quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Como construir uma verdade em 30 segundos

As escadas do metro que dão acesso à plataforma avistam-se antes de as começarmos a descer. No átrio antes das escadas as pessoas amontoam-se, olham para todos os lados, uma ou outra voltam a sair. Ouço que não há metro.
Muitos outros passageiros ouvem o mesmo e nem passam as cancelas, ficam do lado de fora.
Não tenho grandes alternativas, esperarei e nem darei conta do tempo passar pois tenho um livro.
Vou desviando-me dos passageiros que vão ficando parados ao longo do pequeno percurso e começo a descer as escadas, ao fundo da qual está um homem sentado que, sem o saber, foi o causador do boato de não haver metro.
Atrás de mim vem uma mulher que cumprimenta o homem, ele levanta-se, desce os dois degraus que lhe faltam e entram juntos no comboio que está, quase vazio, na estação.
Enquanto isto, do cimo das escadas, alguém pergunta em vozeirão:
- Há metro?
Respondo que parece que sim e as pessoas começam a descer em catadupa. Os lugares ficam todos ocupados e há gente em pé, o que não costuma acontecer.
Pelas conversas percebe-se o motivo da avaria: alguém viu o homem sentado nos degraus e pensou que se ali estava era porque não havia transporte. Daí até que aquilo fosse verdade foi meio minuto.

Chernobyl, os caracóis e eu

Em tempos que já lá vão tive um chefe que tinha vivido vários anos na Rússia.
Um dia a mulher teve um ataque de vesícula e teve que ser operada de urgência. A intervenção cirúrgica, aparentemente a fazer de olhos fechados, tal era já a facilidade, acabou em complicações que a colocou mais para o lado de lá do que para o lado de cá. Razão: ela estava nas redondezas de Chernobyl quando, em 1986, se deu o acidente nuclear e as consequências ficaram para sempre, dando a cara nas situações e momentos menos esperados.
O chefe, que tinha vivido em aflição à data do acidente, voltou a viver em angústia e sobressalto naqueles dias, com a mulher hospitalizada e sem saber o que podia acontecer.
Para não variar, ao ouvir a palavra Chernobyl, ainda para mais com sotaque russo, eu ficava em transe: era longe, numa Rússia que na altura eu não conhecia mas adivinhava bela, exótica e cheia de surpresas, e equivalia a um pesadelo da humanidade e isso, para mim, era mais que suficiente para fazer vénia.
Este episódio foi o que me colocou mais perto de Chernobyl e, com excepção das notícias que surgem de vez em quando, a actual cidade-fantasma não tem sido alvo do meu interesse, nem se tem cruzado comigo. Até agora.
Há meia dúzia de dias foi-me diagnosticada uma necrose, receitados medicamentos com valores luxuosos, que não são comparticipados e cujo custo total tenho que pagar.
A bula de um dos medicamentos diz que foi desenvolvido ‘a partir da investigação na pele agredida por radiação em tratamentos oncológicos e em lesões e queimaduras de sobreviventes do desastre nuclear de Chernobyl’.
Leio e penso que da desgraça de uns vem o benefício de outros; imagino laboratórios com tubos de ensaio a fumegar, experiências a serem repetidas até à exaustão, cientistas suados e cansados, acordados dias e dias a fio, sem desistirem de encontrar a pedra filosofal. Imagino que para descobrir e produzir uma coisa que minimize os efeitos dum poderio como um acidente nuclear seja precisa quase uma intervenção marciana.
E continuo a ler a bula que informa que a fórmula ‘é baseada na secreção do Cryptomphalus aspersa’. E quem é o Cryptomphalus aspersa, quem é? Um pequeno caracol terrestre…
Ora isto põe-me logo a memória a funcionar e leva-me para anúncios da televisão e para uma banca algures num corredor do centro comercial lá perto de casa, onde se anuncia e vende um produto à base de baba de caracol, que eu sempre achei ser parente da banha da cobra.
Afinal parece que não é assim e que os molengas que se arrastam langanhosamente contribuem para a nossa salvação, amén!
Resta-me um problema para o qual não tenho solução: devo continuar a comer caracóis…?

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Viva o Folheto!

Ex.mo Sr. Dr., médico de família, médico particular, especialista, estagiário, e outros

Venho por este meio agradecer a ideia do folheto que vão criar para explicar às pessoas porque não devem pedir a substituição dos medicamentos nas farmácias.
Essa medida vai garantir várias coisas a bem da nação:
- Desde logo vai dinamizar uma qualquer empresa gráfica, e tão mal que andam as gráficas, com toda a gente a ter computadores e impressoras e a fazer as coisas em casa.
- Acelera-se a morte de muitos velhos que aí andam só a empatar: como não têm dinheiro nem para os genéricos, vão passar a comprar ainda menos medicamentos e, deixam de enriquecer as farmácias, cujas filas diminuem, deixa-se de lhes pagar pensões e passa a haver mais lugares livres nos transportes pois, como as pessoas têm que trabalhar até morrer, manda a boa educação que nos levantemos face a alguém de provecta idade que entre na carruagem.
- Os lares vão baixar os preços face à diminuição do número de clientes
- As famílias deixam de ter a maçada de sentar os avós à mesa de Natal

Como se calcula, muitos outros benefícios advêm desta medida, não me alongarei na lista.
Os farmacêuticos são uns bandidos com interesses que aos senhores doutores não passam despercebidos, por isso são doutores, mais espertos que todos os outros, mesmo os doutores que, sendo doutores, mas não são médicos, ora toma lá! E os clientes estão de conluio com as farmácias! Sei bem do que falo pois no sábado assisti à seguinte cena: a farmacêutica pediu 49 euros por um medicamento a uma mulher que, desavergonhada, pediu o medicamento de substituição e acabou por só pagar 19 euros!
Estão feitos uns com os outros!
Os motivos que os senhores doutores, os médicos, não são vocês!, alegam são de primordial importância, por exemplo para a minha vizinha do lado, mulher para mais de 70 anos de velhice que corre graves riscos se o medicamento não for e x a c t a m e n t e o que o médico lhe receitou e pode até morrer disso, verdade? Claro que não morre pelo facto de nem sequer os comprar! Pois se não os comprou foi porque não quis, e suicidar-se… olhem, está na vontade de cada um, não é assim? Isso é lá com ela e não com os senhores doutores, médicos!, que só se preocupam com o nosso bem-estar!
Demos graças por haver quem pense aqui no rectângulo! Quem se preocupe com as pessoas, quem não tem rabos-de-palha, quem, em suma, pensa no futuro!

