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segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Aquele senhor alemão

Tenho ouvido falar de certos grupos musicais que têm como característica entrarem em palco sempre de maneira diferente. Lembro-me deles a propósito da minha muito querida mãe, cujo ar é de moça, mas a idade e as doenças pesam nos actos, nos gestos e nas respostas.
Ligo-lhes todas as santas noites e, sabendo que não estão bem, também de manhã. É o caso, sábado foi passado pouco alegremente no hospital com o meu pai, já estamos habituados.
Como são surdos e ouvem televisão muito alto, quando o telefone toca, por norma, é ela que atende enquanto vai pedindo ao meu pai que baixe o som. É aqui que revela uma imaginação sem par, qual Salvador Martinha, qual César Mourão, qual Rui Unas, qual Sal.
É na linha de Sintra que vive uma senhora que atende o telefone sempre de maneira diferente e que, para pedir para baixar o som da televisão, já pediu ao meu pai, e eu a ouvir:
Baixa a torneira
Carrega no autoclismo
Põe isso mais claro
Põe a televisão menos ligada
Ontem foi particularmente cómico, quando a ouvi dizer:
Põe a televisão mais barata!
Ainda estamos numa fase em que o riso prevalece, e tentamos rir todos, ela incluída, pois dá conta dos disparates que diz.
Rezo para que esta fase se prolongue por muito, muito tempo...

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Que confusão!

Entro em casa e tenho um burro e uma vaca no meio da sala.
As flores que costumam estar à entrada, decoram o alto de um móvel e um par de sapatos e meio, de Verão, estão alinhados a meio da minha cama.
Há uma toalha pendurada na maçaneta da porta da cozinha e um pano da loiça descansa em cima do braço do sofá.
Num primeiro instante, nem largo a mala nem o casaco, algo no meu inconsciente me avisa que talvez o decorador ainda esteja dentro de casa. Depois lembro-me que os meus pais estiveram cá com o meu sobrinho mais novo.
O gaiato descobriu as peças do presépio e deixou-as à solta, descobriu o saco com sapatos e decidiu dar-lhes uso mesmo que o tempo ainda não convide e um telefonema de última hora avisou-os de chegada de visitas a sua casa, de modo que abalaram e deixaram tudo às três pancadas.
Ajudada por um gin ao fim da tarde, em homenagem à filha de uma amiga que conseguiu um super trabalho pago condignamente, fartei-me de rir ao telefone enquanto a minha mãe pedia desculpa pela desordem com que sairam.
Certifiquei-me que ele levara os animais da quinta em chocolate que eu lhe deixara na cozinha e acabei a noite a arrumar, mas bem disposta.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Torre do Tombo

Todos os dias corro para a Torre do Tombo em cima das seis da tarde. Os meus homens levam-me a fazer pesquisas em papéis que o tempo conserva como se tivessem sido escritos ontem.
Os dedos secam-me de tanto passar a folha e procurar aquele nome com que sonho. Ainda não o encontrei mas mantenho a certeza, mais que a esperança, que o vou encontrar.
Isto passa-se depois de um dia de trabalho intenso, e antes de ir para casa agarrar-me ao computador e continuar a pesquisar.
Ando numa fase intensa e prolifera de trabalho; ontem enviei um artigo para uma revista científica e já comecei a escrever outro. Na semana passada expliquei à médica que o tempo morto me incomoda: o metro que não vem, a máquina de café que demora cerca de vinte segundos a terminar a preparação de um copo, sem açúcar, o tempo que as pessoas demoram a atender o telefone. Não sei como, vou falando com ela e vai-me sacando informação, sobre os meus hábitos, o trabalho intenso, a inexistência de namorados, a entrega total ao trabalho que se mistura com o estudo; explico-lhe que a minha vocação é ser estudante, se eu pudesse não faria outra coisa. Ela diz que isto é uma forma de depressão e eu penso que as escolas médicas dão o diploma a qualquer um.
Tomara muita gente conseguir ver televisão, falar ao telefone e ir fazendo pesquisas na net ao mesmo tempo, como eu. Ela olha-me muito séria e eu já não conto que tenho um livro à ilharga para onde vou olhando.
Diz-me que tenho que parar, que abrandar. Explico que o único lugar onde estou sem a sensação de desperdiçar tempo, é na praia. Deito-me e fico ali, só isso. Mas isto de estiver de barriga para cima, pois a barriga para baixo obriga a um livro, uma revista, quanto mais não seja à leitura da informação que vem no frasco do protector solar.
Depois de uns minutos de conversa, à cautela, retiro cigarros ao número que lhe dou quando me pergunta quantos fumo, assim como retiro horas ao dia de trabalho. Se o que faço me deixa satisfeita e acabo o dia em cima da meia-noite, porque raio hei-de terminar antes?
Digo-lhe que fujo do senhor alemão como o diabo foge da cruz e que a única terapêutica é exercitar o cérebro. Falo-lhe da minha mãe, do meu avô, de outras pessoas que verdadeiramente me assustam. Explico-llhe que não tenho medo de nada, à excepção disto. Ela responde que para além do alemão, há outros senhores que podem tomar conta de nós se não tivermos cuidado.
Mau! Penso eu, então não devia ter um namorado?  Em que ficamos? Se começo a ter medo de todos os senhores que me podem rodear, então fico sozinha para sempre... o que não é má ideia, diga-se de passagem...
Concluo que não quero que me tirem a sensação de bem-estar que sinto, que até posso morrer amanhã, mas estarei plena de trabalho feito, bem feito, de procura, de não acomodação, de actividade, de vida. Nã... morrer, eu? Não é tão cedo. 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

De castigo, já!

