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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Nova vida

Voltei aos bancos da escola.
Estou feliz porque regresso ao que mais gosto de fazer, estudar, e consequentemente cada vez tenho menos tempo para escrever aqui.
Há dias em que penso que vou estourar com tanta leitura, tanto afazer, tanto trabalho, dividida e multiplicada em inúmeras tarefas. Mas como diz o adágio, quem corre por gosto não cansa e lá continuo, depois de um jantar não antes das onze da noite, agarrada a papéis ou ao computador, sempre com imensa pena de não ter com quem partilhar as dúvidas, existênciais ou outras, com quem discutir assuntos fora de horas nesta nova fase, nova área de estudo, novos autores, novas perspectivas, a mesma sensação de preenchimento por ter voltado a estudar de forma sistemática, empenhada.
Sou febril quando quero uma coisa e fiquei em extâse quando fui aceite; agora é empenhar-me mais ainda, não dispersar e aplicar-me.
Considerei fazer esta nota como explicação pela minha ausência e agradecimento pelas mensagens simpáticas que recebi numa caixa de correio que nem sempre vejo.
Voltarei a este espaço espaçadamente, mas não diariamente. 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Os homens da minha vida

Ando numa paixão avassaladora com dois homens.
Um é arquitecto o outro dedica-se ao comércio. Ambos têm uma marca indelével na cidade de Lisboa, a qual abraçaram como local ímpar para viver.
Conheci-os por mero acaso, apresentados por conhecidos comuns e fiquei varada, primeiro com o arquitecto, depois com o comerciante.
Não me é possível eleger um, não sou capaz.
Passo dias, e noites, com cada um, à vez e frequentemente com os dois. Procuro saber tudo sobre eles e concluo que as suas vidas estão envoltas em mistério, plenas de pontos de interrogação.
Por mais que os questione, não obtenho respostas.
A maçonaria está presente na vida de ambos o que pode levar a algum secretismo nas vivências, mas eu não desisto, nem de um, nem de outro...
As minhas amigas, subtilmente, avisaram-me que ambos já morreram, que viveram, um no século passado e o outro há dois séculos atrás; e eu respondo-lhes que os vivos têm tanto interesse que apenas os mortos me fazem aproximar.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

É do dia, só pode ser do dia

É do dia, só pode ser do dia, da chuva, do cinzento que me transmite esta tristeza profunda, não há-de ser de mais nada.
Não pode ser da surdez de quem eu precisava que me ouvisse, da insensibilidade de quem eu esperava que fosse sensível, da falta de preocupação de quem tinha obrigação de se preocupar, da cegueira de quem devia ter olho de falcão.
Escolho a música, escolho-a alegre e descontraída mas de repente já estou a ouvir melodias que cavam mais fundo nesta tristeza; desligo o rádio, forma de expressão para dizer que fecho o youtube, e daí a nada lá está ele a tocar novamente, como se a música fosse a última companhia, o derradeiro afago, um abraço compensador.
Acredito que o problema será meu, que nunca me mostro frágil e de repente é como se todas as fragilidades e fraquezas viessem ao cima, com a água da chuva, ficam a boiar diante de mim e não tenho forma de as afastar. Quando dou conta explodem à minha volta, trazendo lembranças e memórias, injustiças, falta de reconhecimento, infidelidades, esquecimentos, risos cínicos, e trabalho, muito trabalho, que uso da melhor forma possível para me afastar de tudo, até de mim. Afasto também as lágrimas cerrando os dentes, tanto, tanto que temo parti-los. 