domingo, 23 de outubro de 2011

Tilbage

A minha criança regressou. Parece que havia muito de novo no reino da Dinamarca: todas bonitas, elegantes, louras, altas. Fotocópias? Pergunto eu. Ele responde com um olhar de esguelha, sorridente. É suposto que eu perceba. Eu percebo, mas faço um olhar interrogativo. Ele passa a falar de andebol, dos jogos, de como um espanhol fez uma fractura exposta durante um jogo, de como são todos superiores técnica, tácticamente, pesos equilibrados, todos com quase cinco metros de altura.
Tem noção que foram para aprender e já não está angustiado por terem perdido. Percebeu que só perderam jogos, que ganharam experiência, conhecimentos e sabe que isso é importante. Muito importante.
Pelo meu lado sinto-me presenteada assim que o vejo, gorro na cabeça, como um estrunfe gigante, é o primeiro a sair pela porta em direcção aos que esperam. Aceno-lhe como se não o visse há um ano. Apercebo-me de como lhe aceno e acabo a rir-me para mim própria com o exagero, andando na direcção dele.
Que saudade.
Pelo caminho diz-me que trás os joelhos escalavrados. Chegamos a casa, despe-se e vejo-lhe os joelhos. Escalavrados. Lembro-me que há dois dias uma pessoa conhecida me disse que tinham desmartelado um barco. Na altura contive-me e nem fiz qualquer correcção, mas agora, diante do escalavramento dos joelhos do Duarte, desato a rir. Ele estranha que tanta ferida me dê vontade de rir. Conto-lhe. Rimo-nos os dois. Preencho as saudades. Digam o que disserem, há rotinas maravilhosas.

