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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Arroz de pimenta

Não, não é uma receita, são apenas duas palavras usadas por Jorge Coimbra para substituir outras, meias asneirentas, no livro É assim não é, que acabo de ler. Jorge Coimbra é um gozão do caraças, e até devia dizer do ca**lho, porque o livro tem o sotaque do norte, com saca da escola e quarto de banho.
Escrevo e vejo a junção meias asneirentas e foge-me o pensamento para peúgas desbocadas, como se houvesse um PBX na minha cabeça que fez as ligações erradas. Bom, bate certo com o conteúdo do livro, cujo autor tem uma orquestra de... gente, sejamos generosos, a incliná-lo para certos pensamentos, certas musicalidades, certas coisas.
Visivelmente biográfico, o livro transporta-nos para tempos e terras longínquos, sempre com uma grande carga irónica e fazendo-nos frequentemente pensar que é connosco que fala, mera sobranceria nossa - ou não será? - e, num golpe rápido, estamos de volta ao hoje, esse hoje intemporal, e com o eventual pronome possessivo, nosso. O nosso hoje, o hoje de qualquer um de nós, que nos faz a soma de todos os dias que já vivemos, desde a altura em que nos limpavam o rabo até hoje, quando caminhamos para que nos limpem o rabo novamente. Isto se tivermos sorte.
Há toda uma viagem ao passado de há 60 anos, a ontem, ao momento presente, aos dias quentes do pós Abril de 74, ao trabalho invisível e nunca reconhecido da alfabetização - e que a mim me toca imenso, neta de um excepcional homem que aprendeu a ler e escrever em adulto - e essa viagem é feita pelos olhos do protagonista/autor que não se limita a espreitar lá para trás, mas antes segura a nossa mão e leva-nos, menino de escola, contando como foi, num caminho nunca cinzento, até porque muita da narrativa se passa em África, África que era branca e negra, mas nunca África mármore, porque as misturas tinham limites perfeitamente estabelecidos, e desses limites nos fala o livro, de um racismo que não existia pela simples razão que não era praticado por pretos e sim por brancos, logo, estava tudo bem...
Neste exercício de exorcismo com o passado, Jorge Coimbra partilha ocasionalmente a existência de um amor que o arrebatou, mais que a bengala que usa como se já fizesse parte dele, e que mantém. Quando fala da aluna, da jovem que se transformou em mulher, com quem casou, percebe-se um suavizar do toque das teclas que foram usadas para digitar as palavras, como se procurasse advérbios, cuja pronunciação estica o tempo, e faz durar mais o sentimento. Assim, não é com ternura, mas sim ternamente, que refere, sussurrando, os olhos, o cabelo ou a inteligência da mulher em causa. É uma ária de ópera que, a mim, me encanta por conseguir ser tão entoada, espraiando-se nos cinco sentidos.
Adoro provas de amor, adoro...
E se o conteúdo é um mega carrossel entre sítios tão díspares como os canais da cabeça do autor, Moçambique ou o Porto, que nos faz rir, reflectir, arrepender e viver, já o livro em si podia ter sido mais bem cuidado por parte da Chiado Editora.
Não percebo porque é que se continuam a cortar palavras quando temos a possibilidade técnica, ou tecnológica, ou como se queira, de construirmos linhas seguidas, sem tracinhos que dificultam e cortam a leitura, principalmente em casos como ca-
minhos-de-ferro.
Não podiam os caminhos ter seguido juntos? Tiveram que se cortar para multiplicar hífenes... vou deixar uma sugestão, e que tal caminhos tracinho de tracinho ferro? Ou ainda, português tracinho tracinho francês... sim, tracinho tracinho, porque estão lá dois: português--fran-
cês. Ou ainda um desajustado desajus-ta-
damente.
A revisora - na ficha técnica identificada como Margarida Maria - não devia confundir Ah com Ha, devia chapelizar os silêncios, não devia ter deixado passar um ? em lugar de um é,  devia ter visto que o lucro da Tourada é aos milhões, devia ter finalizado cada nota de rodapé com o respectivo sinal de ponto final, que devia ter poupado na contracapa que termina inexplicavelmente com um duplo ponto final, ou será com umas reticências mancas?
Por outro lado ainda, nada me impede de ir passear com uma camisa de dormir ou ir ao cinema de fato de mergulho. Nada me impede, mas vou ser alvo de olhares, risinhos e dedos apontados. Acontece o mesmo com a paginação que deixa artigos dependurados, palavras de uma só letra que ali se vê, sozinha, perdida e que nos faz perder a nós ainda mais quando aparece imediatamente a seguir a um ponto final...
Também inexplicavelmente o livro não se encontra à venda. Na Fnac informam que terá que ser encomendado ao editor, com um tempo de espera de uma a duas semanas, e com um preço de 14€, mais caro que na Wook, que com o desconto fica em 12,60€. Ora, uma a duas semanas é o tempo em que me chegam encomendas via Amazon, um pouco de todo o mundo, uma a duas semanas é tempo mais que suficiente para que eu pondere se afinal quero encomendar um livro ou uma estátua, uma a duas semanas é muito tempo, uma a duas semanas é desencorajante, principalmente num livro excelente para levar de férias. Os editores não deviam defender os seus autores...? Não me parece que neste caso isso aconteça.
E merecia, merecia mesmo muito.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Luz de Almeida

