quinta-feira, 28 de abril de 2011

Portem-se bem, ouviram?

Trabalho a 100 metros dum hospital que desde ontem tem internado um doente cigano.
Não o vi, ninguém me disse e não tenho dons adivinhatórios, mas o acampamento que vai crescendo, com gente de várias idades, muitas crianças e sacos espalhados por todo o passeio desde o início até ao fim da rua, levam-me a essa conclusão.
Carros e carrinhas estão parados nos mesmos sítios desde ontem, bagageiras abertas, roupa e calçado espalhado pelo chão e… pessoas a defecarem no meio da rua!
Ontem vi um garoto e hoje, que cheguei bem cedo, vi um adulto nestes propósitos tendo depois empurrado as necessidades para debaixo dum carro! Inacreditável.
Comentando a cena com um colega, este disse-me que o hospital, os restaurantes e cafés, um hotel e diversos moradores já tinham chamado a polícia que veio ao local e lhes pediu para… não fazerem barulho.
Conclusão, temos que aguentar e rezar pela saúde dum cigano que desconhecemos, a ver se fica bom depressa pois, se temos o azar que ele morra, para além da imundície temos também os gritos, as ladainhas, as carpideiras e não há polícia no mundo que os cale, alegando respeito pela tradição do defunto!

Raridade

Quando era pequena tinha um medo atroz de máquinas fotográficas. Devia ser a minha costela índia que pensava que me roubavam a alma ou qualquer coisa semelhante. E assim, poucas são as fotografias onde não estou a mostrar as goelas, como se as mostrasse ao médico, num imenso ahhhh de boca aberta. A minha mãe era – e ainda é! – aparentada com as estrelas de cinema antigas, aquelas que eram fotografadas sempre lindas e que eram notícia pela sua beleza e não pelos escândalos de hoje.
O meu pai, a cumprir serviço militar obrigatório, já tinha deixado o seu sonho: ser aviador. Iniciou-se no mundo do trabalho numa gráfica, com pouco mais de meia dúzia de anos. Um amigo levou-o e disse-lhe que quando lhe perguntassem o que sabia fazer, ele respondesse compor, provando que era perito na arte da composição, ele que vestia umas calças compridas pela primeira vez!
E lá foi ele e lá veio a pergunta. Mas a seguir a essa, o Sr. Mário, velha raposa das artes gráficas perguntou-lhe o que mais sabia fazer. O pobre do rapaz pensou rapidamente e deu a resposta que achava que o outro queria ouvir:
- Sei compor e descompor!
O Sr. Mário a rir-se da lata do gaiato disse-lhe que quem lhe dava uma valente descomposição era ele, mas que podia ficar à experiência.
Uma das velhas máquinas, mecânicas e com braços, um dia acertou-lhe num olho e obrigou-o a usar óculos. Ele não se importou com o sangue, com a dor, com o espectáculo do ir para o hospital, numa altura que quase tudo se tratava em casa com panos quentes e canjas de galinha. Ficou inconsolável por já não se poder alistar na aviação… Por ironia do destino, trabalhou a vida inteira ligado às artes gráficas e só andou de avião uma vez até hoje.
Ele que pelo meio estudou para Padre, que esteve para ser aviador, bem, fazendo as contas eu tive imensas probabilidades de não nascer, mas isso não aconteceu porque não havia Padres nem aviadores que resistissem à beleza da minha mãe, meia cigana, meia malandra e sempre sexy.
Ps. Eu ainda não andava mas o meu pai já me punha letras à frente do nariz...

Beleza em estado puro

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

O poema de Sophia arrasta a pergunta - todos arrastam - o que viveu ela que a levou a esta dimensão?

O dente sorridente (bom título para uma estória)


 Há a Fada dos Dentes e há o dente da Fada...

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Toque de entrada

Hoje fui com o pai do Duarte a uma reunião com a Directora de Turma na escola. Tive o grato prazer de me ter oferecido o pequeno-almoço e lá fomos nós, com ar de pais do Duarte, embora na verdade fossemos o pai e a mãe. Só.
O atendimento começava às dez da manhã. Nós ali, pré-pontuais, a aguardar a senhora professora víamos passar o tempo a olhar para centenas de alunos a conversar e a apanhar sol.
Às dez e cinco minutos toca para a entrada do terceiro tempo. A malta espalhada pelo recreio não se mexe um milímetro. Pergunto ao pai do Duarte se foi o toque de entrada, não fosse eu estar com alucinações auditivas. Que sim, que era. Então porque é que esta gente não arreda pé? Vai ser uma falta colectiva, da escola toda?
Será que fomos os únicos a ter ouvido o trim? Não deviam por aquilo mais alto? Sei lá, arranjar uma ligação do toque de entrada ao telemóvel dos alunos?
E eles ali, como se aquilo fosse a sirene duma qualquer fábrica que nada tinha a ver com eles, impávidos e serenos. Entretanto, já tinham passado alguns sêtores que aguardavam em salas vazias, com certeza.
Aos poucos e mais lentamente que um bicho-preguiça lá se vão dispersando, mas há uns que nos reconhecem e ainda arranjam tempo para uns beijinhos e umas delicadezas, outros perguntam o que fez o Duarte para nós ali estarmos, mas com a calma de quem tem todo o tempo do mundo. Finalmente, debandam todos e ficamos ali sozinhos.
Vou procurar a professora porque só aí me apercebo que o pai do Duarte não marcou com ela! Em direcção à Secretaria da Escola encontro uma auxiliar a quem pergunto pela Dr.ª Isabel.
- Olhe, não sei, ainda não a vi, talvez não venha hoje ou esteja a dar aulas, ou a fazer qualquer coisa… talvez com alunos. Espere na sala.
Como estava um bocadinho irritada e gosto de respostas eloquentes respondi-lhe que o vulcão da Islândia também podia entrar hoje em erupção de novo, e perante a cara dela, como se lhe tivesse falado em marciano, atirei-lhe um sorriso e fui ao bar, onde encontrei a Directora.
Os três fechados numa sala conversámos, pusemos a escrita em dia e lá saímos da escola em direcção ao Centro de Explicações onde fizemos o mesmo com a explicadora.
Aparentemente o problema do Duarte é a … poesia. A disciplina de língua portuguesa anda atravessada porque ele não entra na poesia… aguardo que perceba que tem que ser a poesia a entrar nele e aí não só as notas melhoram como o relacionamento amoroso ganha uma nova dimensão.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Quando um homem ama uma mulher

