terça-feira, 31 de julho de 2012

Vedetas de TV

Há muitos, muitos anos, na altura em que os animais falavam, foi a minha mãe pela primeira vez à televisão. Se não era o Fungagá da Bicharada, era o Passeio dos Alegres, ou algo que o valha. A vida ligada aos colégios infantis e às crianças proporcionava a ida a circos, ao Jardim Zoológico e a programas de TV que tivessem uma qualquer aura infantil.
E a D. Prata começou e não mais parou. Depois começou a ir também o Sr. Bento e nos últimos tempos quase  preciso de uma agenda para gerir estas deslocações e lembrar-me de ver os programas, deixá-los a gravar e tudo isso.
Numa ocasião, no tempo das caravelas, fui com ela e cheguei a participar numa das brincadeiras que propõem ao público, onde ganhei (ou eu ou a minha irmã, não me recordo bem) uma raquete de ténis e uma caixa de bolas, que jogávamos contra a parede porque só tínhamos aquela.
Não é por a loura ser minha mãe, e os que me conhecem bem sabem que não faço favorzinhos, mas onde ela está, mais ninguém brilha: vaidosa até à quinta casa, veste-se a preceito, nem que seja para a praia, e a sandalete bate com o lenço da cabeça, a gancheta do cabelo faz pandan com o cinto, a maleta é igual ao chapéu e tudo bate certo naquele puzzle bem estudado.
O Sr. Bento também não lhe fica atrás e anda num virote, ora de calção e sapato vela, ora de calça desportiva e camisete de manga curta, cabelo cortado e penteado.
Há dias foram ao Querida Júlia, convidados para uma rubrica sobre casais que estão juntos há muito tempo, com longos namoros e cartas de amor de permeio. Levaram fotografias, histórias para contar e até dançaram, revivendo a altura em que ganhavam concursos de dança, antes do meu pai ter os AVC's,  ter ficado com a voz afectada, o que lhe dá um sotaque finlândes, e ter graves problemas arteriais.
Com votos de longa vida aos outros participantes, mas olhando para os três casais percebe-se que a mais jovem é a D. Prata, que também ganha o Óscar de mais giraça, o Emmy da mais bem vestida, o Grammy da mais simpática; o Sr. Bento, apesar do cabelo prateado, ganha a Palma de Ouro, o Leão de Ouro e meia dúzia de BAFTA's, em categorias à escolha.
Ora, com uns pais assim, não hei-de ser orgulhosa?

Bibliotecários pontuais


Durante as férias de Natal a Biblioteca sofreu grandes mudanças: transferência de parte do espólio para outras instalações, rearrumação dos livros, limpezas que só se fazem esporadicamente.
Na altura do Verão aproveitamos para mudar cotas descoloradas pelo uso ou pelo sol, consertar capas, separar os livros que terão que ir para o encadernador, rearrumar tudo pela ordem correcta, entre mil outras tarefas, invisíveis aos olhos dos utilizadores, mas essenciais à saudável vida da Biblioteca.
Se as mudanças profundas no Natal tiveram a marca dos meus sobrinhos, as limpezas e tarefas de Verão continuam a ter: ontem, ele sozinho, mudou cerca de 100 cotas.
Vai buscar os livros a um dos quatro pisos, trá-los para o balcão da recepção, arranca-lhes a cota antiga, faz e cola a cota nova, junta uma dúzia deles e volta a colocá-los no sítio certo. Quer fazer mais que a irmã, quer fazer mais que as funcionárias da Biblioteca, quer fazer mais que todos juntos.
Fartamo-nos de rir com o profissionalismo dele e não deixo de pensar que se as pessoas trabalhassem por amor – ele faz tudo na Biblioteca com um prazer nunca visto – não só fariam mais, como mais depressa e, milagre, melhor!
Com o percurso do gaiato até agora ele pode ser o que queira na vida: ganhou o campeonato regional de matemática, porque não lhe foi permitido ir mais longe; irá daqui a dois ou três anos. Escreve primorosamente sem erros. Fala e discursa sobre qualquer assunto, filosofia incluída, reflectindo sobre questões conceptuais mostrando elevados níveis de abstracção, impossíveis de atingir à maioria dos adultos que conheço.
Não tenho dúvidas que a Biblioteca é uma privilegiada por o ter aqui, à disposição, e poder contar com ele.
Com ele e com ela, adoradora de trabalhos de casa, de matemática, de português, de estudo do meio, de inglês e de tudo o que vier, mas com uma vertente social muito forte, que deixa amizade, saudades e lembranças em todos os que a conhecem.
Hoje levantámo-nos cedo e muito bem-dispostos. É o último dia de trabalho antes de um mês de férias que passaremos juntos.
UAU!!

