sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Trabalhos de grupo

Os meus desenhos são lendários. Normalmente as pessoas associam-nos àquele dia em que fizeram xixi pelas pernas abaixo de tanto se rirem. Dizem que filho de peixe sabe nadar e assim é: consta que a minha mãe foi elogiada numa ocasião pela sua professora primária pela árvore que desenhara. A senhora professora franziu os sobrolhos quando soube que não era uma árvore e sim uma cafeteira.
aqui falei da minha total incapacidade em produzir um simples risco e do que aconteceu na escola Visconde de Juromenha quando fui obrigada a fazer parte dum grupo, e consegui, não fazendo rigorosamente nada, que o prémio de melhor trabalho fosse dado ao meu grupo. Puro golpe de sorte que me ajudou a não ser ostracizada para todo o sempre pela escola inteira, e ainda saí da sala quase em ombros, qual toureiro em Las Ventas.
Já na Secundária de Santa Maria, em Sintra, um certo trabalho de grupo de três pessoas, teve participação efectiva de duas e a terceira ficou muito admirada quando apareceu no dia da apresentação oral do trabalho e constatou que o seu nome não constava. A fúria deu-lhe para fazer queixa de nós ao professor, alegando injustiça! Quando nos perguntaram porque tínhamos feito aquilo, respondi com outra pergunta dirigida ao elemento faltoso:
- Que parte do trabalho é que fizeste?
Não havendo resposta, o caso ficou por ali e eu livrei-me dos monos da turma que deixaram de querer fazer trabalhos comigo, segundo eles por eu ter mau feitio…
No primeiro ano da faculdade fomos organizados em grupos de dois e calhou-me um rapaz que nunca vira e com quem nunca tinha trocado uma palavra. Como mantivemos a distância e o silêncio, apresentei o trabalho só com o meu nome. Ainda o guardo pois a nota foi magistral: PÉSSIMO, em maiúsculas, não fosse eu baralhar-me na leitura. Contudo, o professor mencionou a coragem de ter enxotado o parasita e ter enfrentado a coisa a solo.
Sempre que podia fazia trabalhos sozinha, atitude que se alargou aos estudos posteriores. Adoptei uma táctica que consistia em escolher a primeira data de apresentação dos trabalhos, sabendo eu que todos queriam a última; conclusão, poucos queriam trabalhar comigo.
Agora ouço uma amiga queixar-se que anda a fazer trabalhos de grupo… sozinha. Dou-lhe na cabeça, é claro, e incentivo-a a inscrever apenas o seu nome.
Os aproveitamentos surgem porque há duas espécies de pessoas: os aproveitadores e os aproveitados… Está muito mais na mão destes o fim destes relacionamentos desequilibrados e injustos, do que dos primeiros que, tenho a certeza, por si só nunca desaparecerão.

O que faz uma pessoa deixar-se injustiçar numa situação como esta? O que tem em dívida para com o outro, para o deixar colocar-se no pedestal do lucro fácil sem o denunciar através da omissão do seu nome? Que medo é este? O que é necessário para se passar do trabalho de grupo para o trabalho em equipa?Um grupo não é sinónimo de equipa. Uma equipa trabalha conjuntamente, cada um com uma missão, por mais pequena que seja, para se atingir o bem comum. Nos grupos há quem trabalhe para o bem dos outros e os outros nem se dignam agradecer.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Raro, raro, raríssimo…

De passeio pelo matagal que é a bloga visito amigos e desconhecidos. Encontro coisas que devem ser realçadas, atitudes raras, muito raras. Não me surpreendo porque conheço a pessoa em questão e sei que não são palavras vãs: ter trabalho é ganhar o euromilhões. É verdade.
Por outro lado, a  revolta contra comportamentos vizinhos, diários, tão próximos que são quase nossos, salve seja!, que nos puxam como um íman, querendo que também nós façamos parte de clubes de facilitismos, de deixa andares, de descomprometimento, de falta de empenho, e muitos eteceteras.
Estes comportamentos, mais do que tristes, são irresponsáveis e devem ser apontados a dedo! Não são só da classe professoral, antes pelo contrário, escavemos e encontramo-los nas raízes das vivências de quase todos os que conhecemos.
E depois… depois chega a ser cómico ouvir falar de cansaços e de actividades extenuantes.
Felizmente há quem não se canse e Sorria Sempre.

Trigo limpo, farinha Amparo!

Ontem à noite fui às compras e depois de as arrumar deliciei-me – há gente para tudo – a arranjar o peixe. Se eu trabalhasse num supermercado seria na peixaria e atenderia os clientes que querem o peixe amanhado…
A meio de escamar um pargo ouço a voz da Madalena Iglésias na rádio a dizer que sabia quem ele era, era um bom rapaz, um pouco tímido e tal e comecei a acompanhá-la prestando, pela primeira acho eu, atenção à letra. De mangas arregaçadas, faca numa mão e rabo do pargo na outra, conclui que o amor já não é o que era: um homem que chora se ela não vem? Objecto de Museu! Se ela não vem, ele arranja outra!

Sei quem ele é
Ele é bom rapaz
Um pouco tímido até
Vivia no sonho de encontrar o amor
Pois seu coração pedia mais,
Mais calor
Ela apareceu
E a beleza dela
Desde logo o prendeu
Gostam um do outro e agora ele diz
Que alcançou na vida o maior bem,
É feliz.
Só pensa nela
A toda a hora
Sonha com ela
P´la noite fora
Chora por ela
Se ela não vem
Só fala nela
Cada momento
Vive com ela
No pensamento
Ele sem ela
Não é ninguém

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Amor com amor se paga…

O ano passado recebi um pedido bizarro do pai do Duarte: aparentemente enganara-se a preencher o IRS e informara as Finanças que dera um valor de pensão de alimentos que não correspondia à verdade pois tinha dado muito menos. Assim, pediu-me que confirmasse o valor para que ele não tivesse que fazer nova declaração.
Acedi imediatamente e assim fiz, mesmo sabendo que aquilo me prejudicava. Porém, tenho sempre em mente que é o pai do Duarte e se puder ajudar fá-lo-ei.
Este mês resolvi comprar uma arca frigorífica e andava pelas lojas a comparar preços quando me lembrei que ele tinha um frigorífico com arca, numa casa onde a luz e a água estão desligadas pois não mora lá ninguém.
Contactei-o e pedi-lhe que trocasse comigo: um frigorífico com arca, em troca dum normal, mas mais novo e em perfeito estado de conservação. Não obtive resposta alguma. Nem sim nem não.
Insisti e perante a falta duma palavra, uma só, o Duarte falou-lhe do assunto lembrando-o que a arca não era um capricho meu, era para uso dele também, ele, seu filho, seu único filho. Confrontado desta maneira reafirmou o seu argumento: não queria! O Duarte bem se esforçou mas não lhe arrancou outra explicação. É legítimo.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Livro de reclamações

No Verão de 2010 pedi um cartão multibanco recarregável para que o meu filho pudesse ter alguma liberdade de movimentos sem perigo de andar com dinheiro vivo. Desde essa altura até hoje já renovei o cartão três vezes, num total de quatro cartões. Motivo: desmagnetização do dito.
Hoje fui ao balcão do banco mais perto do meu local de trabalho de caneta em punho para escrever no livro de reclamações, pois só acredito nos protestos escritos. A menina que me atendeu tinha pouco espírito natalício e eu paguei na mesma moeda.

Eu: Quatro cartões, em dezoito meses, não lhe parecem demais?
Menina: A conta tem dinheiro?
Eu: Não! Ia levantar da sua conta! [Olhar de espanto dela.] O que é que acha?
Menina: Podia querer levantar e não ter, isto é um cartão recarregável…
Eu: Se eu trocasse de cartão cada vez que a conta não tem dinheiro vinha cá todos os meses…
Enquanto isto ela verifica no computador a situação do cartão.
Menina: O cartão está activo, parece estar tudo bem e, sim, confirmo que tem dinheiro na conta.
Eu: Se o cartão está em excelente estado, banda magnética sem um risco, tem data de validade até Abril de 2013 porque é que isto se desmagnetiza tão facilmente?
Menina: Pois não sei…
Eu: Fazendo fé no que dizem, que os transportes públicos, nomeadamente o metro, são locais potenciais para desmagnetizar cartões, e sendo eu utilizadora diária do metro e os meus cartões duram anos, porque é que este está sempre a inutilizar-se?
Menina: Não sei minha senhora… mas vai querer outro?
Eu: Sim, mas não o pago.
Menina: Para pedir tem que pagar
Eu: Sim, mas serei reembolsada
Menina: Isso agora…
Eu: A ver vamos…
Ela vai buscar os papéis, um cartão novo e o envelope com o respectivo código secreto. Preenche-se tudo e eu assino.
Menina: Posso ser útil em mais alguma coisa?
Eu: Sim, quero o livro de reclamações.
Menina: Com certeza, venha comigo.
Dirigimo-nos a uma salinha minúscula com uma mesa onde repousa um livro de reclamações, quase todo preenchido, reparo. Ela abre o livro e deixa-me sozinha enquanto escrevo a reclamação.
Minutos depois reaparece quando estou a preencher os meus dados e indica-me que tenho que escrever o nome do balcão e acrescenta:
Menina: Também tem de escrever o nome do seu balcão.
Eu: Do meu balcão? Porquê?
Menina: Porque a sua conta não é daqui, é doutro balcão.
Eu: Mas o que tem uma coisa a ver com a outra?
Menina: Porque para reclamar tem que ser cliente e assim vê-se logo qual é o balcão.
Eu: Repita lá por favor… é que se for assim eu não faço uma reclamação, faço duas!
Menina: Porquê?
Eu: Então só os clientes é que podem reclamar? [Levanto-me] E se eu entrar para perguntar as horas e me cair uma lâmpada na cabeça? E se eu quiser abrir uma conta e a menina for indelicada comigo? [Ela encolhe-se] E nos estabelecimentos onde não existe uma relação contratual como as que temos com os bancos, não podemos fazer reclamações? [Tentativa dela para que eu me cale] E se lhe servirem um café com uma mosca, na pastelaria onde costuma ir, onde é cliente apenas por uma espécie de uso capião, não pode reclamar?
Menina: Sim tem razão, nunca tinha pensado nisso…
Escrevo o nome do banco e do balcão onde estava e ela dá-me a cópia da reclamação.
Menina: Posso ser útil em mais alguma coisa?
Eu: Pode, mas é a si e não a mim… pense duas vezes antes de falar, evita dizer disparates e contribui para a boa imagem da empresa onde trabalha. Boas Festas!

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Boas Festas para si também...

