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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

História de um sofá e de uma piscina

Desde o início do Verão comecei a ir diariamente à piscina. Foi fácil viciar-me. A cada semana aumentei o tempo dentro de água, mais cinco minutos, mais cinco minutos, e actualmente nado uma hora seguida em menos de nada.
Dois fatos de banho, duas toucas, óculos - graduados! - tampões para os ouvidos, toda uma parafernália de objectos que passaram a ser de culto.
Sete da manhã, a porta é aberta por funcionários ensonados e eu entro para sair quase duas horas depois, bem disposta e pronta para qualquer stress do dia.
Quando não consigo ir de manhã, por qualquer motivo, vou ao fim do dia e estou no jacuzzi quando, às 21.30, ouço o altifalante a informar que temos trinta minutos para deixar as instalações. Duche a correr e entro em casa a cheirar a cloro, coisa com a qual a Tróia não se importa, os saltos são sempre de alegria genuína, os latidos são música.
No princípio de Dezembro apareceu-me uma alergia nas mãos que me dava ar de leprosa. Usei luvas, fui ao médico, e depois de várias pomadas descobri que era alergia a um sofá novo comprado com imenso esforço e muito poupar. Uma pessoa não pode ter nada novo...
O que mais me custou foi ter que deixar de nadar durante mais de um mês, recomendação compreensível do médico, enquanto a cortisona não fazia efeito total.
Há cerca de uma semana recomecei a natação. Regressou a boa disposição, os dias passaram a ser mais leves, tudo melhorou. Até que a alergia voltou.
Conclusão, afinal posso sentar-me no sofá mas não posso ir à piscina, pois a alergia é aos produtos da água e não ao textil.
Quando se tem azar, é assim, não se pode gostar de nada.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A praga

Começo a pensar se não será uma praga que me rogaram...
Desde há uma semana que ando doente, tudo o que como vomito, já não posso ver canja nem ouvir histórias com pintaínhos.
Não sei quanto tempo duraram as pragas do Egipto, mas sinto-me solidária com aquela gente.
A uma semana com má disposição some-se canadas de água que vêm sem aviso e nos deixam com ar de bacalhaus demolhados, como diz Miguel Esteves Cardoso.
Sempre com calores - estou na menopausa desde que nasci - tomo duche de manhã ao levantar, quando chego a casa, antes de me deitar e, em algumas noites, a meio da noite. Temo pela conta da água, não sei se a conseguirei pagar.
Fiz a ruptura de ligamentos a 28 de Julho e tenho estado sempre com uma maleita qualquer. Espero que isto seja suficiente para pagar a conta das doenças nos próximos dez anos.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Fim de Verão? Não...

Com o Verão agarrado às pernas desprezo a chuva e saio triunfante de casa, desconhecendo a greve do metro. A meio caminho volto para trás, alertada pelo noticiário, e encaminho-me para a estação dos comboios, que passam rápidos e muito mais vazios do que imaginava.
Na carruagem o calor é sufocante e o meu vestido cor-de-rosa impõe-se no meio de tanta roupa escura, invernosa. Os sapatos, cor-de-rosa também, mesmo no rés-do-chão de tudo quanto é acessório, brilham decadentemente.
É preciso fazer a avenida da Liberdade a pé, mas resolvo assustar-me com a chuva e deixo-me ficar num café do Rossio, como se fosse uma turista. As caras cinzentas de quem tenta chegar aos empregos contrastam com os narizes encarnados dos estrangeiros que, de chinelos, ali abundam.
Com o telemóvel vejo os números do euromilhões, decidida a fazer uma loucura caso tenha sido eleita: saio do café e paro o trânsito a dançar no meio da chuva! Virá a polícia, que me levará para a esquadra, e amanhã os jornais mencionarão uma louca que teve um ataque no centro de Lisboa e que ainda piorou a situação já caótica do tráfego. Verificada a total falta de correspondência, rio sozinha e decido que já chega de pieguice, vamos lá.
A chuva abrandou e faço a avenida encostada a lojas de vidros cristalinos onde nunca entrei, e não faço questão de entrar. Sinto o cabelo encaracolar, o mesmo cabelo que me levou a levantar mais cedo para o esticar com escova e secador, tão Cleópatra que saí de casa.
Qual pato de borracha a navegar na banheira, chego ao trabalho e troco os sapatos cor-de-rosa por uns pretos, rasos, fechados.
Os pés aquecem, o vestido seca, o cabelo insufla, os óculos limpam-se, o estado de espírito não foi afectado!

