quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Defeito amigos areia às ondas


Com esta fórmula de pesquisa alguém chegou aqui. Sei quem é e ao que vem.
Sim, falo nos defeitos dos meus amigos, assim como falo nos meus: somos humanos, logo imperfeitos. Mas em fórmulas cartesianas nem todos sabem nadar. E em verdades, tão pouco. Confundem-se opiniões pessoais com verdades, coisa muito comum. Reconhecer os defeitos é parte do caminho para os mudar, para recomeçar, para melhorar. 
Não há deuses na Terra… e nós não vivemos no Olimpo.
Há verdades que não são universais, custe a quem custar, o que não quer dizer que alguma delas seja mentira. Mas isto é intrincado demais para certos génios, aos quais me rendo em gargalhadas montypythianas.
Assumirmos os nossos defeitos não é crime, é humanidade. Encará-los bem de frente é atitude de coragem que só alguns têm, embora muitos a apregoem porque gostam do efeito dos espelhos da Feira Popular que davam vontade de rir, e nesta suposta alegria escondem a vergonha e a pequenez e o ridículo e a hipocrisia e a falsa amizade.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Dragões de Ouro…? Não, é só palha!

Durão Barroso foi distinguido com o Dragão de Ouro de Honra. Tendo em conta que as deslocações do Presidente da Comissão Europeia envolvem uma logística complicada que, por sua vez, obriga a gastos imensos, adorava saber quem pagou todo este carrossel de vaidades. Alguma coisa me diz que quando for ver o meu saldo vou perceber que fui eu…
Miguel Relvas também lá estava de sorriso atarraxado, patrocinado, mais uma vez, por mim…
Fez ontem anos que se assinou o Tratado para se estabelecer a Constituição Europeia. O eterno Cherne comemorou a data com uns pontapés na vergonha, afastando-a, e Relvas, trinco da imoralidade, bateu palmas.
E o pior é que os Dragões deitam fogo pela boca… e não se vê aparecer um caçador…

Presa por ter cão e presa por não ter


No silêncio sussurrado da biblioteca avisam-me que um aluno se está a sentir mal. Trago-o para o meu gabinete com queixas de tonturas, má disposição geral, grande desconcentração e desorientação. Informo-o que vou chamar uma ambulância. Ao telefone vou respondendo às perguntas do 112: se lhe custa olhar a luz, o que comeu, há quantas horas, etc. Pedem que esperemos.
Peço ao aluno o contacto do pai ou mãe, de um irmão, da namorada, de alguém a quem comunique que ele não está bem. Ele recusa, alegando que os pais não podem atender o telefone durante o dia. É peremptório, não há mais alguém, eu que não me preocupe.
A voz estranha, meio arrastada, algumas frases que não terminam, palavras estranhamente repetidas, fazem-me dar a volta por outro lado e pedir ajuda na Secretaria para que nos facultem um contacto de um familiar. Um colega disponibiliza-se a dar o telefone do pai do aluno em questão.
Antes de ter tempo de lhe ligar, avisam-me que chegou a ambulância. Acompanho-os ao local onde está o rapaz. Fazem-lhe meia dúzia de perguntas e informam que o vão levar para o Hospital, face a um estado de desorientação total, de tal forma que permitem que uma de nós vá na ambulância.
Assim que saem a apitar e com as luzes a acender e a apagar ligo ao pai. Identifico-me e a meio da curta explicação de poucos segundos o pai começa a gritar comigo! Quem é que me mandou chamar uma ambulância? Porque não lhe liguei mais cedo?
A surpresa foi de tal ordem que a desorientação me apanhou também a mim, por alguns segundos. Lá me recompus, pedi-lhe calma e… nova explicação interrompida por mais uns gritos em que ameaçava que eu me iria arrepender de não ter tirado o telefone ao rapaz e lhe ter ligado imediatamente a ele!
Se com o primeiro grito me desorientei, com o segundo já não: falei mais alto dizendo-lhe que a pessoa em questão, que por acaso é filho dele, tem 21 anos e se não me quer facultar um número de telefone, está no seu direito. Tirar-lhe o telefone e procurar um contacto de um familiar, isso era se ele tivesse 8 ou 10 anos! Além disso, é nossa obrigação chamar profissionais de saúde quando alguém não se sente bem e o filho dele sentia-se muito mal! De negligência, eu não seria acusada! 
Não podia ficar mais espantada com o que me disse a seguir: se a ambulância ainda não saiu, ponha-se à frente dela e impeça-a de sair!
Isto foi dito em nova torrente de gritos. Pensei que não valeria a pena continuar e, falando mais alto, informei-o que o filho se dirigia ao Hospital de S. José, um resto de boa tarde!
Liguei para a minha colega que tinha acompanhado o rapaz, avisando-a que o pai ia a caminho (achava eu!) e que não era pêra doce.
Estavam a aguardar na sala de espera quando chega a descontrolada figura paternal. Calmo, normal, agradecido. Ficou com o filho e agradeceu, agradeceu, agradeceu!
Desconheço as razões de tal comportamento, completamente estapafúrdio.
Passada uma semana encontro o jovem e pergunto-lhe como está. Alegre e bem-disposto, agradece os cuidados, afirma que está bem, que foi excesso de estudo, aliado à necessidade de mudar as lentes dos óculos, muita preocupação com os testes, enfim, uma combinação explosiva. Diz que já me tinha procurado para me agradecer e… pedir desculpa pelo comportamento do pai. Enfim… 

