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terça-feira, 19 de julho de 2016

#pokemongo ou como voltámos a ser nómadas!

Leio que a Nintendo já vale mais que a Sony à pala do Pokémon Go. Basta jogar para se perceber porquê.
Há muito, muito tempo, quase na altura em que os animais falavam, também eu colecionava cromos que comprava em carteirinhas, trocava com amigos e ia preenchendo cadernetas. Porquê? Porque sim, à imagem de Mallory.
Até agora passei imune a todos os tipos de jogos de computador e telemóvel, excepção confirmada por uns joguitos de cartas, banais, em momentos aborrecidos.
O meu filho era jovem e pedia para fazermos corridas de carros ou partidas de futebol, exasperando-se comigo, não pela minha impaciência, mas pela minha completa inaptidão, provocando acidentes a cada instante e levando os jogadores a marcar golo na própria baliza. Vários anos mais tarde, quando todos andavam a alimentar renas, a juntar fardos de palha e a tratar de galinhas, gozei com a comunidade de amigos e conhecidos que pedia ajuda para tratar das quintas ou das propriedades e que criavam inveja nos outros com o anúncio dos níveis alcançados.
Há dias o meu filho instalou o Pokémon Go no meu telefone e transformei-me numa caderneta de cromos!
A aplicação contraria tudo o que já se disse sobre jogos na actualidade, na perspectiva da inacção física dos jogadores: voltámos a ser nómadas!
As ruas enchem-se de pessoas com telefones na mão, ou melhor, dispositivos de captura, e caminham horas a fio em demanda de mais 'cromos', parando nas pokéstops, arrecadando ovos ou pokébolas, sozinho ou em grupo, com uma vertente de socialização ao vivo e a cores que permite saber mais, partilhar dicas e formas de captura.
Todos adoramos a ideia de estender a conquista em museus, castelos, sítios arqueológicos, etc., porém, com a sombra dos últimos acontecimentos terroristas a pairar sobre nós, a 'teoria da conspiração' vem logo ao de cima, esperando que não seja possível encaminhar jogadores em massa para locais de captura que se revelem uma armadilha.
A tecnologia surpreende sempre mas a ficção tornada realidade ao alcance de tantos, não é fácil de conseguir. A realidade aumentada na mão de milhões foi uma expectativa atingida e ultrapassada.
No próximo passo replica-se o quotidiano de Caprica? Esta série, que me parece ter passado despercebida, merece ser revista com atenção, não só pelo cenário de fanatismo religioso, como pela criação de avatares que subsistem para além da morte física de quem personalizam. Rumo à imortalidade? Não sei, mas sei que capturar pokémons pode ser uma acção divertida, feita com amigos, como quem programa um piquenique.
Tentar perceber como a coisa funciona não é querer estragar o truque de magia, antes pelo contrário, é parabenizar os cérebros que tiveram agilidade de criação de uma coisa espectacular, viciante também, sem dúvida e sem concorrência, por ora.
Estamos perante uma revolução no estar e no agir de jogadores, ziliões de jogadores, que levantam o rabo dos sofás e vão fazer o que a saúde pública sugere: caminhar. Vêmo-los saírem das suas tocas e exercitarem-se sozinhos ou com companhia, nem que seja o cão com ar estafado que no Facebook nos diz que o dono, ao contrário do que fazia, já o levou a passear hoje meia dúzia de vezes, e se pergunta, mas que diabo é um Pokémon?
Não é só jogar, é ser parte do jogo, como algumas experiências com recurso a óculos de RA já permitiam, mas dentro de portas. Agora as portas abrem-se para jovens e menos jovens, num Verão  que será lembrado não pelas altas temperaturas, mas como aquele em que o Jardim Pokelógico abriu as portas e deixou os animais à solta para que os pudessemos apanhar.
Isto ajuda-nos a aguentar a espera pelo tão ansiado Inverno - nunca foi tão esperado! - da Guerra dos Tronos! Tenho para mim que não tardará que possamos também sentarmo-nos do Trono de Ferro...

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Medidas de Excelência - Encerramento do Serviço de Urgência Básica de Coruche

A 20 de Novembro de 2015 publica-se o despacho 13.427 do Ministério da Saúde no Diário da República onde se elimina o Serviço de Urgência Básica do Centro de Saúde de Coruche. Diz O Mirante que “Na região continuam afuncionar as urgências básicas dos hospitais de Tomar e Torres Novas, queintegram o Centro Hospitalar do Médio Tejo”. 
Ai… Médio Tejo… como a Terra Média, dos Hobbits… que lindo… e a que distância ficam essas urgências?
  

Tomar
Torres Novas
Santarém
Coruche
108
85
43
Azervadinha
114
92
49
Biscainho
118
96
53
Branca
127
105
63
Couço
115
111
70
Erra
91
94
51
Fajarda
110
88
45
Lamarosa
80
82
55
Montinho dos Pegos
108
85
43
Rebocho
118
96
53
Santana do Mato
130
108
65
Santo Antonino
107
85
42


