quarta-feira, 31 de julho de 2013

Em nome do pai

As férias do Duarte com o pai correm tudo menos bem. Os telefonemas nocturnos são em modo raivoso, ansioso, descontrolado e começo a não saber o que dizer.
Argumento que o ano tem 52 semanas e que uma passa a correr, ele contra argumenta que aquela não é a família dele, que o pai amua por tudo e por nada, que não falam, logo, está completamente sozinho.
Emprega um tom desagradável e peço-lhe que não fale assim comigo, pede desajeitamente desculpa e diz que a culpa é da situação que o deixa sem vontade de nada.
Está num sítio onde já esteve com os amigos e o pai impõe o recolher obrigatório às onze e meia da noite, o que lhe parece a morte das memórias, tão boas que pareciam ser, e agora nem parece que foi ali que esteve. Liga para Lisboa, para outros sítios do Algarve onde estão amigos e todos se estão a divertir, com tempo para as famílias, para a praia e para eles próprios, coisa que ele não tem. Pediu para visitar uns amigos numa terra próxima e o pai não autorizou, coisa que o deixou destrambelhado.
A alvorada é bem cedo, pois os hábitos de praia só permitem que se lá esteja até ao meio-dia. Ora a essa hora gosta ele de se levantar, cedo acorda o ano inteiro, de modo que a discussão começa de manhãzinha.
Doeu-me ouvi-lo dizer que se sente mais sozinho que nunca. Tento sempre equilibrar as coisas e dar desconto, mas ontem foi como se tivesse sido picada por todo um enxame, a vibração da voz dele era intensa, as lágrimas, sentia-se bem, eram iminentes.
Insisto no desconto que acho que tenho que dar? Será exagero porque não gosta mesmo nada da namorada do pai e tem que aturar o filho dela, com metade da idade dele? Sem saber o que dizer, a roer-me por dentro, arrisco uma opção, estúpida, percebi imediatamente, ao perguntar se não havia por lá pessoas da idade dele. Respondeu-me com alta voltagem de decibel – mesmo surda ouvi perfeitamente – que ele não tinha dez anos para ir brincar na piscina e fazer amigos… pois claro, mãe burra…
Digo-lhe que peça ao pai para irem passear de barco, ver as grutas, andar de banana, sei lá, na praia há sempre muitas alternativas. Estás a esquecer-te que o pai não gasta um cêntimo que posso poupar, verdade? A resposta já é minha conhecida, mas ainda assim, arrisquei.
Oscilo entre um enorme desconforto pela situação dele e um certo mal-estar pela forma como fala comigo. Será só comigo? Por um lado espero que sim – não o quero assim com o mundo! – por outro lado espero que não – que lhe fiz eu?
Lembro-me de mim própria na idade dele e arredores e num certo mar de incompreensão que parecia molhar toda a gente em relação a mim e acho que sei o que ele sente. Porém, eu tenho a idade dele com alpendres, avançados, anexos, caves e sótãos e sou mãe, o que me faz sentir que devo continuar a insistir para que tenha calma, e a seguir ocorre-me uma palavra terrível… para que faça o sacríficio. Mas se é sacríficio, deverá fazê-lo? Em nome de quem?
Diz-me que o pai acha que é a prendê-lo em casa que ele fica bem, e que nem se apercebe que estão lado a lado fisicamente e distantes como galáxias ao mesmo tempo.
Não me dês na cabeça mãe, estou a desabafar contigo, se não for contigo é com quem?
Perante isto quero que o silêncio que se segue transmita um abraço forte e apertado, sem dúvidas nenhumas, mas os telefones ainda não deixam receber amor de mãe.

Beijos e televisão

A rapidez, a novidade, o imediatismo e a instantaneidade são características da sociedade actual. Tem tudo que ser para ontem. As teclas acelaram-nos a vida no telemóvel, no computador e em todo o tipo de equipamento ou gadget, às centenas, e que diariamente são substituídos por outros mais rápidos, lá está, com mais memória, com mais não sei o quê.
A televisão que não esperava por nós e nos obrigava a ir a correr para vermos determinado programa parece ser coisa da Idade da Pedra, agora gravamos tudo, várias coisas em simultâneo, paramos a emissão – nós!, nós paramos a emissão, o poder que isto dá é inacreditável! – andamos para trás no tempo sendo-nos permitido ver o que já deu, mediante o carregar numa ou noutra tecla.
Porém, os conteúdos não acompanham esta actualidade: em dois ou três dias de verificação em vários canais dou com a Ellen DeGeneres a fazer um programa especial para o Dia da Mãe, o Conan O’Brien espanta-se com um convidado que vai falar do Bosão de Higgs, a Guerra dos Tronos (Game of Thrones), Segurança Nacional (Homeland), o Sexo e a Cidade repetem e repetem e repetem, o Dexter mata quem já matou e quase conseguimos diagnosticar doenças raras de ver tanta vez o Dr. House. E não estou a falar da Tv Memória, como lhe chama o meu pai, (que também diz TotoMilhões, que é muito engraçado e consubstancia um dois em um).
Na programação infantil passa-se o mesmo: vejo os meus sobrinhos a saberem o que se vai passar porque estão a rever.
Assim, para além das gravações múltiplas, do andar para trás vários dias na programação, das repetições no próprio dia para diferentes gamas de tele-espectadores, os próprios canais ainda repetem – várias vezes – os programas como se quisessem antecipar os nossos desejos ou frustrações por não termos podido ver certa coisa, por nos termos esquecido de gravar, por não sabermos andar para trás no tempo. Frase estranha esta…
Bem sei que os direitos não se compram com feijões, mas enjoa um bocado. Que me perdoem o V. e a I. sempre atentos à dinâmica política e económica, mas eu vou vendo filmes, muitos deles dez e mais vezes, muitas vezes só uma deixa, uma fala, um beijo, uma paisagem.
Durante anos – no tempo dos vídeos que, para o Duarte por exemplo, é quando as galinhas tinham dentes – a Margarida emprestava uma cassete muito especial às amigas, cassete essa que rodava de mãos pois era preciso partilhar e aquilo tinha dado uma trabalheira a fazer: eram só beijos de cinema, uns a seguir aos outros, de filmes muito diferentes onde não havia nacionalidades porque o beijo é universal, assim como o olhar que o antecede.
Eram beijos franceses, beijos roubados, beijos pregados – o do Richard Gere na Julia Ormond em O Último Cavaleiro era desta categoria e sublime!, beijos desesperados, beijos de despedida, beijos de reencontro, beijos longos, beijos rápidos, beijos quentes, beijos ociosos. Uma pessoa derretia-se a ver a cassete e, como se não a tivéssemos já visto dezenas de vezes, quando lha entregava fazíamos uma sessão imediata em casa dela, eu já cheia de pena de me separar de tanto amor. Era lindo, tanto suspiro junto, e por muitos namorados que tivessem passado pelo sofá da Margarida, todos juntos não suspiraram tanto como nós a ver a cassete dos beijos. Os Cd’s e os DVS’s vieram dar cabo do amor e quando os leitores de vídeo se reformaram nunca mais sonhámos como naquela altura.
A cassete fazia de nós dependentes da televisão mas apenas como meio para chegar aos beijos. Apesar de gostar de uma ou outra série que passa actualmente – confesso que não me importo nada, antes pelo contrário, de (re)ver O Sexo e a Cidade – o filme da minha vida nunca foi transposto tecnologicamente, não se lhe pode aceder, penso que se perdeu, tendo apenas ficado o rasto na nossa memória. 
Isto era televisão... era repetido mil vezes, os filmes estavam todos misturados, a montagem era péssima, mas isso que interessava? O conteúdo fazia-nos flutuar, voar, sentir e sonhar. 