domingo, 28 de outubro de 2012

Viva a Monarquia!

Apercebo-me que a palavra Inconstitucional é usada como nunca foi.
É o Juiz que quer ser presidente do Benfica, são as ordens profissionais que não querem que o Governo as controle, são os cortes nos subsídios, é o próprio Orçamento de Estado nas palavras de um ex-presidente.
Salvo melhor opinião devia usar-se um dicionário para se saber o que quer dizer, afinal, Inconstitucional.
Se significa o que eu acho que significa, e se se segue cantando e rindo, para que serve a Constituição? Alguém que saiba que me elucide, se faz favor.
A dita  inconstitucionalidade é assim tão difícil de 'ver'? É tipo agulha no palheiro? E quando a encontram, nem a reconhecem quando se picam? Porque não há acordo sobre ela?
Adorava perceber tudo isto. Por ora, como sou burra na matéria, sinto uma raiva difícil de controlar.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

A caminho do Funchal


Os voos low cost não têm lugar marcado, razão pela qual me sentei assim que vi o primeiro vago do lado da coxia. Terceira fila, lugar do meio ocupado por um homem com cerca de 50 anos. Assim que me sentei, agarrou no telefone e disse a alguém que se apressasse, que não podia guardar o lugar. Em menos de um minuto aparece uma trintona afogueada que me pede licença e passa para a janela.
Ele manifestou-lhe a ansiedade e disse-lhe que nunca mais podia trazer aquela quantidade de bagagem, que para além do preço a mais, era uma maçada depois terem que esperar pelas maletas. Disse-o com um tom que foi passando de incomodado para compreensivo, passou pela tolerância e foi terminar naquelas vozinhas abebezadas que se fazem quando queremos mimar alguém ou mostrar que não estamos zangados.
Apesar do espaço ser parco ele lá conseguiu por-se de perna cruzada, a dele por cima da perna dela e foi dizendo fosquices que a levaram a pedir que parasse, meia encarnada, ao que ele ripostou que ninguém ouvia. Contendo-me para não rir, deu-me vontade de lhe dizer que qualquer pessoa nos bancos à volta estava pronta para fazer revisão daquela matéria, de tão claro e audível ele tinha falado.
Enquanto os outros passageiros se acomodavam nos buracos vagos, ele destrocou a perna, agarrou no telefone e avisou um bacano que estava a chegar: avião (onde ele estava) rimava com amigão (o que o esperava no Funchal), com jantarão (o que iriam comer juntos), com abração (o que lhe enviava). Aproveitou também para lhe dizer, desviando-se ligeiramente da sua companheira e, obrigatoriamente, aproximando-se (ainda mais!) de mim que a gaja também ia.
Achei extraordinária a observação, o facto de ele pensar que não se ouvia, o facto de se estar nas tintas, enfim…
Terminado o telefonema ligou um portátil mas foi toca e foge pois a hospedeira espanholita pediu-lhe que não o fizesse. Ele cumpriu, contorceu-se novamente, cruzou a perna e foi depositá-la em cima da pernoca dela, muito nervosa por ir aterrar no Funchal, que tinha uma pista muito pequenina e era sítio perigoso. Mas qual perigo qual quê? Não estava ali ele? Isto era percurso que ele conhecia de cor e salteado e acalmou-a com beijinhos e abraços e carinhos, enquanto ela me controlava com o canto do olho e dizia olha as pessoas
Para a ajudar a descontrair começou a dissertar sobre o sítio onde iam jantar, que servia tanto comer que até te vais vomitar toda… Tive pena de não ter decorado o nome do restaurante para me lembrar de nunca lá ir, mas com tanta informação a ser debitada não tenho cabeça para tudo! A seguir falou-lhe do bacano que os esperava no aeroporto, que ele conhecia desde pequeno e avisou-a, passando à velocidade da luz de um tom ternurento para um de ameaça, que não lhe desse abébias, que ele conhecia-o bem e ele comia tudo o que lhe aparecia.
A esta hora já eu estava com a impressão do bilhete na mão, o primeiro papel que me apareceu quando meti a mão na mala, a escrever em código estas pérolas românticas.
Rabiscava eu à pressa, quando eles se endireitaram e calaram. Discretamente guardei o papel e o lápis no bolso do peito do blusão, a hospedeira pediu-me que metesse as pernas para dentro pois iam passar com o carro e adormeci. Acordei com a mesma senhora – bolas, esse carro demora a passar, hem? – a perguntar-me se tinha o cinto apertado pois íamos aterrar…
Esta coisa boa de dormir quando tenho sono, deitada, sentada, torta, de qualquer maneira, fez-me perder o resto da conversa entre o casalinho meu vizinho, embora tenha acordado a tempo de a ver muito nervosa com o aproximar da aterragem, tendo a rapariga batido palmas como se estivesse na primeira fila de um concerto dos Beatles, apesar de ele lhe dizer, já chega, já chega

