Mostrar mensagens com a etiqueta Erasmus. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Erasmus. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 4 de julho de 2012

A cotchia


No sábado levei o meu visitante espanhol a visitar Aljubarrota pois numa conversa casual afirmara nunca ter ouvido falar de tal coisa.
Belas sardinhas almoçadas na Nazaré e uma passagem por Óbidos, fizeram um dia magnífico onde não faltou um mergulho nas águas nazarenas, pouco quentes e muito revoltas.
Embora fale muito bem português, tem sotaque cerrado e, de vez em quando, falta-lhe uma palavra ou outra, mas em geral percebe tudo.
Descíamos nós o ascensor para a praia na Nazaré quando a minha amiga C., que passou o dia connosco, decidiu dar o ar da sua graça em castelhano e lhe perguntou se gostava mais do lugar à janela ou na cotchia? O olhar interrogador do José teve que esperar uns bons minutos até me parar o ataque de riso e explicar que ela queria dizer pasillo, mas tinha espanholado a palavra portuguesa coxia.
A pobre da C. levou com cotchias o resto do dia, prolongado até Domingo, dia em que ele se foi embora, depois de uma espera de quatro horas no aeroporto de Lisboa onde, sem grandes explicações, lá o meteram num avião perto das oito da noite.
A C. tinha elogiado a TAP o fim-de-semana inteiro mas o José diz que TAP nunca mais, nem à janela nem na cotchia… 

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Alhos e bugalhos

Há muitos anos os meus pais aceitaram a ajuda do pai de um primo meu por afinidade para pintarem a casa de alto a abaixo. O Sr. Ribeiro era especialista na matéria e não deixava cair pingas no chão, coisa que a nós nos fascinava pois, em ocasiões anteriores, o chão, apesar de resguardado com tapetes velhos e jornais, ficava quase tão pintado como os tectos.
Lá nos dividimos entre 'pintores' e ajudantes e calhou a minha mãe ser ajudante do Sr. Ribeiro, que nascera em Baião e transportava com ele toda a cultura e tradição do Norte.
O Sr. Ribeiro era, e ainda é, muito conversador e dono de uma enorme simpatia, mas tinha um sotaque denso e cerrado. Lá do alto do escadote falava, falava, falava e a minha mãe dizia Sim, Sr. Ribeiro, Pois, Sr. Ribeiro e andava neste pingue-pongue, e o homem de pingue-pongue também, sobe e desce do escadote, até que Sr. Ribeiro foi pedir outro ajudante, alegando que a que lhe coubera em sorte não falava a língua dele e ele pedia isto e aquilo e ela que Sim, Sr. Ribeiro e que Pois, Sr. Ribeiro, mas nada de fazer o que ele pedia.
Lembrou-me este episódio a propósito da semana espanhola aqui na biblioteca, que está a terminar.
Quando estive na Universidade em Madrid falei sempre castelhano e agora combináramos que todas as conversações seriam em português, que o José domina bem, apesar do sotaque carregado. 
Pedi às pessoas com quem ele contactou durante estes dias que falassem devagar, pois se assim fosse ele entendia tudo. 
Porém, nem sempre assim aconteceu e a propósito de uma colega que fala à velocidade da luz, a que alia um leve sotaque nortenho, perguntou-me ele se ela era brasileira, pois não percebia metade do que dizia. Desatei a rir pois, há tempos, eu tinha estado com ela em S. Paulo, e tinham-me perguntado se ela era espanhola...
Com uma outra colega, que também fala depressa e com quem eu brinco amiúde, acusando-a de não ouvir o que se lhe pergunta, surgiu a seguinte conversa:
- Vais para França nas férias? Para que cidade?
- Vou na TAP, que não confio noutras companhias
Se tudo isto se passasse num estúdio de televisão eu era aquela pessoa contratada para dar gargalhadas... 

