Quinta-feira, 24 de Maio de 2012

Eu, eu, eu


Todos os dias havia uma estória que ganhava liberdade.
Zaragateavam dentro da cabeça mas tentavam que não se desse conta para serem as eleitas.
De letras esticadas, vírgulas passadas a ferro e toda a pontuação em geral em sentido, alinhavam-se ao fim da tarde como garotos num orfanato, mostrando o seu melhor sorriso na direcção da recompensa: ver a luz do dia.
Ninguém sabia qual o critério da escolha: havia dias em que era fácil, outros em que demorava a eleição como se até os espaços entre palavras fossem verificados, maiúsculas e minúsculas a serem monitorizadas, nomes próprios corrigidos.
Sem se saber como, uma ganhava uma coroa! 
Como abelha fugida da colmeia nunca mais via as outras, as companheiras, o que queria era estar exposta, ser lida, criticada e, se possível, dar prazer de leitura. 

Quarta-feira, 23 de Maio de 2012

Irmandade


O fado dormia na rua. Acordou estremunhado com um batuque africano que em nada se assemelhava às suas artérias de violas e músculos de guitarras portuguesas. Apesar disso, deu por si a bater o pezinho, acompanhando o ritmo e sentiu as ancas a mexerem-se, em leves bamboleares.
Qué lá isto? As pedras de calçada portuguesa sentiram a rouquidão marceneira.
De repente o chão mexeu-se! As pedras andaram todas de encontro umas às outras, o fado fugiu por uma viela e ouviu-se o Tejo a rir. Que tivessem calma, ele apenas se espreguiçara… O fado e a calçada espreitaram receosos de uma esquina:
- E para que te espreguiças assim, se sabes que nos assustas?
- Espreguiço-me para acordar e receber o mundo.
- Qual mundo?
- O que todos os dias faço acontecer.
- Tu? Tu não sais daí! Eu sim sou cantado em todo o lado!
- E eu? E eu? Estou muito bem representada até no Brasil! No Brasil!
- Tu só porque nasces em Espanha, achas que és um mundo?
- Têm toda a razão… sou um fio de água se exceptuarmos que em mim vivem meia dúzia de tágides e ninfas, que tenho margens com aldeias e cidades, barcos grandes e pequenos a passearem-se, alimento fauna e flora, vigio monumentos e de mim partiram grandes navegadores que deram mundos ao mundo. Tu, fado, cantas-me, e tu, calçada, exaltas-me com os teus desenhos. Tudo o que fui ainda sou e…
O Tejo foi interrompido por uma voz feminina irritada:
- Outra vez a discutirem e a ver quem é mais importante? Mas vocês não aprendem nunca que os irmãos têm que se dar bem?
- Sim mãe…
- Desculpa mãezinha…
- Mãe… não te zangues… não volta a acontecer.
Riram-se os três e voltaram o comentar o mesmo de sempre: seriam mesmo irmãos ou teriam sido adoptados pela Dona Lisboa? 

Terça-feira, 22 de Maio de 2012

Novas inscrições


Quando leio aquelas mensagens com listas de disparates que as pessoas dizem, farto-me de rir mas nem sempre acredito naquilo. Agora mudei de opinião. Com tanto evento já organizado nunca tinha participado em telefonemas tão ricos. Aqui ficam mais dois exemplos.

Um senhor liga a pedir informações sobre o colóquio que estamos a organizar. Parte da conversa foi assim:
 - …
- …
- Então e isto tem tradução?
- Não, lamentamos mas não disponibilizámos tradução simultânea
- Simultânea? Isso é que era o bonito… as pessoas a falarem e outros a traduzirem por cima, mas que grande confusão… não, eu digo tradução, como se vê fazer na televisão, sabe?, um fala e espera um bocadinho e alguém traduz, também não tem desta?
- Não, lamentamos muito, mas não há qualquer tradução
- Então, estes estrangeiros vão falar p’ro boneco, isso lhe garanto eu
- Talvez não… sabe há muitas pessoas inscritas que falam línguas
- Ah bom, olhe eu cá não falo, falo português e já chega… 
_____________________________________

Uma senhora liga a pedir informações sobre o colóquio, manifesta interesse em inscrever-se e pergunta como o poderá fazer. A conversa foi assim:
- Por norma as inscrições fazem-se através da página da internet da Universidade
- Ah, e como é que eu lá chego?
- Tem computador?
- Sim, tenho
- A senhora entra na internet e depois pesquisa a página da Universidade
- E como entro na internet?
- Quando a senhora liga o computador o que lhe aparece? O Google? Entre pelo Google.
- A senhora decida-se… entro pela universidade ou pelo Google?
- Primeiro pelo Google… depois escreve o nome da universidade e clica em cima do nome e aparece-lhe a informação sobre o colóquio
- Ah, está bem…
- E depois tem um quadrado que diz ‘Inscreva-se aqui’… mas se a senhora me quiser dar os seus dados, eu posso inscrevê-la…
- Ah, quero sim…
A senhora diz nome, morada, etc. Às tantas pergunto:
- Tem e-mail?
- Tenho sim
- Muito bem, então vai receber uma mensagem no e-mail com as referências multibanco para pagamento.
- Mas no e-mail do computador ou no do telefone?
- Se a senhora tem um telefone ligado à internet pode receber no telefone
- Há telefones ligados à internet? Não sabia…
- Pois… há, mas…
- Mas olhe, eu não sei ver os e-mails no telefone, por isso mande a tal mensagem para o e-mail do computador, sim?
- Com certeza, fique tranquila, vou enviar em dois minutos
- Então obrigada, e não se engane… não esqueça que é para o e-mail do computador!

A invenção do xadrez


Num feudo distante decorria uma recepção a um rei vindo de longe.
A rainha estava a fazer uma demonstração equestre mas o cavalo amuou, deu um pinote e atirou com a real figura.
Caída no chão, com as reais saias levantadas e a coroa aos rebolões fez o rei que estava de visita desatar a rir; o clero que o acompanhava bem tentou manter a postura, mas só conseguiram aguentar uns minutos até babarem as sotainas com tanto riso, enquanto os nobres tremiam à gargalhada.
Logo outros cavalos entraram em acesa discussão condenando uns e aprovando outros, a atitude da cavalgadura da rainha. Da mesma forma, alguns bispos se mantiveram sérios sem achar graça ao sucedido e uns quantos nobres empoleiraram-se nas torres de menagem em posição de guerra, pois que outro nome tinha aquela situação?
Começaram a espaideirar e acabaram por deixar cair uns pedregulhos que o povo aproveitou para empedrar o chão, fazendo uns distintos quadrados brancos que se misturavam com quadrados pretos.
A rainha levantou-se, berrou o meu reino por um cavalo!, e começou o jogo de xadrez. 


O nó estava preso. O medo colava-o às paredes pegajosas. Não subia nem descia naquele tubo escuro, húmido e ondulante.
Pensava para si próprio o que seria melhor: subir? Parecia-lhe ver uma luz qualquer lá em cima, de vez em quando. Mas lá de cima também é que vinham aqueles movimentos que punham as paredes a mexer em ondas, vinha um líquido espesso e coisas várias que desciam imunes a ele, que acabavam por descer empurrando-o, pisando-o, fazendo o percurso que a gravidade ditava por natureza.
Descer era mais fácil, sem dúvida, mas o nó só via escuro e a forma cilíndrica, dura e densa, parecia estreitar-se para baixo, como se fosse a entrada dum buraco negro.
De repente, as reentrâncias a que se agarrava desapareceram; o tubo ficou liso e macio. O nó sentiu-se pulverizar e num doce embalo nem soube que deixou de existir e muito menos que fora o alívio que libertara a garganta. 

Segunda-feira, 21 de Maio de 2012

Marionetas


Toda a gente sabe que os brinquedos dos quartos das crianças ganham vida à noite, na aparente imobilidade da vida humana. Só assim se explica que os ursos de peluche apareçam esfarrapados, as bonecas despenteadas, os carros não saibam das rodas e os Action Man’s dos acessórios.
Na realidade os brinquedos têm uma vida dupla e de noite satisfazem-se em vinganças uns dos outros, todos a quererem o urso de peluche do seu lado, que noite após noite mostra a sua força num ringue feito de peças de lego que se desmancha sozinho lá pela madrugada.
De todos os brinquedos os mais matreiros são as peças de lego: andam pela casa toda a qualquer hora do dia, fingem-se sem vida se alguém os encontra, fazendo uso da sua dimensão aliada à falta de vista dos humanos bem como à fraca força dos aspiradores. Quando chega o dia são os últimos a entrar na caixa pois ninguém se lembra da posição em que estavam na noite anterior quando foram arrumados, ao contrário das bonecas que, por norma, têm uma posição certa.
Lá no alto da prateleira os livros tomam uma posição superior e conversam uns com os outros alheios à bagunça geral. Dizem palavras como concomitantemente, supra ou atributo e só reagem quando os brinquedos se lembram deles para os azucrinar, ofendendo-os da forma suprema ao chamarem-lhes… brinquedos. 
Os livros fingem não ligar, não respondem às baixas provocações e arrumam-se cedo, cada qual no seu lugar, ainda os outros andam a sarabandear-se pelo quarto fora.
De manhã bonecos, jogos, puzzles, legos e livros acordam marionetas para a vida que os donos lhes entenderem dar. 

