quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Alice no país das traduções

Tal como a Lua que todos vemos e sabemos existir mas onde poucos puseram o sapatinho, também a Alice faz parte do imaginário de praticamente todos os que conheço mas raros foram os que leram o livro, embora vão adiantando, como compensação gaiteira, que viram o filme ou os filmes, que animados há muitos.
Pois também eu fazia parte do lote dos desprovidos da leitura integral de As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, mas já não faço.
Porém, se me alegra ter lido o livro desgosta-me profundamente que Alice em parte alguma no País das Maravilhas se tenha sentado pois embora Lewis Carrol a tenha sentado várias vezes, José Vaz Pereira e Manuel João Gomes lá acharam que assim não estava bem e resolveram assentá-la por diversas vezes, bem como o casal real que igualmente se assenta e nunca se senta.
Outra mudança que os tradutores assinam é a opção por Tartas em vez das simplórias tartes. Ainda se fosse uma quiche, agora uma tarte! Ora uma Tarta manda outro gabarito, remete-nos para o mundo dos tártaros, para uma dimensão cremosa, um bechamel, enfim, manda-nos para outro sítio e se gostamos ou não isso é problema nosso, com certeza da falta de palato para coisas requintadas como Tartas.
Uma terceira opção de tradução passa do original que diz:

“The Queen of Hearts, she made some tarts
All on a summer day;
The Knave of Hearts, he stole some tarts
And took them quite away!”

Para:
"A Rainha de Copas
De um baralho de cartas
Fez para o jantar
Umas ricas tartas
Num dia de Verão;
O Valete de Copas
De um baralho de cartas
Deu-lhe para roubar
E comer as tartas.
Ladrão!
Comilão!"

Numa quarta mudança esta edição elimina interrogações! Qué lá isso de perguntar? Atão somos burros? Não sabemos, temos que perguntar? Temos que questionar as pessoas, os bichos, os seres, o baralho de cartas, sejam eles quem forem? Há que evitar incómodos e o melhor é afirmarmos, nada de perguntas. E assim sempre se poupa na tinta da impressão.
Uma quinta alteração na tradução baralha-nos a visualização que as palavras transportam: se Lewis Carrol se ficou pela expressão dos números das cartas, Cinco, Sete ou Dois, os tradutores resolveram atalhar como quem traduz em cima duma mesa de pano verde e vai daí o Dois vira Bisca, o Cinco transforma-se em Quina e, surpresa das surpresas, o Sete passa a Sena, ou seja, ou é uma grande batota ou os tradutores não conhecem as cartas e, quiçá, os números, e baralham o Seis com o Sete.
É uma tradução difícil? Sim, sem dúvida, por entre o non sense espreguiçam-se exemplos dos mais variados, como por exemplo quando o autor, tendo que apresentar uma palavra começada por M escolhe MOON que, em português, recua uma casa como se fosse o Jogo da Glória e coloca-nos na letra L, de Lua. Há que dar a volta e resolver a questão que, neste caso, optou por, não fugindo do modo lunar, buscar a expressão Quarto Minguante da Lua, com o Minguante em itálico.
A edição é em causa é da QuidNovi, colecção Biblioteca de Verão, 2010. Desaconselha-se. Mas isso é apenas a minha opinião.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Dom Casmurro

Acabei de ler esta pérola no fim-de-semana e não acredito que Capitu tenha estado em vale de lençóis com o grande amigo de Bentinho. A ser, a coisa foi rápida e não meteu cama, que tempo não havia sem levantar suspeitas, logo, afasto oficialmente os lençóis.
Machado de Assis foi primoroso a criar a teia e deixa a dúvida perdurar que nem pilhas duracell, até hoje, até sempre.
Deliciei-me com as promessas de Bentinho e com os superlativos do agregado José Dias; dei asas ao romantismo com aqueles olhares silenciosos que diziam tudo, ao invés do explícito que se apoderou da actualidade e que impede as emoções de fazerem mais que aflorar a pele, quando muito. Há deficit emocional nos dias de hoje, sabemos que o fogo é quente mas é uma espécie de conhecimento conceptual, não prático, desconhecemos o sentido do calor do fogo na pele, cá dentro, como uma tabuada decorada mas não sabida salteada. Consequentemente, as conversas sobre o amor entre pessoas de diferentes gerações nem com um tradutor lá vão: uns falam de sentimentos profundos, tão profundos que duravam vidas e não tinham espaço para outras pessoas, grandes e fundos como a Fossa das Marianas, mas cheios de densidade e entrega. Outros falam de sexo e já está. Quando muito são como um dente-de-leão que à menor brisa se desfaz, sem deixar vestígio que existiu.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Um must da praia 4

