quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Monarcas, ministros e cientistas. Mecanismos de poder, governação e informação no Brasil colonial


O Brasil colonial no século XVIII é o denominador comum dos 15 artigos que ora se editam conjuntamente. Na introdução lê-se que “…há um pressuposto que estrutura esta selecção e que consiste na noção de conhecimento enquanto forma de poder”.
Sublinha-se a fertilidade do século XVIII na produção e disseminação de conhecimento bem como no desenvolvimento científico. Destaca-se a forma de organizar a informação e os arquivos que hoje são a plataforma base dos investigadores para nos darem a conhecer aquela realidade.
Concordamos com o final da Introdução quando afirma: “…olhar para o passado e relê-lo pode ser uma forma de ajudar a compreender o que somos e como as imagens que actualmente formamos podem ser melhor compreendidas se atendermos aos estereótipos que outrora fizemos”.
Está presente a análise dos relatos de viajantes que tanta curiosidade tinham sobre a imensidão e segredos do Brasil, bem como as viagens científicas e a divulgação cartográfica que se produziram na altura e hoje são fonte da mais rica água para obter informação.
Livro impecável de Ângela Domingues, editado em Novembro de 2012 pelo Centro de História de Além-Mar da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e pela Universidade dos Açores.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Balde de água fria


Depois da tempestade vem a bonança. Costuma ser assim. Mas também pode ser ao contrário.
Saímos do hospital em procissão, quais peregrinos agradecidos, a graça foi-nos concedida: o meu pai não será operado tão cedo. Chovem telefonemas que são atendidos com o mesmo sorriso de satisfação e a informação repete-se.
Passa uma semana e já nos habituámos a não reter a respirar com medo das notícias, pelo menos por ora navegamos sem perigo à vista.
A menos que telefonem a dizer que houve um engano, que uma análise mais centrada dos exames dite exactamente o contrário, que a coisa é muito mais grave do que parecia e afinal não há alternativa, é operar, com escassos pontos percentuais de probabilidades de não cortar.
Atendo o telefone a caminho de uma curta reunião. Deixo de sentir os braços e fico com tonturas. Um engano?
Sinto-me uma criança a quem tiraram o brinquedo preferido e penso imediatamente no euro-milhões; não, não precisa de ser aquela batelada de milhões, o necessário para uma cadeira de rodas chega.
Não, não chega, quero-o todo!
Quero comprar a mais sofisticada cadeira de rodas que já existiu, quero comprar uma prótese digna de um atleta olímpico, e um carro adaptado, o melhor que alguma marca de carros já construiu; quero comprar uma casa rasteira com jardim e com quintal, sem escadas; quero bilhetes em primeira classe no avião mais rápido do mundo para os levar a Roma, onde rezem o que lhes for na alma, e dali a Paris para que conheçam a cidade que lhes suscita curiosidade e onde nunca foram, num passeio que dure o tempo que lhes apetecer; quero comprar outra casa, lacustre de preferência, para que estejam na praia sempre que lhes apetecer e a minha mãe a decore como bem entender; quero comprar todos os bilhetes de teatro e cinema e dança e exposições e tudo em todo o mundo para que se deliciem com o que gostam; quero comprar todos os dicionários que existem no mundo e apagar a palavra Engano; quero que a operação corra bem.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Proposta para o Plano Nacional de Leitura


Em arrumações descubro um Rómulo de Carvalho perdido fora do sítio: O texto poético como documento social, editado em 1995 pela Fundação Calouste Gulbenkian.
Nas palavras prévias pode ler-se: “Pretende o autor, com a presente obra, erguer, aos olhos do leitor, a pessoa do poeta como um ser atento aos acontecimentos que o rodeiam, e envolvem, no ambiente social em que o poeta se movimenta. (…) Acrescentaremos apenas que, logo após o 25 de Abril, ainda na fase de exaltação que a revolução provocou, a poesia ‘veio para a rua’, conforme foi assim mesmo proclamado, dando voz às gargantas que se sentiam sufocadas com as restrições impostas pelo regime político anterior. Foi um desabafo incontido, irreprimível, dir-se-ia mais orgânico que mental. Ao desabafo seguiu-se o alheamento. Pela primeira vez na nossa História os poetas, enquanto tal, parecem alheados dos problemas sociais. Caberá aos sociólogos darem interpretação a tão estranho acontecimento”
Rómulo de Carvalho guia-nos por cerca de 400 páginas ao longo da História de Portugal, de onde se retiram dois ou três exemplos:

Sá de Miranda, (p. 102):
Homem de um só parecer,
De um só rosto e de uma fé,
De antes quebrar que volver,
Outra coisa pode ser
Mas de corte homem não é

Álvaro de Brito (p. 102):
Sem pena ou sem favor
Nem por graça divinal
Não pode bom servidor
Medrar neste Portugal

António Ribeiro Chiado (p. 102):
Vejo andar a justiça
Em mãos dos mais roubadores,
E vejo os julgadores
Casados com a cobiça

Gil Vicente, fala a Justiça (p. 103):
A justiça sou chamada,
Ando muito corcovada,
A vara tenho torcida
E a balança quebrada
………………………………………………….
Fazei-me estas mãos menores
Que não posso apanhar,
E que não posso escutar
Esses rogos de senhores
Que me fazem entortar

Gil Vicente, fala o Diabo (p. 111):
Toda a glória de viver
Das gentes é ter dinheiro,
E quem muito quiser ter
Cumpre-lhe de ser primeiro
O mais ruim que puder

Eduardo Fernandes (Esculápio), (p. 357):
Temos novas subvenções
E há muito quem aproveite
De mais uns magros tostões.

Mungiu-se a teta do leite
E saiu aos borbotões.

Mas o pior, ó meu Zé,
Ó meu tão dilecto amigo,
É que vais no volié.
Todos exploram contigo
Já pagas mais no café.

Quem diz café, diz carvão
Diz carnes e mercearias,
Diz toucinho, diz feijão,
Diz diversas porcarias,
Desde o vinho até ao pão.

E tu que, subvencionado,
Julgavas uma fortuna
No que tinham aumentado,
Ficas à divina, à tuna
E és um homem encravado.

Sabe pois, meu idiota,
Que isto nunca mais se ajeita.
Mangam contigo. É batota.
Dão-te três com a direita
Tiram-te dez com a canhota

Octávio de Medeiros (p.357):
São horas de expandir à pátria inteira
Que é preciso correr com os vendilhões
Que fazem do país uma esterqueira
De onde o carácter sorve as infecções!
São horas de acabar com a bandalheira
Fazendo quaisquer outras eleições
Correndo de uma vez com estes sicários
Mais daninhos que ratos nos armários.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Hi yo, Silver!