Quinta-feira, 17 de Maio de 2012

Percebes?


Eu e o jazz desentendemo-nos. Não dava mais, percebes? Aquele feitio era do pior e devo dizer uma coisa: ele nunca precisou de mim e eu quero que precisem de mim, percebes? Lembro-me ao princípio, quando ele vinha com abraços de metais que me deixavam a ferver, quando fingia olhar outras mas, na verdade, olhava-me com as palhetas enviesadas e quando me amava ardentemente naquelas improvisações, sem partituras… Sempre igual mas sempre diferente, percebes? Eu deixava-me ir, semicerrava os olhos no compasso, languescia em cada acorde, com ou sem escala, com ou sem métrica… Eu até adorava aquelas salas cheias de fumo, percebes? Uma noite encontrou-me em êxtase a ouvir a quinta e passou-se! Passou-se, percebes? E eu não tou pa isto… é só braços abertos à minha volta, vês? Não preciso dele! Não preciso! Mas, por favor não lhe contes que o vejo e ouço às escondidas, por favor… é que eu… eu não consigo… eu não consigo deixá-lo… percebes?

Quarta-feira, 16 de Maio de 2012

Sim


Procurou, procurou, procurou e não encontrou o sim. Onde se teria metido? Revirou os bolsos e afastou papéis. Nada. A bem da verdade também não sabia do não. Mas que impasse!
O não entrou sorrateiro e ficou prostrado à espera de indicações.
Sabes do sim? Não. Mas viste-o? Não.
Decidiu espreitar na memória a ver se descobria uma pista. Estava debruçada a remexer quando ouviu uma tossezinha ligeira. O sim tinha chegado.
Onde foste? Ao terceiro piso confirmar a chegada dos livros. E chegaram? Sim. E estava tudo bem? Sim. E agora, estás disponível? Sim. Então vai fazer o teu papel e diz ao dia que sim. 

Más companhias


A certeza acordou com uma enorme dor de cabeça. Espreitou pela janela e viu o céu cor de chumbo de onde sangrava chuva. Decidida, levantou-se e vestiu-se. Sentiu uma leve tontura e atribuiu-a à fome. Comeu garantias torradas e bebeu um sumo de firmeza.
Abriu a agenda e viu as marcações para o dia de trabalho: acertar umas coisas, evidenciar outras e duas asseverações na parte da manhã. Tinha um almoço marcado com a comunicação, que nem sempre era convicta, e aproveitaria o momento para lhe dar uma lição de segurança.
A dor de cabeça não amainava. Tomou uma pastilha asseguradora de melhoras e preparou-se para sair com as têmporas a latejar.
Olhou-se ao espelho uma última vez e viu a sua figura esbelta num modelo de exactidão irrepreensível, sapatos e mala em pele de veracidade e encenou um sorriso. Porém, os lábios não se mexeram, as maçãs do rosto não se retesaram levemente para trás para dar lugar ao sorriso. A certeza enrugou a testa em pânico, as mãos tremeram-lhe, a visão da sua imagem ao espelho distorceu-se perante a única certeza que a assaltava: a dúvida andava por ali. 

Terça-feira, 15 de Maio de 2012

O herói


A viagem até Gotham City era muito cansativa. Podia ser um Wayne, mas nasciam todos da mesma forma. Aquele canal estreitíssimo por onde alguém lhe derramava a vida era uma coisa atroz, já para não falar do pai que o obrigava a todo o tipo de peripécia: correr, voar, saltar, músculos sempre retesados e o diabo daquela capa da qual ele não gostava mesmo nada.
Adorava que o protagonismo fosse dado aos vilões pois assim podia descansar e não estava sempre a escorregar pelo carvão, a nascer nele, a materializar-se com canetas de feltro ou tinta que lhe deixavam sempre as orelhas, eternamente afitadas, como se estivesse a tremer, fruto da falta de respeito pelos riscos onde deviam pintar!
Está bem que havia tipos muito esquisitos na banda desenhada mas aquelas orelhas tinham que lhe ter calhado logo a ele? Ele que nem tinha qualquer super poder mas que, tal como outros cheios de maroscas fantasistas, tinha a obrigação de salvar cidades, pessoas e fazer a ordem vingar.
Ser-se boneco animado não era brincadeira e dava muito trabalho. 
Conhecia o lápis há vários meses e conseguiu convencê-lo a partir o bico antes de ser desenhado uma vez mais, atrasando assim a sua aparição num qualquer beco escuro da cidade. Era um herói da noite. Mais, o lápis devia desobedecer à mão desenhadora, esborrachando-se no papel fazendo linhas grossas das quais não se percebesse nada. 
O lápis achou piada e disse que sim, até porque gostava de ser afiado, de ter aquela sensação de madeira nova à mostra. No dia combinado quando o pai se sentou e puxou da cama de papel branco para continuar a dar vida à sua criação, o bico do lápis partiu-se. 
O pai olhou o aparato de escrita, fez menção de agarrar o afia lápis, ficou indeciso e acabou por atirar o coto de ponta de carvão partida para o lixo e continuou a desenhar com um lápis novo.

Segunda-feira, 14 de Maio de 2012

O riso da morte


A morte nem sempre estava disponível. Havia uma rede de agonia no mundo que antigamente tinha epicentros nos hospitais e agora estava espalhada por todo o lado. Erguiam-se preces a seu favor, pedia-se-lhe a presença, suspirava-se-lhe pela companhia para o além. Mas ela fazia orelhas moucas a maior parte das vezes, ou assim pensavam os que a desejavam.
A verdade era outra, a morte tinha imenso trabalho e entre uma morte natural e uma baixa de uma qualquer guerra ela dava primazia à morte natural. 
Que esperassem! 
O acumular de trabalho era culpa dos humanos que depois lhe rezavam a pedir que os fosse buscar! Que lata! É claro que estavam condenados e que ela faria o seu trabalho, que ninguém dissesse o contrário pois se havia alguém que não deixava a fama por mãos alheias era ela.
Irritava-a profundamente que pensassem que era preguiçosa e que já devia ter feito isto ou aquilo, leia-se levar este ou aquele, e que ainda não o fizera, e contava até dez para se acalmar sempre que ouvia a repetição da palavra porquê? Porquê? Porquê?, típica dos humanos que deviam conhecer a explicação mas fingiam ignorância. Ora, porquê? Porque eles a matavam de trabalho!
A morte riu-se com esta ideia… matá-la de trabalho, a ela… que ironia! 
Franziu o sobrolho quando percebeu que estava a rir, coisa que não acontecia desde… desde quando mesmo? Não se lembrava. 
Não gostava de se rir, não porque tivesse qualquer coisa contra o riso, mas porque se alguém a ouvisse podia pensar que gostava do seu trabalho e ela não gostava nem deixava de gostar, fazia-o.
Ah! Lembrou-se de repente quando tinha sido a última vez a rir: foi quando a medicina começou a dar grandes avanços, retirando-lhe algum trabalho, pensando que eram passos para a eternidade, sem perceber que eram simples minutos para os homens. 

A ribeira


A ribeira tinha orgulho em ser pequena. Os grandes rios eram compostos por ignorância: as gotas não se conheciam, embarcavam bastas vezes a meio do percurso, não sabiam quem era quem, cruzavam-se mas não se misturavam.
Todas as gotas da ribeira conheciam a sua nascente, era ali naquele fofo de terra que parecia areia que a água brotava devagar, sedosa, nascendo. 
A maternidade da ribeira estava quase sempre à sombra, protegida por um grande loendreiro branco, vizinho doutros meios rosados, a quem dava de beber, benigna. 
Um pouco mais abaixo havia muitas silvas que picavam com fúria se alguém as tentasse arredar e havia sempre um temerário a querer passar, um cão que perseguia um cheiro, uma raposa que buscava refúgio ou um cágado que simplesmente caminhava e era, talvez, o único que conseguia passar.
A ribeira abria-se para toda esta gente pulsando vida e generosidade e aceitava saltos de rapazes para os seus pegos, apenas dois ao longo do seu curto percurso, que salpicavam as margens e faziam rir uma azinheira que se debruçava curiosa sobre a água que corria cantando.
E assim tinha sido a ribeira quando a avó era pequena e a avó já é avó, e assim é a ribeira quando a neta já é mãe e assim será a ribeira quando a filha for avó, porque a ribeira é pequena, mas consta dos anais da história e nos desejos das crianças. 