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Takk

As saudades do V. são sempre muitas. Por isso foi com ansiedade que chegou esta semana, na qual ele prometera uma visita. Veio acompanhado por um amigo de quem já ouvira falar frequentes vezes, dono de loja de albarrábios, que o mesmo é dizer mago destas coisas dos livros.
A Praça do Comércio recebeu-nos com sol e a mesa no Martinho ao almoço com peixe grelhado para uns e favas para outro. E vinho. E excelente disposição. E conversa, a minha aos saltos, no meu estrangeirar, que se dane!
Senti imediata empatia com o norueguês e passei a adorá-lo quando percebi que idolatrava o V., tal como eu, suposição que ficou no ar ao almoço e foi confirmada ao jantar - fiz um intervalo de tarde para ir trabalhar...
D. José acolheu-me debaixo do seu cavalo enquanto os esperava ao fim do dia, com um jantar em Cacilhas debaixo de olho. Conhecedora exímia da cidade onde trabalho, encaminhei-os para a estação fluvial em direcção ao Barreiro. Estando as máquinas de venda de bilhetes out of service - todas! - fomos à bilheteira, onde percebi o engano. Saltámos para um autocarro, transporte que não apanhava há anos e que, curiosamente, hoje voltei a usar, face à greve do Metro, e fomos para o Cais do Sodré.
Não sei se por solidariedade com as outras máquinas, mas também aqui estas estavam out of service... sobrava uma e não dava troco, não aceitava pagamento com multibanco, lá se tiraram três bilhetes - um de cada vez! - e fiquei com as notas de crédito para levantamento posterior.
É tão bom termos as coisas mas nada funcionar, não é nada terceiro-mundista, fazem-se filas de gente na bilheteira, quem mete dez ou vinte euros na máquina e não pode recuperar a demasia reclama e insurge-se contra a máquina, são muito vivos e dinâmicos aqueles momentos...
Finalmente, chegamos a Cacilhas, o sol já não podia esperar mais por nós e tinha desaparecido deixando um rasto cor-de-laranja, ainda assim, impressionante, as gruas do porto a desenharem-se à contra-luz, espuma branca efémera a formar-se e desfazer-se enquanto outro cacilheiro passa por nós, imagem sempre memorável.
Caminhamos no Cais do Ginjal em direcção ao Atira-te ao Rio ainda com luz. Falamos, falamos, falamos, comigo a tropeçar na língua a cada passo, mas fascinada com o que o norueguês sente pelo V., aproveitando dois momentos em que se ausenta para rezarmos ao mesmo Deus, abrirmos os olhos de felicidade pelo amigo comum, comungarmos naquela amizade, elogiando mais que merecidamente quem não gosta de elogios, os dois com a certeza que um dia o V. será descoberto. Descoberto pela sua inteligência, pela sua enorme e inultrapassável capacidade de análise da vida, pela sua forma de escrever, pelo talento para cruzar conhecimento imprimindo-lhe mais valia, pela sua memória, da qual morro de inveja, assim como pelas línguas onde se espraia, que me faz ciumenta.
O V. é uma pessoa que me faz sentir segura só por estar ao lado dele, fico feliz por saber que não sou a única e por poder partilhar esta sensação com alguém que convive com os Invernos noruegueses, como se a amplitude térmica que ambos simbolizamos fosse a escala para a dimensão do V.: dos calores alentejanos aos gelos nórdicos, o V. é universal.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Há horas de sorte

Era uma vez uma mãe de família cujo vencimento ao fim do mês era o único sustento lá de casa; dois filhos pequenos e marido desempregado faziam-na tremer de receio por cada novo dia, e se alguém adoece, e se eu adoeço?, pensava ela.
Não obstante o peito apertado, ia todos os dias para o trabalho com um sorriso e era conhecida como pessoa que dava, sem pedir. Boa ouvinte, atenta com os outros, boa profissional, diziam as colegas.
Porém, a rapariga não fazia o que gostava, não aplicava o que estudara, todo o espaço era pouco para quem sonhava andar pelos campos, para quem tinha ambição de ver crescer o milho, de controlar as cheias do rio, de o desviar se necessário for, de acompanhar e cuidar dos animais, para quem tinha vocação de se ocupar da natureza viva.
Sem outro remédio, ia executando o que lhe pediam, entre papéis e computadores, sistemas informáticos que o ministério distribuiu e que deviam ser usados.
Assim, o tempo passava deitado numa rotina que nada previa que se alterasse, até que um dia...
Um dia chegou um cliente dos serviços onde a rapariga trabalhava e disse-lhe que a observava há algum tempo, que apreciava a sua maneira de ser, que sabia das suas habilitações e que lhe propunha ir trabalhar para a sua empresa.
O homem  era conhecido em toda a região como um proprietário agrícola abastado, pessoa calma e ponderada e um dos clientes mais estimados daquele serviço. A rapariga nem queria acreditar que a conversa era com ela e sentiu-se em plena disneyândia quando ele disse que lhe duplicava o ordenado e lhe dava um carro apropriado para andar no campo, que ela podia usar na sua vida particular.
É brincadeira, verdade? Não, é a sério. Papéis assinados, tudo tratado, alegria e felicidade transbordantes, a rapariga ainda nem acredita que lhe saiu a lotaria.
Num último acto de lealdade para com a empresa, na qual ainda ficará uns dias, assim foi acordado, e para com os restantes companheiros de trabalho, no dia que comunica formalmente a sua decisão de abandonar o lugar, pede para falar com o responsável máximo que lhe concede tempo do seu.
Imperturbável e com um grande equilíbrio de postura e de linguagem expõe os problemas do serviço com a maior clareza possível, problemas esses, alguns deles, não resolvidos por inércia superior, indiferença, receio de injustiçar amigos e compadres, cuja acção é prejudicial à empresa mas, cuja influência, a podia colocar ao lado do marido no desemprego, se ela, ou outro alguém, resolvesse pôr os pontos nos is, ainda que alegando o superior interesse da própria empresa.
Foi ouvida, pediram-se provas, foram entregues, a vida continua mas com outro rumo. Perante o óbvio escarrapachado diante dos olhos, não podia ser de outra forma.
Afinal, o bem existe e anda por aí. Parabéns e muitas felicidades R.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