Havia um mascarado que andava sempre com o índio Tonto que não era nada tonto, antes pelo contrário. Em Espanha mudaram-lhe o nome para Toro para não dar azo a más interpretações e, em simultâneo, mostrar da força que se concentrava naquele que secundava o herói.
Agora temos um tonto que é mesmo tonto e parece um touro e que é apoiado por um bando de malfeitores num país em colapso, com mais desempregados que pedras da calçada, onde a saúde é só mais uma palavra no dicionário, a justiça é uma lembrança das acções do Zorro nos livros aos quadradinhos, com escândalos escandalosos escandalosamente silenciados, onde se pedem explicações ao Governo, aos membros do Governo, ao Primeiro-Ministro, aos políticos em geral, aos directores dos jornais, às administrações das empresas, aos bancos e não se obtêm respostas, e no dia em que não se deixa falar um tonto, aqui d’ el rei que se violou a liberdade de expressão.
Ou seja, em página repleta de erros aponta-se uma vírgula mal colocada.
Não percebo.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A noite das mulheres cantoras


Lídia Jorge não mora na minha casa. Há vários anos tentei lê-la e não me seduziu, nem com murmúrios. Agora fiz outra aproximação por intermédio de um amigo que garantiu garantidamente garantido que iria gostar. Assim, assisti à A noite das mulheres cantoras.
Gisela Batista pavoneia-se ao longo das páginas como a miúda mais cool do liceu que todas já conhecemos, que invejávamos e de quem queríamos ser amigas. Nunca se menciona que Gisela andasse no liceu, mas a fotografia não engana. A Solange cabe em sorte ser aquela amiga, aquela sorte que nem se acredita ter. Na verdade Gisela quer ser como Solange, quer saber escrever, embora nunca o diga, e Solange sente-se no Olimpo só por estar ao lado de Gisela, de quem bebe as palavras, os gestos, como quem se diviniza por estar ao lado de um deus.
As irmãs Alcides são a essência, a estrutura vocal, e Madalena Micaia o Kilimanjaro, o cume.
A narrativa é a descrição das memórias de tempos ocorridos há mais de vinte anos, quando se sacrificou o Kilimanjaro sem que o sacríficio tivesse levantado grandes problemas de consciência: as luzes da ribalta foram mais fortes, o Coliseu falou mais alto, a fama quer-se ver ao longe, como se fossem olímpicas candidatas e não meras aspirantes a cantoras, fabricadas com o dinheiro do padrasto de Gisela.
Pelo meio, o amor. Pelas margens, o sexo.
Não é um livro sobre África, nem em África, mas África está mais presente do que se pode imaginar, pelos passados das protagonistas e pela African Lady.
Descreve-se um percurso partilhado onde a vida pessoal deixou de fazer sentido e a que existe vive-se às escondidas da maestrina, como chamam a Gisela, que conduz a própria existência das outras.
Até onde vamos por um objectivo luminoso, global? Que força tem a fama que arrasta danada e cegamente? Serão os mais novos mais cegos e os que os incentivam mais danados?
Gostei muito desta Lídia Jorge que nos leva em balanços pelo passado, mostra-nos figuras de caderneta, revela muitos pormenores sobre duas delas, e tudo sobre apenas uma, gostos e desgostos, medos e receios, arrependimentos e decisões. 
A partir de agora, quando vir Lídia Jorge, convidá-la-ei lá para casa.
A noite das mulheres cantoras, para ler a qualquer hora. D. Quixote, 2011.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Das gralhas


Conduzo, passo por um buraco, dou um solavanco e continuo. Se for só um, a guinada no carro não será grande, o avanço far-se-á. O palavrão se não é dito, é pensado. Se forem vários, a condução diminui de velocidade, serei obrigada a ter mais atenção, a rodar o volante exageradamente para a esquerda para fugir aos buracos da direita e para a direita em vice-versa.
Quantos mais buracos, maior o arrependimento pela jornada, por que vim por aqui e não por ali?
Tive um primo que conduzia um veículo por todos os atalhos possíveis e imaginários. Quando lhe chamámos a atenção que as pernadas das árvores tendiam a querer entrar pela chapa e deixavam rasto arranhando a pintura ele respondia dizendo que nessas alturas só havia uma coisa a fazer: pôr a música mais alto para não ouvir o raspar do metal.
Sou perfeitamente capaz de o fazer a conduzir, mas não a ler. Uma gralha é um buraco. Cada gralha é um obstáculo e eu não sou rapariga de corridas muito menos com obstáculos, o defeito será meu.
O V. diz-me que presto atenção demasiada à forma. O olímpico estatuto que ele tem faz-me pensar nisto mas, tal como um gato foge da água, tal como um cão fareja um osso, tal como uma abelha procura uma flor, tal como o rio procura a foz, eu paro nas gralhas. Paro, e dobro o cantinho da página.
Ainda que os olhos continuem lendo linhas abaixo, a mão, normalmente a direita, perdeu concentração na leitura e desvia-se para levar os dedos ao bico da página dobrando-o. E eu leio com o corpo todo. Cada distracção é um afastar do objectivo, é um perder.
Leio com barulho, leio na multidão, leio com vento e com frio e com calor, leio a comer, leio na praia – ah, tanto que havia a dizer de cada grão de areia em cada livro que li na praia – leio em pé, sentada, deitada e torta, leio parada e a andar, mas em cada ler sou toda. Ler poesia a caminhar nas ondas que morrem na areia esvaindo-se em espuma branca pode ser uma experiência única. Bem sei que há quem já tivesse ido à lua e quem salte de elásticos do cimo das pontes, quem dê mergulhos em águas geladas, quem seja missionário, quem escale montanhas; eu cruzo as pernas diante do grande senhor da Terra, o mar, e leio com cada célula como se lêssemos juntos, eu a ler para ele com o devaneio que ele ruge para mim.
E assim, com frequência, se molham os ténis ou as botas ou a toalha. E eu rio-me da brincadeira, porque é uma brincadeira dele a ver se eu estou atenta à leitura. De vez em quando sou assaltada por uma gralha, que me salpica a vista e me assusta, que me perturba a leitura obrigando-me a parar momentaneamente.
Mas então tudo isso quer dizer que te julgas tão perfeita que dás conta de todas as gralhas, tão perfeita que não aceitas imperfeições, tão perfeita que não consegues continuar a ler quando encontras uma imperfeição?
A perfeição não existe e aquilo a que se referem como perfeição não é meu, é universal; a imperfeição sim, vive nas gralhas, é de quem as causou, e eu lamento cair nelas pois, ao contrário do buraco da estrada que se pode contornar, a gralha está ali, de boca aberta para me morder, velhaca, a desconcentrar-me, falsa, a impôr-se.
És uma exagerada e tudo o que é demais, não presta.
Serei. Vou juntar ‘exagerada com gralhas’ às minhas características. Ou deverei escrever ‘ezagerada com gralhas’? Foi uma coisa de nada, o z e x até são vizinhos no teclado e percebe-se o que quis dizer, verdade? Passa à frente, vá lá.
Pois não passo, vou a jogo e o jogo da consciência disse-me, por exemplo, para escrever a informar sobre a coisa mais bizarra que já vi dada a quantidade de gralhas: Os que sucumbem e os que se salvam, de Primo Levi. E informei a editora:
Escrevo com profunda indignação e revolta face à leitura de Os que sucumbem e os que se salvam: nunca tinha visto um livro com tanta gralha, tantas e tão absurdas, que se diriam propositadas.
O trabalho de tradução é pavoroso, a revisão, feita pelo tradutor, é inexistente.
José Colaço Barreiros inventa palavras que não existem na língua portuguesa – traversas, p. 171; tritol, p. 166; próvido, p. 60; mónada, p. 88; haloglota, p. 88, ou biarquia, p. 199.
A falta de correspondência entre singulares e plurais é de tal forma que se lhe perde a conta depois da centena; há uma falta violenta de vírgulas e um abuso extremo do sinal de pontuação dois pontos; há uma ausência inexplicável de pontos finais entre períodos e uma descoordenação no uso dos itálicos; verifica-se um desconhecimento do assinalar as notas de rodapé e identifica-se a cidade de Francforte e o Lago de Como, este último numa tradução integral do italiano. Há pontos finais no lugar de pontos de interrogação, o Estreito de Bering, estrangeira-se para Behring, abrem-se parêntesis que não se fecham.
“Um verso tão alemão e tão cheio de sentido que passou a provérbio, e que não pode ser traduzido para italiano senão através de uma desajeitada paráfrase: Nicht sein kann, was nicht sein darf. Isto não é uma desajeitada paráfrase, é o verso original (p. 164/165).
O livro de Jerome K. Jerome (em inglês Three Men in a Boat; em português Três homens num barco; em italiano Tre uomini in barca) passou a ser Três homens à deriva. Porquê? (P. 164)
Como se tudo isto não bastasse o tradutor/revisor faz o impensável: coloca texto seu no meio do texto do autor (p. 96, 152, 174 e 177), numa enorme falta de respeito pelo original, pelo seu próprio trabalho e pela profissão de tradutor, quando podia ter recorrido a notas de rodapé. Não o fez, o que resulta numa adulteração do texto.
Perante a gravidade do trabalho que está à disposição do público, uma editora séria mandaria recolher os exemplares em circulação com o pedido de entrega de todos os exemplares já vendidos, em anúncio público, a fim de que aos leitores pudesse ser posteriormente entregue um exemplar corrigido.
Este procedimento é vulgar em electrodomésticos, carros e outros bens de consumo; a alegação que não há questões de segurança em risco e que a vida humana não sairá prejudicada com a leitura de um livro com gralhas, até pode estar certa, mas não deixa de ser gato por lebre; não deixa de ser uma a expectativa, e outro, o resultado; não deixa de ser uma fraude; não deixa de ser um engano e um desrespeito pelo autor original e pelo leitor final.
De acordo com a legislação europeia a exoneração de responsabilidade do produtor só ocorre se este não for considerado responsável, provando que:
* Não colocou o produto em circulação;
* O defeito surgiu após a colocação em circulação do produto;
* O produto não foi fabricado para venda ou distribuição com um objectivo económico;
* O produto não foi nem fabricado nem distribuído no âmbito da sua actividade profissional;
* O defeito é devido à conformidade do produto com normas imperativas estabelecidas pelas autoridades públicas;
* Os conhecimentos técnicos no momento da colocação em circulação do produto eram insuficientes para identificar o defeito, podendo no entanto os Estados-Membros adoptar medidas derrogatórias nesta matéria;
 * O defeito de uma componente ocorreu durante o fabrico de um produto final.
 Estivesse o livro avariado, por falta de uma ou meia dúzia de páginas ou por ter cadernos virados ao contrário, e a situação não seria tão grave, talvez fosse imputável ao equipamento de impressão, por exemplo. Aqui, tal não se verifica. É erro humano: da tradução, da revisão, da edição, e deve ser corrigido.