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Luto de Agosto

Ao telefone com um amigo conto-lhe que passei grande parte de Agosto com canadianas, sem poder andar. Ele comenta que, tendo passado uma situação semelhante – muitíssimo mais grave em termos do acidente – aproveitou para ler tudo o que podia durante o período em que esteve na cama.
Fiquei envergonhada pois não fiz o mesmo.  Casei-me com a preguiça de tal forma que passei horas a olhar para a televisão, mais a mudar de canal que a ver fosse o que fosse, e a afastar pensamentos.
A páginas tantas ocorreu-me uma palavra que fez todo o sentido para descrever o meu estado interior: luto.
Senti-me de luto, triste e desamparada, com umas férias que eram tudo menos férias, com o rasto de uma amizade que se desvaneceu, sem dinheiro e a esforçar-me para sorrir a todos os que me visitaram ou me falaram por telefone.
Com as despesas hospitalares, medicamentos e a perspectiva de um corte substancial no ordenado de Setembro, apenas fui à praia na última semana de Agosto, tendo elegido Caxias, por ser a mais próxima de casa, para onde fui do nascer ao pôr-do-sol.
Apropriadamente ou não, li Que importa a fúria do mar, de Ana Margarida de Carvalho e reli A pianista de Elfriede Jelinek, duas gotas de água no oceano.
No último dia de férias, já em período de descontos, pois era Domingo, decido ficar em casa a arrumar roupa e a fazer limpezas. O meu filho levanta-se cedo e opõe-se determinantemente a estes planos, argumentando que o último dia de férias não pode ser passado em casa; eu que me vestisse, pois iríamos juntos à praia e ele oferecia o almoço, num sítio que eu ia adorar.
Assim, conduzimos até à Ericeira onde estava um mar apiscinado, ao contrário do habitual com ondas, conversámos sobre mil assuntos e comemos uma sopa de peixe quase à hora do lanche, da qual ele engoliu três pratos e que prometi tentar reproduzir em casa.
O meu luto coloriu-se nesse dia, o melhor de todo o mês, Agosto redimiu-se. 

Que mais me irá acontecer?

Depois de umas férias azaradas, entro azamboada na primeira semana de trabalho. Tendo o ano 52 semanas, sendo quatro de férias, estou a riscar a quadragésima oitava. Ainda a propósito da maleita que me obrigou a andar de muletas, logo no primeiro dia de trabalho vou ao médico. Diz-me a simpática senhora que, tendo médico de família, tenho que o conservar e para isso há dois requisitos: ir ao médico pelo menos uma vez no ano e ter as vacinas em dia. Já mo tinham dito e já tinha espiolhado a casa e a papelada em busca do respectivo boletim, sem resultados. Assim, foi necessário levar as vacinas novamente. Uma injecçãozita de nada que eventualmente me vai deixar um altinho no braço. Siga!
A injecçãozita de nada revelou-se uma cabra: febre, um inchaço descomunal, dores insuportáveis. Numa semana cumpri a minha quota mínima de visita aos serviços médicos para uma década. Que nunca tinham visto nada assim, e que pusesse gelo, e tomasse paracetamóis e ipobrufenos e etc., que era uma reacção à vacina – olhe, obrigadinha…
A meio da semana realizou-se o jantar de aniversário do A., em homenagem não tanto aos seus 53 anos, mas mais à vitória sobre a doença que o atacou a ele e nos afligiu a todos. Arrastada, lá fui, com uma roupa que não pensei levar pois o braço não me cabia na manga, de inchado que estava. Nem lhe cantei os parabéns, com a febre a azucrinar-me cada célula e regressei a casa onde me mantive a maior parte da semana até isto acalmar, qual tornado que se intensificava dentro de mim.
Assim que levei a vacina perguntei à enfermeira se podia ir à praia, ao que ela respondeu que não havia qualquer contra-indicação. Ora, nem praia nem meia praia, ainda para mais, choveu todo o santo fim-de-semana.
O início da quadragésima sétima semana leva-me a perguntar, que mais me irá acontecer? Com o pensamento positivo que procuro sempre, penso de quanto será o prémio do euromilhões… 