A primeira sessão de couch

A primeira sessão de couch na clínica de emagrecimento correu muito bem. A minha auto-estima bem como o apoio da maioria das pessoas que me rodeia foram apelidados de fantásticos!
Expliquei que contei a toda a gente que interage comigo diariamente, à minha família e amigos, dos quais recebo elogios e apoio constante e fiquei meia aparvalhada ao saber que há pessoas que fazem o programa em segredo total... mulheres que escondem aos maridos, maridos que escondem às mulheres, pessoas que escondem aos amigos.
Como é possível seguir um regime alimentar diferente sem que a família se aperceba? Fiquei a saber que há os mais variados expedientes como por exemplo nunca comer com a família, comer antes, alegando que se tinha fome; ou fazer o regime durante o dia e 'saltar' à noite.
As sessões de couch são precisamente para dar apoio, fazer perceber a importância do regime, uma vez que há muitas pessoas com 50 ou 60 quilos a mais e a responsável deu a entender que, com frequência, é um trabalho difícil e, por vezes, ingrato pois as pessoas querem mas... não querem.
Há quem tenha vergonha de emagrecer pois isso seria dar a mão à palmatória, aceitando que afinal estavam gordos. Conclusão, a cabeça das pessoas é mesmo estranha.
Confesso que não percebo a razão de se esconder uma coisa que interfere com a saúde, desde logo, e que devia ser proclamada aos quatro ventos, como um degrau de um melhoramento que todos querem, a todos os níveis.
Para além das questões de saúde há a sensação, maravilhosa diga-se a propósito, de nos sentirmos melhor: não me canso tanto, deixei os pés inchados algures lá atrás, já vesti saias que não vesti no Verão passado, a cintura está mais fina, o pescoço parece mais estreito.
Embora tenha muita força de vontade mas sei que preciso da ajuda de todos, como por exemplo de colegas e amigas que se juntam a mim naquele dia especial do mês para nos fotografarmos juntas e irmos vendo a evolução.
A sessão de fotos foi há dias e enquanto eu sorria, olhando-me, uma delas já fazia um esgar, alegando estar mais gorda... rimo-nos todas e essa é a parte melhor...

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Entendam-se, por favor...

Recebo uma sms e verifico que tenho 103 mensagens recebidas. Espreito as enviadas - 105 - e decido fazer uma limpeza.
Comecei ao calhas mas lendo rapidamente os conteúdos enveredo por outra estratégia: quantas são do Duarte? 81!
Dessas 81 há 49 que dizem o mesmo em quatro versões ligeiramente diferentes: liga, ligaa, liga.me e liga-me, cujo objectivo é ele não gastar dinheiro.
Há muitos bjs mamy, amo.te mt mae, mas também reclamações com o pai, solidificadas em pedidos para eu lhe falar, por procuração, alegando que o pai não o atende.
Depois há várias do pai a querer saber onde está o Duarte e por que razão ele não o atende... como é que se sai deste meio?

Desejar e querer


As pessoas que trabalham em cafés usam e abusam do verbo Desejar, o que me irrita solenemente.
Eu não desejo um copo de água! Quando muito, quero um copo de água, primeiro porque não estou propriamente no deserto e não estou a morrer à sede, segundo porque o copo de água não é um gajo todo jeitoso e muito menos um Kilimanjaro, esses sim, objecto de desejo.
Eu não desejo que me ponham a metade do pão com queijo dentro de um saquinho! Eu quero e chega!
O desejar e o querer são coisas diferentes, cujo imaginário pode ser consubstanciado em comparação com a roupa que vestimos no dia-a-dia: ando sempre vestida mas com simples saias ou calções e não com vestidos de balão ao estilo de Maria Antonieta ou fatos de couro pretos e justos, depende dos gostos, daquilo que se deseja.
A vulgarização do desejo em contexto de balcão é esquisita e soa estranha.
Deseja-se as férias, quer-se um café cheio ou uma italiana. Deseja-se uma pessoa, quer-se um pão com queijo e manteiga. Deseja-se um olhar, quer-se um sumo de laranja. Quando muito, deseja-se as melhoras de alguém, mas não um galão.
Por favor, parem de me perguntar se desejo seja o que for dentro de um café porque não desejo nadinha... a menos que mudem de empregado, e aí já podemos rever os verbos.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Quem não gostava de ouvir 'isto' de alguém?


Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
À savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
À coups de pourquoi
Le coeur du bonheure
Ne me quitte pas
Moi je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu'après ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour sera roi
Où l'amour sera loi
Où tu seras reine
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je t'inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants là
Qui ont vu deux fois
Leurs coeurs s'embrasser
Je te raconterai
L'histoire de ce roi
Mort de n'avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pas
On a vu souvent
Rejaillir le feu
De l'ancien volcan
Qu'on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu'un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s'épousent-ils pas
Ne me quite pas
Je ne veux plus pleurer
Je ne veux plus parler
Je me cacherai là
À te regarder
Danser et sourire
Et à t'écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
Ne me quitte pas

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Cebola e pimentos


O Duarte chegou de férias! Era quase meia-noite ligou a pedir que lhe fizesse um comer bom, daqueles que eu gosto mesmo mãe!
Sai umas costeletas com muita cebola e pimentos, um arroz de tomate com muita cebola e pimentos e, de entrada, uma salada de polvo com… muita cebola e pimentos.
Mesmo sendo só 3 horas, tenho sempre saudades dele… e ele da cebola e dos pimentos.