Quatro da tarde de sábado no supermercado, o Duarte a empurrar o carro e eu a atirar coisas lá para dentro depois de as escolher pelo preço. Terminada a tarefa dirigimo-nos a uma das duas caixas especiais para que levem as compras posteriormente a casa. Como de costume, quando faço grandes compras, há sempre coisas que quero levar imediatamente comigo e que deixo para último, tanto mais que têm de ser registadas e pagas à parte.
Se há coisa que detesto é estar num fila em cima do cliente da frente ou que o detrás se cole a mim. Por isso deixo sempre uns bons metros entre mim e as pessoas e faço o mesmo com as compras.
A senhora que se colocara atrás de mim já deitara umas frases soltas recriminando-me entre dentes por eu não me chegar à frente, às quais fiz ouvidos de mercador. Quando chegou a nossa vez colocámos as compras na passadeira rolante, com o cuidado de deixar para o fim o que íamos levar já para casa.
O funcionário que estava destacado para dividir as compras em secos e molhados, congelados e afins por diferentes caixas, era um miúdo novo, muito brincalhão e bem-disposto que se desfazia em Boas Festas e piadas com uma boa disposição que dava inveja. Pensei que nos fazem falta pessoas assim, espontâneas, abertas, despachadas – se ele era despachado! – e bem educadas. Os mil e um piercings que o rapaz usava davam-lhe um ar curioso e assentavam-lhe que nem uma luva, coisa que não passou despercebida ao Duarte. Assim, ali estávamos nós, de conversa com o rapaz, a meter as coisas nos sacos, eu a falar por olhares e gestos com o Duarte sobre os latões que o rapaz ostentava e como lhe ficavam bem, quando reparei que acabara de colocar uma caixa de tampões dentro dum saco, caixa essa que devia estar no fim das compras para que a levasse já para casa.
Olhei para trás e vi a senhora a fazer castelos com as suas próprias compras, pacotes de papel higiénico sustentavam pacotes de arroz que seguravam latas de atum que apoiavam iogurtes, numa construção instável e absolutamente desnecessária. Mas com isso eu nada tinha a ver, o que já não acontecia com as minhas próprias compras que a senhora amontoara igualmente misturando o que era para ficar e o que era para ir!
Nesse instante com o andar do tapete rolante caiu um pacote de açúcar – meu! – que se rebentou no chão depois duma queda magistral, pois ela tinha-o colocado no pico dum Everest que construíra à nossa revelia.
Pedi à rapariga da caixa que parasse pois estava tudo baralhado e eu tinha que ver o que era para um lado e para outro e dirigi-me à senhora atrás de nós:
- Agradeço que não mexa nas nossas coisas… a senhora misturou-me tudo! Nada disto está aqui colocado ao acaso e a senhora fará o favor de esperar a sua vez!
Enquanto falava ia separando meia dúzia de produtos, e vi que tinha duas latas de leite condensado que não tinha colocado no carro; mostro-lhas:
- São suas de certeza!
A resposta foi inacreditável, enquanto me tirava as latas das mãos:
- Sim, são minhas e se não quer que mexam nas suas coisas, também não deve mexer nas dos outros!
Olhei-a por dois segundos e a seguir deu-me uma veneta e comecei a atirar as compras dela para dentro do seu carro até fazer espaço para deixar as minhas próprias compras com espaço para nadarem à vontade. É claro que a seguir fui apelidada de tudo quanto é mau…
Voltei a por as compras por ordem, a funcionária da caixa perguntou se queria que anulasse a caixa de tampões para que a pudesse levar já, disse que não, que estava bem assim e neste entretanto já o simpático dos piercings estava a pedir a confirmação de morada à apressada atrás de nós. Com aquele jeito que, pelos vistos lhe era peculiar, abeirou-se dela e perguntou se estava boa:
- Não posso estar, não posso estar… já viu isto? Esta malcriadona estragou-me o dia! Primeiro não andava e depois ocupou o tapete rolante todo de modo que eu não podia por as minhas compras!
- Oh minha senhora… é Natal…
E neste instante pôs-se a dançar à volta dela e a trautear jingle bell enquanto me piscava o olho e enquanto o Duarte crescia e perguntava de pescoço esticado quem é que é malcriadona, quem é?
Fiz-lhe sinal que esquecesse, pagámos as compras, desejámos Boas Festas para a geral e afastámo-nos, mas ainda a tempo de ouvir a senhora dizer:
- Boas Festas? Se eram para mim não quero, que fique com elas!
Olhei para trás e troquei um olhar sorridente com a rapariga da caixa que sustinha o riso.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O Céu existe!

Dizem que aquilo a que chamamos felicidade, na verdade, não existe. O que existe é uma sucessão, maior ou menor, de momentos felizes, alegres, bons. Se esta sucessão fosse eterna, ou durasse algum tempo, o seu nome seria Felicidade.
Ontem fomos passear a um dos nossos locais especiais: a Nazaré. Esplanada à beira da falésia, mar aos pés, Berlengas ao fundo. O passeio não foi de mota e sim de carro, o meu companheiro era o meu filho e vim de lá a acreditar que o Céu existe: estive lá ontem, e foi maravilhoso!
Peixe grelhado para mim, grelhada mista para ele, sol para os dois. Muita conversa sobre aspectos da vida mas também sobre o sentido da vida, a minha conversa favorita. Planos a curto prazo – onde vamos passar a passagem do ano – e a longo prazo: o que vamos fazer das nossas vidas. Os relacionamentos amorosos dele, a forma graúda como está a encarar a vida, a escola e os problemas inerentes – a nossa eterna discussão por ele não gostar dela como eu gosto.
Os filmes que vimos e os livros que lemos, os amigos que temos e como as amizades são tratadas hoje em dia.
A seguir ao almoço fomos a S. Pedro de Moel. A meio, meti por uns caminhos só meios alcatroados, sai do carro e disse-lhe que lhe ia dar a primeira aula de condução. O sorriso dele abriu-se como imagino ser a abertura das portas do Céu!
Por entre páras e arrancas súbitos e aos tombos lá avançámos quase dois quilómetros, com embraiagem, travão e acelerador a trabalharem a fundo. Ele transpirava abundantemente, ria-se e eu ria com ele.
Éramos três dentro daquele carro: ele, eu e a Felicidade.
Meia dúzia de litros de gasolina depois resolvemos terminar a lição, que correu muito bem, saímos do carro, abraçámo-nos e voltámos aos lugares originais, com ele a dizer que afinal não parecia assim tão difícil.
Ele está cansado de ouvir as histórias sobre como eu aprendi a conduzir, ensinada pelo meu pai, e com música de fundo vinda do banco da trás, solidificada nos gritos da minha mãe que repetia, ai, ai, ai. Está também cansado de ouvir contar que o meu pai, adepto da máxima, quem sabe o difícil, sabe o fácil, me levava para a Ericeira, por uma estrada cheia de curvas e a meio, sem mais nem porquê, dizia:
- Afinal, não me apetece ir… faz inversão de marcha e volta para trás.
A minha mãe aumentava o volume dos protestos mas ele queria ver como me desenrascava a virar o carro naquele local e ficava todo orgulhoso da minha prestação.
Noutras ocasiões anunciava que íamos ver a mana Zefa… Ora a mana Zefa morava em Moscavide e o caminho era pela rotunda do relógio. A minha mãe atirava logo que era ele que ia a conduzir, mas quando ela descia a escada já eu estava sentada ao volante e lá seguíamos com a precursora de alguns géneros musicais actuais no banco de trás.
O Duarte adora estas histórias e explico-lhe que hoje nada disto é possível, mas que como ele vai começar a tirar a carta, umas lições extra em locais inóspitos não lhe farão mal. Ele concorda com grande satisfação e volta ao assunto da passagem do ano, mas de 2012 e vai construindo diálogos sobre ele dar-me boleia na noite de ano novo, pois nessa altura já é encartado. Eu alimento a conversa e ali vamos nós, felizes a desejar que a estrada e o dia não acabem.
Passamos por Fátima. Paramos. Já sei o que se segue: o meu filho é agnóstico e daquela paragem e visita às igrejas vem uma conversa que pode durar horas. Sempre lhe disse que não se fala daquilo que não se sabe e que para aceitar ou negar seja o que for, tem que ter conhecimentos sobre o assunto. Ele tem imensas teorias que explana sempre com muitas perguntas e adora ouvir explicações, mas acima de tudo, reflexões sem resposta. Diz que o facto de não haver resposta lhe dá espaço para pensar. E eu penso, inchadíssima de orgulho, quantos adultos conseguem fazer esta reflexão…?
Agradece-me o facto de não ser baptizado e diz que com frequência me vê ser mais respeitadora dos rituais católicos do que os praticantes. Há muito que lhe expliquei que ele não é baptizado por várias razões, duas delas de primeira linha: deixar-lhe a escolha da fé, se quer professar alguma, e respeito pelos rituais alheios, que não uso por usar.
Falamos da culpa, esse peso avassalador do catolicismo que carregamos ainda antes de termos cometido uma suposta falta, essa filha da moral que quer ser ética mas quantas vezes têm em comum apenas o branco do olho.
O Duarte diz-me que a religião está prestes a acabar. Digo-lhe que antes pelo contrário. Contrapõe dizendo-me que antigamente, no meu tempo (ai, ai, ai…) os pais obrigavam os filhos a frequentar a igreja, o que hoje não acontece, sinónimo que hoje os jovens são mais livres. Diz também que no seu círculo de amigos e conhecidos não há uma alma que seja praticante e que religião é assunto do qual não se fala porque não lhes desperta interesse, não lhes faz falta. Argumento com a tese segundo a qual nas alturas de crise as pessoas se viram para a religião, socorrem-se do divino, à falta do terreno que lhes dê ouvidos.
Continuamos a discutir pela A1 fora até casa. Rezo para que continuemos a discutir desta forma pela vida fora até sempre.

