quarta-feira, 24 de abril de 2013

Não te esqueças de mim

Os últimos dias têm tido para cima de 30 horas.
Pediram-me um trabalho de elevada responsabilidade, confiança que agradeço. O segredo é a alma do negócio como toda a gente sabe e quando, apareça quem souber a resposta, tudo desapareceu diante dos meus chorosos olhos, entrei em pânico, coisa que raramente acontece.
Informando os técnicos da informática do mínimo possível, nada foi possível recuperar, razão pela qual duas coisas aconteceram: refazer tudo do ponto zero e emissão de muitos sorrisos maliciosos de quem percebeu que eu tinha perdido algo valioso.
Em simultâneo, para além de estarmos num pico de trabalho que deixa o Everest na categoria de irrelevante acidente geográfico, lembraram-se que eu existia e, na última semana, entrevistaram-me três vezes, as reuniões sucedem-se e o telemóvel está quase sempre em silêncio, de tal forma que ontem recebi uma mensagem do meu filho a dizer: nao te esquecas de mim
Lida num vislumbre, entre discussões e lápis na mão, não segurei as lágrimas. Houve quem pensasse que eu sucumbia ao trabalho e logo me deu vontade de rir.
Passei o resto do dia e parte da noite ainda fora de casa a trabalhar, mas regressada às minhas quatro paredes, a mover-me como uma lesma, resolvi fazer um pratinho especial à minha criança. Porém, como um Camões cozinheiro, com um olho aberto e outro fechado, exausta e dispersa, não sei como me arranjei mas provoquei um incêndio na cozinha. Adeus exaustor, adeus panos da cozinha que atirei para cima do fogo, olá parede nova completamente negra.
O susto acordou-me. O calor gritou-me de tal forma que, embora não me tivesse queimado, mas sentir assim a sua proximidade tirou-me o sono a noite toda. Para além de chegar a casa tardíssimo, entro ao trabalho com as galinhas e hoje foi com as galinhas de outros fusos horários, que as nossas ainda repousavam.
Espero conseguir estar em pé e acordada funcionalmente até ao fim do dia, mas não prometo. A única coisa que posso prometer, jurar, assegurar solenemente, asseverar e confirmar é que nunca me esqueço do meu filho, embora ele às vezes ache que sim. 

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Falta de hábito

Dissolve-se a dor de cabeça fruto da paragem da toma de certo medicamento e da sua substituição por um analgésico vulgar. Mantendo o repouso, acabo por adormecer. Acordo com o telefone.
É da seguradora, querem mandar vir um táxi para me levar na segunda-feira de manhã ao hospital. Não preciso, digo eu, sinto-me muito melhor e ainda faltam três dias, não me digam que segunda de manhã não estou capaz de andar em condições.
Respondem de lá que assim determinou o médico, o táxi virá. Contra argumento eu que não me apetece pagar doze ou treze euros por um táxi, valor esse que não sei quando me será devolvido. Atacam eles que não tenho que pagar o táxi, ele estará à minha porta à hora que eles indicarem e que isso não acarreta custos para mim. Aliás, aproveita o homem, tanto assim é, que nem os medicamentos eu paguei, verdade?
Gaguejo que não sei. Não sabe? Não sei porque não fui eu que os foi comprar. Mas então, minha senhora, se alguém lhe cobrou um cêntimo, tem que nos informar pois os medicamentos eram para levantar em qualquer farmácia mas a custo zero. Que vou ver, digo-lhe eu. Ele continua a informar que se me acontecer qualquer coisa pelo caminho, recusando eu o táxi, a companhia de seguros não se responsabiliza. Acabo por aceitar a pensar no menino Duarte que foi levantar os medicamentos com o meu cartão multibanco, cartão que nunca mais vi pois não voltei a sair de casa. Ai, ai, ai.
Ligo ao Duarte a correr e ele manda-me ver na gaveta do móvel da entrada, onde está o multibanco e uma factura com valor zero.
- Mãe, estavas tão aflita quando eu cheguei que nem sequer comentei que aquilo não custou nada. Até era para te perguntar onde arranjaste aquele médico!
Respiro de alívio - por vezes também a mim me passam coisas pela cabeça... - e acabo a rir: o senhor doutor quer-me matar, mas mata-me de graça e de táxi!

