quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A varinha mágica

Talvez tivesse sido um rádio. Com o botão de lado para girar e procurar as estações, todo ele cor-de-laranja.
Tento encontrar a prenda que mais gostei de receber desde sempre e sim, fico-me pelo rádio, oferta de Natal da festa do trabalho do meu pai, que me tirou o folêgo e me fez perder fome, sede e sono, naquele encantamento que as crianças conseguem sentir e, infelizmente, se vai perdendo ao longo dos anos.
Dar é mil vezes melhor que receber porque quando damos recebemos sempre! O sorriso e a satisfação da pessoa presenteada é uma prenda que me aquece o coração como poucas coisas.
Em adulta recebi pouquissímas prendas e talvez por ter tido uma vida de casada onde as ofertas eram mais raras que animais em vias de extinção, o que, confesso, me dava alguma inveja de certas amigas cujos maridos as mimavam nos anos, no Natal, nos aniversários de casamento e em várias ocasiões ao longo do ano, talvez por isso, habituei-me a não receber ou, em caso de oferta, por norma era qualquer coisa de utilidade: uns copos, um tabuleiro, uma peça de roupa.
Ora a última prenda com nome de prenda, uma coisa que eu ame mas que não precise utilitariamente digamos assim, foi-me dada há cerca de dois ou três anos por mão amiga, uma edição muito especial.
Mantenho o livro dentro do envelope e, quando estou sozinha, abro-o e folheio-o. Poucos foram os que lhe puseram a vista em cima, Lawrence não é para qualquer um.
Ontem o rádio cor-de-laranja passou, ao fim de cerca de quarenta anos, para segundo lugar e o primeiro foi tomado por um objecto fantástico, trazido de Londres pelo meu filho.
Liguei à minha irmã a contar-lhe e, enquanto ela avançava com a possibilidade de ser uma réplica da coroa da Rainha de Inglaterra eu, em felicidade total, disse-lhe que não, que era uma varinha mágica. Da Moulinex? Perguntou a tonta... Não... do Dumbledore!, respondi eu.

Eu própria me surpreendi com a minha alegria quando recebi esta lembrança. O meu filho, sabedor e conhecedor da mãe e da queda dela por feiticeiros, sabia exactamente o que ia adorar.
Reconheci o entusiasmo de menina na manhã de dia 25 de Dezembro quando se abria a prenda - repito, a prenda, não as prendas - ou do dia de aniversário.
A última vez que tinha sentido algo assim foi com a oferta de umas botas, objecto utilitário, é certo, mas de feição muito pessoal e capricho satisfeito pela minha irmã. As botas são o primeiro item da lista de coisas que deixarei quando morrer e, atendendo aos avanços da tecnologia, quem sabe um dia poderão falar e partilhar as aventuras que passámos juntas e os muitos milhares de quilómetros que fizemos.
A varinha mágica é objecto de puro prazer que me fez sentir criança, uma criança grandalhona e já mãe, de um filho que sabe ser cúmplice e que lhe faz surpresas... mágicas!

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Eu gosto é do Verão...

Dizem que os fiordes são lindos de se verem. Acredito, mas nunca vi estas impressionantes formações naturais do planeta; também nunca vi o sol da meia-noite, embora já tenha andado pelas ruas à meia-noite sem ser necessário acender qualquer luz, no círculo polar ártico.
As línguas, tão saborosamente diferentes, como se fosse uma música nova que estamos a ouvir; a gastronomia, os costumes, a roupa, as casas, um tudo enorme de que me lembro nestes dias chuvosos em que não é sequer Inverno.
As dores de cabeça são frequentes neste ambiente quente e húmido, qual Macau à beira do Tejo que se deixa cair no mar.
Decididamente não gostaria de viver num local onde os dias são pequenos e a escuridão anda sempre a espreitar, numa espécie de brincadeira com um frio danado.
No entanto há quem viva nestes locais e adore. Penso também que, com a minha capacidade de adaptação, me adaptaria a qualquer sítio... desde que houvesse praia, penso logo a seguir...
Nada disso! Quero afastar este preconceito metereológico-geográfico e pensar que podia viver em qualquer local do mundo. Sim, eu sou capaz!
Quero acreditar nisto, mas olho pela janela, vejo a noite a aproximar-se às quatro da tarde e, instintivamente, entristeço. 