Se à primeira vista parecem um bocado longe, vejamos como é que, afinal, isto é uma medida é de excelência, pois contempla possibilidades paralelas que talvez escapem a alguns, se não vejamos:
Falamos dos alunos das escolas porque esta garotada tem a mania de se aleijar, de cair, de ficarem doentes de repente, essas coisas, e vão agradecer penhoradamente a quem se lembrou de acabar com o serviço de urgência básica de Coruche pois desde essa altura abriram-se-lhes novos horizontes: passam a ir à urgência a outros locais, como Torres Novas, Tomar ou Santarém. De que outra forma poderiam as imberbes crianças conhecer Santarém, a capital do gótico, o belíssimo Convento de Tomar ou o labirinto de galerias subterrâneas conhecidas como Grutas de Lapas, em Torres Novas? Tomar tem os seus encantos, com o rio Nabão, praça de touros e tudo, e come-se muito bem em Torres Novas, ouvi dizer. Deixa de ser necessário as escolas perderem tempo com a organização de visitas de estudo pois estas fazem-se comodamente a bordo de uma ambulância e ainda por cima, com um elemento surpresa, pois não se sabe para onde nos levam.
Com certeza que a medida de encerrar as urgências básicas em Coruche foi tomada tendo em consideração estes aspectos, ou seja, foi um dois em um. Além disso, como as crianças não vão à urgência sozinhas, também os professores, educadores, auxiliares e mais uma fila de pessoas terá a magnífica oportunidade de fazer quilómetros e quilómetros, não perdidos, mas em missão dupla de acompanhamento e conhecimento das redondezas. Os pais farão os mesmos percursos, permanecendo ausentes do seu local de trabalho muito mais tempo, gastando imenso combustível, perdendo muitas horas, aumentando os trajectos de angústia e preocupação, mas que caramba, estão a passear também, isso não conta? Em vez de faltarem ao trabalho por uma hora ou duas, uma manhã ou tarde, vá lá, como acontecia com a urgência em Coruche, vão poder faltar dias inteiros! É uma oportunidade a nível cultural sem precedentes!
É claro que a Câmara nunca mais conseguirá outro galardão como o que lhe foi agora atribuído, porque aquele detalhezinho da saúde e da facilitação das medidas de conciliação entre trabalho e família, perdem-se pelo caminho, mas isso que interessa?
Por outro lado, em Torres Novas, Tomar, Santarém, Abrantes ou Vila Franca de Xira, estes dois últimos apontados como tendo urgência médico-cirúrgica, há pouquíssimas pessoas e o objectivo é também dinamizar as urgências por lá, pois parece que estão um bocado paradas, coitaditos…  Não é nosso dever ajudar os outros? Então, cooperemos! Vamos aplaudir esta medida que proporciona ainda, quando as deslocações forem nocturnas, uma melhor apreciação da chuva de Perseidas, e aceitemos com um abraço fraternal os desafios que se nos colocam quando no distrito de Santarém as chuvas deixam as estradas submersas e intransitáveis…
Pensemos nas crianças outra vez e tomemos a seguinte reflexão: não nos queixamos que estamos tempo demais longe delas? Ora os percursos podem também ser aproveitados para se fazerem os trabalhos de casa! Há que criar sinergias!
As áreas empresariais com as Zonas Industriais do Monte da Barca, do Couço e da Lamarosa também ficam muito mais bem servidas com a urgência básica de saúde a uma boa centena de quilómetros, o que lhes dá a possibilidade de fazerem um trabalho comparado com outras zonas industriais; por outro lado, não nos podemos esquecer do Desporto, que se pretende desenvolver e consolidar junto dos coruchenses e a bem da saúde. Como esta malta também tem tendência aos aleijanços e o facto de existir um serviço de urgência era encarado como uma mais-valia na organização de eventos, agora vão pedalar para Tomar, corram em Torres Novas e organizem actividades de rio em Santarém, pois é para lá que vão em caso de necessidade, deixando Coruche mais desafogada e tranquila, pois já se sabe que isto das corridas causa stress, e é preciso é calma! Continuo a dizer, só há motivos para aplaudir esta iniciativa.

Se fosse eu a mandar ia mais longe: os coruchenses iam ao serviço de saúde a Évora, património da Humanidade, aos Açores – que bela oportunidade de andar de avião! – e a Vila Nova de Gaia, que o Porto visto dali é lindo e maravilhoso. Mas não se pode ter tudo, há que nos conter. Ainda assim, anseio por medidas mais abrangentes, como o encerramento dos cemitérios: para tanto há que perguntar às pessoas onde gostariam de ser enterradas, fazendo uma lista de preferências e na altura enterram-se por esse Portugal fora de acordo com os locais eleitos, que transbordariam de flores. Se assim for, crescem as romarias a sítios que nunca viram dois carros a cruzarem-se e faz-se jus ao nome de Portugal como um jardim à beira-mar plantado.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Coincidências

Na sala de espera da clínica aguardo que me chamem para fazer exames. Ouço o meu nome, dois nomes próprios e um apelido, o último. Fecho o livro, guardo-o e levanto-me. Adiante de mim levantara-se uma senhora, que atirou com a revista de um dos meses de Verão do ano passado para cima da mesinha onde estão mais dez semelhantes, ou mais atrasadas ainda, e prepara-se para seguir a funcionária.
Pergunto se pode repetir o nome de quem chamou, devo ter ouvido mal, a ansiedade fizera-me ouvir o meu nome. A funcionária repete os meus dois primeiros nomes e o meu último apelido, sorrio e antes de dar o impulso do primeiro passo em direcção a uma máquina torturadora que me esborracha as mamas, a senhora diz, para meu espanto: Sou eu.
Espera aí... também sou eu...
Ambas espantadas constatámos que tínhamos o nome igual, curiosamente não muito comum. 

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Manifesto Norte Júnior - Que não se perca o Norte!

A História vive nas ruas e dá a cara nas fachadas dos prédios. Os homens que transformaram a imaginação em realidade são pais de um trabalho que se perpetua no tempo, ao ar livre, aguentando intempéries e todas as sortes.
As ruas de Lisboa têm várias cicatrizes NJ, que se manterão até que os poderes públicos e privados assim o consintam.
Frequentemente, esquecemo-nos que um prédio é uma edição de um só exemplar, irrepetível, e quando vai abaixo, entulha-se a História, da cidade, da arquitectura, do arquitecto, a nossa História.
Quem nos legitimou para apagar a História?
Os edifícios são irreproduzíveis e a memória não os consegue plagiar para que transportemos a riqueza acumulada de geração em geração.
Vivem entre nós pessoas magistrais, como Norte Júnior, temos o prazer de conviver com o seu trabalho, que faz História, admiramo-lo, aplaudimo-lo e deixamos que seja demolido!
Os interiores são obras de arte divinas, na medida em que funcionam como um corpo humano, com órgãos, tecidos, ossos. Os interiores projectados por Norte Júnior conjugam o calor das madeiras, a intemporalidade da pedra, a força do ferro, a estrutura do betão, a luz dos vitrais, a beleza da pintura, o delicado do estuque; têm o toque de Deus, como dizia van der Rohe, na profusão dos detalhes.
Não interessa, é demolido na mesma!
É o progresso, dizem. Mas o progresso não trouxe conhecimento técnico, e científico, e histórico, e tecnológico? O progresso não aumentou a visão de conjunto? E trouxe vontade…?
Insurgimo-nos contra a devastação do património na Síria, face à guerra: de que nos serve a paz se não existe bom senso?
Se o futuro não contiver as pagadas geodésicas do passado será um espaço vazio, pobre e infeliz.
Mantenha-se o edifício da Avenida da República, 55 e que não se perca o Norte!

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Viva o Facebook!

Chovem picaretas em Lisboa durante duas horas.
O local onde trabalho alaga-se e eu alugo um par de galochas, sabendo que não vou sair daqui tão cedo e na expectativa que, quando vá embora, a tormenta tenha levantado. São os riscos do empreendedorismo!
A luz falta, onde há minutos estava uma estrada há agora um novo rio, não lhe conheço o nome, mas é dos grandes, primo do Tejo, por aí.
Urge procurar informações sobre a cidade, para dar resposta a duas pessoas que se deviam encontrar hoje comigo e que vêm do outro lado de Lisboa. Peço a uma colega que me pesquise a coisa e me mande os resultados para o mail. Em cinco minutos sou inundada - para fazer padan - por links. Links das Notícias ao Minuto? Dos Bombeiros Sapadores de Lisboa? Da protecção civil? Da Câmara?
Não, todos do Facebook. Imagens e vídeos de todas as qualidades e feitios com um denominador comum: muita água a correr pelas ruas.
Com um sorriso e o pensamento que devia ter feito a pesquisa sozinha, lá entro no site dos Bombeiros e vejo a localização das quase duas dezenas de locais muito complicados com inundações e adio as reuniões para amanhã.
Conclusão, o facebook é grande!

