Sonho com montanhas noites seguidas. Montanhas com neve, que dispenso, mas que pareço adorar no sonho; montanhas verdes, que escalo com o coração a rebentar; montanhas tão altas que do pico não se vê o chão. Mas sinto-me segura, sempre, porque sonho que um gigante sorridente me conduz.
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terça-feira, 3 de junho de 2014
terça-feira, 27 de março de 2012
Rumo ao Farol
As mãos de Virgínia Woolf produziram a orientação da
minha vida. Rumo ao Farol podia ser o meu lema, uma vez que um dos meus sonhos
é morar num farol.
Ter o mar como jardim, um barco como veículo, muitas
escadas para chegar ao quarto e a porta da entrada aberta só para os
intrépidos.
Poder ler ao lado da lâmpada num dia de sol é uma
imagem que me alimenta. Inundar-me com a espuma das ondas altas que esbarram na
parede única do farol, ver o horizonte até muito para lá do além na varanda com
vista para o céu, ou jardinar na pequena alameda de acesso ao farol são
pensamentos igualmente prazenteiros.
Por ora tenho livros sobre faróis – ganhei um novo
exemplar de Rumo ao Farol, há cerca de duas semanas, obrigada! – tenho postais
que me chegam de várias partes do mundo, quadros, alguns dos quais em cima da
minha cama, espanta espíritos, roupa com faróis estampados, fotografias e
imagens diversas.
Falta-me um a sério, mas não mudo de rumo. Quem espera
sempre alcança?
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Limites muito invisíveis
Os pesadelos são fenómenos cuja horroribilidade não se consegue descrever. Naquele momento o medo é tão forte que apetece morrer. Na manhã seguinte contamo-los e ficamos com ar de parvos perante uma descrição de coisas nada apavorantes. Como se processará o medo? Como é que ele pesa tanto quando estamos a dormir pois, se a situação fosse real, seria tão simples, ainda que esquisita, que dava sono.
Estou deitada de barriga para cima na cama do meu filho e na cabeceira há uma torneira. Em cima de mim há pratos, talheres e diversa loiça suja que tento lavar sem me levantar, ou seja, apanho os enormes pratos verdes onde comemos todos os dias, fazendo leves movimentos de pernas para que não escorreguem quando levanto os braços na direcção da torneira. Desta forma anormal vou lavando a loiça. Tenho um zumbido nos ouvidos (tenho mesmo!) que se torna cada vez maior e, enquanto passo os pratos por água, o zumbido transforma-se em palavras e faço a horrível descoberta de perceber que tenho um homem a falar dentro da cabeça. Sei que são palavras, mas apenas percebo a repetição do meu nome. Escondo-me nos lençóis, não querendo saber da loiça, mas ele está dentro da cabeça e continua a falar. Peço que a noite passe depressa e, num arremesso de coragem, espreito por entre os lençóis temendo ver uma coisa horrível, mas que não sei dizer o que seria. Quando espreito vejo o meu quarto, estou acordada na minha cama, rodeada de florinhas cor-de-rosa, que enfeitam o lençol. Levanto-me sem medo e vou beber água. Não tenho dificuldades em adormecer e hoje de manhã lembro-me perfeitamente do medo como se fosse um objecto que tivesse visto.
Como não sou medrosa aflige-me sentir este pavor quando durmo e gostava de perceber que canais são percorridos e por o quê, para nos fazerem sentir estes limites.
Estou deitada de barriga para cima na cama do meu filho e na cabeceira há uma torneira. Em cima de mim há pratos, talheres e diversa loiça suja que tento lavar sem me levantar, ou seja, apanho os enormes pratos verdes onde comemos todos os dias, fazendo leves movimentos de pernas para que não escorreguem quando levanto os braços na direcção da torneira. Desta forma anormal vou lavando a loiça. Tenho um zumbido nos ouvidos (tenho mesmo!) que se torna cada vez maior e, enquanto passo os pratos por água, o zumbido transforma-se em palavras e faço a horrível descoberta de perceber que tenho um homem a falar dentro da cabeça. Sei que são palavras, mas apenas percebo a repetição do meu nome. Escondo-me nos lençóis, não querendo saber da loiça, mas ele está dentro da cabeça e continua a falar. Peço que a noite passe depressa e, num arremesso de coragem, espreito por entre os lençóis temendo ver uma coisa horrível, mas que não sei dizer o que seria. Quando espreito vejo o meu quarto, estou acordada na minha cama, rodeada de florinhas cor-de-rosa, que enfeitam o lençol. Levanto-me sem medo e vou beber água. Não tenho dificuldades em adormecer e hoje de manhã lembro-me perfeitamente do medo como se fosse um objecto que tivesse visto.
