ao ver o boneco que quase deu um divórcio em plena Bretanha, concretamente no Mont Saint-Michel, onde fui tão infeliz que me recuso a assumir que algum dia lá estive. O Duarte viu o Astérix, pediu-mo e eu comprei-lho, não me recordo do valor mas sei que era insignificante, nada que justificasse uma conversa prévia entre mim e o pai sobre se devíamos ou não fazer aquele investimento! O pai viu a nossa aquisição e fez uma cena digna de César sempre que percebe que não consegue vencer os gauleses. Foi ridículo, intenso e doloroso, com vozes ameaçadoras, acusações de irresponsabilidade e loucura, dedo a apontar a minha insaciedade pelas compras (só quem me conhece é que percebe como isto é lunático), deixando-me uma cicatriz de mágoa de tal forma que quando vi o Astérix não segurei as lágrimas.
Lá limpei os olhos e sorri diante do Becas, do Han Solo e do Luke que saíram igualmente do saco onde estavam a ver as fotografias da Turquia, da Grécia, do Mar Menor na Andaluzia, em Fez entre outros locais, embrulhados num casaco velho, que me lembro de ter comprado com o pai do Duarte.
O meu filho dava graças pela existência do casaco, tem muito swag mãe, e perguntei pela roupa que lhe tinha pedido para trazer. Ora, eu que pensava que o ataque de choro me tinha secado as lágrimas, percebi que apenas tinha aberto a comporta depois de ouvir a resposta dele: Não há nada nosso lá em casa, a tua roupa e a minha, as coisas de quando eu era bebé, tudo, o pai deu para caridade.
O pai deu para caridade e a mim deu-me, para além do ataque de choro, um ataque de raiva: como é possível ser-se tão insensível? Isto é crueldade pura! Eu já nem falo da minha roupa, mas, a tua? Então para que guardamos nós certas coisas?
Envolta em tristeza fui para o meu quarto recompor-me e ele, indeciso sobre se havia de ir ter com os amigos ao café como combinara, andava por ali às voltas, até que lhe disse que fosse, não havia motivo para não ir.
Deixei passar a raiva e no dia seguinte escrevi-lhe a dizer que, com certeza, era engano o que o Duarte me contara. A resposta veio em forma de números: nem uma palavra, o que confirma o acto de caridade para com outros que não nós, como sempre, e uma lista do que tem dado ao Duarte em Novembro em almoços, carregamentos de telefone e fotocópias. Nem bom dia, nem boa tarde, nem adeus, como sempre. Seco e frio como dias árticos.
Depois disto fui procurar fotografias antigas e entristeci-me novamente. Sempre me pautei por dar imensa coisa, mas há peças que fazia questão absoluta de guardar: as primeiras botas, a primeira roupa que vestira, saído da maternidade, um blusão de ganga que mais parecia para bonecos, entre outras coisas.
Deste incêndio que o meu ex-marido me causou interiormente, e em termos de peças, salvaram-se duas: tinham sido em tempos emprestadas a um primo, emprestadas de novo a outro primo e de empréstimo em empréstimo, foram parar a casa da minha irmã, tendo servido aos meus sobrinhos.
A frieza e a distância que caracterizam uma pessoa que age assim são típicas de quem quer apagar o passado. Nem sequer colocou a possibilidade de um telefonema a perguntar-me o que queria fazer: lixo e já está, como se nós tivéssemos morrido.
Não sou médica, mas acho que isto indicia uma qualquer doença, uma tentativa de demissão do passado, coisa impossível de fazer e, definitivamente, sinónimo de transtorno de personalidade. A raiva que senti foi imensa, mas depois lembrei-me de Florbela Espanca...

Ódio por ele? Não... Se o amei tanto,
Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se à vida assim roubei todo o encanto...

Que importa se mentiu? E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Como um soturno e enorme Campo Santo!

Ah! nunca mais amá-lo é já bastante!
Quero senti-lo d’outra, bem distante,
Como se fora meu, calma e serena!

Ódio seria em mim saudade infinda,
Mágoa de o ter perdido, amor ainda.
Ódio por ele? Não... não vale a pena...

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Tuba de Eustáquio

Os meus ouvidos estão sem reacção, amorfos, parvos. Eles não ouvem, e isso faz de mim surda. É injusto...
Continuando à espera de consultas e cirurgias e do pote de ouro no fim do arco-íris, já agora, defendo-me dos zumbidos de forma adolescente: ando sempre de auscultadores enfiados nos ouvidos a ouvir música aos berros.
Faz mal? A sério? A quem? A mim? A mim faz-me mal não ter uma solução definitiva para isto, a mim faz-me mal o zumbido permanente, a mim faz-me mal ter uma mira técnica dentro da cabeça.
No meio disto tudo, o grande problema que se coloca é a minha incapacidade para ler enquanto ouço música, que tem de ser alta para competir com o zumbido.
Assim, há muito que as viagens de metro não são de livro em riste e sim de cabeça a dar a dar ao som de muitas coisas, desde Bizet a Snoop Dogg, de Wagner a Michael Jackson, de Aznavour aos Gipsy Kings, dos Queen a Elis Regina, com muito batuque pelo meio.
Das letras para os instrumentos musicais, quem diria?