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Fim de Verão? Não...

Com o Verão agarrado às pernas desprezo a chuva e saio triunfante de casa, desconhecendo a greve do metro. A meio caminho volto para trás, alertada pelo noticiário, e encaminho-me para a estação dos comboios, que passam rápidos e muito mais vazios do que imaginava.
Na carruagem o calor é sufocante e o meu vestido cor-de-rosa impõe-se no meio de tanta roupa escura, invernosa. Os sapatos, cor-de-rosa também, mesmo no rés-do-chão de tudo quanto é acessório, brilham decadentemente.
É preciso fazer a avenida da Liberdade a pé, mas resolvo assustar-me com a chuva e deixo-me ficar num café do Rossio, como se fosse uma turista. As caras cinzentas de quem tenta chegar aos empregos contrastam com os narizes encarnados dos estrangeiros que, de chinelos, ali abundam.
Com o telemóvel vejo os números do euromilhões, decidida a fazer uma loucura caso tenha sido eleita: saio do café e paro o trânsito a dançar no meio da chuva! Virá a polícia, que me levará para a esquadra, e amanhã os jornais mencionarão uma louca que teve um ataque no centro de Lisboa e que ainda piorou a situação já caótica do tráfego. Verificada a total falta de correspondência, rio sozinha e decido que já chega de pieguice, vamos lá.
A chuva abrandou e faço a avenida encostada a lojas de vidros cristalinos onde nunca entrei, e não faço questão de entrar. Sinto o cabelo encaracolar, o mesmo cabelo que me levou a levantar mais cedo para o esticar com escova e secador, tão Cleópatra que saí de casa.
Qual pato de borracha a navegar na banheira, chego ao trabalho e troco os sapatos cor-de-rosa por uns pretos, rasos, fechados.
Os pés aquecem, o vestido seca, o cabelo insufla, os óculos limpam-se, o estado de espírito não foi afectado!

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Vade retro Fangio!

Depois de inundações, cortes de luz e electrodomésticos avariados já merecia uma pausa. Fui a Vila Nova de Gaia com uns primos em romaria a outros primos.
Sendo tudo gente nada macambúzia adivinham-se muitas rugas num futuro próximo, foi um fim-de-semana de rir à gargalhada: um diz mata, os outros respondem esfola e é sempre num crescendo. Se o matar saudades sangrasse o Douro estaria encarnado e espesso.
Os primos, para além de descenderem de Carlos Magno, são artistas, pintores que esculpem materiais e, objectivo atingido, também a nossa cabeça, numa mescla onde não falta música, silenciosa mas bem presente.
A exposição das últimas obras, que só ganhou bem esse nome depois da nossa visita, foi acedida depois de uns bons quilómetros de carro conduzido, nem mais nem menos, pelo Fangio-Alonso que conseguia a proeza de passar pelos intervalos da chuva - não chovia, mas se chovesse, passaria - sem tocar em pessoas, carros ou edifícios, mas roçando-lhes a aura.
Do banco de trás as reclamações começaram subtis - não temos pressa... - foram ganhando uma consistência de contracções, os cintos de segurança, quais tubos de soro, prendiam-nos mas não nos amarravam e as três miúdas chocalhavam no banco de trás.
Os edifícios escuros das ruas estreitas do Porto corriam em direcção contrária à nossa e, imediatamente a seguir a uma reclamação sobre a impossibilidade de admirar a arquitectura, o nosso Fangio pára de repente e diz:
- Saiam!
Ninguém se mexeu e a dona do carro, que vinha nas traseiras com outra prima e comigo, deu pressa ao condutor, seu amigo de tão longa data que vem de outra vida, e artista também. A resposta repetiu-se:
- Saiam, depressa!
O meu primeiro pensamento foi de estupefacção: Estamos a ser postos na rua pelas reclamações? Não acredito nisto... Ainda assim, e porque a dona do carro já abria a porta do seu lado, achei por bem imitá-la e saímos todos, menos o motorista que não sabíamos quando voltaríamos a ver. Já eu pensava se teria dinheiro na carteira para apanhar um táxi de volta para casa quando a prima de Gaia sorria e explicava:
- Ele trouxe-nos a ver o Ângelo, que boa ideia...
Quem seria o Ângelo? Um primo? Mais um de tantos que temos e que eu desconhecia? Não... estávamos à porta da Cooperativa Árvore para vermos uma exposição, imperdível, de Ângelo de Sousa, onde não faltavam os famosos cavalos, que me lembram Altamira.
Ângelo de Sousa não dá muita vontade de rir mas nós ríamos à fartazana, como se quiséssemos esgotar as gargalhadas, ao revivermos o momento em que ele nos pusera fora do carro, sem mais explicações.
No regresso à viatura os agradecimentos multiplicavam-se, quais vénias, talvez o dobrar das cruzes o fizesse conduzir mais devagar dali para a frente. Não. Sentava-se ao volante e ficava possuído e guiados pela alma infernal lá fomos a Perafita, ver a Tia R., com quem eu passei tantas férias, ali, em todo o Minho, com especiais paragens no Gerês, tendo sido ela e o meu Tio, já falecido, que me mostraram tudo aquilo e me fizeram apaixonar para sempre por aquelas penhas, piscinas, serras, estradas e lugares. 

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A senhora sente-se bem?

