sexta-feira, 31 de maio de 2013

Um dia feliz

Um dos meus livros favoritos em criança era ‘Um dia feliz’, de Enid Blyton. Passava-se a bordo de um navio que, não me lembro porquê, a caminho dos Estados Unidos da América tinha que parar em Kobe no Japão. A mãe e as duas filhas protagonistas da narrativa aproveitam um dia livre fora do barco e aceitam o convite de um velho japonês para passear. Resumindo, foi um dia feliz, da praia ao zoo passando pela cidade.
O meu dia de ontem também daria um livro cujo título podia ser o mesmo. Eu que acredito que a felicidade é a soma de momentos felizes pois o estado permanente de felicidade não existe, ontem acumulei muitos momentos felizes.
Na noite anterior perdi os contactos do telemóvel, não interessa como. Fiquei aborrecida e a pensar que a recuperação nunca seria a cem por cento, consolando-me a pensar que também havia muitos números que não me faziam falta.
No total eram 455 contactos, alguns com números associados, de casa, do trabalho, etc.
Ontem de manhã comecei o dia a escrever uma mensagem que mandei por correio electrónico a centenas de pessoas, explicando em duas palavras o que tinha acontecido e pedindo que, caso continuasse a ser merecedora de confiança, que me enviassem os números de telemóvel. O que aconteceu a seguir, que se estendeu pelo resto do dia e ainda por hoje deixou-me muito emocionada, a pontos de chorar por duas vezes.
As respostas chegaram em catadupa com os números de telefone a serem acompanhados por mensagens de solidariedade pelo sucedido mas, perfeitamente inesperado, com palavras de carinho de pessoas que não vejo há algum tempo, manifestação de saudades, palavras doces e ternurentas que me deixaram babada e de lagriminha ao canto do olho. Mais ainda, este tipo de mensagem vindo de pessoas que vejo regularmente, principalmente a nível profissional, tocou-me em particular.
Chegaram com amor de Moçambique e com corações de antigos namorados, chegaram telefones de casa de pessoas que eu compreenderia que nem me dessem o telemóvel, ilustres e reconhecidas figuras, que nem lhes vejo tempo para falarem aos filhos, põem os seus telefones nas minhas mãos e dizem-me para os usar sempre que precisar, há quem mande os telefones dos cônjuges e as moradas de casa e sempre, sempre com palavras dão afectuosas e meigas que não me contive.
E se vários mandaram os números apenas com um lamento pela situação, muitos outros brincaram com a coisa, alguém ligou e disse que era o pretexto para me convidar a almoçar e até um secretário de estado, a quem eu não mandara a mensagem, adivinhou e ligou-me espontaneamente querendo saber de mim. Aproveitei sorridente para obter tão importante contacto.
E estava eu nesta alegria de me ver pelos olhos de tantas pessoas que assim me tratam quando, sem aviso prévio, chega um amigo de longe a quem abracei efusivamente, matando tantas saudades.
E se tanto não chegasse para me por a cantar, fiquei a saber novas e boas da vida escolar do meu filho que me fizeram suspirar de alívio e bater palmas.
E nadando olimpicamente neste dia de sol – os dias felizes têm sempre sol – partilham comigo informações sobre a minha empresa, que muito me honram pela confiança e responsabilidade.
E empanturrada de alegria e felicidade vem a medalha de ouro, a notícia que se quer e se deseja mas temos receio que não chegue, o fim da ansiedade, a enorme cereja em cima do melhor bolo possível: fico a saber que se fez justiça com uma pessoa muito querida, numa acção contrária ao rumo da maioria das tomadas de decisão, cujo lugar está assegurado no sítio certo porque o profissionalismo, o empenho e a integridade, por vezes, também vingam.
E embora calcasse ténis – havia greve de metro e fiz vários quilómetros a pé – mas sentindo-me com uns saltos mais altos do que aqueles que nunca usarei, e com tudo isto na minha bagagem, desci a avenida da Liberdade. Se alguém viu por lá uma mulher ao fim do dia a cantar, era eu.
Já em casa pensei no euromilhões. Posso não o ter ganho, mas sei qual é o sabor!