St. Elmo's Fire

O primoroso serviço de tradução de títulos de filmes que passam neste nosso Portugal sempre esteve de parabéns. O primeiro que me lembro de me ter provocado um arquear de sobrancelhas foi The grass is greener. Muito intenso, ficou muito melhor Ele, ela e o marido, afinal o que têm Cary Grant e Deborah Kerr a ver com a natureza? Nada, como é óbvio.
Entre outros, há um livro curioso sobre este assunto - Perdidos na Tradução, de Iuri Abreu - que nos levanta sorrisos, mesmo em dias de má disposição. Explica o autor que os títulos traduzidos pretendem fazer uma ligação entre o espectador e a trama do filme, como se dessem uma pista, obliterando por completo as segundas intenções dos autores, quantas vezes tão retorcidas, a que obrigariam o pobre espectador se tivesse que pensar porque raio foram dar aquele nome ao filme? Simplificar é a palavra de ordem.
Com a disseminação da língua inglesa começa a haver mais cuidados, há muitos que nem são traduzidos optando-se pela língua original. Ainda assim, temos um City Slickers que ficou conhecido com um mais que evidente A vida, o amor e as vacas ou um St. Elmo's Fire que se transformou obviamente em O primeiro dia do resto das nossas vidas.
Várias são as circunstâncias para fazerem do dia de hoje o primeiro do resto da minha vida e, tendo em conta que o fogo de santelmo era visto como benfazejo por uns e sinal de intranquilidade por outros, fico na expectativa. 

terça-feira, 25 de junho de 2013

Misfit moms

Ontem vi o mais violento programa de televisão a que já assisti. Três adolescentes grávidas são acompanhadas por uma instituição que as acolhe durante a gravidez, gravidez essa que termina em adopção.
Duas delas já eram mães e a terceira engravidara quando se prostituía para arranjar dinheiro para a droga.
As três mostravam características opostas, uma reservada, outra dando uma certa abertura e outra ainda cujo comportamento denotava uma falha, se não mesmo um abismo. Não prescindia de fumar e de beber tequila, era cleptomaníaca e arranjava problemas com a polícia.
A passos mais ou menos largos decorrem nove meses com visitas ao médico, rotinas diárias, jantares e compras (e roubos). De permeio a instituição distribui às adolescentes perfis de casais que querem adoptar, perfis esses - dossiers com texto e fotografias - que elas analisam para escolherem quem vão ser os pais dos seus filhos. Assim, boas fotografias, pouco texto, mas conciso, e muita cor, são elementos decisivos num processo de adopção, onde a última palavra é dada pela mãe, num processo que me pareceu perverso.
Todo o percurso é uma montra de horrores.
Uma das miúdas grávidas, já mãe de uma criança com ano e meio, tinha de seu quatro malas: duas com pertences dela própria e duas com coisas da filha. O horror de ter que dar o filho ia crescendo ao longo das filmagens tendo sido a que demorou mais a assinar os papéis. No Estado em questão a documentação só pode ser assinada vinte e quatro horas depois do nascimento para que a mãe tenha a certeza (?) que quer seguir esse caminho.
A instituição marca encontros com casais ansiosos por serem pais que se deslocam dos quatro cantos dos Estados Unidos da América para conseguirem o seu bebé, bebé esse que tem mais hipóteses de lhe ser atribuído se a sua candidatura tiver agradado à grávida. Foram postos de lado casais com argumentos do tipo: vivem numa quinta; têm ar de agricultores; já têm filhos; não inspiram confiança; tem uma cara esquisita.
A montra de horrores mostrava também a ansiedade dos pais adoptantes, alguns dos quais já conheciam aquele percurso e nunca sabiam quando a grávida ia voltar atrás. Pode também acontecer o casal encontrar-se com a grávida, esta ir pensar e quando dá a resposta eles já optaram por outra criança, como quem escolhe outra universidade.
As grávidas são acompanhadas por um médico que lhes dá indicações apenas e só sobre a gravidez, não sobre a criança, pois sabe o seu destino, como se fossem conversas que ficam a meio, onde os cuidados têm fim e não são para sempre.
Os partos são filmados e na sala de partos está a mãe, o médico, um elemento da entidade acolhedora, os futuros pais (que podem não chegar a ser e cujas vinte e quatro horas seguintes são traumatizantes e inesquecíveis) e a equipa de filmagem.
Ao ritmo dos gritos e dos gemidos da parturiente a eventual futura mãe aperta a mão do eventual futuro pai e choram ambos.
Em paralelo com esta dinâmica dos infernos há um processo administrativo que contempla três vertentes possíveis: adopção aberta, fechada ou semi-aberta. A adopção aberta é aquela onde a mãe verdadeira continua a fazer parte da vida do filho, vê-o periodicamente, o casal adoptante compromete-se a dizer mais tarde à criança que a mãe foi muito corajosa e a falar sempre bem dela. A semi-berta prevê o envio de fotografias nos aniversários, Natal e momentos especiais e a fechada supõe um afastamento para sempre.
Uma das adolescentes exigiu que a criança nunca soubesse que era adoptada o que chocou os futuros pais que, não obstante, concordaram.
Em conclusão, vi todos aqueles dramas, verdadeiramente chocantes, e questionei-me sobre a polémica da adopção de crianças por casais homossexuais que, dizem alguns, são prejudiciais ao crescimento e boa formação das crianças e jovens. Face ao que vi, pergunto, serão? Confesso que não me parece.
A tristeza das crianças que ali deram à luz outras crianças, que acredito ser verdadeira e profunda, esconderia muita coisa que não foi transmitida, não digo que sejam más mães, não julgo - embora considere o processo em si um coisa arrepiante e não lhes veja capacidade de decisão, mas é só uma opinião. As crianças criadas em regimes abertos ou semi-abertos terão um crescimento e uma formação saudável? Afinal, quais destes são os meus pais, porque fui dado, serei um objecto, serei um cão ou um gato?
Concordo a duzentos por cento que a adopção é um caminho para muitas pessoas e, não tivesse encontrado oposição no meu marido, na altura teríamos adoptado uma criança, já depois do nosso filho nascer. A mesma percentagem vai para todas as mães que, não tendo condições ou não querem os filhos,  recorrem à adopção, mas as crianças devem ser entregues a quem as queira, para lá da opção sexual.
Quando uma das miúdas dizia que um casal tinha ar de campónio e por isso não os queria para pais da sua filha, podia estar a dizer que o casal tinha ar de gay. Havendo alguém que quer amar uma criança devemos impedi-la? Havendo alguém que quer assumir uma parte da responsabilidade do património universal que são as crianças devemos proibi-lo? 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Razão de ser


