quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Manifesto Norte Júnior - Que não se perca o Norte!

A História vive nas ruas e dá a cara nas fachadas dos prédios. Os homens que transformaram a imaginação em realidade são pais de um trabalho que se perpetua no tempo, ao ar livre, aguentando intempéries e todas as sortes.
As ruas de Lisboa têm várias cicatrizes NJ, que se manterão até que os poderes públicos e privados assim o consintam.
Frequentemente, esquecemo-nos que um prédio é uma edição de um só exemplar, irrepetível, e quando vai abaixo, entulha-se a História, da cidade, da arquitectura, do arquitecto, a nossa História.
Quem nos legitimou para apagar a História?
Os edifícios são irreproduzíveis e a memória não os consegue plagiar para que transportemos a riqueza acumulada de geração em geração.
Vivem entre nós pessoas magistrais, como Norte Júnior, temos o prazer de conviver com o seu trabalho, que faz História, admiramo-lo, aplaudimo-lo e deixamos que seja demolido!
Os interiores são obras de arte divinas, na medida em que funcionam como um corpo humano, com órgãos, tecidos, ossos. Os interiores projectados por Norte Júnior conjugam o calor das madeiras, a intemporalidade da pedra, a força do ferro, a estrutura do betão, a luz dos vitrais, a beleza da pintura, o delicado do estuque; têm o toque de Deus, como dizia van der Rohe, na profusão dos detalhes.
Não interessa, é demolido na mesma!
É o progresso, dizem. Mas o progresso não trouxe conhecimento técnico, e científico, e histórico, e tecnológico? O progresso não aumentou a visão de conjunto? E trouxe vontade…?
Insurgimo-nos contra a devastação do património na Síria, face à guerra: de que nos serve a paz se não existe bom senso?
Se o futuro não contiver as pagadas geodésicas do passado será um espaço vazio, pobre e infeliz.
Mantenha-se o edifício da Avenida da República, 55 e que não se perca o Norte!

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A varinha mágica

Talvez tivesse sido um rádio. Com o botão de lado para girar e procurar as estações, todo ele cor-de-laranja.
Tento encontrar a prenda que mais gostei de receber desde sempre e sim, fico-me pelo rádio, oferta de Natal da festa do trabalho do meu pai, que me tirou o folêgo e me fez perder fome, sede e sono, naquele encantamento que as crianças conseguem sentir e, infelizmente, se vai perdendo ao longo dos anos.
Dar é mil vezes melhor que receber porque quando damos recebemos sempre! O sorriso e a satisfação da pessoa presenteada é uma prenda que me aquece o coração como poucas coisas.
Em adulta recebi pouquissímas prendas e talvez por ter tido uma vida de casada onde as ofertas eram mais raras que animais em vias de extinção, o que, confesso, me dava alguma inveja de certas amigas cujos maridos as mimavam nos anos, no Natal, nos aniversários de casamento e em várias ocasiões ao longo do ano, talvez por isso, habituei-me a não receber ou, em caso de oferta, por norma era qualquer coisa de utilidade: uns copos, um tabuleiro, uma peça de roupa.
Ora a última prenda com nome de prenda, uma coisa que eu ame mas que não precise utilitariamente digamos assim, foi-me dada há cerca de dois ou três anos por mão amiga, uma edição muito especial.
Mantenho o livro dentro do envelope e, quando estou sozinha, abro-o e folheio-o. Poucos foram os que lhe puseram a vista em cima, Lawrence não é para qualquer um.
Ontem o rádio cor-de-laranja passou, ao fim de cerca de quarenta anos, para segundo lugar e o primeiro foi tomado por um objecto fantástico, trazido de Londres pelo meu filho.
Liguei à minha irmã a contar-lhe e, enquanto ela avançava com a possibilidade de ser uma réplica da coroa da Rainha de Inglaterra eu, em felicidade total, disse-lhe que não, que era uma varinha mágica. Da Moulinex? Perguntou a tonta... Não... do Dumbledore!, respondi eu.

Eu própria me surpreendi com a minha alegria quando recebi esta lembrança. O meu filho, sabedor e conhecedor da mãe e da queda dela por feiticeiros, sabia exactamente o que ia adorar.
Reconheci o entusiasmo de menina na manhã de dia 25 de Dezembro quando se abria a prenda - repito, a prenda, não as prendas - ou do dia de aniversário.
A última vez que tinha sentido algo assim foi com a oferta de umas botas, objecto utilitário, é certo, mas de feição muito pessoal e capricho satisfeito pela minha irmã. As botas são o primeiro item da lista de coisas que deixarei quando morrer e, atendendo aos avanços da tecnologia, quem sabe um dia poderão falar e partilhar as aventuras que passámos juntas e os muitos milhares de quilómetros que fizemos.
A varinha mágica é objecto de puro prazer que me fez sentir criança, uma criança grandalhona e já mãe, de um filho que sabe ser cúmplice e que lhe faz surpresas... mágicas!

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Eu gosto é do Verão...

Dizem que os fiordes são lindos de se verem. Acredito, mas nunca vi estas impressionantes formações naturais do planeta; também nunca vi o sol da meia-noite, embora já tenha andado pelas ruas à meia-noite sem ser necessário acender qualquer luz, no círculo polar ártico.
As línguas, tão saborosamente diferentes, como se fosse uma música nova que estamos a ouvir; a gastronomia, os costumes, a roupa, as casas, um tudo enorme de que me lembro nestes dias chuvosos em que não é sequer Inverno.
As dores de cabeça são frequentes neste ambiente quente e húmido, qual Macau à beira do Tejo que se deixa cair no mar.
Decididamente não gostaria de viver num local onde os dias são pequenos e a escuridão anda sempre a espreitar, numa espécie de brincadeira com um frio danado.
No entanto há quem viva nestes locais e adore. Penso também que, com a minha capacidade de adaptação, me adaptaria a qualquer sítio... desde que houvesse praia, penso logo a seguir...
Nada disso! Quero afastar este preconceito metereológico-geográfico e pensar que podia viver em qualquer local do mundo. Sim, eu sou capaz!
Quero acreditar nisto, mas olho pela janela, vejo a noite a aproximar-se às quatro da tarde e, instintivamente, entristeço. 

Mind the gap

O meu filho está em Londres.
Com a namorada debaixo do braço, foram de visita a uma amiga.
Sempre lhe ansiei esta vida, um dia aqui, outro ali, absorvendo tudo o que encontre pelo caminho, respeitando as diferenças e aprendendo com elas, falando várias línguas, conhecedor do mundo, se é que o mundo pode ser conhecido.
Desde pequeno que lhe incuto mais do que o prazer, a necessidade de viajar e é nestas pequenas coisas que vejo como ele cresceu, como poupa para as deslocações, como não se importa com o local onde fica, desde que vá.
Do grupo de quatro ele é o único que já tinha estado em Londres e este voltar é maravilhoso pois dá-lhe a dimensão que os turistas nunca vão ter, a calma de rever, o prazer de surpreender os outros, a liberdade de escolher museus, monumentos e locais, por saber, sem ser de ter ouvido dizer.
Eu fico eufórica, mais do que se fosse eu a lá estar, padecendo de um estado que me faz sorrir o tempo todo, e mais ainda quando ele liga a contar o que fizeram e a dizer que estão bem ou a mandar fotografias de sitíos que sabe que eu adoro ou a fazer piadas que apenas nós percebemos.
Sempre lhe quis esta vida e vibro por ele, para que a continue a gozar desta forma, sem esquecer a faculdade ou a família. Um dos contactos de ontem era para saber o tamanho da roupa de um primo... disse-lhe que se deixasse de prendas, como quem diz ao céu para parar de chover. Somos iguais e um dos prazeres de ir é poder trazer uma coisa qualquer para os outros que cá ficaram, não tanto para saberem que nos lembrámos deles, mas mais para saberem que gostávamos muito que tivessem ido connosco. 