O assalto

Se há coisa que as férias ainda não aprenderam foi a caminhar, sempre a galope, qual cavalo selvagem. Aquelas não eram excepção. Mesmo assim, corriam mais lentas que nos dias de hoje pois ainda não existiam telemóveis.
A casita alugada não tinha telefone fixo, pois claro, e tomávamos lugar na fila para a cabina na praça central e fazíamos o dever do telefonema à família. A conversa era sempre a mesma, Que sim, que estava tudo bem, a praia estava óptima e do outro lado anunciavam-se saudades, como se estivéssemos emigrados nas Franças e não víssemos a família há meses.
Um dia disse ao meu marido que fossemos a meio da tarde fazer o telefonema da ordem para evitarmos a fila nocturna e os sucessivos telefonemas para a Alemanha, Dinamarca, Espanha e todos os países de origem dos turistas que chegavam primeiro que nós ao telefone.
Se mais cedo tivéssemos ido mais cedo regressaríamos a Lisboa: do outro lado, a voz da minha mãe mostrou-se ansiosa com um ainda bem que telefonaram, e cautelosa lá nos disse que a nossa casa fora assaltada. Aparentemente não faltava nada, mas só nós é que podíamos ter essa certeza. A polícia esperava pela informação, a Judiciária, precisou ela. A Judiciária? Desde quando é que tomavam conta de assaltos? Que estranho…
Tarecos no Fiat Uno, estrada acima, muito curiosos e expectantes com o que faltaria pois, de certeza, os ladrões deviam ter levado qualquer coisa, mas o quê?
Nessa altura morávamos naquela que ficou para a história como a Casa Azul: uma vivenda pintada com um azul piscina tão fascinante que numa ocasião em que fui de táxi para casa e dei a referência ao taxista, o cruzamento que ficava diante da casa, ele disse saber onde era, ficava mesmo ao pé daquela casa azul, horrível. Pelo caminho ainda dissertou sobre o que levaria as pessoas a escolher cores como aquela, e pensei o que me responderia ele se lhe desse o número de telefone do meu sogro para que perguntasse…
A Casa Azul era enorme: nós morávamos no rés-do-chão e os meus sogros e cunhada no andar de cima. Tinha um enorme quintal nas traseiras e uma garagem onde cabiam quatro carros. Na frente, o metro quadrado de terra com umas tímidas plantas tinha o nome pomposo de Jardim.
Quando chegámos já o vidro da janela por onde os meliantes entraram estava substituído, tarefa a que o meu sogro se entregou na manhã seguinte ao assalto.
Os assaltantes eram três, pularam o muro, dirigiram-se às traseiras, partiram o estore e o vidro e entraram em casa. Primeira tarefa: abrir as janelas todas, à excepção de uma que dava para a vivenda do lado esquerdo, um lar de idosos. Todas as outras, num total de seis janelas, foram escancaradas. Mesmo as que davam para o lado oposto ao lar, outra casa com características semelhantes, mas desabitada pois estava a sofrer obras profundas.
Como é que o meu sogro sabia que eram três? Alguém os viu?
Acontece que a casa do lado estava desabitada, de facto, mas não a garagem… Então o que aconteceu?
Os nossos vizinhos estavam não só a remodelar a mansão, mas também a fazer a bela da piscina. O quintal, não, eles tinham jardim, quintal tínhamos nós, o jardim estava cheio de máquinas e o homem lá achou por bem contratar alguém para ficar de olho nelas. Esse olheiro dormia na garagem, coisa que ninguém sabia.
Naquela noite acordou com vidros a partirem-se e foi espreitar sorrateiro. Viu logo os nossos belos cortinados da sala a quererem fugir com o vento pela janela de vidros em cacos e percebeu que a casa estava a ser assaltada. Viu as outras janelas a serem abertas, enquanto se manteve em silêncio. Ficou a pensar que tinha que fazer alguma coisa, mas o quê? E se o tipo fosse violento? Não pensou em usar o telemóvel pois, como já se viu, ainda não tinham sido inventados… pensou, pensou, pensou, até que teve uma ideia, e boa, diga-se de passagem. Se ele não via o ladrão, ou ladrões, era muito provável que eles também não o vissem. Foi buscar as chaves do seu próprio carro, arriscou-se a sair da garagem, encostou-se ao muro comum às duas casas e avançou agachado rente ao muro até ao portão, que abriu com mil cuidados. Chegou ao carro e começou a abaná-lo com força. Foram precisas três abanadelas para o alarme começar a tocar.
Deixou-se ficar escondido pelo carro e foi aí que viu três homens vestidos de negro da cabeça aos pés a saírem por três janelas diferentes. Dois deles lavavam coisas nas mãos. Fugiram a pé. O homem meteu-se no carro e foi avisar a polícia. Estavam os meus sogros a entrar com o carro na garagem quando chegaram os agentes acompanhados do homem. Ainda nem tinham dado conta do que acontecera.
Lá entraram todos, o homem a penalizar-se pelo medo e pela idade que o impediram de correr atrás deles.
O pé de cabra com que entraram ficou na sala. Começou aí a sucessão de coisas estranhas que fez com que chamassem a Judiciária: os candeeiros da sala eram aquilo a que se chama plafonds, e estavam cuidadosamente colocados nos sofás.
Em cima da mesa do escritório estavam lado a lado, com minúcia de distância entre eles: livros de cheques, uma caixa com fios e brincos de ouro e aquelas pulseiras de Lembrança da Madrinha que ambos guardávamos, entre outras quinquilharias e um pote cheio de moedas que eu guardava como mealheiro. Não faltava nada. Duas das caixas dos estores estavam abertas, mostrando toneladas de pó e cotão. 
A casa de banho tinha o autoclismo dentro da parede, mas ainda tinham retirado a maçaneta do dito, mostrando o buraco na parede. Mas a coisa mais esquisita eram as fotografias de casamentos e baptizados, por assim dizer, espalhadas no chão do escritório e os álbuns fotográficos em cima das cadeiras. Que raio era aquilo?
Lá demos volta à casa e vi que faltavam algumas das minhas malas, das que costumava usar no Inverno, assim como as que costumava usar em casamentos e baptizados, e que estavam guardadas dentro dum armário, nada mais. As malas que usava no Verão, penduradas num cabide à entrada da porta, estavam todas no seu lugar.
Enquanto deixávamos a estranheza tomar cada vez mais conta de nós e nos perguntávamos repetidamente, mas que raio…?, lá fomos à polícia dar conta das malas roubadas e o que eles tinham para nos dizer parecia um filme: aparentemente tinha havido um engano e os ladrões assaltaram a casa errada.
Quiseram saber se tínhamos alguma jóia especial. Se a pergunta tivesse sido colocada aos meus pais, tenho a certeza que a resposta do meu pai seria que a única jóia da vida dele era a minha mãe. Nós respondemos ambos que não. Então explicaram-nos que tudo indicava que os assaltantes procuravam uma determinada jóia, uma peça valiosa daquelas que não se guarda no guarda-jóias, mas antes se esconde bem escondida, por exemplo nos apliques dos candeeiros, nos autoclismos ou em qualquer outro local de difícil acesso, mas que podem ser inúmeros pois, por norma, estamos a falar de coisas pequenas, um anel, um pregador ou algo do género.
A coisa tinha sido estudada pelos profissionais do roubo: sabiam que estávamos de férias; sabiam a que horas chegavam os meus sogros; sabiam que a casa da esquerda estava habitada – o lar – por isso não abriram a janela desse lado; abriram todas as outras janelas para poderem ter pontos de fuga imediatos em caso de necessidade; apenas não sabiam que dormia alguém na garagem do lado…
As gavetas não estavam reviradas pois o tipo de coisa que procuravam não se esconde em gavetas; levaram as malas pois não tendo encontrado o que procuravam, era provável que estivesse guardado numa delas, principalmente em duas com características de serem usadas apenas em dias especiais.
As fotografias espalhadas no chão do escritório ajudavam à tese: em que ocasiões se usam jóias? Nas festas. Não tendo encontrado o que procuravam, deram uma vista de olhos nas fotografias procurando ver a dita jóia. A meio de todas estas tarefas o homem que guardava a maquinaria da casa do lado pô-los em fuga.
Semanas mais tarde telefonaram-me da escola de línguas onde andava a ter aulas de alemão: alguém os contactara dizendo ter encontrado umas malas numa pedreira a poucos quilómetros da zona onde morava. Dentro duma delas estava o cartão da escola com o meu nome. O senhor que as encontrara deixara o seu telefone para que eu lhe ligasse. Assim fiz e encontrei-me com o homem que disse andar a passear o cão quando deu com as malas. Estranhou estarem todas em bom estado e serem várias. Vasculho-as e encontrou aquele contacto. Foi assim que recuperei a única coisa que os ladrões levaram.
Quando o meu filho era pequeno contei-lhe a história do assalto. A parte melhor da narrativa foi a observação dele:
- Então eles não chegaram a encontrar a jóia! Onde é que vocês a tinham escondida? Mostra-ma!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A margem de Churchill

Ouvi falar da edição da Texto de Memórias da II Guerra Mundial, de Churchill. Vou comprar, pensei.
Chegou hoje um exemplar à Biblioteca, que abri cobiçosa. A primeira impressão, aberto o livro ao acaso, foi de faltar ali qualquer coisa… num segundo relance, percebi o que era: o livro não tem margens! A escassa meia dúzia de milímetros foi opção? Financeira? Estética não foi com certeza… Nem um centímetro de margem? Nem um??
O livro é obra para interessados que pagariam o excesso de certeza; no meu caso, a compra vai ser declinada.
A opção da gramagem do papel é aceitável face às 1071 páginas do livro, mas as margens? Ao segurarmos o livro temos sempre várias impressões digitais em cima da mancha gráfica que enche a página e faz o livro parecer os antigos acetatos, escritos de cima abaixo, sem qualquer noção de espaço, de comunicação, de apresentação, ou aquelas fotocópias mal tiradas em que as linhas de baixo são comidas pela fotocopiadora ou, em linguagem honesta, pela falta de jeito de quem tira fotocópias.
As margens nos livros servem para muito mais que centrar as letras, por exemplo, para não dar a sensação, na leitura, que caímos da página abaixo, que se transforma numa quase dúvida: faltará ali texto? Isto para não falar das imprescindíveis anotações.
Por outro lado, Denis Kelly, aparece na Nota (de introdução) como tendo feito o resumo de várias obras de Churchill, que deram origem ao presente volume. É pois o Editor Literário. O facto de não se mencionar na ficha técnica é esquecer o trabalho importantíssimo desta figura.
Denis Kelly foi assistente literário de Churchill nas suas memórias de guerra e antes tinha integrado a equipa do político como arquivista.
Surpreende-me o facto de não constar como co-autor deste livro em concreto, ou Editor Literário, aquela personagem que escolhe, que selecciona, que sugere, que decide o que eu, leitora, vou ler.
As palavras do maior líder da guerra, o resumo de The Second World War, no original, fica assim deficiente no parentesco e na metragem do enquadramento do texto. Até Churchill daria mais margem ao inimigo.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Os meus estragos

Depois de avariar um estore, um microondas, meia dúzia de biberões e um esterilizador na casa da minha irmã, abalancei-me para um curto-circuito na minha própria casa, seguido duma avaria da panela eléctrica! Estou em grande!
Claro que vizinhos, família e amigos andam com pavor da minha pessoa e só falta acenderem e apagarem as luzes à minha passagem para me poupar a esse incómodo
Nunca fui de partir pratos ou copos, de encalhar teimosamente nos móveis como a minha prima N., ou de avariar coisas, mas parece que estou a mudar.
Aguardo que a minha pele se esverdeie, qual Hulk, ou talvez seja melhor como a Fiona, e quando chego a casa descalço-me e conto os dedos dos pés que, por ora, ainda não se tornaram como os da Dama de Herculano, mas é só esperar…
Será azar? Temo vir a ser o bode expiatório do concelho caso se verifiquem apagões, inundações ou vendavais, engarrafamentos, quedas de granizo ou nevões.
Ando mais devagar, verifico as ligações antes de carregar nos botões e, embora não sendo fatalista, mas estou à espera da próxima, que será dada nas notícias com a abertura do costume, notícia de última hora, onde se contará a história duma mulher que, de repente, deu em versão moderna de Midas, mas ao contrário: tudo o que toca transforma em despesa…

Crescer

Por causa dos andebóis o meu filho nunca manifestou interesse em estudar no estrangeiro, nem mesmo depois de ver a Residência Espanhola… como é que podia ausentar-se, questionava-me ele, face às responsabilidades desportivas?
As minhas insistências, os exemplos dos tios que fizeram Erasmus e deixaram rastos de saudades, amizades e ligações no campo profissional, o nosso amor às viagens, à diversidade, aparentemente nunca deram grandes frutos.
A primeira viagem que ele fez foi com um mês de vida, e mal feito, e com 17 anos tem a sua quota-parte de mundo, com a mãezinha a dizer-lhe que não são países que visitamos, são aldeias vizinhas e qualquer pessoa sabe que tem que se dar bem com os vizinhos. A última deslocação, à Dinamarca, fê-la sozinho, ou melhor com a equipa do andebol e anda a planear uma visita à Bélgica no Verão para assistir a um concerto tão espectacular que até eu, que cá fico, me vou passar. Palavras dele que me confundem porque me esforço para não me assustar…
Ontem sentou-se na minha cama, interrompeu-me a leitura e disse-me que tinha andado a pensar e que estudar um tempo no estrangeiro, afinal, era capaz de ser uma coisa boa. Não emiti um som, na expectativa que continuasse e ele fez-me a vontade: falou dumas amigas que tinham estado no norte da Europa, em vários locais, outra em Barcelona, cidade da qual ele guarda saudades. Falou das pessoas que elas conheceram dos mais diversos locais do mundo e com quem mantinham relações e se encontravam, ora cá, ora nos países de origem de cada um.
Eu, que nunca fui a uma viagem de finalistas porque sempre trabalhei e não havia espaço para essas coboíadas, com imensíssima pena minha, e que fiz Erasmus aos 45 anos, ouvia-o falar como se fosse Moisés no Monte Sinai a receber a voz divina…
Já tinham passado largos minutos quando me permiti recostar-me na cama, gesto que tinha adiado não fosse quebrar algum feitiço e calar o rapaz. Sorri. Disse-lhe que eu própria não sabia quando iria algum dia para outro sítio mas que isso sempre fez parte dos meus planos de vida, como ele sabe desde há anos.
Estava muito calmo e disse-me que de facto eu tinha razão… (abri os olhos desmesuradamente e contive a vontade de ir em busca dum gravador para guardar a raridade da afirmação) … que quando as pessoas crescem mudam a visão sobre as coisas e que ele já não tinha medo de ficar sozinho, que os laços que nos unem são tão fortes que não é a distância que os cortará ou fragilizará.
Quando ele saiu do meu quarto já não consegui ler. Apaguei a luz e adormeci a pensar naquele miúdo, que está quase a ser maior de idade, a quem eu repito todos os dias que isso não é sinónimo de se ser adulto, mas que me deixa feliz com estas tiradas de gente grande, apesar de ainda ter muito de criança. E ainda bem!