Independentemente de aqui aparecerem textos novos todos os dias ou não, não se passa um dia sem que dê ao dedo. É uma coisa visceral, ler e escrever.
Já desisti de tentar editar seja o que for, e embora continue a escrever romances, guardo-os, como guardo as famosas botas que já correram mundo. Um dia ficarão para alguém que lhes dará o fim que entender e como escrevo como se fosse uma impressora das mais básicas, apenas de um dos lados, sempre se pode usar o outro lado como papel de rascunho.
Já esqueci as incitações dos amigos que me chagam para que edite a estória de Carmem, as colecções de mini contos, os livros infantis ou A rapariga que não gostava de livros com as capas dobradas, completo, do qual há por aqui vários capítulos.
Sobre esta matéria quero aproveitar para agradecer a todos os que me escrevem a pedir o final e informar que falta muita coisa pelo meio.
Porque se sente esta necessidade de partilha? De querer que outros estejam connosco nesta coisa que é escrever e ler? Neste casamento tão perfeito que até a perfeição o inveja?
A escrita é uma forma de dádiva, e não me refiro ao saber escrever, mas ao acto de dar aos outros. No meu caso, no deste blog em concreto, é uma necessidade de partilhar sim, mas também de rever o dia-a-dia, as relações entre as pessoas, de apanhar situações que me fazem rir, pensar e reflectir, reclamar, emocionar, recordar, e tudo em público, de forma aberta e partilhada.
Não deixo de me rir quando me dizem que o Areia às Ondas é um reality show com a diferença que não é em directo… Sim, é um diário que é lido aqui em Portugal, mas também em Macau e na Argentina, em Angola e no Brasil, na Noruega e nos Estados Unidos, em Israel e na Alemanha, na Dinamarca e na Coreia e, não sei dizer porquê, com imensas visitas originárias da Rússia.
Mencionei apenas os países que registam um maior número de pegadas neste areal, mas outros há, e que aqui não se leia qualquer desprezo, qualquer preferência da quantidade sobre a qualidade. Por exemplo, veio de Espanha a mensagem mais engraçada que já aqui recebi, da Venezuela um pedido para reproduzir textos, do Chile, ai o Chile, um dia vou ser tão feliz no Chile, um abraço enviado por que si, como dia o remetente.
Curiosamente, ou não, de Portugal vieram dois pedidos, dois, para retirar textos. Que não eram verdadeiros, que ofendiam, que devia ter cuidado com a prosa. Falo agora desde assunto pela primeira vez pois a importância que lhes dei foi nula e a única cosia que apaguei foi um comentário, de um amigo, que escreveu o meu nome e fez várias referências pessoais, desnecessárias na minha opinião, e assim lho comuniquei quando retirei o comentário.
Tem havido interacções directas com portugueses, que muito prazer me dão, desde logo com um certo ladrão de livros que se deu ao trabalho de vir a Lisboa conhecer-me; com um leitor a quem eu emprestei um livro meu – contra todas as minhas regras!; com autores de livros que leio; com pessoas simpáticas que me dão o prazer de enviar umas linhas – por exemplo a dizer Boas Festas.
De todos, realço uma visita quotidiana, uma amizade de muitos anos, uma pessoa que vive sempre comigo embora a sua natureza de cidadão de mundo, e o asco pelo Portugal que temos, o leve a constantes viagens por esse planeta fora, o V.
A todos agradeço o acompanhar neste percurso.