A editora respondeu um mês depois e disse: Agradecemos imenso o seu e-mail e as observações nele contidas. Vamos avaliar o texto do livro em questão e, finda essa análise, que esperamos concluir em breve, tomaremos a decisão que mais correcta se afigurar, não excluindo, evidentemente, a possibilidade de retirar do mercado a presente edição.

Já lá vão seis meses. À referida presente edição acede-se pagando uma portagem de 15.90€, para se revelar ser uma estrada cheia de buracos. Passaram seis meses, Primo Levi e todos os seus leitores continuam a sucumbir, nada se salva e o meu desgosto por gralhas aumenta.
Também dou gralhas, como é óbvio, e cometo erros, ai tantos, mas penitencio-me e faço a correcção assim que me apercebo. Aproveito até para (re)agradecer a quem me envia e-mails fazendo estes avisos à minha navegação.
Podia escrever um tratado sobre gralhas e se soubesse que ganharia asas e voava daqui para bem longe, terminava-o já hoje. 
O meu pai, tipógrafo a vida inteira, lidou anos com as gralhas e perguntava-me porque se dava aos erros tipográficos o cognome de gralha e não de águia, perdiz, andorinha ou até mesmo pato? As gralhas nem são os pássaros mais barulhentos, mas são os mais persistentes e a persistência pode levar a verdades mentirosas.

Chamai-me Moby Dick


Herman Melville escreveu uma das mais famosas frases de abertura de um livro: Chamai-me Ismael.
É uma ordem e um pedido em simultâneo. Duas palavras que transportam firmeza e o pedido de um favor. Duas palavras que nos remetem de imediato para a imensidão e a vulnerabilidade do gigante odiado.
Porque se odeiam os gigantes? Por que se lhes tem medo e, no fundo, no fundo, anseia-se por ser um deles.
Ahab odeia Moby Dick e quem odeia é prisioneiro desse ódio que se agarra à pele como uma doença pútrida. Tão prisioneiro que só pode acabar morrendo vítima do seu próprio ódio.
A moral da história avisa-nos que as pessoas ambiciosas perdem aquilo que prezam, por exemplo, perdem-se a si próprias, isto se forem de facto pessoas e tiverem um pouco de amor-próprio no meio da inexistência de respeito e de vergonha.
Moby Dick cumpre o seu destino e mata-os a todos.

Nuno Amado conta-nos uma história de perda, uma história bela, belíssima chamada À Espera de Moby Dick.
Somos cada protagonista em diferentes momentos da nossa vida, nem que seja em anseio. Com uma escrita profunda, mas irónica e até cómica em certos pontos, acompanhamos segredos – alguns felizmente não revelados – que estão ali desenhados em cada página. Não, desenhados não, fotografados. Não, fotografados não, filmados, como se as letras fossem imagens em movimento que nos transportam para outros mundos, sejam eles países diferentes, mágoas dolorosas ou mentiras inventadas para melhor sobreviver.
Este é um daqueles livros onde a meio se diminui a velocidade da leitura e já anda por ali uma certa embirração com o autor que fez o livro tão pequeno; ler devagar é a única forma de prolongar a nossa estadia em tão comovente lugar. Podemos sempre voltar, relendo, viagem que farei garantidamente.
É um livro rodeado pelo mar e cheio de lágrimas onde entramos por especial favor. As cartas não são nossas nem nos são dirigidas mas temos o privilégio de as ler todas, espreitando cantos que aparentemente nos eram inacessíveis, beirais onde só os pássaros chegariam, grutas propriedade de peixes. Nada daquilo é nosso e no entanto somos nós, é o nosso segredo, a nossa dor, o nosso vazio.
Houvesse um plano de leitura obrigatório para cada cidadão e eu colocava este livro na lista, um dos primeiros. Num mundo perfeito instituía como pena do mais duro tribunal a proibição de o ler.
À Espera de Moby Dick, Oficina do Livro, 2012, sem gralhas.  