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Honestidade

Vou com O Complexo de Portnay nas mãos e nos olhos, alheia aos senta e levanta do metro, aos desculpe que se seguem aos empurrões. Vou alheia mas sei que existem.
Às tantas entra uma mãe com duas crianças e duas pessoas levantam-se, uma dá lugar à mãe com um bebé ao colo e a outra dá lugar ao garoto, quatro ou cinco anos de esperteza concentrada.
Porém, os lugares não são lado a lado. A mãe, do lado de lá de rabos encasacados, atira ao miúdo:
- Então, o que é que se diz?
Quando se pensava que o garoto levantasse a cara e agradecesse à senhora que se levantara para lhe dar o lugar, ele vira-se para a mulher sorridente a seu lado e diz:
- Podes levantar-te para a minha mãe se sentar ao pé de mim?
O brilho da resposta mostra uma honestidade que tende a perder-se com a idade. Uma pena.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Os meus sobrinhos, a Islândia e a Ética

Regressei. Em termos profissionais estive de férias. Na verdade estive a trabalhar, assumindo o meu papel de Pato Donald, tomando conta dos meus sobrinhos, que ai vão três.
Neste curto espaço de tempo consegui dar cabo do microondas, queimar os biberões (que plural tão feio…), estragar o estore da sala e, parecendo não ficar contente, cheguei a casa e provoquei um curto-circuito, razão pela qual tenho os candeeiros de pé alto da sala espalhados pela cozinha e casa de banho.
Foi uma semana desastrosa, nesse aspecto. Felizmente outros houve em que as coisas correram muito bem: o caminho até Évora de mão dada com a minha esguia sobrinha; os jogos de pólo aquático do meu sobrinho; os mimos no sofá da sala; mas acima de tudo, os risos e as gargalhadas. O mais novo ainda não se manifesta mas não é por falta de incentivo nosso, é simplesmente por ainda nem ter um mês.
As dinâmicas nas terras de interior são completamente diferentes das da cidade e eu que faço o meu filho com 17 anos andar acompanhado, vejo que em Coruche qualquer vizinho trará os gaiatos da escola e com um telefonema arranjam-se várias soluções para colmatar qualquer falha de horários: a avó de um amigo leva-os, o pai de outro trá-los, uma mãe leva-os à natação, alguém os leva a casa depois dos escuteiros. Para além disto, um café e um pastel de nata custam 75 cêntimos… setenta e cinco cêntimos, café e pastel, os dois juntos!
Com tamanha crise ando a pensar emigrar e pedi ajuda ao meu sobrinho que abriu um determinado livro com uma breve descrição de todos os países para escolhermos um. Não podia ser muito longe, mas tinha que nos dar boas perspectivas de vida. Escolhemos a Islândia. No dia seguinte, como nos filmes onde os sonhos se realizam enquanto dormimos, acordámos na Islândia! Percebemos isso quando saímos de casa em direcção à natação, eu encasacada como se a piscina ficasse num glaciar. Os outros adultos, embora habituados, mas vestidos de bonecos de neve e os miúdos, que nunca se queixam, a correrem com cachecóis pendurados. Combinámos riscar a Islândia e escolher outro sítio, não que eu não aguente aqueles gelos, mas como sou uma rapariga elegante, os casacos em cima de casacos fazem de mim um fardo de palha daqueles redondos e se calhar a cair dou em rebolar e só me apanham a meio do Atlântico Norte…
Além disso intensificámos a nossa pesquisa e descobrimos que foi em 1939 que se registou a mais alta temperatura do ar – 30,5º - o que nos deu logo vontade de rir, mais ainda quando lemos que os invernos são amenos! Achávamos nós que sabíamos o que quer dizer ‘ameno’…
Posta de lado a Islândia não chegámos a qualquer outra conclusão embora o meu sobrinho me tenha dado outra sugestão: Coruche…
Geografias à parte, sexta-feira fui dar uma conferência sobre ‘Ética na Gestão’ e o meu sobrinho acompanhou-me. Éramos duas pessoas e eu fui a segunda a intervir. Enquanto a primeira falou o gaiato sentado ao meu lado apanhou-lhe os tiques de linguagem e expressão corporal e tive que o mandar calar duas vezes, no meio de risos contidos, tal era a precisão das suas observações sussurradas ao meu ouvido. No final disse-lhe que tinha sido pouco ético da sua parte fazer aquilo e ele disse-me que talvez, mas que tinha sido muito divertido…

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O Último Bandeirante

Gosto muito de romance histórico, e este tem a particularidade de ter uma boa construção de personagens, elemento essencial para qualquer narrativa, mas ainda mais neste tipo de literatura onde, com frequência, há autores que se abrigam nas descrições da época fragilizando as personagens, conferindo-lhes um estatuto de fantasma, tal a fragilidade com que nos aparecem.
Não me canso de elogiar um livro que me convença através deste aspecto: quando lemos e ‘reconhecemos’ as acções ou os pensamentos, é como se conhecêssemos aquela pessoa. Isto é trabalho do Autor, enquanto pai, escultor que não despreza mínimos detalhes que ajudam a fazer o puzzle das personagens.
Por outro lado, o Autor não toma posição a favor de bandeirantes ou missionários: dá-nos a dimensão dos factos históricos, riquíssimos, como quem mostra uma fotografia. Dá-nos a informação mas sem opiniões, sem julgamentos, nem o poderia fazer sem insultar a História.
Nunca escrevi nada que roçasse sequer o romance histórico mas até acredito haver uma certa tentação para, no mínimo, se usarem adjectivos que acusem o nosso ponto de vista, palavras traiçoeiras que façam os outros perceber que concordamos com isto mas não com aquilo ou, pior ainda, muito pior, quando se analisam as situações e se fazem reflexões à luz dos nossos dias, em total disparate.
‘O Último Bandeirante’ não tem disparates, antes pelo contrário: narra o que aconteceu, como cronista, usando a imaginação mas sem desmerecer na História, sem a querer alterar.
Introduz-nos o mundo meio conquistado meio por conquistar do imenso continente sul-americano, com descrições da selva e das Missões, dos escravos, da dinâmica das bandeiras e lembra-nos a maior bandeira de sempre, uma epopeia de cerca de 12 mil quilómetros no meio dum inferno, mas realizada, empreendida por muitos e concluída apenas por meia dúzia, por um punhado de gente que regressou obrigatoriamente diferente, como o Autor nos dá conta.
A descrição do assalto à Missão chega a ser bela, por incrível que pareça, apesar dos horrores enunciados, por verídica nos parecer.
‘O Último Bandeirante’ é um livro extremamente visual: das paisagens, dos índios, dos rios, dos mapas, mas também das personagens, da História, do passado, um passado que se fez presente e que está presente nos nomes das províncias, dos cursos de água, dos animais ou das frutas.

Confesso que sou desconfiada de jornalistas-escritores: a minha primeira impressão vai para um interesse comercial das Editoras em publicarem ‘famosos’, o que se espera vir a ser uma mais-valia nas vendas. É o fenómeno, ‘figura pública mediática ou mediatizada por qualquer razão que nada contribui para a tornar escritora, mas que mesmo assim atiça a curiosidade do público e isso chega’. Neste contexto, o jogador de futebol, leva a palma de ouro.
Por outro lado, custa-me a interiorizar, custa-me muito…, que certos jornalistas tenham escrito certas coisas e é com imensa facilidade que a minha imaginação vê outros a escreverem por eles, mas a minha imaginação é muito fantasiosa… Desta vez não foi o caso.
O livro é do jornalista Pedro Pinto, editado pela Esfera dos Livros, tem badanas, e na capa mostra uma imagem do quadro A primeira missa no Brasil, de Victor Meirelles.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Saudoso primo

Quando oferecemos o computador aos meus pais criámos-lhes uma conta de e-mail e uma página no Facebook, que se têm mostrado bons aliados para alguns momentos de solidão, matança de curiosidades várias e grandes navegações nos mares virtuais.
Face a algumas dificuldades no manobramento de velas e burrajonas, com cabos e nós, os netos, sobrinhos e filhas dão uma mãozinha de quando em vez, com actualizações, limpezas de spam, varrimento de lixos e eteceteras.
A propósito do envio duma mensagem para as Finanças ontem limpei a caixa do correio e vi que pelo meio da ondulação estava uma mensagem cujo assunto mencionava ‘Saudoso primo’.
Um parente afastado identificava-se nomeando pai e mãe, não fosse a memória dos meus pais tê-lo apagado, e escrevia-lhes dizendo ter dificuldades em os adicionar, e perguntava se não tinham outro e-mail.
Comecei a responder, alinhando também a árvore genealógica para que confirmasse a veracidade da informação e a meio lembrei-me que os podia adicionar nas redes sociais, fazendo uma surpresa aos dois.
Tirando alguns tios e primos directos não sou grande especialista na família e tenho apenas uns ecos de nomes que andam soltos, um bocado aos trambolhões na minha lembrança, nem sei se chegam a entrar na memória, mas tinha uma vaga ideia deste primo. Porém, se lhes recordo os nomes, não faço a mais pequena ideia das ocupações ou das profissões. Quando abri a página percebi que o senhor é médico, mais propriamente ginecologista: só assim se explica a multiplicação de imagens de partes íntimas femininas no mural do ‘saudoso primo’. Sempre pensei que só existisse um médico na família, que mesmo já tendo morrido continua bem vivo em nós, e era ortopedista. Ginecologista, nunca tinha ouvido falar.
Depois lembrei-me que o ‘saudoso primo’ talvez trabalhe num jornal e faça a composição das páginas do lazer, que nos últimos anos são uma versão dos livros aos quadradinhos, a cores e com fotografias só de mulheres, um bocado a anti-matéria de certos filmes de guerra onde só entram homens, e, quem sabe, estava a trabalhar na rede social…
Pensei, pensei, pensei e acabei por não o adicionar pela simples razão que o meu pai trabalhou muitos anos num diário lisboeta e ainda deve estar cansado daquela dinâmica que, sabe-se lá, confrontado assim de repente com as novas formas de composição, ainda lhe desse uma filoxera que lhe pusesse o coração em jeitos de motor quitado.
Comentei o assunto com a minha irmã que disse imediatamente lembrar-se da personagem, mais, nunca a esqueceria! Recordava uma tarde de sábado, há muitos anos, quando tinha acompanhado os meus pais de visita ao ‘saudoso primo’ que tinha sido operado aos rins. Esperava-os um lanche, como competia, com toalha branca, café, chá e bolos. No meio da mesa, em jeito de centro floral estava o frasco com as pedras que lhe tinham tirado dos rins e que foram o centro da conversa desde que chegaram até que abalaram. Como se isso não chegasse, as pedras foram retiradas do líquido e passadas de mão em mão para avaliação de peso, textura, forma e demais características. Depois fizeram-se revisões da matéria a pedido do ‘saudoso primo’ e as pedras, quais Sivalingas do Indiana Jones, voltaram a dar nova volta de apreciação pelos dedos dos convidados.
Se um lanche pressupõe uma lição e respectivo exame de Petrologia, uma ligação na rede social pode significar sei lá o quê… Olha, ficamos assim, eles se quiserem que se adicionem depois um ao outro!

Pão de cereais

Há tempos enunciei aqui os mil e um pedidos que se podem fazer ao balcão e que envolvem café, que as pessoas e as modas vão alterando para, por vezes, apenas parecer café.
Com o pão passa-se a mesma coisa mas elevado a grãos de areia do deserto do Saara.
Quando morávamos nas Mercês e eu ia à padaria da D. Adelaide tinha duas opções: pão de Mafra e carcaças; ocasionalmente havia pão alentejano, que nós consumíamos muito porque o trazíamos do Sobral da Adiça cada vez que lá íamos. Hoje há catálogos de pão que competem com os catálogos das tintas!
Saloio e alentejano, de Mafra e de água, bolas e bicos, vianas e vianinhas, carcaças e mafrinhas, integrais e com sementes, com passas e de mistura, ázimo e de forma, de centeio, milho e trigo e ficam a faltar muitos.
Lembro-me há uns anos, durante um fim-de-semana no Algarve com a minha irmã e cunhado, este comprou um pão alemão, segundo ele, muito bom! A estadia era de curta duração e comíamos sempre na rua, ainda assim abastecemo-nos para lanches a meio da noite durante jogatanas de cartas que ainda hoje adoramos. Quando demos a primeira dentada no pão alemão, literalmente, cuspimos os três em simultâneo, a massa do pão, tão intragável e horrível aquilo era.
Uma coisa que me engalinha é perguntarem-me se quero pão de cereais. Respondo logo com outra pergunta:
- Os outros são de plástico, verdade?
As pessoas olham-me durante alguns segundos sem saber o que responder e depois continuam dizendo que não, não senhora, e seguem enumerando os tipos de pão que têm. Lá sorrio e acrescento que espero que todo o pão seja de cereais. Normalmente a pergunta quer designar pão com sementes e eu, picuinhas, sei mas insisto.
Tenho um amigo que tem uma máquina de fazer de fazer pão: deita-se e o ‘forno’ vai trabalhando de noite de modo que tem pão quente assim que se levanta. Nunca o provei mas conheço quem adorasse ter uma maquineta destas.
Não faço quilómetros para ir a um restaurante comer isto ou aquilo, não me lembro do nome de terras ou locais onde estive e onde comi bem, mas sei onde comprar pão que só de olhar para ele até nos lambemos e assim que começamos a tirar-lhe farrapos não se consegue parar. E é pão de cereais…