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Todos os episódios de A Teoria do Big Bang depois...

... já só os vejo, não os processo. A bem da verdade vejo-os porque o meu sobrinho adora a série e quis ver tudo de fio a pavio.
Eu, qual lontra preguiçosa, olho para a televisão sem ver nada. Quero manter-me forte como uma rocha, mas sinto-me um penhasco que se desfaz com a tareia das ondas. Afasto os pensamentos que me lembram que não mereço estar aqui deitada enquanto Agosto se esvai rindo à gargalhada, mas começo a falhar.
Fui ao médico pedir alta e foi negada. Expliquei que não me posso dar ao luxo de receber metade do ordenado no fim do mês e comprometi-me a continuar deitada usando as férias, sem mencionar as loucuras que tenho feito ao sentar-me no sofá e omitindo algumas idas à casa de banho. Responderam-me que a responsabilidade é do doente mas também do médico que lhe dá baixa; se eu quisesse ir trabalhar, que fosse, se quisesse interromper o período de baixa que o médico tinha prescrito que o fizesse, mas...
Depois das despesas médicas, com um carro avariado, a perspectiva de apenas uma das peças chegar aos duzentos euros e com uma perna às costas - no pior dos sentidos - não sobra nem para meter uma moeda e fazer aparecer um sorriso.
Assim, mesmo sem ser vidente sei que as férias vão ser as melhores de sempre: é Verão, estou fechada em casa e sem um chavo. Se me conseguisse por em pé, saltava de alegria...

terça-feira, 29 de julho de 2014

Em parte certa

A bem da verdade não tenho estado em parte incerta.
Estava de férias há doze horas, tinha mergulhado um bom par de vezes na praia fluvial de Poço Corga, jantado no parque de campismo e estávamos sentados a jogar cartas e fazer brincadeiras quando, para dar um dica ao meu cunhado, a fim de que ele adivinhasse um nome, dei um salto. Assim que os pés tocaram no chão senti uma dor intensa numa perna, de tal forma que vomitei e fiquei encharcada em transpiração. Vários centros de saúde e dois hospitais depois, o diagnóstico confirma-se: ruptura nos ligamentos do gémeo.
Meia elástica, pomada e massagens, anti-inflamatório, repouso total e canadianas. Pelo menos uma semana sem por o pé no chão, talvez duas, e só depois começar a tentar, usando uns sapatos de cunha, eu, que só tenho sapatos rasos.
Foi assim que em vez de seguir para norte, regressei a casa e tenho mais que tempo para me pôr a par das novelas, portuguesas, brasileiras, mexicanas e as mais que vierem.
Já tinha andado de canadianas mas nunca com duas e impossibilitada de por um pé no chão; não é fácil e parece-me que vou cair a cada passo nas viagens que faço para a casa de banho e do quarto para a sala.
O destino, sabendo que não posso sair de casa, entendeu que era boa altura para avariar o carro.
A tristeza é pontuada por ataques de riso, tanto azar chega a ser ridículo, e ainda mais se me lembrar que a meio da noite, entre hospitais, ainda passámos numa operação stop, o meu cunhado a assoprar o balão e a explicar que tínhamos pressa.
O riso chega à gargalhada quando me lembro que, por volta das cinco da manhã, quando regressámos ao parque de campismo, o carro não pode entrar e tive que dormir sentada no banco.
Conclusão, ainda não gozei um dia de férias e já gastei o pouco que tinha entre médicos, medicamentos e mecânico. Como estou de baixa médica, o ordenado do mês que vem vai ser uma gota de água no oceano.
Anda uma pessoa à espera desta altura o ano todo e depois ganha esta lotaria.
Já imagino certas pessoas a pensarem sorridentemente tens o que mereces, mas centro-me a pensar que estou viva e, como sempre, há pessoas em situações muito piores.
Está na minha mão recuperar e vou fazer tudo para que seja à velocidade da luz: umas idas à praia aqui ao lado ninguém me tira; afinal, tenho um mês de férias para gozar.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

