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terça-feira, 13 de maio de 2014

Quem diria...

Volta e meia tiro uma garrafa de água de uma máquina automática instalada numa certa estação de metro. Ontem ao fim do dia, meti a moeda e nada, nem garrafa nem moeda.
Sem esperança alguma, mas não desistindo, liguei para o número inscrito num autocolante, sem nome, morada ou informação de qualquer espécie.
Sem estranheza fui atendida por um gravador, agora não podemos atender, e blá, blá, blá, deixe o seu contacto que lhe falaremos mais tarde. Deve ser, pensei eu incrédula mas, ainda assim, sem desistir, deixei nome e telefone.
Acabam de me ligar identificando-se e perguntando em que me podem ser úteis. Expliquei a situação e a senhora pede-me nome e morada para me devolverem o dinheiro. Digo-lhe que sei que gastarão muito mais que o valor da garrafa, e que a minha ida aos Correios levantar tão chorudo cheque me será igualmente incómoda, por isso, desta vez ficamos assim, e que não se esqueçam de mandar arranjar a máquina.
A senhora agradeceu, eu agradeci, será que vamos viver felizes para sempre? Isso não sei, mas sabe muito bem ver que as coisas funcionam.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Nova cor

A caminho de um chichi a meio da manhã, peço licença para passar no meio de um bando de alunas que ocupam todo o corredor.
Conversam sobre cortes de cabelo e apanho uma madeixa preciosa quando uma delas pergunta Mas ela é o quê? e a outra responde Ela? É tipo loira.

À letra

A propósito dos problemas de saúde do meu pai falo para a minha irmã.
Atende-me o meu sobrinho mais velho e ficamos à conversa.
Então, o que estão a fazer, pergunto eu, e ele responde, à letra:
- Eu estou a falar contigo, o Xavi está a ver televisão, a Pi está a ver se entende o que querem dizer os autores do livro de Português, a mãe está a olhar para umas panelas e o pai não sei porque está no Porto. 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Avali(a)ção de professores

Terá sido de propósito?
Terá sido uma brincadeira acerca da avaliação que, deixando a desejar como (quase) todos afirmam, até o Público lhe deixou cair uma letra?
Terá a ervinha logo abaixo tido influência e alguém fumou o A?
Será um incentivo à poupança?
Será uma tentativa de legitimação das novas formas de escrita?

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Ser ou não ser

Para fazer um orçamento uso o site da TAP: quanto custa uma deslocação a...? Preencho os campos, ida e volta, cidade de partida, cidade de regresso e carrego no enter.
Enquanto uns minúsculos e invisíveis seres procuram a informação para ma plasmaram diante dos olhos, aparece uma mensagem:
Todas as tarifas incluem jornais e revistas gratuitos*

O * está um pouco mais abaixo e diz:
Este serviço está apenas disponível em alguns voos e tarifas TAP.

Pergunto, Dona TAP, em que ficamos?

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

O mundo aos nossos pés

Excepção feita às lojas chinesas e ao mercado do Algueirão, perdi a conta aos meses em que não entrava numa loja. Ontem fui àquela catedral que dá pelo nome de Zilian e irremediavelmente lembrei-me de Orson Wells e Citizen Kane que nos remete para... o mundo a seus pés.
É assim a Zilian, um paraíso que não vende sapatos mas antes beleza e conforto, onde fui com duas colegas, uma delas decidida a comprar pela primeira vez na vida uns sapatos de salto, de saltinho, vá, que não comprou. Pés exigentes, aqueles!
Os meus não são exigentes, são mesmo defeituosos desde que parti uns dedos, os ossos calcificaram e não dobram, proibindo-me o uso de saltos, com enormíssima pena minha.
Verdade seja dita que, fossem eles perfeitos e pudesse eu andar em agulhas mais afiadas que as da Cigala, lamberia as montras da Zilian com os olhos sim, mas acabava por ir picar o ponto à cigana do Algueirão que tem os últimos modelos a um ou cinco euros; quando me pede dez por par eu reclamo e ela diz-me naquele sotaque arrastado, Linda, olha que san chaneli... ao que a minha mãe, rindo-se, responde que chinelos já nós temos muitos...

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Arrasador

Curiosa, a minha irmã. Quis saber do filho mais velho se já namorava. Eu não, mas há quem namore, respondeu ele. Quem, continuou ela a querer saber. Olha, o João e a Maria por exemplo. Ai sim?, mostrou-se admirada, Então e eles passeiam de mãos dadas? continuou ela perdida no tempo. Não, nada disso, não te esqueças que eles apenas têm em comum o facto de respirarem e tirarem negativas.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Obrigadinha, sim?

Nos meus ouvidos mora um zumbido desde há alguns meses. Desconheço o que o levou a instalar-se e que tão boas condições encontrou – arrendamento zero… - que por aqui ficou.
Muitas consultas e tratamentos depois, o médico sugere uma intervenção cirúrgica. Falo com a companhia seguradora, enviam-se papéis de parte a parte, redigem-se relatórios, fazem-se e atendem-se telefonemas, até que a companhia, três meses depois, diz que sim, que autoriza – “… de acordo com os elementos disponíveis, encontra-se a cirurgia aprovada”.
Porém “… fica a cargo do cliente uma franquia de 2.500.00€, cujo valor é superior à presente despesa. Assim, deverá a Pessoa Segura liquidar a totalidade da despesa”.
Leio várias vezes a cartinha para perceber o que raio é que afinal aprovaram… 

terça-feira, 30 de julho de 2013

Profissões deprimentes

A rádio menciona uma lista de profissões deprimentes, cuja autoria não retenho.
Em primeiro lugar estão os educadores de infância e os auxiliares em lares de terceira idade.
Concordo totalmente: a falta de reconhecimento dói p'ra caraças. 

