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terça-feira, 11 de março de 2014

A vida continua

A 8 de Março comemora-se o Dia Internacional da Mulher, mas eu prefiro vivê-lo como o dia da igualdade dos sexos, pois esse é o objectivo.
Trabalhava eu em Almada e todos os anos havia festa rija, almoço, espectáculo, prendas e flores para as trabalhadoras da autarquia. O dia coincidia com o aniversário da Paula, uma colega que não passava despercebida pelo físico mas, acima de tudo, pela presença de espírito. Literalmente enchia uma casa, e mais ainda com o aguçado das observações e a boa disposição, que podia mudar 180 graus e era um susto. Havia assim vários motivos de festa.
Um dia, a meio da alegria, o almoço já terminado, chamam-me ao telefone, coisa inusitada. Do lado de lá informam que o Avô Gualdino morreu.
O 8 de Março passou a ser o dia do aniversário da morte do Avô e a lembrança eterna da Paula que nos pregou a partida há uns anos e morreu também, levando com ela o mundo que ocupava, onde fazia a gentileza de nos deixar viver e partilhá-lo com ela, bem como muitos anos por viver.
Penso em tudo isto no dia anterior ao almoço com uma das mulheres mais fortes que conheço e cuja amizade vem de tempos imemoriais. Quando estou com ela celebro-a e é Dia da Mulher, da mulher mais forte e corajosa que conheço.
Entretanto vivi outras amizades que não eram tão resistentes e abandonaram-me. A este propósito, outra grande mulher com quem tenho o privilégio de conviver disse-me que o abandono de pessoas que eu adoro pode acontecer devido ao meu espírito crítico, incisivo para com as pessoas, as pessoas de quem mais gosto. Será? Sim, sim, garante ela, As pessoas não gostam da verdade, dificilmente a encaram, preferem a ilusão muitas mais vezes que as que tu imaginas! A tua racionalidade raia a frieza e isso magoa quem não está habituado, a ilusão é sempre macia e se há coisa que não fazes, é iludir.
 Disse-me também esta mulher que me deixe de chorar pelos cantos; digo-lhe que não conhece a pessoa por quem eu choro a ausência, se a conhecesse... ela termina a minha frase, Se eu a conhecesse dizia-lhe que é a maior parva do mundo, tem a tua amizade e despreza-a.
Esta amizade, que já foi mas já não é, era sempre a primeira a ligar-me neste dia da mulher sabendo que eu estava triste pelo aniversário da morte do meu Avô e pela lembrança da Paula e dizia-me A vida continua...
É isso mesmo, a vida continua, com imensa tristeza e perplexidade, mas continua.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Blue Jasmine

Deu-me que pensar o último filme do Woody Allen. Para além de me fazerem rir, dão-me sempre que pensar os filmes dele. Porém, desta vez, de forma diferente: como agir eticamente com uma família que tem uma ideia sobre um antepassado recente e estamos na posse de informação que afinal, ele não era assim, mas assado? Sendo que o assado, caindo na divulgação pública, deita abaixo um mito, atrevo-me a dizer?
Alguém que construiu e deu aos outros uma ideia sobre si, que a alcatroou com hábitos e comportamentos adquiridos por determinadas vias que, vai-se a ver, e não foi bem assim...
Como dizer à família? Como informar que aquela pessoa, que até já morreu, deixou-os acreditar que era um e afinal era outro? Como dizer que ele moldou, e moldou-se para o futuro, como uma pessoa diferente daquilo que era verdadeiramente?
Não sei, tenho um dilema atravessado na garganta.
Quando ao filme, se a Cate Blanchett não ganhar, será uma grande injustiça.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Vade retro Fangio!

Depois de inundações, cortes de luz e electrodomésticos avariados já merecia uma pausa. Fui a Vila Nova de Gaia com uns primos em romaria a outros primos.
Sendo tudo gente nada macambúzia adivinham-se muitas rugas num futuro próximo, foi um fim-de-semana de rir à gargalhada: um diz mata, os outros respondem esfola e é sempre num crescendo. Se o matar saudades sangrasse o Douro estaria encarnado e espesso.
Os primos, para além de descenderem de Carlos Magno, são artistas, pintores que esculpem materiais e, objectivo atingido, também a nossa cabeça, numa mescla onde não falta música, silenciosa mas bem presente.
A exposição das últimas obras, que só ganhou bem esse nome depois da nossa visita, foi acedida depois de uns bons quilómetros de carro conduzido, nem mais nem menos, pelo Fangio-Alonso que conseguia a proeza de passar pelos intervalos da chuva - não chovia, mas se chovesse, passaria - sem tocar em pessoas, carros ou edifícios, mas roçando-lhes a aura.
Do banco de trás as reclamações começaram subtis - não temos pressa... - foram ganhando uma consistência de contracções, os cintos de segurança, quais tubos de soro, prendiam-nos mas não nos amarravam e as três miúdas chocalhavam no banco de trás.
Os edifícios escuros das ruas estreitas do Porto corriam em direcção contrária à nossa e, imediatamente a seguir a uma reclamação sobre a impossibilidade de admirar a arquitectura, o nosso Fangio pára de repente e diz:
- Saiam!
Ninguém se mexeu e a dona do carro, que vinha nas traseiras com outra prima e comigo, deu pressa ao condutor, seu amigo de tão longa data que vem de outra vida, e artista também. A resposta repetiu-se:
- Saiam, depressa!
O meu primeiro pensamento foi de estupefacção: Estamos a ser postos na rua pelas reclamações? Não acredito nisto... Ainda assim, e porque a dona do carro já abria a porta do seu lado, achei por bem imitá-la e saímos todos, menos o motorista que não sabíamos quando voltaríamos a ver. Já eu pensava se teria dinheiro na carteira para apanhar um táxi de volta para casa quando a prima de Gaia sorria e explicava:
- Ele trouxe-nos a ver o Ângelo, que boa ideia...
Quem seria o Ângelo? Um primo? Mais um de tantos que temos e que eu desconhecia? Não... estávamos à porta da Cooperativa Árvore para vermos uma exposição, imperdível, de Ângelo de Sousa, onde não faltavam os famosos cavalos, que me lembram Altamira.
Ângelo de Sousa não dá muita vontade de rir mas nós ríamos à fartazana, como se quiséssemos esgotar as gargalhadas, ao revivermos o momento em que ele nos pusera fora do carro, sem mais explicações.
No regresso à viatura os agradecimentos multiplicavam-se, quais vénias, talvez o dobrar das cruzes o fizesse conduzir mais devagar dali para a frente. Não. Sentava-se ao volante e ficava possuído e guiados pela alma infernal lá fomos a Perafita, ver a Tia R., com quem eu passei tantas férias, ali, em todo o Minho, com especiais paragens no Gerês, tendo sido ela e o meu Tio, já falecido, que me mostraram tudo aquilo e me fizeram apaixonar para sempre por aquelas penhas, piscinas, serras, estradas e lugares. 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Odeio o Inverno