Perguntaram-me como é que um homem sabe que ama uma mulher. Decididamente não prestam atenção ao que escrevo pois há dois dias atrás botei discurso sobre o assunto, a que chamei Amo tracinho te e repeti que a lista de percepções é infinita. E como é infinita é fácil dar exemplos, não que eu os conheça na pele, mas vejo – com inveja – outras pessoas, a começar pelos meus pais.
O meu pai continua a namorar com a minha mãe, e faz-lhe o impensável, principalmente se tivermos em conta a idade deles: quer sempre que ela ande com o cabelo arranjadíssimo, que use as roupas que mais gosta, adora levá-la aos locais que ela prefere, mesmo que ele se aborreça…, admira os cozinhados dela, mesmo esturrados e sem graça alguma, defende-a sempre, fica com ar de cachorrinho abandonado se ela parte uma unha ou espirra e se ela estiver mesmo doente ele sente o chão desaparecer, oferece-lhe presentes e, acima de tudo, está sempre a elogiá-la e mesmo os desconhecidos percebem que são elogios verdadeiros, sentidos, profundos. Há dias em que ele olha-a como se a tivesse acabado de descobrir e a visse pela primeira vez, com ar de tolinho, a sorrir como se estivesse enfeitiçado.
Como é que alguém sabe que ama outro alguém? Quando não consegue explicar o motivo, é um bom princípio. Escusado será dizer que a resposta Porque é mãe/pai dos meus filhos, é completamente errada…
As crianças nem sonham o peso que lhes põem nas costas: elas são a causa da continuação de muitos casamentos, sem que os pais e mães percebam que não estão a construir nada à volta das crianças, apenas a adiar aquilo que, muitas vezes, só chega com a morte.
Nessa altura olhamos em volta e dizemos, com ar estremunhado, de quem acabou de acordar, Então e a vida? Olha, a vida já passou, nem me dei conta…
Porquê? (Acho que me vou repetir, que algures em meses anteriores já preguei este discurso) Porque aquilo de que não se quer prescindir é da arrumação de vida que se tem, é da rotina que todos dizem odiar, mas que na verdade adoram, porque está tão enraizada que sabem o que vai acontecer nos próximos dias e isso dá-lhes uma ilusória sensação de poder! E depois ‘culpam’ as crianças… quem não conhece dez exemplos destes no mínimo? Quem? Além disso, no suposto amor sem limites que dizemos ter aos nossos filhos, e por isso mantemos os casamentos, há uma dose de egoísmo nunca reconhecida, porque uma criança prefere ter pais saudáveis e felizes, mesmo separados, do que viver com duas pessoas que só sorriem uma à outra diante de estranhos e em casa se tratam como isso mesmo, estranhos. Ou seja, no fundo não estamos a pensar nos nossos filhos, estamos simplesmente, e com toda a lata, a usá-los como desculpa para a nossa cobardia, a nossa falta de coragem. E se usei a palavra nossa, é um plural majestático onde não me incluo, como sabem todos os que me conhecem, pois sempre pensei que o meu filho precisava acima de tudo duma mãe com a cabeça no lugar e não agarrada a um tempo que já não existia, a fingir que estava bem e feliz. As pessoas têm esta tendência terrível de fingirem perante os filhos e depois têm o descaramento de dizer que os adoram, mas ao mesmo tempo atribuem-lhes o ónus de terem que aguentar... Confesso que não percebo!
Os casais agem como se o cônjuge fosse um funcionário das Finanças… não gostam de lá ir, mas tem que ser, e lá entramos nós com os olhos fechados, a suspirar e… aguenta-se. Parece um momento de amor, mas é a entrega dos papéis do IRS.
Não conhecem os pratos favoritos um do outro, ouvem música completamente diferente, quando um chega a casa cheio de areia da praia está o outro a levantar-se pois passou a manhã na cama, as conversas mais íntimas são gritos provenientes da casa de banho a pedir papel higiénico ou a reclamar que a água está fria, alguém que feche a porcaria da torneira da cozinha!
Tenho amigos que me dizem que amam as mulheres porque elas fazem muitas vezes o seu prato favorito. Perante tamanha eloquência eu fico vazia de palavras. Outros afirmam conversar, conversar mesmo com as mulheres quando vão juntos ao supermercado e eles vão ditando a lista de compras que ela vai recolhendo nas prateleiras e pondo dentro do carro, que eles empurram. Se isto não é o êxtase, não sei o que será!
Um excelente tema de conversa: Prendas! Mas têm que ser em quantidade, caras e vistosas para mostrar à raparigada e rapaziada amiga e depois comentar a inveja que provocaram…
As pessoas não se apercebem que a partir de certa altura dão prendas para mostrar em linguagem de cartão de crédito que gostam dos outros? E pior, quem as recebe, fica feliz…
Concedo, sou uma teórica na matéria, mas há coisas que não me entram na cabeça, por mais que as estude.
Há um filme, do qual também já falei, acho eu, que se chama A minha namorada tem amnésia. O filme em si, não tem interesse, mas conta uma história de amor suprema: devido a um acidente, ela todos os dias se esquece dele e ele todos os dias a faz apaixonar-se de novo. Não há alguém que não quisesse um homem daqueles… bem, ou ele ou o Big da Carrie… mas acho que estão os dois indisponíveis, um porque é sem dúvida uma personagem de ficção, não há homens assim, e outro porque já é casado…

Quem ama dá prendas, mas acima de tudo faz surpresas.
Quem ama lê poesia antes de dormir como se fosse uma canção de embalar para o outro adormecer.
Quem ama ensina o outro a gostar do que gosta e esforça-se para gostar dos gostos dele.
Quem ama sobe montanhas só para colher aquela flor.
Quem ama sente-se doente quando o outro está doente.
Quem ama elogia permanentemente.
Quem ama não mente, não engana, não atraiçoa.
Quem ama é corajoso com o seu par.
Quem ama beija sempre como se fosse a primeira vez.
Quem ama sente falta do outro, muita falta.
Quem ama quer adivinhar os pensamentos do outro para se lhe antecipar.
Quem ama precisa do outro, tem saudades de pedra.
Quem ama afirma-o com convicção diante seja de quem for.
Quem ama sabe que ama e não precisa de motivos.

E como foi um homem que me perguntou, deixo-lhe uma letra universal como prova, como desafio para ele próprio: se houver identificação, então o homem ama essa mulher! Caso contrário, pode amar as paredes lá de casa, os móveis e os sofás, os pratos da cozinha e a cortina da banheira, mas está apenas acomodado à situação e não sabe o que é o Amor. No fundo é um simples adaptador, podia ser de telemóvel, mas é do seu próprio casamento e, nesse caso, lamento.

When a man loves a woman

Can't keep his mind on nothing else
He'll trade the world
For the good thing he's found
If she's bad he can't see it
She can do no wrong
Turn his back on his best friend
If he put her down
When a man loves a woman
Spend his very last dime
Tryin' to hold on to what he needs
He'd give up all his comfort
Sleep out in the rain
If she said that's the way it ought to be
Well, this man loves a woman
I gave you everything I had
Tryin' to hold on to your precious love
Baby, please don't treat me bad
When a man loves a woman
Down deep in his soul
She can bring him such misery
If she plays him for a fool
He's the last one to know
Lovin' eyes can't ever see
When a man loves a woman
He can do no wrong
He can never own some other girl
Yes when a man loves a woman
I know exactly how he feels
'Cause baby, baby, baby, you're my world

Say ‘Cheese’, parte II

Já tenho as fotografias! Depois de quase ter sufocado dentro daquela prisão, fui a outra depois do almoço. Lojas, lojas, gente, gente, gigantescas faltas de espaço e eu apertada e mal disposta, a percorrer outra catedral de consumo. Na loja da FNAC dizem-me que ali não revelam mas que o fazem no Colombo e só demora uma hora. A boa notícia mistura-se com o medo de ter que entrar no terceiro centro comercial no mesmo dia, um feriado cheio de sol… não estou em mim e vou ao Colombo. Deixo o rolo decidida a esperar lá fora enquanto converso com a I.
Porém, o Duarte liga a avisar que está à porta de casa e não tem chaves… Não! Não! Não!
Metemo-nos no carro, vou a casa, abraçamo-nos para matar saudades dos dias que ele esteve ausente, subimos e eu não encontro mais que fazer se não passar a ferro… A I. vê televisão e conversa comigo sentada no sofá enquanto eu passo furiosamente a ferro. Passa-me pela cabeça a frase que uma amiga me disse e que me enfureceu há semanas atrás, quando lhe disse como estava triste e me tinha posto a passar a ferro e ela me respondeu que eu fizera bem, que assim estava ocupada… por mais que eu a ame do coração, fiquei danada com ela!
A caldeira do ferro esvaziou-se e fomos buscar as fotografias, ou seja, pela quarta vez no mesmo dia fui a um centro comercial. Isto é um recorde imbatível e não creio que o consiga ultrapassar mesmo que viva 100 anos.
… finalmente vi as fotografias…

Pais: Zero!

A equipa do Duarte jogou contra uma equipa polaca e perdeu. A pena da derrota estende-se muito para além do marcador desigual e não há maneira de esquecer o pavilhão cheio a gritar… pelos polacos.
Eu não sou capaz de fazer isto e não tenho qualquer costela especialmente patriota mas, ver garotos que se conhecem à anos, dirigentes e treinadores, que amanhã são capazes de mudar de clube porque a vida é mesmo assim, a torcer tão activamente contra um conjunto de miúdos que todos conhecem tão bem, magoa-me.
Se fosse ao contrário, eu gritaria da mesma forma que grito pela equipa do meu filho, pelos portugueses, fossem de que clube fossem.
Os miúdos conhecem-se todos, alguns são colegas de equipa nas selecções regionais e nacionais, outros são amigos, encontram-se fora do recinto dos jogos sem equipamento que os cataloguem. Riem-se juntos, conversam, contam coisas uns aos outros, vestem-se da mesma maneira. E depois, ali, são cães atiçados que ladram como se fossem abocanhar. É feio, triste e desanimador.
Aquelas atitudes e comportamentos são génese de outras atitudes e comportamentos semelhantes, são fonte de raivas e vinganças, porque as idades não têm uma plataforma que as leve a reflectir sobre a maldade inerente, e amanhã vão agir ao sabor da lembrança do que lhe fizeram e não em nome do bom senso, ou do perdão.
Depois, pior ainda, ouvem-se os pais a fazerem coro com os filhos, debitando barbaridades que deviam ser gravadas para que eles próprios se ouvissem. Talvez tivessem vergonha…
Nestes campeonatos não se ganha dinheiro algum, antes pelo contrário, os pais gastam-no a jorros, mas agem como se estivessem em causa milhões!
Com pedidos de desculpa antecipados, pois nem todos são farinha do mesmo saco, mas não vejo toda aquela gente como pessoas e irrito-me profundamente com aquelas atitudes, irritação que fica a anos luz do facto de terem perdido.
Diz-se que há pessoas que não sabem perder e é bem verdade, mas não são os miúdos, são os grandes, são os pais, ou seja, somos nós. Porque, quer queira quer não e embora esteja à margem daqueles comportamentos que abomino, estou na bancada.

