sexta-feira, 28 de maio de 2010

O Benfica no Haiti

Em busca duma informação no site da ONU, mais propriamente do PNUD, na homepage, à entrada, antes de qualquer pesquisa, uma cara portuguesa conhecida. Quem? Luís Filipe Vieira e ao lado a informação que o Benfica visitara o Haiti: Portuguese champion Benfica Football Club visits UNDP projects in Haiti.
Habituada a frequentar este site e a ler relatórios sobre os programas de desenvolvimento humano, a extrair informação sobre os objectivos do milénio, a procurar números que sustentem relatórios que eu própria tenho que fazer, fiquei surpreendida com semelhantes visitantes. Porém, há que dar a mão à palmatória e perceber o peso dum clube de futebol.
Segundo o Guiness o Benfica é o clube do mundo com mais sócios activos, uma forma de dar a volta e de se posicionar quase em igualdade com o maior clube do mundo que não sei qual é, mas para o caso não interessa.
No seguimento dum jogo de estrelas organizado pelo Benfica, onde apuraram 767 mil dólares, a comitiva foi entregar o contributo ao Haiti.
Na página internet do Benfica não há menção a este facto. Não se percebe se por humildade da atitude ou por desconhecimento da propaganda que certamente lhe traria. Mas uma coisa é certa: o Programa de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas não considerou despicienda a visita futebolística, caso contrário não lhes daria lugar de destaque daquela forma. É claro que a quantia apurada também é muito simpática e o que não faltam são embaixadores de boa vontade no mundo do futebol que podem propiciar actos desta natureza, envolvendo aqueles que ganham por mês tanto como as dívidas de alguns países. Há que aproveitar.
Ouvem-se notícias sobre certos jogadores que apoiam activamente o desenvolvimento de projectos nas suas terras natais, como Zidane. Mas são acções de pessoas que se disponibilizam para tal, não é o universo do futebol que se congrega para atingir semelhantes objectivos. Estamos mesmo dependentes da boa vontade...
Apesar de tudo, parabéns à atitude do Benfica que se mobilizou nesta acção.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