sábado, 22 de outubro de 2011

Cal

Boa noite José Luís Peixoto
Hoje de tarde fui ao médico, sabe? Não sei como aconteceu, baralhei-me nas horas e cheguei uma hora mais cedo; fiquei na sala de espera que tem uma maquineta para tirar senhas muito sofisticada, uma para consultas a marcar, outra para consultas marcadas, mas para avisar na recepção que já chegámos, outra só para pedir receitas, outra para carimbar papéis depois de sairmos da consulta e outra para não me lembro. Há muitos velhos ali e raros são os que chegam e esticam o dedo e carregam na tecla certa à primeira; a maioria olha, olha, e não sai da indecisão até que uma alma caridosa pergunta o que foram fazer e lhes tira a senha, mas nem por isso lhes resolve o problema pois a chamada faz-se num quadro electrónico cheio de cores que se misturam, como se a falta de vista dos clientes não fosse suficiente para dificultar a leitura, e a idade ajudasse a percepção do raio do quadro.
Sabe José Luís, eu sei que as coisas se passam assim porque já lá fui mais vezes mas hoje não vi nada disto. Comecei a ler Cal de manhã no metro e acabei na sala de espera do consultório. Sei que leio depressa, mas a leitura da sua escrita dá-me urgências ainda maiores que as normais, o que se torna engraçado porque tudo é sereno e dá-me a sensação de que escreve devagar, inspirando e expirando cadenciadamente a cada nova palavra.
Ontem acabei de ler uma pedrada, daquelas que nos fazem sorrir e ficar felizes, mas a sabermos porque sorrimos e estamos felizes: Deixem Falar as Pedras; e há um ritmo, um bater de pezinho, um cantarolar na escrita do David Machado que não há na sua, que é duma tranquilidade que leva às lágrimas, duma envolvência que se mete no sabugo das unhas. Nenhum Olhar já me tinha feito chorar, e outras palavras suas, como o Livro também, estão aqui, ali, está a vê-los?, em lugar sempre aquecido, mas Cal tocou-me particularmente e vou explicar-lhe porquê.
Zé Luís, posso tratá-lo assim?, Zé Luís eu também sou alentejana e vi a minha avó Nicácia na Cal, e lembrei-me da caleira que estava sempre no quintal de cima, dura que nem cornos e que se reavivava todos os anos antes das festas de Nossa Senhora do Ó, quando era tudo caiado. Eu só ajudava se não estivesse com aquilo, que era a forma da minha avó aludir à menstruação, pois quem mexia em cal quando estava com aquilo ficava louca.
Os braços da minha avó eram moles como doce de ovos, mas eram mais lindos que os braços da Júlia da farmácia, ai pode apostar com quem queira! Quando a minha avó se zangava largava conhos até dizer chega, sem saber várias coisas, como por exemplo o que queria aquilo dizer e sem saber que levava til porque a minha avó não sabia escrever, só fazia o nome e punha o dedo. Mas sabia contar e desenvolveu um esquema próprio para a ajudar nas contas do talho e saber quanto era meio arráte, nome pelo qual chamava ao arrátel, quando uma família comia metade de metade de quilo de carne durante uma semana.
A minha avó fazia meia com um sistema de quatro agulhas, meias grossas de linha que aqueciam os pés do meu avô. O calcanhar era o mais difícil, mas ela fazia aquilo rápido e não se enganava. Quando não fazia meia, nos fins de tarde de Verão, sem tamanho que se conseguisse medir, penteava-se com um pente de finíssimos dentes e cá dentro eu sabia que ela tinha sido a inspiração para a bela infanta, no seu jardim assentada, com o pente de oiro fino, seus cabelos penteava. Que dúvida podia haver?
No dia da procissão a minha avó tirava o avental, nos outros dias mudava-o. Mesmo quando vinha a Lisboa, que detestava, vinha de avental, um avental próprio para sair onde ela guardava o lenço para se assoar e para lhe limpar lágrimas que sempre lhe escorriam sem saber porquê. Eu é que não sei porquê, percebe Zé Luís?, ela talvez soubesse.
A avó Nicácia e o avô Gualdino – e aqui paro de escrever, procurando as palavras certas que, não só não encontro, como parece-me bem que não existem e terei que procurar umas aproximadas – a avó Nicácia e o avô Gualdino são presenças muito fortes na minha vida e o Zé Luís hoje apareceu-me de mão dada com eles, assim, de repente, de forma inesperada, até à sala de espera do consultório, onde qualquer um dos que lá estava podia ser um deles, mas apenas um estava com alguém que podia ser eu. Os outros estavam sozinhos.
A casa da minha avó tinha três quintais: o quintal, o quintal de cima e o quintal das galinhas.
O quintal era florido, como a dona, na altura certa ficava com um chapéu de videiras que nos abrigava a nós também daquelas calorinas e tinha um poço; era no quintal que estava o tanque que deu origem a muitos gritos dela a pedir-me para deixar de lavar roupa às três da tarde de Julhos e Agostos no Alentejo profundo com temperaturas a tocar 50 graus.
O quintal de cima tinha laranjeiras, leiras de hortelã, poejos, coentros e outras ervas e a lenha. O gigantesco monte de lenha era outro planeta habitado por gatos essencialmente, mas também por ratos e outros bichos cujas casas eram demolidas quando o meu avô ia buscar barrotes para o lume.
O quintal das galinhas tinha galinhas, porcos, vacas, uma mula e um macho, patos, coelhos, mas as galinhas tinham um qualquer lugar especial e davam o nome ao quintal. A minha avó passava muito tempo a migar restos para as galinhas e ficava com os dedos retalhados, mas de cor normal. Quando retalhava azeitonas ficava com as mãos pretas; eu descascava laranjas para lhe juntar as cascas. Ela depois metia lá as mãos e como que amassava as azeitonas com a laranja, os orégãos aos molhos e apetecia-me cantar.
A minha avó, Zé Luís, era gorda como uma mesa redonda, mas o espaço que ela ocupava era muito maior que o espaço quadrado em si porque ela era um mundo, ou dois. Era um mundo do passado que sabia coisas que estavam adormecidas, não mortas, caso contrário não apareciam ali densas, a solidificarem com as palavras dela em estórias do antigamente. Era um mundo do presente porque nem o mundo seria mundo se ela não existisse, com o seu cabelo comprido que compunha num monho com ganchos e se deixava rir quando eu lhe dizia que ela o devia cortar. Ai Zé Luís, as crianças…, as crianças são boas pessoas mas são tolinhas, então já viu, eu a sugerir que ela cortasse bocados dela própria?
Ela tinha um forno onde fazia pão, às vezes, poucas, e muitas vezes fazia bolos. E fazia café numa cafeteira preta que se confundia com o lume no chão e era bom como nada que eu tivesse provado entretanto e se lhe metesse um bolo do cozido partido aos bocados, valia a pena morrer a seguir porque morria feliz e lambuzada.
Sabe que ela me deixava usar o garfo do meu avô? É verdade. O meu avô só comia com um certo garfo que era diferente dos outros e tinha um cabo de madeira; quando ele não estava ninguém lhe mexia, como se fosse um objecto sagrado; mas eu podia comer com ele… era como deixar a pequena princesa brincar com a coroa da rainha. Sei que me entende.
Muitas, muitas, muitas, muitas vezes fui com a minha avó à loja: à do Campaniço, à do senhor Caetano. O senhor Caetano era mais rico que o Campaniço e chamava-se-lhe senhor antes do nome; com o outro ia-se directamente ao apelido. Um pão ou um pacote de arroz era epopeia para uma manhã bem medida. Saíamos de casa na Coitada, descíamos até à ribeira, com muitas escalas pelo caminho, falando com toda a gente, como se não se vissem há meses, depois entrava-se na loja e estava feita a primeira etapa. Na loja passavam-se horas e repetia-se muito uma frase que me fazia rir, ‘ai, despache-me lá primo, que eu tou cheia de pressa’, mas deixavam-se ficar. E a minha avó também reclamava do vagar mas contribuía para ele e eu percebi que aquilo fazia parte do teatro de ir à loja, fosse à do Campaniço, fosse à do senhor Caetano. E depois havia sempre uma guloseima para mim. Sempre.
Quando entrei na universidade o meu pai não recebia ordenado há meses e eles mandaram-me o dinheiro para os livros, já falei disso muitas vezes Zé Luís. Sabe, demorei muito tempo a perceber, mas hoje sei porque é que as lágrimas se assomam à janela dos olhos quando entro no metro e há alguém a tocar um instrumento qualquer: é um chamamento! E lembro-me dos meus avós, vejo-os hoje e sempre, mesmo quando o fazia ao vivo e sem saber porquê chorava de alegria.
Não quero maçá-lo… podia ficar aqui a contar-lhe estórias e histórias dos meus avós até perder a voz e mesmo assim não terminava a viagem.
Os meus avós que viviam numa casa caiada, que não usavam tinta e sim cal, branca, como se usassem a paz para pintar as paredes da sua casa e da sua vida.
Fique bem Zé Luís e seja feliz

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Deixem Falar o David Machado

A densidade de Deixem Falar as Pedras não parece provir de um jovem de 33 anos.
Li o livro e vi o filme, satisfiz-me. Não, não me enganei: a apropriação da história faz-se de duas maneiras diferentes, lendo e visualizando, à vez.
Lendo as aventuras e desventuras de Nicolau Manuel, que nos remete para Viagens na Minha Terra, quando não percebemos se afinal sim ou afinal não e não queremos acreditar que tudo foi imaginação, Joaninha incluída.
Por outro lado, vemos o filme de todos os adolescentes que nos rodeiam, com as palavras que usam, as músicas que ouvem, os gestos que repetem, o guarda-roupa que gastam, o afastamento a que os devotamos, os excessos que nos deixam doentes por dentro e por fora, os problemas próprios desta geração, crus e transparentes. Assim. Sem vírgulas nem chamadas de atenção, nem perdões, nem atenções. Assim. Tal como é.
A acção vem de outros tempos e de amanhã também, tudo ao mesmo tempo, no dia de hoje, no agora.
Um dos aspectos mais significativos é a manutenção dos laços entre um avô e um neto e só por isto já valia a pena a leitura. Mas depois há a dor, a pessoal e a histórica, do país; há a escrita fluida e bem encadeada; há as palavras que nos levam como se fossemos pólen e nos deixam poisar nem sempre da forma mais agradável, mas é assim a vida.
Deixem Falar as Pedras tem a força duma pedrada e eu espero que acerte em muita gente.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Obrigada RTP