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A mudança


Morando numa zona complicada e entrando em casa a qualquer hora cumpro certas precauções. Por exemplo, ando sempre com moedas nos bolsos e, de preferência, com a carteira com uma nota de 5 euros, que darei voluntária e imediatamente a quem pedir.
Ontem à noite entrei no elevador de chaves na mão, aliviando as precauções, uma vez que só as costumo tirar do bolso em frente da porta; assim, se estiver alguém por ali toco à campainha e como ninguém abre vou embora. 
Sai no meu quarto andar e ao primeiro passo para fora da caixa elevatória esbarrei literalmente com uma pessoa. Desconhecida. Perguntou-me se morava ali e respondi que não, que a casa era dos meus pais, que iam chegar mais tarde, foram ao cinema, mas tinham um gato doente e pediram-me para lhe ir dar os medicamentos. Até eu me espantei com a rapidez da resposta.
Ah, bom. E ele tinha o prazer de estar a falar com a Dona…? Sorri e não acrescentei nada no primeiro instante, ao segundo aleguei não gostar de dizer o meu nome. É só uma questão de educação, para que ele me pudesse tratar pelo nome. Toma lá que já levaste a primeira estalada.
Maria. Contrariada, acabei por dizer a verdade. Fiquei a saber que ele se chamava Rui. Saberia eu se os meus pais tinham ZON? Sim, sabia, tinham MEO. E na minha casa, fosse ela onde fosse, eu tinha ZON? Não, também tenho MEO. Estúpida, os meus pais têm ZON, podia ter dito a verdade.
E sabia eu se eles estavam satisfeitos? E eu, estava satisfeita? Quanto pagava? Podia dizer? A bem da verdade, não sei – não menti, não sei mesmo, mas menti imediatamente a seguir – não sou eu que pago, é um acordo que tenho com a empresa na qual trabalho. E quantos canais tem? Muitos, ao certo não sei.
Que bom. A satisfação aparentava ser genuína. Só espero que daqui a algum tempo possa ser como a senhora, ter um trabalho efectivo onde, eventualmente, possa ter algumas regalias e já nem quero que me paguem a televisão nem a internet, percebe? Só quero mesmo o trabalho.
Eu mantivera um pé sempre dentro do elevador e a porta aberta. Um dos joelhos estava em riste não fosse preciso dar uma joelhada. Naquele instante percebi que não precisava nada daquilo.
Tem aqui um panfleto… não vou obrigá-la a ouvir tudo o que tenho para dizer, o que era suposto dizer, mas se um dia, por qualquer motivo, decidir mudar por favor telefone-me, a senhora ou os seus pais.
Entregou-me o papel, sorriu e desejou boa noite, abriu a porta do elevador e desceu.
Entrei em casa em fúria. Mentira descaradamente, inventara um gato, animal que está lá muito em baixo na lista das minhas preferências, e senti-me mal, mesmo mal.
Imaginei alguém a fazer o mesmo ao meu filho e vieram-me as lágrimas aos olhos.
Quando o Duarte chegou do treino contei-lhe o que o medo me levara a fazer. Desculpou-me e disse que era melhor prevenir que remediar, que fizera bem. Com a resposta dele, que me queria tranquilizar, fiquei ainda mais torta comigo própria.
Dei-me conta que não tinha jantado quando ele me perguntou se tinha provado um filete, que eram os melhores filetes que eu já fizera. Provei-o e estava bom, mas não assim tão bom. Ele queria-me bem e exagerou, tanto mais que ainda estávamos um bocado zangados. Cedi e servi-me de um prato de arroz de tomate com poejos frescos e filetes, um autêntico casamento para quem come uma sopa e uma salada à noite. Foi uma bebedeira de sangria sólida com pimentos, tomate, poejos, cebola, alho, arroz, tudo malandrinho, e filetes.
Ele não foi ao café e ficou a ler o folheto do rapaz. Antes de eu me ir deitar tínhamos decidido mudar para a ZON. 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A história da minha vida


Eu e o Duarte andamos zangados. Fez uma descombinação com o pai e deu como razão o facto de eu estar doente, estando eu bem-disposta da silva, e até com vontade de brincar ao Carnaval, talvez pela influência do meu sobrinho que passou cá estes dias.
Quando o paizinho me ligou a perguntar se estava melhor ainda pensei duas vezes a tentar perceber do que falava, pois às vezes ele é um bocado arrevesado e aquilo podia ter outra intenção. Mas não tinha, era puro interesse, já que amor não me tem. 
Feita a acariação casual concluímos que o nosso querido filho mentira. Razão: não queria que o pai se sentisse posto de lado. Fraca resposta, digo-lhe, zangada.
Conclusão, passei por mentirosa pois o pai acredita que sou cúmplice e passei por má por ter contado a verdade.
Com estes dois, cem anos que eu viva serei sempre presa por ter cão e presa por não ter. 

Paciência de santo


Sucedem-se os exames médicos. Antigamente os senhores doutores eram poupados nas previsões como se antecipando chuva a gastassem. Agora não, dizem tudo e mais um par de botas, não há cá poupanças nas doenças e suas consequências, pão pão, queijo queijo. Assim, avizinhando-se um corte daqueles à moda antiga, a ansiedade cresce.
Terça de Carnaval foi um dia animadíssimo no Hospital de Santa Marta, aguardando que os exames finais se fizessem. Ontem foi dia de consulta para que o sôtor visse as imagens que lhe enviaremos para o computador. Mas o sôtor não viu, não por culpa dele, mas por que há sempre alguém pior que nós. Volte cá na quarta-feira senhor Bento, foi dito com tanto carinho que parecia meu irmão. 
O meu pai tem um sotaque que a maior das pessoas atribui à sua nacionalidade finlandesa, ucraniana, espanhola, eu sei lá, venham nacionalidades e qualquer uma serve. Ganhou esta característica bem como um ligeiro gaguejar com um AVC há uns anos. No hospital há pessoas que o preterem para perguntar qualquer coisa pois não se pergunta nada a um estrangeiro, como é óbvio. 
Ainda assim ele vai ajudando nas explicações, não, hoje não é dia do doutor Fulano dar consulta, ele está cá mas está no bloco, olhe minha senhora, esse assunto é no edifício ali do lado, entre no claustro, sabe, aquele jardinzinho, e vire à sua direita, sabe ler?, desculpe a pergunta, sim?, então assim que virar à direita vê logo a indicação da Radiologia. 
Nem todos agradecem e há quem se insurja violentamente sem perceber que nos estar num hospital é esperar, esperar o tempo que for preciso.
No dia dos exames tirou-se uma senha e sentámo-nos. Imediatamente a seguir apareceu outro cliente de Santa Marta, já conhecido, mas que nasceu em época de férias da paciência. Não tardou que o homem começasse a falar sozinho, que isto não pode ser, que não se despacham, que aquilo não é a vida dele, e que isto e que aquilo, e toda a gente a assoprar com a ladainha do homem.
Com infindável paciência o meu pai dirigiu-se ao homem e disse-lhe que ia no 2 e que lhe dava a senha 3. O homem aceitou imediatamente, com um obrigado entre dentes e calou-se. 
Verificado o novo número era o 4, o meu pai sorriu e disse baixinho:
- Não custa nada, pois não?