Dá-me a tua mão

Dá-me a mão
Espreita no meu coração
Debruça-te nesta varanda
Ouve o tocar da banda
É a minha pulsação

Sem medo e sem receio
Acolho-te no meu seio
Semente lançada à terra
Minha vida, minha guerra
Milho, trigo ou centeio

Ah… contas do meu rosário
Fosses tu meu adversário
Tanto oxigénio, tanta vida
E à chegada e à partida
É tudo teu, meu corsário

O olhar cansado não descansa
Faço com a espera uma aliança
A Via Láctea é pequena
Aguardo um milagre, serena
Com a eternidade ensaio uma dança

Dá-me a mão
Espreita no meu coração
Sou um rio, um afluente
Transbordo com água quente e ardente
Acende uma vela, tira-me da escuridão

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Say 'Cheese'!

Deve ser o tempo que me põe meia esquisita e sem sono. Acordei bem cedo e, imagine-se, fui arrumar papéis. No fundo duma mala azul e no meio de um pacote de lenços por usar, um lenço usado, dois tampões higiénicos, dois bilhetes de cinema e uma factura do McDonald's, estava um rolo fotográfico.
Há algum tempo encontrei uma máquina fotográfica sem que nada me indicasse a sua propriedade. Revelei o rolo e fiquei com um monte de fotografias duma janela na mão. Conclui que alguém andava a espiar outro alguém pois a janela era sempre a mesma, as fotografias tinham sido tiradas a várias horas do dia, o que se via pela luz, e havia sempre um vulto que não se percebe se é homem ou mulher, mas é uma pessoa indubitavelmente. Fiquei com as fotografias e com a máquina que ainda mora algures no meu gabinete de trabalho.
Face à descoberta, vesti-me e saí com a intenção de revelar o que escondia naquele cilindro de plástico e metal.
Primeiro fui tomar o pequeno almoço com os meus pais e com os amigos deles e assisti à zaragata do costume pois todos me querem pagar o pequeno almoço. Ora eu não tinha fome, mas cai na asneira de dizer que ainda não tinha comido! Então, para evitar que todos juntos me tapassem o nariz e me enfiassem uma meia de leite pela boca abaixo, lá mastiguei metade dum pão. A verdade é que ontem não almocei nem jantei: cheguei a casa depois do almoço sem fome e quando fui dar os parabéns à Suzy, que fazia anos, e ela me perguntou se já tinha jantado é que me lembrei que também me tinha esquecido. Nem as insistências dela conseguiram que a fome espreitasse de dentro de mim e, para ela não ficar triste, bebi um café e um copo de água! Antes de me deitar bebi um iogurte geladinho e pensei que me apetecia tomar banho naquilo; mas depois fiz as contas ao dinheiro e desisti!
O local mais próximo onde pensei que atingiria o meu objectivo é o Forum Sintra, uma espécie de réplica da prisão do Linhó, ali bem perto: é todo metalizado, corredores estreitos e escuros, com umas clarabóias lá bem no alto para as pessoas não fugirem. Numa palavra: horrível. Em duas: de fugir!
Mas valores mais altos se levantavam e eu senti-me o Capuchinho Vermelho a entrar na floresta, cheia de medo e com a respiração alterada. Mas tinha que ser.
Estacionei numa ponta para me ser mais fácil recordar onde estava o carro, mesmo que fique a quilómetros da entrada. Entrei na prisão e perguntei por uma loja de fotografia; ficava a 10 metros! Porém, só daqui a uma semana é que me davam as fotografias. Uma semana? Eu pensei que fosse uma hora! Nada disso, agora centralizavam as revelações de rolo no Porto e tinham que mandar para lá, e esperar que as devolvessem. Então não quero!
A caminhar pelos longos corredores, sem parar diante de lojas com roupa linda que nenhuma me serve, nem sequer frente a qualquer sapataria, o que é um feito gigantesco para mim, fui à Worten onde me disseram imediatamente que sim, que tinham serviço de revelação imediata! Sorri e segui o rapaz, mas foi sorriso de pouca dura pois quando ele me pediu o cartão e eu franzi os olhos a dizer, qual cartão?, é que ele explicou que só revelavam de telemóvel ou de máquina com cartão, não de rolo. Obrigadinha, sim?
Nesse momento já sentia falta de ar e tinha uma ligeira tontura. Os centros comerciais são bichos com uma penugem qualquer à qual sou alérgica e comecei a sentir-me mal. Precisava rapidamente dum antídoto!
- Por favor, onde é que há aqui uma livraria?
Quatro perguntas iguais a quatro pessoas diferentes deram como resultado dois não sei, um a Bertrand ainda não abriu e, finalmente, um vá em frente e vire no C&A e encontra a Book.it.
Lá cheguei, já com a vista meia enevoada e entrei. Mexi nos livros, sentei-me no chão, acalmei a respiração, comprei um marcador lindo de morrer e, já recuperada, preparei-me para sair, a correr em direcção ao carro.
Não corri, mas dei grandes passadas como se um guarda prisional viesse atrás de mim e eu não quisesse chamar a atenção. O coração batia como maluquinho e finalmente cheguei ao carro.
A seguir ao almoço, a ver se não me esqueço dele, vou procurar outra loja de fotografia, ou seja, tenho que ir a outro centro comercial. Já decidi que vou convidar alguém para vir comigo, caso contrário posso ter uma apoplexia antes de ver as fotografias.

Conversam! Vá lá!

Ontem fizeram-me uma das perguntas mais extraordinárias de sempre: o que é que eu quero ser quando for grande?
A pergunta foi feita por uma deliciosa criatura com 6 anos, sorridente e que ainda ficava mais bonita por não ter dentes à frente, o que lhe abria o sorriso. Aquilo significou que ela me colocou à sua altura, como se de repente, num piscar de olhos, eu tivesse ido parar à Terra do Nunca e fosse uma garota como ela.
Lembrei-me imediatamente do maior elogio já recebido, numa manhã ensonada, em que o Duarte me disse enquanto o vestia:
- Mãe, estás linda, pareces o Peter Pan.
O sabor duma coisa destas faz-nos fazer muita coisa, que pode passar por renovar e aumentar o stock de calções, que nunca mais despimos mesmo com temperaturas negativas.
O meu primeiro instinto, e arrependo-me de não o ter seguido, foi responder à garota:
-Pirata!
Tenho a certeza que ela faria coro com o meu sobrinho que afirma que eu pareço mesmo um pirata e responderia que nenhuma outra profissão me assentaria tão bem, e mais ainda, acho até que ela me estenderia a mão e me diria, Leva-me contigo, então!