Batem as oito e estou encostada ao balcão da pastelaria a beber café, forte, para me dar uma mão e puxar da sonolência, do cansaço acumulado duma semana que se repete há semanas de doze horas de trabalho no local de trabalho, sem contar com os TPC’s que me obrigo a trazer para casa e sem contar com os sábados e domingos alternados em que tenho vindo trabalhar.
Falarem-me em mais meia hora de trabalho por dia faria sentido se fosse há quase quinze anos quando trabalhava numa Câmara e tinha horário para entrar e sair, para cumprir, não fosse aparecer a inspecção do trabalho, como me disseram tantas vezes. Agora soa-me a conversa de garotos do infantário.
Batem as oito e a televisão está sintonizada na RTP1.
Batem as oito e começa o Bom Dia Portugal.
E o Bom Dia Portugal, que quer acordar Portugal, dando os bons-dias como se isso fosse um passe mágico que de facto ajudasse Portugal a ter um melhor dia, e quem diz Portugal, diz os portugueses, eu incluída, e todos, mesmo os que trabalham no estrangeiro, ou será só para os que estão aqui, será Portugal geograficamente falando, com fronteiras? e se assim for, é bom dia para os estrangeiros também, os legais e os ilegais, é para todos, pois o som, seja dum bom dia ou doutra coisa qualquer espalha-se e não escolhe nacionalidade de ouvidos.
O som não escolhe ouvidos para entrar mas a RTP1 sim, escolhe as notícias para alegrar Portugal, para dar substância ao Bom Dia que quer passar a Portugal.
E que coisa melhor para solidificar esse Bom Dia se não o futebol?
Haja notícias da nossa realeza! A única, a verdadeira, a que vive no coração dos portugueses e por quem eles se desunham, do quem mexe realmente connosco, de quem põe o meu vizinho aos berros como se desse uma aula de gramática obscena a alunos que estão na Lua e não ouvem com o tom de voz normal.
Querida RTP, obrigada!

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Tem que ser...

Vale a pena sair da cama cedo para ser abraçada pela aurora. Veste-se dum rosa acamaronado suave que nos faz pensar que o dia vai correr bem. O trabalho que me obrigou a sair de casa antes da hora normal será feito com prazer, sei disso.
O primeiro pé na rua trouxe-me uma sensação estranha, desagradável, mas que entrou em mim. Vá lá saber-se porquê, a minha pele deixou-se penetrar e acolheu, contra a minha vontade, aquela coisa. O ar estava normal, a rua não tinha qualquer cheiro de onde pudesse vir aquele efeito.
Entrei no café da esquina devagar, olhei as outras pessoas que pareciam imunes à minha impressão, como se não fossem atacadas por ela. Olhei a direito e segurei com o olhar as coisas alinhadas nas prateleiras do café e, assim, eliminei as minhas habituais tonturas: a síndroma de Ménière estava adormecida, felizmente, e não era a causadora da estranheza.
Bebido o café, entrei no carro e, fosse pelo efeito da música ou da simples condução, aquela sensibilidade passou-me. Como vim mais cedo consegui um lugar de estacionamento que não fica a dois quilómetros da entrada do Metro; deixá-lo longe de manhã não me incomoda, mas custa-me ao fim do dia, de noite, fazer o percurso até entrar no carro: ontem eram nove e meia da noite quando sai do Metro e o lugar é tido como o de maior criminalidade em Portugal.
Satisfeita com aquela conquista, estacionei e saí do carro. Assim que abri a porta voltou aquele efeito, aquela coisa que estava no ar, não havia dúvida, e que me envolvia, arrepiando-me, fazendo-me encolher, como se abreviasse o espaço que ocupava. De repente, fez-se luz e percebi o que era: frio.
Se um Inverno se prolongasse por tanto tempo como este Verão eu estaria com uma depressão maior que a Fossa das Marianas, e reclamava da chuva, do frio, da roupa, dos casacos, das frieiras, dos sapatos fechados, das calças.
Há meses que não visto um par de calças, só saias e calções, pois uso-as apenas por uma questão prática, uma vez que não gosto de calças. Mas o tempo quente, sem entrar pelos prejuízos adjacentes a vários níveis, encanta-me e faz-me bem. Conclusão, não reclamo, pois uma das ideias que sempre acalentei era poder viver num sítio onde fosse sempre de Verão. Melhor que isto só se vivesse em vários sítios conforme o Verão, andando atrás dele em digressão pelo mundo.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Amores velhos ou velhos amores?

