quinta-feira, 31 de maio de 2012

Tatuagem


Lembro-me de ter lido um policial sobre um lunático que colecionava pele humana com tatuagens. A polícia descobria cadáveres a que faltavam pedaços de pele, uns maiores outros mais pequenos e em diferentes locais do corpo, sem perceberam porquê. Finalmente concluíram que a pele arrancada correspondia às tatuagens que as pessoas tinham. Não me recordo como apanharam o criminoso.
A verdade é que as tatuagens sempre me fascinaram embora, verdade seja dita, a ideia de existirem loucos de tal estirpe também me arrepia.
Quando o Duarte nasceu pensei em fazer uma para marcar aquela fronteira de vida. O pai do Duarte opôs-se terminantemente! Alegou toda a espécie de razões desde as agulhas infectadas até à possibilidade de um dia eu me tornar numa criminosa que seria apanhada num qualquer aeroporto graças à denúncia da tatuagem que não poderia apagar…
Os anos foram passando e o fascínio não diminuía, antes pelo contrário.
Ao ler Vodka fiquei a conhecer Lev, tatuado das unhas dos pés até à raiz do cabelo e cuja descrição do corpo vestido de tinta, e a sua razão de ser, me deixaram a um passo de me tatuar.
Há dois ou três anos, jantei com o meu sobrinho ao lado de um casal cujas tatuagens quase me tiraram o apetite por serem tão belas e não conseguir desviar o olhar dos braços do homem. Estrangeiros, iam-se metendo com o garoto que estava igualmente hipnotizado pelos desenhos pintados a cores na pele daqueles vizinhos tão simpáticos.
E assim fui andando, sempre a invejar novos e velhos que se me punham diante dos olhos com tatuagens, umas sem graça e outras absolutamente maravilhosas.
Agora, no Dia da Mãe, o Duarte levou-me a um tatuador e como prenda marcou-se uma sessão que teve lugar uma semana depois.
Sempre soube o que queria tatuar: um objecto em honra das pessoas pelas quais sou capaz de fazer tudo na vida. Quando o Duarte nasceu era um, agora tatuei quatro.
À hora marcada estávamos os dois, eu nervosa a pensar na dor e na quarentena que teria que passar sem praia, em pleno Verão. Seja!
Lá me mandaram entrar e em simultâneo perguntaram-me se não me importava de ser entrevistada. Estranhei o pedido e pedi explicações. Indicaram-me duas jovens que ali estavam, de sorriso aberto, e que se apresentaram como alunas de Antropologia que estavam a fazer um trabalho sobre tatuagens.
Segundo elas tinham deixado os contactos em todos os tatuadores de Lisboa e arredores para serem contactadas quando aparecessem mulheres a quererem ser tatuadas. Já tinham inúmeras entrevistas com homens, mas mulheres zero. Eu importava-me? Não, claro que não, venham daí!
Entrámos, o Duarte sentou-se num banco e elas no chão. O tatuador desenhou o meu pedido e estampou-mo pedindo para confirmar ao espelho se era mesmo assim. É mesmo assim, força!
Os primeiros minutos foram dolorosos… a hora e meia seguinte passou-se bem, entre a entrevista com a entrevistada deitada, o filho a rir à socapa, o tatuador, estrangeiro, a dizer que estava em Portugal a fazer Erasmus há mais cinco anos e as miúdas a quererem saber tudo, porquê aquele desenho, quantos anos tenho, o que faço, é a primeira tatuagem, quero fazer outras, quanto tempo me levei a decidir, 18 anos?, o meu filho também tem, não? então a mãe faz e o filho não, ai que engraçado.
Saímos comigo com a perna enroladita e com a lembrança repetida de que durante 40 dias não podia apanhar sol naquele local. Senti imediatamente uma solidariedade com Moisés…
O desenho: quatro balas, um sinal do que levará como prenda quem se meter com certas quatro pessoas. Mesmo que me arranquem a pele… 