4 de Junho de 2007

Meu amigo
Não te desculpes de bateres sempre na mesma tecla: temos que bater sempre na mesma tecla, para ver se alguém OUVE!!!!!
As crianças sim, as crianças, mas porque será que tenho a sensação que, quando ouço falar nelas ( e escusado será dizer que concordo contigo a 100%!) parece-me ouvir palavras vãs da boca duma linda Miss Universo que adora crianças e anseia pela paz no mundo???
Claro que a nossa aposta, a nossa força, a nossa esperança, a nossa vida! tem que ser depositada nas nossas crianças! Qualquer criança é nossa! Entendo essa partilha como partilho contigo o ar que respiro! Não posso ser dona dele e não tenho o direito de o adulterar! As crianças são o oxigénio do nosso futuro, são o transporte que nos levará avante no tempo e no espaço. E somos nós, em casa, no mar da família que temos a obrigação de lhes mostrar os caminhos que há a percorrer para que elas escolham e façam as suas opções. Opções de futuro. (É curioso porque acabo de escrever esta expressão e associo-a a uma muito familiar nos meios bancários: opções de futuro...)
Eu mostro ao Duarte as pessoas que vivem na rua, chamo-lhe a atenção para os drogados, explico-lhe que há crianças que andam na escola pública e não têm o Sr. enfermeiro para lhes tratar das feridas quando se magoam depois de jogarem à bola! Não têm um quarto para elas, nem brinquedos...ou então têm brinquedos, mas não têm uma coisa que ele gosta muito... os pais ao pé dele para se deitarem no chão e jogarem jogos... há coisas que o Duarte não esquece... a noite em que cheguei muito tarde e o pai o deixou ficar acordado e escreveram papéis de boas vindas à mãe que estavam espalhados pelo chão em direcção ao quarto dele, onde cobertores repousavam escondidos por entre os lençóis, para que eu pensasse que eram eles que dormiam... e quando destapei a roupa... novo papelinho... lá fui para o meu quarto, onde novo monte de roupa se escondia e... novo papelinho... no meio da sala erguia-se uma tenda e eles estavam a dormir lá dentro, meios vestidos e absolutamente felizes! Lembro outra ocasião, cuja acção repetimos há dois anos... no primeiro dia de praia, metemos os pés no areal e largamos a correr em direcção á agua e mergulhamos vestidos! Ele fica doido de alegria e fala nisto durante todo o ano, como uma cumplicidade maior entre os pais e ele. Uma delícia que não faz mal a ninguém e apenas deixa alguns pais, que nos observam, a pensar que somos malucos... somos saudavelmente malucos, acho eu...
Ou então, no Alentejo, de galochas calçadas, irmos brincar para o riacho e, mesmo que chova, apanhamos "flores" para enfeitar a casa... e sempre, mas sempre, sempre, sempre, sempre... a conversar!
Em casa, de vez em quando, fingimos que não há luz e andamos com velas...jantamos, arrumamos a cozinha, lemos, contamos histórias, eu sei lá... às escuras as pessoas têm a tendência de se juntarem mais.
E mesmo assim, claro que acho que passamos pouco tempo juntos, permitisse Deus que estivéssemos ainda mais tempo juntos.
Já conversámos sobre a pedofilia, embora evite que ele veja imagens na televisão, pois são sempre propositadamente sensacionalistas.
Mas devo dizer-te que um dia destes, no final do ano passado, ele veio para casa com um murro na cara, mas com um sorriso... então contou-me, e eu confirmei mais tarde... iam jogar à bola e ninguém queria na sua equipa um garoto que usa um aparelho nos ouvidos... chamaram-lhe nomes, etc. e o Duarte defendeu-o... resultado, acabaram à tareia, mas chorei ao ouvir o meu filho dizer que os outros miúdos, com certeza não gostavam que lhes chamassem ranhosos, porque chamavam, então, surdo ao (não me lembro o nome)? A culpa não era dele por ser surdo!. Nesse dia adorei-o ainda mais!
Mas sinto que ainda podia fazer mais coisas e tenho sempre pena quando vou ouvir as palestras à escola, e há pais que se enfadam com o que ouvem e suspiram de alivio quando se termina... e nós achamos que fazemos tão pouco...
Por isso e muitas mais coisas... o investimento é neles que tem que ser feito e há tanta coisa contra nós... tudo compete connosco! A televisão, os amigos, o social...
É difícil competir com amigos que têm tudo... é difícil gerir certas amizades que, tu queres ver continuar a crescer, mas cujos padrões de orientação são diferentes, nos respectivos pais.
O meu marido é pacífico, mas eu desoriento-me com certas coisas. Isto para não falar dos telemóveis dados a crianças com 5 anos!!!!
Os nossos filhos vivem pensando que as "coisas" caem do céu! E quando crescem e se tornam adolescentes, revoltam-se ao descobrir que o pai natal não existe e a rena não vai deixar cair presentes em cima da cabeça deles e quando se tornam adultos agem da forma que lhes parece mais fácil para atingir os seus objectivos, como se fossem os únicos ocupantes do planeta e arredores e TUDO o resto fossem ...coisas, e não pessoas, como eles!
É contra isto que temos que agir e lutar... levá-los, a eles, a escolher e a negar o facilitismo que, mais tarde, se transformará em dificuldades a dobrar! Não vale a pena andar a olhar para o céu se esperamos ver um sujeito a voar com capa pelas costas e um S no peito... outros valores mais altos se levantam... porque será que tanta gente os quer derrubar???
Ajuda-me tu, amigo, a responder a esta pergunta e vai batendo na tecla as vezes que te apeteça... e serão poucas.

Recebe um beijo, ou dois ou três, adiantamento que te faço em nome do fim de semana!
Camila

sexta-feira, 21 de maio de 2010

O meu novo emprego!