Estou sozinha. O meu filho anda de bola na mão em Kolding, na Dinamarca e eu aguardo a hora dos jogos para os ver na internet.
Não tenho medo de dormir só e levanto-me se um barulho me irritar, sem que saiba donde provém. Aconteceu ontem.
Já entrava no primeiro sono quando me pareceu ouvir uma espécie de gaita-de-foles. Sonhava? Não, era real. Obriguei-me a despertar pensando na péssima escolha da hora para um qualquer vizinho dar a conhecer à vizinhança os seus dotes de tocador.
O barulho parou. Voltei a entrar pela porta do sono e ainda dava os primeiros segundos passos quando aquilo recomeçou. Se me concentrar e fechar os olhos consigo perceber com facilidade de onde vêm os barulhos e foi assim que o escuro deu comigo com uma única peça de roupa, as cuecas, em pé, como cega, na entrada do amplo apartamento, do ponto de vista das formigas, onde vivo.
Aquilo parou novamente, mas eu não abandonei o meu posto: tinha uma teoria sobre a origem da coisa. Era o telemóvel da minha vizinha do lado, uma velhota que vive sozinha. Quando os telemóveis das pessoas idosas tocam sem que alguém os atenda, não é prenúncio de boa coisa. Do outro lado da linha, quem remarcava o número, pensava a mesma coisa com certeza e insistia, insistia, insistia.
O facto de dormir com os estores todos levantados faz com que nunca seja completamente de noite na minha casa, há sempre luz e essa luz foi o suficiente para eu encontrar um trapo qualquer que enfiei cabeça abaixo e sair descalça, mas já com duas peças de roupa, para bater na porta da senhora.
O barulho aumentou e confirmei a minha teoria. Acompanhei o toc toc firme na porta do lado com um arrependimento de não ter o telefone dum dos netos, qualquer um dos que me toca à campainha, por engano, querendo tocar na casa da avó. Porque raio é que não tenho o telefone de alguém?
Do toc toc passei para um desabrido PUM PUM PUM que me magoou os punhos enquanto perguntava a mim mesma quantas mais pancadas daria antes de chamar a polícia, mas ainda a decisão não estava tomada abriu-se a porta!
Antes que eu dissesse alguma coisa estava a velhinha a perguntar-me o que tinha acontecido. Vê-la de boa saúde fez-me ser cautelosa com as palavras pois as pessoas não gostam que lembremos a proximidade dum fim que há-de chegar, mas que tem tempo.
Disse-lhe que estava preocupada pois ouvia o telefone tocar sem que o atendesse. Sorriu, fez-me sinal com a mão para entrar, agradeci mas recusei, mostrando alívio por ela estar bem. Então, olhou para o telefone que tinha na mão e disse-me:
- Peço muita desculpa, não sabia que isto se ouvia assim tão alto. É um amigo, sabe, quer falar comigo a todo o custo, mas eu não tenho paciência para coisas de jovens…
- Coisas de jovens?
- Sim, vizinha, namoros e essas coisas… ele é muito inconveniente, que vergonha, desculpe, desculpe, sim?
- Hã…
- Agora sou eu que lhe vou ligar a dizer que a insistência dele até incomoda os meus vizinhos! Que vergonha… E vou ligar aos meus netos a contar… ai, desculpe, sim? Isto já vai longe demais!
Quando finalmente consegui dizer alguma coisa – e o não conseguir estava entre a minha ansiedade em salvar uma velhinha e a estupefacção pelo que acabava de ouvir e por ela falar sem parar – desfiz-me em ‘Oh vizinha, por favor, não tem problema algum, só queria saber se estava bem’ e, finalmente, balbuciei um boa noite, retirei-me de costas como se fosse um pajem diante duma rainha.
Já na penumbra, deitada, comecei a rir, mas o riso transformou-se em sorriso com a audição da conversa, porque não sou surda, entre a senhora e o pretendente. E se até aquele momento durante o dia não tinha lido nem fui ao cinema, ali, sem expectativas a não ser dos sonhos, cujos caprichos desconhecemos e nos podem levar ao pesadelo, eu senti-me na primeira fila a ouvir desfilar confissões, perdões e amores.

sábado, 15 de outubro de 2011

Terceira mão

Hoje saímos de casa e a meio caminho do destino o meu filho apercebeu-se que metade dele tinha ficado em casa: esqueceu-se do telemóvel.
Ofereci-me para lhe emprestar um, não quis, alegou que os contactos, ai os contactos..., não eram os mesmos, como é que eu achava que uma simples substituição resolvia o problema.
Como advogado brilhante e famoso na barra do tribunal alegou, alegou e alegou, mas eu não fiz inversão de marcha.
Aleguei também que duas mãos chegam perfeitamente e que podia passar umas horas sem a terceira. Mas o meretíssimo juiz não me deu razão e condenou-me ao silêncio que eu combati com gargalhadas às quais ele acabou por aderir.
Quando regressei a casa recebi uma mensagem. Era ele a dizer que afinal tinha levado o telefone. Fiquei danada e disse-lho, pediu desculpa e mandou beijos a rir.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Mala de plástico

Hoje de manhã segurei-me para não sacar do telemóvel e fotografar a senhora que seguia sentada à minha frente. Não era bem ela que me fascinava, mas sim a sua mala, uma imitação normal, com uma espécie de palavras repetidas como carimbos que se sobrepõem, e cujas asas, ou alças, ou pegas, ou aquilo em que seguramos as malas, chame-se lá como se chamar, mantinham o plástico com que os ciganos as vendem nas feiras, para não se sujarem e provarem assim às clientes que aquilo acabou de chegar de Milão, fique Milão onde ficar. Sei do que falo pois sou cliente e se tenho várias malas é porque as compro na feira e são tão boas como outras quaisquer.
Nunca tinha visto alguém manter o plástico e andar com as malas assim, não bastando já elas serem do mais puro plástico.
A senhora em causa é minha conhecida do metro, vamos muitas vezes juntas e um dia disse-lhe que tinha um brinco a cair, ou seja, até já falei com ela, mas não o suficiente para partilhar a vontade de rir que me deu e fazer o pedido de paparazi. A presença da senhora faz-se notar, quer queiramos quer não pois, apesar de sua idade, usa mini vestidos que lhe expõem as coxas até à gula de certos homens que seguem em pé, mas fixados nas belas pernas da passageira.
Conheço-lhe o ritual: senta-se, puxa o vestido para tapar mais as pernas, sem sucesso, abre a mala, tira um pano e um frasco de líquido para limpar as lentes dos óculos, limpa-os, volta a guardar o frasco e o pano, põe os óculos e fica a olhar para a negra paisagem. Nunca a vi ler um jornal sequer, nem dos gratuitos que por ali andam de mão em mão. Que pensará a olhar as paredes do metro que fogem a grande velocidade? Não sei. Mas sei em que estação sai e que hoje não eram os homens a olharem-lhe para as pernas, mas as mulheres a franzirem o sobrolho ao plástico da mala.

Adeus Vickings...

Acabei de perceber que amanhã não é sexta-feira. Ainda é quinta. O cansaço acumulado é o maior de sempre nesta altura do ano. Têm sido doze horas por dia, já desde a semana passada.
Quando soube da convocatória do meu filho para o Torneio na Dinamarca, abracei-o e beijei-o e mergulhei na internet. Aviões, hotéis, comboios, ligações, escalas, fiquei a saber tudo. Durante duas horas acalentei a esperança de ir gritar Portugal a Kolding, que fica algures num fiorde que eu conheço de vista das imagens do google, nada mais.
Nessa noite e antes de me deitar já sabia que teria que procurar saber se os jogos são visíveis via internet, pois é a maior proximidade que conseguirei: não tenho tempo nem dinheiro. Mas conhecendo-me, se tivesse tempo, havia de arranjar o dinheiro.
Hoje fizeram-me uma pergunta que me deixou a reflectir: não andaria eu a trabalhar que nem uma louca para arranjar tempo? Para deixar tudo organizado e desaparecer deste Verão tardio e surgir de pára-quedas no tal fiorde? Ainda que inconscientemente, a verdade não seria aquela? Respondi que não, não era nada disso, mas fiquei a pensar... quem me dera ter uma nota das grandes, só uma chegava para eu arranjar tempo. E ainda dizem que o dinheiro não dá felicidade? Que lata!