As marés são fenómenos que até passam despercebidos se nos instalarmos lá no princípio do areal. Mas quando esticamos a toalha e ficamos com as unhas a baterem na água a história é outra. Ora se complicarmos a equação e lhe juntarmos uma raiz quadrada de ondas o resultado é = a toalha encharcada, saco com carteira e outros pertences lavado com água do mar, chinelos a boiarem na espuma e nós com cara de parvos.
Foi o que me aconteceu ontem.
O protagonista de Nothing Hill tinha uns óculos de mergulho graduados e já me lembrei de arranjar uns para mim, pois assim evitava certas cenas. Como não vou à água de óculos, deixo sempre a toalha o mais perto possível para me poder orientar quando emerjo a imitar a Ursula Andress ou, se tivermos em conta o meu bronzeado, talvez mais a Halle Berry. Se eu me tivesse lembrado que qualquer uma delas não usa toalha não teria deixado a minha ser arrastada pelas ondas, nem obrigado a mãe de família, minha vizinha e colega de trabalho naquela ocupação maquinal que é estar deitada na areia, levantar, mergulhar, voltar, deitar na areia, and so one, and so one, levantar-se e resgatar a minha tralha mais para cima enquanto eu estava de mergulho, cega, sem prótese ocular, ignorante da movimentação que se dinamizava a apenas meia dúzia de metros de mim.
Quando saí da água avistei o azul forte do saco e achei a distância entre mim e ele muito grande, garantidamente, alguns dez passos! Lá agradeci as andanças da senhora e senti a risota que eu própria dedico a todos quantos são alvo das brincadeiras das ondas quando a maré sobe. Agarrei na toalha, lavei-a para me livrar daquela areia e escorri o melhor que consegui aquela autêntica tenda de campanha, daquelas familiares. Lá a estendi novamente e assim fiquei o resto do tempo que permaneci na praia, até que ao fim da tarde a esgueirei para dentro da máquina de lavar, numa espécie de lavagem ao estômago, de onde saiu sem vestígios da tentativa de afogamento dessa tarde.
A subida da maré de forma repentina mais extraordinária que ganho memória aconteceu em S. João do Estoril e teve como protagonistas uns primos da minha mãe que encontrámos por acaso.
Armados em finos, dividiam o tempo entre a barraca na areia e umas espreguiçadeiras no paredão onde iam bebendo umas imperiais. Foi precisamente aí que os avistámos e foi precisamente nesse momento que o meu pai torceu o nariz, as sobrancelhas, a boca e todo o rosto. Os primos eram muito p’ra frente e ela ostentava um biquíni minúsculo que fazia as vezes de íman e puxava os olhares para cima do seu bronzeado. Como se isso não bastasse ele usava uma tanga tigresa que serviria de fio dental a qualquer homem com uma constituição normal, mas a ele tapava-o um pouco mais pois para além do esqueleto tinha um ou outro músculo, nada mais. Isto era na altura em que os homens usavam cabelo comprido e saltos altos, diga-se de passagem, e o primo era um metrosexual dos anos setenta, cujos modelos fashion não agradavam ao meu pai, cuja bigodaça se torcia com aquelas modernices.
O espectáculo dava espectáculo no paredão e o meu pai interiorizou logo duas ou três imprecauções, que nunca em tempo algum lhas ouvimos verbalizar mas mesmo que nunca as pensasse aquele momento propiciava que começasse com essa prática, pensando que, com tanta gente por ali, logo havíamos de ser nós a encontrar gente conhecida e, com tanta gente que conhecíamos, logo haviam de ser aqueles e, com tanta estação que o ano tem, parece que não mas ainda são quatro, e o leque de escolha de roupa é tão grande, logo havia de ser no Verão e logo havia de ser naquela figurinha.
Os primos fizeram uma festa quando nos viram, logo se acharam outras espreguiçadeiras e mais uma ou outra cadeira e mais beijos e palmadas nas costas e o meu pai a falar devagar, tentando conjugar a resposta certa à pergunta que lhe era colocada, com o pensamento permanente no arrependimento de ali termos ido. Mas tínhamos ido e eles podiam estar quase nus mas eram vigorosos na expectativa que ficássemos, ele logo a pedir mais imperiais e, bem, sentados, sempre se viam menos, pelo que acabámos por nos sentar.
Eu também tinha ficado impressionada com o quadro mas a água exercia em mim um chamamento mais forte e em minutos estava a dar valentes mergulhos em ondas de paixão. As ondas eram mesmo apaixonadas e foram crescendo, crescendo, crescendo até que uma delas desabou na praia até ao paredão. Foi o caos: barracas e tendas e roupa e chapéus-de-sol e crianças e sapatos e toalhas e tudo quanto se imagine estar numa praia num domingo de Verão, por volta das três ou quatro da tarde. Escusado será dizer que a barraca dos primos não foi poupada e a roupa desapareceu. Em segundos a esplanada do paredão ficou vazia com todos os ocupantes a correrem para a areia a fim de procurarem os seus bens e pertences, mas que é feito deles? Duas horas depois ainda não se tinham achado as coisas dos primos e lá andava ele de rabo de tigre alçado e cigarro na mão a procurar a carteira, a prima a escavar perto da barraca, nós a ajudarmos, os meus pais aliviados por não terem chegado à areia, logo, a arrastarem um saco originalmente seco no meio daquilo tudo.
Havia gente em lágrimas, magros e gordos despidos e aflitos em sintonia, de dentro de água homens, mulheres e crianças apanhavam calçado, roupa e os mais diversos objectos. Apesar do calor e da reposição da normalidade do mar, as pessoas começaram a abandonar a praia com desalento. A carteira dos primos não aparecia. O meu pai dava voltas ao areal como se disso dependesse a vida de alguém pois o primo já tinha dito que, não tendo chaves do carro, teríamos que ser nós a levá-los e percebemos logo que o meu pai não estava com grande vontade de dar boleia a uma réplica cómica do Tarzan, uma miniatura, um esboço do Johnny Weissmuller. Em tudo.
Os banheiros, na altura não havia nadadores salva-vidas, eram mesmo banheiros, iam amontoando o que encontravam no meio da areia e o que era resgatado de dentro de água e as pessoas dirigiam-se ao monte de destroços em busca do que fosse seu, numa altura em que não se tinha grande receio que alguém levasse o que não lhe pertencia e a honestidade ainda existia. Conclusão, a prima lá encontrou o saco no meio do monte bagunçado de areia molhada, onde estava a carteira e as chaves do carro. Da roupa não se tiveram notícias, mas como tinham ido para a esplanada com as toalhas, saíram da praia dignamente enrolados nelas, o que não era mau em comparação com outros que não tinham nada, ou com o cómico-ridículo de outros ainda só com um chinelo por exemplo.
E é assim que sempre que as ondas molham a ponta duma toalha eu me lembro daquela célebre tarde em S. João, quando os primos foram privados da roupa, numa espécie de castigo ou vingança do destino por andarem tão parcamente vestidos na praia. Se foi castigo não sei, mas hoje a moda tem outras regras, e encontra-se gente mais vestida na praia que na rua.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Ressonar e ranger os dentes