Chico, grande abraço!


Já ouvi dizer que ser-se chic é ser um aristocrata da aparência. Há quem esteja chic de vez em quando – eu, raramente, mas já aconteceu – e há quem seja chic, de maneira inata. A minha prima Natércia é, definitivamente chic, mesmo que esteja de ressaca, com enormes olheiras e com o cabelo todo revolto. Nunca a vi assim mas acredito piamente que mesmo nessas condições ela mantenha um ar elegante, um porte distinto e um estar refinado.
Ora chic é uma palavra estrangeira que aportuguesada dá, obviamente, Chico! Provas disso são várias.
Comecemos por um dos mais famosos Chicos portugueses, o Chico do Cachené, que não só usa o dito cachené, um chapéu às três pancadas como remata com calções à marialva. Não será isto chic? E como não havia ele de por o bairro em alvoroço?
Outro Chico bem conhecido, o Chico Esperto, é ainda mais português que o anterior e não há alma lusa que não partilhe um pouco desta chiqueza. Adoro pensar num Chico Esperto de meia branca, anel no mindinho, crucifixo estampado no peito e amor de mãe expresso a azul num braço.
Outra prova irrefutável encontra-se no filme a Aldeia da Roupa Branca. Os aldeãos vibram com a chegada de um conhecido que vem da glamorosa cidade. E como se chama o filho da terra que vem visitá-los, bem vestido e garboso? Chico, pois claro! Gritam em uníssono Chegou o Chico, chegou o Chico!, que não podia ter outro nome, evidentemente. Qualquer outra das personagens não era digna de chegar de parte alguma: Jacinto, Luís, Zé ou Simão? Nenhum tem aquele dobrar de língua das duas consoantes que abrem o célebre nome, Jacinto é nome de aldeão, Luís é suave a mais da conta, esbate-se na boca, Zé é muito curto e Simão rima com cão!
Como se isto não bastasse, veja-se o caso de Chica da Silva: escrava alforriada e senhora da sociedade de Diamantina, com influência e poder. As perucas e roupas europeias, os modos, as casas, enfim tudo, eram de uma chiqueza que não poderiam pertencer a uma Maria qualquer e não é por acaso que se chamava Chica!
Mas as provas não ficam por aqui. Chico era o nome de uma moeda, de ouro, pois claro, no tempo dos cruzados. Alguém se lembraria de fazer uma moeda Manel ou Jaquim? Ah pois é, mas havia uma Chico!
E quem não se lembra do Chico Fininho? O Chico não caminhava, repare-se, gingava! E lá por se meter nas retretes não perde fineza, lá está, pois para além de ser fininho, é Chico e ser-se Chico é ser-se refinado.
E que dizer da lenda de Chico Rei? Rei! Nem Conde nem Marquês, Rei!
E como de pequenino se torce o pepino, onde é que as pessoas de bem compram os produtos para os seus bebés, onde? Na Chicco! Os dois cês não são por acaso, destinam-se a ensinar a criançada a dizer as sílabas de forma separada, a marcá-las bem. Quando crescem largam as fraldas e deixam cair um cê.
Conclusão, digam lá o que disserem ser-se Chico é a essência e a nobreza do chic!

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Defeito amigos areia às ondas


Com esta fórmula de pesquisa alguém chegou aqui. Sei quem é e ao que vem.
Sim, falo nos defeitos dos meus amigos, assim como falo nos meus: somos humanos, logo imperfeitos. Mas em fórmulas cartesianas nem todos sabem nadar. E em verdades, tão pouco. Confundem-se opiniões pessoais com verdades, coisa muito comum. Reconhecer os defeitos é parte do caminho para os mudar, para recomeçar, para melhorar. 
Não há deuses na Terra… e nós não vivemos no Olimpo.
Há verdades que não são universais, custe a quem custar, o que não quer dizer que alguma delas seja mentira. Mas isto é intrincado demais para certos génios, aos quais me rendo em gargalhadas montypythianas.
Assumirmos os nossos defeitos não é crime, é humanidade. Encará-los bem de frente é atitude de coragem que só alguns têm, embora muitos a apregoem porque gostam do efeito dos espelhos da Feira Popular que davam vontade de rir, e nesta suposta alegria escondem a vergonha e a pequenez e o ridículo e a hipocrisia e a falsa amizade.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Bibliotecários de todo o mundo, uni-vos!