Estou a pensar seriamente em despedir-me!
Sempre quis ir trabalhar para o estrangeiro e, talvez, tenha encontrado hoje essa possibilidade, na forma de anúncio a pedir um dentista para o Luxemburgo.
O Luxemburgo é um local óptimo, saudável, muito bem situado a meia dúzia de passos de vários países, o que para mim é indispensável pois sinto-me claustrofóbica em espaços pequenos e aquilo é tão pequeno que, numa ocasião em que lá fui, vimos a fronteira e passados minutos, indecisos se parávamos em terriolas rústicas e com aspecto meio alpino, com o assinalar dum campo de batalha da segunda guerra e dois dedos de conversa, quando fomos a ver e já estávamos na Alemanha. Foi uma operação limpa: entrar e sair! Uma autêntica volta de carrossel que anda tão depressa que nem apreciamos nada.
Lá voltámos para trás e, já na capital, dirigimo-nos a uma fila de ícones da sociedade da informação, que o mesmo é dizer, taxistas. Este profissional sabe tudo e tem opinião sobre as coisas menos plausíveis de se conversar, mas sobre isso debitarei discurso noutro dia. Assim, aproximámo-nos do primeiro da fila e puxámos pelo nosso francês sob a a forma inicial de si vu plé a perguntar qualquer coisa. Eis senão quando o ilustre motorista nos pergunta se somos portugueses e, face ao nosso assentimento, ele grita essa informação para todos os outros taxistas, que nos vieram cumprimentar como se nós fossemos o próprio Eusébio, figura sempre no coração de todos os emigrantes portugueses em França, no Luxemburgo, nas Ilhas Faroe ou noutro qualquer local remoto. Os taxistas eram todos portugueses e competiram entre si para nos aconselhar um restaurante onde se comia um belíssimo bacalhau com todos, bom vinho do Douro, azeite alentejano e até água do Luso! Ora eu que gosto de experimentar tudo o que de diferente existe em cada país não estava nada satisfeita com o rumo da conversa que já ia com explicações para se chegar à rua da dita casa de pasto.
Bem, mas o objectivo deste atalho era explicar que me sentirei em casa no Luxemburgo, mesmo que não queira...
E se a alguém lhe ocorrer avisar-me que não sou dentista, logo, que não posso candidatar-me ao emprego, esqueçam lá isso: o anúncio pede alguém que fale francês e inglês (eu!) e diz que será uma vantagem (sic) ter-se conhecimentos em ortodontia ou nos implantes (sic autrefois e again), logo não é obrigatório!
Assim sendo, au revoir!

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Afastamento

As tentativas subtis de afastamento entre divorciados podem atingir cenários que a mim me parecem cómicos. Tive conhecimento dum desses casos hoje, que me interessou pelo facto de estar igualmente no lote de pais divorciados, no caso, de mães.
As conversas são fomentadas pela mãe e, claro, limitam-se ao filho que têm em comum e, na maioria das vezes, a troca de informação faz-se por e-mail. O pai envia mensagens secas que não se enviam nem aos fornecedores que chateiam a pedir urgência no pagamento em atraso. A mãe equilibra as coisas com mensagens onde pergunta sempre pela saúde do ex-marido, pelo seu estado geral, enfim, com uma notória preocupação e interesse pela pessoa que partilha a paternidade do filho que têm em comum.
O pai, que comunica com interjeições, hoje mandou um e-mail sem nada escrito. Decerto deve ter abençoado as ferramentas do Microsoft Outlook pois, a propósito da marcação duma consulta médica do filho, perguntava, sem uma palavra, se a data assinalada era viável. Como? No assunto mencionava a consulta e o próprio e-mail pede para confirmar, sugerir outra data, mostrar o calendário ou negar a acção.
Acho curioso que as pessoas, por mais atarefadas que sejam, não tenham tempo para falar de algo que é a substância da sua vida. Se até para as coisas mais simples nos fazemos mediar por máquinas, não estamos a perder os laços que nos unem, estamos a destruí-los conscientemente. Quando enviamos uma mensagem por e-mail ou por SMS escrevemos qualquer coisa que, ditam as regras da boa educação, deve começar por Bom dia. O pedido de confirmação da data da consulta feita desta maneira faz-me lembrar o acto de abrir o frigorífico – quem se lembra quantas vezes o abriu ontem? Ninguém, pois é um acto mecânico que em si não serve de nada, apenas medeia o objectivo final de retirar qualquer coisa do frigorífico! Outro exemplo semelhante é a quantidade de vezes que mudámos de mudanças durante o percurso de automóvel da manhã... quantas vezes? Não sabemos. Assim como também não sabemos quem é o nosso filho porque descartamos todas as oportunidades de aproximação com a pessoa que vive com ele! Terá ele passado bem a noite? Terá estudado? Terá recebido algum teste? O que terá comido? O que terá bebido? O que terá feito? A que horas se terá deitado? É claro que a bateria de perguntas se podia prolongar...
Quero deixar aqui uma sugestão a todos os pais como este, do qual tive conhecimento: podem programar o Microsoft Outlook com uma série de perguntas que serão feitas e enviadas só com um toque de dedo, um simples click! Assim, conseguem um afastamento maior e minimizam o tempo de contacto com a outra figura paternal, para além de perderam ainda menos tempo a dedicar-se a questões do seu próprio filho, coisas maçadoras e chatas, eles que tantas vezes têm outros filhos a quem se dedicar!
Felizmente o pai do meu filho sabe que ontem fomos às compras, pois as t-shirts do gaiato ficam-lhe pelo umbigo e estão gastas e puídas uma vez que anda de manga curta 365 dias por ano, que o jantar decorreu entre gargalhadas e música cantada à desgarrada, que a seguir o filho foi estudar para o teste de hoje e, embora me escreva vários e-mails, não se lembraria de me pôr a falar com uma máquina.