Mind the gap

O meu filho está em Londres.
Com a namorada debaixo do braço, foram de visita a uma amiga.
Sempre lhe ansiei esta vida, um dia aqui, outro ali, absorvendo tudo o que encontre pelo caminho, respeitando as diferenças e aprendendo com elas, falando várias línguas, conhecedor do mundo, se é que o mundo pode ser conhecido.
Desde pequeno que lhe incuto mais do que o prazer, a necessidade de viajar e é nestas pequenas coisas que vejo como ele cresceu, como poupa para as deslocações, como não se importa com o local onde fica, desde que vá.
Do grupo de quatro ele é o único que já tinha estado em Londres e este voltar é maravilhoso pois dá-lhe a dimensão que os turistas nunca vão ter, a calma de rever, o prazer de surpreender os outros, a liberdade de escolher museus, monumentos e locais, por saber, sem ser de ter ouvido dizer.
Eu fico eufórica, mais do que se fosse eu a lá estar, padecendo de um estado que me faz sorrir o tempo todo, e mais ainda quando ele liga a contar o que fizeram e a dizer que estão bem ou a mandar fotografias de sitíos que sabe que eu adoro ou a fazer piadas que apenas nós percebemos.
Sempre lhe quis esta vida e vibro por ele, para que a continue a gozar desta forma, sem esquecer a faculdade ou a família. Um dos contactos de ontem era para saber o tamanho da roupa de um primo... disse-lhe que se deixasse de prendas, como quem diz ao céu para parar de chover. Somos iguais e um dos prazeres de ir é poder trazer uma coisa qualquer para os outros que cá ficaram, não tanto para saberem que nos lembrámos deles, mas mais para saberem que gostávamos muito que tivessem ido connosco. 

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Opilca, precisa-se!

O casaco verde alfaçado faz-me reparar na mulher que vai sentada um banco ao lado no metro. É giríssimo e fica mesmo bem em cima do vestido branco, leve, que transporta o Verão.
Só quando nos levantamos para sair na última paragem é que reparo que leva um braço ao peito, o que não a impede de desatar a correr pelas escadas acima, mala pendurada no braço bom, passar pelas cancelas e... estatelar-se ao comprido no chão.
A queda foi aparatosa, toda ela a escorregar um bom par de metros como se brincasse na neve, pernas no ar a deixar ver o fio dental e aquilo que parecia a Mata do Bussaco!
Os gritos eram genuínos, as lágrimas corriam-lhe pela cara, o braço queixava-se. A mão do braço bom no chão ajudou-a a levantar-se, tendo primeiro ficado de gatas, a saia do vestido em cima das costas.
Várias foram as pessoas que a ajudaram, todas sem conseguirem conter os lábios, que teimavam em abrir-se num sorriso, eu incluída.
Não há volta a dar, estas situações são sempre gregas, trágico-cómicas, tão dolorosas física como psicologicamente. 

Uma gargalhada com vinte anos

Uma desilusão no início de um fim-de-semana passado com uma pessoa muito especial.
Uma grande expectativa que não foi concretizada, mas que não abalou os dias que a M., o marido e o filho passaram na minha casa.
Quando se foram embora deixaram-me cansada... cansada de rir, cansada de conversar, cansada de boa-disposição... quem não gosta de estar assim cansada?
Anseio por lhe devolver a visita e voltarmos a rir juntas, coisa que fazemos há vinte anos.
Não é para qualquer um e eu sinto-me afortunada com esta amizade.