Como não sou medrosa aflige-me sentir este pavor quando durmo e gostava de perceber que canais são percorridos e por o quê, para nos fazerem sentir estes limites.
terça-feira, 5 de julho de 2011
Sorte? Onde, onde?
O euromilhões é um propiciador do aumento das discrepâncias entre as pessoas. É encarado como um milagre, um enorme milagre que acontece a alguns, raros, raríssimos.
Se aquilo fosse distribuído convenientemente muitos ganhariam uma bençãozita, outros eram salpicados de água benta, o que já seria muito bom, e não nos ajoelhávamos a rezar tão fervorosamente todas as sextas feiras, quais muçulmanos.
Mas não, a coisa está feita para alguém ganhar, mas não os apostadores pois claro, e de vez em quando há um que leva, não o bolo todo, mas a fábrica de pastelaria inteira!
É claro que não é justo, mas aquilo também não foi criado pelas mãos da senhora de olhos vendados e os quinhões lá da balança são fruto dum jogo e, como qualquer jogo, raramente se ganha.
É curioso como este tipo de jogos podem ser catalogados com expressões antónimas e, assim mesmo, verdadeiras: há quem lhes chame jogos de sorte e há quem lhes chame jogos de azar. Mas joga-se sempre, e joga-se na esperança da sorte, embora o que aconteça dia após dia é cantarmos as palavras de Renato Teixeira, imortalizadas por Elis Regina, se há sorte, eu não sei, nunca a vi.
Se aquilo fosse distribuído convenientemente muitos ganhariam uma bençãozita, outros eram salpicados de água benta, o que já seria muito bom, e não nos ajoelhávamos a rezar tão fervorosamente todas as sextas feiras, quais muçulmanos.
Mas não, a coisa está feita para alguém ganhar, mas não os apostadores pois claro, e de vez em quando há um que leva, não o bolo todo, mas a fábrica de pastelaria inteira!
É claro que não é justo, mas aquilo também não foi criado pelas mãos da senhora de olhos vendados e os quinhões lá da balança são fruto dum jogo e, como qualquer jogo, raramente se ganha.
É curioso como este tipo de jogos podem ser catalogados com expressões antónimas e, assim mesmo, verdadeiras: há quem lhes chame jogos de sorte e há quem lhes chame jogos de azar. Mas joga-se sempre, e joga-se na esperança da sorte, embora o que aconteça dia após dia é cantarmos as palavras de Renato Teixeira, imortalizadas por Elis Regina, se há sorte, eu não sei, nunca a vi.
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Galáxia de beijos
Gosto de ouvir falar de coisas que desconheço, principalmente se vêm pela voz ou pelas mãos de alguém que eu idolatro. É o caso.
A pessoa em questão fez o favor de fazer escala em Lisboa durante umas horas e tive a oportunidade de lhe fazer companhia ao jantar, por entre conversas, recordações e novidades.
Deu-me um livro do qual falarei quando o tiver terminado, mas sobre o qual posso adiantar que, como objecto, é belíssimo e, sendo sugerido por quem é, só pode ser de boa cepa: We, the Drowned, de Carsten Jensen.
Como a saudade entre nós é uma nascente cristalina, vamos trocando mensagens por e-mail e ontem reclamei pela falta de despedida em condições!
Para se redimir, para além de me ter sugerido ver Genesis, de Nacho Cerdá, despediu-se de mim com o envio de uma galáxia de beijos, que recebi e na qual ainda me osculo.
É nestes momentos que sorrio, toda, cheia, feliz.
Melhor, só se tivesse recebido uma carta, à moda antiga, escrita à mão, em papel de preferência amarelecido, com pétalas de rosas que podiam ter sido colhidas nos maravilhosos jardins de Serralves, uma carta de amor, pois que outro nome têm as cartas verdadeiras?
Porque procuramos sempre o óptimo? Porque sabemos que podemos lá chegar! Com esta certeza vivo na esperança de um dia receber uma carta assim, uma coisa muito adolescente, mas muito viva, crua e imediatista. Uma carta que viesse da própria Terra do Nunca, era isso mesmo que queria receber.