Quando os meus avós morreram deixaram uma casa à minha mãe. Mais tarde ela quis vendê-la e eu comprei-a. Recuperada por dentro e por fora ficou um mimo num Verão que não esqueço.
Fizemos planos para um restauro total, com novas divisões no piso superior, entre outras mudanças, até que uma noite do Inverno imediatamente a seguir nos estragou os planos: as inundações lá na aldeia mataram uma pessoa, a água entrou em casa e atingiu dois metros e dez centímetros.
Deitámos tudo fora com as lágrimas a aumentar o caudal da Ribeira que passa no centro da aldeia, ao lado da nossa casa, ribeira essa que nos levou as portas da frente e das traseiras.
Impossível de esquecer, este episódio vem-me sempre à memória quando ouço falar em inundações e mais ainda quando a água me entra em casa.
Aconteceu no Domingo à noite durante o temporal que se abateu em Portugal: eu apanhava a água da cozinha e o meu filho a da sala; fiquei sem tapetes, cobertores ou panos da loiça. Móveis desviados para o centro da desmoralização, todo o tipo de roupa a ser usada para outros fins que não os apropriados, uma tristeza.
Às três e meia da manhã, depois de ter custado a pegar no sono, acorda-me um ping-ping que me fez correr na direcção do som: a cozinha estava de novo alagada, não havia janelas nem estores que sustivessem a água, nem esfregonas que a sugassem à velocidade que permitisse secar o chão.
Foi uma noite de malucos que me faz andar ainda a meio gás, ensonada. Para ajudar, ontem fiz uma mudança de uma biblioteca. Os meus braços sabem bem que uma sala cheia de troncos de madeira pesa menos que uma sala cheia de livros, e tendo respondido à chamada, hoje estão doridos da sova de caixas e pilhas de livros, do peso da sabedoria.
Seja como for, prefiro mil mudanças a um dia de chuva. A única coisa boa do Inverno é eu ter nascido durante a sua vigência, mas já lá vão quarenta e oito anos, já ninguém se lembra.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Holocausto, com H de horror

Ontem comemorou-se o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. A 27 de Janeiro de 1945 abriram-se os portões do campo de concentração de Auschwitz, um cemitério de gente viva.
A memória - e agora que lidamos com um problema de memória selectiva por parte de um jovem na sociedade portuguesa... - tem de ser preservada, tem de nos ensinar o que não se pode repetir e estes avisos têm eles próprios de se multiplicar, nas comemorações, na literatura ou no cinema, ou em qualquer outra forma, mas reais.
Filmes como o aclamado A vida é bela são visões que amenizam a realidade, que, propositadamente ou não, suavizam o horror quando o horror não pode ser suavizado; são perspectivas que iludem como quem afirma que era possível enganá-los, era possível fugir, era possível vencer. Quem vá a Auschwitz sente o logro, o engano, a fraude de filmes como aqueles e percebe a resposta do historiador Robert Hughes quando lhe perguntaram qual a obra de arte adequada para lembrar as vítimas em Dachau, Os próprios fornos são perfeitos. Como é que a arte pode superar a eloquência daquele lugar?
Acabei de ler A bibliotecária de Auschwitz, de Antonio Iturbe, relato baseado numa história verídica, mas que coloca Auschwitz-Birkenau a alguma distância de Auschwitz-Birkenau de Primo Levi e muito longe do que nos invade quando entramos nas antigas instalações dos que eram consumidos com ziklon-b.
As descrições dos longos caracóis loiros onde enrolavam os dedos deixam-nos logo de sobreaviso, assim como os diálogos entre mães e filhas onde a etiqueta social é chamada a intervir. Embora o autor conte como conheceu a protagonista na qual a história se inspira, (quase) tudo nos parece encenado e a mim, encenações que envolvam a morte de milhões de pessoas, dão-me que pensar.
Tal como os muçulmanos têm a obrigação de ir pelo menos uma vez na vida em peregrinação a Meca, todos os cidadãos do mundo que se prezem deviam ir a Auschwitz, proclamar a religião do respeito, venerar a memória e aprender com ela.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O jantar

As duas amigas sabiam que naquela noite a mãe de uma delas receberia visitas. Não era isso que as impedia de brincar, não obstante a anfitriã ter saído e deixado as duas a tomar conta do caldo de bacalhau com queijo fresco. Só tinham que esperar que levantasse fervura e, espetando uma batata e vendo que estava cozida, apagar o fogão ou deitar mais água se fosse caso disso. A mãe bem abriu os olhos e elevou a voz relembrando a missão, mas não foi por isso que qualquer delas memorizou melhor.
A visita era especial. Uma emigrante da aldeia tinha vindo de passeio com uma gravidez bem evidente; ao ouvir a vizinha dizer o que era o jantar, assomaram-se-lhe os desejos e logo ali se combinou tudo, nem havia dúvidas, não se falava mais do assunto.
Os doze ou treze anos das duas miúdas se, por um lado, eram idade mais que suficiente para tomar conta de uma casa naqueles anos cinquenta do século passado, por outro, eram algo preocupantes, principalmente se estivessem juntas.
Na bacia de metal com uma gota de água, colocada providencialmente à entrada das traseiras da casa para que se lavassem as mãos antes de entrar, como era hábito na aldeia, banhava uma falha de sabão, que era quanto bastava também para as ajudar a fazer balões e esquecer qualquer compromisso.
O brilho e a leveza das bolas de sabão não deixaram espaço para mais nada e só se voltaram a lembrar da panela quando ouviram a voz da dona da casa, que regressava. Correram ao fogão onde os espinafres e o bacalhau já se agarravam ao fundo.
Depressa, depressa, antes que ela chegue, água, é preciso água, água, água... e os olhos de ambas pousaram em simultâneo na bacia. Nem foi preciso dizer nada, uma afastou a cortina de tiras que impedia as moscas de entrar e a outra agarrou a bacia e atirou a água para dentro da panela, dando-lhe uma mexidela de meio segundo, tampa em cima, a tempo de porem uma cara tranquila e cumprimentarem a dona da casa que entrava com um bolo que encomendara na loja do senhor Chico.
Que sim, que estava tudo bem, então que fossem pôr a mesa e depressa, eles deviam estar a chegar.
A senhora ainda achou que os ovos e o queijo fresco provocavam uma espuma maior que o costume, mas não reagiu até que, servindo o tão ansiado caldo de bacalhau, a convidada cospe enojada a falha de sabão.
A cozinheira levantou-se estupefacta mas em três segundos percebeu tudo o que lhe era dito pelos olhos baixos da filha e a da amiga, caladas ambas como se estivessem na missa e a tentarem ser invisíveis.
A grávida, de boca lavada, evitou que a sessão de gritos fosse maior mas não conseguiu aparar o par de estaladas em cada uma, que na altura não se chamavam pais nem mães para se pregar uns açoites em garotos que comprovadamente tivessem feitos disparates.
A filha foi mandada para o quarto de castigo e a amiga foi levada a casa por uma orelha, onde o pai e a mãe estavam sempre à espera de qualquer coisa do género, conhecendo-lhe a energia e sabendo que era inventiva mas desastrada, bonita mas com muito excesso de peso, namoradeira mas fiel, já altura, ao filho do cabo da guarda.
Era assim a senhora minha mãe.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Uma questão de mãos