Sábado, 12 de Maio de 2012

A visita


O raio de sol vinha todos os dias. Sem falta. Àquela hora, mais minuto menos minuto, entrava sem pedir licença e estampava-se na parede do fundo da sala. Ia andando devagar, saltando por cima dos móveis, dos livros emprateleirados, da parte de cima das costas da cadeira, pelo espelho, por dois quadros e no canto cheio de vasos com plantas, matando a curiosidade e sentindo a pele das coisas. Depois ia-se embora, de repente, como se tivesse sido chamado para lanchar.
Todos os dias repetia o percurso, como se não se lembrasse do trajecto que fizera no dia anterior, e no anterior e no antes desse e por aí fora ao contrário.
A palmeira já tinha comentado com o feto e com a avenca que o raio de sol devia sofrer de Alzheimer porque se apresentava todos os dias como se fosse o primeiro. Que coisa estranha. 
Nunca se lembrava das cócegas que fazia no bonsai, do cacto que se espreguiçava ou dos quadros que estavam sempre a desejar que se despachasse porque iriam ficar desbotados. Mas uma coisa era certa, entrava sempre bem-disposto, a rir e adorava tudo o que estava na sala, mesmo esquecendo-se deles de dia para dia.
Um dia trovejou. Os raios ouviam-se assustadores e os relâmpagos inundavam a sala. Foi o tapete que teve a ideia de lhes perguntarem pelo raio de sol que ali ia todos os dias e caminhava com calma. 
O relâmpago falou depressa e com intervalos sem perturbar a performance dos trovões. Não, não era da família dos raios de sol, iluminava mas tinha uma origem bem diferente. 
A mobília estranhou o plural: raios de sol? Então não era sempre o mesmo? Estava explicado.

Sexta-feira, 11 de Maio de 2012

Só há uma... e é para mim...


Desde muito nova que a mãe e as vizinhas lhe tinham diagnosticado a vidência. Ouvia vozes. A bem da verdade ouvia uma voz. Insistente, persistente, chata, que as mais das vezes a levava a não querer fazer o que a providência lhe tinha reservado como caminho de vida: estar sentada a ver pessoas cirandar diante de si contando-lhe problemas tão dispersos como as sete partidas do mundo. E esperando que ela os resolvesse.
A voz aumentava de volume e de tenacidade a cada novo interlocutor. 
Abanava os braços para a afastar, sacudia a cabeça para a calar, abria os olhos para fulminar a mãe, as vizinhas, as mulheres e homens e crianças que se postavam diante dela, às vezes de joelhos. 
Está a comunicar! Diziam as vozes que pertenciam às pessoas e que saiam das gargantas de forma natural.
Da garganta dela saiam gritos firmes e teimosos que eram seus, mas provocados pela voz e assim mais se convenciam todos do poder que residia naquele corpo, e esperançavam da façanha que traria a salvação.
Sob o olhar vigilante e o sobrolho carregado da mãe, o pranto atreveu-se a interrogá-la se alguma vez lhe tinha ocorrido saber de quem era a voz que ouvia tão obstinada. 
Afastou-o passando as costas da mão pelo rosto, acalmou a voz e fez a pergunta, tão óbvia, mas que nunca lhe tinha ocorrido. A resposta veio natural, espontânea:
- Chamo-me Consciência.

Poluição


A poluição não percebia porque não gostavam dela. Esmerava-se no cinzento dos dias, no espalhar do fumo que saia dos escapes dos carros e das pontas de cigarros acesas, entre muitas outras tarefas. Mas sentia-se uma enjeitada, uma órfã. 
Tinham-na criado e agora batiam-lhe, massacravam-na com violência, apupavam-na, apontavam-na na escola às crianças como uma coisa má, a evitar, a combater, a abater. 
Juntavam-se pessoas em todo o mundo e faziam autos de fé, torturavam-na, acendiam fogueiras e deixavam-na arder entre manifestações de gozo.
Inexplicavelmente, a cada momento e em simultâneo com tão ultrajante comportamento, contribuíam para a sua sobrevivência, aumentavam-lhe o tamanho, abriam-lhe novas portas e janelas. 
É certo que constatava haver algumas diferenças, ou melhor, dificuldades de linguagem, pequenos desaguisados conceptuais, que consistiam na falta de harmonização do nome das coisas: garantiam a existência de monumentos em sua honra, com a preservação daquilo a que chamavam lixeiras ao ar livre; avançavam na construção de complexos fabris, que mais não eram que maternidades de si própria; afirmavam tratá-la, embora não soubesse de que doença padecia, mas apenas a transferiam de local, principalmente se fosse na sua vertente de lixo tóxico. Os exemplos eram tantos que a cansavam. 
Sentia-se a viver na história da casinha de chocolate, queriam matá-la, mas engordavam-na. Sentia-se um monstro e chamava pai a cada um dos sete biliões de Victores Frankensteins que habitavam a Terra.

Quinta-feira, 10 de Maio de 2012

A inscrição


Estou a organizar um evento internacional. Por mim, e por entre mil coisas, passam também pedidos de informação. Registe-se o último, com nomes e títulos de comunicações alteradas que, a bem da verdade, nada têm de interesse comparados com o diálogo que se estabeleceu. Chamemos ao meu interlocutor, Sr. José Silva.

- Boa tarde, quero informações sobre o colóquio e as visitas aos monumentos
- Com certeza, o colóquio abre dia 10 no Museu e continua no mesmo local dias 11 e 12. Dia 13 as sessões decorrem em …
- Isso já eu sei, porque tenho aqui o programa, mas eu queria perceber o que é que se vai passar, percebe? Olhe por exemplo aqui no primeiro dia… o primeiro dia é de graça, verdade?
- Sim, a entrada é livre
- Pois, então diga-me lá, o Prof. X vai dizer o quê? Este título Marquês de Pombal e o seu tempo… é exactamente o quê?
- Sr. José eu não sei… mas sugiro a inscrição para que possamos ouvi-lo, o Prof. X é sempre agradável de ouvir e…
- Mas se eu não sei o que vão falar também não sei se me hei-de inscrever, ‘tá a ver?
- Mas é por isso que os títulos nos dão uma pista… são um resumo resumidíssimo da comunicação
- Da comunicação?
- Sim, da palestra
- Ah, a palestra, sim… mas olhe cá… este Antunes por exemplo, desafios técnicos da concepção da… isto é o quê? Ele vai dizer o quê? Que desafios são esses?
- Sr. José são os desafios da construção, os…
- Mas isso minha senhora, um profissional sabe ao que vai! É o trabalho dele, não há cá desafios!
- Mas ele refere-se também ao processo de transporte do local onde foi feita a obra para o sítio de instalação final, a montagem, essas coisas
- Ah bom… isso assim é outra coisa, que aquilo não deve ter sido fácil…
José Silva, do outro lado do telefone, lê os títulos e nomes dos conferencistas devagar, perguntando o óbvio:
- Portanto, António Gomes fala sobre a Conjuntura Económica na Passagem do Século … Francisco Marques, A sociedade plural em 1900…
Os nomes e títulos sucedem-se. Por fim diz:
- Então e agora diga-me cá uma coisa… esta Maria Antónia… o que é que a senhora me pode dizer sobre ela?
- Bem… é professora na faculdade de direito…
- Ah… então não é a mesma… sabe eu conheci uma Maria Antónia há muitos anos… mas não, Direito, não é mesma…
Eu, atalhando:
- Sr. José, o senhor tem um email para onde eu lhe envie o processo de inscrição?
- Olhe, não tenho e nem quero ter - ressalte-se que foi o único momento em que José Silva levantou, ainda que ao de leve, a voz. - A senhora pode inscrever-me para dia 10?
- Posso com certeza! O senhor não é estudante, correcto?
- Estudante… – ri-se com satisfação – já fui há muitos anos, mas já não sou, já não tenho idade para isso
- Sr. José já recebemos inscrições de pessoas que frequentam a Universidade Sénior e…
- Ah! Agora que a senhora fala disso estou a lembrar-me… sabe eu ontem encontrei uma grande amiga ali… ai, como é que se chama aquilo… ali ao pé de Sacavém…
- …aeroporto?
- Não… ah, já sei, na Portela, encontrei uma grande amiga… mas só amiga, que até conheço o marido dela e damo-nos muito bem, e ela disse-me que andava na universidade e que eu fosse lá inscrever-me e estou até a pensar nisso, mas se a senhora não falasse, olhe já não me lembrava.
- Pois, mas ainda não sendo aluno, os preços são normais
- E quanto é?
- O colóquio são 40 €
- Pois, 40€… olhe, inscreva-me para dia 10 que é de graça, e eu depois nesse dia logo vejo. Há-de haver lá um guichet onde me inscreva, não é assim?
- Sim Sr. José… eu própria lá estarei
Uns segundos antes, em desespero de causa, eu telefonara de um telefone móvel para outro e quando começou a tocar disse-lhe que era uma chamada muito urgente.
- Muito bem, mas já estou inscrito?
- Sim, para dia 10, está inscrito
- Então apresento-lhe os meus cumprimentos e obrigada.