Todas as noites pico o ponto ao telefonar para os meus pais a saber como estão, como foi o dia, o que fizeram e não fizeram. Nos últimos dias tenho tido uma pontaria olímpica e ligo sempre quando estão a jantar. Por norma, encurta-se a conversa ou deixa-se para mais tarde. Não foi o que aconteceu na segunda-feira.
Assim que atenderam percebi que a sopa estava a ser consumida e informei que ligava mais tarde. Nada disso! Mais logo é que não que estamos a despacharmo-nos para irmos ver televisão. Televisão?
Durante anos, a senhora minha mãe caracterizou-se por detestar três coisas: bananas (consta que em pequena comeu um cacho de empreitada, razão pela qual nunca mais as pode ver à frente), iogurtes (tendo dedicado a vida às crianças e vivendo no seio de vários colégios infantis onde proliferavam os iogurtes, foi coisa que sempre lhe sempre lhe causou um certo asco) e futebol (mundo no qual conhecia o Eusébio e sabia que se jogava com uma bola).
Agora e desde há uns, poucos, anos, come iogurtes como se não houvesse amanhã, adora bananas e tem um fascínio por futebol inacreditável: vê os jogos, comenta-os, irrita-se quando o Sporting perde e venera o Cristiano Ronaldo.
Assim, naquela noite, eu tive a ousadia de ligar quando iam repetir as imagens da condecoração e, não só fui admoestada para me despachar, como fui convocada para me sentar igualmente diante da televisão, qual missa a que tinha que assistir.
Sendo minha mãe disse que sim e, a verdade, é que fazia intenção de cumprir mas, aquecido o jantar, fui sentar-me na sala e ligando a televisão estava esta sintonizada no canal História e passava uma reportagem sobre o Sudário de Turim, a Kaaba de Meca, a Pedra de Blarney Castel na Irlanda entre outros mistérios que a História vai construindo para nosso prazer e curiosidade.
Deixei-me ficar por ali, saltando de século em século, guiada por teorias variadas onde não faltavam extraterrestres, coisa maravilhosa e, escusado será dizer, nunca mais me lembrei do Cristiano.
E foi assim que no dia seguinte quando voltei a falar aos meus pais e me perguntaram se eu tinha gostado de ver a cerimónia, e depois de um quase qual cerimónia?, que conseguiu ser atalhado, eu respondi, mentindo, que sim, fora muito bonita.
Ora, como toda a gente sabe, apanha-se mais depressa um mentiroso que um coxo, e eu aguardo serenamente o meu castigo. 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O jantar

As duas amigas sabiam que naquela noite a mãe de uma delas receberia visitas. Não era isso que as impedia de brincar, não obstante a anfitriã ter saído e deixado as duas a tomar conta do caldo de bacalhau com queijo fresco. Só tinham que esperar que levantasse fervura e, espetando uma batata e vendo que estava cozida, apagar o fogão ou deitar mais água se fosse caso disso. A mãe bem abriu os olhos e elevou a voz relembrando a missão, mas não foi por isso que qualquer delas memorizou melhor.
A visita era especial. Uma emigrante da aldeia tinha vindo de passeio com uma gravidez bem evidente; ao ouvir a vizinha dizer o que era o jantar, assomaram-se-lhe os desejos e logo ali se combinou tudo, nem havia dúvidas, não se falava mais do assunto.
Os doze ou treze anos das duas miúdas se, por um lado, eram idade mais que suficiente para tomar conta de uma casa naqueles anos cinquenta do século passado, por outro, eram algo preocupantes, principalmente se estivessem juntas.
Na bacia de metal com uma gota de água, colocada providencialmente à entrada das traseiras da casa para que se lavassem as mãos antes de entrar, como era hábito na aldeia, banhava uma falha de sabão, que era quanto bastava também para as ajudar a fazer balões e esquecer qualquer compromisso.
O brilho e a leveza das bolas de sabão não deixaram espaço para mais nada e só se voltaram a lembrar da panela quando ouviram a voz da dona da casa, que regressava. Correram ao fogão onde os espinafres e o bacalhau já se agarravam ao fundo.
Depressa, depressa, antes que ela chegue, água, é preciso água, água, água... e os olhos de ambas pousaram em simultâneo na bacia. Nem foi preciso dizer nada, uma afastou a cortina de tiras que impedia as moscas de entrar e a outra agarrou a bacia e atirou a água para dentro da panela, dando-lhe uma mexidela de meio segundo, tampa em cima, a tempo de porem uma cara tranquila e cumprimentarem a dona da casa que entrava com um bolo que encomendara na loja do senhor Chico.
Que sim, que estava tudo bem, então que fossem pôr a mesa e depressa, eles deviam estar a chegar.
A senhora ainda achou que os ovos e o queijo fresco provocavam uma espuma maior que o costume, mas não reagiu até que, servindo o tão ansiado caldo de bacalhau, a convidada cospe enojada a falha de sabão.
A cozinheira levantou-se estupefacta mas em três segundos percebeu tudo o que lhe era dito pelos olhos baixos da filha e a da amiga, caladas ambas como se estivessem na missa e a tentarem ser invisíveis.
A grávida, de boca lavada, evitou que a sessão de gritos fosse maior mas não conseguiu aparar o par de estaladas em cada uma, que na altura não se chamavam pais nem mães para se pregar uns açoites em garotos que comprovadamente tivessem feitos disparates.
A filha foi mandada para o quarto de castigo e a amiga foi levada a casa por uma orelha, onde o pai e a mãe estavam sempre à espera de qualquer coisa do género, conhecendo-lhe a energia e sabendo que era inventiva mas desastrada, bonita mas com muito excesso de peso, namoradeira mas fiel, já altura, ao filho do cabo da guarda.
Era assim a senhora minha mãe.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Cirque du Soleil