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Pelos caminhos de Portugal

A equipa de andebol do Duarte está na fase final. Isto significa deslocações, andanças para cá e para lá, almoços, lanches e jantares sabe-se lá por onde, esperas, jogos e, até agora, vitórias.
O fim de semana começou na sexta-feira à tarde, a caminho da Marinha Grande. Ele já lá estava, fui ver o jogo mas não cheguei a tempo porque me perdi no caminho.
Com os meus eternos problemas de orientação, a páginas tantas resolvi parar numa bomba de gasolina e perguntar o caminho. À esquerda, à direita, em frente, vire aqui e ali. Primeiro, nos dois segundos a seguir ao início da explicação, já eu me tinha esquecido das primeiras palavras do homem, segundo, quando ele disse que em hora e meia chegava lá, que entrasse na auto-estrada em tal sítio, abri os olhos e convenci-me que ele não percebia nada de estradas nem de mapas, nem podia ser de outra forma, então eu andava a conduzir há séculos e ainda faltava aquele tempo todo?
Dois quilómetros adiante nova bomba de gasolina. Parei e voltei a perguntar. É fácil, disse o homem, vira ali e vai sempre em frente, há-de encontrar uma seta, uma indicação. Saí da segunda bomba, ufana e sorridente. Eu bem tinha percebido que o primeiro homem não sabia nada de nada, eu topo-os à légua!
Segui a indicação do senhor - este era um senhor, o outro era um homem - e lá estava a placa, lá estava ela à minha espera, mas... espera aí, setenta e dois quilómetros? Faltam setenta e dois quilómetros? Nesta estrada cheia de curvas, a passar por tudo quanto é terreola com semáforos a sangrarem assim que passamos um quilómetro da velocidade limite? Não acredito nisto.
Resignada, carrego no acelerador, até ao momento em que a estrada se parte ao meio, sem placas nem para a esquerda nem para a direita. E agora? Escolho a esquerda. Cem metros mais à frente, uma paragem de camionetas, um homem sentado esperava uma viatura com cinquenta lugares para a qual achava que era preciso pagar bilhete. Engano dele. Pergunto o caminho, ele levanta-se, aproxima-se, responde, garante ter a certeza, sabe bem, ele é de lá, vai para lá assim que chegue a camioneta. Então venha comigo, digo eu. Não, minha senhora, baixa o olhar, eu trabalho com cavalos, cheiro mal, cheiro muito mal. Com cavalos? Ó homem, é melhor trabalhar com cavalos que com pessoas, vamos embora, então com licença, entra ele, aceitando. Conversa franca, foi uma pena quando acabou, chegou ele a casa, eu ainda tinha muito pó a comer.
Muitos quilómetros mais à frente, sem placas, sem nada, dei por mim no meio de uma terra sem nome. Passava um cavalheiro que foi atacado pela minha falta de paciência, desligou o telefone que lhe ia colado ao ouvido e fez uma coisa inaudita: agarrou num papel e num lápis e fez-me um croqui. Um croqui! Cheguei ao destino num ápice, que eu posso ser mouca de entendimento mas leio e interpreto muito bem.
Pelo caminho pensei no V. mil vezes. Ele conhece bem demais aqueles caminhos, adora-os!, e de certeza que com ele chegaria a horas, assim, o Duarte esperou sentado nos degraus que chegasse a sua mãe, qual ceguinha, a bater todas as pedras da calçada.
No domingo voltei, mais um jogo, mais uma rodada, caminho já sabido, decorado. Deixei o Duarte no hotel com os outros e fui compensar um sábado com treze horas de trabalho, exaustão a transbordar. Passei por Monte Real e fui almoçar a Vieira de Leiria. Fiz tenção disso.
Não sei porquê, lembrei-me de perguntar se tinham multibanco. Não tinham. No outro a seguir também não tinham. Então e onde posso levantar dinheiro? Olhe, é fácil porque só há um multibanco, faça esta avenida toda e encontra-o. Sem surpresa constato que não há dinheiro na caixa automática. Subo a rua de volta a entrar, qual mendiga, em todo o lado: tem multibanco? Não, repetem.
Está um táxi parado já à beira do mar e lá arranco a informação sobre um local onde posso pagar com multibanco. Finalmente, lá entraram quatro sardinhas e uma salada de pimentos assados.
Bom proveito me fizeram.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Semana académica, noites de insónia

