terça-feira, 29 de julho de 2014

Em parte certa

A bem da verdade não tenho estado em parte incerta.
Estava de férias há doze horas, tinha mergulhado um bom par de vezes na praia fluvial de Poço Corga, jantado no parque de campismo e estávamos sentados a jogar cartas e fazer brincadeiras quando, para dar um dica ao meu cunhado, a fim de que ele adivinhasse um nome, dei um salto. Assim que os pés tocaram no chão senti uma dor intensa numa perna, de tal forma que vomitei e fiquei encharcada em transpiração. Vários centros de saúde e dois hospitais depois, o diagnóstico confirma-se: ruptura nos ligamentos do gémeo.
Meia elástica, pomada e massagens, anti-inflamatório, repouso total e canadianas. Pelo menos uma semana sem por o pé no chão, talvez duas, e só depois começar a tentar, usando uns sapatos de cunha, eu, que só tenho sapatos rasos.
Foi assim que em vez de seguir para norte, regressei a casa e tenho mais que tempo para me pôr a par das novelas, portuguesas, brasileiras, mexicanas e as mais que vierem.
Já tinha andado de canadianas mas nunca com duas e impossibilitada de por um pé no chão; não é fácil e parece-me que vou cair a cada passo nas viagens que faço para a casa de banho e do quarto para a sala.
O destino, sabendo que não posso sair de casa, entendeu que era boa altura para avariar o carro.
A tristeza é pontuada por ataques de riso, tanto azar chega a ser ridículo, e ainda mais se me lembrar que a meio da noite, entre hospitais, ainda passámos numa operação stop, o meu cunhado a assoprar o balão e a explicar que tínhamos pressa.
O riso chega à gargalhada quando me lembro que, por volta das cinco da manhã, quando regressámos ao parque de campismo, o carro não pode entrar e tive que dormir sentada no banco.
Conclusão, ainda não gozei um dia de férias e já gastei o pouco que tinha entre médicos, medicamentos e mecânico. Como estou de baixa médica, o ordenado do mês que vem vai ser uma gota de água no oceano.
Anda uma pessoa à espera desta altura o ano todo e depois ganha esta lotaria.
Já imagino certas pessoas a pensarem sorridentemente tens o que mereces, mas centro-me a pensar que estou viva e, como sempre, há pessoas em situações muito piores.
Está na minha mão recuperar e vou fazer tudo para que seja à velocidade da luz: umas idas à praia aqui ao lado ninguém me tira; afinal, tenho um mês de férias para gozar.

Em parte incerta, 4


quarta-feira, 16 de julho de 2014

Frente e verso

"Só te posso escrever coisas insignificantes. Tudo o que te queria dizer já o disse. Faltas-me tu. Neste postal só posso nomear o teu nome. Todas as outras palavras que ficam por dizer não cabem aqui. São tantas. Isto é só um postal. Mais um. Nem água do mar ou a sombra de uma árvore aqui posso deixar. Para ti. Só aqui cabe o teu nome e o teu sorriso. Por isso optei por te enviar um postal e não dizer mais nada. Será só um postal para ti. E talvez ainda consiga espaço para acrescentar um beijo".

