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segunda-feira, 18 de julho de 2016

Aproximações e afastamentos

À medida que a data se aproxima vou minguando, a dor intensifica-se e o nó na garganta aumenta.
A vida é feita de aproximações e afastamentos, dos últimos tenho experiência mas nada que se compare com as aproximações. Felizmente.
Penso que pela primeira vez conheço bem as razões do afastamento e até lhe dou apoio.
Talvez por isso custe tanto. É que não pode ser de outra forma.
Os outros afastamentos estão na gaveta da estupidez humana, da falsidade, da hipocrisia, do interesse vestido de amizade, do silêncio. Mas este contradiz tudo e em menos de uma semana Barcelona será a casa deles.
Nunca imaginei ser dominada desta forma pela dor, que a ansiedade pudesse paralisar-me, que o pensamento se revoltassa desta maneira, impedindo-me de pensar noutra coisa.
Eu, que já tinha imaginado tanto a propósito de outros afastamentos, considero-os agora uma brincadeira de garotos malcriados, uma tonteria.
Eu quero que eles fiquem bem. Eu sei que eles vão ficar bem. Ainda assim, morro.

terça-feira, 29 de março de 2016

Preciso de mimo

Quem conhece a relação que tenho com a minha irmã sabe que o afastamento dela é coisa de causar dor, profunda. No final do ano lectivo muda-se ela de armas, bagagens, filhos e marido para Barcelona.
Assim que conto a novidade seja a quem for, a reacção é unânime sobre a minha sorte em poder ir a Barcelona sempre que queira e em como - de certeza, mas de certeza absoluta - passarei a ir lá imensas vezes.
Se por um lado eu não tenho situação económica que me permita ir mais longe que ao Barreiro, quanto mais a Barcelona, por outro, ainda não ouvi ou senti uma palavra sobre a minha tristeza em distanciar-me daqueles que amo profundamente.
Estou feliz, muito feliz por eles, note-se: desde logo a família ficará junta, sem as constantes viagens do meu cunhado, agora no Brasil, depois no Vietname, a seguir nos EUA, depois na África do Sul, entre muitos outros. Desde Janeiro até hoje já viajou para onze países diferentes e o facto de ficar mais sossegado irá trazer-lhe uma tranquilidade maior; os meus sobrinhos vão poder ter oportunidades que aqui não têm, aprendem outras línguas falando-as, conhecem novas pessoas, etc.
Para todos será uma nova vida que, tenho a certeza, lhes será favorável e benéfica, individualmente e como família.
Permito-me pois ter um 'ataque' de egoísmo e pensar em mim... a minha habitual solidão cresce e solidifica-se.
Bem sei que os que me dizem que Barcelona é tão perto e que agora há viagens tão baratas, falam por bem, querendo animar-me, mas a verdade é que não costumam marcar viagens e não sabem que os preços anunciados nunca são os reais e que, na verdade, não é assim tão perto. Se fosse, muitos de nós passávamos a vida a ir lá e não vamos. Porquê, se é tão perto e tão barato? O meu próprio director já me concedeu dias extra para quando eu lá for!
É bom constatar esta sintonia, em perfeita descoordenação com a minha situação económica.
Não é bom constatar que não há uma voz que se dê a ouvir em prol da minha tristeza.
Por motivos vários a vida tem-me levado por caminhos onde não passa vivalma, mas como andava de mão dada com a minha irmã e com os meus sobrinhos, sabia que não havia o perigo de passar a estrada sozinha; agora, que me dizem adeus de longe, sinto-me minguar e antevejo tempo vazio a precisar de ser preenchido. Vejo-me a planear a viagem e a desmarcá-la, como acabou de acontecer com uma estadia Erasmus que, embora tenha bolsa, mas já foi tempo de poder suportar as despesas várias que se acumulam em qualquer deslocação.
Há dias em que acordo e afasto o pensamento do início do Verão, eu que sempre o desejei ansiosamente. Há dias em que acordo e me ponho a arranjar estratagemas de defesa para quando lhes telefonar me mostrar contente e ocupada, como se nem sequer pensasse neles. Há dias em que acordo e quero acreditar que foi só um sonho, que está tudo normal. Mas não está. 