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Ponto alto

Continua o Congresso dos Bibliotecários.
Hoje houve uma alocução muito especial e não descansei enquanto não tirei uma fotografia com o senhor em questão: Alberto Manguel. Chamaram-me saloia, eu ouvi e não quero saber. Terá moldura ao lado da fotografia que tirei com José Mindlin.
Não percebi, eu e muitos outros, porque razão Manguel falou apenas 15 minutos. Quando vi o programa pensei sinceramente que fosse um engano; não era. Como se pode ter uma pessoa destas 'à disposição' e deixá-lo falar uns míseros 15 minutinhos? Sem uma sessão de perguntas, de conversa, de debate, nada?
Todos os profissionais de informação que lá estavam, e éramos muitos, conhecem Manguel; não o conhecer equivale a sermos párocos que não conhecem o Papa, num mundo em que as estruturas de informação já não se limitam a catalogar, classificar e indexar, mas vão muito para além disso.
Toda a filosofia e pensamento sobre O Livro que este pensador, e grande leitor, nos proporciona é inesquecível em todas as vertentes.
Aqueles 15 minutos foram uma brisa quando tínhamos o próprio vento ao nosso alcance. A páginas tantas, ele próprio disse já só tenho uns minutos... Não sei se acontece com todos, mas sucede com muitas pessoas desta profissão, sentirmos que Manguel é um ídolo vivo. Tê-lo ali como entrada quando a sua suculência merecia um prato principal foi uma desilusão. Provavelmente seria sempre uma desilusão no sentido em que, mesmo que falasse horas, eu quereria mais e mais e mais, porque o considero inesgotável.
Ter o autor de O Dicionário de Lugares Imaginários ali a dois passos, a ouvir-lhe a voz, em vez de lhe ler as palavras, a falar da imaginação e das Clínicas da Alma, as bibliotecas, foi único.
Ter o autor de A História da Leitura a falar, de voz viva, em Borges, foi magnético.
Ter o autor de A Biblioteca à Noite a falar do papel dos bibliotecários enquanto criadores de Ordem foi deslumbrante.
A curta duração do momento, um certo desaproveitar daquele Deus dos livros,  fez-me pensar numa certa virtualidade da oração, virtualidade essa que hoje todas as bibliotecas se sentem no dever de acompanhar e seguir. Neste caso, impunha-se esquecer o virtual e abraçar aquele discurso bem real, deixando-o prolongar-se.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Bibliotecários de todo o mundo, uni-vos!