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Boa vizinhança

Depois de ter estado a fazer Erasmus na Universidad Complutense de Madrid, recebo agora um colega de lá, aqui na Biblioteca.
O conhecimento data desde essa altura tendo existido uma empatia mútua desde o primeiro dia. Burocracias assinadas, a permanência na Biblioteca tem sido diária e não há nada de especial a assinalar. 
Ontem disse-me que ia ver o jogo de futebol sozinho, no quarto do hotel, não sei se apelando à minha humanidade ou só para fazer conversa. 
Assim, combinámos assistir à partida juntos - eu percebo de futebol na medida em que sei quem são os jogadores giraços - e escolhemos um bar aqui perto onde, na companhia de uma amiga minha - igualmente sabedora de muita coisa, onde não se inclui o futebol - e no meio de umas tostas de tomate, frango e atum, diante de uma televisão de tamanho considerável, lá fomos assistindo à tortura da bola, consubstanciada em tanto pontapé que levou, de um lado e do outro. Aquilo era raiva ibérica, tudo a dar no esférico com quanta força tinham.
Escusado será dizer que o José era o único espanhol e que ouviu todo o tipo de impropérios dirigidos aos seus conterrâneos, coisa que não o afectou em nada e que não lhe tirou o sentido de humor e a vontade de rir. 
Pela minha parte discuti com a minha amiga os pormenores da equipa adversária sobre os quais tenho efectivo conhecimento, tendo o Iker e o Sérgio levado a palma. 
Com a minha única tatuagem, senti-me uma caloira, uma verdadeira noviça diante do Raul Meireles. 
Amei de paixão o cabelo do Ronaldo que me faz lembrar o de Roger Moore em O Santo: podia mergulhar, saltar de um penhasco, correr no meio de um tufão, mas não havia um cabelo em desalinho, nem um! 
Já o do Fábio Coentrão, visto de costas, é a cara chapada de uma galinha de pescoço pelado, assunto a que se deverá dar atenção, pois os cientistas descobriram que as galinhas da Transilvânia com esta característica são mutantes. Ora, ser mutante é uma maçada que nos manda para a ficção científica e a Transilvânia faz-nos lembrar aquele rapaz, o Vlad (não sei em que equipa jogava) mas consta que era um bocado violento.
Por outro lado, gosto imenso do Rolando que me recorda Roncesvales, Carlos Magno e toda uma elite nobre, aqui na vertente africana. 
Tive imensa pena de não ver jogar Rúben Micael para poder torcer por ele, repetindo uma das sete maravilhas do mundo em termos de casamento de nomes.
O meu amigo José assistia quase em silêncio não fosse ser denunciado como uma espécie de raposa no meio do galinheiro, e no final pagou a conta, por sugestão dele logo ao início: Paga quem ganhar. 
Viva a boa vizinhança.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A pobreza consiste em nos sentirmos pobres*

A maioria das pessoas que anda a pedir em Madrid é diferente dos que pedem em Lisboa pela simples razão que dão algo em troca, ou seja, exercem uma tarefa voluntariamente e esperam que lhes demos algo em troca. No metro sucedem-se as modalidades de músicos: um com um carrinho de supermercado coberto com uma lona que esconde uma aparelhagem, põe-na a tocar e acompanha com uma flauta; violas põe-nos o pezinho a bater, gaitas-de-beiços fazem-nos assobiar, instrumentos diversos gingam-nos, há quem faça malabarismos, mímica, contorcionismo. As pessoas dão qualquer coisa, pois não lhes pedem por pedir. Mesmo que não se dê nada, agradecem. Fizeram-me lembrar o cego que anda a pedir no metro em Lisboa e que bate com a bengala nas pernas das pessoas com violência e lhes dirige todo o tipo de impropérios, fazendo calar as carruagens; ninguém diz nada porque é cego, caso contrário já teria levado umas bofetadas, no mínimo. Como todos conhecem o seu comportamento a única coisa que fazem à sua passagem é encolherem-se e desviarem-se o mais possível, quantas vezes para dentro do minúsculo espaço dos que vão sentados: é melhor pedir desculpa do que levar com a fúria do cego que leva tudo à sua frente, não por ser cego, mas por ser bruto. Quando chega ao final da carruagem sem que alguém lhe tenha dado um cêntimo critica a virtude das mães dos passageiros e junta-lhe todo o calão da língua portuguesa.
Na noite que esperava por José Ignácio por baixo do falso quilómetro zero, veio uma mulher a puxar uma mala de viagem em cima da qual se equilibravam dois sacos de boa qualidade. Dirigiu-se a mim e pediu-me dinheiro para ir para o aeroporto. Perguntei se tinha perdido a carteira e esta minha pergunta fez-me sentir um apresentador de circo que anuncia o próximo número; ouvi a história dela: veio das Canárias em busca de trabalho que não conseguiu arranjar, o marido maltrata-a e não a deixa ver o filho, está desesperada e não tem um cêntimo. Olhos claros, braços e pernas limpos, sem marcas, discurso fluente. Perguntei se tinha fome. Que não, uns estrangeiros pagaram-lhe umas tapas, os estrangeiros são mais simpáticos que os espanhóis, eu era uma excepção. Fiquei indecisa sobre se lhe devia dizer que eu era estrangeira e, dessa forma, matar-lhe a réstia de esperança nos espanhóis. Dei-lhe o dinheiro que tinha, razão pela qual passei um momento embaraçoso mais tarde com José Ignácio, eu a insistir em pagar mas como não aceitavam cartão, logo, ele que já tinha guardado a carteira, teve que a tirar de novo e responsabilizar-se pela despesa.
Contei-lhe a cena com a mulher e ele franziu um bocado o sobrolho, sinal que estava na dúvida se eu tinha feito bem ou não… as pessoas têm muitas manhas para se aproveitarem dos outros e eu devia acautelar-me.
Como tanta vez acontece, lembrei-me do Leão da Tunísia, o verdadeiro, o único, trapezista nos melhores circos do mundo que um acidente moveu, como peça de xadrez comida, para fora do tabuleiro da vida e de quem ouvi a história na primeira pessoa; fui a única a acreditar nele, contra vozes de cuidados que se ergueram e quase não me deixavam ouvir, fazendo assim perigar uma das mais belas descrições de vida que já ouvi. Ao contrário dos demais vim com a carteira mais leve mas com a memória mais rica.