O Centro Comercial Renovação, nome apropriado para qualquer coisa em Almada, foi a minha escolha de ocasião, precisando de uma cabeleireira com urgência, não me recordo da situação, mas sei que tinha pressa. Nunca lá tinha ido e nunca mais lá fui, aliás, só a premência do meu destino me fez ficar, ainda que muito mal disposta. E porquê? Naquele momento da lavagem da cabeça, que adoro e do qual tenho imensas saudades, a senhora que o estava a fazer, usava apenas uma mão. A outra repousava no bolso, preguiçosa, como lho fiz saber, sendo acompanhada por um pedido de desculpa da proprietária. 
Muitos anos depois, muito longe dali, em Saratov, perto do imponente Volga, diante do hotel decorria uma obra. Um dos trabalhadores encaixava umas pedras, como quem dispõe calçada portuguesa. Sentado no chão, pernas abertas, uma mão guardada no bolso do casaco, a outra dividida entre o martelar e o centrar as pedras, que se acumulavam num monte aos seus pés e era precisamente com um pé que ele arrastava cada pedra que precisava para junto da mão. Uma das pessoas que estava comigo argumentou que talvez só tivesse uma mão; outra pessoa apostou que não, que tinha as duas, que era apenas preguiça, e ganhou. No dia seguinte, ao sairmos em direcção à Universidade, lá estava ele, desta vez de pé, ambas as mãos em acção, uma acção à Ivan Danko, de Red Hot, naquilo que universalmente é conhecido como brincadeira parva, andar à pancada por que lhes apetece. A cena foi interrompida por um homem mais velho que deu ali dois gritos e eles, bem dispostos e a rir, lá meteram as quatro mãos nos bolsos.
Numa outra ocasião, em Lisboa, na plataforma do metro da estação Jardim Zoológico, num dia de chuva intensa, a água escorria por uma parede e colocava-se uma faixa de riscas encarnadas e brancas, desviando os passageiros que ali passassem, evitando quedas e similares. 
A colocação da faixa ocupava quatro pessoas, repito quatro pessoas! 
Uma atava a fita do lado esquerdo, junto de um cartaz de publicidade, enquanto outra segurava o rolo. 
O rolo foi esticado e a fita cortada pela pessoa que o segurava, enquanto um terceiro membro da equipa o atava ao corrimão da escada. 
Um quarto elemento, a uns metros de distância para obter uma visão alargada, levantava e baixava as mãos, qual maestro que orienta a orquestra, fita dois centímetros para cima, fita dois centímetros para baixo, mão espalmada virada para baixo sinal de está bem assim. A missão terminou com a equipa swat a contemplar a obra, satisfeitos e sorridentes. Foi hoje, e assim vai Portugal. 

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Revisitar o passado

A morte de um tio do meu ex-marido levou-me a falar com pessoas que prezo muito e com as quais não falava há imenso tempo. Por estupidez, é sempre por estupidez que se dão certos afastamentos, se calhar todos.
Nos últimos tempos vivi situações de afastamento de pessoas, no plural infelizmente, mas têm-me ensinado, e eu tenho aprendido, que não se prende ninguém. Assim, tenho evitado impor a minha presença, deixando um espaço que cada um ocupa como bem entende. Dizem que as acções ficam com quem as pratica e daqui estou tranquila em dois aspectos: tenho essa certeza e a consciência limpa.
Porém, há pessoas que passam por nós e deixam marca. Se a família consubstancia laços de ligação obrigatórios, os outros mantêm-se por opção.
Um desses casos é o de um primo do meu ex-marido, com quem sempre senti empatia, embora discutíssemos imensas vezes.
Ontem, ao telefone, encontrei-o diferente mas igual. Diferente por mais maduro, agora casado e com dois filhos, igual por perceber que mantém o espírito curioso, aguçado e diferenciado da maioria das pessoas, como eu gosto.
Fiquei muito feliz com a recepção que me fez, combinámos reaproximarmo-nos - quero conhecer-lhe a família, é claro - e deixámos aprazado um almoço, um jantar ou, como ele bem expressou, um pretexto para nos revermos e conversarmos.
Não me pareceu ver o miúdo convencido que encontrava amiúde quando o via, pelo contrário, pressenti um homem calmo, afectado pela morte do pai, é claro, e preocupado com a mãe.
Partilhei esses sentimentos, eu, que no dia anterior passei o dia no hospital com o meu pai, cada vez mais próximo de uma solução que nos gela o sangue, mas cujos dedos dos pés roxos deixam adivinhar.
Fico na expectativa de um encontro, não com uma pessoa de família, como sempre os considerei, embora nem sempre fosse recíproco, mas com um amigo que não vejo há tempos e do qual tenho saudades.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Capuletos e Montecchios

As férias passadas na aldeia deixam memórias impossíveis de apagar: os dias longos e abrasados do Alentejo profundo, o poço no quintal, as lavagens no tanque com a minha avó a zangar-se comigo por estar debaixo daquela calorina, a sombra que as videiras davam, o assobio levezinho do meu avô, o caramonho da minha avó, o café feito ao lume que escorria pela cafeteira, o cheiro a melão pela casa toda, a moeda que o meu avô sempre tinha para um gelado, os passeios e os mergulhos na ribeira de S. Pedro, as festas em honra de Nossa Senhora do Ó, as amigas, os segredos.
Inesquecível também era a aparição de uma pessoa de família, muito chegada por sangue mas de outro planeta por amizade.
A sua chegada era adorada pela criançada e era um martírio para mim, que ficava sempre de fora quando ele perguntava retoricamente quem queria ir à piscina de Moura. Eu bem esticava o braço mas a resposta invariavelmente era a mesma: o teu pai que te leve. E o meu pai levava, levava tão depressa que eu chegava lá primeiro que todos os outros, mas em último, porque o carro engraçado era o outro, onde iam todos, a rir, a brincar. Juntos.
Se era para ir a qualquer lado, o meu pai que me levasse, se era um doce, o meu pai que mo comprasse, fosse o que fosse, o meu pai que me fizesse ou me acontecesse. E o meu pai fazia e acontecia.
Não deixei de me lembrar destes episódios quando ontem proibiram uma garota de brincar com os meus sobrinhos, de visita os três ao trabalho dos grandes.
As acções ficam com quem as pratica mas quem não se sente não é filho de boa gente e eu senti, senti mágoa pela proibição de deixar uma criança brincar, conviver, rir em conjunto. Um adulto que age assim está a passar um cheque em branco para o seu próprio futuro, tal como as pessoas que me atormentaram em pequena têm hoje em comum com filhos e netos a distância, imposta por estes últimos.
Que mundo melhor é que apregoamos que queremos quando temos atitudes assim? 