domingo, 24 de abril de 2011

Amo tracinho te

Há agum tempo li um poema que chamava Amo tracinho Te. O tracinho contém o sentimento equivalente à àgua do Pacífico depois dum grande degelo.
Confesso que posso contar pelos dedos das mãos - e se calhar sobram dedos - as vezes que usei esta palavra e fico estupefacta com a quantiddae de vezes que os adolescentes a usam, por dá cá aquela palha. Mesmo os não adolescentes usam e abusam da palavra toda, banalizam-na, desgastam-na, porque confundem uma atracção, passageira, com algo muito poderoso. Não se apercebem do seu poder como a criança não se apercebe do perigo de brincar com fósforos ou o aprendiz de feiticeiro não se apercebe que há magias que só pode fazer quando for um velho feiticeiro consagrado. Pior ainda, usam-na em simultâneo para mais do que uma pessoa.
Há palavras sagradas que não se dizem sem ser no momento certo, à pessoa certa, e mais vale esperar e correr o risco de as dizer atrasadas do que usá-las em vão.
Já expliquei isto ao meu filho com o objectivo de lhe dar a entender que do alto dos 16 anos aquilo que pode parecer, pode não ser, e que vá com calma. Já lhe expliquei que quando for a altura de usar a palavra, dando ênfase no tracinho, ele vai perceber porque deixará de entender tudo o resto; porque os dias, por mais cheios e activos, lhe vão parecer insípidos; porque a ausência lhe pesará como uma montanha; porque a distância se transformará em poucos centímetros; porque se deita ansioso e se levanta inquieto; porque quer partilhar tudo; porque não vê defeitos, nem pode ver, porque eles desapareceram; porque o conforto interior que sente quando está com ela é maior que tudo; porque aquele nome lhe acode à boca a todo o instante; porque aquela imagem predomina no seu espírito sobre todos os Kilimanjaros; porque se sente melhor pessoa quando está com ela; porque sente força para correr o mundo para a ir buscar; porque a inclui nos seus planos mesmo que ela esteja ausente; porque se sente sufocar se ela não está bem; porque conversam sempre sem parar; porque está sempre a pensar numa forma de a fazer feliz; porque se arrepia quando ela lhe toca na mão; porque estremece quando os olhos se cruzam; porque se sente sereno ao lado dela; porque a ama.
Não creio que o Duarte sinta metade disto - e muito mais, a lista é infinita - por enquanto. Mas quando ele sentir - e muito mais, a lista é infinita! - ele vai perceber que pode usar e abusar da palavra Amo-te, com todo o ênfase no tracinho.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Vivo na esmola da sorte

Vivo na esmola da sorte
Eu, pedinte, vagabunda
Durmo ao relento da tua ausência
O dia faz-se noite e a escuridão é senhora
É sempre lua nova nos teus olhos
O teu olhar tece teias que não me abrigam
Constrói ninhos onde não me deito
Usa grutas que não me protegem
Esconde-se em buracos que não acho
Dizem que a sorte protege os audazes
Dizem que a sorte é a arma dos fracos
Dizem que a sorte somos nós que a fazemos
Dizem… que nunca ninguém a viu…
Eu digo que ela existe, mas não é minha…

terça-feira, 19 de abril de 2011

Noite de trovoada

Noite de trovoada, acesa, barulhenta. Noite de chuva com calor, ideal para fazer amor desenfreado, conquistado, descoberto, como se fosse a primeira vez.
Abençoados os que aproveitaram, os que se deleitaram com o cenário, com a banda sonora que a natureza propiciou. Pobres de todos os outros…
Noite de trovoada, vibrante e assustadora. Noite de cenário perfeito para entregas de corpos, almas e corações, para misturas e partilhas, de memórias escritas em pedras, em granito que se perpetua no tempo.
É nestas noites que sonho não estar sozinha. É nestas noites que sonho estar acompanhada, ter a própria trovoada deitada comigo, a troar dentro de mim, a rasgar os meus céus com relâmpagos tão luminosos que fazem inveja ao sol. É nestas noites que quero não dormir, que me mantenham acordada, satisfeita e cansada, mas feliz.
As noites de trovoadas existem para as pessoas se abraçarem e beijarem, sem medo e com os olhos bem abertos. As noites de trovoada existem para as pessoas amarem sem amanhã, para viajarem sem porem os pés no chão, para criarem tatuagens na pele.
Alguns fumam cigarros à janela, com pressa, para voltarem à partilha, para se entregarem a carrosséis de beijos e montanhas russas de entrega. Outros fumam cigarros à janela, devagar, como se o fumo fosse o único cenário que lhes é concedido, o único palco. Para uns e para outros a trovoada clama bem alto, impõe, ordena que façam a única coisa pensável, que se amem. Uns obedecem, outros acendem outro cigarro… e a trovoada insiste, insiste, insiste, sem se cansar, autoritária e sorri a quem lhe obedece, caminhando para outras paragens e deixando o sono tomar o seu lugar.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

De recordação

O sábado foi de romance tia/sobrinhos, eu pato Donald, eles Violetinha e Benjaminzinho, os nomes que eles gostavam de ter.
Sexta à noite dormiram na minha casa. A meio da noite com um de cada lado, cheia de calor, mudei de cama. Já de madrugada acordei e vi que ele estava aninhado em mim. Adormeci novamente a sorrir com aquela surpresa e a aconchegar-me a ele. Já mais perto da manhã acordo novamente a sentir-me espremida: era ela que tentava meter-se também na cama! Acabámos por nos mudar todos outra vez e terminámos o sono na primeira cama…
Despedimo-nos sábado à noite com promessas de repetirmos o encontro brevemente, não sem antes termos falado e programado a coisa mais ansiada o ano inteiro… as férias de Verão no Carvoeiro!

No domingo dediquei-me à tarefa semestral de trocar a roupa da estação fria pela da estação quente, com muitas lavagens pelo meio o que se irá reflectir na conta da água e da luz, ai se vai!
Com o andebol o Duarte acumula t-shirts que fazem as prateleiras das lojas corar de vergonha e parecerem despidas: dos clubes, dos torneios, dos estágios, de câmaras municipais, dos CTT, de bancos, enfim. Como usa resina nos treinos e nos jogos não há super gel que tire aquelas manchas sobre manchas sobre manchas… assim, os lotes de t-shirts vão aumentando na secção das que já não usa, mas que não se podem deitar fora nem dar: são de recordação.
Nas de recordação, para além das que estão identificadas com símbolos, nomes ou outra coisa qualquer, há também as que não dizem nada mas que têm que ser guardadas: uma porque foi no jogo em que ele marcou 30 golos, outra porque foi no jogo em que estavam a perder ao intervalo mas recuperaram, outra porque foi usada no jogo em que ganharam com um golo no último segundo, não te lembras mãe?, pergunta-me ele com ar indignado por eu não me lembrar duma coisa que aconteceu há anos e cujo cenário se repete todos os fins-de-semana…
Assim, mantenho uma quantidade de roupa que não serve a alguém mas, mesmo que servisse, não poderia ser usada porque é de recordação

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Eu tenho dois amores

Há alguns meses mudei de director. Porém, o anterior continua a pedir trabalho como se estivesse em funções e disputa acerrimamente com o actual responsável, uma das minhas áreas de actividade, tanto mais que ele é o verdadeiro entendido na matéria. Face à legalidade de um e aos conhecimentos de outro, juntos concordaram em criar um tempo de passagem em que ambos terão uma palavra a dizer. Aparentemente tomaram a decisão certa, mas criam-se situações que vão do dramático ao cómico e nunca sei a quem dou primeiro conhecimento de qualquer coisa, a quem peço primeiro uma assinatura, quem tem a primeira palavra e, principalmente, quem tem a última e até nos e-mails se questiona quem vem em primeiro lugar.
Andamos sempre confusos para cá e para lá, fazemos e refazemos, ouvimos daqui e dali e, conclusão, nem gregos nem troianos ficam satisfeitos e nós ficamos com a profunda sensação de inutilidade e enormes quantidades de energia desperdiçadas!
As coisas já não estão fáceis, a crise agudiza-se, as relações entre as pessoas deterioram-se e é tempo de fazermos brainstorming e não de queliziarmos uns com os outros!
O cansaço e a fartura que isto arrasta são incomportáveis e davam para uma peça de teatro onde muita gente se reveria, tenho a certeza. Quanto mais tempo ficaremos nestes entretantos sem chegarmos aos finalmentes? Irra!