*Frase atribuída a Ralph Waldo Emerson

Com um brilhozinho nos olhos

No segundo dia de estadia em Madrid fui visitar um bibliotecário que me tinha anteriormente contactado para fazer Erasmus na minha biblioteca. Deparei-me com um jovem a rondar os 30 anos, bem-disposto e alegre, que me convidou para um café e me cumprimentou como se eu fosse da família.
No primeiro contacto por escrito, não sei porquê, dissera-me que estava de regresso de uma longa viagem e foram estas as palavras-isco que me prenderam sem ele fazer a mais pálida ideia.
Desinteressada de grandes preliminares fiz a conversa avançar rapidamente e perguntei que longa viagem era aquela. Resposta:
- Samarcanda, Vietname e Cambodja. Já ouviste falar de Samarcanda?
O pobre do rapaz não fez, não faz, nem fará ideia do efeito que teve sobre mim e provavelmente pensou que o meu tímido ‘sim’ seria um ‘não’ que eu envergonhadamente queria esconder. Mas este pensamento só surgiu depois. Depois das palavras entrarem em mim, formarem um remoinho, provocarem uma onda submersa, com efeitos de tempestade tropical mas numa floresta sem vivalma, de modo que ninguém vê. Alguns dos meus músculos petrificam ao sabor de certas palavras que têm uma conotação mágica e José Ignácio conseguiu com apenas um acorde dizer três delas: Samarcanda, Vietname e Cambodja, ganhando a minha dedicação e atenção total sem o perceber e sem sonhar como é difícil alguém conseguir um feito épico desta natureza.
É claro que tudo isto tem enormes doses de inveja e ciúme e, sem dar a entender, projectou-se uma bela longa-metragem na minha cabeça: Samarcanda igual a Alexandre, igual a fabrico de papel, igual a Gengis Khan, igual a Marco Polo, igual a Rota da Seda, igual a sultão, igual a desejo.
Depois de algumas explicações sobre a viagem, começou a falar português e eu acordei do transe. Queria praticar e combinámos que cada um falaria a língua do outro.
Temendo estar a impor-lhe a minha companhia desviando-o do trabalho, fui embora com a promessa de me ir despedir antes do regresso a Lisboa. Disse-me que nesse dia arranjaria mais tempo para falarmos e foi assim que José Ignácio ficou hibernado o resto da semana.
Como alterei a data de regresso, disse-lho por msn e combinámos ‘tomar un vino’ na minha última noite.
Esperei que não trouxesse companhia e a trazê-la, que fossem os companheiros de viagem pois, para ser franca, o que me interessava verdadeiramente era ouvir o relato, de preferência nas línguas dos países visitados, mas também aceitava espanhol ou português com erros. Combinámos no quilómetro zero que eu, tão ansiosa estava, confundi com uma porcaria duma placa na parede que anunciava uma joalharia com o mesmo nome, e à porta da qual um vagabundo bebia e falava sozinho.
Já passavam quinze minutos da hora marcada e pensei que se atrasara pois decerto convidara alguém, colegas de faculdade talvez, da sua idade, que o ajudassem a conversar com a portuguesa que o iria receber em trabalho dentro de meses e com quem tinha que ser simpático. Dei-lhe mais quinze minutos, ao fim dos quais, se não dissesse nada, me iria embora pois não estava para aturar um bando de jovens atrasados que me levariam a um sítio turístico com certeza, onde se falaria muito alto e onde eu não poderia atingir o meu objectivo, ouvir a descrição da viagem.
Surpreendi-me com um telefonema dele a perguntar se estava tudo bem e se eu estava muito atrasada… Atrasada? Eu? Bem, lá esclarecemos o local do quilómetro zero, eu apelidei-me de tonta mas sorri porque ele fora sozinho.
Primeira paragem: cerveja com batatas fritas e anchovas. Tipicamente madrileno, segundo ele, encostados ao balcão, eu com uma mala com um caderno e o meu Kerouac, ele com um monte de papéis.
Segunda paragem: Los Gatos; cerveja e polvo à galega, apinhados com gente a falar e a rir e onde me foi jurado que o local estava vazio. Normalmente não se consegue entrar e do balcão vão passando as cervejas de mão em mão aos clientes pois o empregado não consegue passar.
Terceira paragem e seguintes, só cerveja e muita conversa: sobre a vida, as viagens, os emigrantes, os livros e mais mil coisas, até que ele comenta que agora está mais seguro pois ficou efectivo no trabalho: era arqueólogo e nunca sabia se tinha trabalho ou não, se as verbas chegavam para dar continuidade a escavações em Toledo onde vivia. Registei o facto de ser arqueólogo (tanto que havia a dizer sobre isto…) e com ar maternal perguntei-lhe se podia dar-lhe um conselho; entrei por um discurso sobre a sua idade, falei do caracter chinês comum a crise e oportunidade, falei da velha divisão das pessoas em momentos de crise quando umas choram e outras aproveitam logo para vender lenços, que não tivesse medo da vida, que não se apegasse a empregos que fariam dele uma fotocópia dos pais, que vivesse a vida de olhos bem abertos, para aproveitar e não deixar escapar oportunidades, que o mundo é de facto maravilhoso mas tem que ser explorado, visto com olhos de ver, ao vivo e a cores. Enfim, fiz-lho o discurso nº 1 para alunos cujo objectivo é licenciarem-se e de repente acordam com prestações de casas e carros e móveis e no meio desta vida rotineira e pesada fogem os sonhos que morrem sem alimento.