Aqui sinto-me em casa

Abre o sol acompanhado de calor e começam os belos almoços de fotossíntese, no pátio do palácio onde trabalho. Quais lagartos, ali nos estiramos e de preferência em silêncio. De vez em quando uma diz qualquer coisa e todas concordamos pois dá muito menos trabalho do que discordar, que ninguém ouse fazer concorrência ao sol.
Regressada ao cubículo que me serve de gabinete tenho uma mala de palhinha em cima da secretária.
Aceno com ela para o balcão, a pergunta muda é entendida e a resposta vem em forma de dedo apontado para um aluno e uns gestos labiais impossíveis de perceber.
Aproximo-me e fico a saber que foi um aluno que resolveu oferecer uma a cada funcionária da Biblioteca, não, não é para agradecer, apeteceu-me, tenho levado tantos livros emprestados, as pessoas são tão simpáticas, têm sempre um sorriso, aqui sinto-me em casa, é apenas uma lembrança, nada mais.
Sorrio, já ganhei o dia. 

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Hitchdecepção

Perdi a conta às vezes em que troquei a perna, gesto que faço para acordar e manter-me atenta. Contei as pessoas que estavam nas filas à minha frente e ainda me aborreci mais pois é raro ter a companhia que tive e foi desaproveitada com uma sucessão de bocejos. Não trocámos cotoveladas, não nos rimos a bandeiras despregadas - como em Morte no Funeral - no final não tínhamos nada para conversar sobre o filme, a não ser que tinha sido decepcionante até dizer chega.
Anthony Hopkins é uma figura faça ele o que fizer, reencarne em quem reencarnar, maquilhado ou não. Helen Rainha Mirren faz-nos acreditar que estamos em directo sempre que a vemos actuar. A bela Scarlett fica sempre bem em qualquer lado, James d'Arcy criou arrepios como Anthony Perkins e Michael Wincott tem aquela voz que vale só por si.
Porém, funcionam como peças de puzzles diferentes, e não contribuem para um todo. Faltou ali muita coisa, aquilo não pega, não passa para a plateia, nunca nos esquecemos que estamos numa sala de cinema.
Altas expectativas, grandes desilusões, uma pena.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Eram rosas, eram?


Santos Silva passa a Franquelim, Franquelim passa a Relvas, Relvas fica com a bola, outra coisa não seria de esperar, passe-se a quem se passar Relvas está lá, já não são relvas, são ervas daninhas, senhor.
Acções de caridade é o que é, com o Senhor dos Passos pelo meio, precisamos de uma crucificação que a via-sacra vai longa. 
Matemos, esfolemos, sigamos o exemplo. 
Ai que bom, isto sim é viver em liberdade, sinto-a tão forte e apelativa, fazer o que me der na gana, hoje sou eu, amanhã mascaro-me, no dia seguinte mascaro quem eu bem me apetecer e viva o Carnaval, este, não o do Brasil, não o de Veneza, não qualquer outro, que têm data marcada e aqui não, é um Carnaval natalício, é quando um homem quiser, é fartar vilanagem.

Ler a Rebate


Em todos os telhados obliquamente preparados para receber a neve que nunca caí por essas aldeias, em toda a gama de azulejaria variada, em todos os Mercedes de capot brilhante, em todas as môts de todas as conversas pronunciadas as mais das vezes um pouco às avessas, em toda a generosidade e até na ostentação dos emigrantes emana um carinho difícil de explicar, sente-se.
Um regresso é sempre um regresso, mete saudades e sorrisos, acorda sentimentos, cria confrontos entre cá e lá, mostram-se manias novas, recordam-se hábitos adormecidos.
O Rebate é um regresso vivo, duro e cru, de tal forma que é de pouca dura. Ninguém aguenta.
Os meneios da linguagem fazem-nos ver as imagens descritas, os diálogos não dizem tudo mas expressam-se como olhos que captam e fazem de muitas palavras inúteis verbos. Não é preciso dizer tudo, este autor não precisa dizer tudo pois dizendo meio faz-nos chegar além de onde outros nos levariam se dissessem tudo.
As meias palavras carregadas de raiva, de inveja, de sorte alheia, nunca nossa. Nunca, caramba.
Imagino a dificuldade que será traduzir um livro assim, um livro que é mais que um livro, um relato da alma de uma aldeia, com passados e presentes, e futuros desejados de forma tão díspare do que se adivinham, com tanto de implícito como de conhecedor de realidades e palavras e reacções e gestos e, mais difícil ainda, meios-gestos e, ainda mais difícil, intenções, que bastam elas para que outros se mexam adivinhando, fazendo, desfazendo.
Não descansei até que cheguei à última página e se o livro em si é essência, as últimas páginas são como que uma bibliografia da alma do autor, uma mostra da recolha de sítios e lugares, de pessoas e situações.
Ao escrever assim, José Rentes de Carvalho dá-nos uma hipótese única, a de relermos como quem revive a vida verdadeira, como quem volta ao passado, sem hipótese de o mudar, mas de o voltar a sentir.
Ter um livro assim na prateleira é como ter um animal de estimação que tem uma vida própria tão intensa que receamos salte da estante sozinho, não precisamos de o olhar ou ler para saber que ri e se entristece, que nos faz companhia e emite um barulho mudo, chamando.
Para reler, agora sabendo da estalada que se leva ao consumir vida em estado puro.
Lido em edição da Quetzal, de 2012. 

Em segunda mão


Num dos filmes lamechas que eu adoro – grande história de amor, índios, ursos, cavalos, guerra, um veleiro, secundário é certo, mas está lá, e muitos olhos azuis, daqueles que são excepção, como os de Anthony Hopkins ou Aidan Quinn, e os verdes de Brad Pitt – há uma cena que não esqueço: matam-se uns tipos que mereciam mesmo desaparecer da face da terra e um índio dança em volta deles afirmando que adorava tirar-lhes o escalpe, mas não pode porque não foi ele que os matou.
Da mesma forma fartei-me de rir e fiquei com pena de não ter ouvido em primeira mão – expressão curiosa – a conversa que uma amiga ouviu hoje no metro.
Uma companheira de viagem veio o tempo todo ao telefone discutindo com outra os pormenores do aluguer de uma casa. Que não ficasse com aquela, que era cara demais, grande demais, não precisava de tanto, era só uma. Do outro lado, argumentavam e das respostas percebia-se que dizia que a cozinha estava equipada com móveis encastrados. Encastrados? Isso é exactamente o quê? Encastrados são todos os electrodomésticos, ora essa, o tambor da máquina de lavar está sempre encastrado no meio da máquina, o recipiente do detergente encastrado num dos cantos superiores, o congelador encastrado na parte de cima do frigorífico e por ai fora, então a outra não sabia que os electrodomésticos hoje em dia são todos stand by?