Ofereceram-me bilhetes para o Cirque du Soleil. A minha curiosidade era mais que muita, anos a ouvir falar, a ver imagens na televisão, vídeos no youtube. A prenda, ainda por cima de uma pessoa tão querida, veio mesmo a calhar.
Como boa família de ciganos organizámo-nos e fomos em romaria: os meus pais, os meus três sobrinhos e eu, sábado à noite, mau tempo já passado - os miúdos e eu ainda com a lembrança da chuvada da noite de ano novo, Avenida da Liberdade acima a pé, em direcção ao carro, parecíamos pintos, eu, que eles são mesmo de apelido do paizinho, mas sempre a rir e bem dispostos.
Levar o meu pai a qualquer sítio é um sarilho, mas impunha-se: completou 71 anos no dia seguinte - passado no hospital... - e o espectáculo era também prenda de anos.
Uns meros cinquenta metros que nem nos lembramos de percorrer, para ele equivalem a uma maratona. Deixei-os o mais próximo possível do MEO Arena, mas foi preciso fazer o corredor do Vasco da Gama, passar a rua e subir os degraus do ex-pavilhão Atlântico, uma tortura que aguenta com o auxílio da bengala e com a cara amarfanhada de dores contidas.
Durante o espectáculo até ele se esqueceu das dores, palmas e mais palmas, o Xavier, com apenas dois anos, de olhos esbugalhados, sentado nos meus joelhos, tão quieto que parecia uma estátua.
O gaiato já provou ser diferente: duas visitas a dentistas levantaram coros de espanto e admiração quando se senta, abre a boca e não mexe não respira, como nas radiografias. Apesar da sesta, assim que terminou, ele adormeceu encostado ao meu ombro fazendo-me reviver aquela sensação de posse, tão doce, quando eles são pequenos e pertencem-nos, quando se entregam com confiança.
Os outros dois saltitavam satisfeitos, pagaram o parque, faladores, o que é que gostaste mais?, eu foi dos que saltavam e pareciam andar nas paredes, e tu avó, e tu avô, e tu Quica?
Foi a última noite de uns dias juntos, sem grande coisa para fazer, como nesse sábado quando a chuva era tanta que só nos levou ao supermercado, viagem nunca adiada, mas que não impediu que ela e eu fizéssemos comer e doces, que ele me ajudasse com a roupa, sempre disponíveis, sempre donos de mim.
Durante o percurso para as compras comentei com eles que, há uns dias, passando por ali, exactamente aqui, neste sítio, vinha um carro em sentido contrário. Ele, o mais velho, sem perder uma oportunidade de exercitar o seu inglês, perguntou-me se eu tinha ligado para o nine, one, one a avisar do perigo. Ri-me e disse que sim, usando um sotaque nortenho, à Shrek como eles lhe chamam, e inglesando algumas palavras reproduzi a suposta conversa com os bombeiros de Nova-Iorque, e chegámos à conclusão que desde esse dia não se viam americanos na zona da Amadora ou Alfragide porque eles tinham emitido um alerta avisando os cidadãos americanos que andava um veículo em sentido contrário ao pé do Alegro.
Rimos todos e no ar sentia-se a essência do Natal, é Natal, é sempre Natal quando eles estão comigo e quando repetimos cúmplices, I do, I do, I do believe in fairies, há música no ar, balões coloridos sobem e misturam-se com as nuvens, chovem papelinhos com formas engraçadas e oferecemos as nossas gargalhadas uns aos outros, com um laço de seda.
Agora, só no Carnaval...

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

O mundo aos nossos pés

Excepção feita às lojas chinesas e ao mercado do Algueirão, perdi a conta aos meses em que não entrava numa loja. Ontem fui àquela catedral que dá pelo nome de Zilian e irremediavelmente lembrei-me de Orson Wells e Citizen Kane que nos remete para... o mundo a seus pés.
É assim a Zilian, um paraíso que não vende sapatos mas antes beleza e conforto, onde fui com duas colegas, uma delas decidida a comprar pela primeira vez na vida uns sapatos de salto, de saltinho, vá, que não comprou. Pés exigentes, aqueles!
Os meus não são exigentes, são mesmo defeituosos desde que parti uns dedos, os ossos calcificaram e não dobram, proibindo-me o uso de saltos, com enormíssima pena minha.
Verdade seja dita que, fossem eles perfeitos e pudesse eu andar em agulhas mais afiadas que as da Cigala, lamberia as montras da Zilian com os olhos sim, mas acabava por ir picar o ponto à cigana do Algueirão que tem os últimos modelos a um ou cinco euros; quando me pede dez por par eu reclamo e ela diz-me naquele sotaque arrastado, Linda, olha que san chaneli... ao que a minha mãe, rindo-se, responde que chinelos já nós temos muitos...

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Parabéns a vocês!

A senhora minha mãe e o cavalheiro meu sobrinho fazem hoje 69 e 11 anos, respectivamente. Falo-lhes por telefone, rimos, brincamos, combinamos jantar, todos juntos, todos juntos, lá, lá, lá...
Ela encolhe os ombros sobre o ano a mais - eu não vejo mas sei que o está a fazer - ele diz que é exactamente igual a ontem e acrescenta:
- O teu dia é que podia ser diferente, se tu quisesses vir connosco ao Pavilhão do Conhecimento, passar a tarde no Dóing!
E quem disse que eu não queria? Mas não posso... ai que saudades dos 11 anos e que pena de não haver Pavilhão do Conhecimento na altura...