Ele ouviu-me a sorrir – a esta altura já tinha desistido de falar português embora eu seguisse num espanhol amantizado com a nossa língua materna – e perguntou-me que idade achava eu que ele tinha. Percebi imediatamente o fulgor da sua juventude a sentir um qualquer ataque, como tantas vezes acontece com o meu filho cuja idade o faz pensar que sabe tudo e vê os conselhos dos mais velhos como palavras ocas. Ou seja, concluí que falara demais…
Disse-lhe que não lhe dava mais de 32 achando que estava a ser generosa em lhe aumentar a idade e a resposta foi uma sonora gargalhada que subiu mais alto que todos os outros barulhos juntos. Tirou a carteira e provou que era quase da minha idade…
Continuou a rir e disse saber ter este efeito nas pessoas. Pagámos e saímos, para voltarmos a entrar mas desta vez num local com mesas e cadeiras onde nos sentámos e me contou o percurso de vida por alto, e eu senti-me dentro de Hudson, com Dean e Sal, a ouvir as suas descrições.
Por entre relacionamentos amorosos estivera em Toledo e em Dublin a viver, era arqueólogo, desistira depois a meio do curso de Direito por não lhe dizer nada e um dia descobrira as bibliotecas sobre as quais está a fazer um master e onde trabalha há anos.
Este percurso interessava-me cada vez mais e acabámos por ir embora quando a empregada nos veio pedir o dinheiro dizendo que iam fechar.
Fecham eles mas não a nossa conversa. Entrámos noutro bar, com cadeirões de verga e grandes cinzeiros que não eram para as beatas mas para as cascas de pipas. Não sei como, mas a conversa foi dar aos sobrinhos e ambos tínhamos uma enciclopédia para debitar. Ainda as histórias da miudagem iam a meio quando o dono nos põe a conta à frente, dizendo, Vamos fechar! Já?
Andámos pelas ruas a falar de diferentes cidades europeias, africanas, asiáticas. Está tudo fechado. De repente aparece um jovem a perguntar se queremos beber alguma coisa… ele conhece o sítio certo. Vamos? Vamos!
Começámos a andar como se a polícia viesse atrás de nós numa rua a subir que nos extenuou. Finalmente chegámos a uma porta que quando se abriu nos atacou a visão e a audição com luzes a mexerem-se rapidamente e música de discoteca…
O ‘tio’ que nos levara recebeu imediatamente a propina do que estava atrás do balcão; olhámo-nos mutuamente perguntando-nos em silêncio se ficávamos ou não. Porque não? Será diferente de tudo.
Em Madrid não há excepções para locais de fumo, nem com chaminés, exaustores, o que seja. É proibido e pronto. Por outro lado, não se pode estar à porta de copo na mão, a polícia não deixa. Então bebemos uma cerveja e saímos a fumar. Explico que em Lisboa se pode beber na rua e os bares e restaurantes aderiram à moda de colocar mesas de pé alto às portas, nos passeios, para satisfazer os clientes fumadores.
Concordámos que a hospitalidade portuguesa é maior que a espanhola e ele contou-me episódios passados em Portugal que comprovaram isso mesmo. Disse-lhe que o meu avô adoraria ouvir a conversa e contei-lhe um momento caricato doutros tempos: o meu avô foi ao Rosal de la Frontera, a aldeia mais próxima da sua, não obstante ser espanhola, e entrou numa acesa discussão com um espanhol, cada um argumentando que o chouriço do respectivo país era melhor que o do outro! Ora como a discussão era acompanhado de vinho, rapidamente tomou proporções épicas e acabaram os dois na esquadra da Guardia Civil a passar a noite. O meu companheiro de noitada disse-me com ar sério que se via também obrigado a defender o chouriço espanhol e acabámos a rir.
Quando saímos do tugúrio vi-me diante do Prado. Tínhamos andado assim tanto? Espreitámos o Monumentos a los Caídos por Espanha que vivia na minha ignorância. Eram quatro da manhã e estávamos com as caras encostadas aos ferros, eu aluna a ouvir, ele professor a explicar que a maioria das pessoas confundem o monumento com o do Vale dos Caídos, sem saber que me provocava uma certa tristeza por eu ser uma delas.
Nesse momento recordei uma noite magnífica em Hania, na ilha de Creta quando um companheiro polaco chamado Blazej – também bibliotecário – me levou descalça, para não acordarmos alguém, por um labirinto de ruas estreitas onde ele desencantara uma igreja ortodoxa na noite anterior, cujo chão estava coberto de velas acesas, numa manifestação de fé que as correntes de ar pareciam ser incapazes de parar. Aquilo era tão belo, tão sereno, tão inesperado, tão autêntico, tão nu, que acabei por perder os sapatos e tive que voltar atrás a buscá-los.
A experiência em Madrid não se revestiu do misticismo da de Creta, mas fez-me pensar que a maior parte das situações inesperadas que me acontecem e que não esqueço, são proporcionadas por perfeitos desconhecidos.
As cinco da manhã já se vestiam e aprontavam para sair à rua quando cheguei ao hotel. O meu companheiro e eu despedimo-nos com um afectuoso abraço, mas como quem se vai encontrar de novo no dia seguinte. Não faço ideia de quando será o dia seguinte, mas penso que fiz um amigo e coisa mais preciosa no mundo não há.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Máquinas de escrever