Muito esclarecedor

No canal National Geographic ontem à noite deu um programa sobre o trabalho da polícia no aeroporto JFK em Nova Iorque. Deu para rir e para chorar.
Um dos equipamentos com que os agentes andam é um aparelho que detecta radiações. Apitando a maquineta aproxima-se o perigo normalmente na forma de plutónio ou urânio, coisas que as pessoas transportam, como quem leva uma miniatura da Torre Eiffel. O que é certo é que as maquinetas desataram a tocar que nem loucas. Os agentes passeavam-se no meio dos recém chegados passageiros e foi a loucura total ao pé de uma senhora. Revistada, nada foi encontrado. Alguém se lembrou de lhe perguntar se tinha feitos exames médicos recentemente. Bingo: uma ressonância magnética com contraste manteve-lhe doses de iodo no corpo suficientes para as máquinas darem por isso.
Um outro cavalheiro trazia uma mala onde ele próprio cabia, mas com um pormenorzinho: leve como uma pluma. Lá dentro bailavam quatro ou cinco peças de roupa, que cabiam perfeitamente em qualquer saco de qualquer supermercado, evitando ter que se passear com tudo aquilo de malão. Nestes casos, o melhor mesmo é analisar a mala. Bingo outra vez: a própria mala era 'feita' de heroína.
Por último, uma senhora ucraniana com cerca de setenta anos e sem saber uma palavra de inglês foi questionada pois da última vez que visitara os states ficara um mês a mais do que o visto lhe permitia. Porquê?
Bom, isso era fácil de explicar, tinha ficado doente e não podia viajar. E o que tinha estado a fazer durante um ano nos Estados Unidos? Ela? Ela estava a fazer turismo religioso! Visitara uma aldeia Amish durante um dia inteirinho, coisa que agora queria repetir.
Chego a ter inveja desta latosa.

Efeitos secundários

O meu torno-zelo (;) está muito melhor, praticamente bom. Porém, fiquei com estranhas dores de cabeça nos últimos dois dias. Lida a bula de um dos medicamentos, coloco-o imediatamente de lado: 'risco aumentado de ataque cardíaco e de acidente vascular cerebral', a que os senhores da Nycomed acrescentam: 'Como os demais medicamentos pode causar efeitos secundários, no entanto estes não se manifestam em todas as pessoas'. Olhem, obrigadinha, sim?
Para além dos apontados efeitos secundários há ainda a probabilidade de dores de cabeça - cá está - indigestão, dores abdominais, vómitos, diarreia, náuseas, tonturas, zumbidos, insónias, palpitações, conjuntivites, taquicardia, edema facial, edemas, rinite, perturbações da visão, síndroma de Stevens-Johnson, que é coisa tão mortífera e horrível que deixa todos os outros efeitos secundários - e são ainda muitos - num chinelo.
Agora pergunto, antecipando a questão que vou colocar ao senhor doutor na segunda-feira de manhã quando for à consulta de avaliação antes de retomar o trabalho: não há outro medicamento para entorses nos tornozelos? Tinha que ser mesmo este?
O objectivo era curar-me dos pés e deixar-me maluquinha da cabeça? Não percebo isto.
Para além dos efeitos secundários a lista de incompatibilidades com doenças conhecidas é enorme, mas ninguém me perguntou se era alérgica a isto ou àquilo ou se tomava outros medicamentos, que também aparecem na bula como incompatíveis. Acontecendo-me alguma coisa grave devido ao medicamento, o que acontecerá ao médico?
É nestes momentos que acredito em fantasmas e almas do outro mundo, percebeste amigo doutor?