Cumpre-me abrir com um aviso: isto não é uma apologia à revolta, ao terrorismo, nem sequer ao ser do contra. Alba, que não a de Lorca, mas que talvez pudesse ser, foi recentemente condenada por uma acção online que me fez pensar e muito.
Estou a ler, lentamente mas estou, uma edição de 1990 da Alfa, de autoria de José Brandão e que tem por título Carbonária: o exército secreto da República.
Não se percebe bem se as pessoas queriam de facto a República, mas percebe-se que queriam mudar: D. Carlos recebia um conto de réis de vencimento por dia e, juntamente com o resto da família real, arrombava o erário público em quinhentos e vinte contos anuais, muito superiores aos trezentos da família real norueguesa ou aos cento e vinte da dinamarquesa. Assim, não era de estranhar que se dissesse que por muito menos rolou no cadafalso a cabeça de Luís XVI.
A situação era de tal forma que Raul Brandão, a páginas 115 das suas Memórias, edição da Renascença Portuguesa de 1983, afirma que se ouvia dizer "Venha tudo, venha o pior, venha o diabo do inferno que nos livre disto".
O cérebro da Carbonária era Luz de Almeida, de quem já tinha ouvido falar, tal como do barbudo Buiça ou de Alfredo Costa; ora, diz o povo que quem diz a verdade não merece castigo e assim se passa comigo, que sorri ao saber da profissão de Luz de Almeida: bibliotecário.
A rede que conseguiu montar, diz-se que conhecia todos os primos carbonários, é invejável. Falo do ponto de vista profissional, é claro, nós bibliotecários somos muito da web, está bem de ver.
Que faria este homem na era das redes sociais? A sua discrição levá-lo-ia provavelmente a montar a rede, tal como fez, a usar a teia de conhecimentos e a planear o futuro, de forma a poder vislumbrar-se uma luz ao fundo do tunel. 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Holocausto, com H de horror