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Quadro de honra

Os meus sobrinhos estão no quadro de honra da nossa felicidade. Ela com um 4 a Música, ele a Trabalhos Oficinais, Educação Visual ou algo do género. De resto, nota máxima.
Os gaiatos só servem para pensar, não para fazer; darão dois péssimos ministros pois são excelentes alunos, ambos muito criticos do sistema e com uma capacidade, inusitada nas idades, para relacionar questões e perceber a multiplicidade de aspectos do quotidiano, no fundo, o desiquilíbrio da vida.
É claro que estralejamos de alegria com tão distintas notas, ufanamo-nos com uma carreirinha de cincos, temos a certeza que não davam seis, caso contrário, lá estariam.
Porém, há que dar os parabéns a mãe e pai, cuja atenção e dedicação contribui para estes sucessos. Não se trata de obrigar a fazer trabalhos de casa, eles fazem-nos sozinhos, espontaneamente. Trata-se de falar, de ler, de consumir informação, de discutir, de reflectir e, parecendo pouco, mas é talvez a fatia mais importante, trata-se de ouvir.
Por norma, são os filhos que ouvem os pais, mas o contrário é essencial, dar-lhes a palavra, não os acusar de dizer parvoíces, ouvi-los como pessoas que são.
Tenho imenso orgulho nestas duas pessoas tão especiais e acredito que estão ambos destinados a altos voos. Acredito porque eles manifestam a intenção, sem medo do futuro, de fronteiras, de línguas ou geografias, filhos do pai, um andarilho de meter inveja ao próprio Marco Polo.
Férias, venham elas que são muitíssimo merecidas!

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Óbvio, cara mãe!

O meu sobrinho mais novo, na sua voz de dois anos a caminho dos três, pergunta à mãe do que são os óculos que alguém lhe ofereceu e que ele usa, transformando a realidade um pouco mais escura.
A mãe semicerra os olhos e diz que são óculos de aventureiro!
Ele reclama e volta a perguntar de que são os óculos!
A mãe inicia um ciclo de possíveis respostas:
De plástico, de ver, de menino bonito, de príncipe, de...
Ele, já amuado e sempre a dizer não, esclarece:
- São óculos de sol!

terça-feira, 15 de julho de 2014

Festa surpresa

Durante duas semanas mantivemos segredo sobre a festa de aniversário surpresa da minha sobrinha.
Os convites foram facilitados pelo facto de estarem de férias, as amigas não se encontram e o segredo manteve-se; o local, o Monte Macário, um oásis no grande oásis que é o Ribatejo, o lanche, tudo.
Chegámos ao Monte com a desculpa que íamos buscar o bolo para o dia seguinte e a minha irmã, em conversa com a proprietária, também ela cúmplice da brincadeira, nos últimos minutos, deitou tudo a perder... a gaiata ao lado dela a ouvir a conversa e ela a expôr os planos da guerra... dez minutos antes da surpresa... quando deu conta, já a garota sorria percebendo tudo.
Tirando isso, foi uma tarde de belíssima disposição com a miudagem toda dentro de água - eu incluída!
O Monte Macário é local de eleição para... tudo! Despedidas de solteiros, aniversários, dias e noites calmas, contacto com a natureza que inclui canoagem, andar a cavalo entre outras actividades, fruto de parcerias que têm com outras empresas. O melhor de tudo é poder-se partilhar - quem quiser - as refeições com os donos, cheios de histórias para contar e sempre com um sorriso amigável.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O cão e o corvo

Alexandre O'Neill deu-nos um Cão. É em forma de poema, mas é um Cão, o chamado melhor amigo do homem, às vezes tão amigo que se confunde com ele.
Um dos trabalhos de casa das férias do meu sobrinho mais velho é refazer o poema, com outro animal. 
Quinta-feira de Páscoa não trabalho de tarde e, à porta do Arquivo Histórico Militar onde esperamos que batam as duas da tarde para entrar, dou a minha contribuição para o poema, escolhendo o animal: o Corvo. 
O resto é dele. Rói-te O'Neill.