terça-feira, 13 de maio de 2014

Quem diria...

Volta e meia tiro uma garrafa de água de uma máquina automática instalada numa certa estação de metro. Ontem ao fim do dia, meti a moeda e nada, nem garrafa nem moeda.
Sem esperança alguma, mas não desistindo, liguei para o número inscrito num autocolante, sem nome, morada ou informação de qualquer espécie.
Sem estranheza fui atendida por um gravador, agora não podemos atender, e blá, blá, blá, deixe o seu contacto que lhe falaremos mais tarde. Deve ser, pensei eu incrédula mas, ainda assim, sem desistir, deixei nome e telefone.
Acabam de me ligar identificando-se e perguntando em que me podem ser úteis. Expliquei a situação e a senhora pede-me nome e morada para me devolverem o dinheiro. Digo-lhe que sei que gastarão muito mais que o valor da garrafa, e que a minha ida aos Correios levantar tão chorudo cheque me será igualmente incómoda, por isso, desta vez ficamos assim, e que não se esqueçam de mandar arranjar a máquina.
A senhora agradeceu, eu agradeci, será que vamos viver felizes para sempre? Isso não sei, mas sabe muito bem ver que as coisas funcionam.

Receita para abrandar, precisa-se. A sério?

De casa à estação de metro passo por oito semáforos. Eu que não gosto de jogos de computador nem de telemóvel, tenho aqui o meu jogo diário, matinal, verdadeiro.
O primeiro ainda não está verde, passa logo a  encarnado e, nesse fugaz instante, quem vira à direita como eu, ainda tem que dar passagem aos peões.
O segundo fica em frente a uma corporação de bombeiros que, volta a meia, face a qualquer urgência, fica encarnado uma eternidade, programada como medida de segurança para que as ambulâncias e demais vaituras possam sair sem problemas. Por isso, todos o passam mesmo em amarelo, nunca se sabe quando vai abrir...
O terceiro, o quarto e o quinto distam cinquenta metros uns dos outros e os carros parecem carrinhos de choque a andarem uns centímetros e a travarem uns em cima dos outros. A partir daqui passa a haver duas faixas mas os dois semáforos seguintes são controlados pelos peões, pelo que podem estar encarnados alternadamente ou em simultâneo e o desafio é passar os dois rapidamente.
O último, na reta final e já só com uma faixa novamente é o mais equilibrado de todos em termos de tempo de abertura.
Hoje, pela primeira vez, o primeiro estava verde e eu passei imediatamente, no segundo, terceiro, quarto, quinto, sexto e no sétimo aconteceu a mesma coisa. Parecia que alguém lhes mudava a cor à minha aproximação. A bem da verdade, o último também estava verde, mas abrandei um pouco, deixei cair o encarnado e fiquei ali a pensar como o início desta manhã se assemelha ao meu estado de espírito actual: verde, ininterrupto, rápido, fluído e, sem sombra de dúvida, com necessidade de abrandamento.
Os pedidos neste sentido vêm de todos os lados, temerosos que me aconteça alguma coisa.
Mas como se abranda numa fase em que tudo corre tão bem? Porque se há-de abrandar se aquilo que se devia perseguir era esta sensação de bem-estar e de plenitude?
Falta-te um namorado, ai falta, falta, dizem as vozes à minha volta. Será que falta? Seria eu mais feliz e preenchida do que me sinto agora, se tivesse alguém ao meu lado?
Só se fosse alguém com quem eu pudesse estar permanentemente a falar e a discutir estas minhas actuais... obsessões... vá lá, dou de barato que são obsessões, mas que me fazem feliz, isso fazem e muito. 