Ontem comemorou-se o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. A 27 de Janeiro de 1945 abriram-se os portões do campo de concentração de Auschwitz, um cemitério de gente viva.
A memória - e agora que lidamos com um problema de memória selectiva por parte de um jovem na sociedade portuguesa... - tem de ser preservada, tem de nos ensinar o que não se pode repetir e estes avisos têm eles próprios de se multiplicar, nas comemorações, na literatura ou no cinema, ou em qualquer outra forma, mas reais.
Filmes como o aclamado A vida é bela são visões que amenizam a realidade, que, propositadamente ou não, suavizam o horror quando o horror não pode ser suavizado; são perspectivas que iludem como quem afirma que era possível enganá-los, era possível fugir, era possível vencer. Quem vá a Auschwitz sente o logro, o engano, a fraude de filmes como aqueles e percebe a resposta do historiador Robert Hughes quando lhe perguntaram qual a obra de arte adequada para lembrar as vítimas em Dachau, Os próprios fornos são perfeitos. Como é que a arte pode superar a eloquência daquele lugar?
Acabei de ler A bibliotecária de Auschwitz, de Antonio Iturbe, relato baseado numa história verídica, mas que coloca Auschwitz-Birkenau a alguma distância de Auschwitz-Birkenau de Primo Levi e muito longe do que nos invade quando entramos nas antigas instalações dos que eram consumidos com ziklon-b.
As descrições dos longos caracóis loiros onde enrolavam os dedos deixam-nos logo de sobreaviso, assim como os diálogos entre mães e filhas onde a etiqueta social é chamada a intervir. Embora o autor conte como conheceu a protagonista na qual a história se inspira, (quase) tudo nos parece encenado e a mim, encenações que envolvam a morte de milhões de pessoas, dão-me que pensar.
Tal como os muçulmanos têm a obrigação de ir pelo menos uma vez na vida em peregrinação a Meca, todos os cidadãos do mundo que se prezem deviam ir a Auschwitz, proclamar a religião do respeito, venerar a memória e aprender com ela.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Dos concursos e dos castigos

Luís Almeida ficou conhecido por ter participado, e ganho, em inúmeros concursos de televisão. Eu participei em dois, ganhei um, mas perdi a conta aos concursos que ganhei fora do ecrã. O primeiro foi à Disney, a Paris, acabada de estrear, presente da Cerelac ou da Nestum, não me lembro, mas que no fundo veio da Nestlé, e o último foi um fim-de-semana no Hotel Palácio de Seteais, esse deslumbre, que ofereci à minha irmã.
Pelo meio ficam viagens e livros, sendo que nunca concorri a nada que não incluísse viagens, ou dinheiro para as fazer. A norma, na quase totalidade dos casos, passa por escrever textos ou frases a propósito de qualquer coisa, logo, não há aqui um factor sorte puro, daí talvez venha a explicação para o facto de nunca ter ganho o euromilhões...
Entre outras, ganhei viagens aos Açores, China, Itália, Espanha, Marrocos, destacado-se meia dúzia de visitas ao prémio inicial, a Disney, muito na moda durante alguns anos.
Agora muitos concursos passam por telefonar e, no telefonema certo, ganha-se qualquer coisa. Ora, como sorte, sorte, não tenho, embora os meus amigos e conhecidos passem a vida a mandar-me informação de concursos para que eu concorra - e os leve! - não tenho conseguido ganhar nada.
Que é feito dos textos que se escreviam e que se publicitavam depois para que todos os participantes pudessem ver quem e como se tinha ganho? Dão muito trabalho e não fazem entrar os milhares de eurozitos que se capitalizam com o negócio dos telefonemas.
Assim, inibida que está a minha participação em encontros profissionais devido à crise, e que em tempos idos me levaram da Grécia à Rússia, da Croácia ao Brasil, de Inglaterra à Alemanha, entre outros pontos, não tendo finanças para ir de férias além da Costa da Caparica, não tendo sorte ao jogo, nem aos amores, diga-se de passagem, resta-me ficar a apreciar este frio, comparando-o com o do Ártico, onde já estive, mas ansiando pelo calor do Sahara, que também já senti, logo, estou como o outro, recordar é viver...
Sugere-me este tema depois de ver o último número da revista Volta ao Mundo, da qual sou fã e que apresenta vários concursos, todos via telefonema. De quem não sou fã é da pessoa que vem na capa este mês, Isabel Stilwell. Não a conheço o suficiente para desgostar, mas garantidamente não sou fã, e o facto de vir na capa de uma revista que idolatro, desgosta-me, sim.
Este torcer o nariz a Isabel Stilwell vem de trás, de uma edição da revista Pais & Filhos, na qual era (é?) colaboradora, na altura em que eu lia a revista em questão, e a propósito de um texto que assinou sobre crianças que, se não me falha a memória, estavam no limite entre o irrequieto e o mal educado. A sugestão para que as aulas decorressem calmas sem a presença dos mais endiabrados, era dar-lhes um castigo. E foi precisamente isso que me levou a escrever-lhe insurgindo-me contra o castigo: mandá-los para a Biblioteca!
Bom, em primeiro lugar, desta vez a escrita não me deu prémio algum, pois não obtive resposta. Em segundo lugar, e consubstanciando o meu argumento para descredibilizar o castigo, senti-me horrorizada por pensar que alguém que estava ligada a uma revista daquela índole podia sequer equacionar a possibilidade de se ver uma Biblioteca como uma espécie de inferno...
A ligação entre Isabel Stilwell e as (minhas adoradas) bibliotecas como câmaras de tortura ficou-me sempre na memória e não a consigo desligar, assim como não consigo deixar de ficar triste de a ver na capa da Volta ao Mundo. Simplesmente, não pegam, mas esta é só a minha opinião, a opinião de alguém que, embora tenha ganho muitos concursos, ninguém conhece.
Ave, senhor engenheiro Luís Almeida e senhora doutora Isabel Stilwell!

