quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A noite das mulheres cantoras


Lídia Jorge não mora na minha casa. Há vários anos tentei lê-la e não me seduziu, nem com murmúrios. Agora fiz outra aproximação por intermédio de um amigo que garantiu garantidamente garantido que iria gostar. Assim, assisti à A noite das mulheres cantoras.
Gisela Batista pavoneia-se ao longo das páginas como a miúda mais cool do liceu que todas já conhecemos, que invejávamos e de quem queríamos ser amigas. Nunca se menciona que Gisela andasse no liceu, mas a fotografia não engana. A Solange cabe em sorte ser aquela amiga, aquela sorte que nem se acredita ter. Na verdade Gisela quer ser como Solange, quer saber escrever, embora nunca o diga, e Solange sente-se no Olimpo só por estar ao lado de Gisela, de quem bebe as palavras, os gestos, como quem se diviniza por estar ao lado de um deus.
As irmãs Alcides são a essência, a estrutura vocal, e Madalena Micaia o Kilimanjaro, o cume.
A narrativa é a descrição das memórias de tempos ocorridos há mais de vinte anos, quando se sacrificou o Kilimanjaro sem que o sacríficio tivesse levantado grandes problemas de consciência: as luzes da ribalta foram mais fortes, o Coliseu falou mais alto, a fama quer-se ver ao longe, como se fossem olímpicas candidatas e não meras aspirantes a cantoras, fabricadas com o dinheiro do padrasto de Gisela.
Pelo meio, o amor. Pelas margens, o sexo.
Não é um livro sobre África, nem em África, mas África está mais presente do que se pode imaginar, pelos passados das protagonistas e pela African Lady.
Descreve-se um percurso partilhado onde a vida pessoal deixou de fazer sentido e a que existe vive-se às escondidas da maestrina, como chamam a Gisela, que conduz a própria existência das outras.
Até onde vamos por um objectivo luminoso, global? Que força tem a fama que arrasta danada e cegamente? Serão os mais novos mais cegos e os que os incentivam mais danados?
Gostei muito desta Lídia Jorge que nos leva em balanços pelo passado, mostra-nos figuras de caderneta, revela muitos pormenores sobre duas delas, e tudo sobre apenas uma, gostos e desgostos, medos e receios, arrependimentos e decisões. 
A partir de agora, quando vir Lídia Jorge, convidá-la-ei lá para casa.
A noite das mulheres cantoras, para ler a qualquer hora. D. Quixote, 2011.

2 comentários:

  1. "a instrumentalina" é uma pequena maravilha e os livros infantis também, gosto do romance do grande gatão e do grande voo do pardal :)

    ResponderEliminar
  2. Entrei com o pé esquerdo, agora vou saltitar com o direito em cima de tudo o que apanhar, para compensar :)

    ResponderEliminar