Rapaz sem brinco de pérola


Entro na carruagem e constato mais uma vez que, sem que o consiga perceber ao fim de centenas de vezes, os lugares para grávidas e etecetera são os primeiros a ser ocupados por pessoas que parecem escolhidas a dedo: jovens que carregam head-phones, matronas que carregam um ou dois pneus tipo camião, homens fardados com fato e gravata. Nenhum está grávido, não ostentam canadianas, estão longe da velhice e não há crianças sentadas ao seu colo.
Sento-me e, atravessando o olhar pela janela, dou com uma imagem estranha: no banco da plataforma, como quem espera um comboio, está um rapaz de perna cruzada, todo enrolado sobre si mesmo, cabeça a pender sobre o peito. Dorme, dorme mal, mas dorme, escorrega-lhe a perna e ele endireita-a, escorregam-lhe os ombros e ele endireita-os, escorrega-lhe a cabeça e ele endireita-a, escorrega-lhe um braço e ele endireita-o, garantidamente bêbado de sono, se de outras coisas não for também, alheio ao comboio que está ali parado, como se não tivesse esse hábito por ser a estação primeira, terminal diríamos nós se fosse ao contrário e assim lhe chamo mas só ao fim do dia, que ao príncipio tudo começa, até a estação que ontem às oito horas da noite era a última, hoje é a primeira, e nela está parado o comboio como quem aguarda, como se desse tempo ao rapaz de boné vermelho com pala virada para trás, cuja cara nunca se viu, que acordasse e entrasse, que é para isso que os comboios servem, para levar as pessoas de um lado para outro, e para passar servem as estações, não para estar, e muito menos para dormir.
Talvez cansado de esperar, o comboio dá um apito, as portas negam a franquia da entrada devagar, num vagar de quem dá uma última oportunidade, vem, vem depressa, e acabam por se fechar. Entramos no escuro do túnel e o rapaz continua a dormir aos solavancos no banco da estação. 

250 gramas de contentamento, por favor


O contentamento vivia aos cachões no sorriso do velho, mas não parava dois segundos na ansiedade do neto. Morria à nascença. Mais, mais, mais, mais. Era no mais e mais que o neto conseguia sentir um laivo de contentamento, um laivo só, daquele onde o velho se banhava. Nunca chegava, nunca era suficiente, era mais, só num breve efémero.
O velho sorria ao dia sem dores e ao sorriso do neto, sorria ao amanhecer, às refeições e às pessoas, sorria quando esticava o braço fora da janela para deixar as gotas da chuva pendurarem-se nas rugas das suas mãos e escorregarem pelos seus dedos.
O neto sorria de felicidade ao dinheiro e sorria de escarnecimento ao contentamento do velho. Contava como teria mais contentamento se o saco da vida lhe permitisse arrastar mais coisas, coisas que não cabiam na sua casa e estranhava a conversa do velho que afirmava que se contentava com coisas que lhe cabiam no peito e no coração. Abanava a cabeça e afirmava que o velho não percebia. Nunca explicou o quê e irritava-o que o velho se risse naqueles momentos. Pedia-lhe e o velho dava-lhe pois sabia que se lhe desse o neto sorriria e no sorriso do neto ele aumentava o seu contentamento.
Um dia o velho morreu e deixou uma herança. Havia muito dinheiro mas nem rasto daquele contentamento que o velho acumulara e que estava sempre a mostrar. Nesse momento o neto olhou-se ao espelho que lhe reflectiu um enorme vazio interior.

Sopa do dia


A fervura envergonhava a couve e fazia-a minguar. Aquele ar de pavão no cio que tinha lá no quintal transformava-se numa atitude resignada perante a água fervente. Encolhia cada vez mais à medida que os borbulhões aumentavam, aos saltos, completamente descontrolados.
O escuro vinha com a tampa da panela e mesmo os breves instantes em que era levantada nada diziam à couve que se conformava com o seu fado, embora não soubesse qual era.
De repente a tampa levantou-se outra vez e entraram batatas aos cubos, metades de cebolas e lascas de cenouras que se instalaram no meio da couve, ajudadas por uma colher de pau que entrou, deu duas ou três voltas verificando a ordem do lugar e saiu para parte incerta.
A água saltava, doida, e os quadrados de batata meteram conversa com a couve dizendo terem uma vaga ideia que se conheciam. A couve identificou-se e foi logo acrescentando que não percebia porque estava tão mirrada, olhando para as suas companheiras cujo corpo não crescia nem diminuía, à excepção das metades de cebola que mostravam uma certa moleza; só conseguiu provocar risos de escárnio nas outras, acompanhados de comentários pouco abonatórios, Olha, olha, quem aqui está… quem é que falava lá do alto, quem era? Quem é que nos perguntava como era a vida debaixo de terra, quem era? Quem é que apanhava as primeiras gotas de chuva e deixava os restos para nós, quem era? Quem é que servia de poiso a borboletas e se ria porque nós só víamos minhocas, quem era?
Estavam as batatas, as cebolas e as cenouras nestes pedidos de explicações quando a tampa voltou a levantar-se. Esperaram a entrada vigilante da colher de pau mas entrou outra colher, esquisita, sem ser de madeira e com uma lâmina em forma de tridente na ponta. A coisa esteve um segundo no meio dos legumes e desatou a dar voltas a uma velocidade alucinante, transformando tudo numa polpa de cores e texturas cruzadas.
Antes que a tampa voltasse novamente todo aquele miolo foi salpicado por um granizo branco e levezinho que se esgueirou por entre os milhões de pequeníssimos intervalos, mas ainda a tempo de ouvir os minúsculos grumos interrogar-se sobre o que acontecera, e de esclarecer, desfazendo-se de forma saborosa, que todos juntos eram a sopa do dia.

Quarta-feira, 9 de Maio de 2012

O Placebo


O placebo usava fato e gravata. Nunca alguém o vira com outra indumentária, colarinhos juntinhos ao pescoço bem escanhoado, mangas um bocado compridas a esconderem-lhe as mãos, face bronzeada o ano inteiro. Um figurão.
Sabia que provocava efeito, que era eficaz e sorria na mentira assumida e perpetrada em novos e velhos, miúdos e graúdos, quebrando quebrantos, impondo ordem, estabelecendo normalidade.
Embora sorrisse sempre o placebo era desconfiado e assustadiço. Vivia no fio da navalha com medo de ser descoberto e habitava lugares confusos e meios obscuros; não se dava e engolia a raiva que sentia quando era desmascarado. Nessas alturas, aguardava pacientemente até que se lembrassem dele e podia passar algum tempo, mas havia sempre quem se voltasse a recordar e o fosse buscar.
Só havia um lugar donde nunca o expulsavam, onde o tratavam como rei, era bajulado, as lisonjas caíam-lhe no colo, vivia engraxado como sapatos nunca usados, de tal forma que ele próprio acreditava em si. Era na Política. 

Ora esta...


Os barulhos da casa andavam numa roda-viva. Iam ficar sozinhos durante um mês, um mês inteiro. Quando se ouviu o tchanque final na última volta da chave na porta da rua, o silêncio instalou-se por uns minutos na penumbra da casa, não fosse alguém voltar atrás, lembrados de alguma coisa esquecida. Depois, foi o regabofe: o ranger das portas espreguiçou-se, os estalos da madeira dos tacos fizeram-se ouvir como fogo de artifício, o tremor do frigorífico juntou-se à festa, os calafrios dos estores fizeram-nos abanar, a trepidação das portas do roupeiro estardalhou mais alto, os cliques e claques dos interruptores cabriolavam, o transe do exaustor soltou-se como se fosse um comboio e quase calava o pi do relógio do forno e o ping-ping da torneira da cozinha.
Apesar de tanta algazarra, o trrim do despertador, sargento daquele exército, sacudiu-se e calou a barulheira geral. Estabeleceu horários para cada um se manifestar, falou dos vizinhos proibindo orgias barulhentas e afirmou que era agora, agora mesmo, que iam ter uma conversinha com o eco que se fazia ouvir na casa de banho. Os assobios das frechas das janelas começaram logo a silvar que o eco sofria de flatulência, provocando chichorrobios, sibilos e ciciares de gozo em toda a comunidade.
Puseram os olhos no ranger da porta da casa de banho, que se abriu de par em par, mas do eco não havia sinal. O trrim estava a perder a corda, furioso, mas nada pode fazer perante a desaparição do eco.
Em alaridos, chios, soadas e várias outras manifestações, concluíram que o repetitivo eco era o mais esperto deles todos pois tinha ido com os donos da casa de férias. Meios envergonhados e invejosos, viraram-se cada um para seu lado e só se ouvia, ora esta, ora esta, ora esta… 

Ai que dor!


A ausência de meias hoje pesa-me as toneladas do ferro de onde saiu o prego que teima em espetar-se-me no pé. O primeiro degrau da biblioteca sentiu a sola do meu pé direito pois assim que lhe cheguei descalcei-me e aguardo que uma colega me compre umas palmilhas, na esperança que sofoquem o raio do prego, já que martelá-lo não deverão ser capazes.