sábado, 8 de outubro de 2011

Quatro e dezasseis

Corro e consigo entrar. O rabo do metro vai sempre mais cheio e fico entalada entre uma senhora que leva uns sacos e vai, com certeza, arrependida da opção do transporte e outra que vai a falar ao telefone.
- Lembro-me que eram quatro e dezasseis
- ...
- Mas eu estava no tribunal não pude atender
- ...
- Mas eram quatro e dezasseis, isso eu lembro-me, por isso não digas que ligaste às quatro e pouco
- ...
- Quatro e pouco, não é quatro e dezasseis!
- ...
- Mas tu tens uma pontaria incrível, já é a segunda vez que ligas e eu estou no tribunal
- ...
- Sim, mas eram quatro e dezasseis
- ...
- Sei porque tenho relógio!
- ...
- Como é que decorei? Que raio de pergunta?
A mulher sai do metro e continua a falar ao telefone deixando-me de olhos arregalados com a sua capacidade de falar tanto tempo de um pormenor. Arranjo um lugar e sento-me a pensar que esta, das duas uma, ou é muito teimosa ou o alzheimer vai ter ali muito trabalhinho...

Injusta: nome próprio de mãe de adolescente

O meu filho acusa-me de ser injusta porque não o deixo ir dormir a casa alheia durante o período de aulas. Esperneia, fala sozinho, reclama, acalma-se e faz nova tentativa e eu mantenho a posição.
Pergunta-me o que me custa deixá-lo ir. Digo-lhe que me custa muito mais obrigá-lo a ficar do que deixá-lo ir, mas não espero que ele entenda.
É claro que sou comparada com outros pais e mães, uns porreiros que deixam as suas crias dormirem onde querem e, é claro também, que isso faz de mim uma energúmena, um bicho do mato que não quer deixar o seu filho socializar com os demais adolescentes quase adultos. Seja.
Alega que discutiu a Mensagem comigo, prova que estuda e não se furta aos deveres da escola. Vai buscar os elogios que lhe dei a propósito da leitura de Pessoa e mostra-me Felizmente há luar, faz a descrição das personagens e conta o enredo do que já leu como moeda de troca para uma noite na casa dos amigos. Não.
Como posso ser tão injusta? pergunta ele furioso. Digo-lhe que pode ir ao café se quiser, mas que é noite Cinderela, ou seja, à meia noite tem de estar em casa, e que depois falamos.
- Depois? Quando eu vier? O que me queres dizer que não possas dizer já?
- Não filho, não é quando vieres, é daqui a uns anos...

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Uma coisa com muita importância

Um dos grandes, mas mesmo grandes prazeres da vida é oferecer coisas, livros à cabeça, mas na lista estão igualmente as bonecas que trago à minha sobrinha dos locais que visito, a renovação de electrodomésticos para os meus pais, magnetos para os frigoríficos dos amigos e tudo quanto me lembre para o meu filho. Umas vezes maiores outras menores, por vezes nada, não porque me esqueça, mas porque não pude.
Não nego que sinto igualmente prazer em receber: alguém se lembrou de mim e isso é maravilhoso, seja um marcador de livros - recebi um da Irlanda há duas semanas - uma bela pintura africana - que veio de Angola há alguns meses e já tem moldura - ou um par de chinelos de quarto - vindos de uma Paris africana que os turistas nem sabem que existem. Os exemplos não teriam fim e acho que muitas vezes as pessoas não percebem como fico contente, ou talvez seja eu que não me manifesto o suficiente.
No meio disto tudo há uma coisa que não percebo: quando alguém dá uma coisa a outro alguém, na maioria das vezes, faz acompanhar o presente com uma frase que me põe os cabelos em pé: 'É uma coisinha sem importância'.
Ora bem... se é sem importância, não a quero. Se é sem importância, porque ma deram? Se é sem importância porque se deram ao trabalho de a comprar e trazer? Não percebo...
Quando dou seja o que for a alguém, mesmo uma coisa pequena, minúscula, nunca é sem importância mas, pelo contrário, vive nela toda a importância que dou à pessoa a quem a entrego, seja um livro usado ou um carro. É uma lembrança e na minha lembrança esteve a pessoa a quem dou a lembrança, que contém a pessoa que eu sou. Porque havia de ser 'uma coisa sem importância'? Perceberão as pessoas que dizem aquilo o quão materialistas são? Duvido.  

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A pobreza consiste em nos sentirmos pobres*