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Vida social

Apesar de tanta tecnologia que nos rodeia, de tanto telefone, de tanto correio electrónico – receptível até dentro de água! – as pessoas têm muita saudade umas das outras.
Neste pós-férias multiplicam-se as marcações para jantares de antigos alunos, combatentes, colegas, o que for; sucedem-se os telefonemas a combinar encontros, para comentar as fotos das férias já vistas e partilhadas no Facebook ou em qualquer outra rede social, descarregadas a cada passo durante a ausência.
A minha vida social é fraquita mas em Setembro atinge um pico que se repetirá no Natal, quando as saudades parecem voltar à carga, sem apelo nem agravo.
A coisa é de tal forma que fui convidada para três jantares no mesmo dia! Os convites vêm via Facebook e, reparando não ser a única naquela circunstância, liguei a uns amigos perguntando qual deles iam aceitar, por me ser grata a sua companhia e costumarmos ficar juntos. Fiquei banzada com a resposta: Vamos pelo menos a dois! Jantamos num, comemos a sobremesa noutro e se a malta for a qualquer sítio no terceiro encontro, nós ainda aparecemos lá.
Ri-me, não me ocorrendo mais nada para responder. Será a vida social deles ainda mais insignificante que a minha, tendo que se aproveitar todos estes convites? O que aproveitam em cada um? Não era suposto irmos para conversar? Estarão as redes sociais a ocupar tanto espaço, mas tanto mesmo que, mesmo presentes, somos notados pela ausência? Já cá esteve, deve estar a chegar, talvez venha… mas se lhe quiseres falar apanha-o no Face…
Terão as conversas a mesma profundidade das mensagens que se debitam, a maior parte das vezes copiadas, nas redes sociais? A partilha é efectiva?
Um dos grupos que agora se planeia encontrar é constituído por pessoas que frequentaram a mesma escola secundária; um dos elementos, rapaz muito respeitado na altura, é agora alvo de chacota – simpática, mas chacota – por não ter Facebook. As primeiras vezes em que nos reunimos ele afirmou afirmativamente a sua negação em pertencer a redes sociais. O que terá pesado para agora o encontrar, alegre e dinâmico, a mandar piadas, a partilhar fotos e a anunciar o seu estado de espírito diário? Terá percebido que sem o Face perdia a sua antiga aura? Sentiu-se obrigado a arranjar este aliado?
Por outro lado, no primeiro fim-de-semana de Setembro organizou-se um encontro dos soldados que fizeram tropa em Beja, nos idos de 66. O meu pai, convidado, não pode comparecer, com imensa pena dele. Falando com os organizadores da coisa mencionou o Facebook alegando que era via através da qual podia ver depois as fotos que tirassem. Lá do outro lado perguntaram Ai tu tens isso?
Dias depois o meu pai recebeu no Facebook algumas imagens do jantar. Primeiro não percebeu quem era aquela gente que o contactava, depois fez-se luz: eram filhos e netos dos que tinham estado no convívio que, segundo consta, foi memorável, muitas recordações, muita conversa, muita vida.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Riso triste

A minha mãe não sabe do telemóvel e pede ao meu pai que lhe ligue para ver se o encontra.
Ele vai buscar o seu próprio telefone e marca o número. Do meio das almofadas do sofá ouve-se um trimmmm. Ela agarra-o, vira-se para o meu pai e diz:
- Olha, és tu que me estás a ligar! Para quê?
Não conseguimos evitar rir, mas é muito triste.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Ai a minha cabeça


Lembro-me de uma vez dizer à minha avó que determinada peça de roupa não se passava a ferro daquela maneira. Assim que o disse, arrependi-me. Senti-a magoada e triste. Eu não sabia passar a ferro nem daquela maneira nem doutra, mas via a minha mãe a fazê-lo de outra forma e abri a boca para deixar sair asneira. Sempre amei profundamente a minha avó e o meu avô, e embora fosse muito pequena – não tinha seis anos, fui fazê-los a outra casa, por isso sei a idade que tinha – nunca mais me esqueci daquele episódio. Ela estava apenas a ajudar da maneira que sabia e mais nada.
Ao longo dos anos sempre que ia a casa deles no Alentejo, em pequena, na adolescência e já adulta, sempre fiz o maior número de coisas possível para a ajudar, ouvindo-a sobre a melhor maneira de o fazer, mesmo que não coincidisse com a minha opinião. Raras vezes os meus avós se aborreceram comigo e mesmo quando teimava lavar roupa no tanque debaixo de grandes calorinas, sorria com carinho verdadeiro para que ela não se zangasse comigo e me deixasse estar molhada das unhas dos pés até à raiz do cabelo.
Agora lembro-me disto a cada dia que passa por causa da minha mãe que continua a ir de vez em quando a minha casa ajudar-me com a roupa e as limpezas mas, já não sendo a cabeça o que era, os resultados são um pouco insólitos: em vez de estender a roupa lavada que está na máquina, põe-na a lavar outra vez; passa a ferro e pendura roupa com manchas; limpa o pó mas esquece-se de um móvel; guarda comida no forno e não no frigorífico, entre outras coisas.
Muitas vezes rimo-nos das coisas que ela faz, um riso espontâneo mas assustador, que nos faz antever o amanhã, um amanhã sem memória. Há dias saiu de casa com o telemóvel no bolso e precisando de fazer um telefonema carregava nas teclas mas não acontecia nada. Pediu ajuda ao meu pai que, não se aguentou, e desatou a rir: ela tinha levado o comando da televisão em vez do telefone. Já depois disso, enquanto fazia o jantar o meu pai via um programa de televisão sobre snooker; ela chamou-o para a mesa e ele foi mas não apagou a televisão; ela foi à sala desligá-la e, vendo a mesa de pano verde a ocupar todo o ecrã  perguntou-lhe se ia haver bola e quais eram as equipas… É claro que nós brincámos a dizer que era sem dúvida um problema de vista, pois tinha confundido uma mesa de snooker com um campo de futebol.
A minha mãe apercebe-se que a memória está a falhar, fica angustiada e repete ai, a minha cabeça.... Pede-nos que demos recados ao meu pai, cuja cabeça funciona como um relógio suíço, escreve tudo em papéis que ficam colados no frigorífico, embora se esqueça de ler esses papéis e a recente operação do meu pai deixou-a de rastos fisicamente. As deslocações a Lisboa, coisa banal para qualquer um, são aventuras para ela e apertos no coração para mim, que morro de medo que se perca.
Sinto-me aprisionada num campo de forças invisível como se fosse uma personagem do Espaço 1999 que tanto gostava de ver. Vejo fotografias com uma mulher determinada e um homem forte que conheço bem e não os encontro em parte alguma. Para onde foram?
A minha irmã vive longe e eu, por via da proximidade, tenho outra responsabilidade, outro olhar, como se estivesse sempre acordada como fazia nos primeiros dias de vida do Duarte, com medo que lhe acontecesse alguma coisa. Até a dormir me preocupo e dou por mim a pensar que não posso estar doente, senão, que será deles?
A idade fá-los teimosos, a ambos. Dou-lhe um desconto maior a ela, sei que não sabe, que não se lembra. Nos últimos anos de vida do meu avô, pai da minha mãe, as conversas decorriam em torno de uma realidade com décadas, mas como se aquilo tivesse acontecido ontem; a baralhação de tempos era inacreditável, acompanhá-lo em tantos calendários, era impossível. A minha avó chamava-o para almoçar, por exemplo, e ele teimava que tinha acabado de comer. Teimava também em ir ver terras que já não lhe pertenciam, que tinham sido vendidas, informação contra a qual ele se insurgia, pondo-se a caminho com a força de um homem do campo que leva tudo à frente e não admite obstáculos. Nesta fase já não tinha consciência que a memória estava irremediavelmente danificada, e eu pergunto-me quanto tempo falta para que a minha mãe esteja assim. Pergunto-me também, num sussurro, muito baixinho, quanto tempo falta para que eu esteja assim também.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Prova superada!