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Opilca, precisa-se!

O casaco verde alfaçado faz-me reparar na mulher que vai sentada um banco ao lado no metro. É giríssimo e fica mesmo bem em cima do vestido branco, leve, que transporta o Verão.
Só quando nos levantamos para sair na última paragem é que reparo que leva um braço ao peito, o que não a impede de desatar a correr pelas escadas acima, mala pendurada no braço bom, passar pelas cancelas e... estatelar-se ao comprido no chão.
A queda foi aparatosa, toda ela a escorregar um bom par de metros como se brincasse na neve, pernas no ar a deixar ver o fio dental e aquilo que parecia a Mata do Bussaco!
Os gritos eram genuínos, as lágrimas corriam-lhe pela cara, o braço queixava-se. A mão do braço bom no chão ajudou-a a levantar-se, tendo primeiro ficado de gatas, a saia do vestido em cima das costas.
Várias foram as pessoas que a ajudaram, todas sem conseguirem conter os lábios, que teimavam em abrir-se num sorriso, eu incluída.
Não há volta a dar, estas situações são sempre gregas, trágico-cómicas, tão dolorosas física como psicologicamente. 

Uma gargalhada com vinte anos

Uma desilusão no início de um fim-de-semana passado com uma pessoa muito especial.
Uma grande expectativa que não foi concretizada, mas que não abalou os dias que a M., o marido e o filho passaram na minha casa.
Quando se foram embora deixaram-me cansada... cansada de rir, cansada de conversar, cansada de boa-disposição... quem não gosta de estar assim cansada?
Anseio por lhe devolver a visita e voltarmos a rir juntas, coisa que fazemos há vinte anos.
Não é para qualquer um e eu sinto-me afortunada com esta amizade.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Amor é...

Saio de casa bem cedo e tudo parece parado, como se esperasse que Deus tocasse num botão para que o mundo se mova e comece o dia.
As árvores parecem de pedra, raras são as janelas com luzes acesas, até os condutores parecem zombies, o meu filho incluído, que fez o favor de me levar ao trabalho, em face da greve do metro.
A corrente do meu monólogo sobre as cores do dia nascente, únicas, sobre luzes no céu que eu queria tanto que fossem ovni's, a minha boa disposição irritante e causadora de inveja, é interrompida quando ele vira numa direcção contrária! Então onde vamos?
Os meus 48 anos e a minha vida solitária já me fizeram esquecer estes detalhes dos amores dos vinte anos: vamos buscar a namorada dele que não se importa de se levantar àquela hora para lhe fazer companhia, com a desculpa de mimar a eventual futura sogra.
Afinal há coisas mais bonitas que as cores do nascer do dia...

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Zoom

Ontem à noite jantei fora de casa.
A caminho do restaurante para onde me convidaram, sem chuva, com o mar a ladear a estrada, os relâmpagos iluminavam-me o caminho.
Apesar de ligeiramente atrasada, desacelerei para poder captar aquele instante tão rápido do clarão reflectido na água, como se alguém no céu me estivesse a fotografar.
Estava tão feliz que devo ter ficado mesmo bem no retrato!

Parabéns Rui

O Verão estava de birra e escondeu-se sem que ninguém o conseguisse encontrar.
As outras estações andavam aborrecidas e muito incomodadas; afinal, cada uma delas tinha feito o seu papel na altura em que era suposto e agora continuavam em cena porque o Verão, sem que alguém soubesse as razões, resolvera desaparecer.
Lá porque era querido de todos, o menino bonito das estações, não era motivo suficiente para tamanho disparate.
O Outono, que devia começar a trabalhar lá para o fim de Setembro, mas numa actividade ainda fraca, lenta, pois, como é sabido, cada estação deve ajudar a seguinte a instalar-se para se evitarem choques térmicos e para que a natureza se adeqúe à esperada mudança com calma, deu-lhe um arrebatamento e, ainda em Agosto, sentiram-se-lhe as ameaças pelo trabalho extraordinário.
O Verão não deu sinal e no primeiro dia útil de Outono, este, em fúria total, desabou com toda a sua força. 
A borrasca devia ter sido na verdejante ilha britânica mas, para poupar o Rui, caiu em cima da cidade de Lisboa.

Depois da tempestade vem o Arco-íris

Somewhere over the rainbow
Way up high
And the dreams that you dreamed of
Once in a lullaby

Somewhere over the rainbow
Blue birds fly
And the dreams that you dreamed of
Dreams really do come true ooh oh

Someday I'll wish upon a star
Wake up where the clouds are far behind me
Where trouble melts like lemon drops
High above the chimney tops
That's where you'll find me

Oh, somewhere over the rainbow bluebirds fly
And the dream that you dare to,
Oh why, oh why can't I?

Well I see trees of green and red roses too,
I'll watch them bloom for me and you
And I think to myself
What a wonderful world

Well I see skies of blue
And I see clouds of white
And the brightness of day
I like the dark
And I think to myself
What a wonderful world

The colors of the rainbow so pretty in the sky
Are also on the faces of people passing by
I see friends shaking hands
Saying, "How do you do?"
They're really saying, I...I love you

I hear babies cry and I watch them grow,
They'll learn much more than we'll know
And I think to myself
What a wonderful world world

Someday I'll wish upon a star,
Wake up where the clouds are far behind me
Where trouble melts like lemon drops
High above the chimney top
That's where you'll find me

Oh, somewhere over the rainbow way up high
And the dream that you dare to, why, oh why can't I?
I?

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Viva o Facebook!

Chovem picaretas em Lisboa durante duas horas.
O local onde trabalho alaga-se e eu alugo um par de galochas, sabendo que não vou sair daqui tão cedo e na expectativa que, quando vá embora, a tormenta tenha levantado. São os riscos do empreendedorismo!
A luz falta, onde há minutos estava uma estrada há agora um novo rio, não lhe conheço o nome, mas é dos grandes, primo do Tejo, por aí.
Urge procurar informações sobre a cidade, para dar resposta a duas pessoas que se deviam encontrar hoje comigo e que vêm do outro lado de Lisboa. Peço a uma colega que me pesquise a coisa e me mande os resultados para o mail. Em cinco minutos sou inundada - para fazer padan - por links. Links das Notícias ao Minuto? Dos Bombeiros Sapadores de Lisboa? Da protecção civil? Da Câmara?
Não, todos do Facebook. Imagens e vídeos de todas as qualidades e feitios com um denominador comum: muita água a correr pelas ruas.
Com um sorriso e o pensamento que devia ter feito a pesquisa sozinha, lá entro no site dos Bombeiros e vejo a localização das quase duas dezenas de locais muito complicados com inundações e adio as reuniões para amanhã.
Conclusão, o facebook é grande!