terça-feira, 30 de julho de 2013

10 Reasons why you should NOT marry a foreigner

Nos meus momentos mais louros sonho em casar com um estrangeiro com o objectivo de ter um nome impronunciável. Nada de julgamentos, cada um com as suas manias!
Enquanto vivo satisfeitíssima sem marido de parte nenhuma, tenho duas pessoas amigas casadas com estrangeiros, um português com uma brasileira e uma portuguesa com um letão e ambos me ocorreram quando li um artigo sobre as Dez razões para não casar com um estrangeiro, coisa que a mim me parece ser completamente disparatada. Para provar o disparate, aqui ficam as razões e os meus argumentos para que ninguém lhes faça caso.
  1. Há sempre quem esteja longe da família. A minha sugestão é que mudem para um país onde não tenham família, de todo.
  2. Perder as tradições festivas. De facto ia ser uma pena não estar no Marquês de Pombal quando o Benfica ou outro qualquer ganhasse o título. Além disso, se bem me lembro, já sugeri mudar de país, logo adaptemo-nos aos novos costumes.
  3. Mal-entendidos culturais. Em Roma faz-te romano, rir é o melhor remédio e podíamos seguir enumerando frases e ditados. Ponham a inteligência e o bom senso a funcionar e não cuspam no prato.
  4. E se nos divorciamos? Volta tudo à casa partida, como se tivessem sido umas férias longas, um período de emigração, uma experiência de onde se devem retirar e reter os elementos positivos. Quando se aceita um trabalho no estrangeiro vamos já a pensar no dia em que somos despedidos?
  5. Aprender a língua. Então uma coisa boa é transformada em algo negativo? Não sejam preguiçosos e sejam rápidos, mesmo que seja mandarim!
  6. Dá muito trabalho. Também passar a ferro e eu passo todas as semanas!
  7. Nunca se está completamente em casa. A casa é onde nós estamos, onde amamos e vivemos, logo, qualquer buraco do planeta pode ser a casa perfeita. Deixem-se de mariquices.
  8. Acabam as férias verdadeiras. Supostamente andarão sempre a ver a família, não é? Podem sempre convidá-la!
  9. As viagens de avião são caras. Pois são, mas são uma despesa ou um investimento? Além disso, isto é sobre casamento, e toda a gente sabe que isso é coisa que nem sempre dá prazer e obriga a sacrifícios.
  10. Uns avós estão sempre longe. Estão longe se o casalinho tiver filhos… certo?
Fora da dezena de razões vem uma última, destacada: quando morrer, onde será enterrado o cônjuge emigrante?
Eu percebo que a questão ocorra mas, mais uma vez, há que ser positivo: e que tal pensarem que daqui a uns anos será inventado o soro da imortalidade? Mesmo que não se descubra há que encarar a coisa de acordo com a tradição do local… podem ser daqueles que fazem danças em volta do caixão… que comem os mortos… que demoram 30 dias e 30 noites a fazer o velório… que os enterram na areia… que cantam e bebem uns copos valentes no enterro… sei lá… se nada lhes agradar, olhem, sempre se podem divorciar… 

Profissões deprimentes

A rádio menciona uma lista de profissões deprimentes, cuja autoria não retenho.
Em primeiro lugar estão os educadores de infância e os auxiliares em lares de terceira idade.
Concordo totalmente: a falta de reconhecimento dói p'ra caraças. 

Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

De um dia para o outro fiquei surda do ouvido direito. A surdez vem acompanhada com um zumbido e um barulho de fundo com qualquer coisa de metálico. Não dando dores, provoca um desconforto difícil de descrever, como se a loucura se tivesse mudado cá para dentro, qual concerto de metálica, qual quê. Este zumbido 24 horas por dia deixa qualquer um louco e vou reagindo da melhor forma possível, sem que, na grande maioria das vezes, as pessoas se apercebam da minha profunda infelicidade. Tenho sempre a música ligada para minimizar a coisa e adormeço de auscultadores nos ouvidos, caso contrário, podia jurar que estava dentro da antiga mira técnica!
Por outro lado, à medida que a situação se instala, provocou-me sentimentos de inferioridade e de superioridade, à vez. Os primeiros apoderam-se de mim quando vejo as pessoas a mexer os lábios como se quisessem fazer playback e se tivessem esquecido de ligar a música. A superioridade advinha do facto de, vá lá saber-se porquê, ouvir perfeitamente o que se diz… à distância: não ouço bem as pessoas que falam ao telefone ao meu lado, mas ouço perfeitamente o interlocutor lá do outro lado, gramo as conversas todas da vizinhança, nos cafés, nos transportes, sei o que os vizinhos estão a ver na televisão. No início teve graça, mas agora é um pesadelo, como se mil pessoas falassem comigo em simultâneo. Diariamente penso que se tivesse dores tomava uns analgésicos e aquilo passava, mas isto não. Nunca imaginei que pudesse ser tão incómodo, e não digo horrível porque me parece esquisito usar uma palavra tão forte com algo que nem se vê, mas apetece-me dizer. Quem me vê nem sonha o que estou a viver.
Interiorizo que eu é que estou surda, não os outros, e tento não falar aos berros. Ainda assim, a cozinha, que inundo diariamente com o rádio, está agora cheia que nem um ovo pois até a canalização, se tivesse voz activa, se queixaria. A televisão está no máximo e o Duarte diz que eu quero partilhar o que vejo e ouço com a rua toda.
Nunca mais gozei com o meu querido primo A. que, sendo surdo, fala com as pessoas com a cabeça ligeiramente à banda, para ouvir melhor, dando o flanco auditivo bom a quem conversa.
Isto demora há cerca de mês e meio e nunca fui tanta vez ao médico, com uma média de duas consultas por semana. Depois da medicação, veio o diagnóstico, isto só vai com uma intervençãozinha, coisa pouca, ainda assim, internamento, anestesia, essas coisas.
Isso está tudo muito certo mas, e o dinheiro?
Informo-me que terei que ir ao otorrino através de um pedido do médico de família, que não tenho. Depois terei que esperar a marcação da consulta que, quando vier, me leva a repetir os exames que ditarão a necessidade da cirurgia, cirurgia essa que tem uma lista de espera, como é óbvio. Como também é óbvio, quando me chamarem já eu estarei completamente surda e nem ouvirei!

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Lá fora

Os meus sobrinhos vivem numa barraquita com três andares. O primeiro conjuga a cozinha, a sala, uma casa de banho e um terraço, que dá pelo nome de pátio; no do meio ficam os quartos e duas casas de banho, no terceiro há um mega sótão, a que chamamos O Espaço, e que tem um escritório, uma sala, duas camas, biblioteca, zona de brincar, área para passar a ferro, entre outras valências.
A minha casa é parecida na medida em que também tem cozinha, casa de banho, e dois quartos, mas cabe tudo na sala deles.
Sempre que os miúdos me visitam – e vieram este fim-de-semana – digo-lhes que tenham atenção porque nos prédios normais, ao contrário do prédio deles, moram outras pessoas, aquilo a que se chama vizinho, e devemos ter em atenção para não fazermos muito barulho.
A minha sobrinha é uma ajudante maravilhosa – ele é mais técnico de televisão, ficando a mudar de canal indefinidamente, suponho que para confirmar que funcionam todos… - e ajudou-me nas compras, a arrumá-las, a estender roupa, a fazer mil coisas.
Ao fim do dia de ontem foram embora para casa dos avós, deixando-me sozinha e a fazer contas aos minutos que faltam para passar esta última semana de trabalho antes das férias, quando nos juntaremos.
Já sozinha dediquei-me a mais algumas, poucas, arrumações e estive a ver um filme. Depois do jantar, ainda de dia, decidi dar uma volta a pé e procurei uns chinelos que uso para este fim, quando a volta é curta. Procurei, procurei, procurei, mas não encontrei. Às tantas decidi telefonar-lhes a perguntar onde é que a garota tinha posto os chinelos, que me lembrava de lhe ter pedido para arrumar.
- Lá fora Quica, onde tu pediste que eu os pusesse.
- Mas lá fora já eu vi e não os encontro, estão lá os ténis, as sandálias, as botas, mas os chinelos não.
- Não Quica, lá fora não está nada disso, só lá ficaram os chinelos!
- Mas se eu estou aqui e estou a ver tudo isto de sapatos, como é que tu dizes que só cá ficaram os chinelos?
- Mas oh Quica, tu estás em que lá fora?
- O quê? Em que lá fora? Não percebo nada…
- Sim, tu só tens um lá fora que é depois da porta da rua, na escada, abre lá a porta que dá para a escada.
A meio desta frase já eu me dirigia para a porta, que abri. Ao cantinho, um por cima do outro, ao lado do tapete, estavam os chinelos. Baixei-me, apanhei-os e a rir continei a falar com ela:
 - Então tu puseste os chinelos na rua? Era na marquise do meu quarto!
- Quica, isso não é lá fora, é dentro! Eu bem te disse que tu só tens esse lá fora! Nós temos o pátio, as varandas e o hall de entrada por fora da porta, e eu perguntei duas vezes e tu disseste que sim, que era lá fora, por isso eu fiz o que tu pediste.
Despedimo-nos a rir, comigo a lembrar-me que esta é a miúda que, com quatro ou cinco anos, quando a professora disse que ela podia levar uma coisa em cada mão, ela corrigiu-a dizendo que podia levar mais pois para além das mãos, ela tinha dois debaixo dos braços…  

terça-feira, 16 de julho de 2013

Quase...