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Os cavalos também se abatem

Dizem que gostava muito de mim. 
Dizem que eu gostava muito dele. 
Dizem que eu lhe chamava um nome que não sabem reproduzir, como sempre se diz que as crianças pequenas chamam de forma diferente, como se inventassem novas palavras quando apenas tentam reproduzir o que ouvem e sai de forma distinta. 
Dizem que eu corria para ele e ele tinha imensa paciência comigo.
Dizem que está no hospital em coma depois de ter tido um acidente onde o carro embateu num cavalo e noutro carro. 
O cavalo, como o de Tróia, sem saber instalou a morte, a dor, o espanto, a solidão, o nada no interior daquelas famílias.
Mesmo sem me lembrar dele confesso uma tristeza por saber desta tragédia, maior que outras tragédias, porque a proximidade é factor de dor, como todos sabemos, mesmo que não nos lembremos. 

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Uma questão de altura

Eu não percebo como é que só tenho 1,62m... Dizem que deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer e, mais uma vez, comecei a trabalhar ainda não eram seis da manhã. De saúde também não ando lá muito famosa, a menopausa anda a trabalhar ainda mais que eu e levanta-se ainda mais cedo!
Vá lá uma pessoa acreditar no que se diz...
Porém e ainda assim e contudo cantam cá mais uns centímetros que na altura da minha querida irmã que faz tudo para ser mais alta que eu. São dois ou três, mas são os suficientes para eu ser mais alta. Recorrentemente vem ela a querer meças, chega-te aqui, para mim, cheguem-se aqui, para o público do momento, ora digam lá quem é mais alta! A resposta tem sido coerente, com os dedos a apontarem, cansados, na mesma direcção, para mim.
Ontem foi dia de repetir a cena e o motivo encontrado para eu parecer mais alta foram os saltos dos meus ténis... rasos, tal como os dela. Eu bem coloquei a cabeça de modo a parecer mais baixa, encolhi os ombros, mas o resultado final é sempre o mesmo: ela tem esperança que eu mirre de umas medições para outras e eu, que gosto tanto dela, ainda lhe vou fazer a vontade. 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Banda sonora

Aqui há uns anos a minha irmã fazia-me um enorme favor. Não era casada, não tinha três filhos, não vivia longe de mim e dava-me um mimo único: sabendo que eu gostava que a vida fosse como certos filmes, andava dois passos atrás de mim a trautear uma canção, qual banda sonora do meu quotidiano.
As pessoas andavam mais devagar, e chegavam a parar, para ver uma à frente com ar de felicidade e um sorriso cinematográfico e outra um pouco atrás a lálálázar qualquer coisa.
Nós não nos ralávamos e eu chegava a dar uns passos de dança ao som daquela música única.
Agora que ando sempre de auscultadores metidos nos ouvidos dou por mim aos saltinhos que a música exige, a subir degraus de dois em dois ou com passinhos de gueixa, conforme a lista musical indica.
A diversidade é muito grande, os géneros são os que que quiser, mas tenho saudades da banda sonora única no mundo, só minha, só para mim. Tenho saudades do passado, tenho saudades da minha irmã, como irmã. Eu sei, hoje estou egoísta.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

La fille du régiment

O Teatro de São Carlos é a única casa de espectáculos nacional com vocação para receber óperas.
Uma ópera não é um musical, mas antes a sintonia perfeita entre o teatro e a música, ou pelo menos assim a sinto desde a primeira vez, já vão quase trinta anos, quando vi La Traviata, no Coliseu de Lisboa.
Ontem fui à estreia de La fille du régiment, bilhetes ganhos através de um programa de rádio, expectativa de um lugarzinho ao pé dos dourados do tecto e, afinal, plateia central.
Convidei uma amiga que se foi estrear nestas andanças e que saiu a adorar. Fã de teatro, cinema, de música sinfónica e de escultura, andava à espreita de uma oportunidade que apareceu do céu.
Entrando num templo como é o São Carlos, e como me acontece nos castelos e palácios, nem preciso de fechar completamente os olhos para viajar no tempo, basta-me semicerrá-los e logo vejo o José Maria de monóculo com o amigo Ramalho. Ao contrário da noite de ontem, quente demais para a época em que estamos, faz frio, há mulheres que sorriem no meio de arminhos e Eça conta a Ramalho pormenores da sua viagem ao Oriente. Logo a seguir Gaetano Donizetti entra-nos pelos ouvidos.
Parece contraditório mas acabo por nunca me entregar completamente ao espectáculo pois tenho que me segurar para não me levantar a agitar os braços, tal a força que a conjugação da música com o cante têm em mim.
A sala estava cheia e Marie - Cristiana Oliveira - esteve melhor que Toino - Alessandro Luciano - e ambos muitíssimo bem acompanhados pelo Coro do São Carlos e pela Orquestra Sinfónica Portuguesa.
O estilo cómico da ópera levantou sorrisos e a mim ainda me levantou a sobrancelha quando no placard com a 'tradução' aparecia a promessa de fusilarem alguém...
Oh senhores ouvintes... apreciem o espectáculo e deixem-se de biolências.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

A amizade é uma coisa muito bonita

Só nos faltava um cão. Éramos cinco, sempre juntas nas aulas e por vezes brincávamos que para sermos protagonistas dos famosos livros da Enid Blyton, só nos faltava um cão. A conversa era sempre a mesma: a seguir alguém dizia que o Tim, o cão do grupo, era um dos cinco, logo, uma de nós seria o cão! Negávamos, aceitávamos, tirávamos à sorte, qualquer coisa servia, pois não é fácil cinco mulheres darem-se bem como nós nos dávamos.
Passaram-se anos e hoje uma de nós vive no Algarve, outra no Funchal, outra no Fundão, uma no Cacém e eu na Amadora. Foram dois anos das nossas vidas - enquanto durou o curso de Ciências Documentais na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa - que nunca mais esquecemos e a prova disso é que nos continuamos a falar. Porém, o elemento do Fundão não era avistado há anos e ontem estivemos juntas na Gulbenkian.
Pareciam ter passado duas horas desde a última vez que nos víramos e percebi que sentia imensas saudades das gargalhadas dela.
À noite fiz inveja às outras por telefone: estive com a J. que mantém a mesma cara de miúda, o mesmo riso contagiante e alegre e temos mesmo que nos encontrar todas, mas encontrar mesmo, sem ser aquelas mentiras do costume, que temos mas nunca mais fazemos nada para viabilizar a coisa.
Com enorme expectativa combinámos ir ao Algarve a casa da M.
Tenho a certeza que vamos e até me arrepio de pensar no fim-de-semana de boa disposição que se criará. Tomara já que fosse hoje...