Corvo negro, Corvo preto
Corvo escuro como breu
Planador, andarilho
Corvo torto, Corvo morto,
Corvo de penas prateadas
Corvo veloz como o vento
De bico sempre presente
Corvo necrófago, Corvo espião
Corvo capitalista, mentiroso, aproveitador
A desfazer-se num grito
A refazer-se num piu.
Corvo ave, Corvo aqui
Corvo além e sempre Corvo.
Corvo sinal, símbolo de Lisboa
Corvo a debicar a presa
Presente em cada esquina
Corvo indiferente a cada dia.
Corvo elegante, o da Sofia.
Corvo de loiça de crá-crá apagado.
Corvo na mira da escorva
Vítima do caçador
Corvo, vigilante da noite.
Corvo nocturno, Corvo soturno
Corvo discreto, Corvo ausente, Corvo sombrio
Corvo de olhos que afectam
Corvo-feiticeiro
Sai depressa, ó Corvo, deste paradeiro.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Que confusão!

Entro em casa e tenho um burro e uma vaca no meio da sala.
As flores que costumam estar à entrada, decoram o alto de um móvel e um par de sapatos e meio, de Verão, estão alinhados a meio da minha cama.
Há uma toalha pendurada na maçaneta da porta da cozinha e um pano da loiça descansa em cima do braço do sofá.
Num primeiro instante, nem largo a mala nem o casaco, algo no meu inconsciente me avisa que talvez o decorador ainda esteja dentro de casa. Depois lembro-me que os meus pais estiveram cá com o meu sobrinho mais novo.
O gaiato descobriu as peças do presépio e deixou-as à solta, descobriu o saco com sapatos e decidiu dar-lhes uso mesmo que o tempo ainda não convide e um telefonema de última hora avisou-os de chegada de visitas a sua casa, de modo que abalaram e deixaram tudo às três pancadas.
Ajudada por um gin ao fim da tarde, em homenagem à filha de uma amiga que conseguiu um super trabalho pago condignamente, fartei-me de rir ao telefone enquanto a minha mãe pedia desculpa pela desordem com que sairam.
Certifiquei-me que ele levara os animais da quinta em chocolate que eu lhe deixara na cozinha e acabei a noite a arrumar, mas bem disposta.

quinta-feira, 20 de março de 2014

A culpa é minha

Os meus sobrinhos zangam-se. O mais velho diz que a culpa é da irmã, a criança do meio.
O mais novo ouve e começa a chorar. A mãe corre a intervir, Mas afinal o que se passa?
Falam todos ao mesmo tempo, ela levanta a voz para os calar e que fale um de cada vez.
Os mais velhos obedecem, o mais novo, com dois anos, continua a chorar. Ela dá-lhe atenção e pergunta porque chora. A resposta é óbvia:
- O Manel diz que a culpa é da Pi, mas eu quero a culpa...
E continua a chorar.
- Mãe, eu quero a culpa...
Os mais velhos riem enquanto ele implora à superior figura da mãe que, sendo mãe, tem o poder para dar e repartir.
- Mãe... [soluços] Eu quero a culpa...

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

À letra

A propósito dos problemas de saúde do meu pai falo para a minha irmã.
Atende-me o meu sobrinho mais velho e ficamos à conversa.
Então, o que estão a fazer, pergunto eu, e ele responde, à letra:
- Eu estou a falar contigo, o Xavi está a ver televisão, a Pi está a ver se entende o que querem dizer os autores do livro de Português, a mãe está a olhar para umas panelas e o pai não sei porque está no Porto. 