Foi com 45 anos e numa Europa em crise, mas que se movimenta para todo o lado e que integrou o conforto como obrigatório, que li o (clássico) Pela Estrada Fora. Será coincidência ter sido em período de Erasmus? Como se fosse uma viagem mais que geográfica, através do tempo? Do tempo antigo, do tempo perdido, do tempo alheio, do tempo eterno? Não sei, mas aconteceu assim.
Dei-lhe com os olhos numa prateleira lá de casa onde me andava a passar despercebido há anos (tem o preço marcado em escudos). Como tenho sempre as janelas abertas, a crise escapuliu-se para dentro da minha casa, assentou arraiais e ando a reler, ou a ler tudo o que me aparece de graça. E lá estava Jack Kerouac ou Sal Paradise ou uma máquina de escrever humana sorrindo-me numa estante.
A leitura foi terminada no último dia em Madrid. O que é que se costuma dizer das coincidências…?
Li-o no abafado do metro, nas paragens de autocarro, antes de adormecer e andou sempre comigo na mala, como uma espécie de bilhete de despedida de suicídio dum tipo de vida, que se hesita em usar.
No último dia, dando as últimas voltas a fazer tempo para apanhar o avião, vejo uma loja com máquinas de escrever antigas. Há uma que me olha de soslaio, pequena mas carregando milhares de impressões digitais de não sei quantas pessoas, atrevo-me a dizer homens: foi fabricada em 1904 e usada na guerra. O teclado é normal mas na verdade cada tecla escreve um outro carácter, cuja correspondência está atrás como se fosse em Braille, de modo a dificultar a desencriptação das mensagens. Não era a Enigma, mas garantidamente era da família.
É amor à primeira vista. Entro na loja com o pensamento dividido e rezando para que o Dean Moriarty que vive em mim esteja a dormir. A minha principal prece é que seja barata, mas tenho a consciência que não será. Quando souber o preço saberei sorrir, agradecer a informação e voltar costas? Ou serei acometida por aquelas loucuras que só parecem loucuras dias ou meses mais tarde e que enquanto estão a ser praticadas vestem-se como actos naturais e até saudáveis?
A montra onde a máquina crescia para mim estava tapada do lado de dentro por um pesadíssimo biombo em ferro, tosco, dir-se-ia chegado da própria Idade do Ferro. A dificuldade em chegar à máquina e saber-lhe o preço seria um sinal? E que sinal? Que não esperasse e me fosse embora? Ou um teste à minha persistência, com prémio no fim?
Finalmente o biombo foi afastado e a máquina retirada da montra como se fosse uma pessoa resgatada dum desmoronamento.
O coração acelerava como se tudo aquilo fossem os preliminares dum pedido de casamento, com algumas hipóteses de se concretizar ali e agora. Mas 349 euros era um dote muito elevado para mim, embora a princesa valesse muito mais.
Olhei-a como um marinheiro apaixonado mas que não quer comprometer-se pois desconhece a sua sorte por esses mares e não sabe se regressa, e abandonei a loja com o coração partido.
Há anos atrás, em busca duma casa para morar, visitei um apartamento belíssimo, último andar, duplex, piso superior todo modificado, revestido a madeira, uma pérola. O preço era alto e tentámos negociar com os donos. Numa das ocasiões, talvez numa terceira visita à casa, vejo no chão uma máquina de escrever. A bem da verdade, eu não a vi, foi ela que me chamou e dei comigo instantaneamente a dizer aos donos, e ao meu boquiaberto marido, que se deixassem a máquina nós pagávamos sem regatear. No dia seguinte telefonaram a dizer que não aceitavam e, apesar da desilusão, conseguiram subir na minha consideração. A casa só não tinha vista para o mar, caso contrária seria perfeita.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Tradição no Jardim Botânico