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Bom, bom, bom


Ontem foi um dia bom. Bom como poucos. Mesmo bom, muito bom. 
Tão bom que o vou guardar só para mim. 

Carro quase novo

O carro chiava nas travagens. São as pastilhas, dizia o Duarte. Mas desde quando é que tu és mecânico?, respondia eu.
Na oficina mostram-nos os pneus rasgados por dentro e o mecânico, nosso conhecido de há séculos, diz-nos que é urgente mudar a embraiagem. O carro assim é um perigo. Seja. Com os bolsos leve como uma pluma regressamos a casa.
O Duarte elogia a oficina que deixou o carro tão limpo como se fosse novo. Menciono o valor que paguei e acrescento que para além disso, façam eles o que fizerem ao carro, vem sempre assim da oficina.
Ele trava ligeiramente, olha-me de esguelha e diz:
- Bolas, por esse preço isto devia trazer uma miúda cá dentro. E boa!
Franzo o sobrolho e abro a boca para falar. Ele atalha e acrescenta em tom conciliador:
- Não digas nada, já sei que não gostaste!
- Não, não gostei mesmo! Por que é que havia de ser uma e não um? O carro até é meu!
Ele ri surpreendido e dá-me uma palmadinha na perna:
- Engraçadinha a miúda, hem... 

A amiga da minha mulher


Como acontece com frequência o meu filho sugere-me as coisas mais variadas na internet. Um site sobre Galileu, uma banda de uma universidade norte americana que com precisão suíça toca e dança o Gangnam style, alguém que saiba o que isto quer dizer, uma música daqui e outra dali.
A última sugestão encaminhou-me para Seu Jorge com uma advertência:
- Mãe, isto acontece todos os dias… é um perigo…
Senti-lhe a tentação e a crítica. Gostei da música e registei o sinal de fraqueza. Acabámos a rir, como sempre.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Recapitulemos


Algures no século passado andava eu em preparativos para o meu casamento quando chegou a altura da escolha do local do copo-d’água. De entre alguns restaurantes fixei um que nos recebeu com um disco humano: depois das palavras iniciais de cumprimentos e tal o dono do restaurante passou a descrever como se passavam ali os copos-d’água.
- Os convidados chegam, estacionam, saem dos carros, sobem as escadas, estão a ver?
Na verdade não estávamos e o meu pai perguntou se havia outro local de estacionamento, uma vez que na frente do restaurante alinhavam-se, quando muito, cinco ou seis carros.
- Sim temos, lá atrás há um espaço enorme. Ora recapitulemos: os convidados chegam, estacionam, saem dos carros, sobem as escadas, alinham-se lá em cima ao pé das mesas. Estão a acompanhar-me?
Adivinhando uma hora bem divertida o meu futuro marido respondeu que sim e eu perguntei se podíamos falar na sala lá de cima, onde eventualmente decorreria a festa.
- Sim, claro, subam, subam.
Enquanto subia não consegui reprimir uma gargalhada quando o homem disse:
- Ora recapitulemos: os convidados chegam, estacionam, saem do carros, sob…
- E quem não vem de carro?
Fui fulminada com olhares sorridentes que se continham para não rir abertamente e o senhor respondeu com ar sério:
- Minha senhora, isso já não é problema nosso, será do seu convidado que tem que arranjar boleia com alguém. Como calcula, sem ser de carro, é difícil chegar aqui. Em última análise têm de ser os senhores a tratar do assunto. Ora, onde é que eu ia? Recapitulemos: os convidados chegam, estacionam, saem dos carros, blá, blá blá…
Quando saímos de lá desatámos numa gargalhada pegada e entrámos no carro a repetir a sequência que o homem nos fizera decorar, como se fosse uma ladainha. Escolhemos outro local.
Ontem à noite na reunião de condomínio revivi aquele momento fazendo dois grandes esforços: não me rir e suster os bocejos.
O administrador do prédio, o sr. L.A. – que já deve ter ouvido falar em Los Angeles mas garantidamente pensa que é um filme do James Cameron – é homem para quarentas e tais, sensivelmente a minha idade, tem metade da minha estatura, está reformado não sei porquê, fala pelos cotovelos sendo a pessoa com maior capacidade de dispersão que conheço e eu conheço muita gente.
A única coisa que me mantinha acordada era a expectativa de falar com o V. que me ligou no início da reunião e a quem eu desliguei o telefone enviando-lhe uma mensagem a explicar onde estava e que falaríamos mais tarde.
O prédio tem 11 inquilinos, eu fui a quinta a chegar à arrecadação onde se fazem estes encontros maçónicos. Depois de mim apareceram mais três pessoas. Ele já lá estava, claro, sentado diante de uma mesa que me fez lembrar a mesa dos Nenucos da minha sobrinha e onde se alinhavam milimetricamente dois papéis soltos, um bloco, duas canetas, uma máquina de calcular e uma pasta castanha que deve ter pertencido a um espião dos anos 50, daquelas que alguém leva presa com uma algema, que se mantinha em equilíbrio meia fora meia dentro face ao reduzido tampo da mesa e ali ficou aberta, virada para ele, como se estivéssemos a jogar batalha naval, ele contra todos nós.
Quando entrei o Sr. L.A. explicou que tinha consigo dois orçamentos para a pintura e isolamento do prédio e passou a ler, depois de ter posto uns mini óculos na ponta do nariz afilado.
- Como vê vizinha, menos que isto não é possível e isto é muito urgente pois… Boa noite D. Beatriz.
Boas noites disparadas para todos os lados e o Sr. L.A., como se fosse uma cassete, faz rewind e repete o que me tinha dito que, por sua vez, já era uma repetição do que tinha dito aos que já lá estavam.
Se era crucial que todos fossemos à reunião, interiormente rezei para que não aparecesse mais ninguém, caso contrário já sabíamos que ele iria fazer aquilo que mais adora e com toda a legitimidade: ouvir-se a expor  dar a sua opinião sabendo que a maioria seguiria as palavras do líder, como se fossemos um grupo da Resistência e planeássemos um ataque cujo objectivo era salvar a Europa.
Mas isso não aconteceu e vieram mais duas pessoas: ele repetiu o acto de pôr os mini óculos, de pegar nos dois papéis, de ler sobre a pintura impermeabilizadora, de descrever o procedimento das camadas de tinta especial que acabará com a humidade, de explicar como se limparão os estendais, que ficarão como novos,etc., etc.
Acredito que tenha praticado ao espelho antes de ir para ali pois até os gestos aparentemente casuais se repetiam, um simples estender o braço como quem ajuda a perceber, o levantar da sobrancelha, o tira e põe os óculos de forma dramática.
Mais ainda, tendo os orçamentos a menção ao IVA mas não estando as contas feitas, a cada nova entrada de um vizinho, ele explicava e, usando a ponta da caneta, carregava nas minúsculas teclas da calculadora e chegava à quantia – sempre a mesma, calcule-se! – de 462 euros.
Quando chegou a D. Beatriz, logo a seguir a mim, e ele foi carregando nas teclas com a ponta da caneta, eu disse: são 462 euros. Ele terminou a conta na máquina, virou-se para mim e disse sorrindo para os outros:
- Aqui a nossa vizinha tem cabeça para os números! Está certíssimo!
Não aguentei. Não aguentei mesmo. Desatei numa risada, à qual todos se juntaram e até levei uma palmadinha no ombro, do jovem que vive no rés-do-chão, e uma piscadela de olho de outra vizinha. Ele sorriu também, um pouco contrafeito, não aborrecido, mas como se uma piada voadora tivesse ali passado e ele não a apanhasse.
Por entre muito bufar a cena repetiu-se a cada nova entrada como se estivéssemos num concurso para adivinhar as diferenças.
Depois de muita revisão da matéria, e de repetidos e sucessivos concordares com o orçamento, lá se deu por terminada a sessão de espiritismo e eu pude ir tagarelar com o V.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O Retorno


