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sábado, 28 de outubro de 2017

Diário de uma coisa que não existe, ou, Este país não é para velhos

Há dias tive uma conversa sobre a Amizade que me levou a fazer uma experiência. Sei que pode ser dolorosa, ou melhor, que me pode mostrar algumas verdades menos boas, algumas realidades, mas estou preparada para a fazer e para aceitar as suas consequências. 
Qual o objectivo deste exercício? Pensar, reflectir. 
Esclareço que não é pelo resultado que escolherei amigos, pois a voz própria do resultado é relativa, e não será catalisadora das minhas amizades e grandes considerações. É apenas uma experiência.
As amizades vivem muito nas redes sociais, que são o paradoxo que conhecemos: ora aproximam ora afastam as pessoas. Porém, tendemos – eu tendo – a pensar que há aqueles que são inafastáveis, amigos sem os quais não vivemos e eles não vivem sem nós. Estes são uma percentagem pequena dos meus quase 300 'amigos' no Facebook (FB), mas foi com todos que resolvi fazer a experiência: desactivar o meu perfil e contar as horas até que alguém dê pela minha falta.
Uso o FB várias vezes ao dia, em Portugal e no estrangeiro, sou daquelas que coloca uma imagem pela manhã quando me levanto, a dar os bons-dias, e que respondo aos bons-dias dos que fazem o mesmo, nem que seja colocando um like. A meio do dia vou à praça pública, vejo as novidades dos meus amigos, comento ou manifesto-me, conforme me parece melhor, uso o tempo em que vou no metro, para o trabalho ou a caminho de casa, a fazer o mesmo e todas as noites, não vou ao café mas é como se fosse: encontramo-nos todos e conversamos, rimos, partilhamos, etc. Há pessoas com as quais interajo diariamente, algumas várias vezes, outras nem tanto. Há pessoas com quem tenho conversas privadas enquanto estamos no FB, via Messenger, verificando-se assim uma espécie de dupla interacção simultânea.
É dia 22 de Outubro, são 22h e encerrei a conta do FB. É Domingo à noite, dia de grande actividade. Vamos ver o que acontece.

Quem são os meus 'amigos' do FB
Vou dividir as quase três centenas de 'amigos' em categorias, sem ofender alguém:
Nº do grupo

Constituição

Contactos alternativos
         1
Família, em vários graus, que inclui filho e nora, pais, irmã, cunhado, sobrinhos, tios e primos.
Telemóvel, sms, telefone fixo do trabalho, telefone fixo de casa, Messenger, WhatsApp
         2
Amigos muito, muito chegados, uns de infância, outros de grande proximidade, o que não é sinónimo de nos vermos amiúde, aliás, o FB dá-nos notícias, novidades, idas e vindas que compensam de alguma forma, e aproximam.
Telemóvel, sms, telefone fixo do trabalho, telefone fixo de casa, Messenger, WhatsApp
         3
Amigos próximos, vemo-nos de vez em quando ou saímos juntos ocasionalmente, damo-nos parabéns e desejamos Boas Festas também por telefone, sempre que o calendário avisa que há festas.
Telemóvel, sms, Messenger, WhatsApp
        4
Colegas de trabalho, cujos interesses esporadicamente passam a fronteira profissional, mas dos quais pouco sei e eles pouco sabem de mim, fora do âmbito do trabalho.
Telemóvel, telefone fixo do trabalho, Messenger, WhatsApp, outras redes sociais, como o LInkedIn.
         5
Conhecidos, aqueles que por razões várias, por exemplo serem muito amigos de amigos ou família, ou porque temos interesses comuns a nível profissional, social, cultural, etc., acolhi no meu círculo, ou eles acolheram-me a mim.
Messanger, outras redes sociais, como o LInkedIn.

Sei que em todas estas categorias há pessoas com díspar actividade no FB, bem como com distinta literacia funcional, havendo aqueles que só sabem consultar a sua página e a praça pública das suas amizades, e estou, como é óbvio, a falar das pessoas mais velhas.
Em contraponto, há também aqueles que passam o dia agarrados ao FB e distribuem likes generosamente, interagindo comigo directamente.