A colecção de cromos

Lá em casa faz-se a colecção de cromos do mundial de futebol. Todos os dias compro algumas carteiras e quando chego a casa entrego duas ao meu coleccionador. Ponho outra debaixo do prato do jantar, outra no meio dos lençóis, dentro dos livros da escola, na bancada da casa de banho e em diversos outros sítios, quase sempre diferentes, para que ele as vá descobrindo devagar e a cada nova descoberta... um sorriso luminoso, um olhar de satisfação e um beijo.
O processo de colagem transporta consigo imensa informação: estou em condições de afirmar quem vai à final do Mundial! A Espanha e a Argentina: uma pela defesa, quase impossível de bater, a outra porque tem muitos jogadores do Real.
A bem da verdade já sei alguns nomes de jogadores, sei a que clubes pertencem, nacionalidades e essas coisas, porque quase todas as noites tenho uma Acção de Formação que inclui raspanetes se não sei a matéria! Os sul americanos são os mais difíceis porque penso sempre que são espanhóis, mas já vou acertando.
Não é a primeira vez que fazemos colecções e sempre que se repete o processo repete-se a minha sensação de calma: numa época em que a rapidez se impõem a tudo, fazer uma colecção é quase um acto contra natura pois leva tempo e é precisa paciência, paciência de esperar novos cromos, paciência para gerir os repetidos, trocar com outras pessoas, tudo isso. Guardo lembranças fabulosas de colecções que fiz em miúda (acho que os meus pais guardam as próprias colecções) e sempre acarinhei os ímpetos coleccionistas do meu filho. Espero que consigamos terminar a colecção e que nos enganemos no vencedor do Mundial...

2 de Junho de 2007

Meu caro rapagão

Ontem à noite liguei-te e atendeu uma senhora simpática que me disse que o número para o qual eu liguei não estava disponível e até repetiu a informação em inglês. Não o fez em francês porque, certamente, foi avisada por ti sobre este meu handicap e não consentiu que eu deixasse uma mensagem… aí não lhe reconheci muita simpatia mas, com certeza, ela estaria a pensar que eu desconheço o que são fusos horários, quem sabe se a acordei e, com franqueza te digo, nem me lembrei que aí onde estás seria noite avançada, quando aqui mal tinha começado…