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Guardadores de papel

Pediram-me que reorganizasse os arquivos da instituição onde trabalho. Respirei fundo e entreguei-me à tarefa, mais uma no meio de tantas outras.
As posturas sobre o assunto vão do oito ao oitenta, com pessoas que percebem a importância dos arquivos e outros que estão prontos a eliminar tudo o que não foi produzido por si, passando por outros que guardam tudo, tudo, tudo.
Com os primeiros lida-se bem, com os últimos não há perigo, mas com quem assina a sua falta de profissionalismo com a indiferença sobre a documentação afecta ao seu serviço, é um problema.
Estas pessoas não têm noção do conjunto, da empresa como entidade que se prolonga no tempo, que vem do passado e que se quer projectar no futuro, não sabem o que é pertencer.
Por ser lado, os guardadores de papéis sentem-se seguros rodeados por dossiers e papelada. Como é que uma coisa tão frágil nos pode dar tanta segurança? E se os computadores falham? Perguntam-me com frequência, demonstrando uma falta de confiança nas máquinas que, em simultâneo e paradoxalmente, nos dominam e controlam.
Desde os tempos antigos, não da Grécia mas de quando eu trabalhava no arquivo em Almada, que vejo pastas identificadas com Diversos ou Vários e quando inquiro sobre o seu conteúdo a resposta é sempre a mesma: Não sei bem... Aberta a pastinha nascem papéis de todas as nações e o destino em noventa e nove por cento dos casos, é lixo, acompanhado da expressão, Não sei para que guardei isto

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Horários de expediente

É horrível os horários de expediente serem todos iguais! A minha biblioteca, e outras, está aberta ao almoço e parte da noite, com horários adequados ao público utilizador. Porque não fazem o mesmo os serviços públicos?
Ando numa roda viva a tentar consultar arquivos que fecham duas horas no período do almoço, encerram às cinco da tarde e abrem às nove e meia, dez e, o horário mais estranho, às nove e quarenta da manhã.
Pior ainda, não tarda mudam para os horários de Verão: os raros que abrem ao sábado de manhã, encerram nesses dias, o horário de fecho ao fim do dia, antecipa-se.
Imagino que sejam todos pessoas com grande actividade familiar, muito calmas, sem stress e imenso tempo livre. Que bom para elas e que mau para mim, e não só.
Os arquivos são só para ociosos? Quem trabalha não pode concomitantemente estudar e pesquisar?
Não.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Estado de espírito

O meu filho dormiu fora e levou o carro.
Levanto-me com o espírito de quem tem de ir a pé até ao Metro, num dia de chuva, muito cinzento. Rapidamente ultrapasso a má disposição, com a lembrança do que tenho para fazer.
Ilumina-se-me o sorriso de tal forma que percorro o caminho sem apanhar água, como se fosse um chapéu-de-chuva.
Porém, com a lembrança da temperatura da semana passada enfiei uma camisola de manga comprida que me fez suar as estopinhas; o andar à pressa e a temperatura do Metro não ajudaram, mas tive que esperar pelas nove horas, já em Lisboa, para me enfiar na loja chinesa mais próxima.
Sai de lá florida e de manga curta, tudo em desacordo com o tempo mas em acordo total com o meu estado de espírito primaveril, que ninguém me consegue tirar.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Oh! Não!