Aquele senhor alemão

Tenho ouvido falar de certos grupos musicais que têm como característica entrarem em palco sempre de maneira diferente. Lembro-me deles a propósito da minha muito querida mãe, cujo ar é de moça, mas a idade e as doenças pesam nos actos, nos gestos e nas respostas.
Ligo-lhes todas as santas noites e, sabendo que não estão bem, também de manhã. É o caso, sábado foi passado pouco alegremente no hospital com o meu pai, já estamos habituados.
Como são surdos e ouvem televisão muito alto, quando o telefone toca, por norma, é ela que atende enquanto vai pedindo ao meu pai que baixe o som. É aqui que revela uma imaginação sem par, qual Salvador Martinha, qual César Mourão, qual Rui Unas, qual Sal.
É na linha de Sintra que vive uma senhora que atende o telefone sempre de maneira diferente e que, para pedir para baixar o som da televisão, já pediu ao meu pai, e eu a ouvir:
Baixa a torneira
Carrega no autoclismo
Põe isso mais claro
Põe a televisão menos ligada
Ontem foi particularmente cómico, quando a ouvi dizer:
Põe a televisão mais barata!
Ainda estamos numa fase em que o riso prevalece, e tentamos rir todos, ela incluída, pois dá conta dos disparates que diz.
Rezo para que esta fase se prolongue por muito, muito tempo...

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A praga

Começo a pensar se não será uma praga que me rogaram...
Desde há uma semana que ando doente, tudo o que como vomito, já não posso ver canja nem ouvir histórias com pintaínhos.
Não sei quanto tempo duraram as pragas do Egipto, mas sinto-me solidária com aquela gente.
A uma semana com má disposição some-se canadas de água que vêm sem aviso e nos deixam com ar de bacalhaus demolhados, como diz Miguel Esteves Cardoso.
Sempre com calores - estou na menopausa desde que nasci - tomo duche de manhã ao levantar, quando chego a casa, antes de me deitar e, em algumas noites, a meio da noite. Temo pela conta da água, não sei se a conseguirei pagar.
Fiz a ruptura de ligamentos a 28 de Julho e tenho estado sempre com uma maleita qualquer. Espero que isto seja suficiente para pagar a conta das doenças nos próximos dez anos.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Óbvio, cara mãe!

O meu sobrinho mais novo, na sua voz de dois anos a caminho dos três, pergunta à mãe do que são os óculos que alguém lhe ofereceu e que ele usa, transformando a realidade um pouco mais escura.
A mãe semicerra os olhos e diz que são óculos de aventureiro!
Ele reclama e volta a perguntar de que são os óculos!
A mãe inicia um ciclo de possíveis respostas:
De plástico, de ver, de menino bonito, de príncipe, de...
Ele, já amuado e sempre a dizer não, esclarece:
- São óculos de sol!

Há modas que não passam de moda

Save the last dance for me

You can dance-every dance with the guy
Who gives you the eye,let him hold you tight
You can smile-every smile for the man
Who held your hand neath the pale moon light
But don't forget who's takin' you home
And in whose arms you're gonna be
So darlin' save the last dance for me

Oh I know that the music's fine
Like sparklin' wine, go and have your fun
Laugh and sing, but while we're apart
Don't give your heart to anyone
But don't forget who's takin' you home
And in whose arms you're gonna be
So darlin' save the last dance for me

Baby don't you know I love you so
Can't you feel it when we touch
I will never, never let you go
I love you oh so much

You can dance, go and carry on
Till the night is gone
And it's time to go
If he asks if you're all alone
Can he walk you home,you must tell him no
'Cause don't forget who's taking you home
And in whose arms you're gonna be
Save the last dance for me

Oh I know that the music's fine
Like sparklin' wine, go and have your fun
Laugh and sing, but while we're apart
Don't give your heart to anyone

And don't forget who's takin' you home
And in whose arms you're gonna be
So darling,save the last dance for me

So don't forget who's taking you home
Or in whose arms you're gonna be
So darling, Save the last dance for me

Oh baby won't you save the last dance for me
Oh baby won't you promise that you'll save,
The last dance for me
Save the last dance, the very last dance for me.

Autoria de Doc Pomus e Mort Shuman

O acordar da Bela Adormecida

A meio de uma conversa sobre música pergunto ao meu filho se já foi a uma discoteca da qual ouço falar com regularidade, o B.Leza. Responde que não, mas que conhece quem a frequenta, e a resposta deixa-me pasmada: o pai.
O pai? O pai dele? Aquele que foi casado comigo? Terá ele a certeza? Absoluta, garante-me.
Não evito uma gargalhada, que se multiplica à medida que tento imaginá-lo a dançar, música africana ou qualquer outra, no meio de uma discoteca, com luzes e barulho e pessoas e suor e sei lá mais o quê, coisas horríveis que ainda há poucos anos o assustavam de morte e que não fazia nem com uma pistola apontada à cabeça.
Quando éramos casados não o arrancava nem para jantar e, como até o filho lhe chamava, a Cinderela tinha que estar em casa cedo, por todas as razões e mais uma.
O meu espanto aumenta ao saber que o pai anda a aprender a dançar kizomba. Peço garantias que a informação não é para me gozar, não acreditando no que ouço.
Interiormente dou-lhe os parabéns, enquanto sou atacada por um ponta de ciúme, que confesso, mas de forma retraída, pois não quero que o nosso filho apanhe com uma descarga de passado.

A sono solto

Uma das características que sempre me acompanhou foi a facilidade em me levantar cedo. Mais que facilidade, era um prazer, levantar-me quando a cidade ainda estava em silêncio, vê-la acordar, acompanhar a mudança de cores matinal, o brilho, a intensidade da claridade. O movimento que aparecia num crescendo, de pessoas, de carros, de transportes, de crianças alegres, de algazarras várias.
As pessoas mais velhas elogiavam-me e diziam que os velhos é que dormem pouco e, brincando diziam-me que, quando fosse para velha, a este ritmo, passaria os dias acordada. Eu ripostava que teria muito tempo para dormir quando morresse e que agora tinha era que aproveitar os dias.
Porém, a coisa está a funcionar ao contrário: tenho um sono desalmado e, quer me deite cedo ou tarde, dou por mim a acordar perto do meio-dia, meio-dia que sempre foi a metade do dia, quando os ponteiros do relógio se sobrepunham já eu estava cansada de fazer coisas.
Agora não. Se o despertador toca preciso de um balde de água gelada para me levantar, deito-me cedo, durmo sestas sempre que posso e ando permanentemente ensonada.
Já não sou a primeira a chegar à praia, ao mercado nem a lado algum; enrosco-me nos lençóis, que me parecem ainda melhores pela manhã e, sem culpas, deixo-me ficar.
O prazer de dormir é contestado mais tarde por um racionalismo que também não sei explicar, e que me franze as sobrancelhas às horas a que me levantei.
Mais ainda, assim que abria um olho, era incapaz de ficar na cama, fizesse chuva ou sol; agora acordo, os olhos querem fechar-se e eu dou-lhes palmadinhas de assentimento e viro-me para o outro lado.
Pareço o meu filho e temo que, por este andar, chegue o dia em que ele acorda primeiro que eu.

Mikis Theodorakis

A inconfundível música de Zorba, o grego, foi escrita por este homem, que tem um currículo musical invejável.
A descobrir.