Rir para não chorar

Ri à brava, ri mesmo, ri com vontade, é que só podia rir, embora o assunto seja sério.
Nos noticiários passam de hora a hora a informação que foi feito um estudo que conclui que se vende tabaco a menores de 18 anos.
Pagaram para fazer este estudo? Espero que não... qualquer dos 10 milhões de habitantes diria o mesmo, mais até: uns diriam que sim, que o compram, encolhendo os ombros; outros diriam que sim, que o vendem, encolhendo os ombros; todos os outros diriam que sim, que já viram e sabem que é uma realidade. Encolhendo os ombros também...
Pago para ver um empregado, dono, seja o que for, de um café a pedir a identificação a alguém antes de vender álcool ou tabaco: as vendas estão más, os pais e mães fumam e bebem e a criancinha compra para consumo alheio, e se não têm 18 anos, até parecem!
E se se diz alguma coisa, como numa ocasião em que vi venderem o belo do copo do tinto logo de manhã a um homem em avançado estado de bebedeira àquela hora, ainda ouvimos: Meta-se na sua vida!

quarta-feira, 25 de julho de 2012

A vida é um tabuleiro de xadrez


A vida é um tabuleiro de xadrez onde assumimos o papel de diferentes peças.
Somos rei ou peão; dependendo da mão que nos arrasta; da alma que cativámos; do coração que conquistámos e do que fizemos com ele.

Mestrado, excertos do discurso de apresentação


Este trabalho é uma radiografia do casamento entre o meu percurso profissional e académico. Revela as teias e as redes que se foram criando ao longo de décadas, com pessoas, locais, tarefas e objetivos a atingir.
Revela também a aquilo a que Primo Levi chama a beleza das bifurcações, as escolhas que fazemos ao longo da vida, umas por opção nossa, outras ajudados pela envolvência, mas com a certeza que os caminhos são nossos e que temos capacidade de os construir e de os mudar.
Garantir o acesso à informação é a palavra-chave da minha missão e que se desdobra em distintas actividades, presencialmente ou à distância, adquirindo livros ou construindo repositórios.
A origem dos utilizadores, por via de Bolonha, dos programas Erasmus, de protocolos vários, da sua vontade, tem limites que coincidem com os do mundo conhecido, quer os que nos visitam pessoal ou virtualmente.
A missão é satisfazer e apoiar o utilizador, o cliente, o leitor, o user, o usuário, o utilizator, o utilisateur, seja quem for, em primeiro lugar.
Ajudá-lo significa antes de mais entendê-lo: perceber a sua língua, ensinar-lhe a minha também, mas conseguir atingir uma plataforma de entendimento para lhe poder prestar os serviços que pretende e precisa.
Assim, e concluindo, o núcleo da missão é construir, construir sempre, numa não satisfação permanente, porque há sempre alguém a quem atender, porque há novos e permanentes desafios, porque vivemos e trabalhamos para os outros.

terça-feira, 24 de julho de 2012

O importante é a mensagem


Undercover Boss ou Extreme Makeover são realities shows que, principalmente em época de crise, não podiam deixar de ser um sucesso.
Não faço ideia se é tudo para inglês ver ou se há verdade verdadinha por trás daquelas encenações; o que sei é que cada episódio em que o patrão desce à terra, se torna um de nós, exerce as mesmas tarefas, que supostamente temos que lhe ensinar, e recompensa as boas práticas e atitudes é uma mensagem de esperança, é um diálogo com aquilo que gostávamos que nos acontecesse. A recompensa traduz-se em viagens, mudanças estruturais nas empresas, carros e dinheiro para ajudar em remodelações lá em casa e, acima de tudo, fundos para os filhos dos empregados irem para a universidade.
No Extreme Makeover famílias com histórias dramáticas são mudadas de barracas para mansões de sonho. No fim, anuncia-se que a comunidade se juntou para lhes pagar a hipoteca e a vizinhança em coleta pagará a universidade dos filhos e é aqui, novamente, que quero chegar.
Para além do paraíso que é, se é que é verdade, milhares de voluntários deslocarem-se das pontas da América para ajudarem a construir uma casa, o que cria inveja em mim, pois admiro profundamente as pessoas corajosas que dão sem estarem à espera de recompensas e que sentem o pagamento no prazer do dar e do partilhar com os outros, coisa que eu nunca sinto que faço em quantidade suficiente, acho extraordinário o facto de mencionarem sempre as estadias na universidade.
Percorro mentalmente a lista dos meus conhecidos e tento imaginar que alguém lhes oferece, à escolha, qualquer coisa de futuro: quem responderia que queria um fundo para mais tarde os filhos poderem frequentar a universidade? Quem seria capaz de pedir para os filhos e não para si? Quem seria capaz de preterir um carro, por exemplo? Quem dá efectivamente valor a este pormenor…?
Não sei, a verdade é que não sei, mas congratulo-me, ainda que não tenha a certeza da veracidade de tudo aquilo, por a mensagem ser passada. Será que é recebida?