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Exaustão


Trabalhei uma semana seguida, de sábado a sábado. A conferência foi um sucesso, embora extenuante. Sábado despedi-me já mal me tinha nas pernas, mas ainda arranjei força para correr, leia-se carregar no acelerador, para ir ver um jogo do Duarte lá para o Seixal. Ganharam.
Parecendo não saber andar como as pessoas normais, desatámos a correr, ele sentado ao meu lado, eu de volante na mão, jantámos nos chamados três tempos, corre, corre, corre e deixei-o à porta do Rock in Rio. Vê lá, se precisares de boleia diz… e eram duas e meia da manhã, quando ele disse. Ouvi entrar uma mensagem no telemóvel. Pods vir buscar? Ensonada teclo uma letra S. A resposta não se faz esperar: Ok 4,30h
Mecanicamente ponho o despertador para as 4.15h, tão mecanicamente que ficou nas 4.15 mas da tarde. À hora marcada acordo com nova mensagem e vejo que estou na dita hora marcada mas ainda na cama. Levanto-me a encalhar nas coisas e acto reflexo meto-me na banheira, sem esperar sequer que a água aqueça… o frio fez-me acordar, saltei da banheira a pensar que não se justificavam banhos áquela hora, enfiei um vestido de andar por casa que andava aos pés da cama aos rebolões, os chinelos de enfiar no dedo e saí espavorida. Pelo caminho mais mil nocentas e setenta e nove mensagens que deixei entrar sem ler, sabendo que era ele a querer saber onde estava… finalmente lá cheguei ao local combinado. Dei uma apitadela breve a dois casalinhos abraçados que se protegiam do frio e que correram para dentro do carro.
Nessa altura já eu estava completamente desperta e eles cabeceavam, afinal não foi tão bom como pensávamos, devíamos ter vindo noutro dia, espero que o festival não sei do quê seja melhor.
Chegámos a casa e o Duarte atacou literalmente uma plengana de grão com massa, atum e ovos cozidos, deixando-a pronta para ser guardada, de tão limpa que ficou.
Às 8… toca o despertador. Completamente baralhada sem perceber que dia era, tomei banho e vesti-me para ir trabalhar. Quando me penteava lembrei-me que era domingo e que combinara com uma amiga ir fazer uma caminhada… ri-me sozinha, despi-me e enfiei roupa apropriada e fui buscá-la.
Fizemos a caminhada, cerca de seis quilómetros, coisa pouca que para grande chegava o cansaço, engoli o almoço na casa dos meus pais e, muito lentamente, ao contrário do habitual, conduzi até casa onde me atirei literalmente para cima da cama e dormi a tarde toda. 

terça-feira, 22 de maio de 2012

Novas inscrições


Quando leio aquelas mensagens com listas de disparates que as pessoas dizem, farto-me de rir mas nem sempre acredito naquilo. Agora mudei de opinião. Com tanto evento já organizado nunca tinha participado em telefonemas tão ricos. Aqui ficam mais dois exemplos.

Um senhor liga a pedir informações sobre o colóquio que estamos a organizar. Parte da conversa foi assim:
 - …
- …
- Então e isto tem tradução?
- Não, lamentamos mas não disponibilizámos tradução simultânea
- Simultânea? Isso é que era o bonito… as pessoas a falarem e outros a traduzirem por cima, mas que grande confusão… não, eu digo tradução, como se vê fazer na televisão, sabe?, um fala e espera um bocadinho e alguém traduz, também não tem desta?
- Não, lamentamos muito, mas não há qualquer tradução
- Então, estes estrangeiros vão falar p’ro boneco, isso lhe garanto eu
- Talvez não… sabe há muitas pessoas inscritas que falam línguas
- Ah bom, olhe eu cá não falo, falo português e já chega… 
_____________________________________

Uma senhora liga a pedir informações sobre o colóquio, manifesta interesse em inscrever-se e pergunta como o poderá fazer. A conversa foi assim:
- Por norma as inscrições fazem-se através da página da internet da Universidade
- Ah, e como é que eu lá chego?
- Tem computador?
- Sim, tenho
- A senhora entra na internet e depois pesquisa a página da Universidade
- E como entro na internet?
- Quando a senhora liga o computador o que lhe aparece? O Google? Entre pelo Google.
- A senhora decida-se… entro pela universidade ou pelo Google?
- Primeiro pelo Google… depois escreve o nome da universidade e clica em cima do nome e aparece-lhe a informação sobre o colóquio
- Ah, está bem…
- E depois tem um quadrado que diz ‘Inscreva-se aqui’… mas se a senhora me quiser dar os seus dados, eu posso inscrevê-la…
- Ah, quero sim…
A senhora diz nome, morada, etc. Às tantas pergunto:
- Tem e-mail?
- Tenho sim
- Muito bem, então vai receber uma mensagem no e-mail com as referências multibanco para pagamento.
- Mas no e-mail do computador ou no do telefone?
- Se a senhora tem um telefone ligado à internet pode receber no telefone
- Há telefones ligados à internet? Não sabia…
- Pois… há, mas…
- Mas olhe, eu não sei ver os e-mails no telefone, por isso mande a tal mensagem para o e-mail do computador, sim?
- Com certeza, fique tranquila, vou enviar em dois minutos
- Então obrigada, e não se engane… não esqueça que é para o e-mail do computador!