Decorre o 11º Congresso Nacional dos Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas e eu estou lá. Estou lá aos intervalos: venho bem cedo à Biblioteca para deixar tudo em andamento e esgueiro-me enfiando a identificação pelo pescoço. Esqueço-me dela quando saio a correr e ando com uma pendureza cor-de-laranja ao peito até que alguém me pergunta o que é aquilo. Volto ao fim do dia para adiantar trabalho, ver mails - não tenho telefone capaz disso - e demais correspondência.
Hoje assisti e um debate sobre a necessidade de se preservar a memória dos arquivos das Editoras: memórias, arquivos e editoras, os meus três nomes. Gostei bastante, principalmente por haver vozes discordantes; é bom não haver consenso em certas coisas, obriga-nos a reflectir mais e, supostamente, melhor, a defendermos a nossa dama com novos argumentos ou a darmos razão ao outro.
Não gostei dos participantes que falam o tempo todo em surdina pensando - se pensarem... - que ninguém os ouve e não se preocupam com o incómodo que causam em quem quer debater, perguntar e fazer aquela tão simples que se chama Ouvir.
Apesar da crise os auditórios da Gulbenkian estão cheios, ou se calhar é por causa dela, para se procurarem novas soluções, partilharem caminhos e projectos.
Na conferência inaugural reforçou-se que o futuro é hoje, e eu assino por baixo, mas esta assinatura tem de ser colectiva, tem de ser participada, tem de ser activa, tem de ser unida. Tem de ser verdadeira. Trabalhemos para isso.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Viagem inesperada

O metro não vai cheio mas eu não apanho lugar sentada. Atraco a mala bem no ombro, encaixo o saco com as panelas do almoço entre as pernas e puxo do livro. Ainda não tinha lido duas linhas quando me tocam no ombro, fazendo-me sinal para em sentar. Foi um rapaz com cerca de 30 anos que vejo ficar em pé.
Bem, pensei eu, agora já não sou confundida com uma grávida... por que raio me teria ele dado o lugar?
A trama do livro falou mais alto e embrenhei-me, esquecendo o meu benfeitor.
Duas ou três paragens adiante ele senta-se diante de mim. Fechei o livro e perguntei-lhe se me tinha dado o lugar só porque eu ia a ler. Atabalhoou palavras que não percebi e a seguir, em inglês, disse que não falava português. Sorri e repeti a pergunta em inglês, ao que ele respondeu com um Óbvio!
Expliquei-lhe que nunca tal me tinha acontecido e que estava muito sensibilizada: já era um grande aborrecimento dar o lugar a uma grávida, uma pessoa com um gaiato ao colo, um coxo ou um velho, para ainda se ter em consideração quem vai de livro aberto! Afinal, os leitores têm alternativa, ao contrário dos coxos ou dos velhos, e podem guardar o livro. Desta forma entram na alegre categoria de pessoas normais.
Ele riu-se e lá me contou que era siciliano, que era a primeira vez que vinha a Portugal e que já tinha estado no Porto, em Coimbra e guardara Lisboa para o fim. Contou também que lhe tinham falado muito de um tal Alentejo; confirmava eu que era belo e apetecível? Na minha opinião devia ficar mais um fim-de-semana para ir ver esse Alentejo?
Oh meu filho, a que porta vieste bater... pois se eu sou alentejana profunda!
Fechei definitivamente o livro nessa viagem e fomos a conversar, também sobre a Sicília onde nunca fui.
Quem diria que uma deslocação de metro tão calculada e repetida, se pode transformar numa viagem tão inesperada e simpática?

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Peço justiça!