A tonta da tua amiga
Camila

Um acidente em Perafita

Aquela coisa aborrecida que nos obriga a levantar todos os dias bem cedo e que se chama trabalho tem-me assoberbado na última semana. É isso e as dores de dentes.
Hoje quando me dirigia para apanhar o transporte que me conduz ao meu emprego ouvi uma notícia no rádio que me despertou a atenção: um acidente em Perafita!
Ora acidentes há-os todos os dias em Lisboa e esses, aparentemente, seriam os que me causariam alguma preocupação por via de me poderem complicar a vida; também me poderia preocupar com acidentes na margem sul do Tejo onde vivem várias colegas minhas, na linha de Cascais e Estoril para onde os meus pais foram à praia ou em Freixo de Espada de Cinta pela curiosidade que o nome sempre desperta. Mas não, o acidente foi em Perafita – onde se cortou o trânsito numa determinada artéria! – e foi este que me chamou à atenção.
Acontece que na minha família as mulheres são todas generosas, ou seja, mais para o gordo; elas dirão que são cheias, fortes, entroncadas, maciças! Mas a verdade é que são gordas, com as poucas excepções à regra, da qual eu não faço parte, como bem se sabe.
E o que tem o acidente em Perafita com a generosidade das formas das mulheres da minha família? Tudo, pois a minha Tia R. vive em Perafita! Embora não conduza veio-me logo à ideia ter sido ela a provocar o acidente, com a sua cintura (que tão bem conheço pois descendo dela) de mesa redonda, ligeiramente levantada atrás, como se fossemos peruas. E se ela ia a passar na rua, andando calmamente na passadeira e beio um destrambelhado ao bolante dum beículo que a fez boar bigorosamente numa biagem que mais parecia ser num abião? Sim, sim, Perafita fica perto de Matosinhos, mas isso não interessa nada agora... e se ela não ia na passadeira? Terá sido a culpada?
Por via das dúvidas conduzi mais devagar até chegar ao meu destino, com receio de poder contribuir para o aumento de notícias semelhantes que já visualizava (auditivamente, é claro!): “Sobrinha da mulher que causa acidente em Perafita – com corte de trânsito numa artéria! – causa acidente na Damaia por desconcentração ao saber do acidente da Tia. Isto é a globalização senhores ouvintes! É a globalização a funcionar: um acidente provoca outro a mais de 300 quilómetros graças à nossa rádio pois se não fossemos nós, nada disto teria acontecido!”
Minutos depois ouvir-se-ia: “Informações de última hora dizem-nos que afinal o acidente em Perafita – com corte de trânsito numa artéria! – não foi causado pela Tia da mulher que causou o acidente na Damaia; na verdade em Perafita não houve qualquer acidente, e a artéria foi cortada devido a obras. Mas a Tia da mulher que causou o acidente na Damaia ao saber da notícia da sobrinha que tinha causado um acidente por pensar que ela, a Tia, tinha provocado um acidente, ficou preocupadíssima e pediu-nos que emitíssemos uma mensagem: Filha, querida sobrinha, espero que estejas bem quando ouvires esta mensagem. Atão tu pensavas que eu tinha causado uma acidente? Atão tu não sabes que eu não conduzo? Atão onde foi que tiveste o acidente? Ouvi que foi na Damaia... a Damaia não era onde moravam muitos lá do Sobral? Atão se eram assim tantos ainda deve haver alguns e porque não procuras alguém que te ajude? Diz que és neta do Cabo da Guarda! Olha, tenho muitas saudades tuas, quando quiseres vir visitar-me já sabes, mas até é melhor que não venhas agora porque andam com obras aqui na rua e vê lá tu, até disseram na rádio que tinha sido um acidente com corte de trânsito numa artéria e que tinha sido eu, mas não fui e... ah, pois mas isso tu sabes, olha as melhoras e beijinhos da Tia R.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Bento XVI

É inevitável que fale da visita do Papa Bento XVI.
As multidões impressionam-me sempre. Multidões de pessoas e de dinheiro, pois os valores associados a esta visita não são nada despiciendos. A fé também se paga, dirão alguns. Não assisti à missa no Terreiro do Paço, ou na Praça do Comércio, como se preferir, mas acompanhei o percurso na televisão e graças à tecnologia, pude ver mais que muitos dos que estiveram na Praça.
Vi um conjunto de embarcações que embelezavam ainda mais o Tejo, entre os quais o navio escola Creoula, onde já tive a sorte de estar, que com as lindíssimas velas hasteadas tinha passado por mim, ainda de manhã. Achei que eram poucas embarcações...
Vi a multidão que agitava bandeiras, muitas crianças, ouvi dizer que pagaram para agitar bandeiras e vestirem camisolas, o que não confirmei. Achei pouca multidão, esperava mais...
Vi o novo chão do Terreiro do Paço de cima, que anseio por percorrer com calma, assim como a luz que banhava aquela sala de visitas de Lisboa e que nos deixava encantados, mesmo via televisão. Achei que nem nos melhores sonhos se podia ter pedido um ambiente melhor.
Vi muita gente ser entrevistada cujas respostas pareciam saídas dum concurso de Miss Universo, ansiosos por amor e esperança. Achei comum.
Vi um senhor com uma comitiva de nove pedintes, com ele dez, que quando questionado pela jornalista respondeu que pedia mas não sabia para quê, isso era com a Junta, de Santa Susana se não me falha a memória, a ele cabia-lhe só pedir. Achei demais.
Vi oferecerem uma camisola do Benfica e uma águia ao Papa e fiquei boquiaberta. De que país terceiro-mundista veio o gestor de protocolo desta visita que permitiu uma cena assim?
Mas como se isto fosse pouco, às oito da noite, enquanto a abertura do Telejornal era dominada pelo assunto do dia, a visita papal, em nota de rodapé informavam-se os portugueses que não tinham assistido àquele momento que o Benfica ofertara o Papa Bento XVI!
O Bispo de Roma, sempre sorridente e afável, recebeu a peça de roupa com os olhos bem abertos e uma expressão de surpresa, é claro, mas com simpatia, como lhe competia, mas os seus pensamentos, eram outros com certeza... Se por cada benfiquista convicto se espalhasse o tal amor e a tal esperança de que falavam os entrevistados e que, afinal, são as roupagens genéricas destas visitas, então estaríamos no caminho do Paraíso.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Vida Animal