A invenção do xadrez


Num feudo distante decorria uma recepção a um rei vindo de longe.
A rainha estava a fazer uma demonstração equestre mas o cavalo amuou, deu um pinote e atirou com a real figura.
Caída no chão, com as reais saias levantadas e a coroa aos rebolões fez o rei que estava de visita desatar a rir; o clero que o acompanhava bem tentou manter a postura, mas só conseguiram aguentar uns minutos até babarem as sotainas com tanto riso, enquanto os nobres tremiam à gargalhada.
Logo outros cavalos entraram em acesa discussão condenando uns e aprovando outros, a atitude da cavalgadura da rainha. Da mesma forma, alguns bispos se mantiveram sérios sem achar graça ao sucedido e uns quantos nobres empoleiraram-se nas torres de menagem em posição de guerra, pois que outro nome tinha aquela situação?
Começaram a espaideirar e acabaram por deixar cair uns pedregulhos que o povo aproveitou para empedrar o chão, fazendo uns distintos quadrados brancos que se misturavam com quadrados pretos.
A rainha levantou-se, berrou o meu reino por um cavalo!, e começou o jogo de xadrez. 

quinta-feira, 10 de maio de 2012

A inscrição


Estou a organizar um evento internacional. Por mim, e por entre mil coisas, passam também pedidos de informação. Registe-se o último, com nomes e títulos de comunicações alteradas que, a bem da verdade, nada têm de interesse comparados com o diálogo que se estabeleceu. Chamemos ao meu interlocutor, Sr. José Silva.

- Boa tarde, quero informações sobre o colóquio e as visitas aos monumentos
- Com certeza, o colóquio abre dia 10 no Museu e continua no mesmo local dias 11 e 12. Dia 13 as sessões decorrem em …
- Isso já eu sei, porque tenho aqui o programa, mas eu queria perceber o que é que se vai passar, percebe? Olhe por exemplo aqui no primeiro dia… o primeiro dia é de graça, verdade?
- Sim, a entrada é livre
- Pois, então diga-me lá, o Prof. X vai dizer o quê? Este título Marquês de Pombal e o seu tempo… é exactamente o quê?
- Sr. José eu não sei… mas sugiro a inscrição para que possamos ouvi-lo, o Prof. X é sempre agradável de ouvir e…
- Mas se eu não sei o que vão falar também não sei se me hei-de inscrever, ‘tá a ver?
- Mas é por isso que os títulos nos dão uma pista… são um resumo resumidíssimo da comunicação
- Da comunicação?
- Sim, da palestra
- Ah, a palestra, sim… mas olhe cá… este Antunes por exemplo, desafios técnicos da concepção da… isto é o quê? Ele vai dizer o quê? Que desafios são esses?
- Sr. José são os desafios da construção, os…
- Mas isso minha senhora, um profissional sabe ao que vai! É o trabalho dele, não há cá desafios!
- Mas ele refere-se também ao processo de transporte do local onde foi feita a obra para o sítio de instalação final, a montagem, essas coisas
- Ah bom… isso assim é outra coisa, que aquilo não deve ter sido fácil…
José Silva, do outro lado do telefone, lê os títulos e nomes dos conferencistas devagar, perguntando o óbvio:
- Portanto, António Gomes fala sobre a Conjuntura Económica na Passagem do Século … Francisco Marques, A sociedade plural em 1900…
Os nomes e títulos sucedem-se. Por fim diz:
- Então e agora diga-me cá uma coisa… esta Maria Antónia… o que é que a senhora me pode dizer sobre ela?
- Bem… é professora na faculdade de direito…
- Ah… então não é a mesma… sabe eu conheci uma Maria Antónia há muitos anos… mas não, Direito, não é mesma…
Eu, atalhando:
- Sr. José, o senhor tem um email para onde eu lhe envie o processo de inscrição?
- Olhe, não tenho e nem quero ter - ressalte-se que foi o único momento em que José Silva levantou, ainda que ao de leve, a voz. - A senhora pode inscrever-me para dia 10?
- Posso com certeza! O senhor não é estudante, correcto?
- Estudante… – ri-se com satisfação – já fui há muitos anos, mas já não sou, já não tenho idade para isso
- Sr. José já recebemos inscrições de pessoas que frequentam a Universidade Sénior e…
- Ah! Agora que a senhora fala disso estou a lembrar-me… sabe eu ontem encontrei uma grande amiga ali… ai, como é que se chama aquilo… ali ao pé de Sacavém…
- …aeroporto?
- Não… ah, já sei, na Portela, encontrei uma grande amiga… mas só amiga, que até conheço o marido dela e damo-nos muito bem, e ela disse-me que andava na universidade e que eu fosse lá inscrever-me e estou até a pensar nisso, mas se a senhora não falasse, olhe já não me lembrava.
- Pois, mas ainda não sendo aluno, os preços são normais
- E quanto é?
- O colóquio são 40 €
- Pois, 40€… olhe, inscreva-me para dia 10 que é de graça, e eu depois nesse dia logo vejo. Há-de haver lá um guichet onde me inscreva, não é assim?
- Sim Sr. José… eu própria lá estarei
Uns segundos antes, em desespero de causa, eu telefonara de um telefone móvel para outro e quando começou a tocar disse-lhe que era uma chamada muito urgente.
- Muito bem, mas já estou inscrito?
- Sim, para dia 10, está inscrito
- Então apresento-lhe os meus cumprimentos e obrigada.