Estou furiosa, mal disposta e irritada: acabei de ligar o ar condicionado... no quente.
Até o tempo está do contra. Já fui à praia, com banho e tudo, e agora volta a chuva e o frio.
Sexta-feira apanhei uma molha ao fim do dia e hoje não trouxe almoço o que quer dizer que vou ter que sair para comer. E apanhar com a chuva. Mesmo que não a apanhe em cima do corpo, sei que ela está lá fora, que se impõe, que existe, que tristeza.
A má disposição dissolve-se um pouco quando vou ver a caixa de correio, abandonada há muitos dias, por força do excesso de trabalho. Está lá um mimo do Dia da Mulher, mensagem linda que agradeço. Ainda assim, em dois minutos fico com vontade de bater em alguém novamente.
Desconheço as previsões do estado do tempo, mas tenho a certeza que o acompanharei tranquila ou irritada conforme faça sol ou chuva. 

quinta-feira, 20 de março de 2014

Torre do Tombo

Todos os dias corro para a Torre do Tombo em cima das seis da tarde. Os meus homens levam-me a fazer pesquisas em papéis que o tempo conserva como se tivessem sido escritos ontem.
Os dedos secam-me de tanto passar a folha e procurar aquele nome com que sonho. Ainda não o encontrei mas mantenho a certeza, mais que a esperança, que o vou encontrar.
Isto passa-se depois de um dia de trabalho intenso, e antes de ir para casa agarrar-me ao computador e continuar a pesquisar.
Ando numa fase intensa e prolifera de trabalho; ontem enviei um artigo para uma revista científica e já comecei a escrever outro. Na semana passada expliquei à médica que o tempo morto me incomoda: o metro que não vem, a máquina de café que demora cerca de vinte segundos a terminar a preparação de um copo, sem açúcar, o tempo que as pessoas demoram a atender o telefone. Não sei como, vou falando com ela e vai-me sacando informação, sobre os meus hábitos, o trabalho intenso, a inexistência de namorados, a entrega total ao trabalho que se mistura com o estudo; explico-lhe que a minha vocação é ser estudante, se eu pudesse não faria outra coisa. Ela diz que isto é uma forma de depressão e eu penso que as escolas médicas dão o diploma a qualquer um.
Tomara muita gente conseguir ver televisão, falar ao telefone e ir fazendo pesquisas na net ao mesmo tempo, como eu. Ela olha-me muito séria e eu já não conto que tenho um livro à ilharga para onde vou olhando.
Diz-me que tenho que parar, que abrandar. Explico que o único lugar onde estou sem a sensação de desperdiçar tempo, é na praia. Deito-me e fico ali, só isso. Mas isto de estiver de barriga para cima, pois a barriga para baixo obriga a um livro, uma revista, quanto mais não seja à leitura da informação que vem no frasco do protector solar.
Depois de uns minutos de conversa, à cautela, retiro cigarros ao número que lhe dou quando me pergunta quantos fumo, assim como retiro horas ao dia de trabalho. Se o que faço me deixa satisfeita e acabo o dia em cima da meia-noite, porque raio hei-de terminar antes?
Digo-lhe que fujo do senhor alemão como o diabo foge da cruz e que a única terapêutica é exercitar o cérebro. Falo-lhe da minha mãe, do meu avô, de outras pessoas que verdadeiramente me assustam. Explico-llhe que não tenho medo de nada, à excepção disto. Ela responde que para além do alemão, há outros senhores que podem tomar conta de nós se não tivermos cuidado.
Mau! Penso eu, então não devia ter um namorado?  Em que ficamos? Se começo a ter medo de todos os senhores que me podem rodear, então fico sozinha para sempre... o que não é má ideia, diga-se de passagem...
Concluo que não quero que me tirem a sensação de bem-estar que sinto, que até posso morrer amanhã, mas estarei plena de trabalho feito, bem feito, de procura, de não acomodação, de actividade, de vida. Nã... morrer, eu? Não é tão cedo. 