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Cirque du Soleil

Ofereceram-me bilhetes para o Cirque du Soleil. A minha curiosidade era mais que muita, anos a ouvir falar, a ver imagens na televisão, vídeos no youtube. A prenda, ainda por cima de uma pessoa tão querida, veio mesmo a calhar.
Como boa família de ciganos organizámo-nos e fomos em romaria: os meus pais, os meus três sobrinhos e eu, sábado à noite, mau tempo já passado - os miúdos e eu ainda com a lembrança da chuvada da noite de ano novo, Avenida da Liberdade acima a pé, em direcção ao carro, parecíamos pintos, eu, que eles são mesmo de apelido do paizinho, mas sempre a rir e bem dispostos.
Levar o meu pai a qualquer sítio é um sarilho, mas impunha-se: completou 71 anos no dia seguinte - passado no hospital... - e o espectáculo era também prenda de anos.
Uns meros cinquenta metros que nem nos lembramos de percorrer, para ele equivalem a uma maratona. Deixei-os o mais próximo possível do MEO Arena, mas foi preciso fazer o corredor do Vasco da Gama, passar a rua e subir os degraus do ex-pavilhão Atlântico, uma tortura que aguenta com o auxílio da bengala e com a cara amarfanhada de dores contidas.
Durante o espectáculo até ele se esqueceu das dores, palmas e mais palmas, o Xavier, com apenas dois anos, de olhos esbugalhados, sentado nos meus joelhos, tão quieto que parecia uma estátua.
O gaiato já provou ser diferente: duas visitas a dentistas levantaram coros de espanto e admiração quando se senta, abre a boca e não mexe não respira, como nas radiografias. Apesar da sesta, assim que terminou, ele adormeceu encostado ao meu ombro fazendo-me reviver aquela sensação de posse, tão doce, quando eles são pequenos e pertencem-nos, quando se entregam com confiança.
Os outros dois saltitavam satisfeitos, pagaram o parque, faladores, o que é que gostaste mais?, eu foi dos que saltavam e pareciam andar nas paredes, e tu avó, e tu avô, e tu Quica?
Foi a última noite de uns dias juntos, sem grande coisa para fazer, como nesse sábado quando a chuva era tanta que só nos levou ao supermercado, viagem nunca adiada, mas que não impediu que ela e eu fizéssemos comer e doces, que ele me ajudasse com a roupa, sempre disponíveis, sempre donos de mim.
Durante o percurso para as compras comentei com eles que, há uns dias, passando por ali, exactamente aqui, neste sítio, vinha um carro em sentido contrário. Ele, o mais velho, sem perder uma oportunidade de exercitar o seu inglês, perguntou-me se eu tinha ligado para o nine, one, one a avisar do perigo. Ri-me e disse que sim, usando um sotaque nortenho, à Shrek como eles lhe chamam, e inglesando algumas palavras reproduzi a suposta conversa com os bombeiros de Nova-Iorque, e chegámos à conclusão que desde esse dia não se viam americanos na zona da Amadora ou Alfragide porque eles tinham emitido um alerta avisando os cidadãos americanos que andava um veículo em sentido contrário ao pé do Alegro.
Rimos todos e no ar sentia-se a essência do Natal, é Natal, é sempre Natal quando eles estão comigo e quando repetimos cúmplices, I do, I do, I do believe in fairies, há música no ar, balões coloridos sobem e misturam-se com as nuvens, chovem papelinhos com formas engraçadas e oferecemos as nossas gargalhadas uns aos outros, com um laço de seda.
Agora, só no Carnaval...