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Tuba de Eustáquio

Os meus ouvidos estão sem reacção, amorfos, parvos. Eles não ouvem, e isso faz de mim surda. É injusto...
Continuando à espera de consultas e cirurgias e do pote de ouro no fim do arco-íris, já agora, defendo-me dos zumbidos de forma adolescente: ando sempre de auscultadores enfiados nos ouvidos a ouvir música aos berros.
Faz mal? A sério? A quem? A mim? A mim faz-me mal não ter uma solução definitiva para isto, a mim faz-me mal o zumbido permanente, a mim faz-me mal ter uma mira técnica dentro da cabeça.
No meio disto tudo, o grande problema que se coloca é a minha incapacidade para ler enquanto ouço música, que tem de ser alta para competir com o zumbido.
Assim, há muito que as viagens de metro não são de livro em riste e sim de cabeça a dar a dar ao som de muitas coisas, desde Bizet a Snoop Dogg, de Wagner a Michael Jackson, de Aznavour aos Gipsy Kings, dos Queen a Elis Regina, com muito batuque pelo meio.
Das letras para os instrumentos musicais, quem diria?

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Hoje deu-me p'raqui

Albert Camus era Escorpião. Não sei se ele saberia, mas nós sabemos. A possibilidade de ele não saber coloca-se na perspectiva de não ligar a signos, nada mais. Porém, e a acreditar no que se diz do feitio dos Escorpiões, não admira que tenha escrito A Peste. Um Aquário não escreveria A Peste, atacava-a para o bem-estar da humanidade.
Mas os Escorpiões são assim, é da sua natureza como diz a anedota, séria, by the way. Veja-se o nosso Saramago, também Nobel, onde terá ele ido desencantar aquele título sádico - As intermitências da morte - morre, não morre, morre, não morre, tipo semáforo, que angústia e que paciência!, e se nestas intermitências estão as pessoas no cemitério, de roda do funeral, o tempo que se perde, e outros a quererem, eles também, morrer, e as pessoas com jantares e almoços para fazer, e filhos para irem buscar às escolas, e compras de supermercado à espera e tanta coisa parada.
Andre Gide, por seu turno, escreveu sobre Édipo, de onde se pode concluir que é um complexado, Odysseus Elytis, com um feitio do contra, levou a maldade bem longe escrevendo em grego!, e Gerhart Hauptmann deu-nos o quê? Os ratos! tal e qual, assim, tipo praga.
Mas não se pense que são só os homens, não; Nadine Gordimer escreveu Get a life que, como todos sabemos é expressão para deixa-me da mão, vai por onde vieste, não deixas saudades, e isso não é bonito nem fica bem, como um preto de cabeleira loura ou um branco de carapinha.
Selma Lagerlof, por outro lado, é uma plagiadora, que ainda por cima baralha tudo, e A lenda da rosa de natal é a prova disso! Não é lenda da rosa e sim Milagre das Rosas, e já desde o século XIII. Note-se o esforço feito para ocultar as provas da óbvia cópia!, e de Natal não é uma rosa, é uma árvore, informação também do domínio público.
Já um Aquário como Mo Yan, é um bem-disposto como se prova com o título Shifu, You'll do anything for a laugh.
Coetzee, tem um Summertime, cenas da vida da província, que nos induz para uma calma e tranquilidades desconhecidas dos Escorpiões.
O senhor Kenzaburo Oe, Nobel desde 1994, autor de Não matem o bebé, Um eco do céu ou Dias tranquilos, é o quê? Aquário, pois claro.
Já a senhora Toni Morrison, escreveu nada mais nada menos que... O Paraíso. É aquário tal como Derek Walcott, que coloriu a noite de esperança com In a green night.
E que dizer de Boris Pasternak, nobelizado desde 1958, que colocou o Dr. Jivago na nossa vida? O que se pode pedir mais?
Sinclair Lewis, outro Aquário, foi um visionário de tal forma que escreveu World So Wide, isto em 1951. Havia de ter sido World Wide Web, mas naquela altura ele usava caneta de tinta permanente, o título ficou um bocado esborratado e acabou assim, o que não lhe tira mérito.
Porém, de quem não sabemos o signo, mas eu apostava num Aquário, pois claro, é de Luís Vaz de Camões. Nem o ano da sua vinda ao mundo é certo, talvez em 1524, talvez. A dúvida sobre se Os Lusíadas foram uma encomenda também não está resolvida, mas eu apostava que sim dadas as condições de vida posteriores, miseráveis.
Quem não é Aquário nem Escorpião
É Dom Sebastião,
O encoberto,
O esperto,
Que fugiu para o deserto,
Portugal boquiaberto,
Para sempre, incerto.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