Natal? Qual Natal?

O que é que Nicolás Maduro é mais que eu? Se a Venezuela pode ter Natal em Novembro, eu posso não ter Natal. O presidente venezuelano quer recuperar a essência da expressão popular, O Natal é quando um homem quiser, e eu quero celebrar a realidade do momento actual.
Não encontro nada para celebrar e não consigo perceber onde foi a revista do Expresso, há umas duas semanas, buscar pessoas tão felizes e contentes, passando a imagem de um país em recuperação, com esperança e expectativas.
A bem da verdade, até nos campos de concentração nasceram crianças, naqueles antros de corrupção mental, no fim da linha da loucura deu-se o milagre da vida, mas isso não melhora a imagem daqueles sítios. Mostrar meia dúzia de sorridentes não tira a fotografia do país, velho e doente, da grande maioria exausta e desesperada.
Assim, instituo que não há Natal. Eu dou e reparto o ano inteiro, estou presente na vida da minha família e dos amigos que gostam verdadeiramente de mim, que se preocupam comigo, poucos, cada vez menos mas muito bons, sumo de amizade concentrada. Ajudo o meu filho e brinco com os meus sobrinhos o ano inteiro. Além disso, a cortisona fez-me engordar de novo e não posso comer bolos. Mesmo que pudesse, só se os comesse com os olhos que os euros não chegam para tanto.
As câmaras municipais continuam brilhantes a dar brilho às noites com uma iluminação absurda, fingimento supremo de que existe Natal. Esta equação da época natalícia igual a luzes a acender e a apagar, fechando os olhos a problemas que podiam ser ajudados a resolver com as verbas milionárias das luzinhas de Natal é inexplicável. Que os centros comerciais o façam desde o fim do Verão, ainda engulo: montam o engodo para não matar a sociedade de consumo, para manter uma réstia de felicidade nas pessoas, sabendo que a felicidade se atinge num corredor cheio de lojas. Mas as câmaras deviam pensar para além dessa felicidade, deviam pensar na existência das pessoas.
Ainda eu ia à praia e já se via neve e ouvia-se jingle bell cantado por gordos pais Natal. Ninguém se lembra de criar um Pai Natal esquelético a carregar umas renas mortas, só pele e osso? Fazia mais sentido...
Fazia mais sentido que alguém se lembrasse de inverter as coisas, que é como quem diz, colocá-las no seu lugar! Mas a tradição continua a ser o que era e há que manter a tradição, mesmo que para isso seja preciso sacrificar as pessoas.
Bem, as pessoas que é como quem diz, algumas pessoas... 

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Um chá faz sempre bem

Abro o word e selecciono new document. Procuro um template de cronograma. Procuro, procuro e não encontro.
Passam calendários com cavalinhos, convites para colorir, propostas para relatórios e etiquetas e envelopes e mais cinquenta coisas diferentes. Cronogramas nada. Parece-me tudo muito infantil, como se as propostas fossem para artes manuais, actividades caseiras, pouco profissional, até que, de repente... eh lá! O que é isto?
No meio das propostas de layouts para currículos está um para Boticário.
Abro-o por curiosidade e não vejo nada que o distinga de outro para qualquer profissão; decido passar a usar este modelo que me lembra uma bela caneca de chá, mal não fará e sempre reconforta.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Magnífico