Ontem foi noite de Natal, com o menino Jesus na rua, e mais os Reis Magos, não três mas quase trinta, que as estradas hoje são melhorzinhas e vieram até doutros continentes, não com incenso, ouro e mirra mas com champanhe.
Os noticiários da noite centraram-se numa única notícia: o Benfica. Porém, tendo em conta a programação já determinada, a RTPN anunciava em rodapé o que devia estar a dar àquela hora e não falhou: Vida Animal. Não pude deixar de me rir porque as imagens mostravam uma espécie de aldeia dos macacos, com aparentes símios a treparem pelo Marquês de Pombal, quem sabe a arrepelarem-lhe a cabeleira! A fuga do Zoo era colectiva e de todas as partes do país chegavam imagens semelhantes!
Convém dizer que não tenho clube e mora lá em casa um grande benfiquista. Aquilo que vi, provavelmente, ter-se-ia repetido com qualquer outro clube.
No Marquês, a gigante imagem de Bento XVI, a sorrir de mãozinha levemente levantada, parecia abençoar o acontecimento.
Os adeptos choravam, gritavam, guinchavam, riam, havia manifestações para todos os gostos. Havia pais que não tinham sido tão felizes nem no nascimento dos filhos; havia filhos que não manifestaram metade da emotividade quando os pais morreram; havia jovens que não empregam um décimo da energia ali gasta em estudar; havia desempregados que esqueceram a sua situação mediante tão grande momento; havia mães que esqueceram que tinham filhos; os polícias sorriam contaminados e não agiam (fazer o quê?) perante a macacada a saltar das janelas dos carros, empoleirados nos tejadilhos, no seu interior a imaginarem-se águias, das grandes, imperiais, quais milhafres, quais quê!
Que alegria, que contentamento, que não chegava a ser metade se tivessem ganho o euromilhões. Ganhar a lotaria ou quejando é um acto isolado, cuja partilha depende da boa disposição do vencedor. Mas a vitória do clube é algo colectivo, partilhado com estranhos e desconhecidos que, minutos antes levariam um murro se nos apitassem, mas agora, agora é diferente, somos todos campeões, e tanto que sofremos, cada qual no seu casulo T2, onde a mesa da sala nos obriga a encolher a barriga para passarmos para o sofá e nos sentarmos frente à televisão onde se inventam novos impropérios para chamar ao árbitro e aos jogadores do outro clube.
A RTP dividia-nos o écran da televisão em quatro para nos mostrar em simultâneo o máximo de imagens. A SIC não satisfeita com o trabalho dos repórteres pedia aos telespectadores que mandassem mensagens e imagens que demonstrassem a sua visão, com certeza única e ainda não divulgada, para partilhar com o país. Havia jornalistas montados em motas que perguntavam a várias pessoas a quem se devia esta vitória em particular e as respostas variavam, não porque uns achassem que era o treinador e outros a atribuíssem aos jogadores, mas simplesmente porque não ouviam a pergunta, ou não a percebiam, face ao êxtase em que se encontravam, que os inibia de agirem como pessoas, daí a perspicácia da RTPN...
No meio de tudo lá apareciam alguns cuja alegria não se centrava na vitória do seu clube e sim na derrota dos demais e ostentavam bandeiras e cachecóis com frases depreciativas sobre outros clubes. Estes são os macacos de rabo cortado, não provenientes de alguma história infantil, mas porque a evolução das espécies os fez assim, e o que lhe falta já não lhe nasce, pelo menos nos próximos milhões de anos que isto da evolução é um processo muito lento e, como o provam as suas atitudes, pensam ao contrário ou seja, precisamente com o que lhes falta e face a isto não podemos esperar outros comportamentos que não estes.
Por motivos alheios à minha vontade, por volta das dez da noite tive que sair de casa. Saí com medo. Os carros passavam à velocidade da luz, com micos e saguis pendurados das portas, parecendo prontos a saltar sobre quem passava. Optei por levar o carro para fazer 200 metros, muito devagar com os vidros fechados. O barulho era ensurdecedor em casa, na rua multiplicava-se. Hoje devem estar todos roucos.
Regressada a casa a festa continuava com o meu benfiquista deitado no sofá da sala meio a dormir. As caras dos adeptos sucediam-se numa euforia vibrante para aparecerem na televisão, empurrando-se uns aos outros, para mostrar as cáries dentárias e mais problemas orais.
O meu benfiquista foi para a cama, vencido pelo sono ainda não eram onze horas. Estava feliz pelo seu clube mas não perdeu a razão e isso dá-me um grande orgulho.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Derby