Nos idos de 68 os meus pais vieram para Lisboa. Diziam eles, embora tivessem vindo para o Cacém, mas para os que ficaram, Lisboa ou Cacém, era a mesma coisa, calhando o Cacém era uma rua de Lisboa, uma parte da cidade, como a Coitada era uma parte da aldeia, nascida Coutada, mas mudada para Coitada na voz de todos e cada um, o que é uma palavra sem um i naquele Alentejo? Não era preciso dizer que era a Coitada do Sobral da Adiça, todos sabiam, mesmo que Safara também tivesse uma Coitada e Vale de Vargo outra e Ficalho outra e por esses caminhos muitas Coitadas houvessem.
Viemos para uma casa que era de uns tios que viviam em África, fosse África o que fosse, se calhar era uma rua ou um bairro lá de um outro Cacém. Mas ficava longe, muito longe, razão pela qual iam de barco e demoravam muitos dias. Era tão longe que um dos meus tios até foi de avião, juro, lembro-me de ouvir contar, os meus pais não iam mentir. Sim senhor, de avião.
O meu pai ainda meteu os papéis para ir para África mas não o chamaram. Se calhar era por causa de usar óculos que foi por causa de usar óculos que não o quiseram na Aviação, quando ele foi para a tropa e acabou por ser soldado normal, feito rádio-telegrafista lá pelos outros soldados e generais. Tinha uma máquina que ouvia tudo o que se dizia, tudo, mas não era ouvir com os ouvidos, era ouvir com códigos de pi pi pi, mas eram pi pi pis que ele percebia, por isso o tinham levado para ali, mesmo com óculos.
É claro que eu preferia ter ido para África do que ter ficado, apesar do meu pai ser rádio-telegrafista, palavra que gostava de ouvir, o éle a misturar-se com os érres, ainda hoje gosto.
Sentia até uma certa raiva por não termos ido e essa raiva transformava-se em inveja quando os meus primos vinham a Portugal. Inveja do que eu sonhava que eles lá tinham, ou melhor, do que eles lá eram. Tinham criados pretos, nós não tínhamos criados de cor alguma, eu comia pastilhas e eles mastigavam chuinga, o que para mim era muito para eles era maning, o Natal era aqui passado enrolados em camisolas de malha e eles na praia.
Praia e Natal, quem disse que o paraíso só se via nas imagens dos livros da catequese é porque, obviamente!, não conhecia Angola ou Moçambique como os meus primos conheciam. Mais, eles até tinham fotografias, a barriga enorme do meu tio cheia de areia, palmeiras lá atrás, uma preta a segurar ao colo o meu primo mais novo e o mais velho dentro de água, vê-se tudo na fotografia, a minha tia sentada na areia a sorrir, com um sorriso que só podia ser de Natal.
Penso que de tudo o que contavam era este aspecto que mais pesava na minha inveja. Aqui os meus primos eram uns vândalos que faziam perder a cabeça ao meu avô com tanta avaria e se ele já tinha tido que aceitar a cabeça da pacaça pendurada na sala, tipicamente alentejana, por cima do sofá, não tolerava certas brincadeiras, ai isso não.
Havia ainda outra coisa que eu não percebia – havia muitas, mas esta era recorrente: falavam em vir à metrópole, aqui na metrópole, a última vez que vieram à metrópole. Eles deviam estar enganados porque só os via no Cacém e no Sobral da Adiça e sempre que vinham nós estávamos com eles e nunca dei conta de irem à tal metrópole. Devia ser problema de linguagem, com certeza.
De repente apareceram por cá e ficaram para sempre. Havia lá uma guerra ou coisa parecida.
Nós mudámos de casa e eles estabeleceram-se na sua própria casa, cada qual em sua, pois ao todo eram dois tios, duas tias e quatro primos. Um dos casais teve um contentor cheio de coisas durante algum tempo ao pé do Tejo. Eu estava morta de curiosidade pelo contentor. Primeiro, o que seria um contentor? Segundo, pelo tamanho que diziam ter com certeza até leões lá estariam, não era em África que viviam? A minha tia não era apontada como tendo uma pontaria de invejar? Nem Deus sabia o que podia estar no tal de contentor.
O outro tio era enfermeiro razão pela qual foi o último a chegar, no último navio que veio de lá e vieram muitos e muitos aviões, parece que ao todo eram meio milhão de pessoas e se ele foi o último, foi o número quinhentos mil, que coincidência, ninguém é um número tão certo, os nossos bilhetes de identidade são uma mão cheia de números ao calhas, a licença de caça do tio Eduardo a mesma coisa, a carta de condução do meu pai a mesma coisa, o número da licença da mota do avô a mesma coisa e é a mesma coisa com toda a gente, à excepção do Tio G. que foi o número quinhentos mil, maning de giro.
Trouxeram a voz arrastada, com uma espécie de sotaque que era diferente do sotaque do Florival, o filho da vizinha da minha avó que estava na Suisse que, num processo contrário ao da Coitada, mais tarde se transformou em Suiça.
Traziam hábitos diferentes, roupas diferentes e queixavam-se muito do frio mesmo em dias onde não fazia frio. Mas lá não havia frio? Que coisa mais esquisita para as pessoas não saberem o que é!
Para além das palavras que eles trouxeram houve uma outra que ficou na boca de toda a gente, repetida até à exaustão: Retornados.
Não havia frase, conversa, telefonema, que eram raros, cartas ou jornais que não os mencionassem. Os vizinhos apontavam-nos com dedos e olhares sussurrantes, os ladrões de empregos que andaram lá a matar pretos e a fazer mulatinhos e agora estão aqui.
Quando o tio G. chegou nós sabíamos que ele vinha e fomos esperá-lo a Lisboa. Toda a minha atenção se centrou naquele barco e n o r m e onde ele tinha viajado. De tal forma que uns dias depois o meu pai convenceu-o a deixar-me acompanhá-los quando ele voltou ao navio para ir buscar uma coisa muito especial: a Milú, a pastor alemão arraçada de leão da Rodésia sobre a qual já aqui falei.
Eis que agora tudo me vem à ideia, que até nisto a leitura é boa, auxiliar de memória, não ao estilo do Hilário, mas como luz que se acende algures cá dentro da massa cinzenta.
O Retorno, de Dulce Maria Cardoso é emocionante e emocionado, vivo numa respiração que ainda resiste em cada re-olhar as fotografias, em cada lembrança, em cada partilha dos que viveram de alguma forma aqueles tempos.
A esperança e a desilusão, o passado quente, o presente gelado e o futuro mais incerto que nunca, completamente desconhecido, as personagens tão reais, a escrita tão fluída e verdadeira, que nas conversas e nos pensamentos não há parágrafos nem pontuação.
As boas intenções que enchem infernos estão ali todas, bem como as más, as assim-assim, as irreconhecíveis, tudo bem juntinho a perfazer um romance inesquecível, soberbo onde o desdém e a desconfiança convivem com a esperança de uns, as dúvidas de outros, misturando os caminhos de todos.
Conheci alguns Ruis de casacos brancos e mangas curtas demais e sempre achei que cada um deles valia um mundo que transbordava. Dulce Maria Cardoso provou-o neste livro magistral.
Livro sem gralhas, edição da Tinta-da-China, 2011.