De A Ilha do Tesouro para a sociedade de consumo

To the hesitating purchaser

If sailor tales to sailor tunes,
Storm and adventure, heat and cold,
If schooners, islands, and maroons,
And buccaneers, and buried gold,
And all the old romance, retold
Exactly in the ancient way,
Can please, as me they pleased of old,
The wiser youngsters of today:
—So be it, and fall on! If not,
If studious youth no longer crave,
His ancient appetites forgot,
Kingston, or Ballantyne the brave, 
Or Cooper of the wood and wave:
So be it, also! And may I
And all my pirates share the grave
Where these and their creations lie!
(Robert Louis Stevenson)

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

CHULO

O email vem com o assunto em maiúsculas. CHULO.
Tal como nas imagens televisivas que engolimos com a sopa do jantar, de guerras, pobreza ou da miséria instalada, imagens e situações que já não transmitem novidade, que já se esgotaram, também a situação do senhor Jorge Viegas Vasconcelos da ERSE, aborrece-nos mas vai para o saco do nada.
Demitiu-se mas vai continuar a receber não sei quantos milhares, à pala da malta, mais um, são tantos que nem todas as equipas de futebol do mundo inteiro lhes conseguem ganhar.
Por vários motivos isto lembra-me Começar do Nada, de Konsalik, relido recentemente e do qual se extraem as duas seguintes passagens (com um pedido de desculpa pela imperfeição da digitalização):




Se os truques são os mesmos há séculos, porque nos deixamos entruquizar?

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

José de Figueiredo

Há um largo à beira do Museu Nacional de Arte Antiga com o nome do seu primeiro director, José de Figueiredo.
Este homem foi um amante da arte e um caçador recolector de tudo quanto era arte portuguesa dispersa pela Europa. Não admira ter sido também o primeiro director da Academia Nacional de Belas-Artes, que instituiu um prémio com o seu nome, a atribuir a edições de destaque sobre arte e património.
Ontem foi a entrega deste prémio - a dois autores - bem como a entrega de outros prémios instituídos pela Academia: Aquisição-Pintura, a Graça Morais, e o prémio Gustavo Cordeiro Ramos foi para o (ausente) Domingos Loureiro.
Com o busto original da República a seu lado e D. Maria II, autora do decreto que criou a Academia, por trás de si, Graça Morais disse o que todos sabemos: ninguém quer saber e a Sr.ª Albuquerque terá os mesmos direitos jornalísticos, televisivos e comunicacionais do costume, a cultura é dispensável.
O mesmo tratamento de silêncio receberam os livros premiados, de Nuno Vassallo e Silva, Ourivesaria Portuguesa de Aparato, e de Miguel Figueira de Faria, como coordenador de uma equipa e também autor, Do Terreiro do Paço à Praça do Comércio: História de um Espaço Urbano.
Para além da Sr.ª Albuquerque e das brincadeiras de cirurgião que andam a fazer a Portugal, havia também a imbatível selecção portuguesa de futebol e o mundial, perseguido como um atraente pescoço por uma cambada de vampiros. Que espaço haveria para se falar de livros?