Avisou-me o Duarte que durante a semana académica não se comprometeria com horários de entrada em casa. Eu tinha que compreender, foi dito em tom de voz conciliador não fosse eu lembrar-me de algum motivo obscuro para que ele não fosse e ao qual ele não se pudesse escapar. Eu compreendo sim, filho.
Mas também sei que, habituada à entrada em casa a certa hora, na maioria dos dias antes de eu me deitar, agora estranho tanta sexta-feira seguida, tanto sábado a seguir um ao outro. Mesmo nesses dias, muitos há em que ele, qual Cinderela, antes da meia-noite está em casa. Assim, agora adormeço mas acordo passado algum tempo e fico ali a ler o escuro. Não estou completamente acordada, razão porque não pego num livro, não estou a dormir verdadeiramente, mas estou alerta, bombeira viciada, e até sonho. Sei que estou a sonhar mas meia acordada, refutando assim quem diz que só se sonha em sonos profundos.
Hoje passou pelo quarto uma equipa de padres que participavam num peddy paper e um deles fez intenção de se sentar numa cadeira que não pertence ao quarto mas ali ficou a pernoitar. Dei um salto na cama e tirei da cadeira um monte de camisolas de inverno que aguardam ser colocadas no alto do armário. Com as batinas a fazerem frou-frou perguntaram-me onde podiam encontrar o nome da rainha das Amazonas. Disse-lhes que se chamava Hipólita mas eles retorquíram que tinham que indicar o livro e a página onde recolheram a informação. Disse-lhes que inventassem e virei-me para o outro lado. 
De manhã o monte de camisolas estava no banco aos pés da cama e não na dita cadeira onde efectivamente o tinha deixado. Tudo torto e amarrotado, é claro.
Esta mistura de sonhos e de realidade enquanto decorre a espera pelo Duarte é fatigante e confusa. De manhã vou reprogramando o despertador para mais cinco minutos o que na prática não adianta nada pois mantenho-me naquele estado de semi a dormir e semi acordada.
Curiosamente nas sextas e sábados em que ele sai, ou noutros dias muito esporádicos a propósito do aniversário de um amigo, eu adormeço e nem dou conta dele chegar. Mais, sempre me insurgi contra quem me dizia que não conseguia dormir até os filhos chegarem e que a preocupação era enorme, sempre a pensarem o pior e etc., etc. E agora sou eu que ajo assim. Acredito também que isto se deva ao estado de exaustão geral, tal como naquelas noites em que temos muito sono e não conseguimos dormir ou, depois de horas esfomeados, ficamos enjoados e não nos apetece comer.
Uma coisa é certa, a dormir ou acordada, a sonhar ou bem desperta, já que tem que entrar alguém no meu quarto, têm que ser padres? Com franqueza…