Apanhada!

Da minha inteligência já falam os anais, os antigos como quem adivinha, e os actuais, como quem confirma. E não é para menos...
Tendo ficado em casa com o tornozelo avariado decidi não dizer aos meus pais para não os preocupar, e não os pôr a caminho cá de casa para se certificarem que estava deitada e dispostos a fazerem tudo.
Assim, garanti a cumplicidade do Duarte e da minha irmã, mantive as rotinas de contactos durante o dia, menti até com os dentes que me faltam afirmando estar a chegar a casa e cheguei a avançar com estados do tempo no centro de Lisboa, onde eu não tinha estado. Não me pareceu grave, tendo em conta o objectivo maior.
Porém, no Facebook deixei uma qualquer mensagem sobre andar a coxear que a senhora minha mãe ontem leu, bem como os comentários a desejarem melhoras, coisa com a qual ela ficou francamente aborrecida, mesmo com as minhas alegações que só queria minimizar-lhe as preocupações.
Uma maior proximidade física e uns anos a menos e teria apanhado um par de açoites! Então mente-se à mãe?

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Um dia diferente

A palavra 'tornozelo' transporta consigo uma carga negativa. Está mesmo a ver-se: tornozelo é para... Torcer! Pois claro. E foi exactamente o que eu fiz, obedecendo a uma obscura obrigação semântica-linguística, que o mesmo é dizer, não sabendo subir um degrau, coisa aparentemente tão simples e logo eu, com uma prática tão grande.
As escadas do palácio onde trabalho já me levaram os meniscos, mais tarde encalharam de novo com os meus joelhos e foi fisioterapia até dizer chega e agora, uma luxação num tornozelo.
A palavra 'luxação', por sua vez, faz lembrar luxúria, mas é coisa assim para o masoquista porque dói como o raio.
Conclusão, estou em casa de patinha levantada a papar novelas mexicanas, a ouvir a chuva e o toque-assobio do amolador. Pablo Neruda olha-me fixamente daqui da mesinha do lado, aguardando que eu o abrace com os olhos, com as mãos e o absorva. O Duarte entrou cedo nas aulas e tem jogo de treino em Setúbal, logo, estarei sozinha o dia inteiro. Ai Pablo, Pablo, anda cá que és meu!

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Da boa disposição


Boccaccio, Marquês de Sade, Fiódor Dostoievski, O. Henry, Jerome K. Jerome, Saki, P. G. Wodehouse, Enrique Jardiel Poncela, Ring Lardner, Dezső Kosztolányi, James Thurber, Boris Vian, Mario Benedetti, Woody Allen, Raymond Queneau e Alexandre O’Neill. O que tem toda esta gente em comum?
São deles os textos da Ficções, Revista de Contos de Humor, editada pela Visão nos idos de 1993, que descobri há uns dias e acabo agora de ler.
Dos dezasseis contos, onze são escritos na primeira pessoa o que me transporta aquela sensação irmanada de certa ilusão, eu sei, que alguns são verdadeiros. 
Não podem ser? É por isso que isto se chama Ficções? De certeza? Vamos perguntar aos autores, vamos? Pois, bem me parecia.
Será o humor mais fácil no eu? A proximidade que se cria num relato em primeira mão, que pressupõe o imediatismo do testemunho, cria maior credibilidade? O riso vem mais depressa porque imaginamos aquela figura como protagonista daquela topografia cómica? Não sei, mas que resulta, resulta e ler O’Neill a dizer que já explicou que não se chamava Aníbal e sim O’Neill e o interlocutor a insistir no Aníbal é delicioso.
A reunião de todos estes nomes, alguns dos quais desconhecidos para mim, foi propiciadora de excelentes momentos pois que cada um tem o seu compasso de leitura, e induz-nos a ler em ritmos diferentes, uma polca para Há lugar para dois do Marquês de Sade, uma ópera para as Confissões de um humorista de O. Henry, Jerome K. Jerome em step com o seu O custo da bondade, uma rumba para A sociedade de acidentes de Ukridge de P. G. Wodehouse, um fado para Um amor oculto de Enrique Jardiel Poncela, Ring Lardner em samba com Falta-me o ar!, um óbvio blues em O tradutor cleptómano de Dezső Kosztolányi, um inevitável jazz para Woody Allen e A puta de Mensa, entre outros estilos musicais.
Ler este pequeno volume no Metro dá-nos a sensação de mudar de roupa a cada estação, de beijar vários passageiros que entram e saem, todos bem-dispostos e galhardos.
Deixo aqui uma sugestão, sobre a qual quero depois os devidos direitos: se as bulas dos medicamentos, xanaxes e quejandos, forem substituídas por textos deste gabarito, ninguém precisará de engolir uma só drageia e povoam-se todos os lugares de leitura de imensas gargalhadas. 