A semana mais longa

Finalmente sexta-feira. Vai terminar a semana de trabalho do meu filho, uma semana cheia de reclamações, de discussões e de pesados silêncios.
Ontem já se sentiu o desanuviar da coisa: fez-me a surpresa de me vir buscar ao trabalho, sorridente, e fiquei a saber em pormenor o que fez e como contribuiu para consertar a avaria duma central eléctrica. Jantámos no meio de risos e brincadeiras, acompanhados da namorada e sentia-se no ar a pré-sexta-feira.
Espero do fundo do coração que a aprendizagem tenha sido garantida e que o terceiro período escolar mostre melhores notas, melhores comportamentos e melhores resultados em geral.
Depois do jantar arrumámos a cozinha juntos e sentámo-nos na sala a conversar naquele bom ambiente a que estamos habituados.
É claro que ele não consegue perceber a dimensão da dor que me causa obrigá-lo a trabalhar e pensa que é uma situação dolorosa e chata apenas para ele.
Na noite anterior alegou que estava cansado e que não podia fazer nada e eu respondi o mesmo. Quem faria o jantar? Ele lá se calou e acabou por beneficiar do facto de eu ter que sair para ver os meus sobrinhos e meteu uma pizza no forno; ontem falámos do assunto e ele pediu desculpa.
A semana que vem vai para Guimarães em estágio da Selecção e não vai contente pois não tem dias de férias para fazer… nada!
Digo-lhe que é preciso paciência mas ele não tem esta palavra no dicionário e fica amuado. Conclusão, não tenho outro remédio senão ser eu a usar a paciência, a minha, a dele, toda!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Comboios da minha vida

16 anos foi o maior período em que vivi na mesma casa. A trinta metros da linha do comboio e a cem da estação, íamos à janela para ver se o meu pai vinha naquele comboio ou não e saíamos de casa para o apanhar quando as campainhas começavam a tocar.
Viver lado a lado com a rotina dos horários da passagem dos comboios era absolutamente normal. Quando mudámos de casa quis o destino que a linha do Oeste ficasse a poucos metros na janela da cozinha. Da janela da casa seguinte via-se a cerca de cem passos. Anos e algumas casas mais tarde, voltei a uma casa que distava os mesmos cem metros da estação e hoje estou a cem metros da linha férrea, embora Entre-Estações, como se fosse uma réplica humana de Entre-Campos.
Numa ocasião, há muitos anos, vieram uns primos lá do Alentejo com consultas e exames médicos marcados num qualquer hospital e hospedaria marcada em nossa casa. Quando nos levantámos de manhã estavam as criaturas com o estenderete do sofá cama já arranjado, cobertores dobrados e eles sentados a olhar para o vazio, com cara de quem tinha feito uma directa.
Dados os bons dias e os cumprimentos perguntámos a que se deviam aquelas caras. Responderam que não conseguiram dormir com o barulho. Barulho? Que barulho? Ninguém ouvira nada. Apesar do sono lá arranjaram convicção e força para imitar o barulho que se ouvia, aí de vinte em vinte minutos ou de meia em meia, hora, eles não sabiam ao certo, mas tinham a certeza que era um grande barulho, um barulho barulhento e rugidor. Mas que mistério! Como é que um barulho assim só os acordara a eles e nós, cinco pessoas, não ouvíramos nada?
Já não sei quem foi que se lembrou então dos comboios, aos quais estávamos habituados e que passavam por nós sem nos beliscarem o sono.
Durante anos era o meio de transporte de eleição de quem morava na linha de Sintra como eu: portas abertas e gente pendurada nos degraus era um cenário completamente normal, enquanto lá dentro os passageiros seguiam ensanduichados e colados uns aos outros. A estação de Queluz era um susto: entravam os queluzes, como lhes chamávamos, à força toda e as carruagens já cheias ficavam irrespiráveis.
Devido à falta de segurança e ao facto de as pessoas andarem literalmente de fora do comboio, os acidentes sucediam-se e um colega meu perdeu uma perna nestas brincadeiras.
Muitas das visitas aos meus avós no Alentejo eram feitas de comboio até Lisboa, barco até ao Barreiro, outro comboio até Beja, depois de automotora até Moura e, finalmente, de camioneta até à aldeia; a automotora era uma coisa cónica afunilada, vermelha e branca, muito fumarenta, ruidosa e com bancos de sumapau, como se dizia na altura.
Hoje viajo com alguma frequência no Alfa para ir a Coimbra e já não uso o comboio diariamente nas deslocações para o trabalho, mas guardo memórias de viagens fabulosas no sul da Polónia em direcção a Zakopane, pela Itália, Finlândia ou em Inglaterra, sem falar na volta do Tua, impressionante, e muitas, quase todas, as linhas de Portugal.
Viajar de comboio tem um romantismo que nenhum outro transporte consegue atingir, principalmente se os companheiros de viagem forem gente simpática.

Medos

O que é o medo? Difere de pessoa para pessoa, de idades, de situações, de locais, de mil variáveis. Eu já o vi e não gostei, não gostei mesmo nada.
Já aqui descrevi como conduzi em estradas perdidas no interior norte do país debaixo dum temporal sem ver um palmo à minha frente e ele estava lá, bem denso a envolver-me.
Arrependo-me profundamente de ter gozado com insistência com uma colega que tive em tempos e que dizia ter medo de pombos. A construção da nova biblioteca obrigava-nos a deslocações constantes entre a velha e nova. O percurso era metade se atravessássemos um jardim, mas ela dava sempre o dobro dos passos para evitar os pombos que ali andavam. Um dia insisti de tal forma, afirmando que aquilo não era mais do que uma parvoíce da cabeça dela, que demorávamos um tempo infinito a fazer um percurso que podia ser feito em poucos minutos e mais todos os argumentos que me lembrei, que consegui arrastá-la pelo meio do jardim. À aproximação dos primeiros pombos ela parou como se tivesse visto todos os figurantes de Thriller a avançarem para ela, começou a tremer ligeiramente, ficou branca e simplesmente urinou-se pelas pernas abaixo. Ainda hoje me sinto mal quando penso nisto.
Uma outra situação limite – limite, limite, mesmo – aconteceu com uma amiga que tem medo de cães. Isto dito assim não explica o tamanho do medo, e mesmo que se saiba que ela espera o tempo que for preciso que um qualquer representante da raça canina se afaste antes de ela passar e que telefona para casa a pedir que a vão buscar ao carro, estacionado em frente da porta, porque não consegue dar dois passos à vista dum cão, pensamos que há muita gente com estas manias. Mas esta pessoa, jovem mãe a empurrar o carrinho de bebé em direcção ao carro, quando viu um cão correr para ela entrou em pânico de tal forma que entrou no carro e deixou o carrinho do bebé cá fora… com o bebé no carrinho. Conhecendo-a e sabendo como é com os filhos, isto é um nível de medo inexplicável e duma solidez que eu nunca experimentei, felizmente.
Ontem à noite tive que levar o meu sobrinho ao médico: não conseguia engolir, queixava-se dos ouvidos, estava febril e rabugento. Prevalecendo-se da doença esteve ao meu colo o tempo inteiro, de modo que hoje estou negra de levar com os pés dele nas pernas. A irmã foi connosco e na sala de espera agarrou num caderno e começou a desenhar, pedindo-me para lhe dizer que desenhos havia de fazer. Às tantas resolvi passar dos objectos para os conceitos e pedi-lhe que desenhasse a Alegria e a Tristeza.
Colocou-se no interior dos dois desenhos, o que significa que expressou a sua própria interiorização dos conceitos e não meramente uma visão genérica.
A Alegria foi expressa com um baloiço e com a sua imagem a dizer ié. A Tristeza foi expressa com a sua imagem a chorar e um homem a passear um cão.
Também a minha sobrinha tem um medo pavoroso de cães e só quem assiste a certas cenas consegue ver o medo consubstanciado diante de nós, o que acontece por exemplo quando ela sobe por nós acima – literalmente – empoleirando-se no nosso pescoço em milésimos de segundos e sem que consigamos perceber como aconteceu aquilo!
Esta categoria de medos concretos, com os quais somos confrontados diariamente, ao contrário de coisas genéricas e universais, como medo de morrer, de ser assaltado, entre outros, não me encaixa: tenho medo de perder o raciocínio, de perder competências, de me tornar inútil, mas não tenho medo de uma coisa específica. Todavia, vivo receosa com a própria vida…
Resta dizer que os desenhos são os originais, escritos por ela, e o erro deve-se ao facto de ela ter seis anos...

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Sou um escravo...