Uma grande Amiga reformou-se. Contou-me por telefone e não viu a minha cara de idiota a receber a notícia. Para mim ela é o antípoda da reforma e, se bem que mereça como ninguém o novo estado, senti um peso nas costas, como se os anos andassem a brincar comigo e, de repente, me saltassem em cima dos ombros, num mero jogo infantil, já te apanhei!
Bem sei que ela não vai ficar parada, embora esteja a descansar e a usufruir do sossego, enquanto vai pondo pomadas para tapar certas facadas que lhe deram nos últimos tempos, profissionalmente falando.
- Deita isso tudo para trás das costas! – Sou eu a dizer-lhe ciente de que não vale a pena gastarmos tempo com certas coisas. Principalmente agora.
Sentada num banco verde no pátio setecentista, de repente, sinto-me acabrunhada sem perceber bem porquê.
Desligo o telefone e agarro em Paixão em Florença de Somerset Maugham, mas não vejo Florença. A bela cidade da qual guardo memórias avermelhadas, seja dos telhados, seja dos entardeceres, nem se aproxima de mim.
Penso na minha amiga e em como gostava de ir a Florença com ela e fazer uma série de coisas que nunca fiz, quando sou assaltada por um pensamento horrível: penso nela como se ela tivesse morrido e reflicto que o que senti momentos antes foi a aproximação do mesmo estado mas para a minha pessoa. Afasto a estupidez do pensamento, zangada comigo própria.
Conheci a M. quando ambas nos inscrevemos na especialização em ciências documentais nos idos do século passado. Pois. Encontrámos imensa coisa em comum logo no primeiro dia, eu fascinada pela força que ela emanava e pela boa disposição de quem nunca vi esgotada de sorrisos, sinceros, ainda por cima, e cuja agenda com datas precisas me ajuda, a mim, a saber quando este ou aquela fazem anos, caso contrário, nunca diria uma palavra fosse a quem fosse. Bem, com excepções, como a AI cujo aniversário coincide com a data da morte da Princesa Diana, motivo para que me lembre sempre, ou melhor, a televisão ou a rádio dão-me a dica que eu aproveito.
Lembro-me da M. e penso em castelos inexpugnáveis, em fortalezas, em cidades invictas, em pontes indestrutíveis. Penso também nas mais saborosas gargalhadas, numa inteligência invejável, numa sagacidade e perspicácia difíceis de encontrar e, last but not least, num ombro e em mil conselhos que sei serem para meu próprio bem.
Ao contrário de outras pessoas ela nunca se calou sobre certos problemas, ou seja, não é uma amiga passiva, mas antes pelo contrário, muito activa, dando a sua opinião, o seu conselho, pensando nas coisas como se fosse ela. Dedico-lhe o pensamento e invariavelmente sinto-me em falta, sempre. Nunca lhe ouvi palavras vãs, nunca senti que me respondia como se eu tivesse carregado na tecla das perguntas frequentes e saísse qualquer coisa pré-programada, nunca me deu conselhos para me fazer favores. O grande favor que me faz é estar sempre preocupada comigo, atenta e próxima, mesmo que sejam muitos os quilómetros que nos separem.
Numa ocasião fomos a um congresso da nossa especialidade profissional em Aveiro. Teimei em ficar num dos meus locais de eleição, no hotel ao lado do farol. Obrigou-nos a fazer muitos mais quilómetro que os outros, instalados algures nas curvas da ria, mas valeu a pena. Quando chegámos aproximamo-nos da recepção de tal forma que o rapaz nos lançou um olhar como se fossemos um casal. Ela deu tamanhas gargalhadas que me ficaram gravadas para sempre na amizade que tenho por ela. Nessa noite choveu em barda. Deitámo-nos cada uma na sua caminha, sempre a rir, a gozar com todas as personagens que tínhamos encontrado, alguns do dia a dia, mas que naquelas ocasiões se mostram tão diferentes como a noite do dia, outros que só encontramos em reuniões nacionais, conhecidos e desconhecidos. Rimos até à exaustão. Às tantas eu estava a dizer qualquer coisa e ouvi-a ressonar. Calei-me, levantei o estore e fiquei a fumar à janela a olhar para o maravilhoso espectáculo da chuva que caia com tanta força que levantava uma nuvem no chão. De repente ela acorda e continua a falar onde tínhamos deixado a conversa! Foi de morrer a rir. No dia seguinte discutimos porque ela teimou que não tinha adormecido, tanto mais que lhe custava pegar no sono porque eu ranjo os dentes tão alto que não deixo dormir ninguém!
Os mesmos motivos criaram outro momento de memória passado em casa de uns primos meus em Vila Nova de Gaia onde ficámos a propósito dum congresso no Porto. Como somos as duas generosas de formas não cabíamos na cama. Assim, dormimos à vez, metade na cama e metade num sofá, sentadas. Porém, o problema não era o cómodo, mas o facto de nenhuma conseguir adormecer porque formávamos uma dupla digna de circo, uma ressonava e a outra rangia os dentes…
De todas as qualidades que lhe reconheço talvez a frontalidade seja a que destacaria, numa sociedade onde tudo é ambíguo, dúbio e dissimulado e onde as pessoas arranjam os mais variados disparates para se apoiarem ao explicarem porque não são frontais.
Longa vida, minha amiga, longa vida com esse carácter e esse espírito.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O elevador do metro