segunda-feira, 23 de julho de 2012

A massagem


Para além do regime alimentar – com óptimos resultados até agora – o meu plano de emagrecimento contempla sessões de exercícios que, até agora, têm sido fantásticos.
São de três espécies diferentes mas ainda só experimentei um deles, que consiste em meter-me num fato que, ligado a uma maquineta, vai sendo cheio de ar, num movimento que em tudo se assemelha a mil mãos a massajarem-me em simultâneo. 
Aquilo vai enchendo e esvaziando, como um bóia, proporcionando sensações tão agradáveis que me levam a fechar os olhos, quase adormecer e ficar sempre um pouco frustada quando acaba.
Na primeira vez, e vendo que ficava com os braços de fora, perguntei se podia ler enquanto estava ali deitada. Meia hora dá para muita página! A senhora disse que sim e mentalmente fiz um post it para não me esquecer do livro na sessão seguinte. Mas qual ler qual quê, se aquilo nos leva para o campo dos sonhos, nos faz esquecer tudo e nos proporciona momentos de leveza intensa?
Terminar um dia de trabalho com uma massagem daquele gabarito é restaurador de forças e renova-nos os pensamentos positivos. Estou ansiosa pela próxima sessão.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Ai Lurdes, Lurdes...


Ao meu lado no Metro senta-se um homem na casa dos 50 anos. Reparei nele e tirei-lhe a idade ao ouvir o telefone tocar, tocar e tocar, perceber que ele tinha o dito na mão, mas não atendia. 
Tentei concentrar-me na leitura mas o telefone voltou a tocar. Ele deu-lhe uma mirada rápida, mas suficiente para eu ver pelo canto do olho a palavra Lurdes, sinónimo que a Lurdes queria falar com ele. Mas, vá lá saber-se porquê, ele não queria falar com a Lurdes! E por isso desligou sem atender.
Baralhei-me na leitura, recomeçando umas linhas adiante de onde estava e voltei atrás, procurado de novo a concentração, mas… o telefone voltou a tocar e desta feita ele atendeu para dizer: Ouve! E nada mais, pois do outro lado solidificaram-se uns gritos que o fizeram afastar o telefone da orelha e desligar de novo.
Ora a Lurdes pode ter muitos defeitos mas desistente é coisa que não é e a prova provada ficou ali bem patente, naquele balancé, onde ela ligava e ele desligava, como se empurrassem um baloiço, à vez.
Fechei o livro e o casal que ia sentado diante de nós e começara a conversar no início da viagem, estava calado.
A Lurdes não se cansava e ao homem não lhe ocorria desligar aquilo. Meteu-o no bolso, o que abafou o barulho, mas não o calou, antes pelo contrário: numa das vezes em que tocou, talvez pela pressão de estar apertado, premiu-se a tecla que dá ok para atender e criou-se uma situação ridícula e cómica (para quem via, pois claro), com a Lurdes aos gritos, perfeitamente audíveis, de dentro do bolso das calças do homem, como se fosse uma liliputiana que ali vivesse.
Encarnado como um tomate, só aí o homem decidiu desligar o telefone. Confesso a minha curiosidade… que lhe quereria a Lurdes…? Devia ser assunto urgente...

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Sacrifícios? Façam-nos vocês! 2


Indignada com a situação relatada no post anterior, desabafo com a minha cunhada e partilhamos preocupações sobre o futuro dos jovens.
- Dos jovens?
A voz dela é irónica e explica-me então que a pressa se devia ao facto de já terem contactado o Centro de Emprego e todos os potenciais candidatos terem negado a proposta!
De entre as alegações finais destaca-se um que lhes respondeu que Agosto não é mês para se começar a trabalhar!
Como se diz na minha terra, puta qu’os pariu!

Sacrifícios? Façam-nos vocês!


A minha cunhada pede-me ajuda para, junto do Gabinete de Inserção Profissional da universidade onde trabalho, selecionar recém-licenciados em Gestão ou Economia para integrar uma equipa que irá proceder a candidaturas várias a projectos europeus.
Enviam-me seis currículos, cinco homens e uma mulher. Decido fazer um contacto telefónico antes e, mediante um resumo do que se pretende e do que se oferece – estágio profissional durante 9 meses, 600 euros líquidos mensais, subsídio de alimentação, eventual contrato adicional de mais 6 meses – percepcionar quem poderá ter mais capacidade de alinhar no projecto.
Dois dos supostos candidatos não atendem. Outros dois estão de férias fora de Lisboa e não podem vir – nem pense nisso, afirmou um deles quando lhe perguntei se estava disponível para uma entrevista amanhã.
O quinto, depois de me apresentar, de esclarecer os intentos do telefonema e dar as condições, ficou calado. Face ao silêncio, perguntei:
- Está interessado? Posso dar os seus contactos à empresa?
- Talvez…
- Talvez…?
- Tenho que cumprir um horário?
- Sim, é uma das condições.
- Então não obrigado, agradeço o contacto, mas horários não é comigo.
A sexta tentativa foi junto da senhora e, já sem esperança, ouvi-a responder que sim, que está interessada, que só precisa de saber o horário para eventualmente mudar uma aula de mestrado que está a terminar, e que espera que o facto de morar longe não seja um handicap, pois é cumpridora e zelosa dos compromissos que assume.
Não sei se é cumpridora ou não, pois não a conheço, mas da meia dúzia de recém-licenciados num país onde o desemprego é dramático foi a única a dizer sim. Não fosse haver dúvidas, ainda lhe perguntei:
- Percebe que terá que trabalhar agora, no Verão, que começa a 1 de Agosto?
- Sim, sim, tudo bem… sobra-me muito tempo para ir à praia e estudar, sem problemas.
Quanto aos outros, são artistas portugueses, bem conhecidos do público e que merecem grandes salvas de palmas, principalmente quando engrossarem manifestações na avenida da Liberdade a dizer que não há trabalho. Isto se a manifestação for no Inverno, vá lá, no Outono, caso contrário, manifestam-se mas é nas ondas do Algarve.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