O  Reitor da Universidade dos Açores está de parabéns pela medida tomada sobre a proibição do uso do correio electrónico em determinadas situações na Universidade. Proíba senhor reitor, proíba! É preciso focarmo-nos e, como diz o povo mas contraria a física, ganhar tempo e não perdê-lo.
Porém, levantam-se-me algumas dúvidas, desde logo faz falta um esclarecimento sobre se é uma posição a favor da tradição, estilo viva o papel, abaixo o e-mail.
Há que parabenizar também pelo facto de a Universidade não ter uma página no LinkedIn ou conteúdos no iTunes. Decisão inteligente e que talvez pudesse ser ainda mais assertiva pois há informações sobre uma pós-graduação em Análise de Dados e Gestão da Informação nesse antro que é o Facebook, bem como uma página de um Centro de Empreendedorismo e uma outra que apela à Aprendizagem ao longo da vida, mas como é para séniores, devem ter tido em consideração que os velhos têm muito tempo e até deram o contacto da reitoria. Ainda assim, proíba senhor reitor, proíba!
Na minha modesta opinião, devia a informação ser um pouco mais precisa: quando se diz que não se podem – e bem! – divulgar assuntos privados, pergunto: as férias serão assunto privado ou não? Pode continuar-se a usar aquela fórmula da mensagem de resposta automática Estou ausente por férias até dia tal ? Fica a sugestão para uma adenda.
Convenhamos que é muito aborrecido, por exemplo, receber informação sobre a recente maternidade ou paternidade dos docentes ou dos funcionários; o que temos nós a ver com estes assuntos? Só nos desviam das nossas tarefas, causando perturbações e, lá está, perda de tempo. Proíba senhor reitor, proíba!
Pior ainda, ouvi dizer que há casos de universidades e empresas várias que chegam a divulgar informação sobre falecimento de membros da família de colegas! Onde é que isto já se viu? É uma maçada para os familiares e tem que ser para nós também ? Então trabalha-se numa universidade ou numa agência funerária? Proíba senhor reitor, proíba!
Parabéns! Agora não é ao senhor reitor, é parabéns em geral; porque é que se usa o e-mail para enviar uma palavrinha de parabéns? Para ficar por escrito que o parabenizado está a envelhecer? Mais uma triste ideia…
Combinações de almoços, jantares, festejos vários… então mas o que é isto? Estamos aqui para conviver? O senhor reitor é que a sabe toda, proíba senhor reitor, proíba, coloque cada qual no seu canto, aliás, podendo dar uma sugestãozinha, eu lembraria que há por aí nove ilhas, logo, deve haver muita falta de wireless, e espalhar essa malandragem podia ser boa ideia, para além de reactivar o hábito perdido de escrever cartas, aumentando quiçá o quota dos CTT nos Açores.
Se formos honestos e a bem da verdade isso do espírito de equipa é um mito; então enquanto eu teclo pode estar outro a teclar comigo? Não! É impossível.
Por outro lado, os assuntos internos de Departamentos e/ou Serviços são isso mesmo, internos, primos dos privados, por alma de quem é que devem andar a circular nos corredores virtuais? Já nem falo da comunicação social, essa escória que produz escritos… ai, mas deixem-me dizer que apreciei imenso a utilização da palavra ‘escritos’, lembra-me a colocação dos papelinhos brancos colados aos vidros para alugar as casas, é tão típico, tão giro.
Proíba senhor reitor, proíba. Temos que nos consciencializar que a vida é feita de compartimentos estanques, viva a arrumação, não se quer misturas de espécie alguma e, verdade seja dita, até já chega de divulgação livre de conhecimento crítico. Aliás, quando se diz que uma universidade é o lugar por excelência para dizer e ouvir a verdade, isto é uma metáfora, nem sei quem a disse, mas foi alguém que estava a brincar, de certeza. Ou, a ser verdade, e para não arranjar confusões, deve-se arranjar uma verdade, uma só, que não levante dúvidas! Não, não, isto não é nenhum ismo, é só uma forma de dar ordem ao universo, de acabar com o caos.
Agora, quer os tais escritos da comunicação social, é mesmo gira esta palavrinha, os assuntos de natureza privada, cujos limites não sabemos bem quais são, é tipo mar e areia a que as ondas mudam constantemente a fronteira, os assuntos internos dos departamentos e dos serviços, aquilo que tudo junto é parte da vida da universidade, vão continuar a circular, isso vão, e fora da cadeia hierárquica estabelecida, cuja estipulação me lembrou o Sr. José de Todos os Nomes de Saramago. A rede de correios electrónicos pessoais vai ter uma nova vida, e aquela melianagem vai continuar a comunicar. O que fazer? Eu, assumindo o cargo de reitor, mandava fechar a internet! Ah, mas isso era já, era ontem! A menos que… a menos que eu pudesse ter acesso a essa correspondência.
Acho que o senhor reitor não devia ligar nada a quem anda para aí a dizer que isto é mal feito, que é censura, etc. Essa gente não está lá para ver como as coisas se passam, pois não? Então devem calar-se, não é?
Quem quer promover proximidades que se case, não vá trabalhar para uma universidade. Quem quer questionar que vá para polícia. Quem quer criticar escolha a arte, e tanto que haveria a dizer sobre o assunto, a dizer e a proibir! Quem quer fazer parte de um projecto constitua um grupo musical! Quem quer dizer o que lhe apeteça arranje um Speakers Corner! 
Uma universidade é outra coisa, é respeito, respeito é silêncio, como o que se guarda nas igrejas e nos cemitérios, como aquele que se impõe a partir de certa hora. Ai, estou a baralhar-me isso é nas prisões.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Margarida Repulsa Pinto