Ontem tive que ir ao hospital. Cheguei eram perto das sete da tarde. As pessoas contavam-se pelos dedos das mãos. Porquê...? Qual é a doença maior que um Porto/Benfica?

Starbucks

A minha primeira experiência no Starbucks foi em Pequim. Não percebi nada da origem dos cafés, por estarem assinalados em chinês, assim como também não percebia bem o que tinham as sopas do McDonald’s. Fecha-se os olhos e engole-se.
Mas uma visita ao Starbucks pode ser uma surpresa por motivos insuspeitos e um dos empregados do Starbucks do Alegro onde vou algumas vezes, vê-me entrar e sorri. Não dou gorjetas, não faço escândalos, nem reclamo. Ele apenas não sabe o que vou responder à mesma pergunta de sempre, pergunta essa que, de cada cliente, leva a mesma resposta. Menos a minha.
No pré-pagamento perguntam-nos o nome e chamam por ele quando nos entregam o pedido. E eu vou mudando de nome de cada vez que lá vou. Entrego-lhe nomes estranhos, que os façam rir, nomes invulgares que fujam aos josés, aos manuéis e às marias. E vejo-os abrirem os olhos e repetirem-nos para mim, como se pedissem uma confirmação, aqueles nomes que lhes arrancam sorrisos.
Ontem escolhi o nome duma pessoa especial: Violeta. E durante dois minutos fui a Violeta, esperando que a senhora que tira cafés desenvoltamente chegasse ao meu humilde pedido de um expresso e dissesse alto:
- Violeta!
E apareço eu!
O dia que o meu nome arrancou mais sorrisos foi quando se transformou em Pocahontas e toda a gente virou a cara para ver quem era.
O café no Starbucks não é melhor nem pior que noutros sítios, é mais caro, isso sim, mas a agradabilidade dos sofás, das cadeiras e das mesas baixas atrai-me e gosto de me sentar ali. Para isso recorro a inúmeras personagens que vão desfilando ao sabor da minha imaginação e do momento.
Quando alguém vos contar que viu uma personagem famosa, intemporal, que pensavam já morta ou que apenas vive na banda desenhada, perguntem primeiro se não era no Starbucks a pedir um café e digam que a conhecem.