Decorre o 11º Congresso Nacional dos Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas e eu estou lá. Estou lá aos intervalos: venho bem cedo à Biblioteca para deixar tudo em andamento e esgueiro-me enfiando a identificação pelo pescoço. Esqueço-me dela quando saio a correr e ando com uma pendureza cor-de-laranja ao peito até que alguém me pergunta o que é aquilo. Volto ao fim do dia para adiantar trabalho, ver mails - não tenho telefone capaz disso - e demais correspondência.
Hoje assisti e um debate sobre a necessidade de se preservar a memória dos arquivos das Editoras: memórias, arquivos e editoras, os meus três nomes. Gostei bastante, principalmente por haver vozes discordantes; é bom não haver consenso em certas coisas, obriga-nos a reflectir mais e, supostamente, melhor, a defendermos a nossa dama com novos argumentos ou a darmos razão ao outro.
Não gostei dos participantes que falam o tempo todo em surdina pensando - se pensarem... - que ninguém os ouve e não se preocupam com o incómodo que causam em quem quer debater, perguntar e fazer aquela tão simples que se chama Ouvir.
Apesar da crise os auditórios da Gulbenkian estão cheios, ou se calhar é por causa dela, para se procurarem novas soluções, partilharem caminhos e projectos.
Na conferência inaugural reforçou-se que o futuro é hoje, e eu assino por baixo, mas esta assinatura tem de ser colectiva, tem de ser participada, tem de ser activa, tem de ser unida. Tem de ser verdadeira. Trabalhemos para isso.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Estratégia musical


Uma grande amiga convidou-me para um evento de moda onde ela vai participar profissionalmente, mostrando o que tem para vender numa loja de bairro que ela conseguiu fazer passar do zero para um local incontornável naquela zona. Disse-me o dia e a hora e, caso eu estivesse interessada, disponibilizou-se para me comprar os bilhetes.
Suponho que deva ter ficado a pensar que sou mentirosa quando lhe disse que tenho o dinheiro contadinho até ao final do mês, que não tenho um euro para gastar nem para ir ao médico, que trago comer de casa e me permito beber dois cafés por dia, nada de revistas ou jornais, à excepção do maldito tabaco, cujo consumo vem encolhendo e é feito em casa. Lá deu a entender que eu não precisava de ser assim tão radical, que a vida está má e outros eteceteras que repetimos com toda a gente todos os dias. Ou seja, achou mesmo que eu exagerava e eu adorava ter exagerado…
Mas se vou ficar à espera que me contem como correu a coisa, que correrá magnificamente pois está lá ela, não tenho dúvidas, arranjei outra estratégia para me livrar de Leonard Cohen que vem a Portugal no próximo mês.
Nunca o vi ao vivo – não sou nada festivaleira nem concerteira – mas se há alguém que eu amava ver num concerto, é ele.
Não fui ver o preço dos bilhetes, nem vale a pena, mas tentei descobrir um qualquer concurso onde possa ganhar uma entrada. Não encontrei.
Resolvi então ligar-me ao youtube durante o dia inteiro, coisa que venho fazendo desde domingo, obrigando-me a cansar desta voz que é uma das minhas paixões eternas. Até agora ainda não consegui, mas quem entra aqui no gabinete repetidas vezes já me pergunta se isto é promessa.
Não desisto… pode ser que resulte.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Mestrado, excertos do discurso de apresentação


Este trabalho é uma radiografia do casamento entre o meu percurso profissional e académico. Revela as teias e as redes que se foram criando ao longo de décadas, com pessoas, locais, tarefas e objetivos a atingir.
Revela também a aquilo a que Primo Levi chama a beleza das bifurcações, as escolhas que fazemos ao longo da vida, umas por opção nossa, outras ajudados pela envolvência, mas com a certeza que os caminhos são nossos e que temos capacidade de os construir e de os mudar.
Garantir o acesso à informação é a palavra-chave da minha missão e que se desdobra em distintas actividades, presencialmente ou à distância, adquirindo livros ou construindo repositórios.
A origem dos utilizadores, por via de Bolonha, dos programas Erasmus, de protocolos vários, da sua vontade, tem limites que coincidem com os do mundo conhecido, quer os que nos visitam pessoal ou virtualmente.
A missão é satisfazer e apoiar o utilizador, o cliente, o leitor, o user, o usuário, o utilizator, o utilisateur, seja quem for, em primeiro lugar.
Ajudá-lo significa antes de mais entendê-lo: perceber a sua língua, ensinar-lhe a minha também, mas conseguir atingir uma plataforma de entendimento para lhe poder prestar os serviços que pretende e precisa.
Assim, e concluindo, o núcleo da missão é construir, construir sempre, numa não satisfação permanente, porque há sempre alguém a quem atender, porque há novos e permanentes desafios, porque vivemos e trabalhamos para os outros.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Prova superada


Há alguns anos dava um programa na televisão que se assemelhava aos Jogos Sem Fronteiras e no final de cada desafio o apresentador gritava Prova Superada!
Pois é o que posso dizer hoje de mim própria, depois da apresentação das provas de Mestrado: Prova Superada!
Agora avanço em velocidade de cruzeiro para o doutoramento, o segundo, que o primeiro vai ficar a meio, pelo menos por agora.
Não houve mudança de interesses, apenas considero que neste momento posso ser mais útil numa área diferente. Fiquei vaidosa, é verdade, com a manifestação da importância atribuída ao trabalho que quero desenvolver futuramente.
Diz-se que somos um povo de invejosos em associação à última palavra do poema épico Os Lusíadas. Tive o cuidado de terminar o meu trabalho com a palavra útil. Dela quero extrair o que tenho para dar e partilhar. 