Das vezes em que fui submetida a cirurgias começava o dia com a expectativa das visitas. Quando elas chegavam eu rezava interiormente para que se fossem embora. Até aí achava que a expressão 'cansar os doentes' era um bocado vazia de conteúdo, hoje sei que não é assim.
Carótidas desobstruídas, doente com com bom ar, cá deste lado respira-se de alívio e pondera-se seriamente em desligar o telefone.
Ontem demorei horas a fazer o jantar e lembrei-me de Duas Mulheres em Praga, de Juan José Millás, penso que é este, no qual uma das personagens ata o braço direito para se forçar a fazer tudo com o esquerdo: eu ia mudando de braço e mão, mas usando um à vez pois estive horas ao telefone e ia desligando quando entrava outra chamada ou tocava outro telefone. Todos queriam saber notícias da operação e o meu telefone parecia uma central de informações médicas. Às tantas já respondia maquinalmente e os últimos dois telefonemas foram remetidos para hoje, atendidos que foram já na cama e só os atendi para que as pessoas em causa não lhes atendendo eu, fossem ligar à minha mãe.
Agradeço muitíssimo todos estes cuidados, como é óbvio, prova provada dos amigos dos meus pais, mas confesso um cansaço enorme.
Por outro lado, tinha já dezenas de telefonemas não atendidos ao longo do dia, na maioria de amigos já reformados que, querendo saber novidades, não se lembram que estou a trabalhar e que não posso estar ao telefone nas calmas. Assim, a um deles disse-lhe que lhe ligava logo, sendo o meu logo mentalmente ao fim do dia. Um quarto de hora depois estava ele a ligar novamente alegando que eu dissera logo e ainda não tinha telefonado.
Respiro fundo duas ou três vezes e digo estar muito ocupada. Mas ele só quer saber como está o meu pai. Está bem, digo eu, parva e ingénua. Onde é que duas palavras chegam numa situação destas? Ele quer saber a que horas entrou no hospital, a que horas devia ter sido operado e a que horas foi mesmo operado, qual a razão do atraso e mil outras coisas. Repito que não posso estar a falar, que estou a trabalhar e ele condescende não sem antes me arrancar uma promessa que telefonarei de novo. Logo. Sim, mas não logo logo, ao fim do dia. E atenção: o meu fim do dia é já de noite.
Concluindo, ontem estava mesmo cansada e já com uma ponta de irritação, mas hoje revejo tudo e tenho vontade de rir, principalmente lembrando um dos meus interlocutores que queria falar com a minha irmã ao telefone e me disse que lhe ligaria à hora do almoço, sabendo que almoçaria em casa. Sugeri que não o fizesse e que optasse pela noite, pois ao almoço é sempre tudo a correr. Ele respondeu-me incrédulo que mesmo que ela comesse batatas fritas com ovos estrelados sempre os demorava a fazer, a pôr a mesa, a comer e tudo isso. Imaginando a minha irmã a comer à pressa qualquer coisa já pronta tirada do microondas, sorri interiormente perante o abismo que existe entre duas verdades.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Dia do Pai

O Dia da Mãe foi essencialmente Dia do Pai.
Logo de manhã não houve missa como é costume com os meus pais, eu não fui à praia, não caminhei ao longo do paredão, não tranquilizei o espírito e cansei o corpo como é habitual. Deixámos o meu pai no Hospital de Santa Marta para ser operado às carótidas nas quais tem uma obstrução de 95%. É obra.
A minha mãe e eu a misturar tristeza e preocupação, ele habituado, mais uma, já lhe perdeu a conta, são para cima de cinquenta cirurgias.
Para entrar há que fazer um registo novo. As enfermeiras e enfermeiros, médicas e médicos vão passando e cumprimentando-o como se ele estivesse no átrio de um hotel onde tinha decidido passar umas noites. A enfermeira que lhe processa a entrada discute com ele problemas pessoais, pede opinião, fica feliz por ele lá estar para se aconselhar com ele, psicólogo, padre, médico também, amigo acima de tudo.
Assisto a tudo com os braços apoiados no balcão, somos só nós, é Domingo de manhã, até parece que abriram o Hospital para ele, para além do pessoal médico, mais ninguém. Intervenho apenas na parte em que a senhora pergunta quem é a pessoa de contacto e quer confirmar o telemóvel, sou eu, sim, é tudo igual ao da última vez.
Com receio que lhe roubem o telefone ele não quer ficar ligado ao mundo. Depois do almoço não lhe podemos dizer que o Duarte ganhou o jogo e marcou dois golos, que almoçámos em minha casa um almoço de Dia da Mãe com um puré de batata doce e pêra que eu vira alguém fazer na televisão na noite anterior e que estava mesmo bom. A meio da tarde não lhe podemos dizer que insistimos em ir lanchar a um sítio diferente com a minha mãe mas que ela não quis, angustiada, assim como não quis ficar a dormir na nossa casa. Já de noite não lhe pudemos dizer boa noite.
Hoje de manhã fui dizer-lhe bom dia esperando encontrá-lo a recuperar da anestesia. Estava composto com o fato da cirurgia, de azul cinema, com fome, mas aguardando que uma urgência que tinha chegado de madrugada se despachasse, para ser ele a dar a volta no carrossel da mesa de operações. As enfermeiras e demais pessoal deixaram-me falar com ele um minuto. Foi bom.
Agora faça o que fizer, estou na sala de espera e esperar é das coisas mais insuportáveis que há. Quando já sabemos o que nos espera, aguenta-se melhor, como por exemplo eu esperar sempre secretamente que o pai do meu filho me parabenize no Dia da Mãe, coisa que não acontece. O Duarte ofereceu-me um CD de música, entregue dois dias antes pois, sabendo que ia passar algumas horas a conduzir, decidiu entregá-lo de avanço para que o pudesse usufruir.
Em dia de cirurgia tudo o que faço tem um enorme risco associado, como se as minhas acções estivessem, eles próprias, na mesa de operações. Esperemos.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Apanhada!