O ataque da inveja


O Metro arranca com os lugares todos ocupados. No quarteto de bancos onde vou sou acompanhada de três mulheres. Lê-se. Uma Marta Müller, uma Cosmopolitan e um folheto que alerta para a chegada eminente do fim do mundo, com instruções sobre como o receber. A quarta mulher não lê. Vai sentada com ar de idiota a olhar as outras. Com o canto do olho rouba umas frases ao folheto do lado sobre a caridade religiosa. Vai cheia de inveja e teria trocado de bom grado pela Sentinela.
Eu sei porque a mulher não leitora era eu.
Quando cheguei à estação de destino não encontrei o passe. Revirei a mala e o saco do almoço e cheguei ao cartãozinho que faz abrir as portas do Metro e também ao livro que, afinal, não tinha ficado na secretária como eu pensava. 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

De autor desconhecido, mas avisado


“A justiça é administrada por processos difíceis e por gente grosseira e não bem disposta, porque não são admitidos a magistrados os bons cidadãos, as pessoas competentes, imparciais, exemplares e justas, mas somente certos doutorzecos, na maior parte ignóbeis e desconhecidos que, como vêm a ter o freio nas mãos, querem antes fazer-se conhecer pelos males e pelas extorsões que praticam – parte voluntariamente, parte por não saberem mais – do que pela recta aplicação da justiça e que, quando acham (embora injustamente) ocasião aparente para maltratar alguma pessoa honrada, então parece que atingiram a glória e o trono, ainda que para a nobreza a justiça não corra igual. (…) 
Os oficiais e ministros da justiça são tantos que não vos entendem, todos orgulhosos, todos inchados, todos amigos de mostrar que podem, pelo que, se os não adulais, tendes os beleguins atrás. Em verdade se pode bem dizer (perdoem-me os Portugueses) ser aquela uma das partes do mundo onde podem os homens mais que as leis porque, consoante querem, assim as transformam. (…)
Os processos são em número infinito (…) As dilações, as suspeições, as sentenças ambíguas, as apelações e os testemunhos falsos são tantos que as leis acabam, por fim, por ficar tão sofismadas que da verdade e da mentira resulta uma embrulhada tal que a não desfaria Apolo.”


Retrato e reverso do reino de Portugal. In MARQUES, A. H. de Oliveira – Portugal quinhentista: ensaios: Lisboa: Quetzal, 1987, p. 127-245

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Do Livro do Desassossego


O silêncio que sai do som da chuva espalha-se, num crescendo de monotonia cinzenta, pela rua estreita que fito.
Estou dormindo desperto, de pé contra a vidraça, a que me encosto como a tudo. Procuro em mim que sensações são as que tenho perante este cair esfiado de água sombriamente luminosa que se destaca das fachadas sujas e, ainda mais, das janelas abertas. 
E não sei o que sinto, não sei o que quero sentir, não sei o que penso nem o que sou.