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Segredos aqui ao lado

Sábado foi um dia em cheio: oito horas de pé com uma garrafa de água por alimento, dirão alguns, mas se lhe juntarmos a visita ao Palácio Marquês de Pombal, de manhã, e à Real Quinta de Caxias de tarde, percebe-se que não passei fome alguma.
As visitas, previamente programadas, foram conduzidas por Rodrigo Dias e José Meco, de manhã, e Carlos Beloto e João Pancada Correia de tarde.
Não se dava conta das horas a passar, as palavras fluíam, a informação era basta, os locais maravilhosos. Os tectos do palácio são preciosidades raras que até agora têm sido contempladas pelos alunos do INA, lá instalado, e que já estão em processo de abandono das instalações.
A surpresa da manhã consistiu no facto de a sala destinada pelo INA a servir de biblioteca estar vazia: pela primeira vez em muitos anos pudemos ver as estátuas de Machado de Castro e as belíssimas fontes italianas em mármore de Carrara. A tarde reservava-nos igualmente um momento único: a cascata de Caxias a funcionar em pleno, introduzindo o elemento sonoro naquela arquitectura de jardins, a frescura, o movimento sempre belo da água.
Aos quatro anfitriões nada pode ser apontado: os enquadramentos gerais, o salientar de pormenores  invisíveis ou desconhecidos, a mostra da prática de uma investigação séria e comprometida, com assinatura.
O passado, o presente e o futuro estavam ali de carne e osso, de onde viemos, onde estamos e para onde queremos ir, para onde devemos ir, queiram os deuses perceber que os caminhos são aqueles e mantenham o respeito pelo património.
Real Quinta de Caxias está aberta ao público, fica a dois passos (literalmente!) da estação de comboios, e famílias, pares de namorados, curiosos e amantes de jardins vão assinar em uníssono a afirmar que é belíssima.
Dos quatro especialistas que nos acompanharam ao longo do dia, todos atentos a perguntas do público, todos com linguagem acessível, mas que não ilegitimava o universo da sua especialidade, destaco José Meco, apesar de, repito, considerar cada um dos outros brilhantes e todos com aquela coisa especial, que não sei como lhe hei-de chamar, de saber falar para um público diferenciado.
José Meco segurou as pessoas com um discurso cheio de informação, mas em simultâneo leve, curioso e fascinante. Com imensa frequência mencionava quem tinha descoberto aquele pormenor, quem tinha feito ou desenvolvido aquela investigação, quando e onde estava publicada. Isto é fantástico no mundo da investigação histórica, ou outras: dar o seu a seu dono, fazer os trabalhos de casa cruzando a informação e a sua origem, o que aumenta e solidifica essa mesma informação. 
José Meco falava e cada um de nós interiormente tinha a certeza que ele sabia tudo o que havia para saber. Bem sei que isto nunca se atinge, mas a serenidade e segurança (ainda que a correr pois o tempo corria também) com que falava e a demonstração efectiva do que dizia, foram fabulosos.
Se a Real Quinta de Caxias está aberta ao público, o Palácio não está, e devia estar sem dúvida alguma pois o que contém não pode estar guardado só para visitas esporádicas, é bom demais para tão pouco.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Raro, raro, raríssimo…

De passeio pelo matagal que é a bloga visito amigos e desconhecidos. Encontro coisas que devem ser realçadas, atitudes raras, muito raras. Não me surpreendo porque conheço a pessoa em questão e sei que não são palavras vãs: ter trabalho é ganhar o euromilhões. É verdade.
Por outro lado, a  revolta contra comportamentos vizinhos, diários, tão próximos que são quase nossos, salve seja!, que nos puxam como um íman, querendo que também nós façamos parte de clubes de facilitismos, de deixa andares, de descomprometimento, de falta de empenho, e muitos eteceteras.
Estes comportamentos, mais do que tristes, são irresponsáveis e devem ser apontados a dedo! Não são só da classe professoral, antes pelo contrário, escavemos e encontramo-los nas raízes das vivências de quase todos os que conhecemos.
E depois… depois chega a ser cómico ouvir falar de cansaços e de actividades extenuantes.
Felizmente há quem não se canse e Sorria Sempre.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Sean Sellers