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Rom vai à praia

Eram cerca de cinquenta. Homens, mulheres e crianças, riam, saltavam, gritavam, arrepiavam-se. Corriam uns atrás dos outros, brincavam. De vez em quando paravam e ficavam a conversar aos grupos, a conversar alto e mais alto ainda quando chamavam alguma das crianças que se afastava sem se aperceber.
Eram cerca de cinquenta e toda a gente os olhava.
Toda a gente os olhava porque eram ciganos, toda a gente os olhava porque é raro verem-se ciganos a mergulhar na praia, toda a gente os olhava, essencialmente, porque estavam vestidos dos pés à cabeça.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Esperança embrulhada e com laçarotes

Leio que o governo vai oferecer esperança. Não percebo, leio outra vez. E outra. Fico baralhada. Eu uso a esperança todos os dias, sem excepção, e agora, fico na dúvida se era de utilização livre e lembro-me do Zezé de O meu pé de laranja lima que um dia tirou uma flor de um jardim para oferecer à professora e só depois ficou a saber que as flores têm dono, não se podem arrancar.
Se calhar acontece o mesmo com a esperança, logo com a esperança da qual eu tenho usado e abusado...

Um questão de cor

- Bom dia, quero um isqueiro. Tem daqueles tipo Zippo?
 - Não, só há as coles que estão à mostla.
Esta conversa aconteceu hoje de manhã, numa mini loja chinesa. A moça era muito sorridente e eu, só para ter qualquer coisa de Zippo, nem que fosse uma letra, trouxe um azul.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Crónica da realidade

Entro na Biblioteca vinda de uma reunião no exterior. À entrada sou abordada por uma senhora, aluna, que me pede ajuda:
- Pode dizer-me o que têm sobre reabilitação?
- Reabilitação em que área?
- Isso não sei, foi a professora Fulana que me mandou aqui à procura de livros sobre o assunto.
- Muito bem, mas é de que curso? Arquitectura, Psicologia, Direito?
- Eu?
- Sim, a senhora anda a tirar o quê?
- Enfermagem.
- Ok. Pode fazer pesquisa num destes computadores. Precisa de ajuda?
- Não, não percebeu: eu quero é livros, de computadores e internetes não percebo nada.
Depois de chamar alguém para dar um auxílio, vou para o gabinete decidida a nunca precisar de uma enfermeira.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Riso triste

A minha mãe não sabe do telemóvel e pede ao meu pai que lhe ligue para ver se o encontra.
Ele vai buscar o seu próprio telefone e marca o número. Do meio das almofadas do sofá ouve-se um trimmmm. Ela agarra-o, vira-se para o meu pai e diz:
- Olha, és tu que me estás a ligar! Para quê?
Não conseguimos evitar rir, mas é muito triste.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Armelim de Jesus


Samuel Úria tem uma das mais belas canções que andam por aí nos rádios, rádios esses que se sentem orgulhosos de passar aquela letra, tenho a certeza.
Fala de um homem inteiro, Armelim de Jesus, e diz-nos que Armelim não tem fim, que há nomes tão fortes que a morte só leva emprestado. 
Canta-nos ao ouvido que era Armelim, tão recto que um fio-de-prumo fica embaraçado e garante que deixou essa grande pegada do seu coração.
Letra emocionante, música linda, estou apaixonada e não canso de Armelim de Jesus.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Asseio sobre rodas


Domingo foi dia de sobrinhos. Ele entra no meu carro, imaculado, tapetes escovados, nem um grão de pó, trabalho do Duarte que não deixa cair uma migalha.
Senta-se, olha para tudo e diz:
- Vocês são tão asseados, o nosso carro parece um aterro sanitário.
Encosto ao passeio para me poder rir à vontade. 

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Hi yo, Silver!


Havia um mascarado que andava sempre com o índio Tonto que não era nada tonto, antes pelo contrário. Em Espanha mudaram-lhe o nome para Toro para não dar azo a más interpretações e, em simultâneo, mostrar da força que se concentrava naquele que secundava o herói.
Agora temos um tonto que é mesmo tonto e parece um touro e que é apoiado por um bando de malfeitores num país em colapso, com mais desempregados que pedras da calçada, onde a saúde é só mais uma palavra no dicionário, a justiça é uma lembrança das acções do Zorro nos livros aos quadradinhos, com escândalos escandalosos escandalosamente silenciados, onde se pedem explicações ao Governo, aos membros do Governo, ao Primeiro-Ministro, aos políticos em geral, aos directores dos jornais, às administrações das empresas, aos bancos e não se obtêm respostas, e no dia em que não se deixa falar um tonto, aqui d’ el rei que se violou a liberdade de expressão.
Ou seja, em página repleta de erros aponta-se uma vírgula mal colocada.
Não percebo.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Eram rosas, eram?


Santos Silva passa a Franquelim, Franquelim passa a Relvas, Relvas fica com a bola, outra coisa não seria de esperar, passe-se a quem se passar Relvas está lá, já não são relvas, são ervas daninhas, senhor.
Acções de caridade é o que é, com o Senhor dos Passos pelo meio, precisamos de uma crucificação que a via-sacra vai longa. 
Matemos, esfolemos, sigamos o exemplo. 
Ai que bom, isto sim é viver em liberdade, sinto-a tão forte e apelativa, fazer o que me der na gana, hoje sou eu, amanhã mascaro-me, no dia seguinte mascaro quem eu bem me apetecer e viva o Carnaval, este, não o do Brasil, não o de Veneza, não qualquer outro, que têm data marcada e aqui não, é um Carnaval natalício, é quando um homem quiser, é fartar vilanagem.