Paro num dos corredores do metro para beber café. A única outra cliente é funcionária do metropolitano e está a contar à rapariga por trás do balcão que o elevador já funciona. Perante a admiração da outra que manifestou desconhecimento sobre qualquer avaria ficámos ambas esclarecidas com a descrição do que se tinha passado. Eis o peixe tal como o comprei, ainda com escamas.
O elevador tem capacidade para seis pessoas. Ficou preso entre andares com uma gritaria medonha lá dentro. Quando a empresa conseguiu abrir as portas saíram onze pessoas, um carrinho de bebé, quatro trouxas com roupa e vários sacos cuja quantidade exacta não consegui determinar. Quando se deu o êxodo perguntaram às sardinhas em lata porque se tinham metido todos num espaço tão pequeno. A mais velha da família cigana esclareceu os incautos que tinham vindo todos juntos no metro!
Ora, sinceramente, se vinham todos juntos, porque se haviam de separar ali? Acho bem!
Ao que parece a senhora também adiantou que o marido ainda tinha tentado entrar, mas já não conseguiu…
Isto é uma tristeza, já não se fazem elevadores como antigamente.

As velas ardem até ao fim na Kidzania

Há uns meses perguntaram-me por um livro de Sándor Márai: As velas ardem até ao fim. Lembro-me bem porque a pessoa que me perguntou se eu o tinha falou-me em É com cera que se fazem velas ou outro título igualmente cómico e aquilo deu gargalhada conjunta. Eu não o tinha mas conhecia o título, mas não o autor. Na altura pesquisei e, vá lá saber-se porquê, meti na cabeça que Sándor era uma ela e não um ele e vivi nessa infame mentira até há duas semanas atrás quando fui à Kidzania com os meus sobrinhos.
Chegámos de amanhecida, como o peixe de Setúbal, às dez e meia da manhã, eles a aproximarem-se perigosamente duma apoplexia com tanta excitação e eu a pensar onde me sentaria em meditação para passar um dia inteiro num centro comercial que abomino e quando digo que abomino, não me refiro aquele em particular, mas a todos do mundo inteiro, ao contrário de praças e mercados e se os mercados forem fluviais, ai então, ui ui, sou eu que entro em êxtase.
Lá despachei um comandante dum avião e uma técnica de reciclagem, espreitei os corredores da Kidzania e fui à livraria onde, entre outros, comprei As velas ardem até ao fim. Sentei-me num sofá branco que fica ao ar livre – zona de fumadores – e ali fiquei com a cera a derreter-se até às seis da tarde quando fui buscá-los e porque aquilo fecha a essa hora, caso contrário gramava mais umas horas de espera. Fiz um intervalo para lhes dar de almoço, almoço que se atrasou porque a minha sobrinha estava a fazer horas extra na redacção do jornal!
Faltavam duas páginas para acabar a leitura quando alguém se meteu comigo. Tive a vaga sensação que alguém me falava mas a absorção das palavras era grande. O homem insistiu e lá levantei os olhos em jeito de perguntar o que queria, logo agora que estou a acabar.
- A senhora não lê, a senhora come o livro…
A simpatia que o homem quis enfiar no início de conversa só lhe trouxe dissabores: então em meia dúzia de palavras chama-me senhora duas vezes?
- Posso ajudá-lo?
- Gosta muito de ler, vê-se.
- É verdade… e estou mesmo a acabar este livro… se não se importa…
Ele levantou as mãos em sinal que não se importava e as velas lá arderam até ao fim.
Assim que fechei o livro, ele, sem respeitar aqueles instantes dum the end que, sendo imaginário, é bem real e sabe tão bem como o momento em que tiramos a cabeça de dentro de água depois dum mergulho, desata logo a falar:
- Sabe, eu sou canalizador e aqui há uns tempos fomos chamados a casa duma senhora que também gostava muito de ler. Ela tinha lá um problema na cozinha e…
Por favor meu Deus faz com ele não me descreva problemas de canos e maus cheiros e entupimentos…
- … e depois da coisa resolvida ela convidou-nos a beber café na sala. Olhe, a senhora tinha para cima de cem livros na sala! Isto sem exagero! Mais de cem!
Por décimos de segundo pensei o que responderia: teimava com ele a dizer-lhe que isso era impossível e que cem era um número astronómico? Quem é que tinha cem livros em casa? Limitava-me a um Ah e desviava o olhar? Ou dizia-lhe que cerca de cem livros tenho eu à cabeceira, sem contar os do resto da casa, da casa dos meus pais, da minha irmã, os que estão com o Marcelo ou com a Luísa e todos os emprestados ou os que se amontoam no meu trabalho, por falta de espaço em casa?
Decidi-me por um abrir de olhos simpático fazendo eco da sua profunda admiração e acrescentei que sim, que gostava de ler; e num repente, estúpido e insensato, e depois dum milésimos de dúvida na garganta sobre se deveria ou não formular a pergunta, ainda assim, quis saber o que gostava ele de ler.
- O Correio da Manhã.
E como se isso não bastasse, ainda aconchegou a frase:
- Todos os santos dias!
Senti vontade de acender umas velas e fazer uns pedidos, mas optei por me levantar alegando que tinha que ir buscar os miúdos. Desejámo-nos mutuamente boas tardes e fui em perseguição duns funcionários dos correios que já tinham sido pediatras.
Foi um dia de trabalho em cheio.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Coração Débil