A música portuguesa que no Verão inundou rádios, gargantas e vozes foi em jeito de convite, Anda Comigo Ver os Aviões.
Quer se gostasse ou não levávamos com ela e não havia quem não soubesse pelo menos parte da letra. Os meus sobrinhos passaram comigo um mês inteiro onde cantaram os Aviões até à exaustão e eu não podia deixar de amar cada vez que o rádio nos inundava com aquela melodia porque ele, sempre sentado atrás de mim, esticava-se para a frente pressionando o cinto de segurança e apertava-me os ombros quando vinha aquela parte mulher tu sabes o quanto eu te amo, o quanto eu gosto de ti...
E assim me emocionava vezes sem conta ao longo do dia, para além de outros momentos felizes que, com ele, aparecem com muita frequência, fruto de um relacionamento de 10 anos intensos, profundos, mágicos e inexplicáveis.
E isto não sabe o senhor professor que foi dar uma aula de substituição ao meu sobrinho, mal disposto e contrafeito, porque se soubesse nunca lhe teria batido. É que as más disposições do senhor professor são gotas de água comparadas com as minhas.
Bateu no meu sobrinho e na turma inteira e quando os gaiatos começaram a chorar disse-lhes que se calassem senão, apanhavam mais. Usou um objecto não identificado, tipo ponteiro mas com picos na ponta, com que lhes bateu repetidamente na cabeça.
Mas o senhor professor não é parvo... teve o cuidado de expulsar da sala uma aluna logo nos primeiros minutos, a única aluna cigana que estava presente. Tivesse ele tocado num cabelo da garota e a família dela estaria à porta de sua casa para lhe estender o tapete vermelho...
O senhor professor está habituado a lidar com alunos mais velhos e enfada-o ter que entreter garotos do 5º ano, garotos esses sem historial de más educações; achou o senhor professor por bem levar um vídeo do National Geographic em inglês sobre crostas solares para que os miúdos vissem... por coincidência o meu sobrinho adora o tema, e quase me atrevo a dizer que sabe mais do assunto que o próprio professor, tendo ficado feliz e surpreendido com a passagem do documentário. Mas o que se mostrou como uma aparente boa surpresa transformou-se num pesadelo. Os outros também estavam em êxtase... ao contrário. Aborrecidos, mas quietos, embora faladores, como já se provou por diferentes relatos das meninas crânio da sala, foram mandados calar à força de levarem pancadas na cabeça, imediatamente a seguir à única expulsão verificada na aula.
Tivessem os gaiatos partido a sala, ele era obrigado a chamar uma auxiliar. Nunca o fez. Um dos miúdos veio para casa cortado na sequência do tal objecto não identificado se ter partido, o que foi descrito pela turma como uma espécie de lâmpada fluorescente!
A aula acabou com metade da turma a chorar enquanto o senhor professor se passeava entre as carteiras e os miúdos punham os braços à volta da cabeça em jeito defensivo, com medo de levarem sem saberem porquê.
Defensora acérrima dos professores que tanto penam com comportamentos dignos de animais por parte de certos alunos, exijo justiça para com a atitude deste energúmeno que se diz professor.
Agora tem um inquérito às costas e se o inquérito não correr como deve ser vai ver o que é a minha veia cigana.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Feitiços


Temos o primeiro teste da faculdade na próxima sexta-feira.
Ontem depois de um jogo, depois do jantar com o pai, depois de uma visita aos avós e aos tios, esperava um Duarte cansado e com vontade de se estiraçar diante da televisão e/ou do computador ou, pior ainda, que me dissesse que ia ao café conversar um bocado com a malta.
Sentada no sofá a secar o verniz das unhas, preparava-me para carregar cuidadosamente na tecla do comando que poria um filme a passar, película de aventuras e bem ao agrado dele.
Porém, vejo-o sentar-se ao pé de mim, em boxeurs, o que prenunciava que não ia sair, livros nas mãos, meio tapado com uma manta, a desafiar-me para falarmos das correntes gregas que estão na origem da história da psicologia.
Esquecida do verniz, sorriso em riste, carreguei na pausa e acomodei-me no melhor lugar lá de casa: a mãe que ouve o filho falar da matéria escolar com prazer, que ouve as perguntas de retórica e as outras, as que aguardam resposta, e as outras ainda, as melhores…, as que pedem discussão.
E assim ficámos durante quase duas horas, as mesmas do filme, protagonistas reais de um fim de noite inesperado, maravilhoso, intervalado com pão com presunto para ele e com queijo magro e gelatina para mim, com duas cheirosas canecas de chá de caramelo e hortelã que fumegavam em cima do tapete da sala, por entre migalhas do pão, sobre as quais nem disse uma palavra, pela simples razão que nunca se sabe o que desfaz os feitiços… 

Siga a Revolução!