O Duarte está a sentir na pele o que é ser obrigado a cumprir horários, ordens e a trabalhar no duro. Não está a gostar. Pois claro.
As reclamações são imensas e hoje levantou-se com uma suspeita dor de ouvidos a que fiz orelhas de mercador. Depois alegou que era por causa do dente que lhe estava a nascer, o do siso, o que só prova como este nome é mentiroso!
Lá abriu a boca e constatei que sim senhor, aos dezasseis anos está a nascer-lhe mais um dente; eu duvido que a fada o vá visitar, pois as reacções à aprendizagem de vida que lhe foram impostas com o trabalho, e a que ele teima em chamar castigo, não estão a ser as melhores.
As constantes mensagens que recebe, com convites para ir à praia neste pré-verão, não ajudam em nada e só o lembram que quando todos estão a descansar e em férias, ele está a trabalhar.
As discussões sobre os motivos que ali o colocaram são de surdos, com ele a querer fazer valer razões que não existem e a insistir que a culpa é minha e do pai.
Ser mãe dum adolescente está a desesperar-me…
As prioridades estão invertidas e há uma cegueira voluntária sobre o futuro que tem crescido nos últimos tempos e perante a qual me sinto impotente. A relação com o pai não ajuda o que me deixa, como sempre, sem força nos braços.
Acho que pela primeira vez na vida vivo num total desconhecimento do caminho que percorremos e isso assusta-me mais que qualquer outra coisa.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Domingo de férias

Embora já esteja melhor e os inquilinos dentro do meu corpo, a que chamamos normalmente órgãos, tenham acalmado, passei o domingo inchada como um pavão. Motivo? O facto dos meus sobrinhos terem passado o dia comigo.
No dia anterior tinham feito uma grande caminhada mas isso não os impediu de subirem até ao castelo de S. Jorge, de pularem e, essencialmente, e é aí que me enlevo, de rirem à gargalhada. A minha Violeta já não quis ir até ao Terreiro do Paço, onde ele queria ir (?!) e disse, já depois das duas da tarde, que estava cansada.
Voltámos a apanhar o metro e fomos a casa, mas por pouco tempo, que esta malta retempera forças mais depressa que eu e foi um toca e foge, em direcção ao par amoroso do momento: Gnomeu e Julieta!
Até agora ela nunca tinha manifestado grande interesse por mim, ao contrário dele. Porém, felizmente as coisas mudaram e sinto que me transmite calor, que ela expressa em abraços espontâneos, a meio do nada, talvez também porque o vê a ele fazer o mesmo.
Um abraço destes é um mergulho no mar em dias tórridos, é uma brisa no meio do calor, é um copo de água para um sedento, é comida para esfomeados. Não consigo explicar o que sinto quando eles me apertam e encostam a cabeça ao meu peito. A confiança é total e a entrega deles é mágica.
E eu, eu sou a felizarda que tem a sorte de ter estes garotos de braços estendidos a ir comigo para qualquer lado, de olhos fechados.

Os meus primeiros amores

De alguém que foge de casa aos dois anos e meio para ver o homem na lua não se estranha que se tenha apaixonado por um perfeito desconhecido, estrangeiro ainda por cima, e com um nome muito distante dos Josés e Joaquins que pululavam na altura. O eleito chamava-se Yuri Gagarin e o meu amor e dedicação advinha do facto de ter sido o primeiro homem a ir ao espaço. Quando alguém me disse que ele já tinha morrido fiquei tão petrificada como quando o senhor Casimiro, dono da drogaria lá ao pé de casa, me convenceu que o Pai Natal não existia! É claro que o pobre senhor Casimiro acabou por morrer na ignorância, mas isso é outra história…

Demorei anos a recompor-me do choque da morte de Gagarin; por outro lado, Neil Armstrong, que eu tinha visto na televisão bem cedo na vida, não me tinha dito nada, não sentira arrepios, nada. Em plena perdição, a sonhar com marcianos, eis que encaro com o homem da minha vida, um ser de outro planeta, pois de onde mais poderia ser?, e que dava pelo nome de Spock. Vinha de Vulcano, que eu logo localizei no meu imaginário como sendo a terra das pessoas mais inteligentes do universo.
Em vez dos artistas de cinema e cantores que as minhas amigas e colegas arrancavam das páginas da Bravo e metiam no meio de livros e cadernos, eu tinha o Spock e algumas paisagens dos antípodas. Fiz a colecção de cromos da série não para a ter direitinha e cheia mas para coleccionar a cara dele em várias posições; arranjei um poster que coloquei meio escondido da vista pois nem todos os que ali entravam eram dignos de o ver.
Quando as conversas deambulavam por namorados e rapazes em geral eu dava conselhos às outras, pois para além do meu apaixonado ser de outro mundo, ai de quem se atrevesse a dizer sobre ele uma palavra. Assim, acabei por ter também um estatuto à parte, a namorada do Spock, aquela meia maluca, maning de esquisita.
Se as minhas tias tinham namorado à distância os meus tios que estavam no Ultramar - durante anos pensei que Ultramar era um país e não podia imaginar um nome melhor, que não só continha a palavra Mar como se enrolava na boca – então eu podia namorar um Vulcano. Nos dias de hoje chamar-se-ia um upgrade!
Um dia o nosso esquentador avariou-se. Foi lá um homem consertá-lo, desaparafusou-o, tirou-lhe a cobertura branca e colocou-a em cima da mesa da cozinha e foi com horror que verifiquei que o planeta do meu amado era também nome de esquentadores. Como era aquilo possível? Ah, espera, Vulcano era um Deus romano, lidava com o fogo e trabalhava numa oficina! Céus, o meu Spock se calhar era mecânico… que desilusão. O malandro enganava-me com a sua superior inteligência, levava-me com aqueles raciocínios lógicos e afinal era um ferreiro cuja forja eu já via a lançar faíscas por sobre os meus livros e, horror dos horrores, a queimá-los!
Com um desânimo incalculável, depois dum morto e dum alienígena, decidi que talvez não fosse má ideia namorar com… um rapaz, daqueles normais, estilo vizinho ou colega da escola.
E como se diz, à terceira foi de vez. Acontece que o pai do meu filho nunca percebeu que lugar era aquele que ocupava, qual a estirpe dos seus antecessores e que concorria ao lado de Alexandre e Aquiles, entre outros. Uma pena.

Festas de anos


Felizmente há quem se lembre que há locais para festas de anos para além do McDonald’s! O jardim duma biblioteca parece-me uma escolha cinco estrelas!
Mas o que fazer para entreter as crianças? Como garantir que elas não fogem, que não desatam a correr cada uma para seu lado, causando pânicos e, pior ainda, que deixam o bolo intacto, obrigando-nos a comer fatias de bolo uma semana inteira?
Pais e mães pensem nos jogos tradicionais que se podem organizar, nos concursos de lenga-lengas, de cantigas, nos exercícios de ginástica – esqueçam lá os vestidos bonitinhos e as camisas esticadas e bem metidas dentro do cós dos calções! – e deixem espaço também para eles brincarem espontaneamente, cantarolando e batendo nas mãos uns dos outros, enquanto rodopiam.
Como agora há a mania de oferecer prendas aos convidados, uma forma de ocupar o tempo de maneira didáctica é serem eles próprios a fazerem a sua prenda. Como? Experimente comprar um saco ou dois de terra e tantos vasos quantos os convidados. Dê um vaso a cada um com um pincel e tinta. Enquanto esperam que seque façam um concurso de cantigas. Depois de pintados os vasos faça-os encherem-nos de terra com uma planta lá dentro e ofereça a cada um a sua produção artística. Não se esqueça de mencionar que a roupa deverá ser adequada ao trabalho e boa sorte!
A escolha de locais ao ar livre é sempre preferível e se tiverem terra ou lama (com um simples banho, sai tudo!) ainda melhor. Qualquer baldio é um local fantástico para fazer uma festa de anos: terra, água, plantas, alegria e paciência da parte dos pais...

Dias Difíceis

Edith, a mãe de All in the family, perguntava um dia ao seu inesquecível marido Archie Bunker se o período designado, para as mulheres, como menopause, nos homens seria womanpause. Infelizmente a piada não faz sentido em português e a maioria das menopausas não têm sequer piada em qualquer local do mundo. Mas fazem parte da vida.
Ao longo dos anos as meninas eram ensinadas a não falar de certas coisas e se hoje em dia os namorados e maridos vão ao supermercado comprar tampões com a naturalidade de quem compra uma garrafa de água, isso nem sempre assim foi.
Sangue a jorrar dos pipis era tabu e a palavra menstruação evitada a todo o custo. Não sendo uma palavra bonita mas sempre é melhor que qualquer alternativa – à excepção do período – como o clássico Chico, expressão péssima e cuja origem desconheço.
Mas se na adolescência nos ensinavam a calar e a esconder conversas menstruais, porque ao fim e a ao cabo de sexo se tratava, ainda hoje pouco se fala da menopausa. Os calores são causados por um andamento mais rápido, as hemorragias devem ter a ver com qualquer coisa não se sabe bem o quê, a irritabilidade é da falta de férias e muitas outras desculpas porque no fundo as mulheres envergonham-se de estar na menopausa como as raparigas se envergonhavam de estar menstruadas.
A menstruação era associada a qualquer coisa suja, porca e a menopausa é sinal de velhice, quanto menos se falar do assunto melhor! Mais ainda, - e isto dá-me uma vontade de rir especial – eram assuntos sussurrantes, que deslizavam nas conversas mas em voz baixa, para que ninguém ouvisse.
Hoje já não é bem assim e as raparigas afirmam estar com o período com naturalidade e os tampões não andam escondidos no fundo das malas. Isto lembra-me a mala da minha irmã onde desde há anos mora uma caixa de tampax que sempre que se gasta é imediatamente substituída por outra!
O ciclo fecha-se com a actuação da menopausa que dá vontade de muita coisa, mas não de bater palmas. As mulheres falam dela ainda em meias palavras, através de olhares cúmplices que esclarecem as outras sobre o motivo do mal-estar ou dos calores e só diante do senhor doutor é que as palavras são ditas, embora de olhar recolhido e preso ao linóleo do chão, que isto de falar destas coisas, mesmo com médicos, ainda tem que se lhe diga!