A logística do carro é acertada dia a dia uma vez que tem dois condutores, o meu filho e eu, e há uma série de aspectos que estão mais ou menos divididos: o depósito é, vá lá saber-se porquê, da minha secção, a limpeza da dele.
Se o Duarte usa o carro à noite, de manhã corro a rua com o olhar a procurá-lo e, frequentemente, encontro-o por trás do prédio, onde o estacionamento é em espinha, e o preguiçoso do meu filho prefere andar um bom bocado a estacionar diante do prédio, com manobras.
O meu vizinho do rés-do-chão, um velhote muito adoentado cuja família vive toda na África do Sul e a quem nós chamamos carinhosamente a Joaninha, porque está sempre à janela, um dia destes viu-me sair e depois do bom dia costumeiro, e de eu ter parado a perscrutar a rua, riu-se e disse:
- A vizinha nunca se lembra onde o deixa... tem de beber menos...
Rimo-nos os dois, eu prometi abrandar o ritmo da bebida e dei a volta ao prédio, até encontrar o carro.
Há dois ou três dias, estacionado como de costume longe da porta - mas debaixo da janela da cozinha o que, segundo o Duarte, é conveniente para o podermos ver a qualquer momento - entrei no carro e parei à porta de casa esperando que ele descesse. Porém, ele pensava que me ia apanhar no café da esquina e quando lhe dei um toque para o telemóvel para o apressar recebi um sms que dizia:
calma ja tou dentro carro
Tive que me rir e ainda ri mais quando ele saiu da porta disparado em direcção às traseiras, sem me ver, e eu dei uma leve apitadela que o levou a olhar para trás. Baixou a cabeça abanando-a levemente, entrou no carro e disse:
- Esqueci-me de dizer na mensagem que estava quase dentro do carro... foi só isso que falhou.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

José Castelo Branco

Oito e pouco da manhã, café por baixo da minha casa, entro e dou os bons dias mas ninguém me ouve. Donos e três clientes esganiçam-se a falar mais alto que os outros mostrando repugnância e sobrolhos franzidos em uníssono. O dono faz-me sinal do fundo, ao lado da máquina do café, assinto com a cabeça, sim é café, cheio, explico eu com o polegar e indicador afastados.
Pouca vergonha, lata, gozo, mariquice, paneleirice até, eram palavras usadas na conversa que se desenvolvia com ares de escárnio, sem que eu percebesse quem era a desenvergonhada pessoa de quem falavam, até que alguém disse, isto devia ser proibido.
Mas que raio, o que é que devia ser proibido? O José Castelo Branco!
Num programa de televisão na noite anterior apresentou-se vestido de toureiro ou campino, as opiniões divergiam, mas a unanimidade conseguia-se quando concordavam no maluco, sem vergonha, estapafúrdio, inconsequente, bizarro, parvo, nojento, exibicionista, maricas.
Mas como é que a mulher atura aquilo? Mas como é que lhe dão tempo de antena? Mas como é que se permite uma coisa daquelas num canal de televisão?
Muitos mais mas comos irritaram-me tanto que, aproveitando uma deixa de uma senhora que se me dirigia, certa da minha concordância e talvez um pouco curiosa com o facto de ainda não me ter juntado ao coro, manifestei a minha total discordância. Arrependi-me no mesmo instante, pois claro, mas já era tarde.
Avancei devagar, voz moderada, defendendo a diferença, elogiando a coragem que nenhum de nós tem para fazer o que nos apetece, sempre tão preocupados com o que os outros dizem e pensam sobre nós. Acrescentei que não se pode comparar o incomparável, o casamento de José Castelo Branco com Betty Grafstein não se enquadra nos casamentos onde vamos ou dos quais ouvimos falar, é preciso um espírito muito aberto para não se usarem as medidas com que costumamos medir o mundo, medidas essas feitas pela média da pessoas, no caso pela moda - esta calhou que nem ginjas.
Porque razão tem tudo de ser igual? Porque exprimimos sentimentos negativos com a diferença? Porque é tão difícil gozarmos connosco próprios e tão fácil de o fazer com os outros? Não será isto uma certa forma de inveja? Alguém que faz o que lhe dá na real gana, será condenável ou é ousadia provocadora de ciúme? Inconfessável, é claro.
Eu percebo que os dois casais que ali estavam a comparar-se com JCB e BG, usavam a comparação de forma tão ridícula como eu ficaria a comandar um submarino, mas eu sei que a casaca e o chapéu de comandante me assentariam carregados de comicidade - sem falar da minha cara de pânico por não fazer a mais pequena ideia como devia agir - e eles acham perfeitamente natural fazerem a comparação e, como se não chegasse, ficarem convictos de que a normalidade é a regra, a sua normalidade, não a dos outros.
JCB, o ridículo, é também JCB, o livre. Pormos de lado os preconceitos dá-nos liberdade, liberdade essa que vem com preço, preço em forma de seta apontada a todo o lado, seta venenosa, veneno da inveja.
O divórcio de preconceitos pode dar uma calma que não se consegue nem com medicação, uma visão diferente do mundo, um coexistir pacífico onde a diversidade se pode passear à vontade.
A esta altura já vingava o silêncio no café mas eu ainda não tinha dito tudo e não saí sem dar a opinião completa, ou seja, lembrando-os que alguém precisa de dar alguma cor às vidas cinzentas da maioria das pessoas, arranjar-lhes assunto para comentarem; e como essa maioria não costuma interessar-se muito pela ciência - aproveitei para perguntar de rajada se sabiam quem era Ana Ferraz, não sabiam - como não se interessam muito por leitura, mas adoram conversar, sobre os outros é claro, e de preferência quando esses outros não podem responder, então deviam agradecer a JCB por proporcionar momentos tão inesquecíveis.
Não conheço JCB, nunca o vi sem ser na televisão, sei que é um ser excêntrico e divergente dos modelos aceites socialmente, que se está nas mais puras tintas para o que dele dizem, que não se molda nem à lei da bala, porque nem um bala abala a coragem que tem. Isto devia ser proibido? Não me parece...