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Capuletos e Montecchios

As férias passadas na aldeia deixam memórias impossíveis de apagar: os dias longos e abrasados do Alentejo profundo, o poço no quintal, as lavagens no tanque com a minha avó a zangar-se comigo por estar debaixo daquela calorina, a sombra que as videiras davam, o assobio levezinho do meu avô, o caramonho da minha avó, o café feito ao lume que escorria pela cafeteira, o cheiro a melão pela casa toda, a moeda que o meu avô sempre tinha para um gelado, os passeios e os mergulhos na ribeira de S. Pedro, as festas em honra de Nossa Senhora do Ó, as amigas, os segredos.
Inesquecível também era a aparição de uma pessoa de família, muito chegada por sangue mas de outro planeta por amizade.
A sua chegada era adorada pela criançada e era um martírio para mim, que ficava sempre de fora quando ele perguntava retoricamente quem queria ir à piscina de Moura. Eu bem esticava o braço mas a resposta invariavelmente era a mesma: o teu pai que te leve. E o meu pai levava, levava tão depressa que eu chegava lá primeiro que todos os outros, mas em último, porque o carro engraçado era o outro, onde iam todos, a rir, a brincar. Juntos.
Se era para ir a qualquer lado, o meu pai que me levasse, se era um doce, o meu pai que mo comprasse, fosse o que fosse, o meu pai que me fizesse ou me acontecesse. E o meu pai fazia e acontecia.
Não deixei de me lembrar destes episódios quando ontem proibiram uma garota de brincar com os meus sobrinhos, de visita os três ao trabalho dos grandes.
As acções ficam com quem as pratica mas quem não se sente não é filho de boa gente e eu senti, senti mágoa pela proibição de deixar uma criança brincar, conviver, rir em conjunto. Um adulto que age assim está a passar um cheque em branco para o seu próprio futuro, tal como as pessoas que me atormentaram em pequena têm hoje em comum com filhos e netos a distância, imposta por estes últimos.
Que mundo melhor é que apregoamos que queremos quando temos atitudes assim? 

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Arrasador

Curiosa, a minha irmã. Quis saber do filho mais velho se já namorava. Eu não, mas há quem namore, respondeu ele. Quem, continuou ela a querer saber. Olha, o João e a Maria por exemplo. Ai sim?, mostrou-se admirada, Então e eles passeiam de mãos dadas? continuou ela perdida no tempo. Não, nada disso, não te esqueças que eles apenas têm em comum o facto de respirarem e tirarem negativas.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Parabéns a vocês!

A senhora minha mãe e o cavalheiro meu sobrinho fazem hoje 69 e 11 anos, respectivamente. Falo-lhes por telefone, rimos, brincamos, combinamos jantar, todos juntos, todos juntos, lá, lá, lá...
Ela encolhe os ombros sobre o ano a mais - eu não vejo mas sei que o está a fazer - ele diz que é exactamente igual a ontem e acrescenta:
- O teu dia é que podia ser diferente, se tu quisesses vir connosco ao Pavilhão do Conhecimento, passar a tarde no Dóing!
E quem disse que eu não queria? Mas não posso... ai que saudades dos 11 anos e que pena de não haver Pavilhão do Conhecimento na altura...

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Cuisine du futur

Acelera-se-me o coração sabendo que os meus sobrinhos estão a caminho. O mais novo ao telefone diz Quica, Quica, Quica. É Domingo de manhã e dizem-me que vêm lanchar ajantaradamente, tenho tempo para uma surpresa.
Deixo o Duarte a tomar conta de uma panela de arroz e vou ao supermercado: pão, fiambre e queijo, uma carne fatiada, uma caixa de gelado e três garrafas, tão pequenas que não chegam a ter um gole de líquido. Será mais que suficiente.
Quando chegam, abrem-se as abas da mesa da cozinha, a única que existe lá em casa, e ela põe os pratos, os talheres, os copos. Depois mando-a para a sala alegando que vou fazer um comer que vai provocar muito fumo. Fecha-se a porta e a cozinha transforma-se num laboratório de feitiçaria.
Suja-se a loiça toda, é preciso dividir o arroz em quatro porções iguais, juntar-lhe mais uma gota de água e uma gota de líquido das pequenas garrafas, uma só gota de cada garrafa em cada um dos recipientes de arroz. Para cada porção uma taça, uma colher, um prato para levar à mesa o arco-íris: há arroz amarelo-ovo, arroz verde, arroz encarnado e arroz azul.
Chamados a comer, doidos por batatas frita palha nem a olham, olhar esbugalhado preso no arroz colorido.
Percebem que é corante, o sabor é o mesmo mas as variedades - branco, verde, azul, encarnado e amarelo - são magia pura  para engolir.
No fim, alguém se lembra que devíamos ter tirado uma fotografia e a minha irmã diz-me que, em termos de técnica, os meus comeres são a concretização do desastre, mas qualquer chef adorava ter-me a trabalhar com ele, não para ajudar na nouvelle cuisine, mas para lhe apresentar a cuisine du futur