Conta-me a minha irmã que foi às urgências médicas com dois dos meus sobrinhos. Quem tem muitos leva-os à dúzia, sai mais barato. Na sala de espera tem o mais pequeno ao colo e o mais velho sentado ao lado, escapou a garota do meio, e conversa baixinho com os dois, mimando-os, mentindo-lhes sobre o tempo de espera, está quase, vão ver que está quase...
Às tantas percebe uma frase que se repete, a senhora sente-se bem? a senhora sente-se bem?
Não vendo a quem se dirigia a pergunta, esticou o pescoço e viu uma senhora de idade avançada, sentada e apoiado em duas canadianas, literalmente a cair da cadeira. Sentou o mais pequeno com um rápido aviso ao mais velho, olha o teu irmão, e correu para a senhora, impedindo-a de cair no chão. A funcionária correu também detrás do balcão de atendimento, chamando por ajuda na direcção do interior do Centro de Saúde. Veio uma cadeira de rodas e a senhora foi levada para dentro.
Mais ninguém se mexeu, todos com a consciência tranquila e a pensarem, eu perguntei se ela se sentia bem... considerando que já tinham feito o seu trabalho.
Há duas noites saí tarde do trabalho, como de costume, diga-se de passagem, e cheguei à estação terminal do metro quase às nove horas. Não sendo hora de ponta, ainda há um número considerável de pessoas, todas a correr, a esbaterem com uma chuvada dos diabos lá fora.
No último lance de escadas está uma pessoa que não corre, nem se abriga da chuva que, com o vento, vem até ali. É uma mulher, está meia deitada meia sentada num degrau e está um homem muito idoso a lutar contra as articulações, obrigando-as a dobrarem-se para ajudar a mulher a levantar-se.
Pergunto o que aconteceu. A senhora caiu ali fora, diz o homem, e depois entrou aqui, desmaiou e rebolou pelas escadas.
Agacho-me e pergunto-lhe o que sente. Que estava bem, já tinha passado, foi uma tontura, está tudo bem, que a ajudasse a levantar que ia ao multibanco levantar dinheiro para apanhar um táxi.
Enquanto falava levantou-se e caiu-me nos braços desmaiada. Enquanto falava e desmaiava muitas pessoas passaram a um metro de nós, abrandaram e continuaram a subir. Nem uma palavra.
Estendi-a na escada, tirei o casaco, enrolei-o e coloquei-lho por baixo da cabeça, metendo a mão ao bolso para procurar o telefone.
Só nesse instante parou uma mulher, com um telefone na mão e disse, eu ligo, nem precisando de dizer para onde.
Tirei-lhe os óculos, todos partidos, e ela acordou, levantou-se ligeiramente e disse, eu estou bem, só preciso ir ao multibanco. 
Daria vontade de rir se não fosse triste. Perguntei-lhe o nome, de onde vinha, para onde ia. Chamo-me H., tenho 62 anos e fui visitar a minha irmã a Benfica. Então e como se chama a sua irmã? Chama-se M. e eu sorrio. A sério? Sabe que a minha irmã também se chama M.? Não chama nada, está a dizer isso para ser simpática... Nada disso, quer falar com ela?
Fez uma cara de estranheza como quem pensa, está bem, eu acredito, não preciso confirmar e disse, não... agarrei a deixa e respondi-lhe mas eu gostava de falar com a sua... sabe o número dela?
Sabia e falei com a irmã, ao mesmo tempo que a senhora ao meu lado me dizia que o INEM vinha a caminho, já eram dois, contando com a irmã. Continuei a conversar e fico a saber que vive sozinha, é divorciada e reformada. Penso que se houvesse um manual de instruções do governo para estas situações, provavelmente eu devia ter que proceder como todos os demais, passar, não fazer nada e esquecer, deixá-la morrer; afinal, trabalho para ela...
O INEM levou-a para dentro da ambulância e comprometi-me a esperar por aquela que tinha um nome igual ao da minha própria irmã e assim fiz. Fiquei em mangas de camisa, o casaco todo encharcado e sujo, à chuva, o vento não deixava existir lugares onde ela não chegava e também não me deixou acender um cigarro.
Da ambulância vem o bombeiro dizer-me que ela vai imediatamente para o hospital, que a irmã vai lá ter e, finalmente, vou para casa. Choro o caminho inteiro a imaginar a minha mãe ali, desmaiada a cair nas escadas e ninguém a ajudá-la. Sou tomada por uma raiva quase incontrolável e sinto que tenho que parar de conduzir. Paro mas as lágrimas continuam, brutas e muitas. Não sei bem quanto tempo passou quando volto a ligar o carro, completamente gelada e vou para casa.
Vou para casa, individualmente, mas colectivamente, para onde vamos? Em que bichos nos tornámos? E falo por mim também, cheia de vontade de bater em alguém, bater com força, convicta que só me satisfaria quando visse sangue. Quanto tempo falta para nos comermos literalmente uns aos outros? Continuamos a ser pessoas? De que género? Que cegueira nos afectou? Sim, cegueira, aquele foi um momento em que o Ensaio sobre a cegueira deixou de ser um livro e passou inteirinho para a realidade. 

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Dia de passeio

Na canção do Rui Veloso bebe-se a brisa marinha e aprecia-se a paisagem. Não pintei os lábios de vermelho nem passei meia hora ao espelho e daí, talvez, não tivesse apreciado paisagem alguma.
Comecei o dia com uma reunião na avenida de Berna e, desde a saída do metro até ao destino, foram uns bons vinte minutos: atravessar a Praça de Espanha a pé não é brinquedo.
Os semáforos descombinam para os peões, abre um e fecha o outro logo a seguir, abre este e fecha o seguinte.
O transeunte pára a cada passo, afastando-se do alcatrão o mais possível pois a água acumulada é lançada pelos rodados dos veículos, bate-nos nas pernas sem pedir licença e assim se avança, como numa dança, pára, afasta, passa, pára, afasta, passa.
Não sei se o mar estava em contestação, mas o céu estava em agonia, chovia e chovia e chovia.
Não houve inundações porque tendo eu feito o percurso a pé, sem chapéu-de-chuva, apanhei a água toda e trouxe-a comigo.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Folhas caídas (não essas, outras...)

O Outono, qual cigarra preguiçosa, apercebeu-se de repente que estava de malas aviadas e que dia 21 de Dezembro estava a chegar. O trabalho não estava feito, nem tão pouco mais ou menos, e de repente bufou com força para cima de todas as árvores que se viram intimadas a deixar cair as folhas, todas ao mesmo tempo, em todas as terras. Resultado, as ruas, as estradas, os passeios, as sarjetas, os tejadilhos dos carros e, não é que eu tenha visto, mas a fé diz-me que sim, até em certos telhados há folhas castanhas espalhadas, sem ordem nem lei, perigo maior para os transeuntes e espectáculo garantido para mirones em locais estratégicos onde, de vez em quando, pumba, lá vai estoiro em forma de queda, como se o universo tivesse decidido que todos os que por ali passassem seriam acrobatas.
Consequentemente, nos últimos dias tenho andado mais devagar, bem mais devagar e embora veja as folhas a serem apanhadas, no dia seguinte são ainda mais, o que me leva a garantir que, se em algum local não fossem varridas, deixaríamos de ver certas árvores, afogadas em si próprias. Apesar de mórbida, a imagem apresenta-se-me linda e até romântica. 