A Experiência
Domingo, 22 de Outubro, 22h, desactivo a conta do FB.
Neste dia falo por telefone com pessoas de família, e com uma pessoa do Grupo 2, tendo este telefonema durado cerca de uma hora (e repetiu-se toda a semana). É usual falar ao telefone e interagir no FB em simultâneo. Não há reacções.
Segunda-feira, 23 de Outubro:
Não há reacções.
Terça-feira, 24 de Outubro:
Não há reacções.
Quarta-feira, 25 de Outubro:
Não há reacções.
Quinta-feira, 26 de Outubro:
Ao fim da tarde de quinta-feira uma pessoa do Grupo 5 pergunta-me por sms se o bloqueei no FB. Digo que não, mas não dou mais explicações. Ele também não pede.
Nessa noite desactivo a conta do Instagram.
Sexta-feira, 27 de Outubro:
Logo pela manhã uma pessoa do Grupo 4 elogia a minha participação no FB dizendo “tenho visto a tua página, aquilo é que é actividade”. Sorrio e agradeço.
Sábado, 28 de Outubro:
Uma pessoa do Grupo 1 telefona-me a perguntar se está tudo bem. Acrescenta que foi alertada duas vezes antes de decidir telefonar: a primeira vez por uma pessoa do Grupo 5 que lhe enviou uma mensagem via Messenger a dizer que estranhou não ver nada publicado por mim; a segunda vez por uma pessoa do Grupo 2 que perguntava porque teria desaparecido o meu perfil. Ambas as pessoas têm o meu telemóvel e também podem contactar-me por Messenger.
Estou há cinco dias sem perfil no FB. Isto significa uma média diária de dez posts meus, e umas cinquenta interacções com outrem, o que totaliza cerca de 50 posts e 354 interacções.
Ao longo da semana recebi quatro telefonemas não previsíveis, a pedir favores. Falei com mais de 50 pessoas com quem interajo no FB, que nada comentaram.
Ninguém me telefonou ou me procurou pessoalmente de forma espontânea.
Será forçada a minha presença na tal mesa de café onde nos encontramos, as tertúlias nocturnas onde se contam piadas, onde se estabelece e se reforça (?) proximidade, tudo e mais um par de botas? Não creio, mas o que é certo é que ninguém deu pela falta do meu perfil, nem pela falta do cumprimento matinal, nem pela despedida nocturna, nem pela interactividade ao longo do dia.
Penso nos velhos que são encontrados mortos nas suas casas, sem que ninguém tenha dado por eles. Se eu, que sou tão barulhenta, passo despercebida, imaginemos os velhos que são pessoas silenciosas. Não estranho que morram sozinhos. Se ao menos tivessem Facebook…

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Da suposta amizade, da minha burrice e de um farol apagado

Face à minha incapacidade financeira de acompanhar uns supostos amigos em saídas e jantares, uma suposta amiga disse-me um dia que era uma sorte eu ter muita roupa para passar a ferro, pois assim tinha com que me entreter.
Em tempos anteriores, quando o ordenado dava para comprar livros, mantive uma relação de amizade, que acreditei ser verdadeira mas se veio a verificar ser antecedida de suposta, e com diferente cavalheira da que me aconselhava a fazer a ménage.
Nunca dava um passo sem que gerisse a conta bancária para que ela me pudesse acompanhar. Conhecendo-lhe eu a situação precária, antes a afastava das lidas rotineiras e proporcionava-lhe saídas, almoços e jantares, tudo o que me parecesse desangustiá-la. Fomos de férias, passeámos nos algarves, nos alentejos, nos nortes e nos centros, cresceu a minha família com aquela presença, que vivia nos meus planos de estar, de ir ou ficar, de rir e de chorar, largava eu tudo para a atender nos mais pequenos desejos, na saúde e na doença, na pobreza e na riqueza, parecendo casamento feliz.
Até que a minha situação financeira entrou em colapso. Primeiro não percebi os motivos do afastamento, que me causaram lágrimas de dor, até que alguém me chamou a atenção para o cruzamento da informação, para o conjunto, matematicamente falando.
Não era a primeira vez que alguém se afastava de mim, mas como cometi o erro de acreditar que a amizade era verdadeira, doeu-me como se me arrancassem um bocado quando conclui que dois e dois são quatro e que o nada dos noves fora, tinha motivado a minha dor.
Aos poucos e arrastando-me lá me consegui equilibrar, até porque existia um farol na minha vida, exemplo para todas as virtudes exemplificáveis, obra de arte reconhecida, pedra dura lisa ou afiada, conforme a necessidade e o desafio.
Este farol estava para os meus amigos como os filhos estão para as coisas que gostamos. Quando alguém pergunta o que mais gostamos no mundo, acho ridículo que se responda os filhos! O meu nem entra nesta contabilidade, está tão acima de tudo que não tem comparação, é outro universo, incomparável. Da mesma forma, um farol não se compara com qualquer casa, leia-se, amizade.
É altivo, ilumina sempre, é forte, vem do antes e permanece, sabe tudo, viu tudo, é determinado contra as tempestades e, como o de Alexandria, é eterno.
Pensava eu.
Podiam passar-se semanas sem que visse a luz ou ouvisse a buzina do farol, mas acabava sempre por dar sinal de vida, por entre o nevoeiro, aproximava-se em passos seguros e firmes, como quem garante segurança; não havia distância nem assunto afastadores, não havia espuma de mal-entendidos, não havia vagas que partissem o cordame que nos ligava. A mesma frase de início de conversa fazia-me sempre rir... velhice e cataratas mencionadas por alguém que eu sentia imortal.
Assim se passaram anos, como se fossem vidas. Até um dia em que o farol se apagou, deixou de me iluminar, sem perceber que quem nos leva a caminhar na escuridão perpetra um acto de crueldade.
E assim me considero vacinada contra a amizade, palavra que posso expressar por escrito ou verbalmente sozinha mas que, interiormente, será sempre adjectivada com suposta.
É claro que respeito a decisão, se não o fizesse estaria a corromper o meu próprio sentimento de amizade. Para mim o verbo mais associado à amizade é 'estar', estar presente, estar disponível, estar com alguém, lado a lado ou à distância, estar no pensamento, acima de tudo. Resta um vazio frio quando não precisam que estejamos. Alguma vez teriam precisado? Não.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Fim-de-semana (em) cheio