Projecto X

Detestando filmes de terror, vi um recentemente que me deixou com os cabelos em pé. São novas formas de terror que também paralisam e assustam à séria: a inexistência de limites por parte dos mais jovens.
O filme conta a história de três amigos que organizam uma festa na casa de um deles, mas com receio de não terem aderentes, massificam os convites.
Afinal aparecem os que foram convidados e outros tantos, a ausência dos pais é compensada pela presença de álcool e drogas, a casa acaba destruída e incendiada.
A facilidade com que se chega aqui é assustadora, pois qualquer miúdo de dez anos tem nas mãos os meios suficientes para reproduzir uma coisa assim.
Sugere-se vivamente a visualização do filme, para se perceber que a parvoíce não tem limites e qualquer um pode ser arrastado para dentro das suas consequências.

Bairro de lata

Num olhar mais atento percebe-se que é quarentona. 
Esbelta e muito bonita, elegante no vestir, com classe até, senta-se diante de mim, de telemóvel na mão a marcar um número.
A classe evapora-se quando começa a falar: partilha a conversa com todos os túneis do metro de Lisboa e perfura tímpanos das pessoas mais próximas. 
O conteúdo da conversa perfura mais que os tímpanos.
Fala com a filha a quem explica que não pode ir dormir a casa porque vai ser operada na manhã seguinte; fala com a mãe a quem pede que tome conta da filha, afiançando que vai correr tudo bem. Volta a falar com a filha de quem se despede como se fosse morrer. 
Depois de uma despedida longa, chorosa e ranhosa, lá desliga o telefone.
Volta a marcar um número no telefone e, de rajada, com um tom de voz mais baixo, diz que está livre até segunda-feira. Do outro lado devem ter perguntado pela filha pois ela nomeia a criança e diz que acabou de falar com ela e que a miúda só quer ficar com os avós... 
A mim só me dá vontade de lhe pregar um estalo.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Primeiro beijo

Por estar um dia mesmo bom para beijos...

Recebi o teu bilhete
Para ir ter ao jardim

A tua caixa de segredos
Queres abri-la para mim

E tu não vais fraquejar
Ninguém vai saber de nada
Juro não me vou gabar
A minha boca é sagrada

De estar mesmo atrás de ti
Ver-te da minha carteira
Sei de cor o teu cabelo
Sei o shampoo a que cheira

Já não como já não durmo
E eu caia se te minto
Haverá gente informada
Se é amor isto que eu sinto

Quero o meu primeiro beijo
Não quero ficar impune
E dizer-te cara a cara
Muito mais é o que nos une
Que aquilo que nos separa

Promete lá outro encontro
Foi tão fugaz que nem deu
Para ver como era o fogo
Que a tua boca prometeu

Pensava que a tua língua
Sabia a flor do jasmim
Sabe a chiclete de mentol
E eu gosto dela assim


Rui Veloso

Fim de Verão? Não...

Com o Verão agarrado às pernas desprezo a chuva e saio triunfante de casa, desconhecendo a greve do metro. A meio caminho volto para trás, alertada pelo noticiário, e encaminho-me para a estação dos comboios, que passam rápidos e muito mais vazios do que imaginava.
Na carruagem o calor é sufocante e o meu vestido cor-de-rosa impõe-se no meio de tanta roupa escura, invernosa. Os sapatos, cor-de-rosa também, mesmo no rés-do-chão de tudo quanto é acessório, brilham decadentemente.
É preciso fazer a avenida da Liberdade a pé, mas resolvo assustar-me com a chuva e deixo-me ficar num café do Rossio, como se fosse uma turista. As caras cinzentas de quem tenta chegar aos empregos contrastam com os narizes encarnados dos estrangeiros que, de chinelos, ali abundam.
Com o telemóvel vejo os números do euromilhões, decidida a fazer uma loucura caso tenha sido eleita: saio do café e paro o trânsito a dançar no meio da chuva! Virá a polícia, que me levará para a esquadra, e amanhã os jornais mencionarão uma louca que teve um ataque no centro de Lisboa e que ainda piorou a situação já caótica do tráfego. Verificada a total falta de correspondência, rio sozinha e decido que já chega de pieguice, vamos lá.
A chuva abrandou e faço a avenida encostada a lojas de vidros cristalinos onde nunca entrei, e não faço questão de entrar. Sinto o cabelo encaracolar, o mesmo cabelo que me levou a levantar mais cedo para o esticar com escova e secador, tão Cleópatra que saí de casa.
Qual pato de borracha a navegar na banheira, chego ao trabalho e troco os sapatos cor-de-rosa por uns pretos, rasos, fechados.
Os pés aquecem, o vestido seca, o cabelo insufla, os óculos limpam-se, o estado de espírito não foi afectado!

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Luto de Agosto

Ao telefone com um amigo conto-lhe que passei grande parte de Agosto com canadianas, sem poder andar. Ele comenta que, tendo passado uma situação semelhante – muitíssimo mais grave em termos do acidente – aproveitou para ler tudo o que podia durante o período em que esteve na cama.
Fiquei envergonhada pois não fiz o mesmo.  Casei-me com a preguiça de tal forma que passei horas a olhar para a televisão, mais a mudar de canal que a ver fosse o que fosse, e a afastar pensamentos.
A páginas tantas ocorreu-me uma palavra que fez todo o sentido para descrever o meu estado interior: luto.
Senti-me de luto, triste e desamparada, com umas férias que eram tudo menos férias, com o rasto de uma amizade que se desvaneceu, sem dinheiro e a esforçar-me para sorrir a todos os que me visitaram ou me falaram por telefone.
Com as despesas hospitalares, medicamentos e a perspectiva de um corte substancial no ordenado de Setembro, apenas fui à praia na última semana de Agosto, tendo elegido Caxias, por ser a mais próxima de casa, para onde fui do nascer ao pôr-do-sol.
Apropriadamente ou não, li Que importa a fúria do mar, de Ana Margarida de Carvalho e reli A pianista de Elfriede Jelinek, duas gotas de água no oceano.
No último dia de férias, já em período de descontos, pois era Domingo, decido ficar em casa a arrumar roupa e a fazer limpezas. O meu filho levanta-se cedo e opõe-se determinantemente a estes planos, argumentando que o último dia de férias não pode ser passado em casa; eu que me vestisse, pois iríamos juntos à praia e ele oferecia o almoço, num sítio que eu ia adorar.
Assim, conduzimos até à Ericeira onde estava um mar apiscinado, ao contrário do habitual com ondas, conversámos sobre mil assuntos e comemos uma sopa de peixe quase à hora do lanche, da qual ele engoliu três pratos e que prometi tentar reproduzir em casa.
O meu luto coloriu-se nesse dia, o melhor de todo o mês, Agosto redimiu-se. 

Que mais me irá acontecer?