O beijo

A minha sobrinha fez 9 anos no Domingo e tem andado numa tensão acumulada relativamente aos festejos do aniversário, num misto de criancice com pré-adolescência. Talvez criancice aqui seja um pleonasmo, mas vou deixar passar...
Desde há meses que pede para passar o dia de anos na praia, razão pela qual lhe ofereci uma noite na Pousada de Catalazete, caserna para seis, ela, quatro amigas e o sargento que deu pelo nome de Mãe. Eu, o irmão e o pai da aniversariante fomos dormir a minha casa, a quinze minutos daquela noite de campo. Ou de praia. Fiquei cheia de inveja, é claro, mas o tempo foge-me e fica para outra vez.
No sábado jantámos na Casa da Praia, em cima da praia de Carcavelos, onde a empregada do restaurante levou nota 20: sempre com um sorriso, e depois da garotada ter jantado à mesa, levou-lhes as sobremesas à areia, com eles refastelados nuns enormes pufes, com paciência para as colheres que caiam na areia e que eram imediatamente substituídas e uma simpatia sem limites. O comer era fabuloso? Nem por isso, mas era razoável, os preços muito em conta - os menus infantis na ordem dos cinco euros - e aquilo que verdadeiramente nos fica na memória, que nos faz voltar, que nos leva a recomendar o sítio, é a simpatia.
Não havia sol, logo, não vimos o pôr-do-sol, mas o tempo abafado criou ali condições espectaculares para se passarem duas horas em beleza.
O meu cunhado, acabado de chegar do Equador com um magnífico panamá modelo Santos Dumont, parecia um estrangeiro. Sentados à beira da passagem das pessoas veio um sujeito e dirigiu-se-lhe da seguinte forma:
- Please, give me a cigarette.
Ele olhou-o e respondeu-lhe em bom português, O quê? Não percebo.
Lá deu o cigarro ao homem e continuou a contar as suas mil aventuras pela América do Sul, Santiago, desta feita, só enquanto fez escala entre a Argentina e o Equador.
O Duarte ganhou um chapéu do mesmo modelo e eu um, em papel cartonado, branco com uma fita preta, de uma elegância enorme. Trouxe este com a combinação de o devolver à minha irmã a troco daquele com que ela ficou, pois não conseguimos eleger um para cada uma, de modo que vamos trocando.
A guerra dos cem anos durou 116, os russos celebram a revolução de Outubro em Novembro e, entre outras curiosidades, o panamá é feito no Equador, e tem uma forma completamente diferente daquele bocado de tecido em forma de penico a que, por estes lados, se chama panamá, e que as crianças usam.
Assim, está o meu frigorífico ainda mais enfeitado do que estava com novos ímanes, e eu tenho dois novos exemplares de chapéus, belíssimos.
Pena não haver sol... por falar em sol, no Domingo o sol continuou amuado e depois de um banho rápido em local aberto a banhos decidimos ir ao Parque do Alvito.
O Duarte tinha ficado com o nosso carro na noite anterior e ainda não tinha chegado; assim, fizemos duas viagens da praia ao parque, tendo seguido a minha irmã e três garotas, conduzidas pelo meu cunhado, enquanto eu fiquei com outros três, tendo aproveitado para dar às pernas durante aquele bocado.
O meu sobrinho, sempre ao meu lado, disse que gostava muito do meu saco - que a C. me trouxe de Viena há poucas semanas - e afirmou que tinham aquela imagem lá em casa. E que imagem é esta, quis eu saber?
- Não sei.
- Sabes sim, já falámos nisto várias vezes, é O Beijo. E quem a pintou?
- Não sei.
- Mau... hoje não sabes nada... é do Klimt. E onde podemos ver esta pintura?
- Essa sei Quica... está no quarto da mãe!