Vou ao Jardim Botânico comprar um livro de desenhos de Mutis. Na entrada explico que não tenciono visitar o JB mas apenas aceder à Biblioteca, Livraria, Centro de Documentação, o que seja. A rapariga que vendia as entradas diz-me que não há nada disso no JB e aponta-me uma barraca que vende pacotes com sementes e folhetos explicativos da melhor altura para plantar ervilhas-de-cheiro. Digo-lhe que o que procuro não está decididamente ali, mas ela continua a indicar-me a loja das plantas enquanto me faz sinal para que me desvie pois a fila cresce atrás de mim. Insisto, digo-lhe que estão à minha espera! Acreditou na minha mentira e lá agarrou no telefone conseguindo fazer-me até sorrir pois disse que estava ali uma ‘chica’ que procurava a livraria ou a biblioteca. Lá a esclarecem e com um pedido de desculpa indica-me a localização: fica exactamente do lado oposto onde estávamos. Vou até lá e sou recebida como se fosse a própria Rainha Sofia: era a única cliente.
Depois duma agradável conversa com a bibliotecária, de me ter informado que tudo o que eu queria estava online com as respectivas indicações para a autorização de publicação, de me ter oferecido lâminas com imagens, uma delas belíssima, com a correspondência que Lineu fez da botânica para o alfabeto, fiz-lhe a reclamação sobre o incidente à entrada.
Contou-me que recebiam e-mails de pessoas a dizer que estiveram à porta do JB mas não encontraram a Biblioteca, que os problemas de comunicação eram muitos e que quase não acreditava que eu, estrangeira, ali tivesse conseguido chegar; que era uma situação recorrente e que não se conseguia fazer nada.
Sorri, despedi-me e pensei que afinal não é só em Portugal que estas coisas acontecem: identifica-se um problema, a solução é duma facilidade atroz e, no entanto, encolhem-se os ombros e deixa-se a tradição continuar a ser como era.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Pincelada de Prado

Não me lembro rigorosamente nada do Prado. A entrada seria outra? A envolvência teria mudado assim tanto? O Alzheimer é já tão grande? Nada disso. Não me lembro porque nunca lá fui, embora conheça e seja amante de algumas das peças.
A visita mais prolongada a Madrid foi há alguns anos com marido e filho, como atestam algumas fotografias; a memória mais sólida desta viagem é o olhar fixo do Duarte, com 7 ou 8 anos, diante de Guernica. Já eu tinha tirado todas as medidas ao quadro, virado e revirado a cabeça para apreender mais esta e aquela perspectiva e ainda ele estava absorto num primeiro contacto prolongado, o do choque. Olhos vidrados, movia-se para tirar as pessoas do seu ângulo de visão e continuava a olhar, como alguém que põe uma garrafa à boca e só descansa na última gota.
Com a minha queda para estações e terminais de transportes estivemos em Atocha, mas não no Prado, ali mesmo ao lado. Não me lembro porquê, mas algo me diz que o meu marido deve ter decidido que os bilhetes eram caros e que já tinhamos visto muita coisa e assim ficámos. Se houve a discussão do costume apaguei-a da memória.
Agora, finalmente, visito-o como quem visita um velho amigo com quem estamos em dívida.
Não percebo nada de pintura mas sei o que gosto, o que me impressiona, o que me faz suster a respiração, o que me choca, o que me arrepia, o que me provoca lágrimas, o que me prende durante uma hora seguida, o que me deixa indiferente e o que detesto.
Comecei pelo choque negro de Goya. Composições horríveis que, não obstante, sempre me fascinaram quando via as imagens. Os originais deixaram-me estarrecida.
Passei para a magnificente luminosidade de El Greco e concluí que só vendo-os nos apercebemos da sua profundidade e da dimensão poderosa, que nos faz ter vontade de ajoelhar perante aquele tudo que se mete cá dentro duma forma inexplicável: não há imagens dos quadros que revelem a luz interior de cada composição e cada quadro é uma janela para dentro dele mesmo, um astro com luz própria.
Dei comigo com lágrimas nos olhos diante dum Rembrandt, sem saber quem era o autor, mas presa no acetinado da pintura.
Deixei Diego para o fim. Por ser uma espécie de dono do Prado, o anfitrião de todos os outros, por ser absolutamente maravilhoso, fazer parecer tudo tão fácil, tão próximo.
Não gosto de museus mas sempre que visito um sinto-me mais rica. E neste dia fiquei de barriga cheia.