'O dinheiro não tem a mínima importância, desde que se tenha muito'


As dores nas costas levaram-me a optar por andar sempre de mochila, preterindo as malas, ditas de senhora. 
Visualmente fico com um ar fora do comum, meio estrangeirado como já me disseram pois, mesmo de vestido ou com uns saltinhos de sapato, ligeiros, que nunca fui dada a agulhas, carrego a mochila às costas. A imagem é deselegante, mas preocupo-me tanto que continuo a andar com a mochila.
A dita tem uma bolsa onde ponho os cigarros, o passe, a carteira do dinheiro, as chaves do carro e de casa.
Ontem fui jantar com uma amiga que não via há alguns meses e quando chegámos ao restaurante verifiquei que a bolsa da mochila estava aberta e a carteira tinha desaparecido. Despejei tudo ali mesmo num desespero de cerca de 60 euros, mas nada. 
É claro que foi ela a pagar o jantar – um bitoque para ela e uma salada mista com um queijo fresco para mim! – e embora tivesse gostado de estar com ela e a conversa se tenha prolongado até perto da meia noite, nunca deixei de pensar no meu espólio perdido que devia sustentar-me até ao fim do mês.
Ela ia falando e contando as desventuras dos últimos meses, dignas de um filme dramático, e eu ia-me perguntando interiormente, comparado com isto, o que são 60 euros? 
Com este convencimento, pouco seguro diga-se de passagem e honestamente, lá fui para casa, onde marquei o despertador para bem cedo, pois tenho uma reunião importante dentro de minutos. 
Hoje de manhã cheguei concentrada e a relembrar leituras que me podem apoiar no encontro, que se quer de qualidade.
Entrei no escritório e desconcentrei-me maravilhosa e imediatamente ao ver a carteira em cima da mesa, no meio de uns papéis: com o rádio ligado dancei em volta da secretária uma dança que valeu sessenta e um euros e vinte cêntimos! Ufa…

terça-feira, 17 de julho de 2012

P de Pessoa e de Professor


Já não tenho a responsabilidade de fazer verificação de plágios em teses e dissertações, contudo, continuam a pedir-me para passar o meu olho clínico por inúmeros trabalhos. Perguntam-me como sei que aquela frase, aquela especificamente, é copiada.
A bem da verdade, não sei. É uma espécie de instinto de polícia que me faz seguir as pistas certas. Quase sempre, mas nem sempre.
Uma das coisas que me surpreende é o facto de os orientadores não se aperceberem de nada e deixarem passar as coisas mais caricatas. Não é suposto conhecerem os alunos e terem falado com eles? Se um cavalheiro não consegue articular três palavras seguidas é estranho que construa textos dignos do Nobel.
Na semana passada um professor pediu-me que fizesse a dita verificação de originalidade, mas só para saber de onde tinha sido feito o plágio, que tinha detectado logo à primeira leitura, argumentando que se o aluno não percebia nada daquela matéria, era suspeito ter um trabalho tão brilhante.
Pergunto: a atitude deste professor é assim tão única? Conhecer o aluno e saber se as suas capacidades o levaram até ali ou não? Parece óbvio? Mas não é…
A atitude deste professor destaca-se e isola-o, não porque saiba ver o que alunos escrevem, mas pela simples razão de conhecer os alunos. E de facto conhece-os, um a um, porque se dá ao trabalho de conversar com eles, de os ouvir, de os aconselhar, de lhes sugerir leituras, umas mais gerais, para todos, outras bem certeiras, de acordo com interesses específicos.
Por outro lado, conhece os autores que sugere, já os leu e releu, está atento a tudo quanto se produz no mundo dentro da sua área de estudo, lê em várias línguas e escreve também, produz conhecimento.
Esta plataforma múltipla, enquanto pessoa, faz dele um Professor, com maiúscula, não à moda antiga, como se costuma dizer, mas intemporal, como os Professores deviam ser.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Tu consegues!