Rapaz sem brinco de pérola


Entro na carruagem e constato mais uma vez que, sem que o consiga perceber ao fim de centenas de vezes, os lugares para grávidas e etecetera são os primeiros a ser ocupados por pessoas que parecem escolhidas a dedo: jovens que carregam head-phones, matronas que carregam um ou dois pneus tipo camião, homens fardados com fato e gravata. Nenhum está grávido, não ostentam canadianas, estão longe da velhice e não há crianças sentadas ao seu colo.
Sento-me e, atravessando o olhar pela janela, dou com uma imagem estranha: no banco da plataforma, como quem espera um comboio, está um rapaz de perna cruzada, todo enrolado sobre si mesmo, cabeça a pender sobre o peito. Dorme, dorme mal, mas dorme, escorrega-lhe a perna e ele endireita-a, escorregam-lhe os ombros e ele endireita-os, escorrega-lhe a cabeça e ele endireita-a, escorrega-lhe um braço e ele endireita-o, garantidamente bêbado de sono, se de outras coisas não for também, alheio ao comboio que está ali parado, como se não tivesse esse hábito por ser a estação primeira, terminal diríamos nós se fosse ao contrário e assim lhe chamo mas só ao fim do dia, que ao príncipio tudo começa, até a estação que ontem às oito horas da noite era a última, hoje é a primeira, e nela está parado o comboio como quem aguarda, como se desse tempo ao rapaz de boné vermelho com pala virada para trás, cuja cara nunca se viu, que acordasse e entrasse, que é para isso que os comboios servem, para levar as pessoas de um lado para outro, e para passar servem as estações, não para estar, e muito menos para dormir.
Talvez cansado de esperar, o comboio dá um apito, as portas negam a franquia da entrada devagar, num vagar de quem dá uma última oportunidade, vem, vem depressa, e acabam por se fechar. Entramos no escuro do túnel e o rapaz continua a dormir aos solavancos no banco da estação. 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Ai que dor!


A ausência de meias hoje pesa-me as toneladas do ferro de onde saiu o prego que teima em espetar-se-me no pé. O primeiro degrau da biblioteca sentiu a sola do meu pé direito pois assim que lhe cheguei descalcei-me e aguardo que uma colega me compre umas palmilhas, na esperança que sofoquem o raio do prego, já que martelá-lo não deverão ser capazes.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Maus caminhos

O projecto Criar Afectos fez uma surpresa à Marisa Pereira e foram ao programa de televisão Com Amor se Paga.
Os testemunhos são reais, disso sou testemunha. E se o meu pai estava bem, a minha mãe estava com o seu eterno ar de Grace Kelly, linda, em destaque só por existir.
Normalmente falamos dos jovens e dos maus caminhos que percorrem, daqueles de onde queremos que se desviem, se possível, como se fosse possível, que nunca deles ouvissem falar.
Mas maus caminhos existem onde menos se espera e no que aos séniores diz respeito, não há pior trilho que a solidão.
Este é o trabalho do Criar Afectos: tirar aquela malta de maus caminhos, contribuir para que percebam que ainda são gente, que são sempre gente.
Disseram, e eu concordo, que boas ideias há muitas, mas faltam pessoas para as pôr em prática. A Marisa deixou um desafio: aproveitem o exemplo e Criem Afectos. Se os guardarmos para nós e formos poupados no seu uso e na multiplicação com os outros, corremos o risco de um dia olharmo-nos ao espelho e não reconhecermos aquela pessoa que ali está.