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Sonhar e rezar, sempre

Antes de sair o vigilante da noite e entrar a colega da portaria que assegurará o serviço de dia vou tomar o segundo pequeno-almoço. Ainda não são oito da manhã, o pátio deixa ver cada pedra da calçada portuguesa que a luz do sol vai aquecer dentro de horas. A sombra e o silêncio misturam-se.
Quando regresso passa das oito e o pátio está cheio de figuras humanas semelhantes a corvos. Os que vestem roupa normal tendem a afastar-se dos doutores, receosos que as praxes comecem com a alvorada.
Sou abordada três vezes, sobre a localização do auditório um e dois e sobre o bar o que me demora uns minutos a chegar à Biblioteca. Aqui, uma das colegas da limpeza é nova no serviço, começou em Agosto, nunca viu a chegada dos caloiros, o pátio cheio de risos e de esperanças, como se o sol, que ainda mal nasceu, aqui vivesse.
O primeiro dia de aulas sempre teve uma mística que me faz flutuar.
Na primária sonhava acordada rezando para que chegasse depressa. No liceu sonhava acordada rezando para que chegasse depressa. Na faculdade sonhava acordada rezando para que chegasse depressa.
Hoje levantei-me às quatro e meia e comecei a trabalhar uma hora depois, não tive tempo nem de sonhar nem de rezar, mas revejo-me em cada novo aluno repetindo as mesmas sensações ano após ano, dando o que tenho e o que sei, sentindo que sou parte da máquina que existe para contribuir para o sucesso de cada um.
Se durante uma vida eu sonhei e rezei para que chegasse o primeiro dia de aulas, depois de começarem sonho e rezo para que seja um Bom Ano. 

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Herdade dos Machados

Um dos serviços que presto aos utilizadores da biblioteca é o envio diário de resumos da legislação portuguesa e europeia. Não sou eu que a recolho, subscrevo um serviço que o faz e reenvio a informação, a maioria das vezes, mecanicamente, sem ler, sem lhe dar grande atenção. Há dois dias, décimos de segundo antes de fazer o envio, uma expressão tímida a meio do ecrã prendeu-me o olhar: Herdade dos Machados.
De acordo com o diploma legal, anulava-se uma portaria de 1975, que expropriava os proprietários e revertia-se a propriedade para os herdeiros.
Como num filme, fui sugada pelo tempo e aterrei no passado, a meio da Estrada Nacional 255-1, que liga a aldeia de Sobral da Adiça a Moura e passa a meio da Herdade dos Machados, num daqueles dias de calor alentejano, a caminho da piscina de Moura. O meu pai vai a conduzir, a minha mãe, a seu lado, quer fechar a janela para se proteger do vento, incrivelmente quente, nós protestamos no banco de trás.
Sabíamos exactamente quando entrávamos na Herdade pois a estrada era ladeada por dois enormes pilares que ostentavam a informação: Herdade dos Machados. Vários quilómetros depois passávamos pelas costas de dois pilares iguais; no entretanto o meu pai repetia que era a maior herdade de Portugal e as vinhas, ele abrandava a velocidade, olhem para isto, a maior vinha da Península Ibérica e, quase parado, não obstante as nossas reclamações, o olival, olhem o olival, o maior da Europa.
De grande em maior, com tanto recorde até além fronteiras, assim que passávamos os pilares, sentíamo-nos como se estivéssemos a atravessar um país estrangeiro, mas não um país qualquer, que de estrangeiro estávamos nós cansadinhas, com tanto passeio que já fizéramos ao Rosal de la Frontera, não, este era um estrangeiro diferente, um reino sem sombra de dúvida, uma espécie de califado, face à localização e à proximidade com o norte de África, e não era por acaso que em Moura, já ali, permanecia a lenda da Salúquia, a princesa moura, que se suicidou perante a armadilha que lhe montaram. Quando avistávamos as costas dos pilares que determinavam, naquele sentido, o fim da Herdade, a raia, voltávamos a Portugal.
A ordem da vinha, as estradinhas alinhadas, o verde glorioso no meio do dourado envolvente, era - e é - belo sem limites, e o meu pai conseguia fazer passar para dentro do carro em brasa aquele amor pela terra e por tudo quanto se relacionasse com ela ou com a natureza, não hesitando em fazer loucas travagens quando lhe parecia avistar um gaio, sorrindo totobolísticamente à visão de um melro, quase atirando o carro para a valeta, aquilo era uma águia, não era? Felizmente que ele próprio confirmava ou desmentia a sua própria questão porque com águias ou qualquer outra passarada nós éramos zeros à esquerda.
Numa ocasião, indo de comboio de Lisboa para Moura, a locomotiva avariou na Herdade, que tinha a sua própria estação de comboios, igreja e até estação de correios. Ora, uma coisa assim era digna de reverência, tão grande que se perdia de vista, dava a volta para além do horizonte, como se fosse a terra que Mufasa apresentou a Simba com as famosas palavras: Tudo o que tua vista alcança é o nosso reino.
No dia da avaria as pessoas saíram da carruagem - com bancos de sumaúma até Beja e de sumapau, de Beja a Moura - e ficaram ali a admirar a estação.
http://s149.photobucket.com/user/kioko_garcia/media/Machados.jpg.html
Curiosamente, aquilo não era bem uma linha, era um ramal (Ramal Moura-Pias) que nós não sentíamos como algo menor, antes pelo contrário, era um local eleito só para eleitos, nós e poucos outros, que tínhamos o privilégio de por ali andar.
Foi das avarias que mais gostei em toda a vida pois os Machados sempre me levantaram muita curiosidade e, para além da estrada onde passávamos, eu só ouvira dizer, nunca vira nada, como se algures dentro de mim uma voz mais ou menos sussurrante alvitrasse que tudo era uma treta, qual estação, nem de comboios nem de correios, qual quê, igreja?, a mais próxima é a de S. João Baptista em Moura, minha amiga crédula, acredita em tudo quanto ouve?
O facto de estar ali na estação provava que ela existia, logo, aquela grandeza da qual sempre ouvi falar também devia ser verdadeira, e a Herdade não diminuiu de tamanho com o meu crescimento, como acontecia a quase tudo: a rua da minha avó, por algum motivo se chamava Rua Longa, mas era muito mais longa quando eu era pequena, agora era como se tivesse reduzido; acontecia o mesmo com as distâncias entre a casa dos meus tios, o café, a casa da Rosa, da Maria Antónia, da Rosarinho, até a ponte era mais pequena, até o medo de subir ao andar de cima da casa dos meus tios era mais pequeno, até a vontade de andar sempre no meio da rua mesmo com calores dignos do Sahara era mais pequena. Só a Herdade dos Machados mantinha o mesmo tamanho, continuava a não conseguir ver-lhe o fim, os lados, a extrema.
Nunca lhe conheci donos, hereditários, usufrutuários, fosse quem fosse, o mais perto que estive da casa em si foi na estação, mas o processo de apropriação e manutenção de propriedade de algo que conscientemente não é nosso, é curioso: os Machados são meus na medida em que fazem parte das minhas memórias, coisa impossível de  perder. Mesmo com alzheimer não se perdem as memórias, apenas não lhes acedemos, penso que qualquer pessoa que veja filmes de ficção científica pode confirmar estas coisas básicas...
Ainda hoje, com 48 anos, quando passo na estrada pública que rasga a Herdade sinto um certo arrepio, volta a sensação de estar no estrangeiro, de não estar aqui. E se calhar não estou, porque cada vez que lá passo, volto ao passado. 