A antevéspera de Natal passada do outro lado do mundo, num país que não comemora o Natal, aquele Natal de família, de jantares feitos a várias mãos, de risos e brincadeiras, foi marcada por temperaturas de muitos graus abaixo de zero, não obstante estar sol, assim como por uma lição dada pelo meu filho.
Ziguezaguear pela Grande Muralha da China não foi fácil: estava frio, a roupa era muita, o oxigénio parecia não ser suficiente e dar dois passos em subidas acentuadas era um tormento. O Duarte insistiu e insistiu, deu-me a mão, puxou-me, empurrou-me, falou comigo sem parar dizendo que eu me arrependeria de ter ali estado e não ter feito o esforço de ir o mais longe que nos permitissem, e por entre tu consegues, tu consegues, tu consegues, eu consegui.
Mais tarde a cena repetiu-se em Petra, em cuja subida eu parei de três em três metros, com ele à minha volta a dar-me dois golinhos de água, só dois, mãe, e a chamar-me à atenção para todos os que nos ultrapassavam, dizendo com segurança e voz firme: É já ali naquela curva, tu consegues!
Anos antes, senti-me morrer na subida ao cume Rysy nas Montanhas Tatra na fronteira da Polónia com a Eslováquia, a mais de 2500 metros de altura e cujo percurso está parcialmente marcado a negro para esquiadores e caminheiros. Sobrevivi graças à ajuda do Duarte, incansável, imparável e motivador.
Não cheguei ao fim do caminho na subida ao Teide: estava com o pai do Duarte, mas não com ele…
Este fim-de-semana fiz coisas que há três dias jurava não ser capaz. A insistência positiva do meu sobrinho levou-me a rodopiar nas mais loucas montanhas russas da Isla Mágica, a ficar com o estômago colado às costas; um denso nevoeiro de borboletas esvoaçava na minha barriga, o ar desaparecia momentaneamente, a incapacidade de respirar parecia mesmo verdadeira. No final, ele olhava-me com ar de pai da criança que tinha acabado de ensinar a nadar e dizia-me: Estás a ver? Conseguiste!
E a verdade é que não só consegui como adorei!
As outras pessoas fazem-nos diferentes daquilo que pensamos de nós: mostram-nos limites que desconhecemos e fazem-nos ultrapassá-los.
Insisto com o Duarte, com os meus sobrinhos e com outras crianças sobre conquistar desafios e ultrapassar limites. O maior prazer destas conversas consubstancia-se mais tarde, mais do que vê-los a serem capazes, é a senti-los fazer o mesmo: dar a mesma lição que eu lhes tento passar, com o uso de argumentos que nos fazem abrir os olhos e dizer eh pá!
- Oh Quica, tu não queres fazer asa delta? Então…? O que é isto comparado com um tubarão? E tu já nadaste com um! Quica, tu conduziste um camião TIR e não consegues sentar-te nestas cadeiras? Relaxa Quica, vais adorar! Quica, tu és marinheira! Pensa que estás a conduzir o barco com um grande vendaval! Mas abre os olhos… não te esqueças de abrir os olhos… só tens de ter cuidado com os óculos, percebes?
Percebo, então não percebo? Percebo que o gaiato tem 9 anos e faz aquilo com toda a naturalidade… e eu também! Percebo que de conquista em conquista construimo-nos cá dentro de forma entrelaçada com quem amamos, porque é uma construção participada.
Obrigada miúdos! 

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Follow the leader


A minha sobrinha faz amanhã 8 anos e os pais vão levá-la à Isla Mágica a Sevilha, no fim-de-semana.
Ora, acontece que a tia, mestra desde ontem, também foi convidada, com o pretexto de fazer companhia, que os sobrinhos gostam muito dela, que há um lugar no carro, etc. Mas a verdade escondida é que se uma criança da família faz anos, há outra que merece um presente: eu!
Os miúdos vão adorar aquela macacada toda, tenho a certeza, ou não fosse eu o líder deles.
Já arregimentei a lista de comezainas que tenho que levar para não dar cabo da dieta – mais que ontem, ai nem me quero lembrar… - e só não vou andar com um ar invejoso o tempo todo porque serei a companhia preferida deles em carrosséis e quejandos. Posso comer as saladas, mas serão regadas a grandes doses de molho de adrenalina!

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Prova superada


Há alguns anos dava um programa na televisão que se assemelhava aos Jogos Sem Fronteiras e no final de cada desafio o apresentador gritava Prova Superada!
Pois é o que posso dizer hoje de mim própria, depois da apresentação das provas de Mestrado: Prova Superada!
Agora avanço em velocidade de cruzeiro para o doutoramento, o segundo, que o primeiro vai ficar a meio, pelo menos por agora.
Não houve mudança de interesses, apenas considero que neste momento posso ser mais útil numa área diferente. Fiquei vaidosa, é verdade, com a manifestação da importância atribuída ao trabalho que quero desenvolver futuramente.
Diz-se que somos um povo de invejosos em associação à última palavra do poema épico Os Lusíadas. Tive o cuidado de terminar o meu trabalho com a palavra útil. Dela quero extrair o que tenho para dar e partilhar. 