Segunda-feira, 7 de Maio de 2012

Maus caminhos

O projecto Criar Afectos fez uma surpresa à Marisa Pereira e foram ao programa de televisão Com Amor se Paga.
Os testemunhos são reais, disso sou testemunha. E se o meu pai estava bem, a minha mãe estava com o seu eterno ar de Grace Kelly, linda, em destaque só por existir.
Normalmente falamos dos jovens e dos maus caminhos que percorrem, daqueles de onde queremos que se desviem, se possível, como se fosse possível, que nunca deles ouvissem falar.
Mas maus caminhos existem onde menos se espera e no que aos séniores diz respeito, não há pior trilho que a solidão.
Este é o trabalho do Criar Afectos: tirar aquela malta de maus caminhos, contribuir para que percebam que ainda são gente, que são sempre gente.
Disseram, e eu concordo, que boas ideias há muitas, mas faltam pessoas para as pôr em prática. A Marisa deixou um desafio: aproveitem o exemplo e Criem Afectos. Se os guardarmos para nós e formos poupados no seu uso e na multiplicação com os outros, corremos o risco de um dia olharmo-nos ao espelho e não reconhecermos aquela pessoa que ali está.

Dia de Mãe, dia de barriga cheia...

Ai que dia...
Manhã cheia de mimos à mulher que sou, dados por mim mesma. Manhã polvilhada por uma surpresa do Duarte, em palavras e actos, à mãe que sou. Ao almoço a minha mãe adorou a colectânea de poesia que lhe ofereci, e a filha que sou ficou sorridente e feliz... podíamos ter evitado o arroz com coentros e mais qualquer coisa que ninguém percebeu o que era, pouco saborosa mas que nos fez rir...
De tarde fomos ao cinema. O Duarte resolveu condescender e aceitou ir ver um filme que eu e a minha pré-nora já combináramos ver juntas, uma vez que ele achava que não era para homens: Espelho Meu.
Sendo Dia da Mãe o meu filho resolveu fazer o sacríficio e ir ver um filme de crianças e crianças gajas...
A miúda namorada dele ficou a sorrir, a miúda mãe dele ficou a pairar de satisfação, o dia corria todo tão bem...
Demo-nos ao luxo de comprar gelados, coca-cola para ele, água para nós e entrámos. Inexplicavelmente o filme não cumpriu o horário, passavam dez minutos da hora e ainda corriam as apresentações, coisa com a qual não nos importámos, ninguém nos esperava, e a disposição era a melhor.
Finalmente a sala escureceu e no lugar da mazona Julia Roberts apareceu o John Cusack vestido de Edgar Allan Poe...
E foi assim que no meio de uma investigação policial de um crime horrendo três pessoas riam que nem maluquinhas, e só faltaram os protagonistas mandarem-nos calar.
Lá sossegámos e vimos o filme, embora eu não tivesse conseguido ver o Allan Poe pois o John Cusack estava sempre ali. Foi estranho. Mais estranho ainda foi relembrar a minha professora de tradução e interpretação do liceu que era obcecada com Annabel Lee. Eu procurava a ajuda de Fernando Pessoa e das suas traduções, que decorava; ela percebeu imediatamente a intrujice e deu-nos uma lista de autores para que escolhessemos os que gostávamos mais, lembrando que quanto mais conhecessemos um autor, melhor seria para nós. Oh... aquele sorriso, devia ter desconfiado dele...
Deixei de lado, entre vários outros, John Keats e Shelley que, não era preciso ser muito esperto, foram os que me calharam na rifa daquela que, naquele momento, se transformou aos meus olhos numa víbora! Fiquei a conhecê-los, não da melhor maneira, mas a partir daquela altura já não podia alegar ignorância sobre a sua existência. Há males que vêm por bem.
O dia acabou e guardei dele uma boa lembrança, foi um dia de barriga cheia. Apenas não ouvi a voz do pai do Duarte a parabenizar-me por ser a mãe do seu único filho, acho que o devia ter feito.
Paciência.

Convite

Desde há muitos anos que decidi nunca ser enterrada, nem morta... a excepção é no trabalho. Assim, escrevi um documento que entreguei a duas pessoas diferentes com as orientações que devem seguir depois de eu morrer. Nem enterros nem fogueiras: serei entregue ao Instituto de Medicina Legal do local onde viva na altura para que os alunos de medicina possam aprender comigo. Não deixo de sorrir com esta perspectiva, a de permitir e providenciar o ensino a futuros médicos, eu que apenas sei reconhecer a dor e sei que existem aspirinas, nada mais. Bem, talvez um pouco mais que o meu pai que, quando era garoto, punha o termómetro e verificava a febre vezes sem parar, pois acreditava que servia para tirar a febre...
Não estando doente nem com alguma coisa que me faça prever o aproximação da morte, mas porque ela anda sempre a rondar, não tendo problemas em falar dela e sabendo que um dia vai acontecer, deixo aqui um convite, que de mórbido nada tem, apesar de poder ser assim catalogado por algumas pessoas. Quem assim pensar é um triste, para além de estar em desacordo total com as mais actuais técnicas e estratégias de gestão que preconizam o planeamento como uma etapa fundamental para o sucesso.
O convite é para se juntarem conhecidos e desconhecidos a beber copos e a dizer todas as mentiras possíveis, numa espécie de concurso: como eu era fantástica e boazinha!
O local ideal seria o bar da praça Jem El Fna em Marraquexe, mas fica um bocadinho longe da minha actual localização. A segunda escolha é o Martinho da Arcada, ali no Terreiro do Paço, mas temo ser grande de mais.
À terceira é de vez! Pode ser ali na rua, encostados aos carros estacionados, a transpirar numa noite quente de Agosto ou a apanhar chuva molha parvos, apropriadamente para a maioria, num princípio de Primavera. Escolhi este local lembrando-me de quantas vezes fui jantar com a combinação de, a seguir, irmos a qualquer lado, e a conversa fazia-nos demorar à porta dos restaurantes até às 3, 4, 5 ou 6 da manhã...
Não quero choradeiras nem queixumes, tanto mais que não haverá alguém com dívidas para receber!
Porque é que me lembrei disto agora?
Fui comprar uma lembrança para a minha mãe e optei por um... livro. Esquisita lembrança para uma pessoa como eu... mas enfim. Vai daí, dei com os olhos nas antologias de poesia na prateleira de baixo, sentei-me no chão, cruzei as pernas e fiquei a pairar como se fosse um monge em oração, esquecida do mundo.
Naveguei por letras e sentimentos, imagens e desejos, deixei os dedos amarem o papel e dei por escolhida a prenda.
Levantei-me e dei uma cabeçada digna de um cabeçudo num separador de assuntos em metal que se meteu no meu caminho. Foi de tal forma violento que larguei a antologia, a mala e o casaco e mergulhei num limbo por alguns instantes, ou seja, distraí-me e nesses segundos de distracção, como quem goza comigo, ainda por cima, alocou-se um enorme galo na cabeça, com poleiro e tudo.
Como normalmente acontece nestas alturas, e garanto que não é só nos filmes, batemos de um lado, desviamo-nos e acabamos por bater noutro sítio qualquer ou em alguém, ou deixar cair qualquer coisa. Pois foi o que aconteceu... quando caí em desmaio aproveitei um senhor que ia a passar e caí-lhe para cima. O pobre homem, ou por se tentar desviar ou por ter sido apanhado desprevenido com semelhante ataque, precipitou-se para cima de uma pilha de livros que se estatelaram no chão.
O meu desmaio não foi à séria... não cheguei a perder os sentidos, embora me sentisse como um marinheiro em mar picado e acabei por me levantar atabalhoada e com uma capoeira na testa e ainda ajudei o homem a levantar-se.
Confesso que as dores eram tantas e o azamboado tão grande que nem ajudei a apanhar os livros; dois funcionários quiseram saber se eu precisava de alguma coisa, mostrando preocupação e o homem chegou  a sugerir que fosse vista...
Por segundos ocorreu-me que podia morrer dentro de uma livraria! Coberta de livros que saltariam das estantes para me taparem, as revistas a pedirem para se organizarem por ordem alfabética, os livros infantis a colorirem a cena, os livros técnicos a aguardarem solenes, os editados por mim a meterem-se-me debaixo da cabeça para me almofadarem a posição, as personagens dos romances a saltarem das páginas e a recontarem os momentos em que eu os tinha lido e a misturarem histórias, estórias e mil momentos, criando um sepulcro agitado e vivo, com mortos e vivos, imortais divertidos e inesquecíveis, fazendo planos e querendo saber sobre quem andaria por ali que me pudesse substituir.
Era uma boa morte.
Seja como for, mantêm-se o convite! Apareçam!

Sexta-feira, 4 de Maio de 2012

Mãe

A galinha cacarejava como se não houvesse amanhã. Os patos já se tinham cansado de grasnar a mandá-la calar e as ovelhas tinham ido balir para o outro lado do pasto, onde o vento levava os barulhos para longe.
As vacas já tinham mugido perguntando-se que algazarra era aquela, os cavalos responderam com relinchos que não sabiam, e os burros zurraram que também não.
Ladraram os cães, miaram os gatos, chiaram os ratos, grunhiram os porcos, abafando os gritos do homem que tentava calar a bicharada. Sem sucesso. A galinha dava asas ao cacarejo, não se calava e corria de um lado para outro. Uma cobra que por ali passava fugiu a sibilar, as pombas arrulhavam em sussurros desaustinadas com a aflição da galinha, os perus grugulejavam preces para que todos se calassem, as abelhas nem zumbiam escondidas no cortiço.
O crepúsculo veio encontrar o homem em desespero com aquele fenómeno nunca visto; agarrou numa espingarda e fê-la troar, conseguindo um silêncio assustado e encolhido que se sentiu até no lago por detrás da casa onde os sapos pararam com os coaxos e um lobo atrevido que se tinha aproximado para beber fugiu sem uivos para o meio da floresta.
Com o silêncio veio o piar. Fraco, longínquo, medroso, mas era um piar. A galinha parou, baixou as asas, abertas de dor há horas e ficou à escuta. Sarabandeou-se em direcção a um prado para lá da cancela, convicta que o piar vinha de lá. Não demorou a ver o amarelo das penas do pintainho e chamou-o num cacarejar sereno e calmo. O pintainho aproximou-se da mãe a tempo de ver o homem agarrá-la pelas asas e apertar-lhe o pescoço.