quarta-feira, 26 de junho de 2013

O pedido de casamento

Terminado o 12º ano candidatei-me à Universidade e fiquei logo colocada. Nos Açores...
O meu pai estava numa situação muito difícil, trabalhando mas sem receber há vários meses, e a nossa vida era tudo menos fácil.  Porém, tudo foi feito para que eu conseguisse, da parte dos meus pais e dos avós maternos, o avô Gualdino a deixar escapar umas lágrimas teimosas, mas quem é que manda aqui?
Eu, com 17 anos, já me via numa ilha no meio do oceano, onde nunca tinha ido, e que me parecia uma mistura da mítica Atlântida com ecos de um tal Woodstock, fosse isto o que fosse. Mas e o dinheiro? Viagens e estadias e almoços e jantares e livros e fotocópias e tanta coisa a pagar e nós sem cheta.
Foi preciso garantir a inscrição para não perder dois anos sem me candidatar novamente. O meu avô queria que eu fosse, eu queria ir, mas percebia que era impossível.
Assim, informei-me e fiquei a saber que era preciso passar uma procuração a alguém que iria à universidade inscrever-se em meu nome e pagar as propinas. Eu faltaria às aulas mas no ano seguinte podia candidatar-me de novo, tendo assim muito tempo para rezar por um lugar no continente.
Então e onde se fazem as procurações? Nesta altura eu já sabia o que eram mas não sabia onde se faziam. Ouvira falar delas a propósito das casamentos das minhas tias cujos maridos estavam em África e para mim, inicialmente, os casamentos eram por coração, evidentemente, pois era óbvio, casamento, amor, amor, coração, estava tudo explicado!
Fui de imediato a um notário e quando entreguei a identificação disseram-me que não a podia fazer por ser menor. Teve que ser o meu pai a fazê-la, em nome de um colega do nosso vizinho do lado - os nossos conhecimentos dos Açores eram só geográficos - com os tempos próprios da altura: fazer procuração, enviá-la por correio, ser recebida, ir à Universidade, enviar os papéis para nós, enfim, uma grande trabalheira, mas que se fez. O colega do vizinho, que nunca conhecemos, recebeu uns garrafões de azeite feito pelo meu avô e uns chouriços alentejanos, pois nós dificilmente pagámos os selos da carta.
O tempo corria e o início das aulas aproximava-se trazendo uma enorme tristeza que voava para cima dos meus ombros.
Um dia fui à faculdade fazer companhia a amigos e vi a parede da Reitoria cheia de papéis colados das mais diferentes formas. Eram mensagens deixadas por quem tinha ficado em Coimbra ou no Porto e queria vir para Lisboa e vice versa. Li-os ansiosa mas ninguém viera dos Açores pregar um papelucho para deixar a capital. Ainda assim, pensei que não tinha nada a perder e deixei lá o meu próprio papel: S. Miguel troca com Lisboa.
Dois ou três dias depois recebi no nosso belo telefone preto de disco um telefonema de um estrangeiro qualquer. Era obviamente engano. O estrangeiro voltou a ligar e no meio da estrangeirada disse qualquer coisa que soou ao meu nome. Já pronta a desligar, apurei o ouvido e sim, era mesmo verdade, o alemão ou lá o que era, disse mesmo o meu nome assim como outras palavras soltas em português: universidade, Açores, quero, Peixoto.
Estando eu tão calada de telefone ao ouvido o meu pai quis saber quem era e eu passei-lhe o telefone. Não é que o meu pai falasse outra língua além do português mas, vá lá saber-se como, entendeu: era alguém que tinha ficado em Lisboa e queria ir para S. Miguel!
Ao telefone estava o próprio, a ligar de um hotel no centro de Lisboa, passou a chamada à mãe, que continuou a conversa com o meu pai e hora e meia depois estávamos os quatro sentados no átrio do hotel, sorridentes e a combinar a transferência recíproca.
À excepção de um único apelido, o nome do rapaz era igual ao do Bocage, coisa que o meu pai fez imediatamente saber e que me levou a decorá-lo até hoje, apesar de ter ficado para sempre o Manel dos Açores.
A mãe do Manel dos Açores disse que ele ficaria instalado no hotel até tudo estar resolvido mas o meu pai, num excesso de boa vontade, disse que não, nem pensar, ele ficará lá em casa, seguido de um olhar que me silenciava, pois as perguntas já me saltavam da garganta: onde? Nós éramos cinco e os almoços eram aguados, não passávamos fome mas tudo era racionado.
Como foi dada a ordem para não se falar mais nisso, o Manel mudou-se lá para casa de armas e bagagens, tendo ficado no quarto da minha irmã que se juntou a mim e à N. A ideia era irmos ambos às aulas enquanto tudo não estivesse resolvido, altura em que ele iria para os Açores mas com a matéria debaixo do braço. A mim bastava-me continuar.
Nos primeiros dias fomos juntos mas ele começou a preguiçar e eu comecei a ir sozinha e a responder - e a explicar - porque dava pelo nome de Manuel Maria Barbosa Peixoto.
Eram risos só superados por um colega que se chamava Jesus Roque e a quem os amigos teimavam em interromper as aulas, metendo a cabeça pela porta e perguntando aos professores se podiam falar com o menino Jesus...
O Manel dos Açores vivia melhor que nós e não tardou a fartar-se dos almoços que a minha mãe deixava. Um dia levantou-se e torcendo o nariz ao espreitar a panela perguntou-me se não queria ir comer arroz de marisco. Eu nunca comera arroz de marisco na minha vida e noutra altura teria aceite a correr, mas disse imediatamente que não, que o meu almoço estava ali. Porém, fui convencida a fazer-lhe companhia e, já almoçada, fui com ele a um restaurante onde o vi comer um pouco de tudo o que havia na secção de mariscos, com vinho branco que também não provei. A vontade era enorme e fez-me implicar com ele as duas horas que ali estivemos. Naquele momento odiava-o e odiava-me a mim: por ter comido o guisado aguado, por não dar o braço a torcer, por o achar um ingrato. Ainda por cima ele era daquelas pessoas que mastigam cem vezes cada garfada e eu sorvia a comida, o que só serviu para embirrar ainda mais com ele, lento, pastelão, molenga.
Eu escondia dos meus pais estas atitudes dele, pensando que iam ficar magoados, e eles pagavam ao Manel em passeios a qualquer lugar onde ele quisesse ir, apesar dos fracos cobres com que vivíamos. Valia o facto de o meu pai ter poucas folgas, sempre a trabalhar em dois empregos, a nossa salvação, eu era menor não tinha carta de condução, logo só saíamos mesmo em dia de festa. Um destes dias o Manel disse que nunca fora ao Cristo-Rei. Ai não? Logo ali se organizou a excursão, os meus pais, nós as três e o namorado da N., ao todo sete pessoas no Ford Kadett encarnado comido pelo sol. Chegados aos pés do Cristo, ele subiu, com a N. e o namorado, que lhe pagou o bilhete. Nós manifestámos o nosso velho conhecimento do monumento e deixámo-nos ficar encostados ao carro.
Vistas as vistas, desceram e, passando Almada, o Manel viu uma placa a dizer Costa da Caparica, ficou eufórico com a proximidade e disse ter lá um grande amigo. O meu pai rumou então à Costa e, à entrada, já nas Terras da Costa, perguntou onde morava esse grande amigo. A resposta provocou um silêncio seguido de uma gargalhada geral:
- A morada não sei, mas ele tem uma mota encarnada, não deve ser difícil de encontrar.
O meu pai abrandou, parou o carro, virou-se para trás para o amontado de nós e perguntou-lhe se ele tinha ideia de quantas motas encarnadas existiam na Costa, se ele tinha noção do tamanho da vila, se alguma vez lá fora. Três nãos.
Virou-se para a frente e foi conduzindo devagar, Oh Manel, isto nem parece seu. Mostrámos-lhe o mar e regressámos a casa, cheios de rugas na roupa, a N. bem apertadinha junto do seu A., a minha irmã no banco da frente ao colo da minha mãe e eu de trombas ao lado do palerma do Manel.
A estadia do Manel na nossa casa durou quase três meses, com esporádicas idas à Universidade e muitas discussões pois ele estava sempre pronto para sair e eu também, mas não tinha dinheiro para o acompanhar e não aceitava nada dele.
A N. um dia convenceu-o que sabia cortar cabelo e ele deixou que ela o pusesse com um ar muito avant garde, ou pelo menos foi isso que lhe dissemos, jurando que a moda em Lisboa era exactamente aquela.
Tirando a questão do dinheiro que para os meus lados era leve que nem uma pluma, até nos entendíamos e, talvez por isso, depois do adeus e do regresso aos Açores, poucas semanas depois ele voltou a Lisboa, foi visitar-nos e perguntou-me se queria casar com ele. Disse que não tencionava ficar em S. Miguel, que o Canadá o esperava, terra de grandes oportunidades, onde tinha amigos ou família, já não me lembro.
Um ano antes, durante o 12º ano, assistira ao casamento de uma colega de turma que para mim funcionara como uma coisa quântica, tão abstracta que eu não conseguia entender. O Canadá, as oportunidades, o ir embora, era tudo fantástico mas, tal como numa equação, havia um elemento que eu desconhecia, que me causava profunda estranheza, que não encaixava: casamento.
Ele insurgiu-se, afirmou não estar a brincar e eu ouvia um homem falar pensando que alguém o trocara no caminho porque quem se tinha ido embora era um rapaz na medida em que eu era uma rapariga, e essa coisa de casar era para velhos, não para rapazes e raparigas, a não ser que fossem loucos ou, como no caso da Adelaide, que a sogra fosse psicótica e insistisse no casamento imediato alegando ter visões que lhe diziam que o filho morreria em breve e se não casasse já, ela nunca teria netos.
Canadá, sim. Oportunidades, sim, também. Casar, não.
O Manel dos Açores foi embora, solteiro, e nunca mais o vi, nem nada soube dele. Comecei a namorar com outro Manel, continental, com quem casei e tive um filho. A N. casou com o meu queridíssimo A., e assim se mantém, com dois filhos maravilhosos, cuja amizade prezo imenso.
Há dois ou três anos um antigo colega do liceu conseguiu localizar a turma inteira e organizou-se um jantar no qual adorei ter participado: uns gordos, outros magros, outros parvos iguais ao que eram, uma camaradagem que não adivinhei manter-se depois de tantos anos. Pusemos a escrita em dia com as novas moradas, com os filhos, com os estados civis de casados e divorciados, com uma excepção: a Adelaide era viúva pois o marido morrera tal e qual como a sogra sempre previra. 