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Paralelo 38N

Hoje é o primeiro dia de trabalho do meu filho. Quando o entreguei ao pai, que o levou de carro por ser o primeiro dia, senti-me a entregar alguém…
O trabalho faz parte do castigo por as notas escolares não terem sido as esperadas. Quando lhe comunicámos a decisão ele mostrou-se forte e decidido, mas ontem estava triste e hoje estava nos limites da nervoseira.
Nunca sai de casa ao domingo à noite mas ontem apareceu o Filipe para dar apoio e deixei-o ir ao café, depois de fazer a barba, que a apresentação conta e muito e hoje de manhã já sabíamos que era para despachar.
Para além de ser castigo assumido, também é uma aprendizagem. Ele já tinha trabalhado em tempos, com ordenado e tudo, mas os patrões eram os tios e a empresa era familiar. Trabalhou no duro e lembro-me que a seguir fomos de férias e ele andava na fase de coleccionar camisolas de futebol. Estávamos em Itália e ele passava pelas camisolas via o preço e dizia:
- Esta custa dois dias de trabalho!
Com estas comparações ia adiando a compra, dando espaço à reflexão, ou seja, o objectivo tinha sido atingido. Acabou por comprar uma e, confesso, comprei-lhe outra às escondidas do pai. Foi o presente dele por ter optado por uma atitude calma e ter pensado duas vezes antes de gastar o que tinha ganho. Sempre vi naquele comportamento um gastar e não um esbanjar.
Agora, com férias muito ansiadas mas que vão ser passadas a trabalhar, estou expectante sobre o que vai acontecer e sei que esta noite não vai ser fácil. É a vida.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Solidão

Zeus condenou o gigante Atlas a carregar o mundo nas costas para a eternidade.
Há pessoas que se assemelham ao Atlas, não por carregarem o mundo, mas por arrastarem a solidão.
Essa solidão adensa-se por exemplo em salas de espera de hospitais, onde chega a tornar-se sólida, mesmo que as pessoas estejam habituadas a estar sós. Até podem ter companhia, mas estando acompanhadas, estão sozinhas, como se estivessem num deserto ventoso onde o vento não se decide para onde soprar e as empurra para todos os lados, tentando deixá-las cair.
As dores e o mal-estar que sentem não são nada, comparados com a tristeza de terem que se encostar ao vazio de uma cadeira de hospital, de fazerem um chá sozinhas, de se esforçarem aos limites para ir à farmácia.
Mesmo que os amigos se ofereçam para fazerem certas coisas, para fazerem companhia, estão no lugar que lhes compete, de ajudar. Só isso, mas falta fazer muito mais.
Lembro-me que quando era casada o meu marido agia como se fosse um médico frio e distante que mede a febre, estica a palma da mão autoritária com os medicamentos, corre as cortinas e cria a penumbra para descansar. Nunca me passou a mão pela cabeça, numa carícia de desejos de melhoras, nunca se deixou ficar ao meu lado deixando o silêncio mostrar como queria que eu melhorasse.
É verdade que não tinha que me preocupar com horários de medicamentos porque sabia que ele não se esqueceria, as refeições eram adequadas, bastava eu levantar-me para ir à casa de banho e quando regressava já a cama estava feita de novo, era perfeito como enfermeiro, mas deixava a desejar como marido.
O sol hoje espoja-se com intensidade nas esquinas dos prédios e da memória como se quisesse desfazer o negro da solidão, mas não consegue, será sempre fraco demais. É quente mas não tem o toque da pele, faz-nos transpirar mas não respira, faz companhia mas não resgata da solidão.
O ar de Verão que o dia hoje trás vestido remete para dias felizes de férias e praia e viagens e passeios e cumplicidades. Remete para o passado.
Oiço as acusações de estar silenciosa e sei que são verdadeiras, mas há momentos tão fundos, tão tristes e infelizes que me obrigo a não trazer seja quem for para dentro deste abismo.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Agrupamento 119

O nome lembra o título dum filme passado num quartel de bombeiros mas é o número do agrupamento de escuteiros de Coruche, ao qual pertencem os meus sobrinhos.
No sábado fomos assistir ao sarau do agrupamento onde entraram caminheiros, pioneiros, exploradores, lobitos e chefes e a família bateu palmas.
Os meus sobrinhos pertencem a uma alcateia! Adoro a ideia!
Há muitos anos fomos inscrever o Duarte nos escuteiros mas foi-nos negado o acesso, primeiro porque ainda não tinha idade apesar de ter uma altura que o remetia para aluno da quarta classe; a segunda negativa foi pelo facto de ele não ser baptizado e de nós mantermos a nossa determinação que só o seria mais tarde, se ele próprio o entendesse, quando tivesse discernimento para tal. Se bem me lembro havia um agrupamento que aceitava garotos nessas condições mas ficava completamente fora de mão. Assim, nunca foi escuteiro, com pena minha; agora, regozijo-me a ver os dois lobitos (eu chamo-lhes lobinhos, acho mais ternurento e, a bem da verdade, ela por vezes parece uma loba!) compenetrados na sua missão, vestidos a rigor, cumprimentando-se e fazendo parte duma comunidade que se dedica aos outros.
Para além do espectáculo, onde não faltou um mágico que nos fez dar mais gargalhadas que ohhhs…, quero deixar o meu apreço aos dirigentes, em especial ao Chefe Francisco que, para além de ter cara de escuteiro, saber cantar e ser muito falador é duma enorme dedicação à causa e… o meu sobrinho gosta dele!
Assim sendo, Chefe Francisco, só por saber isso, e não tendo idade para ser sua tia, mas posso ser sua Quica! E olhe que isto não é para qualquer um!
Se quiser explicações, peça-as aos seus Lobitos pintainhos!
Parabéns!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Odeio greves!

Actualmente e desde há algum tempo só uso diariamente o metro. Porém, desde há semanas (que me parecem uma eternidade) que ando a saltar do metro para o comboio e vice-versa, e vice-versa também para os utilizadores do comboio. Porquê? Por causa das malditas greves!
Como só tenho passe de metro, quando os senhores metropolitanistas fazem greve, lá tenho que comprar bilhete de comboio e já perdi a conta às vezes em que isso aconteceu ultimamente.
Acreditem que respeito imenso os funcionários, entre os quais tenho primos, amigos e conhecidos, mas já chega!
Acho que devem ganhar três vezes mais – É três vezes mais que querem? Seja! E se não for, desculpem ai, é que estou tão cansada de me levantar ainda mais cedo, de chegar a casa ainda mais tarde por causa das vossas greves, que talvez me baralhe! – sou solidária com o aumento dos descansos, estou cansada de ler e-mails onde afirmam que não recebem os três mil euros que se diz que recebem e também estou cansada de não vos ver marcar greves nos inícios do mês… porque será…?
A bem da verdade, as empresas acabam a brincar com os clientes – que não têm grande remédio senão ser clientes deles – pois enquanto não andam não têm que fazer manutenção nas linhas, não pagam ordenados, não há acidentes, não têm que pagar seguros e o pessoal vai comprando uns bilhetes no vizinho metro quando são os comboios a parar e na amiga CP quando é o metropolitano a fechar portas.
A clientela obrigatória compra o passe sem o qual não passa nas maquinetas – já agora façam aquilo também para gordos que vocês não discriminam o dinheiro que recebem também não o devem fazer nos passageiros! – e depois anda a comprar bilhetes avulso noutros meios de transporte o mês inteiro.
Por amor de Deus, Alá, Buda, Júpiter, Ganesha e todos os que queiram parem com isso que já não se aguenta.
Nós valemos assim tão pouco que não se importem que viajemos enlatados, com pessoas a sentirem-se mal dia após dia devido aos apertos, com outros a saírem magoados de virem com as costas apoiadas nos ferros a viagem inteira e outras situações semelhantes? Para falar com franqueza a aquisição do bilhete supõe umas determinadas condições e se essas condições não estão reunidas, nem por sombras, então podemos não comprar bilhete…
Senhores maquinistas, revisores, factores e outros funcionários dos transportes, a paciência tem limites, ao contrário da vossa incompreensão para com os passageiros que são obrigados no início de cada mês a comprar passe!