Quinta-feira, 3 de Maio de 2012

É assim a vida


A hipocrisia estava sentada na última fila de carteiras. Tímida, quase invisível, mas muito pontual, nunca faltava. Ao seu lado estavam a sacanice e a troça. A sacanice era hiperactiva e a sua irrequietude levava a professora a estar sempre a repreender alguém, não se apercebendo que a sacanice se divertia a mandar papelinhos soprando pelos tubos vazios das bic’s, obrigando os alunos a mexerem-se nas cadeiras e a voltarem-se constantemente para trás, com repetidas admoestações da mestra.
A troça, muito séria, ria-se a bandeiras despregadas e provocava cócegas no interior da sacanice, levando-a ao auge do gozo e a satisfazer-se ainda mais com todas as suas acções.
No recreio a hipocrisia não brincava fosse com quem fosse mas marcava presença atrás de uma árvore a ouvir conversas ou ficava parada junto a um grupo parecendo estar a contar nuvens e só ia embora quando chegava a verdade que, barulhenta, deitava abaixo as construções da sacanice.
A troça ficava um bocado imune às acções da verdade pois nunca tinham tido um desentendimento maior; mas a sacanice aproveitava todas as ocasiões para a deitar abaixo e um dia perguntou-lhe, de longe, se queria brincar. A verdade, que não mentia, disse que sim. A sacanice sugeriu que andassem de baloiço e começou a empurrar a verdade, a empurrar, a empurrar, sob o olhar vigilante da hipocrisia. A confiança ainda lhe gritou, Cuidado!, mas a verdade, pura e despreocupada, não ouviu e quando se sentiu projectada nos ares e caiu por terra desfeita, já era tarde.
A sacanice contou então que a verdade se partira porque não era verdadeira, era até bem falsa! A hipocrisia assentiu com repetidos gestos de cabeça, a troça engasgou-se de tanto rir e até que a verdade recuperasse, voltasse a endireitar-se e pudesse contar como tudo tinha acontecido, todas as outras cresceram e foram mães. 

Ca-no-a


Ca-no-a, Ca-no-a, Ca-no-a, gritava em prece o público ao fadista.
Ele sorriu aquiescendo, fez-se silêncio e, como se viesse das profundezas da Terra, em arrepio, ouviu-se a voz:
Canoa…
A cara transfigurou-se-lhe, a voz susteve-se algures entre a garganta e a boca. O fadista em pânico é levado ao hospital onde explica que não consegue passar daquela palavra, ele que canta aquela letra há anos, que a tem não decorada, mas interiorizada, faz parte de si.
Os médicos não têm explicação, os astrólogos não encontram erros na conjunção astral, os feiticeiros confessam-se impotentes para fazer o vento soprar nas fragas.
Ninguém reparou que a vela estava simplesmente arreada.

Iogurtes


- Mãe… trazes-me cereais com iogurte?
- …
- Mãe! Trazes-me…
- Já vão a caminho… calma…
O Duarte olha a taça de cereais onde escorre um delicioso iogurte grego de limão.
- Oh mãe… escuta uma coisa… o nosso carro funciona a quê?
Franzo os olhos antecipando o sermão.
- A gasolina…? – respondo eu, com dúvidas sobre a orientação da pergunta.
- Exacto. Mas sabes que há carros que funcionam a outras coisas… verdade?
- Sim, a gasóleo, a gás, a electricidade
- Esquece o gásoleo… E porquê? – o ar dele é professoral e triunfal
- Para se poupar energia, para nos organizarmos com os recursos existentes…?
- Muito bem outra vez!
A pausa faz-me cócegas. Afinal onde é que a conversa ia parar, tanto mais que se os cereais fossem quentes já estariam gelados.
- Oh mãe, com os iogurtes a lógica é a mesma… inventaram os líquidos porque os sólidos são… são o petróleo, ‘tás a ver? E tu trazes-me uma… uma… uma jazida!

Sexta-feira, 27 de Abril de 2012

O mosquito


O mosquito ficou colado à rocha durante milhões de anos.
Um dia acordou a tossir e viu que respirava. Não estava na arriba fóssil do costume, e sim numa casa. Tentou espreguiçar-se mas as asas não deram de si. Aos pouco esticou as longas patas e caminhou como um potro acabado de nascer, em trémulos ziguezagues. Viu que havia outro parecido consigo em cima da enorme mesa onde as pedras estavam partidas, as mesmas pedras que tinham sido ovos ao longo da longa permanência na rocha. Aclarou a garganta e perguntou onde estava.
Num Museu. O que é um Museu? É isto. Há aqui mais mosquitos para além de nós? Já houve, mas… acabam por se ir embora; tens fome? Hã… sim, onde se come? Tens duas hipóteses, esperas que venha uma das pessoas que aqui trabalha ou vais ali àquele frasco. Ai sim? Sim. E depois? Depois picas-lhe e sugas. Não te posso picar a ti? A mim?, a mim não, eu também sou um mosquito. Mas eu tenho fome agora. Está bem, mas esperas ou vais ao frasco. Mas eu não quero esperar e não consigo ir ali, vem cá e deixa-me picar-te. Não podemos picar-nos uns aos outros, já viste que és igual a mim? Porquê? Não sei, mas sei que é assim. Quem disse que é assim? Tanta pergunta que tu fazes!, sei lá quem disse, é assim e pronto. Mas eu tenho tanta fome… Estás a ouvir-me? Não finjas que não ouves! Está bem, vou ajudar-te, vês o frasco ali ao fundo? Sim. Tem lá dentro um… um mosquito como nós, mas um bocado maior. Sim, já vi. Vais lá, entras no frasco e comes. Obrigada.
O mosquito alcançou o frasco devagar e nem deu conta de ser engolido pela rápida língua do camaleão.

O cobertor do segredo


Há alguns anos frequentei uma determinada acção de formação que durou meia dúzia de meses, de Setembro a Fevereiro. O pagamento era feito mensalmente mas com cheques pré-datados que foram entregues no acto da inscrição.
O grupo era tão coeso que até trocámos prendas de Natal, coisa da qual não sou apologista. Ao fim do dia corria para as aulas, no fim das aulas corria para casa, ansiosa por fazer os TPC’s, que eram discutidos conjuntamente no dia seguinte, no meio de conversas sobre a magia de Harry Potter, a que ninguém escapava, e que voava no país pela primeira vez, milhares de livros a multiplicarem-se nas mãos de novos e velhos, e o meu filho não era excepção.
Dois ou três dias depois do Ano Novo, no regresso das aulas passei no metro e dei de caras com um cobertor aberto numa montra, ostentando uma enorme coruja e o símbolo de Hogwarts. Num impulso comprei-o.
Nessa noite o pai chegaria tarde, fui buscar o Duarte a casa dos avós e fomos para casa num contentamento bêbado, com mútuas novidades das aulas, com um dia de trabalho prazenteiro e com uma prenda para o meu filho.
O cobertor foi logo comparado ao do gato. O cobertor do gato foi a primeira prenda que o Duarte recebeu ainda eu estava grávida. Um amigo nosso apareceu lá em casa com aquela preciosidade que ainda hoje guardamos, o cobertor mais fofo que já senti, lavado mil vezes e que nunca perdeu a cor, a maciez ou o carinho. O do Harry Potter era do mesmo material, foi a primeira constatação.
Todo este castelo encantado se desfez no dia seguinte quando percebi que a escola onde andava tinha descontado os dois últimos cheques em simultâneo, deixando-me literalmente com três tostões no bolso… percebida a razão da minha conta estar oca, pensei logo no cobertor… para que é que o comprei? A escola pediu desculpa, mas não podia fazer nada, tanto que era a última prestação, e o Natal tinha acabado de passar e eu, naquela altura, era generosa em prendas…
Bom, estava fora de questão dizer uma palavra ao meu marido, levaria na cabeça com tanta palavra que o sufoco se me afigurava insuportável. Como ele chegara tarde na noite anterior e não se apercebeu da minha aquisição, nesse dia fui mais cedo para casa e escondi-o, com a cumplicidade do meu filho: durante um mês o cobertor via a luz do dia quando estávamos sozinhos em casa e empoleirava-se num armário quando o pai chegava. Os meus almoços eram pão com alface que preparava em casa e levava na mala. Como as compras alimentares eram da minha competência, tive que arranjar um estratagema a partir de meio do mês quando o frigorífico começava a ficar vazio: vinha para casa mais cedo, telefonava ao pai do Duarte e alegando que já estava em casa pedia-lhe para ele passar pelo supermercado e trazer tomate, alface, pão, leite,… rezando para que ele trouxesse mais alguma coisa da sua iniciativa. Acabava a rir, para não chorar, pois ele chegava a casa e dizia-me que indo ele às compras, eu devia estar a amealhar…
Pela primeira e única vez na vida pedi algum dinheiro emprestado durante esse mês, fazendo tudo para que ele não soubesse. Foi um mês sufocante: todos os dias arranjava desculpas para não almoçar com a malta do costume, hoje era uma consulta médica, no dia seguinte era trabalho acumulado, depois era um compromisso longe dali, falta de fome, más-disposições, tudo servia de desculpa. Ocasionalmente ia ao café com as minhas colegas e ficava a vê-las beber café, alegando que estava a fazer uma experiência, não consumindo cafeína durante uns tempos.
Sentia vergonha, uma vergonha profunda. Por mim, por não ter acautelado as minhas contas, mas também pelo meu marido, cujas acções escondia o mais que podia. E ia pensando no cobertor que dormia no alto do roupeiro e no quanto me tinha custado, pensamentos que desapareciam nos momentos em que o trazíamos para a sala e nos tapávamos com ele, principalmente às quintas-feiras, quando o paizinho ia ao cinema, pois tinha decidido que precisava de uma noite para si…
Agora o cobertor do Harry Potter anda sempre à vista lá em casa durante todas as estações do ano, tapamo-nos com ele a ver televisão, muda da cama dele para a minha cama, como se fosse objecto de decoração por cima da roupa, enroscamo-nos nele quando ficamos na mesa da cozinha a trabalhar no computador. Quando muito está dobrado em cima de uma cadeira, mas nunca mais voltou ao escuro de um armário. Falamos daquele mês muitas vezes, rindo, e em alturas piores elencamos coisas para vender em caso de necessidade, mas nunca colocamos o cobertor na lista, como se não quiséssemos esquecer o passado que nos trouxe a este presente, ambos difíceis, agora com uma falta de dinheiro diária, mas com uma diferença essencial: actualmente não há segredos.