Django, precisa-se.


O pai foi fiador do filho. O filho não pagou. O pai afinal, também não tinha como fazê-lo. Nova hipoteca à casa do fiador, a mulher a repetir em ladainha, em que ficamos sem a nossa casinha. Cala-te mulher, não agoires!
Mandam uma carta a dizer que o valor em dívida é de 24 mil euros. Depois mandam outra a dizer que houve um engano. A dívida é 50 mil euros. Desculpem lá, foi engano nosso. Como engano vosso? Dobram a dívida sem mais nem menos? Mas o que é isto? Isso já não sei, só sei que foi engano, os 50 mil é que estão certos. E vai de advogados, de mais bancos e avaliações, são apresentados a um executor de dívidas.
Os outros são apresentados a pessoas do jet set, ao chefe do filho, ao namorado da filha, nós somos apresentados a um executor de dívidas, ai homem, que ainda ficamos sem a nossa casinha. Cala-te mulher. A voz do homem a mandar calar a mulher já não é sentida, é uma ameaça medrosa, cheia de pavor. Terá ela razão?
O fiador tem outro filho. Menor de idade. Regressa da escola e vê um homem a colar um papel na porta. O homem já não cola o papel. Entrega-o ao menor dizendo que o dê ao pai e à mãe. O filho menor telefona ao pai, pai deixaram aqui um papel a dizer que a nossa casa está penhorada que temos um mês para sair, isto é o quê?
O pai não sabe o que dizer, não conta à mulher e dá instruções ao filho menor que se silencie sobre o assunto diante da mãe, chama o filho mais velho, ai meu deus e agora?
Juntos verificam que o papel fala em 104 mil euros de dívida. Correm ao banco, ao advogado, ao executor. Num mês passaram de 24 para 50 e agora para 104 mil euros? Mas está tudo doido ou quê?
A meio das andanças, sem vontade, lá atende um telefonema reconhecendo que o número é do seu trabalho. Sr. X, é só para avisar que recebemos uma ordem para lhe penhorar parte do ordenado.
Passam três dias.
Três dias em que não vai trabalhar para recolher certidões, ir a conservatórias, a mais advogados, falar com gestores bancários. Três dias em que tem que meter férias ou resignar-se a que lhos descontem do ordenado, que descontados estão já transportes para lá e para cá, noites sem dormir, dores de cabeça de proporções inimagináveis, palavras gastas, até parece que fala chinês e ninguém o entende.
Afinal foi engano. Desculpe lá, são mesmo os 24 mil, olhe a sorte que o senhor X tem.
Sorte tens tu porque o senhor X não tem uma pistola. Mas que alguém merecia um tiro nesses cornos, ai isso merecia. 

A minha tesoura não se chama Dalila


Namorava eu com o pai do Duarte quando ele foi para a tropa. Primeiro em Tavira e depois em Oeiras, a farda verde assentava-lhe que nem uma luva. Também podiam ser os meus olhos que estavam vesgos, não sei.
Dois ou três dias antes de se ir embora, apanhando o barco para o Barreiro e daí de comboio até ao Algarve, na companhia de dois amigos de longa data, assim ditou a sorte, disse-me que eu o ia ver como nunca o tinha visto e que ia ter uma surpresa.
Para quem não era rigorosamente nada dado a surpresas só podia ser qualquer coisa a que fosse obrigado e se ia para a tropa e eu o ia ver como nunca tinha visto, só podia ser uma rapadela de cabelo.
Estava um dia de sol quente quando ele tocou à campainha e eu confirmei pelo olho-de-boi que a máquina lhe tinha passado pela cabeça. Ao contrário dele, eu adorava – adoro – surpresas. Por isso, quando abri a porta o sorriso dele desfez-se: se a carecada dele era grande a minha era maior.
Tenho algumas fotografias minhas com ar de G. I. Jane, nunca mais voltei a cortá-lo daquela forma, mas já dei cortes valentes e sábado passado foi outra vez dia de corte radical.
As madeixas louras deixaram minúsculos filhotes perdidos nas ondas que permaneceram e vou entregar a colecção de ganchos, elásticos e badoletes à minha única herdeira destes materiais, a minha sobrinha.
A intratável cabeleira desapareceu na manhã seguinte a um - outro - enorme susto: há quem dê voltinhas de carrocel e há quem conheça e acompanhe as voltas dos avc’s.
O meu pai é veterano de avc’s e a proximidade da data fatal do exame que o vai levar à amputação descontrola-o completamente.
O que tem um corte de cabelo a ver com um avc ou uma amputação? Não, não é anedota, é a pura da realidade. Deixando que o espelho me olhe de forma diferente acredito que consigo aceitar qualquer mudança. Perco uma coisa pela qual me elogiam, especialmente nos dias de grande selvejaria que não domino, uma ponta para cada lado, ondas a mudarem de lugar como se tivessem vontade própria, e ganho tantas outras coisas. Desde logo uma poupança em shampoo e creme amaciador. O secador vai ter um uso residual. A minha sobrinha vai adorar a caixa cheia de apetrechos. Nunca vou ter madeixas na cara mesmo em dias de vento e um sem fim de outras coisas positivas.
Cá dentro não há mudanças. Ou talvez haja: corta-se de um lado para se fortalecer de outro, ao contrário de Sansão a minha força não reside no cabelo mas nas raízes que me garantem que a vida continuará o seu percurso.