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Inho, inho, inho

Não sou fã de inhos ou inhas e uso-os normalmente com segundas intenções. Entre muitos, tantos, demasiados, o que mais me repele é o coitadinho/a. Ainda assim, há inhos e inhos, a começar  pelas palavras que efectivamente terminam assim.
Dizem que é um sufixo derivacional do grau diminutivo e só isto me faz pensar duas coisas: primeiro, como é que se pode gostar disto? Segundo, como é que a criançada vai amar o português? Seja como for o seu uso pressupõe uma manifestação de afectividade, ainda que a intenção seja outra e daqui ao desprezo é um pulinho.
Um bom livro, por mais pequeno que seja, nunca, mas nunca será um livrinho. Já um velho pode ser um velhinho, isto se gostarmos dele e, em idade avançada, quando são mudados para os lares, não saem de casa e sim da sua casinha. Cunhados quase todos podem ser, mas cunhadinho têm as invejosas e cunhadinha os expectantes.
Curiosamente, os outros dizem mentiras e nós, uma mentirinha, tão santinhos que somos. Da mesma forma, prestamos ajuda mas os outros só nos deram uma ajudinha, com frequência, uma mãozinha. As crianças estão doentinhas, os adultos doentes e embora progridam só afirmam estar melhorzinhos.
Não há alguém que, nem por só vez, não tenha andado devagarinho, mas não devia ir a caminho de uma rapidinha...
Ninguém quer um homenzinho, mas todos bebemos vinho, temos um vizinho, por vezes gordo que nem um toucinho.
Por me lembrar gente mafiosa não gosto da palavra padrinho e engalinho com uns certos focinhos. Nunca verbalizo a palavra golfinho e, juntamente com os meus sobrinhos, temos uma palavra de substituição... que não vou dizer qual é, faz parte dos códigos secretos!
Por falar em sobrinhos, os meus pintaínhos, gosto de lobinhos, que eu preferia a lobitos quando eles andavam nos escuteiros e as fardas os deixavam tão engraçadinhos...
Para terminar, e só desta vez, só desta... aqui ficam uns beijinhos.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Lá fora