Os meus estudos em Medicina vão avançando aos poucos. Isto não é fácil...
Lembro-me das primeiras cadeiras como se fosse hoje: eram verdes escuras, de um material entre a pele e um tecido forte, rugoso, não sei onde a CP o foi desencantar.
Começava como qualquer bom aluno logo cedo, tosses e constipações, era o básico, mas também havia descrição de doenças, a que alguém mais abalizado atirava, então era sarampo? Não, era varicela. O essencial era ouvir com atenção.
Mais tarde passei pelos bancos dos barcos, que ainda não se chamavam Transtejo nem Soflusa, e descobri todo um novo mundo de doenças, como se as pessoas que viviam na margem sul sofressem de diferentes maleitas. Ele era lúpus, ele era zona - que eu também tive - e demais patologias.
Regressei a Lisboa e as matérias alargaram-se mas de forma especializada, as cadeiras do Metro substituídas por outras mais largas, outras cores, outros padrões, outras doenças, com especial incidência para as cancerosas, conselho de medicamentos vários onde não falta a sugestão de uso de produtos naturais que as farmácias levam-nos tudo.
Assim, depois de tantos anos de estudo vou abalançar-me a fazer o meu primeiro diagnóstico, começando por discordar de certas linhas da ciência médica: a Demência não afecta apenas os idosos.
Há pessoas cada vez mais novas a sofrerem da doença, que se caracteriza por ser neuro-degenerativa, provocar o declínio da actividade intelectual, diminuindo as capacidades sejam de trabalho, de relacionamento social e causando graves distúrbios na personalidade e no comportamento. Vejam-se dois casos recentes.
O primeiro é o da mulher que teve uma filha e a deixou no porta-bagagens do carro durante dois anos. Como foi dito por especialistas, à demência alia-se um quadro de malvadez, de dimensões épico-literárias, acrescento eu.
Esta situação não tem tratamento possível, a senhora deve ser condenada, não à morte, mas às paredes da sua loucura, encarcerada para sempre, sem visitas, sem livros, o nada e a solidão por companhia, nem os guardas lhe dirigiriam a palavra. Podia continuar a respirar, já não era mau.
O segundo caso, de demência na categoria de estupidez, apresenta perda de capacidades cognitivas, verificando-se em alguém que também sofre de dupla personalidade: a pessoa em questão pensa que é escritora, o que torna o caso muito grave.
Não é caso único e é altamente lesivo para a saúde pública que existam editoras que sejam cúmplices de pessoas assim, fazendo-as crer que são o que nunca foram.
A doença apresenta sinais depressivos e psicóticos, que derivam em alucinações e em delírios, constatando-se o uso inadequado do juízo; em simultâneo confere-se a existência de imbecilidade que se caracteriza por uma sujeição ao que lhe é sugestionado, com eventual criação de perigo para os outros, ou seja, quando alvitrado para a perversidade não mostra ter escrúpulos.
Há ainda demências com gradações que levam a criatura a pensar que é inteligente; até se podia sugerir a estes seres a consulta de manuais da especialidade para verem que não há aqui uma linha de invenção, nem um simples ramal, mas não vale a pena pois "O idiota completo, ou profundo, possui um desenvolvimento inferior ao de muitos animais inferiores tais como répteis, com quem podem ser comparados em relação à evolução e integridade do sistema nervoso".
A utilização de aspas deve-se ao facto de ser uma citação, ou seja, o que alguém, mesmo que fossemos nós próprios, já escreveu antes, e essas coisas devem ser assinaladas. No caso é da Wikipédia, para não complicar.
Em conclusão, verificando-se que as doenças têm nomes estrangeiros, por exemplo, Alzheimer, Parkinson, doença de Creutzfeldt-Jakob, com origem na chamada doença das vacas loucas, esta demência que descrevi, com elevados níveis de estupidez, de imbecilidade e idiotia podia ter um nome português, uma coisa que inspire o peso desta realidade, que transporte abominação e asco, que seja mesmo repelente, que não seja uma mera coincidência. Já agora que não induza à gordura, mas antes ao ralo, ao delgado, sim, pode ser ao intestino.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

SIG o DeGóis!