Depois de umas férias azaradas, entro azamboada na primeira semana de trabalho. Tendo o ano 52 semanas, sendo quatro de férias, estou a riscar a quadragésima oitava. Ainda a propósito da maleita que me obrigou a andar de muletas, logo no primeiro dia de trabalho vou ao médico. Diz-me a simpática senhora que, tendo médico de família, tenho que o conservar e para isso há dois requisitos: ir ao médico pelo menos uma vez no ano e ter as vacinas em dia. Já mo tinham dito e já tinha espiolhado a casa e a papelada em busca do respectivo boletim, sem resultados. Assim, foi necessário levar as vacinas novamente. Uma injecçãozita de nada que eventualmente me vai deixar um altinho no braço. Siga!
A injecçãozita de nada revelou-se uma cabra: febre, um inchaço descomunal, dores insuportáveis. Numa semana cumpri a minha quota mínima de visita aos serviços médicos para uma década. Que nunca tinham visto nada assim, e que pusesse gelo, e tomasse paracetamóis e ipobrufenos e etc., que era uma reacção à vacina – olhe, obrigadinha…
A meio da semana realizou-se o jantar de aniversário do A., em homenagem não tanto aos seus 53 anos, mas mais à vitória sobre a doença que o atacou a ele e nos afligiu a todos. Arrastada, lá fui, com uma roupa que não pensei levar pois o braço não me cabia na manga, de inchado que estava. Nem lhe cantei os parabéns, com a febre a azucrinar-me cada célula e regressei a casa onde me mantive a maior parte da semana até isto acalmar, qual tornado que se intensificava dentro de mim.
Assim que levei a vacina perguntei à enfermeira se podia ir à praia, ao que ela respondeu que não havia qualquer contra-indicação. Ora, nem praia nem meia praia, ainda para mais, choveu todo o santo fim-de-semana.
O início da quadragésima sétima semana leva-me a perguntar, que mais me irá acontecer? Com o pensamento positivo que procuro sempre, penso de quanto será o prémio do euromilhões… 

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Todos os episódios de A Teoria do Big Bang depois...

... já só os vejo, não os processo. A bem da verdade vejo-os porque o meu sobrinho adora a série e quis ver tudo de fio a pavio.
Eu, qual lontra preguiçosa, olho para a televisão sem ver nada. Quero manter-me forte como uma rocha, mas sinto-me um penhasco que se desfaz com a tareia das ondas. Afasto os pensamentos que me lembram que não mereço estar aqui deitada enquanto Agosto se esvai rindo à gargalhada, mas começo a falhar.
Fui ao médico pedir alta e foi negada. Expliquei que não me posso dar ao luxo de receber metade do ordenado no fim do mês e comprometi-me a continuar deitada usando as férias, sem mencionar as loucuras que tenho feito ao sentar-me no sofá e omitindo algumas idas à casa de banho. Responderam-me que a responsabilidade é do doente mas também do médico que lhe dá baixa; se eu quisesse ir trabalhar, que fosse, se quisesse interromper o período de baixa que o médico tinha prescrito que o fizesse, mas...
Depois das despesas médicas, com um carro avariado, a perspectiva de apenas uma das peças chegar aos duzentos euros e com uma perna às costas - no pior dos sentidos - não sobra nem para meter uma moeda e fazer aparecer um sorriso.
Assim, mesmo sem ser vidente sei que as férias vão ser as melhores de sempre: é Verão, estou fechada em casa e sem um chavo. Se me conseguisse por em pé, saltava de alegria...

terça-feira, 29 de julho de 2014

Em parte certa

A bem da verdade não tenho estado em parte incerta.
Estava de férias há doze horas, tinha mergulhado um bom par de vezes na praia fluvial de Poço Corga, jantado no parque de campismo e estávamos sentados a jogar cartas e fazer brincadeiras quando, para dar um dica ao meu cunhado, a fim de que ele adivinhasse um nome, dei um salto. Assim que os pés tocaram no chão senti uma dor intensa numa perna, de tal forma que vomitei e fiquei encharcada em transpiração. Vários centros de saúde e dois hospitais depois, o diagnóstico confirma-se: ruptura nos ligamentos do gémeo.
Meia elástica, pomada e massagens, anti-inflamatório, repouso total e canadianas. Pelo menos uma semana sem por o pé no chão, talvez duas, e só depois começar a tentar, usando uns sapatos de cunha, eu, que só tenho sapatos rasos.
Foi assim que em vez de seguir para norte, regressei a casa e tenho mais que tempo para me pôr a par das novelas, portuguesas, brasileiras, mexicanas e as mais que vierem.
Já tinha andado de canadianas mas nunca com duas e impossibilitada de por um pé no chão; não é fácil e parece-me que vou cair a cada passo nas viagens que faço para a casa de banho e do quarto para a sala.
O destino, sabendo que não posso sair de casa, entendeu que era boa altura para avariar o carro.
A tristeza é pontuada por ataques de riso, tanto azar chega a ser ridículo, e ainda mais se me lembrar que a meio da noite, entre hospitais, ainda passámos numa operação stop, o meu cunhado a assoprar o balão e a explicar que tínhamos pressa.
O riso chega à gargalhada quando me lembro que, por volta das cinco da manhã, quando regressámos ao parque de campismo, o carro não pode entrar e tive que dormir sentada no banco.
Conclusão, ainda não gozei um dia de férias e já gastei o pouco que tinha entre médicos, medicamentos e mecânico. Como estou de baixa médica, o ordenado do mês que vem vai ser uma gota de água no oceano.
Anda uma pessoa à espera desta altura o ano todo e depois ganha esta lotaria.
Já imagino certas pessoas a pensarem sorridentemente tens o que mereces, mas centro-me a pensar que estou viva e, como sempre, há pessoas em situações muito piores.
Está na minha mão recuperar e vou fazer tudo para que seja à velocidade da luz: umas idas à praia aqui ao lado ninguém me tira; afinal, tenho um mês de férias para gozar.

Em parte incerta, 4


quarta-feira, 16 de julho de 2014

Frente e verso

"Só te posso escrever coisas insignificantes. Tudo o que te queria dizer já o disse. Faltas-me tu. Neste postal só posso nomear o teu nome. Todas as outras palavras que ficam por dizer não cabem aqui. São tantas. Isto é só um postal. Mais um. Nem água do mar ou a sombra de uma árvore aqui posso deixar. Para ti. Só aqui cabe o teu nome e o teu sorriso. Por isso optei por te enviar um postal e não dizer mais nada. Será só um postal para ti. E talvez ainda consiga espaço para acrescentar um beijo".