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O dedo

Estive de serviço no fim-de-semana. Quase podia dizer que tinha posto a boina e ficado ao serviço ao Zézinho, do Huguinho e do Luísinho: os três juntos são os sobrinhos mais famosos do mundo e os meus são os melhores.
Estive de serviço também à minha irmã e uma das coisas que lhe fiz foi cortar-lhe as unhas. Foram limadas para não correr risco de arranhar o bebé e chegada aos pés deparei-me com a visão dos meus actos de criança: o dedo grande do pé direito foi passado numa trituradora, refeito à mão e voltado a colocar como peça de lego partida e colada. Resultado, o dedo é esguio e longo, a unha é uma massa preta que cai a cada dois anos, mais ou menos.
Numa bela tarde de Verão, quando as crianças ainda brincavam na rua sem a permanente supervisão dos pais, andava eu de bicicleta a subir e a descer a rua. A minha irmã ainda não tinha feito cinco anos e ia com a nossa mãe para o trabalho. Pontualmente eu esperava-as na estação do comboio, na ponta da rua. Naquela tarde, e como de costume, dei-lhe boleia na parte de trás da bicicleta. Ela usava umas sandálias azuis, abertas, como competia naquela altura do ano. A rua descia em direcção à nossa casa e eu não vi quando ela meteu os frágeis dedos nos raios da bicicleta que nem precisou de fazer força para lhe trucidar o dedo e magoar os outros. Os gritos dela encheram a rua, o meu pavor alastrou-se à lua que já alumiava o fim da tarde.
Alguém chamou a minha mãe que já subia as escadas em direcção ao segundo esquerdo onde morávamos e que ficou em estado de choque. Sem saber exactamente o que fazia, apanhei cada bocadinho de dedo dos raios da bicicleta e segui os vizinhos que levavam a garota em braços ao enfermeiro do bairro, o Sr. Camilo, seguidos pela minha mãe, meia zonza.
O enfermeiro mandou chamar uma ambulância dizendo que aquilo não era para ele, a minha mãe deu o número do telefone do trabalho do meu pai, pedindo para os vizinhos o avisarem e seguimos as três para o hospital, eu com o estrago nas mãos, lavada em lágrimas.
A garota gritava a plenos pulmões e no meio dos gritos fazia um pedido que me punha a chorar ainda mais e me deixava a tremer:
- Mãe… não te zangues com a mana…
Repetiu e repetiu esta frase, em palavras mal alinhavadas e intercaladas com soluços mas ditas de tal forma que ainda as conservo vivas na memória.
Quando chegámos ao hospital de S. José, assim que a porta da ambulância se abriu, vi o meu pai a espreitar, de olhos esbugalhados.
Entrámos no hospital, ela foi vista imediatamente e o médico disse ao meu pai que como eu tinha levado o que restava do dedo, iam tentar compô-lo, mas sendo ela muito nova, ele não aconselhava que se anestesiasse, porém, a decisão final era dos pais. O que queriam fazer?
O meu pai disse-lhe que fizesse como se ela fosse sua filha e o médico avisou, como se fosse preciso, que não ia ser fácil e que precisava da ajuda dele.
Entraram na sala de operações com ela segura por uma enfermeira e pelo pai. Os gritos dela ouviam-se no corredor, por favor pai, paizinho, por favor, não, não, não…
A dor era lancinante dentro e fora da sala. E quando pensei que não podia ser maior tomou proporções épicas, só comparáveis ao momento em que soube que ela teve um acidente, há quatro anos, queimada com ácido sulfúrico.
- Mana… mana ajuda… mana… ajuda… não, não… mana…
O pedido de socorro vinha em maiúsculas, como balas certeiras que me atingiam o coração. A minha mãe chorava abraçada a mim e eu chorava abraçada a ela. Passou uma eternidade que, contada posteriormente, pouco passou da meia hora. Ninguém diria, nem mesmo os desconhecidos que aguardavam ao nosso lado no corredor.
Quando saiu vinha esgotada. Rouca e alienada, como se não reconhecesse chão e céu. Ao colo do meu pai recebeu os nossos beijos e abraços e voltou a pedir que não se zangassem comigo.
Começou aí uma epopeia que durará a vida inteira: primeiro foi o retirar dos pontos, eu com dois gelados na mão a meter-lhos na boca para lhe adoçar o momento. Depois a cena dos gelados iria repetir-se sempre que era preciso cortar a unha, mesmo recorrendo a anestesia. Agora cai de vez em quando e ninguém lhe toca. Nunca mais usou sandálias e chinelos de enfiar o dedo só em casa ou na piscina.
É uma das cicatrizes que tem, uma cicatriz que não se vê ao contrário das outras, na cara e nos braços. Foi a caneta da vida que se desviou do curso normal e ali deixou um risco. Não mais se apagará.

O Ouro dos Corcundas

O Ouro dos Corcundas é escrito a ouro em barra, daquele que sabemos existir mas raramente se vê e nunca se usa; no entanto, vive.
A estória mergulha-nos na história com palavras novas-velhas, próprias, certas, fidedignas. Pedristas e Miguelistas agridem-se à pedrada e enquanto isso as pessoas normais continuam com as suas vidas.
Paulo Moreiras mostra-nos como as pessoas normais se podem transformar em heróis e leva-nos de observadores nas andanças de Vicente Maria como se caminhássemos a seu lado, magia feita através da linguagem que optou por usar, impecável, rica, dinâmica e viva, muito viva, provando que o passado também está vivo, de boa saúde e recomenda-se.
Nada foi deixado ao caso e a bibliografia final é prova disso: ali se buscou verdade para a descrição de roupas e trajes, dizeres, modas e canções, descrição de armas e aldeias, transformando a leitura numa lição de história da vida pública e privada, onde os pormenores são cuidadosamente tratados.
O linguajar utilizado é uma música solene de tal forma que nem dei atenção à composição da travessa com rodelas de morcela e queijo partido aos quadrados, cuja forma me trás algumas dúvidas, por actual.
Concordo que a primeira tentação é anunciar Vicente Maria Sarmento como o protagonista do livro, mas assim que se começa a ler ficamos indecisos se esse lugar não pertence à linguagem, à forma de expressão, que cria imagens impossíveis de criar se o palavreado fosse outro.
A ler e reler, a oferecer, a emprestar – que me desculpe o Autor por esta última forma.
O Ouro dos Corcundas é da Casa das Letras, que lhe escolheu capa a condizer, magnífica, e nos brindou com badanas.

Da vida dos livros

Que os livros são entidades vivas já o sabia; levamo-los debaixo do braço mas são eles que nos transportam; apertamo-los mas são eles que nos aquecem; abrigam personagens mais reais que certas pessoas; contêm histórias que adorávamos ter vivido; fazem-nos rir, chorar e pensar; são a cama dos sonhos.
Já pensei fazer um gráfico, uma ilustração dos ganhos obtidos com os livros e a leitura, mas os riscos sobrepõem-se, as setas misturam-se, tudo se encavalita, de tão denso ser o resultado.
Descobri - obrigada Âncoras – imagens de livros cuja riqueza é filha da eloquência com o belo, cruzada de sentidos e que pode ser vista aqui.
Um livro nunca está gasto, obsoleto, velho ou inútil. É sempre possível uma nova abordagem, novas visões, outras histórias, novas e renovadas leituras.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Óculos novos

Quando se é cegueta anda-se com uma prótese pendurada no nariz e nas orelhas. Óculos. Uso prótese ocular desde os seis anos e odeio. Um dos meus sonhos é poder ser operada para passar dos óculos graduados para os de sol, que adoro. Como as operações não são de graça, cá ando de vidrinhos nos olhos.
Esta semana comprei uns novos e, como acontece desde há uns anos, compro uns e oferecem outros, com a mesma graduação, o que faz com que não tenha que andar sempre com a mesma cara. Como não mudei a graduação e já tinha três pares diferentes, agora tenho uns para cada dia útil.
Quando cheguei a casa de óculos novos – iguais aos do Clark Kent! – o Duarte ainda não tinha chegado dos treinos. Entrou passado pouco tempo a alta velocidade em direcção à casa de banho, olhou-me de raspão e meteu-se na banheira. Mencionei os óculos novos, fazendo beicinho por ele não ter dito nada. Com o chuveiro aberto, respondeu que já me daria os elogios, mas que a armação preta me ficava muito bem.
Enquanto isto troquei os óculos, sentei-me no sofá e perguntei:
- Pretos? Tu estás bem? Os óculos não são pretos…
Ele sai da banheira chega-se a mim e fica de olhos abertos a olhar-me, eu a empurrar o riso para baixo.
- Mãe… jurava que tinhas uns óculos pretos quando entrei… jurava mesmo!
- Mas tu vieste do treino ou andaste a beber, rapaz?
- Mãe… juro! Juro mesmo!
Enrolado na toalha, pés descalços no soalho, não arredava pé a olhar-me; mandei-o vestir-se e trazer o jantar que se fazia tarde. Enquanto foi voltei a trocar de óculos e fiz-me muito interessada na televisão. Vestiu-se, foi à cozinha buscar o tabuleiro, que apronto assim que ele toca à campainha, e sentou-se a meu lado, perguntando o que estava eu a ver. De repente voltou a olhar-me e pregou um grito, a rir:
- Mãe! Eu sabia! Eu sabia! Não ‘tou maluco!
Finalmente libertei o riso e deixei-o expandir-se pela sala. Ele quis ver os dois pares ao mesmo tempo e decretou que os pretos são mais bonitos e me ficam muito bem.

Vocação: Quica

Sei que não sou e nunca fui uma mãe tradicional. Provavelmente nunca serei.
Verdade seja dita, o meu filho sempre ajudou: ele sempre comeu de tudo, ainda come, e se não lhe apetecia comer, comia mais tarde, sem stresses.
Nunca o obriguei a andar de casaco, de chapéu-de-chuva, de cachecol e barrete e a colecção de camisolas interiores, quase todas prendas de Natal, iam sendo dadas a outros, embora ainda sobrem algumas na casa do pai, pois é peça que não nos serve para nada. E falo no plural pois continuo a andar de manga curta, sem meias e ele sai à mãe. Rio-me dos caracóis molhados quando chega a casa todo encharcado e ajudo-o a secar os ténis. Adoro passeios de carro de rádio aos berros, e chuva a escorrer-nos pelos braços que vão de fora das janelas abertas.
Durmo bem quando ele sai à noite e não passo horas acordada a olhar para o relógio; ele ajuda na medida em que manda uma mensagem a meio da noite a dizer que está tudo bem. Deixo-o ficar em casa sozinho – hoje vai ser um desses dias – porque confio nele.
As nossas longas conversas vêm de longe, de muito longe e vão de A a Z. Claro que nos aborrecemos um com o outro volta e meia, mas é nuvem de pouca dura. Há poucos dias, a propósito de tarefas domésticas que ele devia ter feito e não fez, foi ele que tomou a iniciativa de dizer que queria tudo menos ficarmos zangados. Manda-me com frequência mensagens a dizer que me ama muito. Para além de mãe, também sou a Quica dele.
Quando me perguntam o que mais gosto da vida, ouvida a resposta, muitas vezes estranham que eu não responda que é o meu filho, e lá tenho que explicar que na minha concepção os filhos nem entram em rankings onde possam ser comparados seja com o que for, estão acima de tudo, logo, não podem constar dessa lista.
Da mesma forma, os meus sobrinhos também não contam. Por outro lado, eu também fico de fora nas preferências das tias, porque não sou tia, sou a Quica. Assim, eles têm apenas uma tia que, por isso mesmo, é a tia favorita. Mas ao contrário de toda a gente, têm uma Quica.
Ela usufruiu o facto de ter uma Quica, mas só agora a vai usando um pouco mais, ao contrário dele que sempre se espraiou no meu olhar e nas minhas mãos e que provoca o aparecimento duma aurora boreal quando está comigo, o que leva o meu cunhado a dizer muitas vezes que para o filho mais velho existe Deus no céu e a Quica na Terra.
O X. já cá está e não demorará a saber que, por inerência, tem uma Quica e eu, com experiência da tarefa, posso aprimorar a função e aumentar o pecúlio de vida.
Durante algum tempo temi ciúmes do meu filho, mas agora ele próprio compete comigo nos colos, nos mimos, nas dormidas malucas, nas brincadeiras e na paciência.
O próximo Verão vai ser um felizardo e vai poder ver o que nenhum Verão viu até agora: o X. a gatinhar na areia, os outros três a malucar debaixo de água e eu a pensar que todos os grãos de areia do mundo não chegam para contar a minha felicidade.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Dia de sol

O mar é um amigo a quem me confesso e que visito semana após semana no Inverno e dia após dia no Verão. Preciso dele. Desesperadamente. O sol é um pai que me afaga e de quem tenho saudade quando não o vejo. Preciso dele. Desesperadamente. Se o vir logo de manhã o dia tem mais probabilidades de correr bem. E hoje ele já estava levantado e sorridente quando abri os olhos. Nem podia ser de outra forma: hoje nasce o Xavier.
Esteve sol quando nasceu o meu filho - que saiu da maternidade dois dias depois e seguiu direitinho para ver o mar antes de ir para casa - e esteve sol nos dias que viram nascer os meus sobrinhos. É como se o sol fosse uma pessoa da família, chegada, que estivesse igualmente em pulgas e nervoso e ansioso, só falta sentar-se connosco à porta da sala onde fazem a cesariana à minha irmã. Não se senta, mas está lá.
Sei que tudo o que fizer hoje ficará bem feito por pura sorte: tenho o pensamento dividido em mil memórias de vários nascimentos e a cada um é como se nascesse também, uma e outra vez: a cada novo elemento do clã começa uma nova vida, nascem partes de nós, cá dentro, a nadar no sangue, a fluir no riso e nas lágrimas. E vamos ser maiores, melhores, mais.
Meu querido mar, no fim de semana vou contar-te pessoalmente como foi.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Ai, que calor...