Os investigadores devem estar todos registados, seus cães de raças perigosas, na FCT, Financiamentos, Cunhas e Tal, desculpem, Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Devem também ter um currículo oficial, fiz isto, aquilo e aqueloutro.
Há uns anos, na era do Ministro Gago, acho, à Universidade do Minho, acho, foi encomendado, acho, um sistema, acho, para que cada um fizesse o seu currículo, uniforme, disponível em plataforma bonita e arrumada. É o currículo DeGóis.
Damião de Góis - aquariano (isto sou eu a meter-me comigo) - deve estar de chapéu enfiado a procurar sem descanso uma forma de voltar para pedir encarecidamente - estou a vê-lo de mãos postas, casaco de abas largas a arrojar, um joelho no chão - mudem o nome a esta coisa, por vossa e por minha mercê.
É preciso um curso para preencher o CV DeGóis. Duas pessoas que tiverem feito a mesma coisa podem preenchê-lo de forma diferente, não porque não saibam ler, não porque tenham problemas de literacia, simplesmente porque o labirinto, as ambiguidades, as repetições, são demais.
O detalhe, o pormenor levam a catalogar o DeGóis no barroco, um barroco exagerado, não um rococó, mas um re-cocó.
Enfim, mais à frente na narrativa, e depois de, muito à portuguesa, se querer deixar a nossa marca, a nossa cicatriz, mas sem nos apercebermos que, por norma, o que deixamos é um rasto de destruição do que foi feito, mudam-se os governos, mudam-se as pessoas e destrói-se tudo o que foi construído, os novos é que são os Presidentes da Junta!, e começam de novo sem verem se havia algo a aproveitar, rodam as cadeiras e DeGóis, já foste, siga o FCT-SIG!
Mais fácil, de acesso restrito aos senhores da FCT e ao próprio, tem um visual amigável e uma liberdade de expressão enorme, inserido num movimento artístico a que se pode chamar À vontade, numa alusão à posição militar de descontracção, embora sem baldas, pernocas ligeiramente afastadas, mãos em descanso atrás das costas, tronco direito, onde cada um escreve o que quer, como lhe der na real gana. Quem tem bom senso, atina, quem não tem, enjorca!
Mas porque é que temos que preencher dois currículos, perguntam as pessoas. Não têm, e se tiverem é o FCT-SIG, mas esse não dá visibilidade alguma, esconde-os, senhores investigadores, coloca-nos num limbo só conhecido pelo Big Brother FCT, não dá oportunidade de alguém os contactar a convidá-los para integrarem outros projectos, mudar de trabalho ou coisa que o valha, e hoje em dia não se habita em casas, vive-se na rede e só existimos se estivermos ON. Se não estão ON,estão a dormir, a vida é um sonho e quando acordarem é de um pesadelo.
Mas, como enquanto há vida há esperança, lá se vai preenchendo o DeGóis e o SIG, um mais que outro, Everest que se sobe dando um passo a cada vinte golfadas sugadas de ar.
Com o Inverno à porta, em dias de chuva sem hipótese de pôr o nariz fora da porta, rezemos ao grande humanista que foi Damião,  pedindo-lhe inspiração para esta epopeia, mas atenção com as santas preces, pois até ele, cidadão do mundo, emigrado e regressado, autor de crónicas reais que não agradaram a gregos e tiranos, desculpem, troianos, acabou nos braços do Santo Ofício. Amén. 

Arrasador

Curiosa, a minha irmã. Quis saber do filho mais velho se já namorava. Eu não, mas há quem namore, respondeu ele. Quem, continuou ela a querer saber. Olha, o João e a Maria por exemplo. Ai sim?, mostrou-se admirada, Então e eles passeiam de mãos dadas? continuou ela perdida no tempo. Não, nada disso, não te esqueças que eles apenas têm em comum o facto de respirarem e tirarem negativas.

Hoje deu-me p'raqui

Albert Camus era Escorpião. Não sei se ele saberia, mas nós sabemos. A possibilidade de ele não saber coloca-se na perspectiva de não ligar a signos, nada mais. Porém, e a acreditar no que se diz do feitio dos Escorpiões, não admira que tenha escrito A Peste. Um Aquário não escreveria A Peste, atacava-a para o bem-estar da humanidade.
Mas os Escorpiões são assim, é da sua natureza como diz a anedota, séria, by the way. Veja-se o nosso Saramago, também Nobel, onde terá ele ido desencantar aquele título sádico - As intermitências da morte - morre, não morre, morre, não morre, tipo semáforo, que angústia e que paciência!, e se nestas intermitências estão as pessoas no cemitério, de roda do funeral, o tempo que se perde, e outros a quererem, eles também, morrer, e as pessoas com jantares e almoços para fazer, e filhos para irem buscar às escolas, e compras de supermercado à espera e tanta coisa parada.
Andre Gide, por seu turno, escreveu sobre Édipo, de onde se pode concluir que é um complexado, Odysseus Elytis, com um feitio do contra, levou a maldade bem longe escrevendo em grego!, e Gerhart Hauptmann deu-nos o quê? Os ratos! tal e qual, assim, tipo praga.
Mas não se pense que são só os homens, não; Nadine Gordimer escreveu Get a life que, como todos sabemos é expressão para deixa-me da mão, vai por onde vieste, não deixas saudades, e isso não é bonito nem fica bem, como um preto de cabeleira loura ou um branco de carapinha.
Selma Lagerlof, por outro lado, é uma plagiadora, que ainda por cima baralha tudo, e A lenda da rosa de natal é a prova disso! Não é lenda da rosa e sim Milagre das Rosas, e já desde o século XIII. Note-se o esforço feito para ocultar as provas da óbvia cópia!, e de Natal não é uma rosa, é uma árvore, informação também do domínio público.
Já um Aquário como Mo Yan, é um bem-disposto como se prova com o título Shifu, You'll do anything for a laugh.
Coetzee, tem um Summertime, cenas da vida da província, que nos induz para uma calma e tranquilidades desconhecidas dos Escorpiões.
O senhor Kenzaburo Oe, Nobel desde 1994, autor de Não matem o bebé, Um eco do céu ou Dias tranquilos, é o quê? Aquário, pois claro.
Já a senhora Toni Morrison, escreveu nada mais nada menos que... O Paraíso. É aquário tal como Derek Walcott, que coloriu a noite de esperança com In a green night.
E que dizer de Boris Pasternak, nobelizado desde 1958, que colocou o Dr. Jivago na nossa vida? O que se pode pedir mais?
Sinclair Lewis, outro Aquário, foi um visionário de tal forma que escreveu World So Wide, isto em 1951. Havia de ter sido World Wide Web, mas naquela altura ele usava caneta de tinta permanente, o título ficou um bocado esborratado e acabou assim, o que não lhe tira mérito.
Porém, de quem não sabemos o signo, mas eu apostava num Aquário, pois claro, é de Luís Vaz de Camões. Nem o ano da sua vinda ao mundo é certo, talvez em 1524, talvez. A dúvida sobre se Os Lusíadas foram uma encomenda também não está resolvida, mas eu apostava que sim dadas as condições de vida posteriores, miseráveis.
Quem não é Aquário nem Escorpião
É Dom Sebastião,
O encoberto,
O esperto,
Que fugiu para o deserto,
Portugal boquiaberto,
Para sempre, incerto.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