terça-feira, 15 de julho de 2014

O seguro morreu de velho

Tenho imenso prazer em ser 'amiga' do meu filho no Facebook. Do seu círculo de amigos, sou a única mãe e, note-se, sou também 'amiga' dos amigos do meu filho.
Tenho perfeita consciência do que é ser amigo de alguém com vinte anos, meu filho incluído. Não sou, nem quero ser ser, amiga dele, como é a Rita, a Cátia ou a Sheila, nada disso. Sou mãe dele e isso diz tudo, pelo menos para mim.
Porém, a praça pública que é o facebook está vedada aos olhares de muitos pais e mães que nem sonham com os caminhos que por ali se percorrem.
Da mesma forma, muitos pais e mães expõem os seus filhos de forma desacanhada, inconsciente, tranquilos que certas coisas só acontecem aos outros.
Os foruns na internet a alertar para perigos invisíveis não têm conta; os programas de televisão multiplicam-se; os avisos nas escolas também, mas ainda há quem pense que tudo isto é puritanismo... Presta-se mais atenção a avisos da polícia sobre formas verdadeiramente criativas de efectuar roubos a casas do que a formas silenciosas e quase imperceptíveis, mas concretas, de molestar crianças.
Com frequência recebo emails a pedir ajuda sobre crianças desaparecidas e com frequência também vêm acompanhadas de fotografias onde as crianças estão quase nuas.
Respondo a dizer que a veracidade das mensagens é altamente discutível, por norma a antiguidade da informação é enorme, o envio de mensagens com imagens de crianças nuas faz de nós cumplíces da divulgação, estas mensagens servem frequentemente para gaúdio de pessoas com severos danos psicológicos que se prazenteiam e as partilham e fazem um aproveitamento de pessoas 'normais' para repassarmos emails e que a AOL, a Microsoft ou qualquer outra empresa não dá dinheiro seja a quem for pela partilha de mensagens...
Mas, tal como as mensagens a pedir determinado tipo de sangue ou medúla óssea, são passadas a outros sem que se levante o rabo da cadeira para ir doar uma coisa ou outra, também as mensagens com fotos de crianças são passadas indiscriminadamente.
Mais ainda, há quem as partilhe com o argumento que são arte...
Quando eu era miúda não havia passadeiras nas ruas, atravessávamos onde queríamos; mais tarde foi preciso regrar as passagens de peões com passadeiras e semáforos e mesmo assim há quem não os respeite, de parte a parte, e os acidentes acontecem. Os acidentes podem acontecer sempre, mas acontecem menos a quem se previne.
Para além do meu filho sou 'amiga' no facebook dos meus sobrinhos e de vários adolescentes. Uso esta rede social para brincar, essencialmente com eles, e para estar em contacto com pessoas que me são queridas mas que estão distantes geograficamente, do Algarve ao Canadá, do Porto a Moçambique. Não a uso para mim propriamente dita...
Faço tudo o que estiver ao meu alcance para permanecer 'amiga' dos amigos do meu filho e dos meus sobrinhos, atitude sem preço nos dias de hoje em que as vivências virtuais têm tanto ou mais impacto que as reais, e isso implica saber gerir os meus 'amigos' adultos que por lá andam e bloqueá-los se necessário for.
Quando vamos ao cinema ficamos em silêncio, quando a bandeira está encarnada não vamos para dentro de água, no Inverno não usamos sandálias e em qualquer estação do ano protegemos as crianças.
Há redes sociais para tudo. Porque insistem certas pessoas em banalizar conteúdos que não são para todos?
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Festa surpresa

Durante duas semanas mantivemos segredo sobre a festa de aniversário surpresa da minha sobrinha.
Os convites foram facilitados pelo facto de estarem de férias, as amigas não se encontram e o segredo manteve-se; o local, o Monte Macário, um oásis no grande oásis que é o Ribatejo, o lanche, tudo.
Chegámos ao Monte com a desculpa que íamos buscar o bolo para o dia seguinte e a minha irmã, em conversa com a proprietária, também ela cúmplice da brincadeira, nos últimos minutos, deitou tudo a perder... a gaiata ao lado dela a ouvir a conversa e ela a expôr os planos da guerra... dez minutos antes da surpresa... quando deu conta, já a garota sorria percebendo tudo.
Tirando isso, foi uma tarde de belíssima disposição com a miudagem toda dentro de água - eu incluída!
O Monte Macário é local de eleição para... tudo! Despedidas de solteiros, aniversários, dias e noites calmas, contacto com a natureza que inclui canoagem, andar a cavalo entre outras actividades, fruto de parcerias que têm com outras empresas. O melhor de tudo é poder-se partilhar - quem quiser - as refeições com os donos, cheios de histórias para contar e sempre com um sorriso amigável.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Maldito tabaco

Combino com o meu filho ir às compras ao fim do dia. Ele pede para eu esperar que o jogo de futebol acabe e digo-lhe que vou andando, que vá ter comigo ao supermercado quando já não houver golos a marcar.
Passo em casa a buscar os sacos das compras, o telefone toca e eu sento-me a conversar enquanto fumo um cigarro, o último.
Conversa terminada, lá saio em direcção ao supermercado, vou enchendo o carrinho, o Duarte aparece com a namorada, terminamos as compras os três juntos e vamos pagar.
Pagar? Com o quê? Antes do almoço tinha ido levantar dinheiro e encaixei o cartão multibanco no maço de cigarros, deitado ao lixo há pouco mais de uma hora.
Com outro cartão onde tenho menos de cem euros, com umas moedas minhas, umas notas do Duarte e da namorada lá saimos com as compras e à gargalhada, gozando os oito cêntimos que sobraram, em direcção à nossa cozinha onde eles descarregaram os sacos e eu vasculhei o lixo...

segunda-feira, 23 de junho de 2014

A riqueza do Gana

Nunca pensei no Gana como um país rico, mas contra factos não há argumentos!
É um país rico, os seus milionários são todos de idade avançada e estão todos a morrer. Por sorte há um familiar deles que sabe o meu e-mail; como? Não sei e não quero saber, logo terei tempo para isso depois de agarrar a fortuna, ou melhor as fortunas, que estão à minha disposição.
A quantidade de mensagens que recebo é impressionante e atribuo o facto de me escreverem a um simples motivo: sabem que leio o correio todos os dias.
Por este andar não tarda serei rainha do Gana e assim que o for vou criar um novo hino:

Ó Gana, Ó que lindo Gana
Ó Gana lá no Mundial
A 26 desta semana
Vê o que fazes com Portugal

Vê o que fazes com Portugal
Que não sabe o que anda a fazer
Ó Gana, Ó que lindo Gana
Ó Gana, tu vais vencer?

Eu gosto muito de ver
Jogar e marcar golos
Não deve ser  difícil bater
Quem tem tantos torcicolos!

Não m'inveja de quem tem
D'ouro bolas e botas 
Tanto milhão não dá vintém
Apenas uma grande chacota

Ó Gana, Ó que lindo Gana
Ó Gana lá no Mundial
A 26 desta semana
Vê o que fazes com Portugal

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Ouvidos de Aquiles

Sou mesmo torta: tenho o calcanhar nos ouvidos...
Desde há muitos anos que os ouvidos me dão grandes dores de cabeça. E de ouvidos, diga-se de passagem. Faço frequentemente otites sem dor o que equivale a dizer que quando me começa a doer já o caso está negro. Ontem ficou breu.
Com a face ligeiramente inchada e um mal estar no ouvido fui ao médico ao fim do dia; recambiou-me para o hospital imediatamente, de ambulância. De ambulância? Tenha calma, eu tenho carro e motorista. Pensei que se ele insistisse eu ficaria mesmo assustada, mas ele não insistiu e lá fui com o meu filho, com uma carta debaixo do braço, a caminho do hospital de S. José, pois o Amadora-Sintra não tem otorrino à noite.
Chegada lá fiquei sozinha enquanto o chauffeur foi estacionar. Inscrevi-me, fui à triagem - ou à tiragem, nas palavras de uma senhora que estava na sala de espera a reclamar com a forma como tinha sido atentida na tiragem - puseram-me uma pulseira laranja, cor tão bonita mas que ali em forma de argola se mostrou preocupante.
Entrava o meu filho na sala de espera quando me chamaram, cuscaram-me dentro dos ouvidos e perguntaram-me porque só tinha ido agora, que devia andar a tomar qualquer coisa para as dores há dias e que isto era uma irresponsabilidade e etc. Expliquei que não, que as dores até eram suportáveis e que tinha ido ao médico pelo inchaço na cara. O médico muito sério perguntou-me muito devagar se eu não estava a tomar nada para as dores... olhei-o nos olhos e, muito devagar também, repeti que não. Ele fez uma cara de quem não acreditava e ficámos assim. Sai com uma mão cheia de receitas que o meu filho foi aviar na farmácia e adormeci a pensar que durante duas semanas não posso molhar o ouvido.
Hoje tenho uma minúscula borracha no ouvido, cuja ponta se vê dando-me um ar de agente secreto, surdo, mas agente secreto.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Preciso de ti

Enviei uma mensagem com a informação titular a um amigo.
Ele respondeu-me a querer saber se eu precisava de ajuda para carregar qualquer coisa. Respondi que não, carregar não, eu própria carrego o que for necessário, apenas preciso de matar saudades e a morte é coisa difícil de adiar.