O anúncio

Este texto podia chamar-se Crónica Anunciada da Publicação dum Anúncio, mas ficava com ar de aliteração.
Disseram-me que iam publicar um anúncio num jornal nacional sobre mim. Primeiro pensei que brincavam. Depois percebi que era a sério e tentei saber o que diria. Fiquei no escuro. Até ontem, quando o li.
Não, não vou reproduzi-lo aqui. Não é bonito andarmos a mostrar os elogios que recebemos. Mas não podia passar sem falar dele. O autor do anúncio é amizade recente e distamos muitas centenas de quilómetros, mas sentimo-nos próximos e aquece-nos o fogo de muita coisa em comum.
Confesso estar habituada a que me façam elogios profissionais, um ou outro sobre o que escrevo, sobre a beleza e /ou diversidade dos meus sapatos e/ou malas, sobre as diferentes cores de cabelo que vou usando, sobre os pratos que vou inventando e, porque não dizê-lo se é verdade, sobre as pernas.
Mas, à excepção dos meus amigos I. e V., que exageram francamente nos elogios à minha pessoa, raros, raríssimos, são os que ouço, os que vejo manifestados.
Ora o anúncio vem em sentido contrário e faz-me um elogio a mim pessoa, toda, inteira.
Nos elogios que costumo ouvir eu sou uma figurante: são os sapatos que são bonitos, é o comer que é bom, é o trabalho que está bem feito; por acaso, eu também ando por ali, mas é por acaso.
O anúncio deu-me vontade de rir, como uma camponesa se rirá se se vir vestida de festa, vendo-se deslumbrante, brilhante, exuberante. É claro que salta logo a pergunta, Mas aquela sou eu? Ou são os olhos de outrem que assim me vêm?
Deliciada com a surpresa, encantada com a leitura, deitei a perguntas para trás das costas e deixei-me envolver em sorrisos.
Obrigada.

O par de sapatos

Através do Criar Afectos os meus pais foram no fim-de-semana em passeio a Viana do Castelo.
Sábado às seis da manhã estavam pontuais no local de encontro, meteram-se na cáminete e lá foram eles mais uma mão cheia de amigos e companheiros. Cantaram até à rouquidão fado, pimbas, cantigas regionais e tudo o que se lembraram. Chegados a Viana foram depositados à porta do hotel com hora marcada para a recolha dos convivas, que o Museu da Ourivesaria já esperava por eles.
O atropelo da subida para os quartos não deve ter sido muito grande porque aquela malta já não tem idade para correrias mas, segundo o relato, rapidamente subiram, abriram as malas para esticarem os fatos, as sedas, os lamés e lantejoulas que usariam no baile que se seguiria ao jantar nessa noite.
Não conheço alguém tão vaidoso como a minha mãe e imaginei logo que levaria na bagagem roupa suficiente para uma tournée de seis meses à Austrália e que faria as delícias e a inveja das amigas.
No caminho trajaram roupa prática, ele ténis e ela botas de caminhar, onde os atacadores ligavam com os brincos e nada ficava ao acaso, cinto, meias, colares, tudo a condizer.
Ora quando chegaram e ela abriu o baú e começaram a sair saias e lenços como pombas de dentro da cartola de um mágico, saiu também um par de sapatos para o meu pai usar no jantar dessa noite que deviam ser calçados com o belo fato desportivo que lhe dá um ar jovial e descontraído. O pior foi só então ela ter reparado que um sapato era preto, quadrado na biqueira e outro castanho e bem redondo!
Ao telefone o meu pai contou-me o disparate a rir-se e dizia que talvez os calçasse, sim, porque felizmente, ela não trouxera os dois do mesmo pé!
Resta dizer que o homem foi ao jantar de ténis porque não encontraram uma casa aberta para comprar um par de sapatos, mas quem o conhece sabe que ele adorou a cena, não se importou nada e agora vai gozar o pratinho até à exaustão…

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Juntam-se todas as cores e fazem-se sorrisos

Juntam-se todas as cores e fazem-se risos
Que não se cansam e nem adormecem
Faltam promessas que não amanhecem
Lambuzam-se olhares que ficam cativos

Olhares que brilham ainda sem sisos
Enquanto os adultos, todos, endoidecem
Enquanto as esperanças, todas, desfalecem
Mesmo com tantos, ai tantos avisos

São empurradas para um incerto futuro
Por mãos que não deviam sair do leme
Distribuindo amor, carinho e certezas

Mas caminham ignorantes rumo ao escuro
Não acreditando que alguém as algeme
São apenas crianças, não têm impurezas

O desaparecimento dos meus pais

A meio da tarde de ontem telefonei aos meus pais para saber como tinha corrido uma consulta médica a que a minha mãe tinha ido. Ambos os telefones estavam desligados. Ao fim do dia de trabalho voltei a telefonar e o resultado foi o mesmo. Insisti para o telefone de casa e nada. Que estranho, pensei.
Chegada a casa e arrastando uma fome descomunal fruto dum almoço mais que ligeiro, enquanto me descalço vou ligando outra vez. Ninguém atende dos três telefones. Já passa das oito da noite, a situação é de total excepção e a lembrança da minha mãe mencionar no dia anterior que as dores do meu pai estavam assoberbadas, começa a martelar-me na cabeça.
Resolvo falar para as amigas. Sim, viram-nos, mas foi de manhã ao pequeno-almoço no café, a partir daí não mais souberam deles.
Não querendo preocupar a minha irmã que mora longe, mas não vejo outra alternativa senão verificar se ela sabe alguma coisa deles. Não sabe, ainda não lhes ouviu a voz durante todo o dia.
A minha prima Teresa, que mora perto, oferece-se logo para ir lá casa. Enquanto isso eu volto a calçar-me, meto-me no carro outra vez, vou ao hospital e, qual detective, vou dando voltas devagar no parque de estacionamento para ver se vejo o carro.
Entretanto a Teresa liga-me e diz-me que não estão em casa e as janelas estão escancaradas. Na mercearia em frente não os viram. Vai ao café e dizem-lhe que eles estiveram lá depois do almoço, antes da consulta.
Continuo a cometer a ilegalidade de falar ao telefone e conduzir em simultâneo; conduzo devagar a espiar cada matrícula, cada carro preto pequeno, paro para deixar passar ambulâncias, avanço novamente, nada. Volto a falar com a Teresa. São nove horas da noite. O que faço agora? Não consigo explicar a sensação de pânico, é mais forte do que ser assaltada, e eu sei do que falo. O facto de eles serem pessoas que telefonam a propósito de tudo e mais alguma coisa deixa-me ainda mais confusa, apesar de obrigar os pensamentos negativos a afastarem-se. A fome desapareceu e foi substituída por um mal estar nos pés que atribuo aos chinelos de enfiar o dedo que, sem pensar, enfiei quando saí de casa.
Com o coração a cem à hora, decido estacionar no parque do hospital e ir perguntar se algum deles lá deu entrada pois, se foi o meu pai, então o carro não pode estar lá pois a minha mãe não conduz. Antes de encontrar um lugar para parar, o telefone toca e verifico que é o número da minha mãe. Ia caindo quando ela me disse que tinham desligado os telefones porque tinham estado… numa sessão de poesia!
Desde que eu ligara à minha irmã ela não parara de lhes tentar falar; assim que eles ligaram os telefones, entrou uma chamada dela que lhes disse para me ligarem imediatamente. Lá se fartou de pedir desculpa, enquanto eu lhe dizia que não se esquecesse de telefonar à Teresa, às amigas e a todos lá do bairro que estavam preocupados com eles.
Se por um lado senti vontade de dizer ufa… por outro coloco a pergunta, mas quantos filhos é que eu tenho?