Fazer nada

Gosto de me levantar cedo para poder fazer nada. Esse aparente nada transforma-se sempre num cumprimento ao dia por onde vejo os outros passar a correr sem o verem, como se fosse um filme diante dos meus olhos.
Tantos destinos, tantos compromissos, tantas pressas e eu de conversa com o dia, paciente com ele, a deixá-lo espreguiçar e vendo uma cidade inteira a pendurar-se-lhe nos braços.
Enquanto espero que o dia se torne adulto, e todos os outros ocupem o seu lugar nele sem sequer o verem, identifico barulhos e ruídos, vejo as sombras mudarem de posição, as luzes das ruas apagarem-se, as tarefas rotineiras abrirem-se como torneiras.
O céu veste-se de azul natural, dando-me o privilégio de não ver outras roupagens, cinzentas, que me fariam perder alguma boa disposição.
Depois deste exercício de observação estou pronta para começar a trabalhar, sem sono, consciente que cumpri um ritual religioso ou pagão, que me encaixei no dia e não o deixei passar por mim anónimo, sem história.
Ao fim do dia passo pelas Portas do Sol, enfio pela Arenales. A entrada no céu não deve ser muito diferente: entardecer quente, jazz tocado no meio da rua e uma banca de livros usados, como piscina de água cristalina e fresca. Passo os dedos pelos livros, leio os títulos e o papel velho sorri-me, como fazem os velhos amigos.
O próprio tempo senta-se neste fim de tarde, parado, e se cães houvesse não ladrariam, sossegados pela ternura da luz que se esvai.

A mi me gusta camiñar

Saio do hotel convicta que o passeio até à Universidade é coisa de crianças. Avenida Carranza abaixo, Alberto Aguillera acima e decido perguntar pela primeira vez. Vou bem, mas sugerem-me que apanhe um autocarro.
- No, gracias, a mi me gusta camiñar.
Como não fui explícita, vejo-me diante duma Faculdade da universidade, mas que não fica no campus.
Nova pergunta, nova sugestão sobre o meio de transporte a apanhar.
- No, gracias, a mi me gusta camiñar.
Ora bolas, não há-de ser assim tão longe, pensa a minha teimosia.
Com o estúpido objectivo de ver uma montra, eu que até nem gosto, acabo por me meter por um atalho e confiar no meu inconfiável sentido de orientação.
Nova pergunta, a mesma sugestão do autocarro, e logo eu:
- No, gracias, a mi me gusta camiñar.
Chego ao Museu da América e avisto o nome da Universidade do outro lado da estrada. Porém, o piso é desnivelado, a estrada é uma via rápida – que nem parece pois está tudo parado – e tenho que ir até ao fundo da rua e numa rotunda passar para o lado contrário até ao edifício que diz Universidade Complutense.
Finalmente!
A uma das entradas pergunto pela Biblioteca central e digo o nome da pessoa que me espera.
Dizem-me que não é ali e que apanhe o autocarro G, que me deixará à porta.
Há uma hora e quarenta e cinco minutos que saíra do hotel e agora sim, estava no momento certo de aceitar as sugestões de meia Madrid. Entrei a pensar que gastara 1,5€ por uns cem metros, mas nove paragens à frente os meus pés agradecidos sorriram-me pela primeira vez nesse dia.
O acolhimento foi efusivo, a simpatia grande; a meio da manhã na cafetaria o número de bibliotecários por metro quadrado fazia aquilo parecer um congresso, com a diferença que nos congressos só me falam os conhecidos e ali fui apresentada a todos, distribuindo apertos de mão e repetindo ‘Encantada’ como uma máquina. Mas a verdade é que estava mesmo encantada.
Quase às três da tarde saí e apanhei o primeiro autocarro que passou que, infelizmente, me deixou a meio caminho. As roeduras nos pés falaram mais baixo e fiz o resto do percurso a pé. Passei pelo hotel, tomei banho e saí fresca como uma alface para a tarde madrilena, quente e acolhedora.
Amanhã há mais, com trabalho sério, reuniões marcadas, mas a tarde será no Prado.