terça-feira, 15 de julho de 2014

O seguro morreu de velho

Tenho imenso prazer em ser 'amiga' do meu filho no Facebook. Do seu círculo de amigos, sou a única mãe e, note-se, sou também 'amiga' dos amigos do meu filho.
Tenho perfeita consciência do que é ser amigo de alguém com vinte anos, meu filho incluído. Não sou, nem quero ser ser, amiga dele, como é a Rita, a Cátia ou a Sheila, nada disso. Sou mãe dele e isso diz tudo, pelo menos para mim.
Porém, a praça pública que é o facebook está vedada aos olhares de muitos pais e mães que nem sonham com os caminhos que por ali se percorrem.
Da mesma forma, muitos pais e mães expõem os seus filhos de forma desacanhada, inconsciente, tranquilos que certas coisas só acontecem aos outros.
Os foruns na internet a alertar para perigos invisíveis não têm conta; os programas de televisão multiplicam-se; os avisos nas escolas também, mas ainda há quem pense que tudo isto é puritanismo... Presta-se mais atenção a avisos da polícia sobre formas verdadeiramente criativas de efectuar roubos a casas do que a formas silenciosas e quase imperceptíveis, mas concretas, de molestar crianças.
Com frequência recebo emails a pedir ajuda sobre crianças desaparecidas e com frequência também vêm acompanhadas de fotografias onde as crianças estão quase nuas.
Respondo a dizer que a veracidade das mensagens é altamente discutível, por norma a antiguidade da informação é enorme, o envio de mensagens com imagens de crianças nuas faz de nós cumplíces da divulgação, estas mensagens servem frequentemente para gaúdio de pessoas com severos danos psicológicos que se prazenteiam e as partilham e fazem um aproveitamento de pessoas 'normais' para repassarmos emails e que a AOL, a Microsoft ou qualquer outra empresa não dá dinheiro seja a quem for pela partilha de mensagens...
Mas, tal como as mensagens a pedir determinado tipo de sangue ou medúla óssea, são passadas a outros sem que se levante o rabo da cadeira para ir doar uma coisa ou outra, também as mensagens com fotos de crianças são passadas indiscriminadamente.
Mais ainda, há quem as partilhe com o argumento que são arte...
Quando eu era miúda não havia passadeiras nas ruas, atravessávamos onde queríamos; mais tarde foi preciso regrar as passagens de peões com passadeiras e semáforos e mesmo assim há quem não os respeite, de parte a parte, e os acidentes acontecem. Os acidentes podem acontecer sempre, mas acontecem menos a quem se previne.
Para além do meu filho sou 'amiga' no facebook dos meus sobrinhos e de vários adolescentes. Uso esta rede social para brincar, essencialmente com eles, e para estar em contacto com pessoas que me são queridas mas que estão distantes geograficamente, do Algarve ao Canadá, do Porto a Moçambique. Não a uso para mim propriamente dita...
Faço tudo o que estiver ao meu alcance para permanecer 'amiga' dos amigos do meu filho e dos meus sobrinhos, atitude sem preço nos dias de hoje em que as vivências virtuais têm tanto ou mais impacto que as reais, e isso implica saber gerir os meus 'amigos' adultos que por lá andam e bloqueá-los se necessário for.
Quando vamos ao cinema ficamos em silêncio, quando a bandeira está encarnada não vamos para dentro de água, no Inverno não usamos sandálias e em qualquer estação do ano protegemos as crianças.
Há redes sociais para tudo. Porque insistem certas pessoas em banalizar conteúdos que não são para todos?
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Festa surpresa

Durante duas semanas mantivemos segredo sobre a festa de aniversário surpresa da minha sobrinha.
Os convites foram facilitados pelo facto de estarem de férias, as amigas não se encontram e o segredo manteve-se; o local, o Monte Macário, um oásis no grande oásis que é o Ribatejo, o lanche, tudo.
Chegámos ao Monte com a desculpa que íamos buscar o bolo para o dia seguinte e a minha irmã, em conversa com a proprietária, também ela cúmplice da brincadeira, nos últimos minutos, deitou tudo a perder... a gaiata ao lado dela a ouvir a conversa e ela a expôr os planos da guerra... dez minutos antes da surpresa... quando deu conta, já a garota sorria percebendo tudo.
Tirando isso, foi uma tarde de belíssima disposição com a miudagem toda dentro de água - eu incluída!
O Monte Macário é local de eleição para... tudo! Despedidas de solteiros, aniversários, dias e noites calmas, contacto com a natureza que inclui canoagem, andar a cavalo entre outras actividades, fruto de parcerias que têm com outras empresas. O melhor de tudo é poder-se partilhar - quem quiser - as refeições com os donos, cheios de histórias para contar e sempre com um sorriso amigável.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Maldito tabaco

Combino com o meu filho ir às compras ao fim do dia. Ele pede para eu esperar que o jogo de futebol acabe e digo-lhe que vou andando, que vá ter comigo ao supermercado quando já não houver golos a marcar.
Passo em casa a buscar os sacos das compras, o telefone toca e eu sento-me a conversar enquanto fumo um cigarro, o último.
Conversa terminada, lá saio em direcção ao supermercado, vou enchendo o carrinho, o Duarte aparece com a namorada, terminamos as compras os três juntos e vamos pagar.
Pagar? Com o quê? Antes do almoço tinha ido levantar dinheiro e encaixei o cartão multibanco no maço de cigarros, deitado ao lixo há pouco mais de uma hora.
Com outro cartão onde tenho menos de cem euros, com umas moedas minhas, umas notas do Duarte e da namorada lá saimos com as compras e à gargalhada, gozando os oito cêntimos que sobraram, em direcção à nossa cozinha onde eles descarregaram os sacos e eu vasculhei o lixo...