Sonho demais, diz a minha mãe, que não se cansa de afirmar diante de tudo e todos que sou uma sonhadora, como se fosse sinónimo de mentecapta. Vou passar a dizer que acredito em milagres!, e talvez assim, pela vertente religiosa, ela não abane tanto a cabeça olhando para mim, em sinal de desaprovação. Além do mais, eu acredito mesmo em milagres!
A pessoa em questão fez o favor de fazer escala em Lisboa durante umas horas e tive a oportunidade de lhe fazer companhia ao jantar, por entre conversas, recordações e novidades.
Deu-me um livro do qual falarei quando o tiver terminado, mas sobre o qual posso adiantar que, como objecto, é belíssimo e, sendo sugerido por quem é, só pode ser de boa cepa: We, the Drowned, de Carsten Jensen.
Como a saudade entre nós é uma nascente cristalina, vamos trocando mensagens por e-mail e ontem reclamei pela falta de despedida em condições!
Para se redimir, para além de me ter sugerido ver Genesis, de Nacho Cerdá, despediu-se de mim com o envio de uma galáxia de beijos, que recebi e na qual ainda me osculo.
É nestes momentos que sorrio, toda, cheia, feliz.
Melhor, só se tivesse recebido uma carta, à moda antiga, escrita à mão, em papel de preferência amarelecido, com pétalas de rosas que podiam ter sido colhidas nos maravilhosos jardins de Serralves, uma carta de amor, pois que outro nome têm as cartas verdadeiras?
Porque procuramos sempre o óptimo? Porque sabemos que podemos lá chegar! Com esta certeza vivo na esperança de um dia receber uma carta assim, uma coisa muito adolescente, mas muito viva, crua e imediatista. Uma carta que viesse da própria Terra do Nunca, era isso mesmo que queria receber.
Sonho demais, diz a minha mãe, que não se cansa de afirmar diante de tudo e todos que sou uma sonhadora, como se fosse sinónimo de mentecapta. Vou passar a dizer que acredito em milagres!, e talvez assim, pela vertente religiosa, ela não abane tanto a cabeça olhando para mim, em sinal de desaprovação. Além do mais, eu acredito mesmo em milagres!
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Pesadelo
Estava numa casa de banho cuja banheira tinha como resguardo uma antiga colcha que guardo no fundo dum armário, de tecido grosso, castanho, de cornucópias em relevo. Apesar do peso do cortinado, pendurado à volta da banheira, ondulava como se fosse de seda fina. Lembro-me que abri a porta da casa de banho, espreitei e voltei a fechá-la. A curiosidade em saber como era possível que aquilo ondulasse levou-me a abri-la novamente. Lá estava o cortinado castanho enfunado com uma vela de navio. A fazer uma enorme barriga. Ainda a curiosidade levou-me a afastá-lo e enfiar os olhos dentro da banheira onde me apercebi dum vento, não, era mais um sopro forte que vinha da parede. Empoleirei-me no bordo da banheira e elevei o corpo ficando com a cabeça à altura do varão onde o tecido de cornucópias feito resguardo se pendurava. Vi uma abertura com várias entradas, ou saídas, como se fossem minúsculas gavetas dum móvel de onde saia aquele sopro que me pareceu mortal. No meio das mini gavetinhas estava uma caveira como se fosse uma aldraba. Não a bati, e comecei a gritar cheia de medo.
Abri os olhos aterrorizada e fugi para a cama do meu filho com o coração a bater a mil à hora. Ele foi buscar-me um copo de água gelada que bebi sofregamente e passei parte da noite com ele. Porém, como não estou habituada a dormir acompanhada, assim que lhe tocava acordava imediatamente e, já amanhecia, regressei à minha cama na esperança de conseguir dormir uma ou duas horas seguidas. O mal-estar ainda se mantém.
Quem soprava aquele medo na minha cara?
O Dicionário de Sonhos diz que sonhar com um reposteiro significa que na noite seguinte se terá outro sonho onde será feita uma revelação sobre o futuro. Indica ainda que alguém nos oculta alguma coisa que, se a soubéssemos, contribuiria para a nossa boa sorte.