Sento-me já em voo picado para o livro que ando a ler. Como já comentei aqui, o metro fica cheio na primeira estação, a suburbaníssima Amadora-Este. Apesar do mergulho no livro mantenho um periscópio involuntário através dos ouvidos. À minha frente sentam-se duas mulheres, conhecidas, o que é mau sinal: sei que irão a conversar e me vão distrair. Não vou conseguir visualizar as imagens que o autor preparou para mim através da escrita. Bolas! Bem, concentremo-nos!
Claro que elas vão a conversar e às tantas a antena apanha a seguinte frase, em sussurro, apenas murmurada:
- Havíamos de perguntar a esta senhora que meias é que usa, nem se nota que tem meias.
Sei que o comentário é para mim. Levanto os olhos e deixo Vicente da Bufarda parado diante de sua majestade, El Rei de Portugal e sorrio para as senhoras que me olham como se fossem crianças apanhadas a fazer uma traquinice:
- Não se notam porque eu não uso meias.
- Ah...
- Então é por isso... mas como é morena... parece que tem...
- ... mas ao mesmo tempo parecem invisíveis...
- Pois... o segredo é não se usarem meias, irmos à praia o ano inteiro, andarmos sempre de calções, fazermos caminhadas e, de preferência, caminharmos dentro de água. Desta forma conseguimos umas meias invejáveis e, garanto, perdemos o frio.
Enquanto fazia este discurso, elas abanavam a cabeça em sinal de concordância e apontaram para os meus braços tapados por aquilo que se chama manga curta e disseram-se incapazes de andar assim no inverno, com tanto frio. Esclareci ainda que não usava meias com saias nem com botas, nem com calças, que era uma questão de hábito. Sorrimo-nos e eu voltei à Taberna do Pasquino e a Vicente da Bufarda e a Tomásia e ao enredo, mas principalmente, à forma do magnífico livro que anda nas minhas mãos.

domingo, 20 de novembro de 2011

Estamos à tua espera, pá!

Na próxima quarta-feira a minha família terá mais um elemento: será um Sagitário. Nós somos uma família diferente e não dizemos não a qualquer elemento. Se ele um dia decidir abandonar-nos, isso é outra história. Por agora fica connosco e já tem nome: Xavier. É um bom nome para um Sagitário. O irmão mais velho, M., com quem hoje apalavrei as próximas férias com ele de olhos esbugalhados, também é um bicharoco raro. Esta semana encontrou uma moeda de cinco escudos e pediu ao pai se a podia levar para a escola uma vez que estavam a dar os povos antigos, sic. Quando soube da história senti-me uma matrona romana...
A irmã, P., que deixará em poucas horas o estatuto ingrato de filha mais nova, está radiante; afinal, uma miúda tão sabida ser a bebé da família, não condiz com ela.
Enquanto gritávamos pelo Duarte durante o jogo, ele estava sentado ao meu lado e apertava-me volta e meia, numa manifestação de carinho e saudade que me deixa sempre babada. Não podia sonhar sobrinho melhor.
O Sagitário que está quase a passar a fronteira para o país da nossa família, não sabe que apesar de muitas divergências, somos os mais puros dos ciganos, dos mafiosos: a família é tudo e ele não sabe, mas vai sentir.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Uma questão de organização

De entre as várias tarefas que me estão confiadas está a organização de eventos científicos, que também se pode traduzir como a arte de tocar vários burros e conseguir que nenhum fique para trás: definição do programa, escolha dos conferencistas, convites, marcação de viagens, hotéis, guias, resumos e livros de actas, pastas, identificadores, traduções simultâneas, publicidades e cartazes, imprensa, cafés, almoços e jantares, menus para vegetarianos, pratos especiais para quem é alérgico a isto ou aquilo, transportes, questionários de avaliação, aspirinas para dores súbitas e mais um sem fim de aspectos que, quanto mais pequenos, mais diferença fazem.
Para isso é preciso uma equipa que, felizmente, existe e sorri. Os preparativos vêm sendo afinados desde há meses e aproxima-se agora a hora agá. Como sempre, estou nervosa: este é o maior evento que já organizei; mas como estamos bem sintonizados, acredito, como sempre também, que vai correr bem. Confio na equipa e isso é o fundamental. Sei que sou exigente, picuinhas e almejo uma perfeição a que nunca se chega, logo, nunca me dou por satisfeita. Sei que por estes dias fico irascível e fulminante, tentando antecipar qualquer coisa que possa correr menos bem e pondo em prática planos bês e cês, construindo redes sobre redes como se fosse uma trapezista com medo de cair.
Numa ocasião, depois dum outro evento, fui convidada a organizar uma visita dum grupo de arquitectos alemães a Portugal. Espantada com o convite que me parecia cair do espaço sideral, quis saber como tinham chegado até mim. A indicação fora dada por um dos participantes no colóquio anterior, com a informação que eu trabalhava à alemã. Aceitei o elogio e lamentei não poder ajudá-los.
Embora seja uma incapaz para arrumar a minha secretária, poço sem fundo e que na semana passada deu origem a um comentário sobre o facto de estar entrincheirada, dado o volume de papéis diante de mim, sei que a organização deste tipo de actividade flui nas minhas mãos.
O que mais aprecio nestas andanças é a diversidade de aprendizagens: cada evento é sobre um assunto diverso e acabo sempre por ficar a falar línguas diferentes, agora arquitectura, depois relações internacionais, história, ética, estratégia empresarial, o que for.
Há uns anos organizámos um evento internacional cujo jantar final coincidiu com o dia em que se acenderia a árvore de Natal do Terreiro do Paço. O jantar foi no Martinho da Arcada e, apesar dos milhares de pessoas que estavam na praça, os nossos convidados viram as luzes começarem a brilhar no silêncio que antecedeu a iluminação e no barulho consequente do público. Um deles, com lágrimas nos olhos, dizia que era tudo tão perfeito que não se admirava que tivéssemos encomendado a árvore só para eles. E eu perguntava-lhe se ele tinha dúvidas!
O melhor disto tudo é a correspondência que se mantém posteriormente com as pessoas, informal e indisciplinada, as visitas mútuas e a alegria do reencontro.
Espero que este não falhe a regra.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Fim de dia, princípio de vida

A greve de terça-feira fez-me levantar os costados da cama mais cedo e aterrar diante do trabalho ainda o dia andava de robe a passear-se pelos quartos.
Foi um dia muito duro. Para além da confusão gerada pelas greves, do pessoal que nem conseguiu vir – e temos uma biblioteca aberta ao público que recebe cerca de 600 pessoas por dia – a parte mais difícil foi ter sabido do fim dum contrato duma colega e que dentro de poucos dias se despedirá de nós.
O normal curso do trabalho, que agora está no auge com a aproximação dum congresso que por aqui se organiza e terá lugar na próxima semana com gente vinda de todos os lados, faz-me escoar o tempo e a má disposição não ajudou nada. Assim, quando recebi uma mensagem do meu filho a sugerir uma sessão de cinema, pensei em meia dúzia de impropérios, alguns dirigidos a ele que não respeitava o cansaço maternal e, num dia como aquele, ainda queria filmes!
Depois pensei no assunto, vi que tinha reagido mal e decidi aceitar. Ele entrou no carro com grandes prolegómenos: o que ia eu ficar em casa a fazer? A pensar? A matutar? A massacrar-me? Não! Tinha que sair e conversar e, de preferência, rir-me, por isso íamos ao cinema.
Percebi que embora fosse eu a conduzir, era ele que mandava. O filme estava escolhido mas ainda houve tempo para muita troca de palavras e que começou com uma ordem a que tive que me sujeitar, embora o esforço não fosse muito grande:
- Mãe não estejas assim! Olha, sabes o que precisas? Uma prenda! Vamos à livraria!
E lá fomos e eu pequei, pequei, pequei, na carteira bem entendido, pois o único aborrecimento é sempre a escolha…
O Duarte falou o tempo todo, da escola, do andebol, das motivações, dos colegas, das colegas…, fez planos, onde eu estava introduzida!, para visitarmos o Convento de Mafra, a propósito da leitura do Memorial do Convento e terminou dizendo que o que eu estou a precisar é de uma caldeirada na Nazaré!
Espantada e boquiaberta, pois a abertura dele é grande, mas nem tanto, fiquei colada no banco do carro quando, depois do cinema e a caminho de casa, ele me pergunta se há coisa pior no trabalho dos adultos do que despedir alguém. Antes que eu respondesse disse que numa ocasião ouviu o pai falar comigo do assunto, a propósito de despedimentos lá na empresa e nunca mais se tinha esquecido da tristeza que o pai demonstrava.
- Como se escolhe uma pessoa em vez de outra, mãe?
Eu já estava mais animadita com a conversa dele e aquela pergunta deixou-me com um nó na garganta. Disse-lhe que a pessoa agora em causa não tinha sido despedida por mim, mas o contrato acabara e a empresa não lho renovara e que, felizmente, as pessoas que eu despedira, eu mesma, foram por incompetência e aí não pudera fazer nada.
Já à porta de casa, roda volante para cá e para lá para estacionar, ele põe a mão em cima da minha e diz-me:
- Tenho muito orgulho em ti, mãe.
Será preciso um dia mau para termos uma noite assim?

Conhecer o mundo

Venerando viajantes e desdenhando turistas fico sempre de olho semicerrado quando ouço alguém dizer que conhece muito bem determinado sítio porque numa ocasião lá passou.
Quando a coisa se compõe para a conversa digo que invejo quem tem a sorte de conhecer muito bem seja que local for, pois eu, e o defeito será com certeza meu, nunca conheço bem nada, pois cada nova visita é uma descoberta nunca completamente assimilada.
Claro que sou esquisita aos olhos de quem conhece França através do relance que lhe permitiu poisar a vista na Torre Eiffel! Este síndroma verifica-se em todo o seu esplendor com o Brasil, onde um mergulho em Fortaleza tem poderes mágicos e dá conhecimentos sobre aquele imenso país!
Certos locais são muito caros, dizem-me, e justificam com a compra duma garrafa de água; não é preciso garimpar muito para se descobrir que a água foi comprada no hotel, hotel esse que alberga galáxias de estrelas que, mesmo falsas, brilham de tal forma que os clientes pensam ser verdadeiras e pagam, nem se dando ao trabalho de procurar um supermercado.
Noutras ocasiões fazem valer opiniões colhidas no tempo dos cruzados, ou por interpostas pessoas, amiúde um cunhado que viveu muitos anos na Suice ou na Alemanha, ou alicerçam-se numa reportagem que deu uma vez na televisão.
aqui falei dum casal que conhecemos em Marrocos, únicos e só possíveis de existir na vida real, como a Falha das Marianas ou qualquer outro erro da natureza, pois nenhum Spielberg teria imaginação para fazer nascer tais personagens, principalmente ela, cujas descrições da Tailândia me foram inesquecíveis, de tal foram que aqui as partilho.
A Tailândia tem imensos hotéis, todos enormes, com soberbas piscinas e empregados m a r a v i l h o s o s! À beira das soberbas piscinas dos enormes hotéis da Tailândia, os m a r a v i l h o s o s empregados dão massagens aos hóspedes! Não! Não são dessas… quer dizer, também devem dar, mas ali, à beira das piscinas são massagens normais.
A Tailândia também tem praias, ou melhor, a Tailândia em si, não sei se tem ou não alguma praia, mas os enormes hotéis têm de certeza! A água das praias é transparente e quente. O comer… bem, o comer… há i m e n s o, nos restaurantes dos hotéis e pode-se comer de tudo vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas!
Com uma descrição assim, e pensando agora no assunto, percebo o trauma que me ficou e, provavelmente, é por isso que nunca lá fui.
Depois há os executivos que conhecem a Europa de fio a pavio! Vão de manhã e regressam à noite ou no dia seguinte mas, mais uma vez, têm uma capacidade de ficar a conhecer as cidades onde aterram que escapa às minhas básicas competências, mas não os inibem de afirmar que conhecem bem Varsóvia ou Frankfurt, pois se ainda há semanas lá estiveram!, e sabem tudo o que há para saber acerca da cidade, por exemplo: em frente do hotel havia um enorme café que servia p’ra cima de cinquenta espécies de café; e a casa de chocolates em Bruxelas? Hein? Nunca se viu tanto chocolate junto… Como se chama? Não se lembram. Onde ficava? Na rua paralela ao hotel. O que comprou? Nada, no hotel davam amostras.
E o Sena? Os passeios que se dão por lá… e antes de ter tempo de perguntar pelos bouquinistes, já ouço que o único senão são os tipos que se espalham nas margens a vender livros velhos e papelada. E incrível como gente mais avançada que nós, os franceses!, deixam que aqueles sem-abrigo por ali andem a encurtar o espaço de quem quer passar! Aquilo é uma Feira da Ladra e é TODOS OS DIAS!
E as jóias da Rainha? Que coisa espantosa… já que foram ver a as jóias, tiveram que ir à Torre de Londres, e que tal? Não, não chegámos a ir, era para irmos, mas à última da hora o tipo que nos devia levar teve um atraso e ficámos no hotel, mas vimos um folheto com as coroas e aquilo tudo.
Engulo e pergunto porque não foram de metro. De metro? Nã… tínhamos pouco tempo, sabes, ainda nos perdíamos…
Nem perco tempo a dissertar sobre a maravilha que é perdermo-nos, o que se ganha em nos perdermos, o que ficamos a conhecer e a riqueza que trazemos para casa.
Raramente pergunto por Museus não vá a resposta enfurecer-me e eu nem sou muito amiga de museus, é mais ruas e pessoas e cheiros e sabores e sensações e empedrados e mercados e ventos e rugas e risos e estações e terminais de transportes.
Serve tudo isto para pedir que não me digam – digam a outras pessoas, há por aí tanta gente – que conhecem bem esta cidade ou aquela, pela simples razão que é uma enorme mentira.