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Takk

As saudades do V. são sempre muitas. Por isso foi com ansiedade que chegou esta semana, na qual ele prometera uma visita. Veio acompanhado por um amigo de quem já ouvira falar frequentes vezes, dono de loja de albarrábios, que o mesmo é dizer mago destas coisas dos livros.
A Praça do Comércio recebeu-nos com sol e a mesa no Martinho ao almoço com peixe grelhado para uns e favas para outro. E vinho. E excelente disposição. E conversa, a minha aos saltos, no meu estrangeirar, que se dane!
Senti imediata empatia com o norueguês e passei a adorá-lo quando percebi que idolatrava o V., tal como eu, suposição que ficou no ar ao almoço e foi confirmada ao jantar - fiz um intervalo de tarde para ir trabalhar...
D. José acolheu-me debaixo do seu cavalo enquanto os esperava ao fim do dia, com um jantar em Cacilhas debaixo de olho. Conhecedora exímia da cidade onde trabalho, encaminhei-os para a estação fluvial em direcção ao Barreiro. Estando as máquinas de venda de bilhetes out of service - todas! - fomos à bilheteira, onde percebi o engano. Saltámos para um autocarro, transporte que não apanhava há anos e que, curiosamente, hoje voltei a usar, face à greve do Metro, e fomos para o Cais do Sodré.
Não sei se por solidariedade com as outras máquinas, mas também aqui estas estavam out of service... sobrava uma e não dava troco, não aceitava pagamento com multibanco, lá se tiraram três bilhetes - um de cada vez! - e fiquei com as notas de crédito para levantamento posterior.
É tão bom termos as coisas mas nada funcionar, não é nada terceiro-mundista, fazem-se filas de gente na bilheteira, quem mete dez ou vinte euros na máquina e não pode recuperar a demasia reclama e insurge-se contra a máquina, são muito vivos e dinâmicos aqueles momentos...
Finalmente, chegamos a Cacilhas, o sol já não podia esperar mais por nós e tinha desaparecido deixando um rasto cor-de-laranja, ainda assim, impressionante, as gruas do porto a desenharem-se à contra-luz, espuma branca efémera a formar-se e desfazer-se enquanto outro cacilheiro passa por nós, imagem sempre memorável.
Caminhamos no Cais do Ginjal em direcção ao Atira-te ao Rio ainda com luz. Falamos, falamos, falamos, comigo a tropeçar na língua a cada passo, mas fascinada com o que o norueguês sente pelo V., aproveitando dois momentos em que se ausenta para rezarmos ao mesmo Deus, abrirmos os olhos de felicidade pelo amigo comum, comungarmos naquela amizade, elogiando mais que merecidamente quem não gosta de elogios, os dois com a certeza que um dia o V. será descoberto. Descoberto pela sua inteligência, pela sua enorme e inultrapassável capacidade de análise da vida, pela sua forma de escrever, pelo talento para cruzar conhecimento imprimindo-lhe mais valia, pela sua memória, da qual morro de inveja, assim como pelas línguas onde se espraia, que me faz ciumenta.
O V. é uma pessoa que me faz sentir segura só por estar ao lado dele, fico feliz por saber que não sou a única e por poder partilhar esta sensação com alguém que convive com os Invernos noruegueses, como se a amplitude térmica que ambos simbolizamos fosse a escala para a dimensão do V.: dos calores alentejanos aos gelos nórdicos, o V. é universal.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