Dia de Mãe, dia de barriga cheia...

Ai que dia...
Manhã cheia de mimos à mulher que sou, dados por mim mesma. Manhã polvilhada por uma surpresa do Duarte, em palavras e actos, à mãe que sou. Ao almoço a minha mãe adorou a colectânea de poesia que lhe ofereci, e a filha que sou ficou sorridente e feliz... podíamos ter evitado o arroz com coentros e mais qualquer coisa que ninguém percebeu o que era, pouco saborosa mas que nos fez rir...
De tarde fomos ao cinema. O Duarte resolveu condescender e aceitou ir ver um filme que eu e a minha pré-nora já combináramos ver juntas, uma vez que ele achava que não era para homens: Espelho Meu.
Sendo Dia da Mãe o meu filho resolveu fazer o sacríficio e ir ver um filme de crianças e crianças gajas...
A miúda namorada dele ficou a sorrir, a miúda mãe dele ficou a pairar de satisfação, o dia corria todo tão bem...
Demo-nos ao luxo de comprar gelados, coca-cola para ele, água para nós e entrámos. Inexplicavelmente o filme não cumpriu o horário, passavam dez minutos da hora e ainda corriam as apresentações, coisa com a qual não nos importámos, ninguém nos esperava, e a disposição era a melhor.
Finalmente a sala escureceu e no lugar da mazona Julia Roberts apareceu o John Cusack vestido de Edgar Allan Poe...
E foi assim que no meio de uma investigação policial de um crime horrendo três pessoas riam que nem maluquinhas, e só faltaram os protagonistas mandarem-nos calar.
Lá sossegámos e vimos o filme, embora eu não tivesse conseguido ver o Allan Poe pois o John Cusack estava sempre ali. Foi estranho. Mais estranho ainda foi relembrar a minha professora de tradução e interpretação do liceu que era obcecada com Annabel Lee. Eu procurava a ajuda de Fernando Pessoa e das suas traduções, que decorava; ela percebeu imediatamente a intrujice e deu-nos uma lista de autores para que escolhessemos os que gostávamos mais, lembrando que quanto mais conhecessemos um autor, melhor seria para nós. Oh... aquele sorriso, devia ter desconfiado dele...
Deixei de lado, entre vários outros, John Keats e Shelley que, não era preciso ser muito esperto, foram os que me calharam na rifa daquela que, naquele momento, se transformou aos meus olhos numa víbora! Fiquei a conhecê-los, não da melhor maneira, mas a partir daquela altura já não podia alegar ignorância sobre a sua existência. Há males que vêm por bem.
O dia acabou e guardei dele uma boa lembrança, foi um dia de barriga cheia. Apenas não ouvi a voz do pai do Duarte a parabenizar-me por ser a mãe do seu único filho, acho que o devia ter feito.
Paciência.