Os meus sobrinhos vivem numa barraquita com três andares. O primeiro conjuga a cozinha, a sala, uma casa de banho e um terraço, que dá pelo nome de pátio; no do meio ficam os quartos e duas casas de banho, no terceiro há um mega sótão, a que chamamos O Espaço, e que tem um escritório, uma sala, duas camas, biblioteca, zona de brincar, área para passar a ferro, entre outras valências.
A minha casa é parecida na medida em que também tem cozinha, casa de banho, e dois quartos, mas cabe tudo na sala deles.
Sempre que os miúdos me visitam – e vieram este fim-de-semana – digo-lhes que tenham atenção porque nos prédios normais, ao contrário do prédio deles, moram outras pessoas, aquilo a que se chama vizinho, e devemos ter em atenção para não fazermos muito barulho.
A minha sobrinha é uma ajudante maravilhosa – ele é mais técnico de televisão, ficando a mudar de canal indefinidamente, suponho que para confirmar que funcionam todos… - e ajudou-me nas compras, a arrumá-las, a estender roupa, a fazer mil coisas.
Ao fim do dia de ontem foram embora para casa dos avós, deixando-me sozinha e a fazer contas aos minutos que faltam para passar esta última semana de trabalho antes das férias, quando nos juntaremos.
Já sozinha dediquei-me a mais algumas, poucas, arrumações e estive a ver um filme. Depois do jantar, ainda de dia, decidi dar uma volta a pé e procurei uns chinelos que uso para este fim, quando a volta é curta. Procurei, procurei, procurei, mas não encontrei. Às tantas decidi telefonar-lhes a perguntar onde é que a garota tinha posto os chinelos, que me lembrava de lhe ter pedido para arrumar.
- Lá fora Quica, onde tu pediste que eu os pusesse.
- Mas lá fora já eu vi e não os encontro, estão lá os ténis, as sandálias, as botas, mas os chinelos não.
- Não Quica, lá fora não está nada disso, só lá ficaram os chinelos!
- Mas se eu estou aqui e estou a ver tudo isto de sapatos, como é que tu dizes que só cá ficaram os chinelos?
- Mas oh Quica, tu estás em que lá fora?
- O quê? Em que lá fora? Não percebo nada…
- Sim, tu só tens um lá fora que é depois da porta da rua, na escada, abre lá a porta que dá para a escada.
A meio desta frase já eu me dirigia para a porta, que abri. Ao cantinho, um por cima do outro, ao lado do tapete, estavam os chinelos. Baixei-me, apanhei-os e a rir continei a falar com ela:
 - Então tu puseste os chinelos na rua? Era na marquise do meu quarto!
- Quica, isso não é lá fora, é dentro! Eu bem te disse que tu só tens esse lá fora! Nós temos o pátio, as varandas e o hall de entrada por fora da porta, e eu perguntei duas vezes e tu disseste que sim, que era lá fora, por isso eu fiz o que tu pediste.
Despedimo-nos a rir, comigo a lembrar-me que esta é a miúda que, com quatro ou cinco anos, quando a professora disse que ela podia levar uma coisa em cada mão, ela corrigiu-a dizendo que podia levar mais pois para além das mãos, ela tinha dois debaixo dos braços…  

segunda-feira, 15 de julho de 2013

O beijo

A minha sobrinha fez 9 anos no Domingo e tem andado numa tensão acumulada relativamente aos festejos do aniversário, num misto de criancice com pré-adolescência. Talvez criancice aqui seja um pleonasmo, mas vou deixar passar...
Desde há meses que pede para passar o dia de anos na praia, razão pela qual lhe ofereci uma noite na Pousada de Catalazete, caserna para seis, ela, quatro amigas e o sargento que deu pelo nome de Mãe. Eu, o irmão e o pai da aniversariante fomos dormir a minha casa, a quinze minutos daquela noite de campo. Ou de praia. Fiquei cheia de inveja, é claro, mas o tempo foge-me e fica para outra vez.
No sábado jantámos na Casa da Praia, em cima da praia de Carcavelos, onde a empregada do restaurante levou nota 20: sempre com um sorriso, e depois da garotada ter jantado à mesa, levou-lhes as sobremesas à areia, com eles refastelados nuns enormes pufes, com paciência para as colheres que caiam na areia e que eram imediatamente substituídas e uma simpatia sem limites. O comer era fabuloso? Nem por isso, mas era razoável, os preços muito em conta - os menus infantis na ordem dos cinco euros - e aquilo que verdadeiramente nos fica na memória, que nos faz voltar, que nos leva a recomendar o sítio, é a simpatia.
Não havia sol, logo, não vimos o pôr-do-sol, mas o tempo abafado criou ali condições espectaculares para se passarem duas horas em beleza.
O meu cunhado, acabado de chegar do Equador com um magnífico panamá modelo Santos Dumont, parecia um estrangeiro. Sentados à beira da passagem das pessoas veio um sujeito e dirigiu-se-lhe da seguinte forma:
- Please, give me a cigarette.
Ele olhou-o e respondeu-lhe em bom português, O quê? Não percebo.
Lá deu o cigarro ao homem e continuou a contar as suas mil aventuras pela América do Sul, Santiago, desta feita, só enquanto fez escala entre a Argentina e o Equador.
O Duarte ganhou um chapéu do mesmo modelo e eu um, em papel cartonado, branco com uma fita preta, de uma elegância enorme. Trouxe este com a combinação de o devolver à minha irmã a troco daquele com que ela ficou, pois não conseguimos eleger um para cada uma, de modo que vamos trocando.
A guerra dos cem anos durou 116, os russos celebram a revolução de Outubro em Novembro e, entre outras curiosidades, o panamá é feito no Equador, e tem uma forma completamente diferente daquele bocado de tecido em forma de penico a que, por estes lados, se chama panamá, e que as crianças usam.
Assim, está o meu frigorífico ainda mais enfeitado do que estava com novos ímanes, e eu tenho dois novos exemplares de chapéus, belíssimos.
Pena não haver sol... por falar em sol, no Domingo o sol continuou amuado e depois de um banho rápido em local aberto a banhos decidimos ir ao Parque do Alvito.
O Duarte tinha ficado com o nosso carro na noite anterior e ainda não tinha chegado; assim, fizemos duas viagens da praia ao parque, tendo seguido a minha irmã e três garotas, conduzidas pelo meu cunhado, enquanto eu fiquei com outros três, tendo aproveitado para dar às pernas durante aquele bocado.
O meu sobrinho, sempre ao meu lado, disse que gostava muito do meu saco - que a C. me trouxe de Viena há poucas semanas - e afirmou que tinham aquela imagem lá em casa. E que imagem é esta, quis eu saber?
- Não sei.
- Sabes sim, já falámos nisto várias vezes, é O Beijo. E quem a pintou?
- Não sei.
- Mau... hoje não sabes nada... é do Klimt. E onde podemos ver esta pintura?
- Essa sei Quica... está no quarto da mãe!