Estou a pensar mudar o meu CV e acrescentar-lhe os meus conhecimentos de cabeleireira. Cortei o cabelo novamente e ficou um luxo!
Antes que alguém pergunte e franza o cenho informo desde já que as pontas incertas são mesmo assim, é a moda da minha tesoura.
Ontem no jogo do Duarte já me tinham dito que parecia mais nova mas hoje não esperava tanto elogio… o que faz uma franja!
Uma franja e 57 centímetros a menos, entre peito, barriga, estômago, pernas e braços.
Sinto-me nova, renascida, revolucionada.
Tirando os barris de água que preciso beber, e que me custa, confesso, toda a mudança de vida está a ser muito mais fácil do que podia algum dia supor.
Como o dia inteiro, obrigo-me pois não tenho fome, e faço um disparate por semana, que na última quarta-feira assumiu a forma de gim tónico, na companhia de duas amigas.
Estou a adorar andar com roupa larga, novidade absoluta em mim. Aos poucos, a minha mãe e uma amiga, deusas da linha e da agulha, têm apertado uns calções e umas saias e têm trabalho que não mais acaba no meu armário.
Revisito roupa, cintos e até roupa interior colocada de lado por incompatibilidade de tamanhos, digamos assim. Lembro-me de meia dúzia de peças que dei, descoroçoada com a impossibilidade de as obrigar a servirem-me, e sinto uma certa pena.
As escadas passaram de pesadelos que me faziam arfar a boas amigas que galgo sem contemplações.
A minha família, amigos e colegas têm sido fundamentais em todo este processo, encorajando-me, dando todo o apoio possível e até mostrando uma certa inveja.
Um grande obrigada a todos!

Manhã de mar


Ontem de manhã o céu estava mesmo sem vontadinha de nada, mal amanhou-se de cinzento-escuro e deixou a chuva cabriolar um bocado em cima de uma mulher que caminhava de biquíni na praia, àgua até aos joelhos, que as ondas fazem bem à circulação, e música a entrar-lhe pelos ouvidos a dentro.
Com um podómetro pendurado no soutien verificou que fez quase seis quilómetros e, terminada a marcha, procurou um poiso firme e ali ficou a fazer exercícios de ginástica durante mais trinta minutos.
Os transeuntes rareavam à medida que a chuva engrossava mas lá iam passando apressados. Ela via-os a olharem-na e sorria de braços abertos à chuva.
Num movimento em que virou o torso para trás viu, num túnel que dá acesso à praia, meia dúzia de ciclistas, protegidos da água, a olhá-la.
Sentiu-se uma sereia, a única que não temia o mar, a chuva, o ar arrefecido. Sentiu-se dona daquela praia e de todas as praias onde chovia naquele momento e de onde as pessoas fugiam.
Foi uma manhã de mar que me soube a ginjas…

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Olha esta...

Com muitos quilos a menos sinto-me muito bem e não nego que os elogios me fazem sorrir. Não me canso tão depressa, faço caminhadas maiores e é um prazer verificar que muita roupa que não vestia há séculos me serve na perfeição.
Até me dizem que pareço mais nova. Brinco com o meu cunhado, muito mais novo que eu, que levou a minha mãe ao hospital há umas semanas e foi confundido DUAS vezes com o marido, tendo que explicar DUAS vezes que a senhora era sogra e não mulher dele...
Há uns dias andava uma aluna trajada de preto a vender sacos de gomas e, aproximando-se de mim e das amigas com quem estava, pediu-nos que comprássemos para ajudar uma qualquer festa que estavam a organizar. Disse-lhe que não, obrigada, mas não queria gomas. A rapariga não desarmou e insistiu, ao que eu procurei uma moeda na carteira decidida a contribuir. Quando lhe estiquei a moeda ela ofereceu-me o saquinho de gomas dizendo:
- Vá lá, leve o saco, pode dar as gomas aos seus netos...
Abri os olhos, as minhas amigas dobraram-se às gargalhadas e eu encolhi o braço dizendo que já não contribuía para nada. A rapariga desfez-se em desculpas mas eu guardei a moeda e disse-lhe que olhasse melhor da próxima vez...