Da minha inteligência já falam os anais, os antigos como quem adivinha, e os actuais, como quem confirma. E não é para menos...
Tendo ficado em casa com o tornozelo avariado decidi não dizer aos meus pais para não os preocupar, e não os pôr a caminho cá de casa para se certificarem que estava deitada e dispostos a fazerem tudo.
Assim, garanti a cumplicidade do Duarte e da minha irmã, mantive as rotinas de contactos durante o dia, menti até com os dentes que me faltam afirmando estar a chegar a casa e cheguei a avançar com estados do tempo no centro de Lisboa, onde eu não tinha estado. Não me pareceu grave, tendo em conta o objectivo maior.
Porém, no Facebook deixei uma qualquer mensagem sobre andar a coxear que a senhora minha mãe ontem leu, bem como os comentários a desejarem melhoras, coisa com a qual ela ficou francamente aborrecida, mesmo com as minhas alegações que só queria minimizar-lhe as preocupações.
Uma maior proximidade física e uns anos a menos e teria apanhado um par de açoites! Então mente-se à mãe?

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Balde de água fria


Depois da tempestade vem a bonança. Costuma ser assim. Mas também pode ser ao contrário.
Saímos do hospital em procissão, quais peregrinos agradecidos, a graça foi-nos concedida: o meu pai não será operado tão cedo. Chovem telefonemas que são atendidos com o mesmo sorriso de satisfação e a informação repete-se.
Passa uma semana e já nos habituámos a não reter a respirar com medo das notícias, pelo menos por ora navegamos sem perigo à vista.
A menos que telefonem a dizer que houve um engano, que uma análise mais centrada dos exames dite exactamente o contrário, que a coisa é muito mais grave do que parecia e afinal não há alternativa, é operar, com escassos pontos percentuais de probabilidades de não cortar.
Atendo o telefone a caminho de uma curta reunião. Deixo de sentir os braços e fico com tonturas. Um engano?
Sinto-me uma criança a quem tiraram o brinquedo preferido e penso imediatamente no euro-milhões; não, não precisa de ser aquela batelada de milhões, o necessário para uma cadeira de rodas chega.
Não, não chega, quero-o todo!
Quero comprar a mais sofisticada cadeira de rodas que já existiu, quero comprar uma prótese digna de um atleta olímpico, e um carro adaptado, o melhor que alguma marca de carros já construiu; quero comprar uma casa rasteira com jardim e com quintal, sem escadas; quero bilhetes em primeira classe no avião mais rápido do mundo para os levar a Roma, onde rezem o que lhes for na alma, e dali a Paris para que conheçam a cidade que lhes suscita curiosidade e onde nunca foram, num passeio que dure o tempo que lhes apetecer; quero comprar outra casa, lacustre de preferência, para que estejam na praia sempre que lhes apetecer e a minha mãe a decore como bem entender; quero comprar todos os bilhetes de teatro e cinema e dança e exposições e tudo em todo o mundo para que se deliciem com o que gostam; quero comprar todos os dicionários que existem no mundo e apagar a palavra Engano; quero que a operação corra bem.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Paciência de santo


Sucedem-se os exames médicos. Antigamente os senhores doutores eram poupados nas previsões como se antecipando chuva a gastassem. Agora não, dizem tudo e mais um par de botas, não há cá poupanças nas doenças e suas consequências, pão pão, queijo queijo. Assim, avizinhando-se um corte daqueles à moda antiga, a ansiedade cresce.
Terça de Carnaval foi um dia animadíssimo no Hospital de Santa Marta, aguardando que os exames finais se fizessem. Ontem foi dia de consulta para que o sôtor visse as imagens que lhe enviaremos para o computador. Mas o sôtor não viu, não por culpa dele, mas por que há sempre alguém pior que nós. Volte cá na quarta-feira senhor Bento, foi dito com tanto carinho que parecia meu irmão. 
O meu pai tem um sotaque que a maior das pessoas atribui à sua nacionalidade finlandesa, ucraniana, espanhola, eu sei lá, venham nacionalidades e qualquer uma serve. Ganhou esta característica bem como um ligeiro gaguejar com um AVC há uns anos. No hospital há pessoas que o preterem para perguntar qualquer coisa pois não se pergunta nada a um estrangeiro, como é óbvio. 
Ainda assim ele vai ajudando nas explicações, não, hoje não é dia do doutor Fulano dar consulta, ele está cá mas está no bloco, olhe minha senhora, esse assunto é no edifício ali do lado, entre no claustro, sabe, aquele jardinzinho, e vire à sua direita, sabe ler?, desculpe a pergunta, sim?, então assim que virar à direita vê logo a indicação da Radiologia. 
Nem todos agradecem e há quem se insurja violentamente sem perceber que nos estar num hospital é esperar, esperar o tempo que for preciso.
No dia dos exames tirou-se uma senha e sentámo-nos. Imediatamente a seguir apareceu outro cliente de Santa Marta, já conhecido, mas que nasceu em época de férias da paciência. Não tardou que o homem começasse a falar sozinho, que isto não pode ser, que não se despacham, que aquilo não é a vida dele, e que isto e que aquilo, e toda a gente a assoprar com a ladainha do homem.
Com infindável paciência o meu pai dirigiu-se ao homem e disse-lhe que ia no 2 e que lhe dava a senha 3. O homem aceitou imediatamente, com um obrigado entre dentes e calou-se. 
Verificado o novo número era o 4, o meu pai sorriu e disse baixinho:
- Não custa nada, pois não?