St. Elmo's Fire

O primoroso serviço de tradução de títulos de filmes que passam neste nosso Portugal sempre esteve de parabéns. O primeiro que me lembro de me ter provocado um arquear de sobrancelhas foi The grass is greener. Muito intenso, ficou muito melhor Ele, ela e o marido, afinal o que têm Cary Grant e Deborah Kerr a ver com a natureza? Nada, como é óbvio.
Entre outros, há um livro curioso sobre este assunto - Perdidos na Tradução, de Iuri Abreu - que nos levanta sorrisos, mesmo em dias de má disposição. Explica o autor que os títulos traduzidos pretendem fazer uma ligação entre o espectador e a trama do filme, como se dessem uma pista, obliterando por completo as segundas intenções dos autores, quantas vezes tão retorcidas, a que obrigariam o pobre espectador se tivesse que pensar porque raio foram dar aquele nome ao filme? Simplificar é a palavra de ordem.
Com a disseminação da língua inglesa começa a haver mais cuidados, há muitos que nem são traduzidos optando-se pela língua original. Ainda assim, temos um City Slickers que ficou conhecido com um mais que evidente A vida, o amor e as vacas ou um St. Elmo's Fire que se transformou obviamente em O primeiro dia do resto das nossas vidas.
Várias são as circunstâncias para fazerem do dia de hoje o primeiro do resto da minha vida e, tendo em conta que o fogo de santelmo era visto como benfazejo por uns e sinal de intranquilidade por outros, fico na expectativa. 

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Mas estamos a brincar ou quê?

Manuel Almeida não gosta da palavra Bairro. Afirma ser um ninja e querer formar ninjas para combater o crime. O candidato mais mediático das eleições de Setembro de 2013 lembra o brasileiro Tiririca mas, por mais vontade de rir que nos dê, acaba por ser uma voz anónima que arranca de muita gente um, É parvo, é parvo, mas vai dizendo verdades... 
É o taxista que conhece aquele caso com que lidou ainda ontem, é o passageiro dos transportes que ainda há dias ficou prejudicado porque o autocarro não passou, é o cidadão a quem acontecem coisas concretas e pode dar exemplo disso, levando o particular à categoria de geral.
Faltando-lhe, entre outras coisas, a dimensão do global, os concorrentes entram em paranóia com o discurso inarticulado, mostrando desagrado com as acusações de Manuel Almeida, mas não adiantando muito mais, quase com pena dele, quem seria o juiz que o condenaria fosse pelo que fosse. Ainda assim, têm escrito nas testas Mas porque é que este gajo teve que se candidatar ao mesmo tempo que eu? Como se a dimensão extraterrestre de Manuel Almeida descredibilizasse qualquer pessoa envolvida.
A dimensão pessoal assumida em tudo verbaliza acusações de ladrões e corruptos; quem não as faz? Ideias como a de fazer auditorias sem aviso prévio são palavras comuns na boca de cidadãos comuns. Afinal onde está a surpresa?
O novo Tino de Rans distingue-se do original por uma raiva contida, um desafio instintivo contra uma vida que não terá sido fácil.  Procura palavras e sai-lhe especular a propósito de tudo e mais um par de botas, juntamente com mais uma história pessoal, cheia de pormenores, e eu disse, e ele disse, e depois eu disse e depois ele disse,...
Manuel Almeida é um português nato. Sabe que muita, muita, muita coisa está mal e quer que fiquem bem. Personagem digna dos Gato Fedorento contrariou a célebre tirada, Eles falam, falam, mas não fazem nada, fazendo alguma coisa: candidatando-se. E quer se queira, quer não, isso é muito importante.
Manuel Almeida lembra-nos a criação de Gil Vicente,  Joane, o parvo, do Auto da Barca do Inferno, o único que tem a audácia de injuriar o Diabo, o pobre de espírito, o inocente que, mal ou bem, se opõe ao poder.
Visto na televisão e na internet é espectáculo gratuito que ninguém perde, que todos condenam, mas a quem silenciosamente se acaba por dar uma certa razão. 