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Ai a minha cabeça


Lembro-me de uma vez dizer à minha avó que determinada peça de roupa não se passava a ferro daquela maneira. Assim que o disse, arrependi-me. Senti-a magoada e triste. Eu não sabia passar a ferro nem daquela maneira nem doutra, mas via a minha mãe a fazê-lo de outra forma e abri a boca para deixar sair asneira. Sempre amei profundamente a minha avó e o meu avô, e embora fosse muito pequena – não tinha seis anos, fui fazê-los a outra casa, por isso sei a idade que tinha – nunca mais me esqueci daquele episódio. Ela estava apenas a ajudar da maneira que sabia e mais nada.
Ao longo dos anos sempre que ia a casa deles no Alentejo, em pequena, na adolescência e já adulta, sempre fiz o maior número de coisas possível para a ajudar, ouvindo-a sobre a melhor maneira de o fazer, mesmo que não coincidisse com a minha opinião. Raras vezes os meus avós se aborreceram comigo e mesmo quando teimava lavar roupa no tanque debaixo de grandes calorinas, sorria com carinho verdadeiro para que ela não se zangasse comigo e me deixasse estar molhada das unhas dos pés até à raiz do cabelo.
Agora lembro-me disto a cada dia que passa por causa da minha mãe que continua a ir de vez em quando a minha casa ajudar-me com a roupa e as limpezas mas, já não sendo a cabeça o que era, os resultados são um pouco insólitos: em vez de estender a roupa lavada que está na máquina, põe-na a lavar outra vez; passa a ferro e pendura roupa com manchas; limpa o pó mas esquece-se de um móvel; guarda comida no forno e não no frigorífico, entre outras coisas.
Muitas vezes rimo-nos das coisas que ela faz, um riso espontâneo mas assustador, que nos faz antever o amanhã, um amanhã sem memória. Há dias saiu de casa com o telemóvel no bolso e precisando de fazer um telefonema carregava nas teclas mas não acontecia nada. Pediu ajuda ao meu pai que, não se aguentou, e desatou a rir: ela tinha levado o comando da televisão em vez do telefone. Já depois disso, enquanto fazia o jantar o meu pai via um programa de televisão sobre snooker; ela chamou-o para a mesa e ele foi mas não apagou a televisão; ela foi à sala desligá-la e, vendo a mesa de pano verde a ocupar todo o ecrã  perguntou-lhe se ia haver bola e quais eram as equipas… É claro que nós brincámos a dizer que era sem dúvida um problema de vista, pois tinha confundido uma mesa de snooker com um campo de futebol.
A minha mãe apercebe-se que a memória está a falhar, fica angustiada e repete ai, a minha cabeça.... Pede-nos que demos recados ao meu pai, cuja cabeça funciona como um relógio suíço, escreve tudo em papéis que ficam colados no frigorífico, embora se esqueça de ler esses papéis e a recente operação do meu pai deixou-a de rastos fisicamente. As deslocações a Lisboa, coisa banal para qualquer um, são aventuras para ela e apertos no coração para mim, que morro de medo que se perca.
Sinto-me aprisionada num campo de forças invisível como se fosse uma personagem do Espaço 1999 que tanto gostava de ver. Vejo fotografias com uma mulher determinada e um homem forte que conheço bem e não os encontro em parte alguma. Para onde foram?
A minha irmã vive longe e eu, por via da proximidade, tenho outra responsabilidade, outro olhar, como se estivesse sempre acordada como fazia nos primeiros dias de vida do Duarte, com medo que lhe acontecesse alguma coisa. Até a dormir me preocupo e dou por mim a pensar que não posso estar doente, senão, que será deles?
A idade fá-los teimosos, a ambos. Dou-lhe um desconto maior a ela, sei que não sabe, que não se lembra. Nos últimos anos de vida do meu avô, pai da minha mãe, as conversas decorriam em torno de uma realidade com décadas, mas como se aquilo tivesse acontecido ontem; a baralhação de tempos era inacreditável, acompanhá-lo em tantos calendários, era impossível. A minha avó chamava-o para almoçar, por exemplo, e ele teimava que tinha acabado de comer. Teimava também em ir ver terras que já não lhe pertenciam, que tinham sido vendidas, informação contra a qual ele se insurgia, pondo-se a caminho com a força de um homem do campo que leva tudo à frente e não admite obstáculos. Nesta fase já não tinha consciência que a memória estava irremediavelmente danificada, e eu pergunto-me quanto tempo falta para que a minha mãe esteja assim. Pergunto-me também, num sussurro, muito baixinho, quanto tempo falta para que eu esteja assim também.

Às armas, às armas

O Duarte não comeu os ovos mexidos com pimentos e salsichas, pequeno-almoço que devora sempre que acontece poder fazer-lho. Das duas tangerinas descascadas e colocadas em forma de flor numa taça comeu metade de uma delas apenas. Bebeu o chá de caramelo e respondeu sempre em monossílabos. Quando respondeu.
Levou-me à estação conduzindo de tal forma que se o percurso fosse para exame, chumbaria. Não me acompanha até Lisboa, não vai à faculdade, vai passar o dia em Queluz e é por isso que está nervoso e chateado. É o dia da defesa nacional e tem que se apresentar no quartel e passar o dia a ver armas e a cantar o hino, sic, segundo ele as ocupações deste dia dos jovens que são chamados para ver se os agarram à tropa, sic outra vez.
A má disposição é enorme. Tento falar com ele sem sucesso. Às tantas lá me diz que é um dia igual aos outros, o grande aborrecimento vem do facto de ir sozinho, nenhum dos amigos está com ele. Pergunto-lhe se agora sozinhos não valem nada, se precisam sempre de andar acompanhados, se são uma versão moderna dos antigos guarda-fiscais que andavam sempre aos trios, um que sabia ler, outro que sabia escrever e o terceiro que gostava de andar com gente culta; não acha graça e lembra-me que eu tive um avô guarda-fiscal. Digo-lhe que gozar com nós próprios é mais engraçado que gozar com outra pessoas. Não obtenho resposta. Hoje nada o porá bem disposto. Ou quase nada. Pode ser que dê de caras com uma soldada que até o faça querer seguir a carreira militar nem que seja por um dia.
Espero sinceramente que à noite a telha já lhe tenha passado, caso contrário quem arranja uma guerra sou eu.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Eu quero férias!