Hare Krishna

Ontem ao fim do dia a avenida da Liberdade descia em mágoa e sofrimento. Ali desaguava o Parque Eduardo VII, cheio de surpresa, desapontamento, tristeza e frustação. Muitos acompanharam-me no metro, cachecóis ainda ao pescoço, caras encarnadas e verdes, narizes amarelos.
A plataforma cheia estava silenciosa e silenciosa seguiu a carruagem. A excepção eram dois homens indianos que conversavam, sobre o quê não sei, nem alegres nem tristes, aparentemente normais. As vozes e a indecifrável dinâmica línguística ouvia-se em todo o lado, como se fossem os únicos ocupantes da carruagem, eles próprios indiferentes a todos os outros.
Encontrei-lhes uma beleza inexplicável naquela indiferença, uma beleza invejável, como são todas. 

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Faça-se Luz!

Faz hoje vinte anos que dei à luz. Foi a minha única experiência como electricista principal, pois tive outras, em que senti igualmente as dores do parto, sempre que nasceram os meus sobrinhos, quase meus netos face à diferença de idade que tenho com a minha irmã.
Logo de manhã perguntaram-me como me sentia com um filho com vinte anos e eu respondi que me sinto como se tivesse... vinte anos!
A mini festa surpresa da namorada, dos amigos e das namoradas dos amigos ontem em cima da meia-noite, onde fui incluída, faz-me sentir com metade da idade que tenho (menos de metade...), não esquecendo que é meu filho e que aqueles são amigos dele. Apesar da idade não me pesar, não faço nada o género de anunciar que somos todos amigos... cada macaco no seu galho, afinal existem muitos anos que nos separam.
As prendas sucederam-se entre roupa e perfumes e um quadro que adorei feito pelos dois grandes amigos, a quem eu chamo as eternas namoradas do meu filho: um patchwork de fotografias dos três.
Lá comemos a fatia de bolo e bebemos um vinho que eles levaram, no meio de conversa descontraída e entre todas as janelas escancaradas mas por onde não passava uma aragem.
Sorrio cada vez que me lembro pois parece que foi ontem, parece um daqueles filmes que saltam bocados da vida e vemos as personagens anos mais velhas.
Estou muito feliz, incrivelmente feliz.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Dia D

Faz hoje 10 anos, a meio da tarde, chovia torrencialmente em Caen.
Sei porque estava lá, com a chuva a misturar-se com as lágrimas que me escorriam pela cara, imparáveis.
Faz hoje dez anos, mesmo quando parava de chover mantinha-se um cinzento que nos acompanhou nas praias de Omaha, Utah, Gold, Sword e Juno.
Uma das viagens mais incríveis que já fiz, foi à Normandia, e ter lá passado o seis de Junho, foi uma inspiração.
No Memorial de Caen conversámos com um antigo soldado canadiano que nos disse saber que aquela era a sua última viagem à Europa, jovem com quase cem anos, até ele se admirava como ali estava. Ofereceu-me um pin com a bandeira do seu país e o momento em que os nossos dedos se tocaram, na troca do simbólico objecto, nunca desapareceu da minha memória, antes pelo contrário, adensa-se. Estava convencido que brevemente iria encontrar todos aqueles cujos nomes figuravam em placas nos cemitérios normandos, todos jovens como ele também fora, e voltaria a ser quando se reencontrassem.
A calma dele e da família que o acompanhava contrastava com a minha choradeira, que não conseguia parar, como se o meu campo de visão fosse uma tela por onde iam desfilando horrores, perpetrados por pessoas, pessoas como eu, afinal de contas, o que me desvairava pela pertença.
Hoje é um dia de comemoração que nunca passa sem que me lembre, que nunca passa sem que tenha vontade de chorar, que nunca passa sem raiva. Como foi possível?
A bem da verdade lembro-me todos os dias, pois tenho na cozinha, colada ao frigorífico, uma placa que trouxe de Omaha Beach, que indicava um caminho organizado naquele dia.
Nem a placa sonha que me indica a mim um caminho, diariamente, muito para além daquele para o qual foi criada.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Desorientação

Desenhados para navegar, para assustar, a mim encantam-me. Os barcos vikings, as lendas vikings, os vikings fascinam-me de uma maneira inexplicável. Sinto-me tatuada e enlevada por uma força mágica que me impele, que me conduz, que me desorienta.

O melhor barulho do mundo

A meio de trabalhos para a faculdade, apresentações e estudo para testes, o Duarte anda numa correria. Ontem à noite lembrei-o que também eu faço várias coisas em simultâneo e mesmo assim chego a casa e tenho as minhas tarefas, por isso, ele que não esquecesse as dele, nomeadamente a arrumação da cozinha.
A rir disse-me que ainda não tinha atingido a idade em que se consegue fazer várias coisas ao mesmo tempo... que ele era um totó e eu sim, um acumular de experiência, de conhecimentos e sabedoria...
Tentei atingi-lo com uma almofada e pelo caminho entornei um copo de água que rebolou sem que eu prestasse atenção ao barulho, pois nestas alturas só consigo ouvir as gargalhadas do meu filho.

Montmartre

Muro do Amor. Amo-te em 311 línguas. É pouco.

Água viva

Beijo

Sorrisos à solta na montanha

Ver com os olhos de Deus, como dizia a Karen von Blixen 

Camilo

terça-feira, 3 de junho de 2014

Waiting on the Shore... ou outra selfie.

Outra selfie


Irene Lisboa

Não sei que diga.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.

Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.

Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!

Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago...
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das horas. Mortas!

E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro!

Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
solta a outra, de pena expectante.
Uma que agarra, a outra que espera...

Ó ilusão!
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?

Silêncio.
Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! Do não, do nem, do nada, da ausência e
solidão.

Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou. 

Selfie


Pablo Neruda

...
Tú eras también una pequeña hoja
que temblaba en mi pecho.
El viento de la vida allí te puso.
En un principio no te vi: no supe
que ibas andando conmigo,hasta que tus raíces
horadaron mi pecho,
se unieron a los hilos de mi sangre,
hablaron por mi boca,
florecieron conmigo.
Así fue tu presencia inadvertida,
hoja o rama invisible
y se pobló de pronto
mi corazón de frutos y sonidos.
Habitaste la casa
que te esperaba oscura
y encendiste las lámparas entonces.
...