Visão do futuro pela manhã


Entro no café da esquina para a primeira dose de cafeína do dia. Beberrico e olho a televisão. O Sporting perdeu mas, não obstante, os fãs esperaram por eles no aeroporto e foram até ao estádio, onde chegaram às três e meia da manhã. Assim rezava a notícia.
Uma jovem com cerca de 16 ou 17 anos, que bebia igualmente café, está siderada a olhar as imagens. As lágrimas caem-lhe pela cara e diz:
- Oh meu Deus, eles ainda foram ao estádio e eu não estava lá
Perante o despropósito, o senhor do café diz :
- Aquela hora? Então e a escola ? Como é que conseguia estar aqui a esta hora?
- Quero lá saber da escola… eu devia ter lá estado!
Não tenho dúvidas que estávamos perante uma futura figura do Estado.

Miminho


É domingo. Venho de longe, chego a casa e o meu filho está a estudar. Conversamos uns minutos e pergunto se quer ir ao cinema ao fim do dia. Que não pode, tem de ir jantar com o pai. Digo-lhe que tire o franzido da cara, que jantar com o pai não é sacrífício.
Uma hora antes do pai chegar veste-se para ir ver a namorada. Ainda não saiu e o pai liga a desmarcar o jantar. Sai alegre com um até já. Quase uma hora depois telefona :
- Mãe, estamos a pensar ir ao cinema e queremos que venhas connosco.
Estou a ler debaixo de um cobertor, como se me protegesse da chuva que cai lá fora. Fico meia aparvalhada com o convite e ele continua :
- Há bocado convidaste-me e eu não podia, mas agora já posso e gostávamos que viesses.
Agradeço e comprometo-me a ir buscá-los no final da sessão. Ele insiste, não me quer sozinha em casa. Dividida, argumento com cansaço e fico debaixo do cobertor com o Paulo Moreiras e D. Fuas Bragatela. É festa !
Duas horas mais tarde, vou buscá-los e agradeço penhoradamente a atitude deles. Nessa noite a massagem aos pés demorou o dobro do tempo. 

Quinta-feira, 26 de Abril de 2012

O par de brincos


O par de brincos estava zangado. Pendurados em orelhas diferentes os brincos não se viam e nem se falavam. A zanga tinha sido há tanto tempo que nenhum dos dois se lembrava do motivo mas teimavam nele.
Numa ocasião a pessoa que os usava foi beber a uma fonte de água cristalina e eles viram-se mutuamente pela primeira vez em muitos anos e naquele breve instante reconheceram-se como parte dum todo.
A pessoa que os usava sentiu que tinha água a escorrer-lhe pelo pescoço, limpou-se, sacudiu o cabelo, mas continuou a sentir o mesmo. Resolveu então tirar os brincos para melhor poder observar as orelhas.
Juntos na mesma mão, em silêncio os brincos uniram-se um ao outro no calor das lágrimas que derramavam, de tal forma que a pessoa que os usava não mais voltou a conseguir separá-los e passou a usá-los como um anel. 

Nove anos de reflexão

O meu sobrinho mais velho vai amarrado com o cinto de segurança no banco de trás. Comunicamos visualmente pelo retrovisor que viro ligeiramente para lhe apanhar mais do que a testa. Comentamos a paisagem ribatejana, linda, lindíssima, com tanto verde diferente. De repente, os seus nove anos comentam em jeito de pergunta:
- Porque é que nós vamos a sítios andamos e andamos o dia inteiro e mesmo quando estamos cansados continuamos a andar e a ver monumentos e estamos cansados mas é como se não fizesse mal e nunca dizemos que estamos cansados e levantamo-nos cedo e continuamos a ver monumentos e coisas e quando estamos em casa custa tanto levantar e estamos sempre a dizer que estamos cansados?

Quarta-feira, 25 de Abril de 2012

Uma manhã sem escola

Na manhã do dia 25 de Abril de 1974 fui para a escola como de costume. Os meus pais ficaram em casa: o meu pai estava no turno das 3 à meia noite e a minha mãe, grávida, não se sentia bem e ia trabalhar mais tarde.
Chegada à escola mandaram-me para casa! E eu, bem mandada, fui. Porém, ouvi uma conversa qualquer da qual fixei Sintra, Base e Militares que não me interessava nada, talvez por isso baralhei-me um pouco, um poucochinho, e quando os meus pais admirados, quiseram saber da razão de estar em casa dez minutos depois de ter saído, receberam a seguinte resposta:
- Parece que estão a atacar o castelo de Sintra com canhões.
Todos os anos tenho que ser relembrada disto...

Segunda-feira, 23 de Abril de 2012

Básico


O Dia da Mulher confunde-me. Percebo-o, mas confunde-me. Na verdade, não quero que ele exista. Quero acabar com ele.
O Dia do Livro confunde-me. Percebo-o, mas confunde-me. Na verdade, não quero que ele exista. Quero acabar com ele.
Para os que precisarem de explicações continua a ser necessária a existência do Dia da Mulher e Dia do Livro. Sugiro até que se inaugure o Dia da Pessoa, tantas as vezes que nos esquecemos quem somos.