terça-feira, 11 de março de 2014

A vida continua

A 8 de Março comemora-se o Dia Internacional da Mulher, mas eu prefiro vivê-lo como o dia da igualdade dos sexos, pois esse é o objectivo.
Trabalhava eu em Almada e todos os anos havia festa rija, almoço, espectáculo, prendas e flores para as trabalhadoras da autarquia. O dia coincidia com o aniversário da Paula, uma colega que não passava despercebida pelo físico mas, acima de tudo, pela presença de espírito. Literalmente enchia uma casa, e mais ainda com o aguçado das observações e a boa disposição, que podia mudar 180 graus e era um susto. Havia assim vários motivos de festa.
Um dia, a meio da alegria, o almoço já terminado, chamam-me ao telefone, coisa inusitada. Do lado de lá informam que o Avô Gualdino morreu.
O 8 de Março passou a ser o dia do aniversário da morte do Avô e a lembrança eterna da Paula que nos pregou a partida há uns anos e morreu também, levando com ela o mundo que ocupava, onde fazia a gentileza de nos deixar viver e partilhá-lo com ela, bem como muitos anos por viver.
Penso em tudo isto no dia anterior ao almoço com uma das mulheres mais fortes que conheço e cuja amizade vem de tempos imemoriais. Quando estou com ela celebro-a e é Dia da Mulher, da mulher mais forte e corajosa que conheço.
Entretanto vivi outras amizades que não eram tão resistentes e abandonaram-me. A este propósito, outra grande mulher com quem tenho o privilégio de conviver disse-me que o abandono de pessoas que eu adoro pode acontecer devido ao meu espírito crítico, incisivo para com as pessoas, as pessoas de quem mais gosto. Será? Sim, sim, garante ela, As pessoas não gostam da verdade, dificilmente a encaram, preferem a ilusão muitas mais vezes que as que tu imaginas! A tua racionalidade raia a frieza e isso magoa quem não está habituado, a ilusão é sempre macia e se há coisa que não fazes, é iludir.
 Disse-me também esta mulher que me deixe de chorar pelos cantos; digo-lhe que não conhece a pessoa por quem eu choro a ausência, se a conhecesse... ela termina a minha frase, Se eu a conhecesse dizia-lhe que é a maior parva do mundo, tem a tua amizade e despreza-a.
Esta amizade, que já foi mas já não é, era sempre a primeira a ligar-me neste dia da mulher sabendo que eu estava triste pelo aniversário da morte do meu Avô e pela lembrança da Paula e dizia-me A vida continua...
É isso mesmo, a vida continua, com imensa tristeza e perplexidade, mas continua.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Luz de Almeida

Cumpre-me abrir com um aviso: isto não é uma apologia à revolta, ao terrorismo, nem sequer ao ser do contra. Alba, que não a de Lorca, mas que talvez pudesse ser, foi recentemente condenada por uma acção online que me fez pensar e muito.
Estou a ler, lentamente mas estou, uma edição de 1990 da Alfa, de autoria de José Brandão e que tem por título Carbonária: o exército secreto da República.
Não se percebe bem se as pessoas queriam de facto a República, mas percebe-se que queriam mudar: D. Carlos recebia um conto de réis de vencimento por dia e, juntamente com o resto da família real, arrombava o erário público em quinhentos e vinte contos anuais, muito superiores aos trezentos da família real norueguesa ou aos cento e vinte da dinamarquesa. Assim, não era de estranhar que se dissesse que por muito menos rolou no cadafalso a cabeça de Luís XVI.
A situação era de tal forma que Raul Brandão, a páginas 115 das suas Memórias, edição da Renascença Portuguesa de 1983, afirma que se ouvia dizer "Venha tudo, venha o pior, venha o diabo do inferno que nos livre disto".
O cérebro da Carbonária era Luz de Almeida, de quem já tinha ouvido falar, tal como do barbudo Buiça ou de Alfredo Costa; ora, diz o povo que quem diz a verdade não merece castigo e assim se passa comigo, que sorri ao saber da profissão de Luz de Almeida: bibliotecário.
A rede que conseguiu montar, diz-se que conhecia todos os primos carbonários, é invejável. Falo do ponto de vista profissional, é claro, nós bibliotecários somos muito da web, está bem de ver.
Que faria este homem na era das redes sociais? A sua discrição levá-lo-ia provavelmente a montar a rede, tal como fez, a usar a teia de conhecimentos e a planear o futuro, de forma a poder vislumbrar-se uma luz ao fundo do tunel.