quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A Àgora

Numa tarde de calor a Paciência encontrou-se com a sua prima Prudência, a filha mais velha da Sabedoria. Cumprimentaram-se com um menear de cabeça e caminharam paciente e prudentemente em silêncio. Os seus passos levaram-nas à Àgora.
O espaço estava deserto pois o mercado tinha funcionado, como habitualmente, durante a manhã. Passado algum tempo viram alguns cidadãos marcarem presença, formando um semicírculo à volta de nada. Outros se lhes juntaram e apareceu também a Política de braço dado com a Oratória e a Retórica, um pouco atrás compondo as vestes.
Ia realizar-se uma Assembleia do Povo e a Àgora, pressentindo que ia ter um momento intimamente ligado à sua essência, ficou um pouco nervosa, encolheu-se e rapidamente se encheu de gente e de Artes.
Um dos homens destacou-se e começou a falar sobre o Conhecimento, com a Oratória por trás dele. Outro lhe respondeu com tão subtis argumentos que ninguém duvidava que, não só a Oratória, como também a Retórica, estavam a seu lado. Falava usando perguntas e questionava o ensino e a educação, afirmando que o conhecimento andava arredado de tudo e que o comportamentos dos jovens nunca os levaria a ascender à Sabedoria.
A Política ria-se, voando por cima das cabeças dos cidadãos.
A Àgora recolhia cada palavra, cada exaltação eloquente, cada intervenção, cada argumento. Ninguém dava por ela.
Os homens falaram e falaram e falaram. Reflectiram assim durante séculos, mas pouco concluíram.
Ao início da noite, quando todos já se tinham ido embora, a Paciência e a Prudência que tinham assistido a tudo de longe, despediram-se da Àgora e foram embora, para lugar incerto, sendo raro deixarem-se ver.
A Àgora, uma pegada do tempo na história da humanidade, hoje é recordada aos turistas e só os mais atentos se lembram dela.

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