terça-feira, 2 de julho de 2013

Se

Depois de o meu sobrinho ter dado baile a alguns colegas meus na aula de inglês onde foi ter comigo na quarta-feira, fomos lanchar e comprar uns miminhos para levar para a Quinta da Bela-Vista.
Ele continuava sem saber onde ia e à hora de saída apanhámos o metro na linha do costume comigo a insistir, mas afinal onde pensas tu que nós vamos?
O metro ia cheio e mais cheio ficou quando mudámos de linha, muita calça de ganga, muito ténis, muita mochila. Ainda brinquei a perguntar para onde iria toda aquela gente, que aquilo não eram horas de praia, eram horas de ir para casa.
Quando saímos ele disse-me que achava que íamos a um sítio, melhor, corrigiu-se ele próprio, ele queria ir a um sítio, mas não podia ser, era bom demais, por isso não dizia. Lá insisti e ele disse, devagar, a medo, vamos ver os Bon Jovi.
A cara que fez a seguir foi inesquecível. Coração acelerado, que ele fez questão que eu sentisse com a mão dele a segurar a minha sobre o peito.
Espreitaram-lhe a mochila, avançámos no meio de milhares de pessoas, ele comeu um cachorro, comprámos águas e escolhemos um sítio para ficar.
Ouvi mais tarde que muita gente não gostou do concerto, que houve queixas da organização, que cantaram mal, que não cantaram o que as pessoas queriam.
É engraçado a diferença que faz a perspectiva: se tivessem levado um gaiato ao seu primeiro concerto, um concerto que ele queria muito ver, se ele estivesse feliz, feliz, feliz, se os tivesse enchido de beijos o tempo todo, se desse enormes gargalhadas quando eu trauteava as músicas e, sem saber as letras, atirava palavras ao calhas e ele dizia, Quica, os Bon Jovi enganaram-se!, se tivessem recebido abraços inesperados durante aquelas horas, se tivessem saído para a confusão da falta de transportes dispostos a andar o que fosse preciso em busca do avô Bento que nos foi buscar, se ouvissem palavras de alento quando ele próprio estava exausto, estamos quase a chegar, é só mais um bocadinho Quica, se...
Pois, eu percebo, são muitos ses... e eu tive-os todos. Foi ou não foi uma noite memorável?