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Maldades


A propósito da minha nova forma de encarar a vida – leia-se projecto de emagrecimento - bem como a propósito de menções a grão, presunto e eteceteras, menciono aqui uma dura prova a que fui sujeita ontem: uma amiga estrangeira está cá de visita e convidou-me para almoçar. 
O menu foi terrivelmente desiquilibrado: ela comeu feijão branco com dobrada e outras carnes, que vinha deitado num molho com uma sensualidade tal que mexia com os nossos instintos mais primários. 
Umas rodelinhas de enchidos que lhe faziam companhia tinham todo o ar de marinheiros, daqueles das grandes aventuras no mar que só vivem nos livros, queimados e com mil sabores para partilhar. 
Percebia-se que o vinho dava ali um toque de especiaria rara, tornando a refeição um momento divino, a consumir até de olhos fechados, para que nada interferisse naquele prazer.
Eu comi uma salada mista. Com água!

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A dieta


O peso do excesso de peso ganhou um peso muito pesado, razão pela qual entrei num programa – não de televisão! – para perder peso, inaugurando-se hoje uma nova secção, a da dieta.
Incentivada pelos resultados de colegas – uma que declarou abertamente o que estava a fazer e outra que nem por isso – fui a uma consulta. Gostei da abordagem, tive que me resignar ao preço – aqui pensei demoradamente no antes e no agora da minha colega – e estou super empenhada numa mudança de vida que não é fácil.
Eu, a super desregulamentada com as horas das refeições, comecei com post-it’s para me lembrar das horas, mas depois optei pelo telefone a despertar várias vezes ao dia: agora é fruta e duas bolachinhas, depois é pão com queijo magro, a seguir uma salada, depois mais uma fruta, agora não, que ainda não são horas, mais dez minutinhos, e por ai fora. E não é que estou a conseguir?
Ainda não me habituei ao papel onde tenho que escrever tudo o que como e a que horas, mas esforço-me para o preencher em condições. A dieta já leva duas semanas e hoje vesti uma saia que há um mês atrás só me servia nas orelhas.
Investi numa balança de cozinha que pesa até à grama e envergonha aquela que lá morava, uma excepcional prenda de Natal cor-de-laranja, uma barbie das balanças, linda mas sem utilidade, e agora peso tudo: a fruta, a carne, o peixe, o pão, até a salada (agora que falo nisto lembro-me que tenho que comprar pilhas, pois cada vez que quero usar a balança roubo as pilhas do comando da televisão…)
Amanhã farei o primeiro tratamento, aparentemente metida num fato que me darão e do qual não me posso esquecer cada vez que for à clínica. Tenho que por um post-it para isto…
Para além da saia preta, que já me serve outra vez, deixei de ter os pés aparentados com os pedestais das estátuas. Para as duas primeiras semanas, não está nada mal!

Ti No Ni Pum

Oito da manhã. A ambulância passa pelos, chamados, intervalos da chuva entre os carros, com a  sirene ligada. Todos se desviam talvez lembrando-se, como eu, das vezes em que outros se desviaram para a ambulância onde eu seguia poder passar, talvez tentando adivinhar quem vai lá dentro, uma grávida prestes a dar à luz, alguém que sofreu um acidente. Esta ia vazia em socorro de um eventual acidente cardíaco. 
Fiquei a saber porque à minha frente ia uma senhora que se desviou da ambulância colocando-se precisamente no seu caminho o que provocou um acidente. 
De janelas abertas ouvi o condutor falar pela rádio ou telefone, não percebi, e pedir, entre outras coisas, que enviassem um carro de substituição pois aquele ficaria ali.
Apesar de metade da estrada ter ficado condicionada, conseguia passar-se, mas como a coisa se deu em cima de uns semáforos houve tempo para ouvir a queixa da senhora, que tinha vislumbrado a faixa vazia e por ela tinha decidido acelerar, apesar de existir ali um traço contínuo, alegando com ar ofendido que a ambulância devia ter... apitado...
Toma lá que já almoçaste!

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Ai, o homem, o homem


O acidente nuclear de Fukushima foi provocado pelo homem. Em 2009 o avião da Air-France caiu por causa do homem. O aquecimento global é culpa do homem. E a extinção dos animais? Homem!
Podíamos continuar e a famosa única folha de Jack Kerouac não seria suficiente.
Parafraseando a célebre frase inscrita no Alqueva, Prendam o raio do homem, porra!

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Aprende que eu não duro sempre

Ouvi dizer que há enfermeiros a ganhar três euros e qualquer coisa à hora. Lembro-me logo do meu primo JC que é enfermeiro e sugiro-lhe, a ele e a quaisquer outros, que não reclamem!
Se ganham pouco, trabalhem mais horas; se trabalharem mais horas nem dão pelo tempo passar, não têm hipóteses de gastar dinheiro mal gasto, por exemplo a passear com os filhos, podem poupar alguma coisa que será bem usada nos folhos, cetins e sedas de um belíssimo caixão.
Pensa comigo JC: a vida é temporária, é curta, mas a eternidade..., bolas!, é eterna, e de que te vale comeres bem e vestires-te em condições os três dias que por aqui andas? 
Aproveita e tira os miúdos da escola - até porque depois podem licenciar-se num qualquer fim-de-semana se forem para a universidade certa - ensina-os a mentir e a aldrabar e quando forem adultos podem escolher uma profissão de jeito, na Política, é claro. 
Aqui ficam saudações da tua prima que, quando tinha possibilidades, usufruía da ajuda de uma pessoa para as tarefas domésticas a quem pagava, há anos, sete euros e meio à hora.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Acreditar é bom