quinta-feira, 20 de junho de 2013

De carro

O primeiro carro do meu pai foi um Fiat 850. Lembro-me de lá entrar pela primeira vez, em terceira mão mas novo, tão novo que nos fazia luzir por dentro. Lembro-me da minha mãe, pavoa, a chegar à aldeia e a levar os pais a passear, o meu pai a prometer, e sempre a cumprir, que a partir de agora iríamos mais vezes, as máquinas a facilitarem o contacto entre as pessoas, a aproximá-las.
O meu pai, caso raro de amor extremo pela sogra e pelo sogro, amor esse recíproco, chegava a rumar à aldeia sozinho para ajudar na azeitona, mais um fim-de-semana para a apanha do melão, depois outro para desburricar as oliveiras e outro e outro e outro. Sogro e genro a darem-se como pai e filho, não porque a um faltasse pai nem a outro descendência masculina, mas porque as boas relações são boas e não é preciso mais explicações.
Se há coisas que me parecem impossíveis, mas sei serem verdadeiras porque as vivi, são as viagens ao Alentejo no Fiat 850 onde, numa ocasião, chegámos a ser nove pessoas.
Bancos duros que nem pedra, duas portas, crianças sentadas ao colo do passageiro da frente, gente amontoada no banco de trás, velocidade máxima perto da actual mínima, um dia inteiro para chegar a qualquer lado, estradas pobres e esburacadas, havia de tudo.
Mais tarde, por vários carros que fomos tendo, o meu pai teve uma carrinha só com três lugares à frente e caixa vazia que, a caminho de uma feira de Moura levou do Sobral da Adiça trinta e três pessoas, sem um único banco. À saída da aldeia os meus pais pararam para beber café e disseram que íamos à Feira; juntou-se um que também queria ir e mais outro, e outros que chamaram outros e eram precisamente trinta e três outros, contados à chegada a Moura à medida que iam saindo da viatura.
Hoje isto seria impossível e daria prisão perpétua algures na Tailândia, mas na altura era normal, assim como foi normal sentarmo-nos nas escadas da praça de touros a cantar, dando continuidade à cantoria que já tinha vindo arrepiando as folhas das videiras da vinha dos Machados e transformando os torrões em terra quase líquida com o afinado das vozes.
Actualmente escolhemos a estação de rádio, com um toque ou vários toques sucessivos e não rodando um botão, optamos por um CD, ligamos o telemóvel ou uma pen às colunas da aparelhagem do carro. Actualmente há sempre rede, conceito que na altura, no máximo, nos faria lembrar o Emiliano cujo pai era pescador.
A falta de cobertura do rádio e a existência de cassetes, mas esventradas com as figadais fitas todas enroladas, levava-nos a cantar: Quando Cheguei ao Barreiro à saída de Lisboa; Grândola Vila Morena, à beira de Grândola e muito antes de Vila Morena estar escrito na placa; Ó Beja Pois Tu Não Sabes, à vista de Beja; Ai Ai Ai Trigueirinha onde nos apetecesse; Lá Vai Serpa, Lá Vai Moura, à passagem por Serpa; Sobral da Adiça à entrada da aldeia e muitas outras.
A minha irmã e eu ainda gostamos imenso de cantar quando andamos de carro e fazemo-lo sempre que podemos, canções antigas, novas, infantis, tudo o que nos vem à memória. Sabemos que cantamos muito bem e para mim sempre foi um mistério porque nunca fizemos carreira musical, principalmente depois do dia em que fomos a um bar de karaoke e quando terminámos veio o dono e disse-nos que a conta estava paga com a condição de não voltarmos a abrir a boca… caso contrário ele convidar-nos-ia a sair do distinto estabelecimento. Era só uma opinião, o homem sabia aviar copos mas não tinha ouvido para a música, como é óbvio!
Este Verão esperam-nos os Picos da Europa. Cumpriremos os limites de velocidade, poremos os cintos de segurança e, apesar de sermos só quatro, até o Pelágio ressuscitará quando por lá passarmos a cantar. 