Novos passageiros

Com o conforto, a que muitos estavam habituados, a passar férias em parte incerta é cada vez mais o número de pessoas que utiliza os transportes públicos. Dois minutos de atraso são suficientes para não se encontrar lugar no estacionamento e o metro, que outrora saia vazio da estação de Amadora-Este, agora vai cheio.
Nos primeiros anos que trabalhei em Almada, e morando no Algueirão, apanhava cinco meios de transportes para lá chegar e outros cinco para entrar em casa: camioneta de casa até aos comboios; comboio até ao Rossio, de onde saltava quase em andamento e em andamento entrava num autocarro que me deixava à porta do barco; navegava até Cacilhas onde apanhava nova camioneta para o centro de Almada. Apenas no regresso, quando não tinha pressa e o tempo estava bom, prescindia do autocarro entre os barcos e o Rossio. Hoje ando apenas de metro e ando muito bem, à excepção dos dias de greve, em que venho de carro e entro no trabalho às sete da manhã.
Uma coisa que me irrita solenemente é a facilidade e a forma com que as pessoas reclamam sem pensar por tudo e por nada. Um minuto de atraso adquire proporções épicas de desassossego em certos passageiros, põe-se na má vida as mães dos maquinistas, atiram-se impropérios sobre um jornal abandonado que as empregadas da limpeza, nesse dias umas poltronas, nem sequer apanharam… enfim, uma tristeza.
Os ‘novos’ passageiros, os que antes iam de carro e agora emparelham com a ralé, e que se notam pelos cremes que lhes cobrem as caras e pescoços, pelos perfumes que se instalam em carruagens inteiras, pelas bijutarias tão parecidas, mas tão mesmo, com peças originais, pela forma afectada como se sentam fazendo tudo para não tocar na plebe que toma lugar a seu lado, como torcem o nariz a qualquer um que se vista de modéstia, são os que mais se incomodam e quando vão em pé então, valha-me S. Cristovão! Então pagam e vão em pé? Olhe, viesse mais cedo, ou então mande a criada guardar-lhe o lugar…
A coisa anda má, mas para algumas pessoas a crise é o próprio inferno, até de metro têm de andar! Ao que uma pessoa se sujeita!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Vivelete

O Cheiro dos Livros entra-me pelos olhos e vejo uma palavra a que a minha boca está desabituada, mas que mora na minha memória. Teodolito.
Nos idos do primeiro ano de faculdade na disciplina de Sociedades, Culturas e Civilizações Clássicas foi-nos proposto uma de duas hipóteses: ou fazer um trabalho escrito ou ir trabalhar para um campo arqueológico nas férias da Páscoa. Ui… que escolha difícil e pobres dos que não tinham autorização dos pais, sim porque isto passava-se na altura em que era preciso ter autorização dos pais para nos ausentarmos de casa. Sim… esta época existiu.
Lá fomos cantando e rindo para Castro Verde onde os Maias tinham um resort arqueológico. Explico-me: marido e mulher, ambos com o mesmo apelido, davam aulas na faculdade e a estadia dos alunos era organizada entre os dois, ou entre os três se contarmos o cão, Dragendorff, que fora buscar o nome a um arqueólogo famoso do qual nenhum de nós ouvira falar.
O cão era um enorme pastor alemão que permitia que a dupla estacionasse o jipe, um velho Land Rover, e o deixasse de janelas abertas com pastas e papéis e mais o que se lembrassem à mão de semear. Ninguém se atrevia sequer a espreitar se não queria levar com a fúria de Dragendorff, Drago para os amigos e Draguinho para os momentos de mimo com a dona e que nos punham sempre a rir, pois era como chamar Fifi a um general.
Há uns anos tinha passado a única novela que vi com agrado e que me deixava pena quando perdia episódios: o Bem-amado, momento alto da representação do magnífico Paulo Gracindo no inesquecível Odorico Paraguáçu, talvez a melhor composição de intérprete a que já assisti em televisão.
O prefeito Odorico tinha um sonho: inaugurar o cemitério de Sucupira. Legítimo, é claro, mas para isso tinha que morrer alguém e não havia meio, apesar de muitos esforços.
Ora a malta lá em Castro Verde deu com um cemitério romano que nos pôs a imaginação a funcionar e proclamámos o prof. Maia como Prefeito Odorico; um dos nossos colegas, que passava a vida com a cabeça no ar, ficou o Dirceu Borboleta, outra personagem da novela que andava com uma rede de borboletas na mão por aqueles campos. A plêiade de arqueólogos de Castro Verde contava ainda com um aspirante a jornalista que ficou a chamar-se Neco Pedreira como o jornalista da novela. Eu e outras duas éramos as irmãs Cazajeiras e cada um tinha o seu papel naquela novela da vida real que marcou para sempre aquelas duas semanas.
Todos os dias fazíamos o trajecto de Castro Verde até ao campo e regressávamos ao fim da tarde, deixando os materiais usados no campo, devidamente acondicionados. Menos o teodolito que andava a passear connosco e com o qual os Maias se preocupavam imenso pois era emprestado, não me lembro por quem. Todos aprendemos a espreitar pelo teodolito, nem todos chegámos a perceber como se usava efectivamente.
Os almoços eram na cantina das Minas de Neves-Corvo, arranjo previamente feito através da Câmara Municipal e que nos proporcionou momentos únicos como descer a um dos poços, aventura que só quatro de nós aceitaram. Adorei!
Os cuidados com o teodolito não eram esquecidos nem ao almoço, pois levávamo-lo connosco para a Mina.
Era véspera da Páscoa e já fazia calor; embora cada um tivesse levado impermeável, andávamos todos de manga curta e uma de nós tinha uma t-shirt com umas belas palmeiras que, para além de lhe fazerem as mamas ainda maiores, tinha escrito em letras que se iam desfazendo como ondas: Vive l'ête. A t-shirt era velhota, estava meia desbotada e o chapelinho do Verão estava quase desaparecido.
Na fila para o almoço misturávamo-nos com o pessoal da mina, a arrastar o teodolito que passava de mão em mão, quando um dos mineiros fixou o peito da rapariga e disse:
- Vivelete? Esse é o sê nome? Que fêio… sês pais nã tinham outro?
Lá se foi o teodolito, naquele momento nas mãos de Dirceu Borboleta que o deitou ao chão com tanta gargalhada. Escusado será dizer que a Vivelete ficou com o nome gravado a ferro e fogo e nunca mais se separou dele.
Foi o melhor trabalho da faculdade e na altura ainda pensei na Arqueologia como uma carreira a seguir, e cheguei a escrever ao Prof. Indiana Jones a pedir integração na sua equipa mas, vá lá saber-se porquê, nunca tive resposta.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Não querem pagar?

Era uma vez um casal de reformados que recebia mensalmente uma choruda transferência por conta da reforma que dava para pagar a prestação da casa e fazerem uma refeição decente por dia; as outras eram sopa e restos. O casal de velhos gastava em drogas cerca de metade da reforma, ainda por cima legais, com receita e tudo. De vez em quando mudavam-lhe as doses, aumentava a tarifa, e não podiam dar largas ao consumo, pela simples razão que a farmácia não fia.
Um dia foram pagar o Imposto Municipal sobre Imóveis, IMI para os amigos, e o senhor das Finanças informou-os que estavam isentos por via do velho ter sido reformado por invalidez. Os velhos ficaram todos contentes e até diziam que tinham trabalhado arduamente a vida inteira, de tal forma que o velho passava a vida no hospital em operações, para o que tinha contribuído em larga escala o facto de ele ter passado anos em pé, com grande frequência quase vinte e quatro horas seguidas, mas ninguém sabia se assim era ou não. Tanto mais que o velho teimava, de vez em quando, a ocupar uma cama do hospital e a fazer o doutor cirurgião perder horas a operá-lo. Teimosia de velhos, já se sabe.
Numa ocasião estavam os velhos em casa, sem fazer mais nada se não contar o dinheiro como de costume, e porquê? porque tinham muito com certeza e nunca acabavam de o contar!, sem contribuirem para a sociedade, o que poderiam fazer com facilidade, bastava o velho largar a bengala e tomar umas aspirinas para se pôr a andar, mas enfim, quando são interrompidos pelo toque da campaínha. Era o carteiro que lhes entregou uma carta das Finanças que dizia que esperavam por eles lá na Repartição para pagarem o IMI de 2007 até agora.
O casal de velhos, não contente com o que já tinham, não cansados da dinheirama que gastavam todos os santos meses em droga, de barriga cheia de sopa e torradas, não fizeram mais nada, puseram-se a caminho a incomodar o Senhor das Finanças com reclamações sobre o pagamento que, lata das latas, achavam injusto!
Injusto é não lerem o Diário da República para se informarem que a lei mudou e, para além disso, ainda obrigarem as Finanças a gastar dinheiro em cartas, isso sim, é injusto! Mas os velhos, ávidos e cheios de soberba, ainda foram ver se o barro se agarrava à parede!
Quando lá chegaram estranharam a fila ser composta por vários outros velhos, alguns também de bengalas e muletas. Contou-se depois que houve até quem chorasse a perguntar como ia pagar não sei quantos mil euros de IMI de 2007 até 2011. Lessem o Diário da República e nada disto acontecia! Ora esta! Mas não, a velharia anda é nas farmácias, nos hospitais, nos centros médicos, cambada de viciados, e depois queixam-se!
Sugiro aos Senhores de todas as Finanças que afixem um anúncio nas suas repartições com a seguinte informação:
Não querem pagar? MORRAM!