Que se use o Acreditar até se gastar
Até ficar puído
Que se use para nos lembrarmos mais tarde
Que acreditámos
E gargalhemos por estar aqui

A cotchia


No sábado levei o meu visitante espanhol a visitar Aljubarrota pois numa conversa casual afirmara nunca ter ouvido falar de tal coisa.
Belas sardinhas almoçadas na Nazaré e uma passagem por Óbidos, fizeram um dia magnífico onde não faltou um mergulho nas águas nazarenas, pouco quentes e muito revoltas.
Embora fale muito bem português, tem sotaque cerrado e, de vez em quando, falta-lhe uma palavra ou outra, mas em geral percebe tudo.
Descíamos nós o ascensor para a praia na Nazaré quando a minha amiga C., que passou o dia connosco, decidiu dar o ar da sua graça em castelhano e lhe perguntou se gostava mais do lugar à janela ou na cotchia? O olhar interrogador do José teve que esperar uns bons minutos até me parar o ataque de riso e explicar que ela queria dizer pasillo, mas tinha espanholado a palavra portuguesa coxia.
A pobre da C. levou com cotchias o resto do dia, prolongado até Domingo, dia em que ele se foi embora, depois de uma espera de quatro horas no aeroporto de Lisboa onde, sem grandes explicações, lá o meteram num avião perto das oito da noite.
A C. tinha elogiado a TAP o fim-de-semana inteiro mas o José diz que TAP nunca mais, nem à janela nem na cotchia… 

terça-feira, 3 de julho de 2012

Em choque


O dente do siso do Duarte tem-nos dado água pela barba: idas ao dentista, medicamentos para as dores em doses cavalares, noites muito mal dormidas, angústias e impotência por não se poder fazer nada.
Tem medo de comer, tem medo de lavar os dentes, tem medo de beber seja o que for que não esteja morno, enfim, uma maçada. Ontem fomos novamente ao dentista para tentar arrancar o dente: não pode, tem uma infecção e só depois dos antibióticos receitados terem feito efeito é que se pode tirar.
Ele ficou em casa e eu regressei ao trabalho.
Não estranhei a ausência da I. e convenci-me que tinha ido tratar de um qualquer assunto, aproveitando a hora do almoço. Na verdade tinha ido mostrar exames médicos de rotina mas o que se seguiu em nada se relaciona com qualquer rotina: da consulta foi mandada de urgência para o hospital, onde a fui apoiar a meio da tarde, tendo entrado com ela no consultório, e a pazada na cabeça atingiu-nos a ambas em simultâneo: tumor maligno.
Embora sentada com ar sério a ouvir o médico, cauteloso, a falar da operação que se segue, senti-me como se estivesse a ser sugada por um qualquer ralo de um lavatório ou banheira. O especialista que a estava a ver mostrou os exames, explicou o que era, as dimensões, os procedimentos, os cortes e costuras, tudo com calma e de forma clara, mas o primeiro corte já fora dado só com o anúncio da notícia. Pediu que até à operação fizesse uma vida normal, sem preocupações, dizendo: Prometa-me que vai fazer o que estou a dizer…
Percebo que é o papel dele, mas como fazer uma vida normal depois de uma notícia assim? Como?
Antes de sairmos do hospital ela ainda fez outros exames para determinar, numa primeira e imediata análise, se havia outros sinais espalhados pelo corpo. Não havia, Glória, Glória, Aleluia!
Abandonámos o hospital e estivemos juntas até à hora do deitar, sem que ela manifestasse completa compreensão do que está a acontecer, pela simples razão, presumo eu, que, inconscientemente, criamos certas defesas que tendem a proteger-nos das formas mais variadas.
O que mais me custou, e me provocou tonturas e náuseas, não foram as palavras do médico, as suas caretas faciais antes do anúncio e perante a inevitabilidade do que via, o que mais me custou foi ver escrito no relatório as palavras Tumor maligno.
Ali, no meio de tantas outras palavras, era como se alguém se tivesse enganado, por mero acaso e com desculpa, ou de propósito e sujeito a grande descompostura, tivesse escrito uma grande e bárbara obscenidade, sinónimo de brincadeira de péssimo gosto. Mas não, era assim mesmo, é assim mesmo.
Dormi tapada com dois cobertores, coisa que não acontece nem no Inverno, com um frio inusitado e estranho, e com o Duarte a vir ver-me de vez em quando e a falar comigo, percebendo que estava acordada. Apesar de ele continuar com dores e de as conversas não terem sido longas, foram trocadas palavras de funda profundidade, ele a esconder as dores e a manifestar com sentimento que todos juntos conseguimos dar uma tareia seja em quem for, até num tumor maligno. Eu acredito que sim e sei que o acreditar é uma força poderosa.