Fim-de-semana de dádiva

Deram-me um fim-de-semana.
O cansaço amainou, vencido pela boa disposição e pela amizade de quem me fez um polvo extraordinário e peixe assado para comer até morrer. Não há silêncio nesta relação, porque estamos sempre a falar as duas. O telefone não compensa e ao vivo e a cores parece que nos lembramos de tanta coisa que precisávamos de um fim-de-semana de seis meses. Isto se falássemos depressa, claro.
Serenei a ansiedade que anda sempre feita lapa às minhas costas e até tive vontade de chorar quando me vim embora.
Passámos em revista livros e filmes, receitas e memórias, histórias e famílias, projectos de passado, de presente e de futuro. Falámos de obcessões, de amores e paixões, das minhas descobertas de investigação, de como tenho alumiado recantos escondidos do meu coração e do medo que tenho de perceber o que me parece cada vez mais óbvio.

Grandes sonhos

Sonho com montanhas noites seguidas. Montanhas com neve, que dispenso, mas que pareço adorar no sonho; montanhas verdes, que escalo com o coração a rebentar; montanhas tão altas que do pico não se vê o chão. Mas sinto-me segura, sempre, porque sonho que um gigante sorridente me conduz.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Al Berto

visita-me enquanto não envelheço 
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos

antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro

perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água

com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te 

Não consigo tirar isto da cabeça

Não te consigo tirar da cabeça.

Uma vez que seja

Tu que navegas ao sabor do vento 
Sem outra rota que o que se deseja 
Tu que tens por mapa o firmamento 
Vem descobrir-me uma vez que seja 
E diz-me das viagens que eu não faço 
Dos mundos cintilantes que antevejo 
E traz-me mares de mel no teu abraço 
Poeira de ouro velho no teu beijo 
De ti não espero amarras nem promessas 
É livre que te quero neste cais 
Até que um dia em mim não amanheças 
E te faças ao mar uma vez mais 
E mesmo nesta hora de perder-te 
Sabendo que a magia se desfez 
Terá valido a pena conhecer-te 
E deslumbrar-me ao menos uma vez!
Letra de Ana Vidal

E eu a pagar...

Há dias na televisão dizia uma reclusa:
Está-se bem de cana... come-se e bebe-se... é caminha, é banhinho, é tudo, aqui está-se muito bem.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Estados de espírito e de corpo

Música na rua deixa-me carente.

No Polo Sul

Onde há uma Biblioteca nunca há frio.

Biblioteca Real da Dinamarca


A ressaca

Começo hoje a fazer uma formação que se prolongará até ao final de Junho. Sendo ao fim do dia, dois dias por semana, juntando-lhe uma ausência do próximo fim de semana, que será prolongado - Alô Tavira, tou chegando! - mais uns feriados e uns dias de férias e já me sinto a ressacar pela falta das minhas investigações académicas.
Como se fosse o vento que me envolvesse, uma ventania daquelas danadas que correm em todas as direcções, só ouço dizer Mas tu és doida! Quando não dizem doida, dizem maluca, mas são unânimes em apontarem-me um hospício para relaxar.
Sinto-me bem, plena e satisfeita. Leio como nunca li, textos vários, ensaios, teses, não livros propriamente ditos, e desta forma atraso possíveis doenças mentais, não deixando a cabeça por telenovelas alheias.
Adorava que os dias se prolongassem e que eu conseguisse dormir ainda menos. Digo que os arquivos deviam estar abertos fora de horas, de noite, como vemos nos filmes que há sempre bibliotecas abertas lá para as Américas a qualquer hora, em silêncio com candeeiros acesos por todo o lado. As pessoas que trabalham nos arquivos olham-me de lado e filiam-se em sindicatos temendo que a minha vontade seja levada à prática.
Ontem à noite organizei uma pilha de papelada para ler no comboio para o Algarve. Ao telefone com a minha amiga conto-lhe o que estou a fazer e ela repreende-me, lembrando-me que a vou visitar e que é suposto ter tempo para ela. Concedo e ponho os papéis de lado, procurando um livro para ler na viagem. Depois lembro-me da documentação do curso, em francês ainda por cima, e embora estivesse sozinha em casa, foi sorrateiramente que meti os papéis num saco, prontos para lire dans le train.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Fúria do Açúcar

Contra tudo e contra todos que dizem já sentir saudades do Inverno - está tudo doido! - e sabendo que esgatanho a letra, aqui fica a essência, o que interessa, o que conta, o que vale. Até passo bem sem o patrocínio e pode ser uma praia do norte, mais fria, desde que seja praia e Verão.

Eu gosto é do Verão
De passearmos de prancha na mão.
Saltarmos e rirmos na praia
De nadar e apanhar um escaldão.
E ao fim do dia, bem abraçados
A ver o pôr-do-Sol
Patrocinados por uma bebida qualquer. 

A farmácia? É já ali, a 300 quilómetros

Um princípio de AVC levou-me a alta velocidade a meio da noite do meio da semana passada ao Alentejo.
O stress do meu tio levou-o a marcar o meu número por engano, querendo falar para outra sobrinha, distante duas ruas, e não para mim, distante trezentos quilómetros. Ele, com graves problemas cardíacos, e que sempre se viu tratado e apoiado pela mulher, agora via-a a ela em estado crítico. A baralhação dele resultou em diversos telefonemas para o 112, para a sobrinha próxima geograficamente e para uma das filhas, com cuidado para não alertar a outra, ausente no estrangeiro e sem necessidade de preocupar, e numa corrida debaixo de chuva em direcção ao Alentejo, quando eram horas de estarmos debaixo dos lençóis.
Detalhes à parte, no dia seguinte fomos à farmácia aviar os remédios e, qual não é o meu espanto, quando me dizem, a mim motorista, que vá a Espanha, já agora que fizesse o favor e aproveitasse para comprar mais uns medicamentos que, com o dinheiro que aqui se gasta num, lá compram-se dois.
Para além do avio na farmácia das pessoas, fomos também comprar medicamentos para os cães, esses, três vezes mais baratos que em Portugal.
Na farmácia tínhamos cinco pessoas à nossa frente, só uma era espanhola, os outros eram tugas como nós; enquanto esperávamos a minha prima foi-me indicando as prateleiras e apontando os preços dos medicamentos de venda livre, que me iam esbugalhando os olhos, tal era a diferença.
É claro que não vale a pena ir lá de propósito comprar uma caixa de aspirinas, mas vale bem a pena encomendar ou esperar para se lá ir. 

Cansaço auditivo

Se eu fosse de criar movimentos criava um das pessoas que mudam de estação de rádio por causa de anúncios estúpidos.
O bocado da manhã em que conduzo ouço, normalmente, a Rádio Comercial, sendo fã do Pedro, do Nuno e do Ricardo. Não antipatizando, de modo algum, com a Vanda nem com o Vasco, ainda assim, a sua gestão de carreiras dá-nos um banho de voz que enjoa.
Como a presença na rádio é feita com as vozes, e ambos são a voz de inúmeros anúncios, acabam por cansar. Se os anúncios forem parvos, então... mudo de estação.
Acontece agora com o anúncio da Top Atlântico, o Top dos Pop, cujas aliterações são excessivas, monótonas e chatas.
As campanhas publicitárias a que dá voz são várias, algumas em parceria com a Vanda, o que desgasta a pessoa e dilui o interesse em os ouvir noutras situações; às tantas não sabemos quem ouvimos, se é a Vanda radialista ou a senhora que comprou um fogão a lenha, se é o Vasco profissional de rádio, ou o Vasco amante de óculos de sol.
Bem sei que os euros são tentadores, e como!, mas lembrem-se das jazidas de petróleo... esgotam.