Fim-de-semana alargado e de recarregamento de força e energia para as minhas amigas com um extra para mim: esquecer.
Fiquei melhor à força das brincadeiras delas e de um mar digno das Caraíbas, sol escaldante, areia fina, copos e muita gargalhada.
Tudo se passou no Alvor, palavra que alvoraça... mas concluo que um exorcismo precisa de confronto, de peito cheio, sem medos e foi isso que aconteceu, perceber o que quero acima de tudo e que se resume a conservar amizades.
Resume, mas não é coisa pouca, antes pelo contrário, é vital e imprescindível, depois de amizades desfeitas sem que eu tenha entendido bem como, há aquelas que me fariam sentir morrer se tal coisa acontecesse, por isso são precisas doses enormes de creme protector, para proteger e conservar, manter, cuidar, que o mesmo é dizer, esquecer certas coisas para guardar outras, mais valiosas.
Como a amizade, para sempre e mais quinze dias.
Ver o sol a despedir-se, sabendo que volta na manhã seguinte, bem cedo, passar a noite mais curta e o maior dia do ano em ambiente de praia, deixou-me bem disposta e confiante.
Curiosamente foi tudo diferente: não li uma página de qualquer livro, mas diverti-me imenso a ler revistas cor-de-rosa, leituras alto sobre os próximos episódios de novelas que nenhuma das três acompanha, mas que davam filmes cómicos com observações e, principalmente, com o facto de se ter instalado uma surdez colectiva provinda de tanto mergulho, fazendo que a alhos se respondessem bugalhos, originado ondas de gargalhadas e boa disposição que me elevaram a moral e me ajudaram a voltar ao meu eu.
Quem disse que a vida é uma maré acertou em cheio, há que esperar que suba e que desça, mas também podemos mudar a posição da toalha: desviar certos pensamentos, aceitar convites, estar disponível e não nos armarmos em Bela Infanta - eu que até desgosto de Almeida Garrett, por me ter desiludido quando percebi que As Viagens na Minha Terra foram feitas entre quatro paredes.
Vou deixar de tremer ao som da voz de Neptuno e vou ler mais revistas de Verão; parece simplório, mas será desafiante. 

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Uma gargalhada com vinte anos

Uma desilusão no início de um fim-de-semana passado com uma pessoa muito especial.
Uma grande expectativa que não foi concretizada, mas que não abalou os dias que a M., o marido e o filho passaram na minha casa.
Quando se foram embora deixaram-me cansada... cansada de rir, cansada de conversar, cansada de boa-disposição... quem não gosta de estar assim cansada?
Anseio por lhe devolver a visita e voltarmos a rir juntas, coisa que fazemos há vinte anos.
Não é para qualquer um e eu sinto-me afortunada com esta amizade.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Fim-de-semana de dádiva