A fazer fé nisto pergunto-me quem me esconderá o quê e porquê? Penso na quantidade de gente que esconde coisas uns dos outros e vejo que me incluo no lote. Tento lembrar-me de alguma coisa que eu esconda e que pudesse melhorar a vida a alguém. Nada me ocorre, são coisas que se prendem com o não afligir seja quem for. Para quê criar mais e novas preocupações?
Estou sentada à secretária e o cortinado das cornucópias passa-me pela vista. Por décimos de segundo pergunto-me se já terei acordado.
Abri os olhos aterrorizada e fugi para a cama do meu filho com o coração a bater a mil à hora. Ele foi buscar-me um copo de água gelada que bebi sofregamente e passei parte da noite com ele. Porém, como não estou habituada a dormir acompanhada, assim que lhe tocava acordava imediatamente e, já amanhecia, regressei à minha cama na esperança de conseguir dormir uma ou duas horas seguidas. O mal-estar ainda se mantém.
Quem soprava aquele medo na minha cara?
O Dicionário de Sonhos diz que sonhar com um reposteiro significa que na noite seguinte se terá outro sonho onde será feita uma revelação sobre o futuro. Indica ainda que alguém nos oculta alguma coisa que, se a soubéssemos, contribuiria para a nossa boa sorte.
A fazer fé nisto pergunto-me quem me esconderá o quê e porquê? Penso na quantidade de gente que esconde coisas uns dos outros e vejo que me incluo no lote. Tento lembrar-me de alguma coisa que eu esconda e que pudesse melhorar a vida a alguém. Nada me ocorre, são coisas que se prendem com o não afligir seja quem for. Para quê criar mais e novas preocupações?
Estou sentada à secretária e o cortinado das cornucópias passa-me pela vista. Por décimos de segundo pergunto-me se já terei acordado.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Cá dentro
Voltei a ter um sonho estranho no qual eu apareço como guia do próprio sonho. Eu estava dentro da minha cabeça e ia explicando a alguém, não sei quem, o que íamos ver a seguir. Como se estivessemos numa exposição. Lembro-me que voávamos dentro do cérebro. E lembro-me de acordar ligeiramente, como quem espreita a uma janela e a seguir se recolhe para dentro. Continuou a visita. Lá dentro, cá dentro, é tudo vermelho escuro, com muitas ruas e travessas e azinhagas, sem avenidas. É tudo apertado e curvo.
Eu falava com os que me seguiam, e que não vi uma só vez, mas sabia que estavam ali. Falava de livros e lembro-me de ter dito uma piada da qual se riram. Ouvi-lhes as gargalhadas: Estou a ler o Livro do José Luís Peixoto, já não tenho Bolaños para a sobremesa.
Na verdade já tenho o Peixoto na prateleira, sinal que já foi lido. Adorei, adorei, adorei, como diria o João César Monteiro. Que surpresa maravilhosa aquele círculo, que encanto tão sereno e, não obstante, tão cheio. O pormenor da avó, tão silencioso, é fatal. Para ela e para mim, leitora.
Comecei ontem com O Jogo do Anjo de Carlos Ruiz Zafón.
Porque raio disse eu que estava a ler Peixoto? Será que no sonho ainda não era hoje? Seria ontem ou há dois dias? E porque é que me entrou gente dentro da cabeça?
Não o senti como um pesadelo, não acordei mal disposta nem angustiada, mas recordo a vista, o horizonte encarnado, e repugna-me.
Eu falava com os que me seguiam, e que não vi uma só vez, mas sabia que estavam ali. Falava de livros e lembro-me de ter dito uma piada da qual se riram. Ouvi-lhes as gargalhadas: Estou a ler o Livro do José Luís Peixoto, já não tenho Bolaños para a sobremesa.
Na verdade já tenho o Peixoto na prateleira, sinal que já foi lido. Adorei, adorei, adorei, como diria o João César Monteiro. Que surpresa maravilhosa aquele círculo, que encanto tão sereno e, não obstante, tão cheio. O pormenor da avó, tão silencioso, é fatal. Para ela e para mim, leitora.
Comecei ontem com O Jogo do Anjo de Carlos Ruiz Zafón.
Porque raio disse eu que estava a ler Peixoto? Será que no sonho ainda não era hoje? Seria ontem ou há dois dias? E porque é que me entrou gente dentro da cabeça?
Não o senti como um pesadelo, não acordei mal disposta nem angustiada, mas recordo a vista, o horizonte encarnado, e repugna-me.
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