La fille du régiment

O Teatro de São Carlos é a única casa de espectáculos nacional com vocação para receber óperas.
Uma ópera não é um musical, mas antes a sintonia perfeita entre o teatro e a música, ou pelo menos assim a sinto desde a primeira vez, já vão quase trinta anos, quando vi La Traviata, no Coliseu de Lisboa.
Ontem fui à estreia de La fille du régiment, bilhetes ganhos através de um programa de rádio, expectativa de um lugarzinho ao pé dos dourados do tecto e, afinal, plateia central.
Convidei uma amiga que se foi estrear nestas andanças e que saiu a adorar. Fã de teatro, cinema, de música sinfónica e de escultura, andava à espreita de uma oportunidade que apareceu do céu.
Entrando num templo como é o São Carlos, e como me acontece nos castelos e palácios, nem preciso de fechar completamente os olhos para viajar no tempo, basta-me semicerrá-los e logo vejo o José Maria de monóculo com o amigo Ramalho. Ao contrário da noite de ontem, quente demais para a época em que estamos, faz frio, há mulheres que sorriem no meio de arminhos e Eça conta a Ramalho pormenores da sua viagem ao Oriente. Logo a seguir Gaetano Donizetti entra-nos pelos ouvidos.
Parece contraditório mas acabo por nunca me entregar completamente ao espectáculo pois tenho que me segurar para não me levantar a agitar os braços, tal a força que a conjugação da música com o cante têm em mim.
A sala estava cheia e Marie - Cristiana Oliveira - esteve melhor que Toino - Alessandro Luciano - e ambos muitíssimo bem acompanhados pelo Coro do São Carlos e pela Orquestra Sinfónica Portuguesa.
O estilo cómico da ópera levantou sorrisos e a mim ainda me levantou a sobrancelha quando no placard com a 'tradução' aparecia a promessa de fusilarem alguém...
Oh senhores ouvintes... apreciem o espectáculo e deixem-se de biolências.

De A Ilha do Tesouro para a sociedade de consumo

To the hesitating purchaser

If sailor tales to sailor tunes,
Storm and adventure, heat and cold,
If schooners, islands, and maroons,
And buccaneers, and buried gold,
And all the old romance, retold
Exactly in the ancient way,
Can please, as me they pleased of old,
The wiser youngsters of today:
—So be it, and fall on! If not,
If studious youth no longer crave,
His ancient appetites forgot,
Kingston, or Ballantyne the brave, 
Or Cooper of the wood and wave:
So be it, also! And may I
And all my pirates share the grave
Where these and their creations lie!
(Robert Louis Stevenson)