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Eu juro, juro mesmo

Sendo a gasolineira do Jumbo a mais barata em toda a área metropolitana da minha casa, fiz-me à fila. Tempos houve em que não me apanhavam ali, à seca, mas, como dizia Camões, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.
Como calculava, havia fila, não era grande, mas cada bomba tinha cerca de cinco a seis carros à espera. Rapidamente me apercebi que tinha ficado na bicha dos maricas: ele era levantar de mangas de camisas, ele era casacos pelas costas, ele era óculos no alto da cabeça, ele era cem folhas de papel para evitar o contacto com a mangueira, como se fossem um preservativo, ele era luvas, ele era tudo, mas tudo para atrasar ainda mais a espera. Paciência.
Era de noite, embora fossem umas seis da tarde, quando chegou a minha vez. Senti-me como se me tivesse enganado e tivesse entrado na casa de banho dos homens: calções, casaco de capuz e ténis, meti combustível em três tempos, sem luvas nem pergaminhos, a desafiar com o olhar os condutores dos carros de trás, garantidamente maricas, eles e elas, já se tinha percebido, eu é que me tinha enganado na fila.
A pressa era tanta que só não entrei no carro em andamento porque tenho que lá estar dentro para o pôr a trabalhar. Olhei de esguelha para trás, bomba três, enquanto avançava lentamente para pagar, metendo ao mesmo tempo a mão no saco para tirar a carteira,... a carteira..., a mão não queria encontrava a carteira? Nada disso, a carteira ficara em casa. Com mil milhões de macacos, disse eu de mim para mim.
Chegada a minha vez expliquei que não tinha dinheiro, que me esquecera, que nunca tal me acontecera, que era a primeira vez, que apenas tinha os documentos do carro e o telemóvel, não, não tenho ninguém que me possa trazer o dinheiro, tenho que ser eu a ir buscá-lo. Mostrei os documentos enquanto o carro de trás fez sinal de luzes. De dentro da guarita apareceu um papel onde escreveram tudo e mais um par de botas sobre mim e de trás ouviu-se a buzina e um Então? aborrecido. Assinei o papel e prometi com toda a convicção voltar passados vinte minutos. A cancela levantou-se e eu avancei mas ainda ouvi uma reclamação sobre o tempo que demorei... glup...
Fui a casa, lá estava a carteira na mala que usara no dia anterior, voltei, parei o carro fora das filas, meti-me à frente de um veículo com um sinal de desculpe lá, é um minutinho, paguei, rasgaram o papel com a minha ficha mais completa que qualquer relatório policial, meti-me no carro outra vez e fui embora a jurar nunca mais gozar com os molengões. 

Último grito

Ontem vi um filme onde um cão ameaçava morder os pés de uma mulher que passava na rua. A dona do animal agarrou-o ao colo e acariciou-o, falando-lhe baixinho. Para o acalmar? Não. Para lhe segredar que o compreendia bem pois os sapatos da mulher eram da colecção do ano anterior.
Hoje não corro o risco de ter um cão a querer morder-me os calcanhares porque não trago sapatos da colecção do ano passado - era o que faltava! - trago uns acabados, mas acabadinhos mesmo, de sair da caixa de sapatos de Inverno, comprados numa feira de descontos, a Feira dos Stocks de Coruche, quando a minha irmã estava grávida da minha sobrinha e a minha sobrinha fez nove anos no último quatorze juillet, allons enfants de la patrie, já a mãe dela faz a quatorze mas de Agosto, numa clara e evidente lembrança da batalha de Aljubarrota, o filho mais novo viu a luz do dia a vinte e três de Novembro, o mesmo dia em que nasceu Billy the Kid, e o mais velho, adiantado, como sempre, nasceu a quatro de Outubro.
Os sapatos são tipo sapatos de mãe, com um saltinho elegante, nada de exageros, não porque não gostasse, mas porque não consigo, a pena é grande e é minha.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Romeu e Márcia

A madrugada caminhava ainda ensonada, acabada de entrar ao serviço. O jovem sentia-se morrer por dentro, e se ela não o aceitasse de volta? Márcia, Márcia, Márcia, deixa-me voltar, gritava em palavras, em silêncios, em olhares, em lágrimas, em cartazes.
Não é preciso ser polícia para perceber que não é o interesse que move o nosso jovem, é o amor.
Tudo indica que Márcia não usa carro - não usa, não tem? não sabemos - vem de metro. À saída da estação do Marquês de Pombal, para a Alexandre Herculano, Romeu deixa uma mensagem:
Mas, terá Márcia mudado o percurso? Eventualmente perturbada com o fim do relacionamento, terá pedido boleia a alguém, evitará o metro? O melhor é prevenir:
Cem metros adiante, à porta da universidade e em local de difícil acesso, o que leva a supor ajuda, nova mensagem, pública, explícita, implorante: Eu preciso de ti, és a única pessoa que me faz feliz, adoro-te Márcia.
Com desconhecimento total da situação, mas confrontada com estes cartazes, nado em inveja. Lembro-me de Mr. Darcy, um eterno namorado de toda a gente, que o cinema fez sempre bonito, como se a beleza fosse ainda necessária naquele mar de romantismo, de seriedade, de carácter, de personalidade.
Imagino o sorriso de Márcia, o ciúme das amigas, a inveja dos amigos por falta de coragem para assim se declararem. Não quero imaginar o que terá feito Romeu para que Márcia o tenha deixado (?), hoje opto por um atitude de pleno amor, de romantismo sem limites, imaginando um qualquer mal entendido que já teve solução e neste momento sorriem ambos sabendo que serão felizes para sempre.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Takk

As saudades do V. são sempre muitas. Por isso foi com ansiedade que chegou esta semana, na qual ele prometera uma visita. Veio acompanhado por um amigo de quem já ouvira falar frequentes vezes, dono de loja de albarrábios, que o mesmo é dizer mago destas coisas dos livros.
A Praça do Comércio recebeu-nos com sol e a mesa no Martinho ao almoço com peixe grelhado para uns e favas para outro. E vinho. E excelente disposição. E conversa, a minha aos saltos, no meu estrangeirar, que se dane!
Senti imediata empatia com o norueguês e passei a adorá-lo quando percebi que idolatrava o V., tal como eu, suposição que ficou no ar ao almoço e foi confirmada ao jantar - fiz um intervalo de tarde para ir trabalhar...
D. José acolheu-me debaixo do seu cavalo enquanto os esperava ao fim do dia, com um jantar em Cacilhas debaixo de olho. Conhecedora exímia da cidade onde trabalho, encaminhei-os para a estação fluvial em direcção ao Barreiro. Estando as máquinas de venda de bilhetes out of service - todas! - fomos à bilheteira, onde percebi o engano. Saltámos para um autocarro, transporte que não apanhava há anos e que, curiosamente, hoje voltei a usar, face à greve do Metro, e fomos para o Cais do Sodré.
Não sei se por solidariedade com as outras máquinas, mas também aqui estas estavam out of service... sobrava uma e não dava troco, não aceitava pagamento com multibanco, lá se tiraram três bilhetes - um de cada vez! - e fiquei com as notas de crédito para levantamento posterior.
É tão bom termos as coisas mas nada funcionar, não é nada terceiro-mundista, fazem-se filas de gente na bilheteira, quem mete dez ou vinte euros na máquina e não pode recuperar a demasia reclama e insurge-se contra a máquina, são muito vivos e dinâmicos aqueles momentos...
Finalmente, chegamos a Cacilhas, o sol já não podia esperar mais por nós e tinha desaparecido deixando um rasto cor-de-laranja, ainda assim, impressionante, as gruas do porto a desenharem-se à contra-luz, espuma branca efémera a formar-se e desfazer-se enquanto outro cacilheiro passa por nós, imagem sempre memorável.
Caminhamos no Cais do Ginjal em direcção ao Atira-te ao Rio ainda com luz. Falamos, falamos, falamos, comigo a tropeçar na língua a cada passo, mas fascinada com o que o norueguês sente pelo V., aproveitando dois momentos em que se ausenta para rezarmos ao mesmo Deus, abrirmos os olhos de felicidade pelo amigo comum, comungarmos naquela amizade, elogiando mais que merecidamente quem não gosta de elogios, os dois com a certeza que um dia o V. será descoberto. Descoberto pela sua inteligência, pela sua enorme e inultrapassável capacidade de análise da vida, pela sua forma de escrever, pelo talento para cruzar conhecimento imprimindo-lhe mais valia, pela sua memória, da qual morro de inveja, assim como pelas línguas onde se espraia, que me faz ciumenta.
O V. é uma pessoa que me faz sentir segura só por estar ao lado dele, fico feliz por saber que não sou a única e por poder partilhar esta sensação com alguém que convive com os Invernos noruegueses, como se a amplitude térmica que ambos simbolizamos fosse a escala para a dimensão do V.: dos calores alentejanos aos gelos nórdicos, o V. é universal.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Mudança de estação