domingo, 6 de novembro de 2011

Herói

Leio o Âncoras e sou levada por uma espécie de ciclone da Dorothy, não até Oz, mas ao Sobral da Adiça. Subo a rua Longa, como fiz tantas vezes, da casa dos meus avós até à casa do Tio Raposo que nunca vi noutra posição senão deitado.
Para mim ele é tão velho como o mundo, tão velho que já não envelhece mais. Sempre o conheci assim, velho, deitado num quarto escuro onde nem os poderosos raios de sol escaldante do Verão alentejano se atreviam a entrar. Ao pé do Tio Raposo falava-se baixo e baixava-se a voz quando se falava dele, num tom que parecia a voz de joelhos.
O Tio Raposo tinha estado na guerra e a guerra ficara-lhe com um braço e dera-lhe em troca uma doença que o obrigava a estar deitado. Estava assim há muitos, muitos anos, mais de cinquenta diziam. Eu não fazia ideia de quanto eram cinquenta anos, sabia que eram muitos, mas não conseguia aperceber-me da dimensão de meio século. Porém, isso só dava mais credibilidade à minha certeza que ele era muito velho.
Uma prima minha, pouco mais velha que eu mas que morava na aldeia e conhecia as dinâmicas de toda a gente, levava-me à casa dele quando ninguém suspeitava e falávamos com ele.
O facto dele falar foi uma surpresa não sei porquê. E supresa maior eram as coisas que contava: o frio, o peso da roupa, capotes e botas, a chuva que não parava e era tanta que entrava, passava pela carne e pelo sangue e saia do outro lado, a falta de comida e como se matavam pessoas pela posse de cascas de batatas, o melhor que se encontrava para comer. O receber uma carta, milagre que ele nunca recebera. E a perda do braço.
Hoje, quando vejo filmes passados na I GG e os realizadores nos metem nas trincheiras, olho a ver se vejo um braço, um braço a gritar de dores no meio dum lamaçal de sangue, cujo dono nunca aprendeu a viver sem ele, apesar de ter vivido até depois dos oitenta anos, como se se mantivesse vivo na esperança que o braço voltasse.
Diziam que o Tio Raposo tinha gangrena, que eu associava a uma gripe grave e nas primeiras visitas não me sentava na cama com medo do contágio. Depois percebi que a minha prima, que o visitava com frequência, era mais que saudável, logo, aquilo não se pegava e passei até a visitá-lo sozinha. Para mim era uma aventura subir a rua, entrar às escondidas naquela casa e sentar-me a ouvi-lo, nem que fosse só para me perguntar pelos meus pais. Ele tinha estado na guerra e tinha regressado, podia estar numa cama que fedia, mas se estivesse num trono era a mesma coisa porque ele era um herói. Tinha trazido a tal de gangrena, doença da França com certeza, pois aqui eu nunca ouvira falar dela. Nunca soube exactamente o que era a doença que mantinha aquele homem na cama, magro que nem um cão, amarelo e cheio de febres altas que iam e vinham ao sabor duma permanente inconveniência e mantiveram este ciclo ao longo de mais de cinquenta anos. Quando estava sozinho em que pensaria? Que pecados lhe assomariam à ideia que pudesse ter cometido e que justificassem aquela vida?
E ela? Eu pensava muitas vezes nela, a mulher com quem casara antes da viagem para parte incerta e por razões desconhecidas. Ela que era uma jovem alegre e bonita como dizia a minha avó e se viu transformada em sombra, sem vida, nem própria nem alheia, com uma grilheta a um morto-vivo que o destino colocou na sua vida, um morto-vivo que ela primeiro adorara e depois aprendera a suportar como vingança da vida por qualquer coisa que ela fizera mal e que não fazia ideia do que seria.
Eram dois caminhos perdidos por onde a vida não passava à décadas.
Pelo meu lado, sentia uma enorme pena dela, vontade de chorar quando lhe via os olhos sempre lacrimejantes, as rugas tão profundas como tristes e por várias vezes deixei mesmo as lágrimas cair quando ela se punha na cozinha e dizia que ia fazer certos cozinhados porque eram os favoritos dele. Dava-lhe de comer e ele sorria, ela retribuia e nos sorrisos havia palavras que me escapavam.
Um dia recebemos um telefonema a dizer que o Tio Raposo morrera. Apesar de o ver poucas vezes e sempre naquele ambiente lúgubre, senti que o mundo, pelo menos o meu mundo, perdera um herói.

Eu não entro em grupos

Voltei a andar de táxi. Já não o fazia há meses mas voltou a acontecer ser conduzida por alguém que parece ter acabado de sair duma soup americana dos anos 70.
O rádio ia ligado e o assunto era a crise. Agarrou o mote e repetindo que era preciso poupar e que ele não entrava em grupos, foi contando como era apologista de se abrir uma ou outra excepção, por exemplo para o filho de 25 anos e que ainda morava em casa. O dito filho tinha sido alvo dum presente de quase 300 euros, um gadget electrónico que ele não explicar bem qual era, mas a culpa não era dele, que ele não entrava em grupos, a culpa era da mulher...
Mais, ele já a tinha avisado que era preciso poupar, mas ela... ela não o ouvia e de vez em quando chateavam-se porque ela parecia que não ouvia notícias e não via como o mundo andava, mas ele, ele não ia em grupos, mas infelizmente teve que engolir quando ela comprou o desumidificador e o ar condicionado, que só foi ligado uma vez no Verão. Aí resolvi dizer qualquer coisa e manifestei a ideia que, apesar de fazer mal, mas o ar condicionado sabe bem e fui esclarecida que não se tratava dum equipamento portátil qualquer, mas duma instalação central que dava frio e calor à casa toda, ele próprio o tinha escolhido e supervisionado a instalação, que isto é preciso andar em cima da malta que instala as coisas e ele era de olho vivo e não ia em grupos.
Fiz a minha voz de surpresa e disse que me parecia ter ouvido ele dizer que fora a mulher a comprar o ar condicionado ao que ele esclareceu, esquecendo-se do que tinha dito antes, que a mulher queria um e ele concordara imediatamente; para terminar a conversa ainda me perguntou, afinal, para que serve o dinheiro? Para poupar?

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Cockpit girl

Estou a fazer um trabalho sobre o impacto da adesão ao Processo de Bolonha no quotidiano das bibliotecas universitárias. Decidi contactar 3 universidades em cada um dos quase 30 países que assinaram a Declaração e tenho andado nesta odisseia que se me afigura um trabalho de Hércules mas com evidentes vantagens e momentos que me fazem lembrar as duas caras de Janus: de um lado está a dificuldade em ler russo, ucraniano, arménio ou grego; a metodologia passa com frequência por um processo de adivinhação, em que procuro na amálgama de caracteres uma arroba e sei que ali está o endereço electrónico… ou pelo menos, um endereço electrónico. Por outro lado, está a magia desses mesmos caracteres, belíssimos, a mostrarem a minha gigantesca ignorância e a levarem-me a questionar repetidamente sobre o que se perde por não se dominarem línguas. Cresce em mim uma vontade de, como diria o V., comprar livros e um dicionário e ir lendo devagar, memorizando palavras, construindo frases, aprendendo.
Depois deste levantamento, ou melhor, durante, pois ainda vai a meio, cresce-me a sensação que o mundo não é grande, até está ao alcance dos marinheiros que se fazem a ele, mas está cheio de descobertas a fazer, descobertas essas que não são segredos, estão até bem à vista, sendo apenas preciso querer vê-las.
Nesta maratona não busco só os contactos das bibliotecas, procuro o nome dos responsáveis, para lhes escrever directamente, o que considero importante para uma taxa de feedback de sucesso. Uso o tradutor do Google como bengala pois, se Universitat d’Andorra não trás qualquer problema de leitura, embora seja em catalão, já თბილისის სახელმწიფო უნივერსიტეტი torna díficil perceber que nomeia a Universidade Estatal de Tbilisi na Geórgia. E foi assim que do Azerbaijão à Holanda, da Arménia ao Vaticano, passei pela Polónia e encontrei o director duma biblioteca universitária escolhida ao acaso: Blazej, de seu nome.
A alegria foi grande de tal forma que parei a pesquisa, usei o Google images para verificar que era aquele mesmo e escrevi-lhe em seguida.
Conhecemo-nos há muitos anos num congresso de bibliotecários em Creta e no regresso voámos juntos até Atenas, onde ele regressou à Polónia e eu apanhei um voo para Amesterdão, depois para Frankfurt e finalmente para o Porto, tudo para conseguir estar na Invicta a tempo de abraçar um primo muito querido no dia do seu casamento.
Blazej estava cansado de andar de avião mas nunca se tinha sentado no cockpit, conversado com um comandante em pleno voo e nunca tinha visto o horizonte, o céu e a terra daquela janela privilegiada onde poucos têm acesso. Ao contrário, eu já o tinha experimentado várias vezes e a minha grande vontade e curiosidade genuína já me tinham levado a levantar voo na cabina bem como a pilotar um helicóptero. Ainda me falta fazer uma aterragem no cockpit, o que depois do 11 de Setembro torna as coisas mais difíceis, mas é preciso não desistir e acredito que um dia lá estarei.
Sentados sob o mar grego a furar o céu, levantei-me, falei com uma hospedeira, disse-lhe que o meu amigo adorava ver o cockpit e pedi a devida autorização que foi concedida. Poucos minutos depois a hospedeira dirigiu-se ao meu companheiro de viagem e disse-lhe que o comandante o convidava para o cockpit. Quando regressou vinha com lágrimas nos olhos, feliz e agradecido.
Escrevemo-nos muitas vezes, ele chamava-me cockpit girl, eu sorria procurando palavras em inglês para lhe responder. A vida e os problemas informáticos fizeram-nos perder o contacto. Há anos tentei encontrá-lo na Polónia, mas não me lembrava do apelido e só o nome próprio não foi suficiente.
Agora, ao virar duma esquina, leia-se página da internet, aqui está ele.
E quando pensava que ele não se lembrava de mim, sou surpreendida pela mensagem de resposta onde ele pormenoriza a viagem de avião e outros momentos em Creta.
Tenho que sorrir.
Há dias falei dele aqui, a propósito duma igreja em Hania, cuja descoberta e visão me enriqueceram para toda a vida. Na mensagem de resposta pede-me uma carta longa, a contar tudo. Vou escrevê-la, pois claro, mas devagar, bem devagar, para prolongar este momento tão feliz e porque a vou escrever em polaco!
Cada vez mais sinto que quando nos deitamos ao trabalho, trabalho que dá prazer, somos recompensados, e quando a recompensa calha em vir sob a forma de amizade, de reencontro, de partilha, de saudade morta, é a magia a acontecer na nossa vida.
Dziękuję, Blazej.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Saber ouvir

Do primeiro ano de faculdade recordo uma personagem que nos deu horas perdidas de ditados sobre Como Ouvir. Chamava-se Hamilton Costa e os normais braços e pernas dos seres humanos pendiam-lhe mas como se tivessem sido mal colados e ameaçassem descolarem-se a todo o instante. Escusado será dizer que só não adormecíamos porque nos íamos rindo à socapa, convencidos da gigantesca inutilidade da prédica. Conseguimos fazer furar alto e bom som o riso acumulado no dia em que um aluno de outra turma espreitou pela porta e começou a fazer sinalefas ao Roque Jesus. Hamilton Costa olhou-o por detrás dos seus épicos óculos, parou o ditado, perguntou-lhe o que queria e até ele teve que se rir com a resposta, dita em tom solene, sério e que escangalhou a turma:
- Desculpe professor, queria dar só uma palavrinha ali ao menino Jesus.
Foi o caos. A vontade de rir reprimida ao longo de semanas saiu como água de barragem com comportas abertas.
A inutilidade dos conselhos e sugestões dados naquelas aulas, veio diminuindo ao longo da vida e hoje tenho imensa pena de aquela matéria não ser obrigatória na vida.
A quantidade de gente que responde antes de se terminar a pergunta, como se as conversas fossem concursos de televisão onde ganha quem carregar num botão mais depressa que os outros, deixa-me doida.
Além disso há outra secção a que pertencem aqueles a quem perguntamos alhos e respondem bugalhos: ah, estavas a falar do tempo? Pensei que te referias à pintura contemporânea…
Depois ainda há as pessoas a quem perguntamos uma coisa cuja resposta se baliza entre sim ou não e elas enveredam por um monólogo onde vão falando de tudo, mas resposta ao que se perguntou, nada.
É claro que há aqueles que não ouvem porque lhes dá jeito, como acontece mil vezes com o meu querido filho…
Saber ouvir é, de facto, uma virtude. Pode dar-nos tempo para melhor preparar a resposta, se a não soubermos, por exemplo. Pode evitar conversas surreais onde se pensa que o interlocutor concorda numa coisa, mas afinal não, porque julgou que era, mas no fim era sim, mas ao contrário! Pode evitar percas de tempo. Pode evitar explicações desnecessárias. Pode evitar que se repita a mesma coisa dez vezes. Pode evitar embaraços.
Saber ouvir é uma arte que é incompreendida, não praticada e desprezada, como tantas vezes acontece com qualquer arte.