Num dos primeiros dias de férias caiu-me cima um Coração Débil. Escrito pelo monstro da literatura Dostoiévski pouco antes da sua prisão e exílio na Sibéria, esta novela deu-me que pensar pois parece escrita numa língua morta, onde os conceitos de honra, dignidade, amizade e, acima de tudo, gratidão, praticamente proscritos dos dias de hoje, tomam letra maiúscula e ganham forma densa.
Li e pareceu-me tão distante como os nossos antepassados que faziam fogo batendo em pedras e foi exactamente isso que me impressionou: a vida já foi assim! Por incrível que nos pareça, a palavra de alguém já teve um peso desmedido, a amizade já foi verdadeiramente desinteressada e verdadeira, o bom carácter das pessoas em tempos era recompensado.
Se fosse escrita hoje seria uma obra de magistral ironia da primeira à última palavra, pois tudo se passaria na imaginação do escritor.

Cem, cento e vinte

As férias foram marcadas por vários incidentes médicos, todos sem gravidade. O mais dramático foi quando o destino, finalmente, me fez retirar os suportes das velas da casa de banho. Como é que ele agiu? Fez-me partir um deles, em vidro e, não contente, espetou-me alguns dos vidrinhos no meu belo calcanhar.
A gata borralheira andava descalça quando sentiu uma dor forte e percebeu que o calcanhar tinha engolido um vidro. Aquilo desatou logo a sangrar e ela, apoiada na ponta do pé, como se fosse o Cisne Negro mas coxo, foi buscar a pinça das sobrancelhas, armou-se em contorcionista de circo, alçou da pernoca e apenas conseguiu meter o vidro ainda mais dentro.
Ora isto é uma chatice em qualquer altura do ano, mas pior ainda em Agosto quando não há vivalma a quem se possa pedir ajuda, tudo a banhos nos Algarves e nas Costas e por aí.
Atei uma ligadura ao pé para segurar o sangue, agarrei na chave do carro e sai em direcção ao centro médico, conduzindo muito devagar e sempre em pontas. Quando cheguei veio-me à ideia um homem lá do Alentejo a quem chamavam o Cem, cento e vinte, por coxear. Só nessa altura me dei conta que a sola dos pés parecia a última folha do catálogo da Robbialac, o preto, mas como aquilo doía cada vez mais, depressa me esqueci da vergonha.
A enfermeira lavou-me o pé e depois de duas anestesias de spray que mais parece um bronzeador, a médica achou por bem anestesiar-me doutra forma pois aquilo não pegava. Finalmente, tirou-me 3 Muranos, uma fortuna deitada para dentro do saco do lixo hospitalar e com destino ao fogo, ironicamente.
Sosseguei quando a senhora doutora me disse que podia ir à praia. Comprei de enfiada uns pensos impermeáveis e para não correr o risco de me acontecer mais nada, deitei-me na areia frente ao mar e ali fiquei até ser quase noite.