Apesar de não ter um chavo a única coisa que me dá alento é pensar nas férias. Que vão ser boas, que vão ser grandes, que vão ser longas, que vão ser tranquilizantes, que vão ser férias.
Cansada e adoentada, sem vontade de nada mas a esforçar-me para fazer tudo - estive em casa com um pé avariado e tiraram-me sete dias de ordenado, apesar de ter faltado só cinco, pois meteu um fim-de-semana pelo meio, e não me posso dar ao luxo de faltar um só dia - arrasto-me da cama para o trabalho e do trabalho para a cama, carregando as preocupações inerentes ao estado de saúde do meu pai, agudas neste momento, não obstante já estar em casa, e também da minha mãe, cujo amigo alemão a transtorna mais de dia para dia.
No trabalho estamos a passar um pico de intensidade enorme com as equipas de avaliação externas a visitarem-nos de quinze em quinze dias. Cada departamento é avaliado uma vez e os encontros com o pessoal não docente pressupõem a intervenção de um grupo de pessoas, que eu integro, que bota discurso durante uma hora, nada de mais. Porém, e aqui reside o fundamental, para cada visita das equipas de avaliação é preciso reunir a produção científica de cada departamento. E quem é que faz este trabalho? A Biblioteca. Assim, ainda não terminámos um e já estamos a lamber outra lista, a verificar existências, a recolher documentos, a armazená-los, a transportá-los para o local das reuniões, a organizá-los numa exposição que obedece a determinados critérios. Imediatamente a seguir é preciso fazer o percurso todo ao contrário e devolver a documentação aos seus respectivos lugares, ou seja, enquanto cada departamento descansa a seguir à sua avaliação, nós reiniciamos o processo.
Mas como se isto não chegasse ainda há a visita às instalações onde a Biblioteca é examinada in loco pelos elementos da equipa que fazem perguntas e querem ver tudo.
Em resumo, para a Biblioteca é um trabalho de maluquinhos e, apesar de já termos pedido que consultem o catálogo on line, verificando assim as existências, insistem em ver a produção isolada numa sala que, ainda por cima, fica longe da Biblioteca.
Eu quero férias, por favor!
Por inerência de funções assisti a um evento promovido por uma agência de viagens onde a Áurea iria actuar. Fui e vim carregada de sonhos em formato de catálogo, não vi a Áurea, adoentada que já estava não  aguentei mais de uma hora em pé, mas assoberbei a minha sede de férias. Ainda me ri com uma senhora que  me sugeriu vários destinos, pontaria das pontarias, todos já meus conhecidos. Quando lhe disse ela fez cara de quem não acreditava em mim, como se eu estivesse a armar-me aos cucos. Não me passou despercebido o seu olhar à minha roupa - havia dress code e eu não sabia - e algures pela cabeça passou-lhe a ideia que aquela pelintra mal vestida estava a inventar quando dizia que já tinha estado na Rússia e na China, no Sahara e na Jordânia, em vários países das Caraíbas entre outros locais. Confirmei esta sensação no dia seguinte quando uma conhecida minha da agência de viagens me telefonou a comentar uma conversa entre ela e a dita senhora, tendo ela confirmado os carimbos do meu passaporte. Foi só rir.
Mas eu continuo a querer férias, descanso, quero estar com os meus sobrinhos sem horas para fazer nada para podermos fazer tudo ao mesmo tempo, quero planear ir a um sítio e à última hora ir a outro, quero acordar cedo, adoro, para ter a perspectiva de um dia longo de mimos e de conversas. Quero um bocado de sossego. É pedir muito?

terça-feira, 7 de maio de 2013

Prova superada!