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Herdade dos Machados

Um dos serviços que presto aos utilizadores da biblioteca é o envio diário de resumos da legislação portuguesa e europeia. Não sou eu que a recolho, subscrevo um serviço que o faz e reenvio a informação, a maioria das vezes, mecanicamente, sem ler, sem lhe dar grande atenção. Há dois dias, décimos de segundo antes de fazer o envio, uma expressão tímida a meio do ecrã prendeu-me o olhar: Herdade dos Machados.
De acordo com o diploma legal, anulava-se uma portaria de 1975, que expropriava os proprietários e revertia-se a propriedade para os herdeiros.
Como num filme, fui sugada pelo tempo e aterrei no passado, a meio da Estrada Nacional 255-1, que liga a aldeia de Sobral da Adiça a Moura e passa a meio da Herdade dos Machados, num daqueles dias de calor alentejano, a caminho da piscina de Moura. O meu pai vai a conduzir, a minha mãe, a seu lado, quer fechar a janela para se proteger do vento, incrivelmente quente, nós protestamos no banco de trás.
Sabíamos exactamente quando entrávamos na Herdade pois a estrada era ladeada por dois enormes pilares que ostentavam a informação: Herdade dos Machados. Vários quilómetros depois passávamos pelas costas de dois pilares iguais; no entretanto o meu pai repetia que era a maior herdade de Portugal e as vinhas, ele abrandava a velocidade, olhem para isto, a maior vinha da Península Ibérica e, quase parado, não obstante as nossas reclamações, o olival, olhem o olival, o maior da Europa.
De grande em maior, com tanto recorde até além fronteiras, assim que passávamos os pilares, sentíamo-nos como se estivéssemos a atravessar um país estrangeiro, mas não um país qualquer, que de estrangeiro estávamos nós cansadinhas, com tanto passeio que já fizéramos ao Rosal de la Frontera, não, este era um estrangeiro diferente, um reino sem sombra de dúvida, uma espécie de califado, face à localização e à proximidade com o norte de África, e não era por acaso que em Moura, já ali, permanecia a lenda da Salúquia, a princesa moura, que se suicidou perante a armadilha que lhe montaram. Quando avistávamos as costas dos pilares que determinavam, naquele sentido, o fim da Herdade, a raia, voltávamos a Portugal.
A ordem da vinha, as estradinhas alinhadas, o verde glorioso no meio do dourado envolvente, era - e é - belo sem limites, e o meu pai conseguia fazer passar para dentro do carro em brasa aquele amor pela terra e por tudo quanto se relacionasse com ela ou com a natureza, não hesitando em fazer loucas travagens quando lhe parecia avistar um gaio, sorrindo totobolísticamente à visão de um melro, quase atirando o carro para a valeta, aquilo era uma águia, não era? Felizmente que ele próprio confirmava ou desmentia a sua própria questão porque com águias ou qualquer outra passarada nós éramos zeros à esquerda.
Numa ocasião, indo de comboio de Lisboa para Moura, a locomotiva avariou na Herdade, que tinha a sua própria estação de comboios, igreja e até estação de correios. Ora, uma coisa assim era digna de reverência, tão grande que se perdia de vista, dava a volta para além do horizonte, como se fosse a terra que Mufasa apresentou a Simba com as famosas palavras: Tudo o que tua vista alcança é o nosso reino.
No dia da avaria as pessoas saíram da carruagem - com bancos de sumaúma até Beja e de sumapau, de Beja a Moura - e ficaram ali a admirar a estação.
http://s149.photobucket.com/user/kioko_garcia/media/Machados.jpg.html
Curiosamente, aquilo não era bem uma linha, era um ramal (Ramal Moura-Pias) que nós não sentíamos como algo menor, antes pelo contrário, era um local eleito só para eleitos, nós e poucos outros, que tínhamos o privilégio de por ali andar.
Foi das avarias que mais gostei em toda a vida pois os Machados sempre me levantaram muita curiosidade e, para além da estrada onde passávamos, eu só ouvira dizer, nunca vira nada, como se algures dentro de mim uma voz mais ou menos sussurrante alvitrasse que tudo era uma treta, qual estação, nem de comboios nem de correios, qual quê, igreja?, a mais próxima é a de S. João Baptista em Moura, minha amiga crédula, acredita em tudo quanto ouve?
O facto de estar ali na estação provava que ela existia, logo, aquela grandeza da qual sempre ouvi falar também devia ser verdadeira, e a Herdade não diminuiu de tamanho com o meu crescimento, como acontecia a quase tudo: a rua da minha avó, por algum motivo se chamava Rua Longa, mas era muito mais longa quando eu era pequena, agora era como se tivesse reduzido; acontecia o mesmo com as distâncias entre a casa dos meus tios, o café, a casa da Rosa, da Maria Antónia, da Rosarinho, até a ponte era mais pequena, até o medo de subir ao andar de cima da casa dos meus tios era mais pequeno, até a vontade de andar sempre no meio da rua mesmo com calores dignos do Sahara era mais pequena. Só a Herdade dos Machados mantinha o mesmo tamanho, continuava a não conseguir ver-lhe o fim, os lados, a extrema.
Nunca lhe conheci donos, hereditários, usufrutuários, fosse quem fosse, o mais perto que estive da casa em si foi na estação, mas o processo de apropriação e manutenção de propriedade de algo que conscientemente não é nosso, é curioso: os Machados são meus na medida em que fazem parte das minhas memórias, coisa impossível de  perder. Mesmo com alzheimer não se perdem as memórias, apenas não lhes acedemos, penso que qualquer pessoa que veja filmes de ficção científica pode confirmar estas coisas básicas...
Ainda hoje, com 48 anos, quando passo na estrada pública que rasga a Herdade sinto um certo arrepio, volta a sensação de estar no estrangeiro, de não estar aqui. E se calhar não estou, porque cada vez que lá passo, volto ao passado. 