Tanta tecnologia, tanto computador, tanto telefone, tanto equipamento, tanta coisa, mas as pessoas são sempre iguais.
Chove e escondem-se debaixo de collants, casacos siberianos, botas árticas, camisolas de malha e gola alta. Pluviosidade e temperatura são duas coisas diferentes, mas vá lá entender-se tão complexo mistério!
Podem perguntar-me o que tenho eu a ver com o assunto - de saias e pernas à mostra, meias nunca!
Tenho tudo a ver com o assunto: vou apertada no metro, empurrada por uma imitação de leopardo a três quartos, pisada por botas de cano alto, falta-me o ar que é sugado pelas penas de impermeáveis dignos de locais onde os donos nunca foram e se fossem nem quero imaginar o que vestiriam!
Estão as pessoas assim tão ansiosas pelo tempo invernoso? A chuva é ácida e há que proteger qualquer centímetro quadrado de pele? Sou só eu que tenho calor? Isto é uma reacção menopáusica?
Se este tempo tivesse um nome eu chamava-lhe Tempo Nova Iorquino, em homenagem à cidade onde se vê de tudo, onde tudo é permitido, onde ninguém estranha o estranho. Aqui, olham para mim nos transportes como se eu fosse um animal fugido do zoológico, como se fosse despida.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

São mariquices, mas são minhas!

Eu até não fiz grande alarido com o fim das férias, nem com o início do Outono, nem com a primeira chuva, mas não posso deixar de marcar este dia, como o primeiro, desde há vários meses, em que uso calças. E eu detesto calças.
A trovoada desorientou-me logo de manhã; primeiro, acordou-me com luzes a acender e a pagar e fazendo do quarto uma discoteca tardia - há músicas menos melodiosas - uma vez que durmo com os estores levantados. Depois empurrou-me para a secção de calças que a de calções não me pareceu apropriada, a de saias só tem exemplares curtos e já imaginava o vento a piscar-me o olho enquanto as levantava.
Não tendo senão sandaletes ali nas redondezas, vai de ténis, tanto mais que é sexta-feira, casual day.
Manga curta e - voz de tia - um corta-vento impermeável. Porém, a chuva era tanta que tive que ir desencantar um objecto com o qual tenho uma má relação: um chapéu-de-chuva.
Assim, sai para a rua nesta figurinha... com chapéu-de-chuva e ténis, coisas que não pegam, não fazem pandan. É claro que estou chata, irritada e mal disposta e não é pelos ténis, que não perco oportunidades de os usar mesmo no trabalho, mas o chapéu-de-chuva não vai com ténis, é uma afronta aos próprios ténis, lindos, maravilhosos, confortáveis, o chapéu-de-chuva, decididamente, não pega comigo. Hoje usei-o como quem toma um medicamento e amanhã espero estar melhor.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Mas estamos a brincar ou quê?

Manuel Almeida não gosta da palavra Bairro. Afirma ser um ninja e querer formar ninjas para combater o crime. O candidato mais mediático das eleições de Setembro de 2013 lembra o brasileiro Tiririca mas, por mais vontade de rir que nos dê, acaba por ser uma voz anónima que arranca de muita gente um, É parvo, é parvo, mas vai dizendo verdades... 
É o taxista que conhece aquele caso com que lidou ainda ontem, é o passageiro dos transportes que ainda há dias ficou prejudicado porque o autocarro não passou, é o cidadão a quem acontecem coisas concretas e pode dar exemplo disso, levando o particular à categoria de geral.
Faltando-lhe, entre outras coisas, a dimensão do global, os concorrentes entram em paranóia com o discurso inarticulado, mostrando desagrado com as acusações de Manuel Almeida, mas não adiantando muito mais, quase com pena dele, quem seria o juiz que o condenaria fosse pelo que fosse. Ainda assim, têm escrito nas testas Mas porque é que este gajo teve que se candidatar ao mesmo tempo que eu? Como se a dimensão extraterrestre de Manuel Almeida descredibilizasse qualquer pessoa envolvida.
A dimensão pessoal assumida em tudo verbaliza acusações de ladrões e corruptos; quem não as faz? Ideias como a de fazer auditorias sem aviso prévio são palavras comuns na boca de cidadãos comuns. Afinal onde está a surpresa?
O novo Tino de Rans distingue-se do original por uma raiva contida, um desafio instintivo contra uma vida que não terá sido fácil.  Procura palavras e sai-lhe especular a propósito de tudo e mais um par de botas, juntamente com mais uma história pessoal, cheia de pormenores, e eu disse, e ele disse, e depois eu disse e depois ele disse,...
Manuel Almeida é um português nato. Sabe que muita, muita, muita coisa está mal e quer que fiquem bem. Personagem digna dos Gato Fedorento contrariou a célebre tirada, Eles falam, falam, mas não fazem nada, fazendo alguma coisa: candidatando-se. E quer se queira, quer não, isso é muito importante.
Manuel Almeida lembra-nos a criação de Gil Vicente,  Joane, o parvo, do Auto da Barca do Inferno, o único que tem a audácia de injuriar o Diabo, o pobre de espírito, o inocente que, mal ou bem, se opõe ao poder.
Visto na televisão e na internet é espectáculo gratuito que ninguém perde, que todos condenam, mas a quem silenciosamente se acaba por dar uma certa razão. 