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

A minha tesoura não se chama Dalila


Namorava eu com o pai do Duarte quando ele foi para a tropa. Primeiro em Tavira e depois em Oeiras, a farda verde assentava-lhe que nem uma luva. Também podiam ser os meus olhos que estavam vesgos, não sei.
Dois ou três dias antes de se ir embora, apanhando o barco para o Barreiro e daí de comboio até ao Algarve, na companhia de dois amigos de longa data, assim ditou a sorte, disse-me que eu o ia ver como nunca o tinha visto e que ia ter uma surpresa.
Para quem não era rigorosamente nada dado a surpresas só podia ser qualquer coisa a que fosse obrigado e se ia para a tropa e eu o ia ver como nunca tinha visto, só podia ser uma rapadela de cabelo.
Estava um dia de sol quente quando ele tocou à campainha e eu confirmei pelo olho-de-boi que a máquina lhe tinha passado pela cabeça. Ao contrário dele, eu adorava – adoro – surpresas. Por isso, quando abri a porta o sorriso dele desfez-se: se a carecada dele era grande a minha era maior.
Tenho algumas fotografias minhas com ar de G. I. Jane, nunca mais voltei a cortá-lo daquela forma, mas já dei cortes valentes e sábado passado foi outra vez dia de corte radical.
As madeixas louras deixaram minúsculos filhotes perdidos nas ondas que permaneceram e vou entregar a colecção de ganchos, elásticos e badoletes à minha única herdeira destes materiais, a minha sobrinha.
A intratável cabeleira desapareceu na manhã seguinte a um - outro - enorme susto: há quem dê voltinhas de carrocel e há quem conheça e acompanhe as voltas dos avc’s.
O meu pai é veterano de avc’s e a proximidade da data fatal do exame que o vai levar à amputação descontrola-o completamente.
O que tem um corte de cabelo a ver com um avc ou uma amputação? Não, não é anedota, é a pura da realidade. Deixando que o espelho me olhe de forma diferente acredito que consigo aceitar qualquer mudança. Perco uma coisa pela qual me elogiam, especialmente nos dias de grande selvejaria que não domino, uma ponta para cada lado, ondas a mudarem de lugar como se tivessem vontade própria, e ganho tantas outras coisas. Desde logo uma poupança em shampoo e creme amaciador. O secador vai ter um uso residual. A minha sobrinha vai adorar a caixa cheia de apetrechos. Nunca vou ter madeixas na cara mesmo em dias de vento e um sem fim de outras coisas positivas.
Cá dentro não há mudanças. Ou talvez haja: corta-se de um lado para se fortalecer de outro, ao contrário de Sansão a minha força não reside no cabelo mas nas raízes que me garantem que a vida continuará o seu percurso.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Saltemos!


Fruto de uma vida passada com muitas horas em pé, a que se junta uma alimentação bem portuguesa com tudo a que se tem direito no universo dos presuntos gordos e afins, falta de exercício físico e uma média de horas de sono muito aquém do recomendado, o meu pai tem uma colecção única de operações às artérias.
Se as primeiras se ficaram por banais limpezas, passou depois a desobstruções que obrigaram a outras logísticas, cujos sinais de trânsito interrompido nem se percebia se eram provisórios ou definitivos. Ah, o tabaco também não ajudou lá grande coisa, não sei porque me lembrei de repente, mas é verdade.
Quando as simples desobstruções não fizeram efeito, os cirurgiões optaram por umas quantas ligações directas, fazendo das pernas do meu pai uma espécie de patchwork arterial.
Consequentemente, da mesma forma que a minha mãe muda de óculos de sol, o meu pai muda de bengala. Não sendo o caso para brincadeira, temos que o levar o melhor possível, combatendo as angústias que se geram, o medo do desconhecido em forma de amputação de um pé, a perca da liberdade física como se conhece.
De entre os problemas de saúde há os chamados cromos doirados e um dos do meu pai é um AVC, vários até, mas um que se destacou pela intensidade e pelo rasto dos estragos.
Ora, agora dizem-nos que as obstruções se verificam num grau de 95%, daí a urgência de nova operação. Porém, o historial dos avc’s põe travão à urgência e pede exames complementares para se pesar o risco de um lado e do outro.
A minha mãe está presente na consulta e ouve o médico dizer que as possibilidades do meu pai ficar na mesa de operações são elevadas (sic). As palavras não foram brutas, de modo algum, apenas não se cozinharam e foram proferidas cruas. Nem lumes brandos, nem entaladelas.
O portão do hospital exala desânimo e as pedras da calçada parecem ter ímanes que nos dificultam o andar. Cumpre-me falar do mundo, de tudo e de nada, e faço-o com a ajuda do meu filho e de uma amiga que estava connosco.
Construo diques e uma barragem ou outra na conversa de modo a conduzi-la para saltos de para-quedas, um sonho que o meu pai tem desde sempre, que nunca concretizou e que se diz pronto para o fazer, independentemente das circunstâncias.
Falo num velho com oitenta e tal anos que o fez há meia dúzia de dias. Um velho de oitenta e tal anos! O meu pai tem setenta, é um gaiato.
Perante a ideia a minha mãe insurge-se contra as minhas loucuras. O meu pai alarga o sorriso como se pensasse em qualquer coisa que está na dimensão dos sonhos irrealizáveis e, de repente, lhe aparecesse à frente em carne e osso.
Pelo meu lado sinto o coração bater mais depressa. Nada é melhor que fazer os outros sorrir. Saltemos. 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Pensamento positivo