A maioria das pessoas que anda a pedir em Madrid é diferente dos que pedem em Lisboa pela simples razão que dão algo em troca, ou seja, exercem uma tarefa voluntariamente e esperam que lhes demos algo em troca. No metro sucedem-se as modalidades de músicos: um com um carrinho de supermercado coberto com uma lona que esconde uma aparelhagem, põe-na a tocar e acompanha com uma flauta; violas põe-nos o pezinho a bater, gaitas-de-beiços fazem-nos assobiar, instrumentos diversos gingam-nos, há quem faça malabarismos, mímica, contorcionismo. As pessoas dão qualquer coisa, pois não lhes pedem por pedir. Mesmo que não se dê nada, agradecem. Fizeram-me lembrar o cego que anda a pedir no metro em Lisboa e que bate com a bengala nas pernas das pessoas com violência e lhes dirige todo o tipo de impropérios, fazendo calar as carruagens; ninguém diz nada porque é cego, caso contrário já teria levado umas bofetadas, no mínimo. Como todos conhecem o seu comportamento a única coisa que fazem à sua passagem é encolherem-se e desviarem-se o mais possível, quantas vezes para dentro do minúsculo espaço dos que vão sentados: é melhor pedir desculpa do que levar com a fúria do cego que leva tudo à sua frente, não por ser cego, mas por ser bruto. Quando chega ao final da carruagem sem que alguém lhe tenha dado um cêntimo critica a virtude das mães dos passageiros e junta-lhe todo o calão da língua portuguesa.
Na noite que esperava por José Ignácio por baixo do falso quilómetro zero, veio uma mulher a puxar uma mala de viagem em cima da qual se equilibravam dois sacos de boa qualidade. Dirigiu-se a mim e pediu-me dinheiro para ir para o aeroporto. Perguntei se tinha perdido a carteira e esta minha pergunta fez-me sentir um apresentador de circo que anuncia o próximo número; ouvi a história dela: veio das Canárias em busca de trabalho que não conseguiu arranjar, o marido maltrata-a e não a deixa ver o filho, está desesperada e não tem um cêntimo. Olhos claros, braços e pernas limpos, sem marcas, discurso fluente. Perguntei se tinha fome. Que não, uns estrangeiros pagaram-lhe umas tapas, os estrangeiros são mais simpáticos que os espanhóis, eu era uma excepção. Fiquei indecisa sobre se lhe devia dizer que eu era estrangeira e, dessa forma, matar-lhe a réstia de esperança nos espanhóis. Dei-lhe o dinheiro que tinha, razão pela qual passei um momento embaraçoso mais tarde com José Ignácio, eu a insistir em pagar mas como não aceitavam cartão, logo, ele que já tinha guardado a carteira, teve que a tirar de novo e responsabilizar-se pela despesa.
Contei-lhe a cena com a mulher e ele franziu um bocado o sobrolho, sinal que estava na dúvida se eu tinha feito bem ou não… as pessoas têm muitas manhas para se aproveitarem dos outros e eu devia acautelar-me.
Como tanta vez acontece, lembrei-me do Leão da Tunísia, o verdadeiro, o único, trapezista nos melhores circos do mundo que um acidente moveu, como peça de xadrez comida, para fora do tabuleiro da vida e de quem ouvi a história na primeira pessoa; fui a única a acreditar nele, contra vozes de cuidados que se ergueram e quase não me deixavam ouvir, fazendo assim perigar uma das mais belas descrições de vida que já ouvi. Ao contrário dos demais vim com a carteira mais leve mas com a memória mais rica.