Tá gatão

Desde há dois ou três meses que ouço esta frase com frequência: tá gatão ou, no mínimo, tá gato. Diga-se o que se disser o adolescente que tenho lá em casa começa as frases com uma das expressões acima. Por vezes começa e acaba, ou seja, não diz mais nada.
Se o mando despejar o lixo, se pergunto se quer ir à praia, se vai sair à noite, se o quarto está arrumado, o que quer jantar, se janta em casa e todos os eteceteras possíveis.
Ainda não consegui estabelecer um padrão sobre se o uso do superlativo é para situações especiais pois sai indistintamente, ou então sou eu que não alcanço o critério de importância de certas sentenças.
Lembro-me duma altura na minha adolescência - há coisa de alguns meses – em que a palavra bruxo era igualmente resposta para tudo, se bem que fosse em tom de concordância e o tá gato não é bem assim, pois pode querer dizer nada feito, o que lhe confere um grau simultâneo de pronto-a-vestir e de grande irritabilidade.
Tenho uma teoria, profundamente trabalhada e fruto de árdua investigação, que me leva a concluir que o principal objectivo é mesmo irritar e deixar o interlocutor sem saber o que dizer, uma vez que para que a conversa faça um mínimo sentido há que voltar a fazer a pergunta inicial e tentar esclarecer qualquer coisinha.
Assim, resolvi virar o feitiço contra o feiticeiro e ontem quando ele me perguntou o que era o jantar eu respondi tá cão. Ele repetiu a pergunta e eu repeti a resposta provocando-lhe uma gargalhada.
- Oh mãe… não se diz tá cão… diz-se tá gato…
- Oh filho… isso dizem os filhos… as mães dizem o que lhes apetece…
- Tá gatão… - e continuou a rir.
- Tá é cão de fila brasileiro se tu não vieres ajudar-me. Apanha a roupa que está estendida…
- Tá gatão…
Ele apanhou a roupa e rimo-nos ambos.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

O rato

Como o dinheiro abundou nas férias passei parte delas em casa. As limpezas fizeram-me companhia e andei entretida. Não prescindi das caminhadas e um dia exagerei, não nos quinze quilómetros, mas pelo facto de não ter levado meias. Os ténis, garganeiros, deram-me uma dentada no tornozelo, acabei a coxear e com uma roedura. A bolha de água rebentou e aquilo fez uma ligeira ferida da qual nunca mais me lembrei pois passei a andar de sapatilhas de enfiar no dedo.
Andava eu em plena campanha de limpezas, com móveis arredados e paredes brilhantes de detergentes quando dou conta dumas minúsculas manchas no chão, vermelhas, como sangue. Raios partam! Seria um rato? Com tanta movimentação, teria despejado algum espécime e tê-lo-ia ferido, razão pela qual o sacanita andava por ali a procurar esconderijo? Seria um dos espertos, tipo Mickey? Um fofo como o Bernardo ou a Bianca? Meu Deus... e se fosse um Remy que me aparecesse com a família inteira? Eu nem sei fazer ratatouille...
Resolvi fechar as portas todas e começar na cozinha. Teria eu dado cabo de algum cano ou qualquer cosia do género e o rato tinha-se escapulido para dentro de casa?
Como não tenho caçadeira peguei na vassoura e fiquei imediatamente convencida que sim, ele estava na cozinha! A prova disso era o aumento das pequenas pegadas que cresciam em todo o lado.
Bancos em cima da mesa da cozinha, balde do lixo – vazio e lavado - em cima da bancada, frigorífico no meio da cozinha, móvel de madeira a fazer de segunda rotunda e, pela primeira vez, franzi a cara em desgosto pelo tamanho da cozinha, enorme. Preparava-me para desviar as máquinas quando dou conta que ele devia estar a passar-me pelos pés, tal o número de pegadas ensanguentadas que pisava. Mas como era possível? Eu não via nada!
Resolvi sentar-me na bancada, de arma em punho. À espera. Semicerrei os olhos e vi a selva africana… um rio… um delta… um hipopótamo bebia água ao escurecer… aproximaram-se uns leões e umas panteras… as hienas riam a olhar-me e, de repente, percebi porque se riam: com o rabo em cima da bancada, as pernas a baloiçarem e os chinelos pendentes, vi que a ferida causada pelos ténis e pela falta de meias estava a sangrar, escorrendo-me pelo tornozelo abaixo. Saltei da bancada. Dei uns passos e verifiquei que deixava um trilho de pequenas marcas vermelhas no chão.
Que bela ratazana eu me saí!

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

De Lisboa a Foz Côa. E volta.