Uma das memórias mais persistentes ao longo da minha vida é a de ir visitar o meu pai ao hospital. Perdemos a conta às operações, desde um simples arrancar de amígdalas até ao corte e costura das veias das pernas, um trabalho de patchwork cirúrgico, em cujo último acrescento fomos informados que já nada havia a fazer. A partir dali era cortar. Um pé.
Esta espada sempre pairou sobre as nossas cabeças como as nuvens altas que levam chuva mas vão descarregá-la noutros locais. Até um dia. Não se fala desse dia, não vale a pena, é ir vivendo 24 horas de cada vez e deixar o tempo passar.
Vai chegar uma altura em que a nuvem não se afasta e larga uma borrasca em cima de nós. Esse dia tem vindo a aproximar-se, sorrateiro, e agora manifestou-se oficialmente sob a forma de obrigação de nova operação, ainda em Janeiro.
Concientes das implicações, estamos em pânico. Damos força ao doente mas por dentro arrepiamo-nos até ao último osso e contemos a vontade de chorar.
Sabemos que há coisas piores mas neste momento esta é a pior de todas.
Imaginamos o amanhã com cadeiras de rodas, com próteses, com mudanças profundas numa dinâmica de vida que hoje é quase normal, fruto da utilização do carro. Pensamos num carro adaptado e no euromilhões para o conseguir.
Pensamos nas nossas próprias vidas e na revolução a que vão ser sujeitas se quisermos que o meu pai continue a fazer parte das saídas, que assista aos jogos de andebol do Duarte, aos de pólo aquático do meu sobrinho, que possa ir visitar amigos, ao café, de férias,…
A última semana foi desgastante para mim em termos de trabalho e esta notícia arredou-me da vontade de falar e até de escrever, como se meia dúzia de palavras tivessem o condão de nos paralisar os braços, as pernas, o pensamento, a vontade própria.
Faço um esforço para me concentrar em tudo sabendo que a minha condição de bibliotecária, e não de médica, não me fará dar ajuda substancial mas desajudarei, e muito, se ficar a moer o assunto.
Lembro-me do meu querido M., agora em Angola, e dos seus conselhos valiosos face a qualquer coisa sobre a qual nada podíamos fazer. Tento segui-los com pouco sucesso, mas com muito esforço e empenho: dispersar o pensamento, agarrarmo-nos a mil coisas e instituí-las como essenciais no nosso cérebro; aceitar dez trabalhos diferentes em simultâneo, estar com amigos e beber uns copos. Confesso que me apetece e muito… mas por ora entrego-me ao trabalho que, convenhamos, me tem ajudado bastante e nunca me agradou tanto uma onda assim como agora.
Pensamento positivo e esperança, convenço-me eu, rapariga sem fé pois, na verdade, quem tem fé não pode ter esperança. Mas isto são outros quinhentos para outro dia. Fiquemo-nos pelo pensamento positivo.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

O mercado da Brandoa


É Domingo de manhã. Não tenho carro que me leve até à areia da praia e daí possa dar asas aos pés durante alguns quilómetros. Bem, o que não falta na cidade da Amadora são estradas e ruas e caminhos, por isso, vamos embora.
Dou por mim a andar em direcção à estação de metro e com o aproximar vejo gente com sacos e saquinhos e lembro-me: é dia de mercado da Brandoa.
Quando viemos morar para Lisboa ficámos na casa de um tio meu que estava em África; entretanto fomos vendo casas com sucessivas recusas peremptórias da minha mãe face às sugestões do meu pai:
Buraca! Qué lá isso? Com um nome desses nem dá para calçar saltos!
Porcalhota! Bento! Só podes estar a brincar…
Brandoa! Brandoa… vamos lá ver isso…
A viagem foi de comboio até à Amadora e dai de táxi – ou melhor, de táx… - para a Brandoa. Chegados lá, a senhora minha mãe põe um pé fora do táxi no meio do maior lamaçal de que há memória e perde um sapato, assim, sem mais nem menos, sapato que nunca se encontrou naquele mar de lama. Eu nem cheguei a sair do táxi.
E assim se riscou a Brandoa do mapa e ficámos nesse outro maravilhoso subúrbio que se chama Cacém.
Isto para dizer que associo Brandoa a lama e assim será durante os próximos cem anos, mesmo que lá passe de carro com muita frequência.
Sou habituée do mercado do Algueirão, pelo-me por uma boa feira e na Brandoa revivi Belleville. Quem diz que conhece Paris e nunca foi a Belleville não conhece nada, nadinha, zero!
Com um morro afavelado lá atrás, vizinho da estação de metro, a Brandoa pode meter medo a uns quantos, mas a mim, pelo menos o mercado, fascina-me: brancos e pretos e chineses e indianos e barracas de couratos paredes meias com os montes de roupa e fumo dos choriços assados ao lado de hortaliças lindas de comer e plásticos e meias e cuecas e tudo!
É neste mercado que mora o Fanan, o verdadeiro Fanan, aquele que aparecia num programa de televisão em frente de uma roulotte, com casaco de pura pele de crocodilo, rabinho de cavalo, bota bicuda a esconder a peúga branca.
Os Fanan’s deste mundo conhecem as cervejas por bejecas e enfardam bifanas enquanto o crucifixo lhes balança ao pescoço e o mindinho levantado ostenta um anel de ouro… ou isso; são reis e senhores nas suas enormes gargantas e, se fosse de Verão, ainda iam dar uma cacholada a Carcavelos.
Vi belos exemplares de ladies em fato de treino e sapatos que atestam a genuinidade do local, onde voltarei, como é óbvio. Não faltavam pechinchas, faltava-me a mim o carcanhol, caso contrário viria de lá envolta num casaco de pele de leopardo, calçada com uns Manolos. Não por causa da lisura da carteira mas pelo incómodo do transporte – a pé! – não comprei nenhum ramo de hortaliça, embora fossem de meter pelos olhos dentro.
Planeia-se já nova incursão, desta feita em excursão com amigas a reboque. Não posso falar muito se não ainda tenho mesmo que alugar um autocarro.