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Pitonisa

Quando a lua estiver na sétima casa, Júpiter alinhado com Marte, então a paz guiará os planetas e o amor orientará as estrelas, lá, lá, lá.... Aquarius... lá, lá lá...
A tradução é mais ou menos assim e em matéria de signos tem de haver sempre traduções.
As revistas cor-de-rosa que me vêm parar às mãos são avaliadas de acordo com os signos: se têm, são boas, se não têm, não tenho nada para ler.
Concluo que as características base de cada signo, por norma, adequam-se às pessoas que nasceram naquelas datas e sou fã de signos, embora não perceba muito sobre eles. Mais uma vez, preciso de tradução.
Gosto dos astrólogos porque, ao contrário dos médicos, gostam de genéricos e admiro as suas capacidades de escrita, sempre numa espécie de fio da navalha, para não haver comprometimentos mas sem falhar. Gostava de fazer carreira na área e para ver as minhas capacidades vou aqui tentar uma coisa inaudita, uma previsão já para amanhã: amanhã o dia vai nascer! Aguardemos.
Numa ocasião, na fila das finanças, a minha irmã tinha à sua frente três homens africanos. Chegada a sua vez a funcionária deu-lhes um formulário para preencher, sobre o qual colocaram algumas perguntas. A senhora informou então sobre os campos que eram comuns e os que deviam ser preenchidos com elementos de cada um: nome, morada, profissão, ...
Aqui, eles interromperam a funcionária para dizer que tinham todos a mesma profissão: eram astrólogos. A conversa que se seguiu calou o murmúrio da repartição de finanças; segundo a minha irmã, até o ar condicionado foi desligado para que não se perdesse pitada. Os contribuintes que bufavam contra a espera mudaram as feições, os funcionários andavam em câmara lenta com papéis na mão e olhos postos no trio.
Sempre tive pena de não ter assistido a esta espécie de mini congresso astrológico, aqui sim, os astros estavam alinhados na fila.
Hoje, mal dormida devido ao calor, de olhos semicerrados, que algo me diz se vão assim manter todo o dia,  apanho uma distinta publicação e leio o signo: números da sorte passados em catadupa, tenho que ver se me lembro de os usar no euromilhões, apresso-me nas dicas sobre o amor, eu amo mesmo é o Kilimanjaro, sobre o dinheiro mandam-me ter cuidado com os gastos supérfluos, olha, obrigadinha, grande novidade, até que vem a saúde, cuja informação diz: proteja-se do frio, ou pode ser surpreendido com uma constipação.
Ora até que enfim, uma novidade! Porém, continuo a precisar de tradutor: isto quer dizer que vem aí frio? É que eu morro de calor...
Perante tão estranha previsão, confirmo-a na internet para o mês de Julho de 2013, coloco o meu chapéu de Sherlock e decido investigar. Lupa na mão descubro exactamente a mesma previsão para Outubro de 2010. Bom, em Outubro já costuma haver constipações, sim. Ou deverei dizer, já houve? Como bom detective, confirmo os outros signos: coincidem todos com os de Outubro de 2010!
Acho inacreditável não ter lido nada sobre esta coisa fabulosa de a conjugação astral ser exactamente a mesma com dois anos e nove meses de diferença. Será que ninguém deu por isto, só eu?
Mas como se isto não fosse absolutamente extraordinário, descubro que já em Junho de 2013, sim, o mês passado, as previsões foram exactamente as mesmas, de acordo com o jornal Correio da Azambuja, números da sorte os mesmos, e tudo.
Por incrível que pareça em Agosto de 2012 as previsões eram exactissimamente as mesmas e aqui fico confusa novamente. Não é por nada em especial, é que em Agosto não costuma haver assim muitas constipações, que raio, isto não bate muito certo, deve ser dos ares condicionados, sempre ouvi dizer que eram perigosos.
A senhora Dr.ª Maria Helena Martins, na posse de tão explosiva informação, deveria ser obrigada a alertar para esta recorrência, no fundo, a confirmação da verdade histórica que a História se repete. A senhora deveria avisar políticos e economistas, meteorologistas e forças armadas pois repetindo-se a associação celeste muita coisa se podia evitar, antecipar e preparar devidamente.
Aqui fica a prova que a falta de atenção aos astrólogos e às suas previsões pode dar que pensar! Se fossem ouvidos e seguidas as suas orientações o mundo seria bem melhor, preparado que estava para se movimentar. Por exemplo, eu já tive várias ocasiões de jogar com os números da sorte que me calharam e nunca o fiz, porquê?, por falta de atenção obviamente, não por falta de a senhora mos ter indicado repetidas vezes!
A senhora astróloga informa que por apenas sessenta cêntimos podemos ligar para termos as respostas às nossas dúvidas. Ainda pensei em ligar mas depois lembrei-me que posso sempre ler as previsões dos anos anteriores e ficarei a saber o que o futuro me reserva. Se isto não é genial, não sei o que será.

Ai que calor...

Mil vezes, mil, prefiro o calor ao frio. Detesto calças, abomino collants, ficarei sempre uma pipa com casacos de inverno. As saias, calções e vestidos fininhos que uso no Verão deviam ser guarda-roupa para o ano inteiro; as sandálias ficam lindamente comigo própria, as malas coloridas tão frescas, tenho uma feita de papel, maravilhosa.
As janelas de casa todas abertas, a roupa que seca em três tempos, os passeios à noite que teima em chegar, os vidros do carro sempre em baixo, o vento a despentear-me.
Confesso alguma dificuldade em adormecer com muito calor e para isso vou tomando banhos frios, um duche rápido, nua que durmo é fácil meter-me na banheira e deixar a água escorrer, a pingar volto à cama e, fria, adormeço. Repito a operação as vezes que forem necessárias e esta noite se não bati um recorde, andei lá perto.
O recorde deve pertencer a Coruche onde o calor é avassalador e passo as noites a caminho do chuveiro, com sugestões familiares para que me instale na banheira, onde deverei abrir a torneira de vez em quando sem ser preciso levantar-me. Enquanto não engenho este plano, que me parece extraordinário, mantenho as rotinas do levantar, entrar na banheira, molhar-me e voltar à cama. Faço isto com tanta frequência que um dia destes, a conversa do meu filho ao telefone, não sei com que amizade, era sobre as dificuldades em adormecer com altas temperaturas, e ele dava como solução o exemplo da mãe, e acrescentava:
 - Mas olha, não exageres... eu estou sempre à espera de ver quando a minha mãe ganha musgo...

Rom vai à praia

Eram cerca de cinquenta. Homens, mulheres e crianças, riam, saltavam, gritavam, arrepiavam-se. Corriam uns atrás dos outros, brincavam. De vez em quando paravam e ficavam a conversar aos grupos, a conversar alto e mais alto ainda quando chamavam alguma das crianças que se afastava sem se aperceber.
Eram cerca de cinquenta e toda a gente os olhava.
Toda a gente os olhava porque eram ciganos, toda a gente os olhava porque é raro verem-se ciganos a mergulhar na praia, toda a gente os olhava, essencialmente, porque estavam vestidos dos pés à cabeça.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Todos os erres devem ser bem pronunciados

Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui chantent
Les rêves qui les hantent
Au large d'Amsterdam
Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui dorment
Comme des oriflammes
Le long des berges mornes
Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui meurent
Pleins de bière et de drames
Aux premières lueurs
Mais dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui naissent
Dans la chaleur épaisse
Des langueurs océanes

Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui mangent
Sur des nappes trop blanches
Des poissons ruisselants
Ils vous montrent des dents
A croquer la fortune
A décroisser la lune
A bouffer des haubans
Et ça sent la morue
Jusque dans le coeur des frites
Que leurs grosses mains invitent
A revenir en plus
Puis se lèvent en riant
Dans un bruit de tempête
Referment leur braguette
Et sortent en rotant

Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui dansent
En se frottant la panse
Sur la panse des femmes
Et ils tournent et ils dansent
Comme des soleils crachés
Dans le son déchiré
D'un accordéon rance
Ils se tordent le cou
Pour mieux s'entendre rire
Jusqu'à ce que tout à coup
L'accordéon expire
Alors le geste grave
Alors le regard fier
Ils ramènent leur batave
Jusqu'en pleine lumière

Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui boivent
Et qui boivent et reboivent
Et qui reboivent encore
Ils boivent à la santé
Des putains d'Amsterdam
De Hambourg ou d'ailleurs
Enfin ils boivent aux dames
Qui leur donnent leur joli corps
Qui leur donnent leur vertu
Pour une pièce en or
Et quand ils ont bien bu
Se plantent le nez au ciel
Se mouchent dans les étoiles
Et ils pissent comme je pleure
Sur les femmes infidèles
Dans le port d'Amsterdam
Dans le port d'Amsterdam.

Madman

Sendo as aulas de inglês acima de tudo de conversação, o professor dá-nos os mais variados exercícios nos quais esgrimimos argumentos, normalmente organizados em grupos. Um dos últimos era o Madman, cujo enunciado era o seguinte:
Com um casamento falhado e um marido absorvido pelo trabalho, uma mulher insatisfeita arranja um amante. Numa das eternas ausências do marido ela, que vive numa ilha, vai encontrar-se com o amante, tendo que atravessar uma ponte, única forma de chegar ao outro lado. No regresso, ao pretender atravessar de novo a ponte, encontra um louco que a ameaça com a morte se ela insistir em passar. Assustada, procura um barqueiro que não a transporta pois ela não tem dinheiro. Volta a casa do amante que lhe nega o empréstimo. À beira do desespero procura um amigo que vive perto, conta-lhe a situação toda e pede-lhe o dinheiro para pagar ao barqueiro. Ele nega, alegando que sempre foi apaixonado por ela e, com despeito, não a ajuda. Sem outra solução a mulher aventura-se a passar a ponte e o louco mata-a. De quem é a culpa?
O louco é louco, não tem controlo nem conhecimento sobre as suas acções; o amante e o amigo não eram nem uma coisa nem outra, os amigos fazem tudo por nós e o amante - que desperdício de tão bela palavra - era um tipo que queria dar uma queca, ponto. O barqueiro estava a fazer o seu trabalho, assim como o marido. Conclusão, a culpa foi dela.
Dos quatro grupos todos acordámos sobre o culpado número um, mas o mesmo não aconteceu com a culpa repartida de todos os outros intervenientes.
O marido, esse sacana,esse inútil - os epítetos eram vários e todos em português - ocupava a segunda posição. Nada disso - argumentava o meu grupo - o amigo, esse falso, esse sim, arcava com a maior parte da culpa. Afinal, tudo se baseava num pressuposto errado: ela tinha-o como amigo, mas era gato por lebre.
O amante - não consigo deixar de pensar que esta palavra aqui não se adequa nadinha - antes de ser amante, era homem, um homem com a perspectiva de sexo logo, aluado, emparvecido.
E o banana do barqueiro? Não podia ter dado uma abébia? Não era banana, era só barqueiro.
Acções nossas com culpas alheias é o que mais há por aí. Estando o casamento falhado porque não o declararam oficialmente? Fácil, isto era só um exercício...

terça-feira, 2 de julho de 2013

Se

Depois de o meu sobrinho ter dado baile a alguns colegas meus na aula de inglês onde foi ter comigo na quarta-feira, fomos lanchar e comprar uns miminhos para levar para a Quinta da Bela-Vista.
Ele continuava sem saber onde ia e à hora de saída apanhámos o metro na linha do costume comigo a insistir, mas afinal onde pensas tu que nós vamos?
O metro ia cheio e mais cheio ficou quando mudámos de linha, muita calça de ganga, muito ténis, muita mochila. Ainda brinquei a perguntar para onde iria toda aquela gente, que aquilo não eram horas de praia, eram horas de ir para casa.
Quando saímos ele disse-me que achava que íamos a um sítio, melhor, corrigiu-se ele próprio, ele queria ir a um sítio, mas não podia ser, era bom demais, por isso não dizia. Lá insisti e ele disse, devagar, a medo, vamos ver os Bon Jovi.
A cara que fez a seguir foi inesquecível. Coração acelerado, que ele fez questão que eu sentisse com a mão dele a segurar a minha sobre o peito.
Espreitaram-lhe a mochila, avançámos no meio de milhares de pessoas, ele comeu um cachorro, comprámos águas e escolhemos um sítio para ficar.
Ouvi mais tarde que muita gente não gostou do concerto, que houve queixas da organização, que cantaram mal, que não cantaram o que as pessoas queriam.
É engraçado a diferença que faz a perspectiva: se tivessem levado um gaiato ao seu primeiro concerto, um concerto que ele queria muito ver, se ele estivesse feliz, feliz, feliz, se os tivesse enchido de beijos o tempo todo, se desse enormes gargalhadas quando eu trauteava as músicas e, sem saber as letras, atirava palavras ao calhas e ele dizia, Quica, os Bon Jovi enganaram-se!, se tivessem recebido abraços inesperados durante aquelas horas, se tivessem saído para a confusão da falta de transportes dispostos a andar o que fosse preciso em busca do avô Bento que nos foi buscar, se ouvissem palavras de alento quando ele próprio estava exausto, estamos quase a chegar, é só mais um bocadinho Quica, se...
Pois, eu percebo, são muitos ses... e eu tive-os todos. Foi ou não foi uma noite memorável?