Depois duma semana no Algarve, o Duarte ficou com o pai por duas longuíssimas semanas e eu vesti o meu fato de marinheira e fui dar uma volta com os meus sobrinhos: só me faltava a boina e o rabo alçado de gansa, porque apesar de só ter levado dois sobrinhos, o terceiro vem a caminho, o que quer dizer que dentro de poucos anos eles deixam de me chamar Quica para me chamarem Donald.
Foi a primeira vez que a levei a ela e fartei-me de rir no meio das birras da garota, não porque seja sádica, mas porque ele fazia observações como se fosse adulto, revirando os olhos e falando-me em sussurros para que ela não ouvisse. O banco de trás do carro era alvo de gritos e zangas intercalados com momentos de ternura e amizade. Por duas vezes ameacei parar o carro e levá-los de volta a casa. Conhecendo-me, os desgraçados continuavam na algazarra!
Saímos de casa com direcção a Conímbriga onde não ia há anos. Apesar de a cidade não ser habitada há séculos estava muito mudada! Ele adorou, ela suportou, o tempo fez-nos o jeitinho e esteve encoberto enquanto pulávamos e corríamos por entre memórias e histórias. E pedras também, já agora, é bom que se diga, pois quem lá vai deve levar doses extra de imaginação, para poder ver melhor.
Quem me conhece sabe que, ao contrário da gigantesca maioria das mulheres, não gosto de fazer compras e as lojas não me atraem, mas se há sítios onde tenho prazer em comprar é em lojas de museus. As Ruínas e o Museu Etnográfico de Conímbriga têm uma loja com produtos de… outros museus. Quis comprar t-shirt’s aos garotos mas só havia doutros sítios e desisti.
Acelerámos devagar e dormimos em Celorico de Basto, sem visitas a nada porque chovia e era de noite. Jantámos com os olhos na televisão à espera que desse o Milionário para vermos como eu tinha ganho, apesar de continuar pobre. Não deu e passámos o resto da noite na batota! O quarto, onde se chegava depois de galgarmos vários lances de escadas e de a minha sobrinha perguntar porque raio não havia elevador, era um mix de dois quartos com uma enorme casa de banho, um com cama de casal e outro com cama individual. Assim que viram aquele luxo ambos manifestaram intenção de dormir na pequena arrecadação, perdão, no quarto mais pequeno, decisão que eu releguei para quando nos deitássemos. Como ele é sonâmbulo optei por dormir com ele – porta fechada à chave não fosse ele dar uma volta por Celorico a meio da noite – mas ela não gostou da opção e gerou-se ali uma crise, com choros, da parte dela, cansaços, da minha parte, e amuos, da parte dele. Acabei por ser eu a dormir no anexo, depois de ter fechado a porta à chave e colocado as maletas diante da porta como reforço para eventuais fugas. Ora, o garoto levantou-se mesmo a meio da noite, mas não foi para sair e sim para me chamar e informar que ela tinha feito xixi na cama.
Passeia-a por água, mudei-lhe a roupa, passei os dois para a sucursal do quarto e eu mudei-me para a bordinha da cama de casal onde fiquei até de manhã, quando o sol apareceu para nos conduzir a Foz Côa.
Nunca tinha ido ver a gravuras e adorei apesar da confusão da deslocação.
Fomos ver o  Museu do Côa e ficámos a saber que era preciso marcar a visita às gravuras; quinta-feira havia vaga e eram 11 da manhã de terça. Perante isto, tirei a boina, que fiz descer até ao colo devagar, saquei do meu ar mais triste, olhei os pobres pequenos com lágrimas nos olhos, baixei as penas do rabo em sinal de desalento profundo, avisei-os em voz baixa que íamos passar o resto dia sem comer o que lhes criou uma enorme e visível consternação nos rostos. Não sei se foi isto ou não, mas o funcionário disse-me que havia empresas privadas que levavam gente a ver as gravuras e deu-me os números de telefone; à quarta e última tentativa marquei para as quatro da tarde desse dia. Quando desliguei verifiquei que não era preciso tanto teatro pois davam os telefones a qualquer um! Com franqueza!
Dos quatro locais onde é possível ver as gravuras calhou-nos o de Castelo Melhor. Vimos o Museu, demos uma volta em Foz Côa e fomos almoçar ao  Restaurante Paleolitico em Castelo Melhor, que não tem multibanco. Voltámos a sair e andámos cerca de 15 quilómetros, ida e volta até Almendra, onde há uma caixa ATM, num largo lindíssimo que nos fez sorrir por no Paleolítico não haver multibanco, caso contrário não teríamos ido a Almendra.
Comemos e fomos até ao local da partida para as gravuras, convicta, eu, que haveria por ali qualquer coisa para fazer, para passar o tempo. Esperava-nos uma casa onde se vendia água fresca – não havia sol, mas estava muito calor – mel, sabonetes de leite de burra e pedras com ímanes para pormos no frigorífico como recordação de Foz Côa. Ainda não eram duas da tarde e já me estava a ver a dormir a sesta no carro, estacionado no meio duma rua onde me garantiram que não havia problema. Os donos da casota das águas logo a quererem saber com quem íamos descer, como se eu conhecesse toda a gente por ali. Estavam os miúdos a meio dum gelado que se ia desfazendo a velocidade recorde quando entrou uma rapariga que se apresentou como a pessoa que nos guiaria até ao fundo do vale dali a duas horas e qualquer coisa. Olhei com inveja os passageiros a entrarem no jipe e a desaparecerem por uma curva. Estávamos cansados, moles, sem vontade de nada e eu não podia estar ali duas horas a entreter os miúdos com jogos e canções… a menos que lhes desse gelados ininterruptamente! A construção desta ideia genial foi interrompida pelos lamentos dum jovem que se perguntava onde andariam as sete pessoas que tinham marcado com ele àquela hora. Isto assim não podia ser, então marcavam e depois não apareciam? E nem sequer atendiam o telefone…
Do grupo original restava uma francesa, por volta da minha idade, mas que a aparentava, ao contrário de mim que estou sempre à espera que me venham perguntar pelos meus pais. Enquanto os gaiatos, sentados num muro ao lado do carro, viam os gelados desaparecerem fui falar com o rapaz e disse-lhe que éramos três e queríamos ir com ele. Que não podia ser, que parecia mal, que eu tinha marcado com outra empresa, que isto parecia traição, que isto e que aquilo.
- Ouça lá… você tem lugar, eu quero ir, deixe as explicações comigo, por favor.
Acenei aos miúdos que vieram a correr lambuzados até aos joelhos, dando-lhes um ar triste mas excelente para falar ao coração do jovem que teimava em não nos querer levar. Em desespero de causa disse-lhe, esperando que nenhum dos meus dois compinchas me desmentisse:
- Olhe, eu vim aqui de propósito… tenho dois miúdos… se for às quatro da tarde, estarei despachada por volta das seis, hora a que me vou fazer à estrada para uma jornada de quinhentos quilómetros.
Rezei para que o meu sobrinho não me corrigisse o número de quilómetros nem me perguntasse qualquer coisa como, então onde vamos dormir, ao Algarve? Mas eles estavam a discutir as diferenças do jipe com outro onde tinham andado em Marrocos e estavam com ar de ciganitos, mas ausentes.
Valeu-me o dono da loja de bebidas que se meteu na conversa e sugeriu que nós fossemos e que lá em baixo eu desse uma explicação à guia. Paguei os bilhetes e meti-nos aos três no jipe antes que o condutor tivesse tempo de recusar novamente. Acomodei os garotos ao lado da francesa no banco de trás e sentei-me no lugar do pendura, mostrando imenso e urgente interesse em saber mil coisas sobre as gravuras, enquanto o condutor /guia dava as explicações em português e depois em francês.
A descida ao vale é impressionante e as paisagens são imponentes, com o domínio das vinhas, as colheitas a fazerem-se face às temperaturas mais elevadas naqueles locais.
Quando lá chegámos fiquei com pena de não ter feito aquele passeio há mais tempo e prometemos voltar a todos os outros locais visitáveis, incluindo a uma das visitas nocturnas. Concluímos os três a rir que qualquer regresso terá que ser feito sem a presença da mãezinha que não aguenta emoções fortes nem gosta de ter precipícios a seu lado.
Descemos até Nossa Senhora dos Remédios em Lamego e dormimos no  Hotel Parque onde eu tinha feito uma reserva há uns tempos e onde não dormi pois as andanças andebolísticas do meu filho levaram-me a trocar o repouso daquele local por um divã no hospital de Vila Real, onde ele foi operado.
Desta vez dormimos mesmo; jantámos meio à pressa para irmos pôr os olhos na televisão e até dissemos à empregada do restaurante que eu ia ganhar o Milionário nessa noite. Ela deve ter achado que éramos uns mentirosos porque continuou sem dar nada. Assim sendo, voltámos à batota!
Retemperados e depois duma descida das escadas do santuário, parámos na Batalha onde fomos ver o Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota. Não andámos à espadeirada mas o meu sobrinho deu um pontapé numa pedra e partiu uma unha. Isto vale alguma coisa em prol da defesa da nação? Em prol da boa disposição vale com certeza e o resto são cantigas.
A minha aparição no Milionário acabou por ser num dia em que cada um estava nas suas casas; fiquei espantada com a quantidade de pessoas minhas conhecidas que estavam a ver e agradeço as mensagens e os telefonemas que se sucederam nessa noite embora eu suspeite que a pergunta que todos queriam fazer e ninguém fez, era quem era eu, uma vez que, como estava de preto e bem redonda, me confundia com o Malato. A televisão é tramada…
Na manhã seguinte o dono do café por baixo da minha casa deu-me os parabéns mas com ar de acusação. Não percebi. Ele esclareceu que se eu fosse uma vizinha mais atenta teria sabido a resposta final e ganho cinco mil euros. Abri os olhos perguntando silenciosamente o que tinham os meus hábitos solitários de vizinhança a ver com os meus conhecimentos sobre quem ganhou o prémio fotográfico XPTO. Foi assim que fiquei a saber que o vencedor do dito prémio é… meu vizinho. Quando o mocinho ganhou o dito foi uma algazarra na rua mas eu devia estar ausente. Em Marte. Ou teria sido em Saturno?