Deram-me um fim-de-semana.
O cansaço amainou, vencido pela boa disposição e pela amizade de quem me fez um polvo extraordinário e peixe assado para comer até morrer. Não há silêncio nesta relação, porque estamos sempre a falar as duas. O telefone não compensa e ao vivo e a cores parece que nos lembramos de tanta coisa que precisávamos de um fim-de-semana de seis meses. Isto se falássemos depressa, claro.
Serenei a ansiedade que anda sempre feita lapa às minhas costas e até tive vontade de chorar quando me vim embora.
Passámos em revista livros e filmes, receitas e memórias, histórias e famílias, projectos de passado, de presente e de futuro. Falámos de obcessões, de amores e paixões, das minhas descobertas de investigação, de como tenho alumiado recantos escondidos do meu coração e do medo que tenho de perceber o que me parece cada vez mais óbvio.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O casamento mais rápido do mundo

Tendo decidido não comemorar o Natal, não escapo ao Ano Novo. Sou eu mesma que tomo a iniciativa de falar com algumas pessoas, desejando-lhes um bom ano e dando dois dedos de conversa.
Ontem repeti a chamada para a minha amiga HS que voltou a não me atender; sendo a segunda vez achei estranho e mandei um sms a reclamar dizendo que só lhe perdoava se ela estivesse acompanhada... e se estivesse eu queria saber tudo...
Hoje ligou-me a reclamar, ela também: então que mania é a minha de lhe telefonar quando ela está a dormir?
Apanhada de surpresa, acho até que abri os olhos, tentando recordar se estaria fora de mim e me teria dado para ligar às pessoas à meia-noite. Não, a minha certeza era absoluta pois rejo-me pelas convenções sociais que interditam telefonemas depois das dez da noite a menos que sejam urgências.
Dez da noite? Clama ela lá do outro lado, Não, tu ligaste eram nove e pouco mas eu é que me deito às nove horas.
De surpreendida passei a catatónica. Pensei que brincava mas ela falava sério e pensou que eu brincava quando lhe disse que às nove da noite estou eu muitos dias a trabalhar, na Biblioteca, entenda-se, não em casa!
Bom, lá adiantámos conversa, as mesmas perguntas repetidas mesmo que nos tenhamos visto dois dias antes, continuas sozinha, sim, e tu, também.
Rimos, não da nossa solidão, mas do disco riscado e eu atiro-lhe que no meu caso é mesmo dificuldade em encontrar alguém, já ela não dá tempo seja a quem for, a deitar-se às nove da noite.
Continuamos a rir e eu pergunto-lhe se quer juntar os trapinhos comigo, ela que sim, à falta de melhor, mas que eu me vá preparando que ela vai meter já os papéis do divórcio.
Do divórcio? protesto eu, pois se ainda nem nos juntámos!
Sim do divórcio, vou alegar falta de atenção da tua parte que trabalhas até às nove da noite...
E assim começou a acabou o meu casamento com uma mulher, a rir.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Revisitar o passado

A morte de um tio do meu ex-marido levou-me a falar com pessoas que prezo muito e com as quais não falava há imenso tempo. Por estupidez, é sempre por estupidez que se dão certos afastamentos, se calhar todos.
Nos últimos tempos vivi situações de afastamento de pessoas, no plural infelizmente, mas têm-me ensinado, e eu tenho aprendido, que não se prende ninguém. Assim, tenho evitado impor a minha presença, deixando um espaço que cada um ocupa como bem entende. Dizem que as acções ficam com quem as pratica e daqui estou tranquila em dois aspectos: tenho essa certeza e a consciência limpa.
Porém, há pessoas que passam por nós e deixam marca. Se a família consubstancia laços de ligação obrigatórios, os outros mantêm-se por opção.
Um desses casos é o de um primo do meu ex-marido, com quem sempre senti empatia, embora discutíssemos imensas vezes.
Ontem, ao telefone, encontrei-o diferente mas igual. Diferente por mais maduro, agora casado e com dois filhos, igual por perceber que mantém o espírito curioso, aguçado e diferenciado da maioria das pessoas, como eu gosto.
Fiquei muito feliz com a recepção que me fez, combinámos reaproximarmo-nos - quero conhecer-lhe a família, é claro - e deixámos aprazado um almoço, um jantar ou, como ele bem expressou, um pretexto para nos revermos e conversarmos.
Não me pareceu ver o miúdo convencido que encontrava amiúde quando o via, pelo contrário, pressenti um homem calmo, afectado pela morte do pai, é claro, e preocupado com a mãe.
Partilhei esses sentimentos, eu, que no dia anterior passei o dia no hospital com o meu pai, cada vez mais próximo de uma solução que nos gela o sangue, mas cujos dedos dos pés roxos deixam adivinhar.
Fico na expectativa de um encontro, não com uma pessoa de família, como sempre os considerei, embora nem sempre fosse recíproco, mas com um amigo que não vejo há tempos e do qual tenho saudades.