Convite

Desde há muitos anos que decidi nunca ser enterrada, nem morta... a excepção é no trabalho. Assim, escrevi um documento que entreguei a duas pessoas diferentes com as orientações que devem seguir depois de eu morrer. Nem enterros nem fogueiras: serei entregue ao Instituto de Medicina Legal do local onde viva na altura para que os alunos de medicina possam aprender comigo. Não deixo de sorrir com esta perspectiva, a de permitir e providenciar o ensino a futuros médicos, eu que apenas sei reconhecer a dor e sei que existem aspirinas, nada mais. Bem, talvez um pouco mais que o meu pai que, quando era garoto, punha o termómetro e verificava a febre vezes sem parar, pois acreditava que servia para tirar a febre...
Não estando doente nem com alguma coisa que me faça prever o aproximação da morte, mas porque ela anda sempre a rondar, não tendo problemas em falar dela e sabendo que um dia vai acontecer, deixo aqui um convite, que de mórbido nada tem, apesar de poder ser assim catalogado por algumas pessoas. Quem assim pensar é um triste, para além de estar em desacordo total com as mais actuais técnicas e estratégias de gestão que preconizam o planeamento como uma etapa fundamental para o sucesso.
O convite é para se juntarem conhecidos e desconhecidos a beber copos e a dizer todas as mentiras possíveis, numa espécie de concurso: como eu era fantástica e boazinha!
O local ideal seria o bar da praça Jem El Fna em Marraquexe, mas fica um bocadinho longe da minha actual localização. A segunda escolha é o Martinho da Arcada, ali no Terreiro do Paço, mas temo ser grande de mais.
À terceira é de vez! Pode ser ali na rua, encostados aos carros estacionados, a transpirar numa noite quente de Agosto ou a apanhar chuva molha parvos, apropriadamente para a maioria, num princípio de Primavera. Escolhi este local lembrando-me de quantas vezes fui jantar com a combinação de, a seguir, irmos a qualquer lado, e a conversa fazia-nos demorar à porta dos restaurantes até às 3, 4, 5 ou 6 da manhã...
Não quero choradeiras nem queixumes, tanto mais que não haverá alguém com dívidas para receber!
Porque é que me lembrei disto agora?
Fui comprar uma lembrança para a minha mãe e optei por um... livro. Esquisita lembrança para uma pessoa como eu... mas enfim. Vai daí, dei com os olhos nas antologias de poesia na prateleira de baixo, sentei-me no chão, cruzei as pernas e fiquei a pairar como se fosse um monge em oração, esquecida do mundo.
Naveguei por letras e sentimentos, imagens e desejos, deixei os dedos amarem o papel e dei por escolhida a prenda.
Levantei-me e dei uma cabeçada digna de um cabeçudo num separador de assuntos em metal que se meteu no meu caminho. Foi de tal forma violento que larguei a antologia, a mala e o casaco e mergulhei num limbo por alguns instantes, ou seja, distraí-me e nesses segundos de distracção, como quem goza comigo, ainda por cima, alocou-se um enorme galo na cabeça, com poleiro e tudo.
Como normalmente acontece nestas alturas, e garanto que não é só nos filmes, batemos de um lado, desviamo-nos e acabamos por bater noutro sítio qualquer ou em alguém, ou deixar cair qualquer coisa. Pois foi o que aconteceu... quando caí em desmaio aproveitei um senhor que ia a passar e caí-lhe para cima. O pobre homem, ou por se tentar desviar ou por ter sido apanhado desprevenido com semelhante ataque, precipitou-se para cima de uma pilha de livros que se estatelaram no chão.
O meu desmaio não foi à séria... não cheguei a perder os sentidos, embora me sentisse como um marinheiro em mar picado e acabei por me levantar atabalhoada e com uma capoeira na testa e ainda ajudei o homem a levantar-se.
Confesso que as dores eram tantas e o azamboado tão grande que nem ajudei a apanhar os livros; dois funcionários quiseram saber se eu precisava de alguma coisa, mostrando preocupação e o homem chegou  a sugerir que fosse vista...
Por segundos ocorreu-me que podia morrer dentro de uma livraria! Coberta de livros que saltariam das estantes para me taparem, as revistas a pedirem para se organizarem por ordem alfabética, os livros infantis a colorirem a cena, os livros técnicos a aguardarem solenes, os editados por mim a meterem-se-me debaixo da cabeça para me almofadarem a posição, as personagens dos romances a saltarem das páginas e a recontarem os momentos em que eu os tinha lido e a misturarem histórias, estórias e mil momentos, criando um sepulcro agitado e vivo, com mortos e vivos, imortais divertidos e inesquecíveis, fazendo planos e querendo saber sobre quem andaria por ali que me pudesse substituir.
Era uma boa morte.
Seja como for, mantêm-se o convite! Apareçam!

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Iogurtes


- Mãe… trazes-me cereais com iogurte?
- …
- Mãe! Trazes-me…
- Já vão a caminho… calma…
O Duarte olha a taça de cereais onde escorre um delicioso iogurte grego de limão.
- Oh mãe… escuta uma coisa… o nosso carro funciona a quê?
Franzo os olhos antecipando o sermão.
- A gasolina…? – respondo eu, com dúvidas sobre a orientação da pergunta.
- Exacto. Mas sabes que há carros que funcionam a outras coisas… verdade?
- Sim, a gasóleo, a gás, a electricidade
- Esquece o gásoleo… E porquê? – o ar dele é professoral e triunfal
- Para se poupar energia, para nos organizarmos com os recursos existentes…?
- Muito bem outra vez!
A pausa faz-me cócegas. Afinal onde é que a conversa ia parar, tanto mais que se os cereais fossem quentes já estariam gelados.
- Oh mãe, com os iogurtes a lógica é a mesma… inventaram os líquidos porque os sólidos são… são o petróleo, ‘tás a ver? E tu trazes-me uma… uma… uma jazida!