Regresso

Recomeça hoje a contagem de riscos na parede para as próximas férias.
O último fim-de-semana foi desastroso, falando em termos climatéricos, mas a sessão de cinema com o Duarte no último dia, como é de tradição, manteve-se. Aliás, foi ampliada porque foram dois de seguida, e os dois tão bem escolhidos que merecíamos levar com uma pá na cabeça. Entrámos para os macacos, que apenas nos arrancaram um esgar de indiferença, e saímos a correr, contando que as apresentações do filme seguinte se estendessem à nossa espera; os aliens foram ainda piores que os macacos e escapou o rabinho bem feito (um bocado magro, diga-se de passagem, mas ainda assim, bem feito…) do Daniel Craig e a presença sempre bem-vinda do Harrison Ford que continua a saber montar a cavalo mas se fosse visto pelos replicantes havia um suicídio colectivo desta gente.
Há meia dúzia de dias, tinha ido ver os Chefes Horríveis e o Senhor Kevin Spacey – aquela pele tão Lili Caneças é mesmo dele, ou teria sido para o filme? – lembrou-me que o dia de hoje estava a chegar, o que me provocou um leve mal-estar na barriga.
Hoje estou meia azambuada, como se estivesse a hibernar há um mês e tivesse acabado de acordar; talvez o facto de ter ido para a cama às duas da manhã e de me ter levantado cedo tivesse ajudado a esta sensação, mas duvido.
Estive um mês sem mexer num computador – ok, vim trabalhar um dia a meio das férias, para matar o stress da saudade… - mas ando com o olhar perdido em busca das teclas, dos papéis e, ou é impressão minha ou então não sei, mas acho que o relógio se avariou porque o tempo não passa. Que sorte, uma avaria logo no primeiro dia…