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Desterrados

Cada vez menos as pessoas têm terra. Não, não é no sentido da propriedade, ou talvez também seja, mas não no sentido de ser dono, antes na perspectiva de pertencer.
As gerações mais novas nascem nas cidades, onde vivem na maior parte das vezes, e a deslocação à terra faz-se quase sempre com um grito da mãe ou do pai. Não, não era isto que eu queria dizer, embora seja verdade.
Já não se nasce em casa, esqueçamos agora os novos movimentos a favor dos partos naturais em casa, com piscinas de bebés e essas coisas, nasce-se nos hospitais e os hospitais são cada vez menos, de modo que a concentração de nascimentos é maior. A minha prima mais velha nasceu na aldeia, em casa, eu no hospital na vila mais próxima, os nossos filhos em Lisboa e Almada, locais partilhados por milhares e milhares, cujos pais têm no cartão de cidadão os mais diversos locais de nascimento, como Sobral da Adiça, concelho de Moura, distrito de Beja, ou Ruivaqueira, concelho e distrito de Leiria.
O Sobral e Ruivaqueira perderam filhos literalmente e os bastardos já não atestam o carro ao fim de semana e não se põem a caminho da terra.
As raízes estão mais concentradas desta forma? São mais fortes? É como se fosse um olival cujas árvores estão plantadas todas no mesmo sítio? Nada disso, antes pelo contrário. O sentido de pertença diluiu-se no estar sempre na terra, que deixou de ser terra, pois terra é a que fica longe, a que está perto, é aqui e aqui não é A terra.
Para ser terra tem que ser longe, se bem que o próprio longe de hoje seja em Londres ou em Paris e não em Santo Aleixo da Restauração ou em Chainça. Desapareceu aquela força invisível que puxava as pessoas no Natal ou na Páscoa para as aldeias, mesmo que não tivessem família. Quando A terra é nas cidades, depois da meia noite de 24 de Dezembro vai-se para a discoteca, onde o galo da missa não se ouve por mais que se esgane. Não se leia aqui saudosismo para com a missa do galo pois, que me lembre, da única vez a que assisti, quando regressámos a casa encontrámo-la cheia de fumo, devido a um tronco ter rolado da lareira e estar impávido e sereno a arder no meio da sala!
Mas com o desaparecimento da pertença da terra ficamos mais pobres, menos característicos, mesmo que essas características passassem por ser coisas como, os de aqui são teimosos, os de além são maricas, os de acolá são corajosos, os de não sei de onde são assim e assado, como se a laje que a parteira pisava no momento em que vieram ao mundo lhes conferisse traços comuns.
Com um mundo tão globalizado o número de terras dos nossos conhecidos aumentou: um é de Sevilha, outro do Rio de Janeiro, outro da Praia. Se eu tivesse a Praia como terra, era um dois em um, e tenho a certeza que me sentiria uma sereia, não como a Ariel, mas antes como as do Ulisses.
Bom, mas eu tenho terra. E família, nessa terra. Família viva, os meus tios, e família morta, os meus avós, cujos restos mortais estão no local mais soalheiro do cemitério, contra a vontade da minha tia que cada vez que lá vai no Verão, discute com a minha avó sobre a escolha do sítio, tão à soalheira, tão à calorina, e repete que foi mal escolhido como se ainda pudessem mudar. Farto-me de rir com estas críticas e imagino a minha avó, gorda e redonda como a mais bela lua cheia a virar a cara de lado e a rir-se como quem não quer desdizer uma criança, e o meu avô a franzir as sobrancelhas e a abanar a cabeça, enquanto diz à filha, eu escolhi a minha, escolhe tu a tua.
Não sendo ateniense nem grega, sou do sítio onde estou, capacidades de adaptação não me faltam, e dos sítios de onde trouxe memórias e a aldeia dos meus avós deu-me muitas, muitíssimas.
Acredito pois que as raízes crescem em torno das pessoas, com terra ou sem ela, no mar ou no céu e onde houver boa-vontade. É pena que esta boa-vontade seja cada vez interiorizada, obrigação dos outros para connosco, e não espontânea e pura, nossa para com o mundo. Afinal, vivemos todos na Terra.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Dia da Mulher


Respeito com vénia as razões que levaram a esta comemoração e arrepio-me ao pensar nelas, tenho vertigens só de saber que a História se repete um pouco por todo o lado ainda hoje.
Mas só me lembrei que era Dia da Mulher quando um aluno me entrou no gabinete a pedir um chapéu-de-chuva emprestado e me parabenizou. Agradeci.
É Dia da Mulher para as novas e para as velhas, solteiras e casadas, mães, tias e irmãs. É Dia da Mulher para as vivas e para as mortas. A Paula faria ontem anos se fosse viva.
Lembro-me do dia que a conheci, de pele muito branca, mulher enorme em tamanho e em interioridade, dois anos mais velha que eu, a querer muito, muito, muito ser mãe, a natureza a contrariá-la, ela a teimar e a adoptar uma criança, mas afinal quem é que manda aqui?
Mulher de convicções, de pulso firme e grande cabeleira ondulada que se movia como uma montanha quando ela se ria. Pessoalmente nunca fui alvo da sua ira, mas assisti a vários confrontos e não são bons de lembrar pois se era a pessoa mais divertida do mundo quando estava bem-disposta, era terrível em dias maus.
Já naquela altura eu era apaixonada por baleias e andava sempre a dizer que queria ir aos Açores, mas não tinha dinheiro. Lembro-me que estávamos no café do António a almoçar, uma tasca espectacular, pelo dono, pelos empregados e pela frequência. Quando repeti a conversa das baleias a Paula olhou-me com seriedade coreografada e disse-me que não era preciso ir aos Açores pois no mês seguinte ela iria para o Algarve. Eu só tinha que ir também e esperar que ela vestisse o fato de banho preto para ver uma orca nas águas quentes de Lagos. Disse isto, levantou-se e começou a dar aos braços como se fossem barbatanas e a emitir sons esquisitos e terminou sentando-se e dizendo: Quem dá o que tem a mais não é obrigado. Rimos a bom rir com aquela espontaneidade tão típica dela.
Trabalhámos juntas na Câmara Municipal, que oferecia às mulheres um almoço seguido de espectáculo, todos os 8 de Março. Por norma a Paula, a Lena e eu ficávamos juntas e era rir até fartar. Num desses almoços chamaram-me ao telefone, coisa inusitada, quem teria tanta pressa, para quem seria eu tão urgente? O meu avô morrera, o meu amado avô Gualdino, morrera.
O meu cabelo vindo há poucas horas da cabeleireira esbateu, a minha roupa um pouco mais vistosa ensombrou-se, as gargalhadas transformaram-se em lágrimas e as minhas amigas acompanharam-me nesta imensa tristeza.
Anos mais tarde recordei com a Lena, e diante de uns bons copos, aqueles almoços do dia 8 de Março e a exuberância da Paula. Brindámos-lhe como se ela estivesse connosco. A bem da verdade, ainda está porque há pessoas que nunca desaparecem.