Uma aventura ao sábado de manhã

Saio de casa para ir ao supermercado e faço uma paragem técnica na pastelaria da esquina para beber um café. Fico uns minutos à conversa com a minha vizinha da lado, uma velhota querida, viúva mas apaixonada. Quando vou a entrar no carro lembro-me que me esqueci - esta frase é genial... - dos sacos em casa. Não gosto dos sacos dos supermercados, rasgam-se facilmente obrigando-nos a andar de rabo para o ar a apanhar o rasto de compras que fomos espalhando.
Subo ao meu quarto andar, entro em casa, viro à esquerda para alcançar a despensa onde estão os sacos mas estaco à porta da cozinha: na janela da dita baila uma perna humana.
Demoro uns segundos a processar a informação visual e, qual Miss Marple, avanço para deslindar o caso.
Abro a janela toda, que tinha deixado entreaberta, como quase sempre, e vejo um homem preso por uma corda e respectivo arnês com um minúsculo pincel a pintar o interior das protecções dos estendais.
Mas então... ninguém nos avisa que vêm fazer este serviço? Entabulo conversa e dou por mim a falar com um homem descalço - é-lhe mais fácil para se apoiar, segundo ele - a baloiçar ao nível de um quinto andar, ele em cima e eu em baixo, salve seja.
Para além de não termos sido avisados - há vários estendais com roupa, incluindo o meu - ele afirma que isso não é com ele, tanto mais que ele nem é funcionário da empresa (o quê?!), apenas foi substituir um amigo que lhe pediu (o quê?!).
Então, mas e o seguro? Qual seguro? Então, mas e a roupa nos estendais? As janelas estão abertas e eu atiro-a para dentro das cozinhas. Então, mas e... espera aí! Isto é conversa para o administrador do condomínio, não para o praticante de bungee jumping.
O senhor administrador não estava em casa e, depois de fechar a janela e os estores, que isto somos todos muito sérios até nos começarmos a rir, desci a avisei a vizinha que ainda estava de volta da meia de leite de máquina com uma torrada.
A senhora quis imediatamente ir a casa, certa que a janela da cozinha tinha ficado escancarada; pediu-me que fosse com ela e constatámos que a janela estava de facto aberta, o praticante de trabalhos radicais voltou a cumprimentar-me e disse à simpática velhinha que tinha entrada na cozinha e tirado um pano da louça, é que, sabe, explicava-se ele com naturalidade e legitimidade, o alumínio aqui da sua janela está muito desgastado e dá-me cabo dos pés. 
Eu esperava a todo o momento que aparecesse alguém a gritar Smile, you are on Candid Camera!, mas nada aconteceu, para além da minha vizinha ter resolvido imitar um peixe fora de água, a abrir e fechar a boca, virando a cabeça ora para mim, ora para a janela onde o homem se balançava.
Renovados e polidos pedidos de desculpa acompanharam o fecho da janela e do estore, a pobre mulher quase em apoplexia, eu furiosa com o administrador que, mais tarde, pediu desculpa ao prédio inteiro pelo esquecimento de avisar da intervenção nos estendais. Enfim, é um prédio português...

Uma história de amor

A magia das notícias sobre o estado do tráfego rodoviário tem sido menosprezada de uma forma inqualificável, e injusta, diga-se de passagem.
Descrevendo e realçando os pontos chave que impedem a livre circulação dos veículos, os radialistas produzem obras de arte espontâneas, lamentavelmente efémeras e para as quais se pede reconhecimento.
Os condicionamentos do trânsito consubstanciam a acção de um romance sobre rodas, que ora avança, ora recua, com inesperados e surpresas que até aos Nobel da Literatura escapam.
Somos informados sobre supressão de vias e voltamos atrás no tempo, suspirando como em Simplesmente Maria, a eterna rádio-novela portuguesa.
Os personagens são reconhecidos, o IC-19, sempre rebelde, a Ponte 25 de Abril que, não se percebe como, mas está sempre grávida de carros, a Calçada de Carriche, a quem muitos chamam a Calçada da Carris, os Cabos D'Ávila, onde já desde o Simplesmente Maria não há cabos nenhuns, a vaidosa A-5 que vem todos os dias de Cascais, mais rápida mas sem o fascínio da velhinha Marginal, outra protagonista desta novela.
Já no Porto temos a Via Panorâmica, linda e eternamente demorada em direcção ao Campo Alegre, a AEP, a VCI, quais agentes secretos, em busca da Sidónio Pais ou da altiva Faria Guimarães.
Na trama contam-se inúmeras supressões de vias - são personagens que são afastadas por um ou outro motivo mas que voltam em episódios posteriores - e executam-se trabalhos, sinónimo tantas vezes usado para designar a morte de alguém. Morte, crime, obstáculos, vidas em jogos, sinalizações várias são momentos a que já nos habituámos, mas que em nada se comparam ao ponto alto que são os acidentes: O trânsito está congestionado porque um ligeiro se envolveu com um pesado.
Isto é lindo... até o trânsito pára devido a um envolvimento, lembra os Montecchios e os Capuletos, amores proibidos entre brancos e pretos de famílias racistas, filhos mais novos de inimigos da Mafia envolvidos em escaldantes amores, aventuras de uma manhã, paixões intensas sob a chuva que cai miudinha em Lisboa, numa palavra, romance.
Espero ter contribuído para aguçar a curiosidade auditiva para subtilezas como os problemas técnicos que interditam a passagem de peões e viaturas na Ponte Móvel de Leixões, o que obriga a procurar outros caminhos e que surpresas quentes trarão esses outros caminhos só saberemos por experiência própria..., ou que se passe a ouvir com outros ouvidos a notícia sobre o acidente ao quilómetro dezoito entre Campo e Valongo, que provoca trânsito bastante demorado, qual namoro antigo, que se arrastava por décadas por entre paixão e desejo.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Mas quem é que manda aqui?