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Cartier

Fico a saber que o rei D. Carlos declarou a Cartier como Fornecedora Oficial do Reino. Fico a saber logo à saída do metro quando, meia gingona ao som de Sway pela voz de Dean Martin que me invade via auscultadores, paro repentinamente certa de me ter enganado na estação de metropolitano: escapou-me o Marquês de Pombal? Olha, saí em Hollywood!
A red carpet foi reinventada e está ao alto, do telhado para o chão, num encarnado forte, vivo, um encarnado... red carpet!
Fico a saber que trezentos convidados se vão aninhar no nº 240 da avenida da Liberdade e cá fora, encarnados misturam-se com dourados, onde (ontem?) havia um quiosque.
A agitação é muita e, com Sway nos ouvidos, não resisto a tirar uma fotografia, basta semicerrar os olhos para ter a certeza que estou na entrega dos Óscares, quase que atropelo um holofote, esbarro num senhor de fato e sinto-me despenhar da sandalete abaixo, logo hoje que trouxe uns saltinhos, sapato novo de pano velho, cortada a parte de trás são outros, fica tipo soca, deve ser por isso que ninguém me fala, não me reconhecem com calçado tão brega. Bolas, onde terei metido o convite?

terça-feira, 18 de junho de 2013

Respirar fundo...

A semana passada foi gloriosa. Aceitei um convite para uns dias de molho na Ericeira, o sol brindou-nos sempre com a sua presença, a água estava magnífica, o vento também tinha ido de fim-de-semana prolongado de modo que estava ausente, tudo jóia.
A amiga que me convidou aproveitou a estadia para resolver uma série de coisas, uma vez que lá não era feriado. Teve até que resolver o que não era suposto pois chegámos na quarta-feira à noite e não havia água.
Seria geral? O pagamento é feito por transferência por isso atraso não era. A vizinha do lado não estava para se confirmar se também fora lesada e a perspectiva do fim de semana levou-nos a pensar que era com certeza algum problema momentâneo. A minha anfitriã ainda ligou aos serviços das águas mas atendeu um gravador a dizer que estavam fechados.
O momento arrastou-se até à manhã seguinte e o banho matinal foi tomado no mar. Por mim, cinco estrelas. Ao fim do dia a água continuava desaparecida e a vizinha também. Por mero acaso, estendendo as toalhas de praia à janela as meninas sem cabelo à lua que ainda era cedo, viram a vizinha passar na rua e ficámos a saber que já ali não morava, saíra na semana passada, altura em que mandara cortar a água. Mandara cortar a água? Olhámos uma para a outra e fez-se luz... ligámos de novo para a companhia e lá perceberam que tinham cortado a água errada!
Por seu lado, a contagem da luz foi feita por mero acaso pois os técnicos chegaram bem mais cedo que o acordado e só por coincidência nos apanharam em casa. Já a entrega da box nova da televisão foi feita com um ligeiríssimo atraso: estava marcada das nove à uma da tarde e entregaram-na faltavam cinco minutos para as sete, não obstante, logo de amanhecida, ela ter recebido uma mensagem no telefone a informar que a encomenda ia a caminho. Valeu ela ter telefonado para o distribuidor, não para o operador, e ter pedido que lhe ligassem uns minutos antes de chegarem, e assim estivemos na praia o dia inteiro.
Tendo em conta que ambas somos certificadas e acreditadas, verdadeiras experts, altamente competentes e experientes na arte de instalar seja o que for, perguntei ao senhor que entregou a box se não nos podia dar uma ajudinha. Não podia porque não percebia nada do assunto, mas achava que era muito fácil, ouvira dizer.
Lá respirámos fundo e abrimos a caixa de cartão de onde saltaram fios como se aquilo fosse um chapéu de um mágico. Se uns foram enfiados por percepção imediata, outros não tinham lugar. O livro de instruções ajudou num caso, não ajudou noutros e não tivemos outro remédio se não ligar e pedir ajuda ao call center.
Começámos por desistir, o que não é bom princípio como toda a gente sabe, pois o telefone usado tem teclas de touchscreen e não as achámos...
Trocámos de telefone e lá fomos seguindo as instruções, se quer isto marque o número tal, se quer aquilo carregue na tecla tal mas, na verdade, nenhuma das opções era a pretendida. Optámos por não carregar em nada a ver se alguma luz se acendia sabe-se lá onde e alguém caridoso quisesse atender a nossa chamada. Finalmente lá veio a alminha. Ela começou por dizer que a mudança da caixinha fora imposição do operador, e não pedido dela, mencionou o atraso da entrega e pediu ajuda para instalar aquilo.
Sentia-me como se tivesse um animal raro e perigoso nas mãos e à distância alguém me desse instruções sobre como o enjaular!
Mete fios, tira fios, substitui fios, afinal havia fios que não serviam para nada, e o fio de Ariadne a enlear-se nas nossas pernas.
Às tantas lá se acenderam uma luzes, na televisão apareceu uma imagem que teimava em andar de carrossel, às voltas e voltas, sem que a conseguíssemos parar. O telefone passava da mão dela para a minha e da minha para ela, como se jogássemos ténis ou pingue-pongue.
Quando nos deixavam à espera - Senhora Dona Fulana de Tal peço-lhe agora que aguarde um momento em linha por favor - nós ríamos perdidamente, cabelos eriçados do sal da água do mar, e ficávamos a olhar o ecrã como se o poder da visão lhe devolvesse a imagem fixa ou em movimento mas em velocidade normal e não naqueles preparos que, garantidamente, violavam todos os limites de velocidade.
Bom, a coisa lá ficou feita e reposta a normalidade ela perguntou o que devia fazer com a antiga box. Pois, isso não era naquela secção, espere um pouco que vou saber. Não voltou de saber, mas mandou uma colega que quis saber que box era e porque razão a queria devolver. Em três palavras a minha amiga explicou que tinha instalado uma nova. Ai sim? E porquê? O que aconteceu com a antiga?
Olhar de raiva cá deste lado, tudo parecia começar, tanta pergunta, quando a troca foi imposição deles! A voz teve que ganhar um tom mais áspero e lembrar que estávamos ao telefone há séculos e que a dita ligação devia ser feita por eles, a quem se paga todos os meses. Mais ainda, de certeza absoluta que os clientes velhinhos não têm a destreza de perceber tanto pormenor, de encaixar cabinhos tão finos que a mim tanto me custaram devido ao tamanho dos dedos e os meus não são dos maiores, de estarem atentos para não deixar aquilo tudo desligar-se, como me aconteceu que metia um cabo e saia outro, enfim, devia haver um maior acompanhamento ao cliente. Que sim senhor, que com certeza, mas a culpa não era dela.
Não deixa de ser curioso verificar que a culpa nunca é de alguém, o que me leva a pensar que cada uma das pessoas que assim responde não se identifica minimamente com a empresa onde trabalha, caso contrário, para o bem e para o mal, assumiria o óbvio: sim, tem razão, as coisas não deviam ser feitas desta forma. Mas não, esta resposta existe no campo da ilusão, não na vida real, o que é uma chatice pois a mim dá-me vontade de implicar com quem assim responde, dá-me ganas que as pessoas não façam o exercício de se colocar no lugar dos outros, parece-me impossível que não pensem que também eles são clientes e que dar a mão à palmatória pode ser beneficiador para acalmar clientes que estão há horas ao telefone, a pagar - só é gratuito se for de um número fixo, que nós não tínhamos - por imposição de outrem, não por necessidade nossa. Haja paciência.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Senhores ouvintes