domingo, 7 de outubro de 2012

Diferentes perspectivas

Os meus problemas financeiros são lendários. São também do conhecimento de todos os que me rodeiam porque, não fazendo alarde deles, não os escondo. Não vejo motivo para isso: não me envergonho de nada porque não faço nada que me envergonhe.
Partilho com amigos e conhecidos técnicas de poupança, como por exemplo, não tirar a pele aos legumes para fazer a sopa, mudar a roupa de cama só de duas em duas ou de três em três semanas, usar a mesma toalha para secar o cabelo e o corpo e não uma para cada 'coisa', ir pondo água no frasco do shampô ou do creme para lavar as mãos, ... e mais mil pequenas coisas.
O pai do meu filho sempre me instruiu nas poupanças e face aos seus comportamentos de crise, mesmo em tempos de vacas morbidamente obesas, eu tinha que puxar pela imaginação para ter qualquer coisa extra, que não se enquadrasse no estritamente necessário.
Hoje fiz uma loucura e acedi a comprar um casaco ao meu filho, sabendo que as probabilidades de ser comparticipado pelo pai seriam infímas. A ser, tenho que percorrer um calvário que contempla averiguação da necessidade efectiva de ter o casaco, tempos de espera de acordo com critérios dele e, se o sim chegar, a divisão ao cêntimo do valor em questão: 39.99€ que, sendo um valor ímpar, se for dividido será com um cêntimo a mais para mim...
Vim para casa a pensar na última vez que comprei roupa ao Duarte, no final do ano lectivo. A compra foi previamente aprovada pelo pai, sabedor da necessidade de comprar camisolas e calções a um rapaz com 18 anos acabados de fazer, e cujos quase dois metros de altura estavam bem acima do tamanho que tinha no início do Verão passado. Mas havia mais: havia uma festa de finalistas na escola cuja presença requeria uma certa formalidade. Pedimos roupa  e sapatos emprestados coisa que o pai desaprovou quando soube, insistindo que se comprasse nova.
A novidade abriu-nos um sorriso e a afirmação do pai levou-nos a comprar a dita farpela, bem como os calções e as t-shirt's. Porém, a surpresa manifestou-se rapidamente, com o pai que dias antes franzira o sobrolho à roupa emprestada, a não querer pagar o que combinara e a devolver apenas 50% do valor que antes afirmara assumir na íntegra. Lá paguei a metade com um esforço que a ele não lhe passa nem nos piores pesadelos.
Estava eu a pensar nos tratados de diplomacia que teria que ler para lhe pedir encarecidamente que pensasse na possibilidade de repartir os 39.99€ do casaco quando o vejo chegar para buscar o Duarte para jantar. O fantástico Audi tinha desaparecido para dar lugar a um incrível Mercedes, cinzento brilhante, matrícula tão nova que até ofuscava.
Tive direito a um cumprimento digno do dia mais invernoso no Alaska, tão frio que não consegui mencionar o casaco - tão maravilhoso para nós! - comprado numa loja barata onde não vão pessoas com Mercedes brilhantes do tamanho de limosines.
Não vou ser capaz de dizer nada... sinto que vou ganhar o mesmo do que ganharia se dissesse ao primeiro ministro que é injusto aumentar-me os impostos: sorriria com aparente complacência mas não faria nada.
O pai do Duarte é como um médico: atento ao seu doente, prescrevedor de medicamentos e procedimentos, mas quando acaba o turno... vai para casa esquecido de quem fica deitado na maca, sem se lembrar que um filho faz de nós médicos com turnos de vinte e quatro horas por dia para a vida toda.
Apesar de tudo sei que nas palavras do Duarte o Mercedes será o carro do pai e o meu Hyundai Getz será o nosso carro, como sempre. Isto, não tem preço.

sábado, 6 de outubro de 2012

Quem não se sente...