O meu corpo é um rebelde, um ser de convicções, um revolucionário.
Avisado - não sei por quem - que já não havia feriado dia um de Novembro, decidiu rebelar-se e dois dias antes acometeu-se de febres, de dores, de mal-estares, de tal forma que tive que ficar com ele em casa no último dia de Outubro. Enfrasquei-o em medicamentos contra as gripes e as constipações, obriguei-o a beber litros e litros de água e dia um, contra a vontade dele, levei-o até ao trabalho.
Por lá se arrastou, eu bem via que a vontade dele e nada eram a mesma coisa, mas não teve outro remédio.
Só para me aborrecer, no sábado impediu-me de fazer a caminhada e de ir ao mercado, logo agora que descobri uma cigana que vende roupa em segunda mão em excelente estado. Deste distinto estabelecimento veio o meu novo casaco Burberry, por uns meros cinco euros, tendo eu deixado apalavrada outra peça de roupa para este fim de semana, já com o ordenado na algibeira.
Mas não, lá ficámos em casa o dia todo, deitados a olhar a televisão, não a vê-la, ou a dormir. Ao fim do dia consegui arrancá-lo daquele marasmo, acenando-lhe com um vibrante passeio ao supermercado. O teimoso não queria ir, ainda fez uma birra enquanto o vestia e, mais uma vez, foi obrigado.
Tivemos uma longa conversa onde lhe expliquei que não era nenhuma máquina e que não se armasse em futurista a querer controlar-me. Espero ter deixado bem claro quem é que manda aqui, eu!

Eu juro, juro mesmo

Sendo a gasolineira do Jumbo a mais barata em toda a área metropolitana da minha casa, fiz-me à fila. Tempos houve em que não me apanhavam ali, à seca, mas, como dizia Camões, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.
Como calculava, havia fila, não era grande, mas cada bomba tinha cerca de cinco a seis carros à espera. Rapidamente me apercebi que tinha ficado na bicha dos maricas: ele era levantar de mangas de camisas, ele era casacos pelas costas, ele era óculos no alto da cabeça, ele era cem folhas de papel para evitar o contacto com a mangueira, como se fossem um preservativo, ele era luvas, ele era tudo, mas tudo para atrasar ainda mais a espera. Paciência.
Era de noite, embora fossem umas seis da tarde, quando chegou a minha vez. Senti-me como se me tivesse enganado e tivesse entrado na casa de banho dos homens: calções, casaco de capuz e ténis, meti combustível em três tempos, sem luvas nem pergaminhos, a desafiar com o olhar os condutores dos carros de trás, garantidamente maricas, eles e elas, já se tinha percebido, eu é que me tinha enganado na fila.
A pressa era tanta que só não entrei no carro em andamento porque tenho que lá estar dentro para o pôr a trabalhar. Olhei de esguelha para trás, bomba três, enquanto avançava lentamente para pagar, metendo ao mesmo tempo a mão no saco para tirar a carteira,... a carteira..., a mão não queria encontrava a carteira? Nada disso, a carteira ficara em casa. Com mil milhões de macacos, disse eu de mim para mim.
Chegada a minha vez expliquei que não tinha dinheiro, que me esquecera, que nunca tal me acontecera, que era a primeira vez, que apenas tinha os documentos do carro e o telemóvel, não, não tenho ninguém que me possa trazer o dinheiro, tenho que ser eu a ir buscá-lo. Mostrei os documentos enquanto o carro de trás fez sinal de luzes. De dentro da guarita apareceu um papel onde escreveram tudo e mais um par de botas sobre mim e de trás ouviu-se a buzina e um Então? aborrecido. Assinei o papel e prometi com toda a convicção voltar passados vinte minutos. A cancela levantou-se e eu avancei mas ainda ouvi uma reclamação sobre o tempo que demorei... glup...
Fui a casa, lá estava a carteira na mala que usara no dia anterior, voltei, parei o carro fora das filas, meti-me à frente de um veículo com um sinal de desculpe lá, é um minutinho, paguei, rasgaram o papel com a minha ficha mais completa que qualquer relatório policial, meti-me no carro outra vez e fui embora a jurar nunca mais gozar com os molengões. 

Último grito

Ontem vi um filme onde um cão ameaçava morder os pés de uma mulher que passava na rua. A dona do animal agarrou-o ao colo e acariciou-o, falando-lhe baixinho. Para o acalmar? Não. Para lhe segredar que o compreendia bem pois os sapatos da mulher eram da colecção do ano anterior.
Hoje não corro o risco de ter um cão a querer morder-me os calcanhares porque não trago sapatos da colecção do ano passado - era o que faltava! - trago uns acabados, mas acabadinhos mesmo, de sair da caixa de sapatos de Inverno, comprados numa feira de descontos, a Feira dos Stocks de Coruche, quando a minha irmã estava grávida da minha sobrinha e a minha sobrinha fez nove anos no último quatorze juillet, allons enfants de la patrie, já a mãe dela faz a quatorze mas de Agosto, numa clara e evidente lembrança da batalha de Aljubarrota, o filho mais novo viu a luz do dia a vinte e três de Novembro, o mesmo dia em que nasceu Billy the Kid, e o mais velho, adiantado, como sempre, nasceu a quatro de Outubro.
Os sapatos são tipo sapatos de mãe, com um saltinho elegante, nada de exageros, não porque não gostasse, mas porque não consigo, a pena é grande e é minha.