Há tiques e manias que chateiam até dizer chega, mas uns chateiam mais que outros.
Há quem fale batendo ao de leve com as costas da mão no interlocutor, num tique repetido para chamar a atenção, sem se aperceber que, se a conversa for longa, pode deixar o outro com nódoas negras; há quem sugue saliva enquanto fala, o que me provoca um vómito que tento conter e me faz perder na conversa; há quem tenha tiques gestuais, enrolando uma madeixa de cabelo num dedo, fazendo uns irritantes rolinhos com post-it's, juntando os lábios e deixando sair um prr para indicar que não sabem alguma coisa ou que se estão nas tintas para outra; há quem sacuda uma caspa invisível dos ombros num movimento que desloca o olhar ora para o ombro esquerdo, ora para o direito como se não estivessem a prestar atenção ao que se diz; há quem limpe os óculos de minuto a minuto, como se quisesse fugir a alguma coisa ou mudar de assunto; há quem mude de assunto a meio da conversa, e aqui não sei se é mania ou simples má educação; há quem roa as unhas enquanto ouve; há quem se penteie com os dedos desde que esteja acordado;  há quem repita as frases, o que me põe louca; há quem repita determinada palavra. Exactamente.
Durante algum tempo eu tive um tique de linguagem e repetia a propósito de tudo e de nada a expressão 'senhores ouvintes', até que houve uma alma caridosa que me chamou à atenção e fui modelando esta coisa chata até diminuir drasticamente a minha plateia auditiva. Sei que ganhei esta mania por contágio com um amigo, com quem ainda hoje troco 'senhores ouvintes' por graça.
Porém, fazem falta pessoas que alertem as outras para tiques e manias difíceis de suportar. Nem sempre é fácil, mas as coisas fáceis não têm tanta emoção.
Exactamente é a palavra de ordem de uma professora que dá aulas na escola diante da minha casa e com quem me cruzo ocasionalmente no café de manhã.
Já a tinha visto, óculos descaídos no nariz, cara triste e timbre de voz simpático, já a tinha ouvido mas nunca a tinha escutado, eu ao balcão ao pé da porta a engolir um café, ela sentada lá ao fundo a conversar com outras pessoas.
Na semana passada, por mero acaso, o balcão estava cheio e fui andando até encontrar um espaço onde pudesse estender a mão para segurar a chávena e lá estava ela a conversar, sentada. Exactamente. Exactamente. Exactamente. Contei uma dúzia no tempo de engolir um café e, dizem as minhas amigas, eu tenho goela de pato, engulo tudo de uma assentada, esteja quente ou esteja frio. Fiquei impressionada.
Ontem, café quase vazio, coloquei-me o mais perto possível da mesa que ela ocupava com uma amiga. Foram vinte e um exactamentes durante o meu super sónico café. Achei que tinha que fazer alguma coisa.
Saí e fiquei à porta, numa espera que durou apenas dois minutos. Pedi desculpa pela intromissão e disse-lhe que gostava de lhe dar uma palavra. Sorrindo, anuiu, fez sinal à amiga para continuar e eu comecei, repetindo o pedido de desculpa e dizendo que esperava que ela não levasse a mal a observação que eu ia fazer. De sobrancelhas um pouco franzidas de surpresa, incentivou-me com diga, diga, diga se faz favor.
E eu disse. Disse que há coisas nas quais não reparamos pois não se vêm ao espelho e, neste caso, o espelho devem ser as pessoas que nos rodeiam, para nos avisarem, como quem mostra que existe alternativa. Eu não sei se a senhora já reparou, mas diz exactamente palavra sim, palavra não.
A resposta dela arrancou-me uma gargalhada -  Digo exactamente o quê? - o que me dificultou o serviço.
Exactamente, diz exactamente exactamente, a explicação seguia por um caminho esquisito e de repente achei que a senhora pensava que eu era uma maluquinha que tinha tirado o dia para a azucrinar, mas não.
Lá me fiz entender e no decorrer da conversa ela própria ouviu-se e abriu os olhos de surpresa; mais uns minutos de conversa, mais uns exactamentes que lhe arrancaram risos e, muito importante, um agradecimento que senti ser verdadeiro.
Hoje de manhã puseram-me o café à frente e disseram-me que era oferecido, por aquela senhora ali.
O espanto inicial da oferta do café transformou-se de imediato em sorriso, tanto mais que ela levantou-se da mesa, aproximou-se do balcão e disse, a sublinhar a primeira palavra:
- Exactamente, sou eu que ofereço. Quero agradecer-lhe.
Fiquei um bocado à conversa e ouvi-a queixar-se de colegas, alunos e, principalmente, familiares, que nunca a tinham chamado a atenção. Contou-me que era professora nos cursos profissionais e que, depois de termos falado, chegada à primeira aula da manhã no dia anterior, perguntou aos alunos se alguém contava as vezes que ela dizia exactamente. Silêncio. Ela insistiu e um deles afirmou que ao princípio sim, mas agora já estavam habituados. Falou com os colegas que se dividiram em dois grupos: os que começaram por afirmar que nunca tinham dado conta e os honestos, que disseram que sim. Em poucos minutos todos concordaram que achavam que ela desconhecia a existência da palavra sim e dizia sempre, e de forma repetida à exaustão, exactamente. Porque nunca lhe tinham dito nada?, questionou-se, porque ela podia levar a mal, porque não fazia mal a alguém, porque... porque não tiveram coragem. E já agora, como te deste conta? quiseram saber alguns. E ela contou que fora uma desconhecida que a alertara para um tique que, não fazendo mal a alguém, mas era desconfortável para quem ouvia e motivo de gozo para muitos.
Afirmei-lhe o que sinto, que andamos por cá para ajudar quem se cruza connosco, conhecido ou desconhecido e que ficava contente por ter ajudado. Com uns exactamentes pelo meio, mas em muito menor quantidade, despedimo-nos com um franco aperto de mão.