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Pantaleão e as Visitadoras

Imagino Mario Vargas Llosa a rir à gargalhada quando se inteirou da história que o levou a escrever sobre o Serviço de Visitadoras, criado e mantido por Pantaleão Pantoja, capitão do exército peruano. Imagino-o a correr para o papel e a caneta. Imagino-o a sentar-se e a parar de rir. Imagino-o a imaginar cada uma das personagens, a pensá-las, a entrar-lhes no corpo e na alma,  que isto é maneira de falar, não literalmente, apesar do tema não creio que deva ser lida à letra. Imagino que para Vargas Llosa, Pantaleão e as Visitadoras foi uma orgia!
Explico-me para não ser mal interpretada.
Nesta narrativa há o oito e o oitenta, a ingenuidade de Pocha e a experiência de Chuchupe, a fome de prazer dos soldados e a abstémia dos irmãos da Arca, a beleza da Brasileira e a natureza da Mamuda, a mudança do vento nas opiniões de Sinchi e dos generais, e Pantoja, Panta, Pantita, quase santo, livre de vícios e obrigado a viver no meio deles, a mentir à família, a enganar-se a si próprio, a mudar, a ir dos oito aos oitenta.
Quando afirmo que Vargas Llosa pensou em cada personagem e lhes entrou no corpo e na alma, tenho provas disso: os discursos que se cruzam, aparentemente fora da lógica, mas com mais lógica que tudo o resto, ou não falássemos nós e pensássemos em simultâneo, que em simultâneo falam as pessoas, principalmente se estiverem em diferentes contextos e locais, que mundo de mudos teríamos se cada vez que um falasse em Iquitos todos os outros em Iquitos e em Lima e em Lisboa e em todas as partes se calassem?
Com este discurso o autor não nos presenteia com um livro e sim com a realidade, que se cruza, que se mescla, que se ultrapassa, que se contradiz, que se revela (não consigo deixar de me lembrar de vários autores que deviam ler estes textos vezes sem conta para aprenderem alguma coisa sobre o que é escrever, José Rodrigues dos Santos seria um bom candidato).
Assim, Vargas Llosa dá-nos a totalidade das envolvências ao mesmo tempo, como se carregasse as personagens ao colo em simultâneo, uma espécie de Árvore das Mãos de Ruth Rendell, mas com pessoas e um autor.
A forma como o autor nos leva a movimentar dentro da narrativa é única, flutuamos pela selva, pela Amazónia, em Iquitos, damos toda a atenção aos relatórios militares, escutamos atentamente as emissões radiofónicas, assustamo-nos com o Doido no hidrovião e, pelo menos eu, revolto-me com o revisor do livro. Lamentavelmente não fixei o nome deste profissional do erro e da gralha, e o livro, emprestado, foi devolvido.
O Irmão Fransisco é mencionado dezenas e dezenas de vezes ao longo das páginas e há um tal de Irmão Francisco que aparece uma ou duas vezes...
Continuo a espantar-me - já não devia... - com as fichas técnicas que anunciam tradutores e revisores e depois há mais gralhas que gotas de água no mar. Quanto terão pago ao homem? O que dirá a sua consciência? Terá consciência?
Não apontei as gralhas e é raro ler até ao fim um livro com tanto buraco, que me obriga a tanta paragem que parece uma prova de obstáculos, mas Pantaleão falou mais alto.
Pantaleão e as Visitadoras, lido em edição da D. Quixote, a precisar de revisão urgentemente.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Crónica da realidade

Entro na Biblioteca vinda de uma reunião no exterior. À entrada sou abordada por uma senhora, aluna, que me pede ajuda:
- Pode dizer-me o que têm sobre reabilitação?
- Reabilitação em que área?
- Isso não sei, foi a professora Fulana que me mandou aqui à procura de livros sobre o assunto.
- Muito bem, mas é de que curso? Arquitectura, Psicologia, Direito?
- Eu?
- Sim, a senhora anda a tirar o quê?
- Enfermagem.
- Ok. Pode fazer pesquisa num destes computadores. Precisa de ajuda?
- Não, não percebeu: eu quero é livros, de computadores e internetes não percebo nada.
Depois de chamar alguém para dar um auxílio, vou para o gabinete decidida a nunca precisar de uma enfermeira.