Das vezes em que fui submetida a cirurgias começava o dia com a expectativa das visitas. Quando elas chegavam eu rezava interiormente para que se fossem embora. Até aí achava que a expressão 'cansar os doentes' era um bocado vazia de conteúdo, hoje sei que não é assim.
Carótidas desobstruídas, doente com com bom ar, cá deste lado respira-se de alívio e pondera-se seriamente em desligar o telefone.
Ontem demorei horas a fazer o jantar e lembrei-me de Duas Mulheres em Praga, de Juan José Millás, penso que é este, no qual uma das personagens ata o braço direito para se forçar a fazer tudo com o esquerdo: eu ia mudando de braço e mão, mas usando um à vez pois estive horas ao telefone e ia desligando quando entrava outra chamada ou tocava outro telefone. Todos queriam saber notícias da operação e o meu telefone parecia uma central de informações médicas. Às tantas já respondia maquinalmente e os últimos dois telefonemas foram remetidos para hoje, atendidos que foram já na cama e só os atendi para que as pessoas em causa não lhes atendendo eu, fossem ligar à minha mãe.
Agradeço muitíssimo todos estes cuidados, como é óbvio, prova provada dos amigos dos meus pais, mas confesso um cansaço enorme.
Por outro lado, tinha já dezenas de telefonemas não atendidos ao longo do dia, na maioria de amigos já reformados que, querendo saber novidades, não se lembram que estou a trabalhar e que não posso estar ao telefone nas calmas. Assim, a um deles disse-lhe que lhe ligava logo, sendo o meu logo mentalmente ao fim do dia. Um quarto de hora depois estava ele a ligar novamente alegando que eu dissera logo e ainda não tinha telefonado.
Respiro fundo duas ou três vezes e digo estar muito ocupada. Mas ele só quer saber como está o meu pai. Está bem, digo eu, parva e ingénua. Onde é que duas palavras chegam numa situação destas? Ele quer saber a que horas entrou no hospital, a que horas devia ter sido operado e a que horas foi mesmo operado, qual a razão do atraso e mil outras coisas. Repito que não posso estar a falar, que estou a trabalhar e ele condescende não sem antes me arrancar uma promessa que telefonarei de novo. Logo. Sim, mas não logo logo, ao fim do dia. E atenção: o meu fim do dia é já de noite.
Concluindo, ontem estava mesmo cansada e já com uma ponta de irritação, mas hoje revejo tudo e tenho vontade de rir, principalmente lembrando um dos meus interlocutores que queria falar com a minha irmã ao telefone e me disse que lhe ligaria à hora do almoço, sabendo que almoçaria em casa. Sugeri que não o fizesse e que optasse pela noite, pois ao almoço é sempre tudo a correr. Ele respondeu-me incrédulo que mesmo que ela comesse batatas fritas com ovos estrelados sempre os demorava a fazer, a pôr a mesa, a comer e tudo isso. Imaginando a minha irmã a comer à pressa qualquer coisa já pronta tirada do microondas, sorri interiormente perante o abismo que existe entre duas verdades.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Não Vale Tudo


Parte da noite de Domingo é partilhada entre o cuidar das mãos e das unhas e ver o Vale Tudo. O Vale Tudo inclui ver César Mourão, delicioso e impagável, extraordinário; inclui também decorar brincadeiras que depois fazem as alegrias dos meus sobrinhos e que repetimos quando estamos juntos, com o avô a fazer de apresentador e todos os outros em jogo. Vale mesmo a pena, vale mesmo tudo.
Porém, ver o programa equivale também ver a plateia constantemente filmada e constatar que muitos dos que assistem in loco e em directo a um programa de televisão que acaba perto da uma da manhã, lá onde é filmado, são crianças de tenra idade.
Que pais são estes que levam criancinhas de colo para um espectáculo de domingo à noite que os leva a casa, e à cama, entre a uma e as duas da manhã, isto se não morarem longe do estúdio onde é gravado? Quem são os inconscientes? Quem são os que colocam o seu próprio bem-estar muito à frente do bem e dos níveis de qualidade mínimos dos seus filhos? Ficarão em casa na segunda-feira seguinte? Não há escolas, colégios ou infantários? São crianças e famílias escolhidas a dedo porque estão em casa?
Impressiona-me ver que os pais não pensam literalmente nos filhos e impressiona-me ver que a estação de televisão – SIC – permite que isto aconteça. Só por isto, pelo confronto obrigatório com imagens de garotos de olhos semicerrados e outros em excitação total, já não Vale Tudo. 