Dia da Mãe

A minha mãe faz anos a 4 de Outubro, mas como no dia seguinte é feriado, sempre comemorámos nesse dia. Uma das memórias sorridentes da minha infância prende-se com o facto do meu pai nos convencer que a minha mãe era tão importante que quando fazia anos era feriado, nacional! Quando crescemos começámos a ouvir falar duma coisa chamada Implantação da República que, por coincidência, festejava-se no dia de anos da nossa mãe! O dinheiro nunca foi coisa corrente na nossa casa, mas havia sempre para comprar uma lembrança à mãe, no aniversário e no Dia da Mãe. O meu pai insistia e contribuía, manifestando assim a sua declaração em como a mãe era uma boa mãe. Os grandes celebrantes do Dia da Mãe devem ser os pais, que com as Mães partilham o que têm de melhor: os filhos.
Comigo, nem sempre foi assim e ao longo dos anos fui criando um sentimento de solidão para com este dia. Comemoro o dia como filha, mas a verdade é que nem sempre o guardo na memória como mãe.
Durante anos recebi a lembrança que o meu filho fazia na escola. O meu marido via no Dia da Mãe mais um oportunismo comercial e conto pelos dedos duma mão só os presentes que me deu. Já divorciados cheguei a comprar uma mala que dei a outra pessoa para que a desse ao meu filho e este ma oferecesse como lembrança do Dia da Mãe, sem saber que tinha sido eu a comprá-la. Fiz isto mais do que uma vez em diferentes ocasiões.
Quando namorava com aquele com quem viria a casar e ele foi à tropa, numa ocasião, estando ele em Tavira e eu em Lisboa, recebi no fim de semana uma pulseira. Fiquei agradavelmente surpreendida com a prenda e desagradavelmente surpreendida quando soube pela namorada dum dos companheiros dele que aquela pulseira era uma de sete, uma das chamadas sete escravas, que ele tinha comprado e comentado com os outros que aquilo era prenda para durar sete semanas!
No primeiro Dia de Mãe depois dele ter começado a viver com outra pessoa recebi uma camisa (que não me servia). Era dum tecido feito de sentimento de culpa que o levou a comprar para mim por arrasto de comprar para a nova companheira.
No ano anterior o filho insistiu na companhia dele nesse dia ao almoço. Chegou a casa maldisposto e embirrento e meteu-se no quarto o que me entristeceu pois planeava sair com ele. Quando saiu do quarto trazia nas mãos uma pequena tela pintada com uma flor e contou-me que pediu ao pai que me comprasse qualquer coisa nem que fosse uma flor, ao que o pai lhe respondeu perguntando-lhe se ele não tinha dinheiro para a flor. Conclusão, não compraram nada e esta é a mesma tela que deu origem ao primeiro texto publicado neste blog.
A lembrança dada pelo pai como sinónimo de admiração pelo trabalho de mãe, essa não sei qual é. A lembrança oferecida como reconhecimento da entrega e da paixão em ser mãe do filho que também é dele, essa desconheço-a.
Vejo os desenhos que ele fazia em criança, e que eram legendados pelo pai, e pergunto-me onde anda esse pai, que eu continuo a adorar profundamente, apesar de tudo. Quando eu ia em viagem recebia nos hotéis, por fax, estes desenhos que me faziam chorar de alegria; o pai fazia com que eu não sentisse a falta do filho e esse acto, de percepção duma solidão que se queria minimizar, duma aproximação através da imagem que o nosso filho projectava sobre mim, era para mim um acto de amor. Hoje já não fazem desenhos, não fazem praticamente nada juntos, e as fotografias que tiram são tão expressivas quanto o Juízo Final do Bosch: o pai tenta um sorriso, que lhe custa, parece doer-lhe, o filho nem isso faz, mantendo uma expressão de alheamento resignado. A rosa ao lado deles até podia ser eu, mas não me foi oferecida.
Ontem, mais uma vez, fui esquecida pelo pai do meu filho.
Passei o dia com o meu filho, almoçámos com os avós - a avó ganhou uma mala que adorou! –passeámos numa livraria onde, para não variar, comprámos dois livros e a seguir gramámos a estopada do ano: Amo-te Philip Morris, durante a qual, aproveitando o intervalo, a fila de trás abandonou a sala.
Nem um telefonema com palavras simples a dizer ‘És Mãe e hoje, num dia de sol como tanto gostas, comemora-se o teu dia’. Nada. Por coincidência estive com os pais dele que me convidaram insistentemente a entrar em casa, com uma simpatia que me parece sincera, mas que li como um pedido de desculpa por procuração pela(s) atitude(s) do filho.
Mas do que estava eu à espera? Pergunta uma voz interior dentro da minha cabeça, secundada pelos ecos da voz do meu filho que repete tanta e tanta vez ‘Mãe, ele não quer saber de nada’.