*Frase atribuída a Ralph Waldo Emerson

Com um brilhozinho nos olhos

No segundo dia de estadia em Madrid fui visitar um bibliotecário que me tinha anteriormente contactado para fazer Erasmus na minha biblioteca. Deparei-me com um jovem a rondar os 30 anos, bem-disposto e alegre, que me convidou para um café e me cumprimentou como se eu fosse da família.
No primeiro contacto por escrito, não sei porquê, dissera-me que estava de regresso de uma longa viagem e foram estas as palavras-isco que me prenderam sem ele fazer a mais pálida ideia.
Desinteressada de grandes preliminares fiz a conversa avançar rapidamente e perguntei que longa viagem era aquela. Resposta:
- Samarcanda, Vietname e Cambodja. Já ouviste falar de Samarcanda?
O pobre do rapaz não fez, não faz, nem fará ideia do efeito que teve sobre mim e provavelmente pensou que o meu tímido ‘sim’ seria um ‘não’ que eu envergonhadamente queria esconder. Mas este pensamento só surgiu depois. Depois das palavras entrarem em mim, formarem um remoinho, provocarem uma onda submersa, com efeitos de tempestade tropical mas numa floresta sem vivalma, de modo que ninguém vê. Alguns dos meus músculos petrificam ao sabor de certas palavras que têm uma conotação mágica e José Ignácio conseguiu com apenas um acorde dizer três delas: Samarcanda, Vietname e Cambodja, ganhando a minha dedicação e atenção total sem o perceber e sem sonhar como é difícil alguém conseguir um feito épico desta natureza.
É claro que tudo isto tem enormes doses de inveja e ciúme e, sem dar a entender, projectou-se uma bela longa-metragem na minha cabeça: Samarcanda igual a Alexandre, igual a fabrico de papel, igual a Gengis Khan, igual a Marco Polo, igual a Rota da Seda, igual a sultão, igual a desejo.
Depois de algumas explicações sobre a viagem, começou a falar português e eu acordei do transe. Queria praticar e combinámos que cada um falaria a língua do outro.
Temendo estar a impor-lhe a minha companhia desviando-o do trabalho, fui embora com a promessa de me ir despedir antes do regresso a Lisboa. Disse-me que nesse dia arranjaria mais tempo para falarmos e foi assim que José Ignácio ficou hibernado o resto da semana.
Como alterei a data de regresso, disse-lho por msn e combinámos ‘tomar un vino’ na minha última noite.
Esperei que não trouxesse companhia e a trazê-la, que fossem os companheiros de viagem pois, para ser franca, o que me interessava verdadeiramente era ouvir o relato, de preferência nas línguas dos países visitados, mas também aceitava espanhol ou português com erros. Combinámos no quilómetro zero que eu, tão ansiosa estava, confundi com uma porcaria duma placa na parede que anunciava uma joalharia com o mesmo nome, e à porta da qual um vagabundo bebia e falava sozinho.
Já passavam quinze minutos da hora marcada e pensei que se atrasara pois decerto convidara alguém, colegas de faculdade talvez, da sua idade, que o ajudassem a conversar com a portuguesa que o iria receber em trabalho dentro de meses e com quem tinha que ser simpático. Dei-lhe mais quinze minutos, ao fim dos quais, se não dissesse nada, me iria embora pois não estava para aturar um bando de jovens atrasados que me levariam a um sítio turístico com certeza, onde se falaria muito alto e onde eu não poderia atingir o meu objectivo, ouvir a descrição da viagem.
Surpreendi-me com um telefonema dele a perguntar se estava tudo bem e se eu estava muito atrasada… Atrasada? Eu? Bem, lá esclarecemos o local do quilómetro zero, eu apelidei-me de tonta mas sorri porque ele fora sozinho.
Primeira paragem: cerveja com batatas fritas e anchovas. Tipicamente madrileno, segundo ele, encostados ao balcão, eu com uma mala com um caderno e o meu Kerouac, ele com um monte de papéis.
Segunda paragem: Los Gatos; cerveja e polvo à galega, apinhados com gente a falar e a rir e onde me foi jurado que o local estava vazio. Normalmente não se consegue entrar e do balcão vão passando as cervejas de mão em mão aos clientes pois o empregado não consegue passar.
Terceira paragem e seguintes, só cerveja e muita conversa: sobre a vida, as viagens, os emigrantes, os livros e mais mil coisas, até que ele comenta que agora está mais seguro pois ficou efectivo no trabalho: era arqueólogo e nunca sabia se tinha trabalho ou não, se as verbas chegavam para dar continuidade a escavações em Toledo onde vivia. Registei o facto de ser arqueólogo (tanto que havia a dizer sobre isto…) e com ar maternal perguntei-lhe se podia dar-lhe um conselho; entrei por um discurso sobre a sua idade, falei do caracter chinês comum a crise e oportunidade, falei da velha divisão das pessoas em momentos de crise quando umas choram e outras aproveitam logo para vender lenços, que não tivesse medo da vida, que não se apegasse a empregos que fariam dele uma fotocópia dos pais, que vivesse a vida de olhos bem abertos, para aproveitar e não deixar escapar oportunidades, que o mundo é de facto maravilhoso mas tem que ser explorado, visto com olhos de ver, ao vivo e a cores. Enfim, fiz-lho o discurso nº 1 para alunos cujo objectivo é licenciarem-se e de repente acordam com prestações de casas e carros e móveis e no meio desta vida rotineira e pesada fogem os sonhos que morrem sem alimento.
Ele ouviu-me a sorrir – a esta altura já tinha desistido de falar português embora eu seguisse num espanhol amantizado com a nossa língua materna – e perguntou-me que idade achava eu que ele tinha. Percebi imediatamente o fulgor da sua juventude a sentir um qualquer ataque, como tantas vezes acontece com o meu filho cuja idade o faz pensar que sabe tudo e vê os conselhos dos mais velhos como palavras ocas. Ou seja, concluí que falara demais…
Disse-lhe que não lhe dava mais de 32 achando que estava a ser generosa em lhe aumentar a idade e a resposta foi uma sonora gargalhada que subiu mais alto que todos os outros barulhos juntos. Tirou a carteira e provou que era quase da minha idade…
Continuou a rir e disse saber ter este efeito nas pessoas. Pagámos e saímos, para voltarmos a entrar mas desta vez num local com mesas e cadeiras onde nos sentámos e me contou o percurso de vida por alto, e eu senti-me dentro de Hudson, com Dean e Sal, a ouvir as suas descrições.
Por entre relacionamentos amorosos estivera em Toledo e em Dublin a viver, era arqueólogo, desistira depois a meio do curso de Direito por não lhe dizer nada e um dia descobrira as bibliotecas sobre as quais está a fazer um master e onde trabalha há anos.
Este percurso interessava-me cada vez mais e acabámos por ir embora quando a empregada nos veio pedir o dinheiro dizendo que iam fechar.
Fecham eles mas não a nossa conversa. Entrámos noutro bar, com cadeirões de verga e grandes cinzeiros que não eram para as beatas mas para as cascas de pipas. Não sei como, mas a conversa foi dar aos sobrinhos e ambos tínhamos uma enciclopédia para debitar. Ainda as histórias da miudagem iam a meio quando o dono nos põe a conta à frente, dizendo, Vamos fechar! Já?
Andámos pelas ruas a falar de diferentes cidades europeias, africanas, asiáticas. Está tudo fechado. De repente aparece um jovem a perguntar se queremos beber alguma coisa… ele conhece o sítio certo. Vamos? Vamos!
Começámos a andar como se a polícia viesse atrás de nós numa rua a subir que nos extenuou. Finalmente chegámos a uma porta que quando se abriu nos atacou a visão e a audição com luzes a mexerem-se rapidamente e música de discoteca…
O ‘tio’ que nos levara recebeu imediatamente a propina do que estava atrás do balcão; olhámo-nos mutuamente perguntando-nos em silêncio se ficávamos ou não. Porque não? Será diferente de tudo.
Em Madrid não há excepções para locais de fumo, nem com chaminés, exaustores, o que seja. É proibido e pronto. Por outro lado, não se pode estar à porta de copo na mão, a polícia não deixa. Então bebemos uma cerveja e saímos a fumar. Explico que em Lisboa se pode beber na rua e os bares e restaurantes aderiram à moda de colocar mesas de pé alto às portas, nos passeios, para satisfazer os clientes fumadores.
Concordámos que a hospitalidade portuguesa é maior que a espanhola e ele contou-me episódios passados em Portugal que comprovaram isso mesmo. Disse-lhe que o meu avô adoraria ouvir a conversa e contei-lhe um momento caricato doutros tempos: o meu avô foi ao Rosal de la Frontera, a aldeia mais próxima da sua, não obstante ser espanhola, e entrou numa acesa discussão com um espanhol, cada um argumentando que o chouriço do respectivo país era melhor que o do outro! Ora como a discussão era acompanhado de vinho, rapidamente tomou proporções épicas e acabaram os dois na esquadra da Guardia Civil a passar a noite. O meu companheiro de noitada disse-me com ar sério que se via também obrigado a defender o chouriço espanhol e acabámos a rir.
Quando saímos do tugúrio vi-me diante do Prado. Tínhamos andado assim tanto? Espreitámos o Monumentos a los Caídos por Espanha que vivia na minha ignorância. Eram quatro da manhã e estávamos com as caras encostadas aos ferros, eu aluna a ouvir, ele professor a explicar que a maioria das pessoas confundem o monumento com o do Vale dos Caídos, sem saber que me provocava uma certa tristeza por eu ser uma delas.
Nesse momento recordei uma noite magnífica em Hania, na ilha de Creta quando um companheiro polaco chamado Blazej – também bibliotecário – me levou descalça, para não acordarmos alguém, por um labirinto de ruas estreitas onde ele desencantara uma igreja ortodoxa na noite anterior, cujo chão estava coberto de velas acesas, numa manifestação de fé que as correntes de ar pareciam ser incapazes de parar. Aquilo era tão belo, tão sereno, tão inesperado, tão autêntico, tão nu, que acabei por perder os sapatos e tive que voltar atrás a buscá-los.
A experiência em Madrid não se revestiu do misticismo da de Creta, mas fez-me pensar que a maior parte das situações inesperadas que me acontecem e que não esqueço, são proporcionadas por perfeitos desconhecidos.
As cinco da manhã já se vestiam e aprontavam para sair à rua quando cheguei ao hotel. O meu companheiro e eu despedimo-nos com um afectuoso abraço, mas como quem se vai encontrar de novo no dia seguinte. Não faço ideia de quando será o dia seguinte, mas penso que fiz um amigo e coisa mais preciosa no mundo não há.