Ao lusco-fusco

A Plaza Mayor de Madrid não é a mais bonita de Espanha. Mas é imponente com a estátua equestre de Filipe III que lhe confere o enquadramento nos modelos de praça real da Europa, disseminados desde França, quando se pretendia incutir a soberania da figura real, mesmo em noites de chuva e lama, sem público.
Sentada a uma mesa perscruto os telhados da praça enquanto o lusco-fusco boceja. Antes de a noite tomar o seu lugar, já os candeeiros estão acesos, pedem-se tapas e cañas e dou com os olhos na improbabilidade: um estendal olha-nos de um dos telhados da praça, ondulante, branco, sereno, alheio à comida, aos turistas, à estátua, ao próprio tempo. São oito ou nove peças de roupa, algo distantes, como se a História se tivesse esquecido delas ali.
Pela enésima vez lamento não ter máquina fotográfica, mas desta vez lamento mais, lamento não conseguir correr atrás do lusco-fusco e trazê-lo de volta para segurar o estendal branco à luz rosada e alaranjada dum momento que não mais se repetirá.
Esqueço-me que tenho uma bolsa que me paga a alimentação e peço o mais barato da lista: frango; acompanhamento: batatas fritas, na modalidade de palha e na quantidade de onze. Comento com a minha irmã que sugere que a lógica seja a das senhas do carrossel, onde compramos dez viagens e nos dão uma senha grátis.
Os onze elegantes palitos fazem companhia ao cume, e só ao cume, dum peito de frango. Para quem se levantou às sete, trabalhou quase até às três e caminhou todo o resto da tarde, aquilo não é nada.
Ora bem, o que é que me apetece? Hum… Queijo! Peço um pratinho que me custa 17 euros e do qual só consigo meter metade. Instintivamente penso que já tenho pequeno-almoço para o dia seguinte: guardo a metade do queijo e o pão num guardanapo, com quatro americanos candidatos ao Biggest Loser a olhar-me. Apetece-me dizer-lhes:
- Já só há este… e é para mim…

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Caminhos confusos, mas negros.

Por ocasião da minha estadia espanhola – em hotel, não em residência, embora com pena minha… – reflecti sobre a importância das rotinas e em quanto elas nos ajudam de facto a perceber as pessoas, os povos, o estar.
Se vamos de férias e nos pedem 5 euros por uma garrafita de água concluímos que cada garrafa custa 5 euros. Porém, há que comprá-la onde as pessoas a compram e não onde essa espécie daninha dos turistas se abastece. O acto de repetir uma acção – almoçar, jantar, fazer compras de mercearia, andar de transportes (sem o cartão de turista!) – duma forma sistemática dá-nos uma percepção que a falta de rotina nos tira.
Ouço com frequência as pessoas dizerem que na França é assim e na Holanda é assado porque um dia me aconteceu isto ou aquilo… ninguém concede que seja a excepção. A minha falta de preconceitos, obrigada a todos os deuses de todos os olimpos, faz-me pensar sempre duas vezes perante qualquer coisa. Por norma, quando penso só uma engano-me.
Sabendo do número de desempregados e da situação económica da Espanha, estranhei que as esplanadas estivessem sempre cheias – o sempre é de manhã, à tarde e à noite, em vários locais da cidade e em diferentes tipos de estabelecimentos durante uma semana… penso que é um indicador suficiente para esta estatística de bolso.
Conto-lhes que por estas bandas já não é bem assim e eu, a exemplo de muitas pessoas minhas conhecidas, trago almoço de casa. Não tenho oportunidade de lhes explicar – porque só aconteceu ontem – que em passeio ao Algarve, a rua principal de Portimão estava deserta, com lojas já fechadas, apesar do calor de Verão que se fazia sentir, o que só vem confirmar o que lhes contei.
A conversa da contenção vai parar aos assaltos que, segundo eles, não aumentaram nem diminuíram, ao contrário do que acontece em Portugal: a cada passo sabemos de novas situações, algumas delas ligadas a dramas sociais que nos fazem engolir em seco.
Uma das pessoas que foi comigo ontem ao Algarve trabalha em seguros há 34 anos e agora depara-se com uma situação pela primeira vez: as mercearias procuram as seguradoras na sequência de assaltos frequentes. O que levam? Arroz, massa, azeite, fruta, legumes, detergentes. Não levam álcool, por exemplo.
O que diz isto do momento que estamos a viver? O que diz isto a quem passeia na avenida ao sol e tem uma vaga ideia que por baixo há um metropolitano, mas não nos apercebemos da sua natureza labiríntica escura, triste e coexistente?
Das conversas que mantive com colegas espanhóis sobre desemprego depreendi que a grande maioria das pessoas continua a procurar emprego na sua área de trabalho – assim eram os exemplos que me foram dados. Aqui vejo pessoas – não todas! – a procurar qualquer coisa. Parecem-me ser duas fases distintas do processo, bem distintas, apesar do número gigantesco dos que não têm trabalho em Espanha.
Das várias pessoas que conheci algumas delas estavam chegadas de férias com origens na Madeira e Porto Santo, Samarcanda, Londres, Cambodja e Vietname. Nada mau, hem?
Guardo facturas de uma bicazita num café normalíssimo a 1,60€ e paguei todos os dias 3 euros por um café e uma torrada com manteiga ao pequeno-almoço, torrada que, convém que se diga, é uma fatia de bimbo, não duas.
Que dizer? Estou confusa.