Sexta-feira, 20 de Abril de 2012

A lotaria não dá de comer a alguém


Fui a Coimbra e esqueci-me de fazer o euromilhões (ou o totomilhões, como diz o meu pai que, numa palavra só, abarca dois tipos de jogo. Genial.) Vinha no comboio, pensei nisso e a minha memória acompanhou a velocidade da deslocação mas noutro sentido, em direcção ao passado. Lembrei-me que na primária emparceirei na carteira com várias pessoas. A minha favorita era o António que, não obstante ter umas calças de ganga com martelos amarelos que eu achava ridículos, era lindo de morrer. Para além do António sentei-me ao lado da Anita e de uma rapariga cujo nome não consigo recordar, a que chamarei Maria.
A mãe da Maria vendia jornais e jogo numa banca em Lisboa e como o meu pai fazia jornais eu achava que havia uma certa ligação entre nós que se prolongava para além do espaço que ocupávamos na sala de aula. Já a mãe da Anita era doméstica, o que, que me perdoe quem se ofender, me lembrava sempre animais domésticos…
Como entrei para aquela escola a meio do ano sentaram-me ao lado da Anita, a única aluna que estava sozinha na carteira e, nos primeiros minutos do primeiro dia, vá lá saber-se porque, cuspiu-me em cima! Acto imediato levou um estaladão, eu levei outro da professora, a D. Graciosa, a quem bastou correr para a rua e chamar a minha mãe que tinha acabado de me deixar ali, para lhe fazer queixa do comportamento da filha. É claro que não me perguntou nada e tendo a sua visão captado o movimento do meu braço a abalançar-se com violência para assentar a mão na cara da Anita, declarou-me culpada. A custo lá disse as minhas motivações para semelhante atitude e minutos depois já era amiga de uma Anita com uma face vermelha e a minha mãe foi embora mais ou menos descansada mas surpreendida com a sua filha, sempre tão calma, a fazer coisas daquelas.
A Maria era também muito calma, calma demais, e os níveis de aprendizagem quando fugiam do zero era para baixo. Custava-me entender como não conseguia nem sequer decorar e enquanto eu falava de geografia ou história ela retorquia com histórias de clientes lá da banca de jornais. Eu adorava-a, apesar de ela detestar a escola que eu amava. Feita a quarta classe a Maria desapareceu do mapa da gaiatada lá do bairro. Anos mais tarde encontrei-a na banca dos jornais, não me reconheceu e eu confundi-a com a mãe dela. O meu ar aparvalhado fê-la perguntar se queria mais alguma coisa e lá lhe disse quem era. Ficou com ar feliz e eu também por ela se lembrar de mim.
Muitos anos mais tarde, num dos colégios infantis que os meus pais tinham andava uma miúda tão parecida com a Maria que, não fosse a diferença de idades, podiam ser gémeas. Ambas eram enormes para os anos que tinham, a atirar para o gordo, bolachudas de cara e com faces muito rosadas.
Os pais da Vanessa, assim se chamava a Maria II, por coincidência, tinham uma banca de jornais e o pai vendia lotaria pelas ruas.
Numa ocasião os pais procuraram a minha mãe e pediram-lhe ajuda pois iam viajar e não tinham com quem deixar a garota, cujo corpo era de adulta mas apenas contava 11 ou 12 anos. A minha mãe disponibilizou-se para ficarmos com ela e foi assim que a Vanessa morou uma semana na nossa casa, fazendo a vida que nós fazíamos. Tendo um ou dois anos de diferença da minha irmã programaram-se os trabalhos escolares em conjunto e por aí fora. A cada passo a Vanessa me fazia lembrar a Maria, por exemplo quando lia Dona Maria i, em vez de Dona Maria Primeira, e nós fartávamo-nos de rir.
Uma noite fomos convidados a jantar em casa de uns amigos e a Vanessa também foi, é claro. Chegados lá, no meio da conversa e porque ela sendo miúda mas estava sempre junto dos adultos, perguntaram-lhe onde tinham ido os pais. À Rússia. À Russia? Ena pá! Isso é longe que se farta. E os teus pais foram de férias?
Perante esta pergunta, a Vanessa deita um ar cúmplice à minha mãe, como que a procurar apoio, e diz:
- Não. Os meus pais são contrabandistas e foram buscar mercadoria.
A sala ficou em silêncio, nem os talheres se ouviam. Imediata e rapidamente todos quiseram saber tudo, principalmente a minha mãe a quem a garota, por imposição da sua própria mãe, chamava Senhora Directora. Ora, o olhar que antecedeu o largar da bomba dava a senhora directora como cúmplice da coisa o que levantou enormes gargalhadas, enquanto a Vanessa garantiu o lugar de rainha da noite com todas as conversas a decorrer à sua volta.
Lá se lhe disse que aquela frase não era a mais adequada para descrever a actividade dos pais, ao que ela insistiu afirmando que os jornais e a lotaria não davam de comer a alguém e que sim, era o contrabando que os sustentava e que pagava o colégio, sendo as últimas palavras engolidas com um esgar pela senhora directora.
Quando os pais chegaram, a minha mãe contou-lhes o ocorrido durante outro momento caricato: queria ela explicar a cena e eles, vá de tirarem prendas (contrabando?) de sacos, e mais um beibilou e mais uma camisa típica e mais uma matrioska e mais não sei o quê. Iam ouvindo as palavras da minha mãe e no fim afirmaram que sim, que a filha se limitara a contar a verdade, que normalmente iam ao Norte de África mas de fim-de-semana, e, sendo só dois dias, a Vanessa ficava com uma vizinha ou algo parecido. Agora tinham ido ver o mercado russo, de que alguém lhes tinha falado, mas era muito difícil, sabia a minha mãe?, a língua, sabe, a língua é muito complicada. Pensava a senhora directora que a lotaria dava de comer a alguém?
Gostava de encontrar a Vanessa para saber se tinha seguido a carreira dos pais… 

Quinta-feira, 19 de Abril de 2012

Comer como um abade


No âmbito da organização de eventos científicos da casa onde trabalho e a propósito de um seminário, convidámos um especialista norueguês para vir falar da sua experiência. Dada a confirmação da disponibilidade começámos a tratar da deslocação. O senhor pediu para ser ele a gerir esse assunto, informando-nos que sofria da doença celíaca e nem todas as companhias de aviação estavam preparadas para transportar pessoas com necessidades especiais de alimentação. Por quem é! Faça o favor!
Tratado aquele assunto, marcado o hotel, informei-me junto da Associação Portuguesa de Celíacos quais os restaurantes onde poderíamos levar o senhor, sem corremos riscos. Por coincidência, o Hotel escolhido estava numa espécie de fase final de certificação e decidiu-se que o almoço do dia do seminário seria encomendado ao hotel, nosso vizinho, e o jantar dessa noite, seria no restaurante do dito.
Assim, ao almoço recolheram-se pratos de peixe e carne, pão, entrada e sobremesa à hora marcada e o senhor não provou o nosso divinal arroz de peixe, feito de uma forma única e gulosamente lambido.
O evento foi um sucesso de tal ordem que os responsáveis quiseram comemorar com um jantar à antiga portuguesa e fizeram-no saber ao convidado estrangeiro que declinou o convite para comemorar depois de jantar. Assim, e cumprindo o que estava estipulado, estivemos com o senhor durante o seu jantar no hotel, tendo ele tomado uma refeição completa e nós ficámo-nos por umas entradas e um copo de vinho, que ele também tomou.
Fosse do vinho, da euforia ou do que fosse, o senhor reconsiderou e decidiu acompanhar-nos!
Muito bem!
Por entre sorrisos de profunda satisfação, felicidade e pela melodia do Bairro Alto aos seus amores tão dedicado, sentámo-nos num restaurante e pedimos o jantar. Tendo em conta que tinha acabado de jantar opiparamente, o senhor surpreendeu-nos ao perguntar ao empregado o que tinham sem glúten que ele pudesse comer. Lá disseram que não era o primeiro celíaco que recebiam, explicaram o que tinham, pensando nós que ele queria qualquer coisa leve para nos acompanhar. Quando trouxeram um prato maior que os nossos, não verbalizámos a percepção do desperdício, mas todos pensámos o mesmo. Porém, e para nossa grande estupefacção, ele  limpou o prato num ápice, empurrado por um Dão que deslizava como enguias.
O companheirismo que se estabeleceu com o senhor não impedia que nos ríssemos até às lágrimas, relembrando todas as preocupações com a sua alimentação, tantos mails para trás e para a frente, quantos cuidados que, afinal, tinham nascido dele próprio, e afinal, concluímos, abades, há-os em todos os países e para lá de todas as doenças.
Que lhe tenha feito bom proveito é o que se deseja!

Terça-feira, 17 de Abril de 2012

Olhos rasos de água


Durante cerca de quatro meses eu e o meu filho acompanhámos diariamente a saga de Prison Break.
O azul dos olhos do Michael Scofield anunciaram desde o primeiro dia que dali vinha vício. E veio. As andanças e desandanças dos irmãos são (digo são, porque a série repete e repete e repete) exemplo de amor sem limites entre duas pessoas e o facto de ser ficção televisiva não nos impede de sonhar que os irmãos deviam ser assim, mas olhamos para o lado e vemos que aquelas coisas só acontecem na imaginação de alguém. Na vida real não há dádiva, entrega absoluta, amor incondicional.
O episódio da morte de Michael é de levar às lágrimas, digo-o sem qualquer vergonha, assim como tinha sido a morte de Mark Green em Serviço de Urgência.
Morreram pessoas que conhecíamos e não personagens de ficção. Pessoas que admirávamos, por quem esperávamos, dia a dia ou semana a semana, como esperamos por amigos com quem combinamos almoçar ou beber um café. Damos por nós a perguntar, em determinadas situações: O que faria o Michael?
Eu que passo muito tempo sozinha, para além dos livros, tenho a televisão por companhia, mas tirando os filmes e uma ou outra coisa, agora parece-me que qualquer canal é vazio de interesse.
Tirando a Gabriela, Cravo e Canela, pela novidade, uma coisa genial chamada O Bem-Amado, ou o Verão Azul, tudo na minha infância e adolescência, não me lembro de ficar agarrada desta forma.
É como se as personagens tivessem vivido lá em casa durante uns meses e agora sobrasse o espaço vazio. 
Que raio de hábitos se criam, que damos por nós a sentir saudades de personagens de ficção. Converso com o Duarte sobre o assunto e ele nega, rindo-se. Acaba por concordar no dia em que chego a casa sem aviso prévio e ele está a rever os episódios…e acabamos os dois a rever os nossos momentos favoritos, o que ainda  é mais estranho, pois sabemos o que vai acontecer. 
- Mãe, é como ver fotografias antigas, minhas, dos avós, da Manela e isso... já as vimos mil vezes, mas de vez em quando vamos buscá-las novamente... não há explicação, apetece-nos e pronto.
E assim, aumento a minha família.