Dia do Pai

O Dia da Mãe foi essencialmente Dia do Pai.
Logo de manhã não houve missa como é costume com os meus pais, eu não fui à praia, não caminhei ao longo do paredão, não tranquilizei o espírito e cansei o corpo como é habitual. Deixámos o meu pai no Hospital de Santa Marta para ser operado às carótidas nas quais tem uma obstrução de 95%. É obra.
A minha mãe e eu a misturar tristeza e preocupação, ele habituado, mais uma, já lhe perdeu a conta, são para cima de cinquenta cirurgias.
Para entrar há que fazer um registo novo. As enfermeiras e enfermeiros, médicas e médicos vão passando e cumprimentando-o como se ele estivesse no átrio de um hotel onde tinha decidido passar umas noites. A enfermeira que lhe processa a entrada discute com ele problemas pessoais, pede opinião, fica feliz por ele lá estar para se aconselhar com ele, psicólogo, padre, médico também, amigo acima de tudo.
Assisto a tudo com os braços apoiados no balcão, somos só nós, é Domingo de manhã, até parece que abriram o Hospital para ele, para além do pessoal médico, mais ninguém. Intervenho apenas na parte em que a senhora pergunta quem é a pessoa de contacto e quer confirmar o telemóvel, sou eu, sim, é tudo igual ao da última vez.
Com receio que lhe roubem o telefone ele não quer ficar ligado ao mundo. Depois do almoço não lhe podemos dizer que o Duarte ganhou o jogo e marcou dois golos, que almoçámos em minha casa um almoço de Dia da Mãe com um puré de batata doce e pêra que eu vira alguém fazer na televisão na noite anterior e que estava mesmo bom. A meio da tarde não lhe podemos dizer que insistimos em ir lanchar a um sítio diferente com a minha mãe mas que ela não quis, angustiada, assim como não quis ficar a dormir na nossa casa. Já de noite não lhe pudemos dizer boa noite.
Hoje de manhã fui dizer-lhe bom dia esperando encontrá-lo a recuperar da anestesia. Estava composto com o fato da cirurgia, de azul cinema, com fome, mas aguardando que uma urgência que tinha chegado de madrugada se despachasse, para ser ele a dar a volta no carrossel da mesa de operações. As enfermeiras e demais pessoal deixaram-me falar com ele um minuto. Foi bom.
Agora faça o que fizer, estou na sala de espera e esperar é das coisas mais insuportáveis que há. Quando já sabemos o que nos espera, aguenta-se melhor, como por exemplo eu esperar sempre secretamente que o pai do meu filho me parabenize no Dia da Mãe, coisa que não acontece. O Duarte ofereceu-me um CD de música, entregue dois dias antes pois, sabendo que ia passar algumas horas a conduzir, decidiu entregá-lo de avanço para que o pudesse usufruir.
Em dia de cirurgia tudo o que faço tem um enorme risco associado, como se as minhas acções estivessem, eles próprias, na mesa de operações. Esperemos.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Então vá

Entro no metro na primeira estação. Entra também uma senhora ocupada com um telefonema. Despede-se com um então vá, beijinhos.
Doze estações e dezoito minutos depois chego ao destino. A senhora segue viagem, sempre a dizer então vá, beijinhos. Saio impressionada com a mais longa despedida de sempre, não tendo ela mostrado qualquer sinal de ansiedade, pressa ou impaciência.
Qual máquina repetiu mil vezes então vá, beijinhos, mil e uma, talvez, que eu ouvisse e acima disso garantidamente pois não a vi desligar.
Ainda a meio da viagem cresceu-me a curiosidade sobre a pessoa lá do outro lado, o que diria? Impedia-a de desligar? Gritava-lhe e ela tentava-a acalmar com um então vá e uns apaziguadores beijinhos? Não ouvia, era mouca? Seria esta estrangeira e a única coisa que sabia dizer em português era então vá, beijinhos?
Sem perceber as razões bem haja quem tem paciência.

Surpresa!

Antibióticos, anti-inflamatórios, xaropes, pomadas, pingos para o nariz, tudo mora na minha mesa de cabeceira desde há dias. Ontem sai da cama perto das seis da tarde, passada a febre e com um ataque de fome. Bom sinal.
Tenho tido um moço de recados para a farmácia e um fazedor de chá - o Duarte - que anda compreensivo e atento, embora carregue uma tristeza sem fim pois a fase final do andebol coincide com a fase final de caloiro e a semana académica.
Hoje vim trabalhar com um andamento periclitante e meia tonta até chegar ao café por baixo da nossa casa, paragem obrigatória: quando fui pagar, abri a mala e em cima de tudo estava um CD gravado pelo Duarte.
Fartando-me de comentar que gostava de ter aquele CD sobre o qual ouço a publicidade, e sabendo ambos que não o podemos comprar, ele fez-me a surpresa e copiou-o.
É ilegal? É feio? É anti-ético? Se calhar é, mas não no meu coração.