Quando agimos em função de um princípio achamos que estamos a agir bem. Mas quando todos agem ao contrário, instala-se a dúvida. Ultrapassada a dúvida, mas mantendo-se a acção alheia, instala-se uma certa confusão. Falo de uma das coisas mais sagradas da existência humana, a amizade.
Entendo a amizade como uma plataforma mais íntima que o amor. Por um amigo faço tudo, tudo, tudo, tudo. E neste tudo cabem coisas boas e coisas menos boas, como por exemplo chamar a atenção quando considero que é preciso chamar à atenção. Mas as pessoas não gostam de ser chamadas à atenção, acham que estamos a violar limites, que estamos a entrar onde não somos chamados, que lhes impomos certas coisas, como a nossa opinião, e isso pode ser fatal para a amizade, a amizade de algumas pessoas, não a minha, que aguenta tudo.
Frequentemente ocultamos coisas que nos causam desconforto: uma atitude infeliz do filho perfeito, um comportamento do marido/esposa que nos envergonha ou humilha, um quotidiano de embaraço com a chefia porque não temos aquela coragem que apregoamos, enfim, mil coisas.
Acho eu que os amigos, aquela ou aquele mais especial, servem também como fuga ou escape a tudo o que nos constrange, padres que nos ouvem em confissão e que nós ouvimos, pagando na mesma moeda. Não resolvemos nada, mas podemos ajudar-nos mutuamente, dando ideias, fazendo o outro rir, partilhando seja o que for, tornando assim mais leve qualquer tipo de problema.
Já tive a minha dose de desilusões na vida na sequência de considerar que certas pessoas eram minhas amigas e afinal não eram, com afastamentos, e até (mesmo as coisas mais dramáticas têm aspectos cómicos!) com reivindicações do género eu dei-te tudo!, quando esse tudo se consubstanciava em meia dúzia de bens materiais que a pessoa em questão trazia gratuitamente da sua empresa, em forma de amostra. Claro que se esqueceu do que eu lhe dei, nomeadamente em termos de tempo e disponibilidade com os seus próprios filhos, mas isso não vale nada…
Diz-se que quem não se sente não é filho de boa gente. E eu senti-me este fim-de-semana. Senti-me profundamente infeliz pela parte de uma pessoa que tem um estatuto tão alto na minha vida, que nem tem nome…
Penso que não posso fazer mais por essa pessoa e nem entro em pormenores… mas conclui que quando damos tudo os outros sentem que para darmos tanto é porque temos ainda um mundo para partilhar, sem nunca perceberem que podemos dar… tirando da nossa própria boca.
Nunca me queixo de doenças, dores, más-disposições, nada. Quando o faço é porque é grave, já passaram meses sobre a descoberta da coisa em questão e já tenho os resultados dos exames e análises que fiz em surdina. Partilho, com grande dificuldade, e sempre com aquela estúpida – eu sei! – preocupação de não preocupar… e no dia seguinte a pessoa esqueceu-se…
O que fazemos? Rimos ou choramos? Chamamos a atenção ou deixamos passar? Fingimos que está tudo bem ou mostramos que quem não se sente não é filho de boa gente?
Recordo-me de numa ocasião trabalhar com um colega que arrastava uma gripe há meses. Era activista dos direitos humanos e todos os dias nos dizia que havia milhares de pessoas bem piores que ele. Finalmente decidiu-se a ir ao médico e disse-lhe que se sentia tão mal que se estava nas tintas para os refugiados e para a guerra do Iraque (a primeira!). O médico disse-lhe que estava no seu direito sentir-se mal, até porque estava a raiar uma pneumonia… e que se esquecesse daquela e de outras guerras, pois se queria um dia assistir à paz tinha que tratar da saúde para lá chegar.
Sinto-me assim… digo-o com toda a honestidade, a precisar de esquecer os outros, de pensar em mim, mas em simultâneo, a querer que pensem em mim. Não preciso que me façam nada, apenas que não se esqueçam que sou uma pessoa.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Saudade


Preciso ligar para uma colega. Procuro o número na agenda do telefone carregando na letra inicial do nome pretendido. Os dois únicos nomes começados com aquela letra aparecem no pequeno ecran. Um é o dela, o outro, o de um amigo que se suicidou em Agosto. 
Leio-lhe o nome como se me fosse permitido falar-lhe, bastando carregar naquela tecla, fazer uma pequena pressão e ouvir o toque de chamada, toque que ele também ouvirá lá do outro lado.
Morbidamente, entro no Facebook como se transpusesse a entrada de um qualquer jardim das tabuletas. Sei que o encontrarei lá. 
Revejo-lhe o sorriso que não transporta qualquer dúvida sobre a vontade de viver que manifestava sempre. O porquê eterniza-se, acompanhado de saudades.