Ontem assisti a uma reportagem sobre Sean Sellers, condenado à morte por crimes cometidos com a idade de 16 anos. A sentença foi executada em 1999 quando tinha 29 anos. Até lá viveu no chamado corredor da morte, mas sem o isolamento de outros condenados pois foi ‘seguido’ pela televisão e os jornalistas dedicaram toda a atenção ao adepto de satanismo, amante de Dungeons and Dragons, convertido depois ao cristianismo já na prisão, a sofrer de múltipla personalidade mas que matou três pessoas quando era adolescente, uma delas para ‘ver como era’. Várias personalidades, entre elas Desmond Tutu, ergueram as vozes para que a sentença fosse transformada em prisão perpétua, mas a injecção foi mesmo dada, diante de várias pessoas convidadas, e o convidado aqui é macabro, mas é verdadeiro, pois o Estado de Oklahoma, para além de permitir que as famílias das vítimas assistam à execução, permite também a existência de convidados; não sei em que outras salas passa o mesmo filme…
Polémicas à parte sobre a pena de morte, havia ali qualquer coisa que não batia certo, na reportagem, bem entendido, que no resto estava tudo baralhado, como é óbvio.
Sellers defendeu que as famílias das vítimas eram as únicas que podiam decidir sobre a sua morte ou não pois eram os afectados; mais ninguém devia interferir no processo.
Fiquei sem perceber se os juízes também deviam ser postos de lado e se esse modelo seria uma proposta a ponderar; se assim fosse, qualquer ladrão acabava no cadafalso, sem apelo nem agravo. Estranha defesa de alguém que está no corredor da morte.
As imagens mostraram o dia da última apelação com pedidos de condenação por parte da família dos assassinados e durante a qual foram dados cinco minutos ao assassino para se defender. Mais uma vez a defesa foi fraca, com palavras mal pensadas, discurso não estruturado e argumentos esquisitos. Ora, alguém que está na prisão, a ver esgotar-se o tempo de vida, deve ter tempo para pensar – digo eu… - e articular um discurso de fazer chorar as pedras da calçada, sozinho ou auxiliado pelo advogado e amigos, com quem podia trocar correspondência. Sem surpresa, o júri disse não, não, não e não, pois era constituído por quatro pessoas.
Nos minutos dados a Sean Sellers não se ouviu um lamento, um pedido de desculpa, um ar de mortificação, nada. O advogado chorava, as câmaras mostravam os amigos de olhos fechados, como se não quisessem encarar a realidade e, fechando os olhos, impedissem os nãos de lhes entrarem pelos ouvidos.
Penso que a única pessoa que podia ter tido um papel fundamental na defesa de Sean teria sido a mãe, mas essa estava debaixo de sete palmos de terra pois foi uma das pessoas que ele matou.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Um must da praia 2

Dias de calor intenso com mergulhos em ondas de dimensão média – que eu cá sou um bocado medricas com a altura das ondas – são das melhores coisas do mundo.
Só há um elemento capaz de estragar esta maravilha: o vento. Porém, há que tirar partido de todas as situações e quando se levanta o vento não nos devemos levantar da toalha, antes pelo contrário.
Se estivermos atentos veremos todo o tipo de pessoa a correr pela praia, normalmente na mesma direcção, a do vento. Precisamente. Correm atrás dos seus chapéus-de-sol que se julgam borboletas, levantam a estaca e voam dali para fora, imunes a tudo e a todos, vazando olhos pelo caminho com as varetas em riste e o tecido bem esticado, a brincar como se fosse uma vela latina.
Alguns proprietários pedem ajuda aos banhistas: sem fôlego mas de braço esticado, dão sinal para parar a marcha do chapéu que as mais das vezes não se deixa apanhar e acaba encalhado noutro chapéu, numa geleira ou nos costados de alguém.
Há estatísticas oficiais que comprovam que o dono do chapéu a meio da correria já tem vontade de desistir, não porque queira comprar um novo, mas pela vergonha que a maratona sempre acarreta com risos provenientes de todos os cantos do areal.
Isto é comprovado pelo facto de, quando o chapéu decide fugir, haver sempre, mas sempre e a menos que o dono esteja sozinho, uma ligeira discussão para se saber quem deverá ir atrás do chapéu, com promessas de fazer isto e aquilo em compensação de não desatar a correr pelo piso difícil que é a areia e, pior, fazer o caminho de regresso por entre gargalhadas do público e caras furiosas com varetas de comportamento duvidoso.
Volto a questionar-me como é que ainda há quem diga que na praia não se faz nada?

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O Monopólio

A minha amiga Lu já nasceu vendedeira! Admiro-a porque eu sou daquelas pessoas que não conseguiria vender uma mantinha no Pólo Norte, mas ela vende aquecedores até no deserto do Sahara!
Depois de várias experiências ao longo da vida, curta, diga-se de passagem, porque ela tem só trinta aninhos e mal feitos e quem disser que essa é quase a idade da filha mais velha, leva logo com o meu olhar de olhos bem abertos a pedir para corrigir o disparate, mas, dizia eu, depois de outras experiências, agora é consultora imobiliária.
Um título destes tem imensa supless – soletremos por favor con sul to ra i mo bi li á ri a, que nos leva logo para uma dinâmica aparentada com sangue azul – e a Lu pediu-me ajuda no sentido de contactar pessoas a quem possa apresentar os seus serviços, dentro da sua zona de posicionamento/trabalho.
Confesso – estou de joelhos a penitenciar-me – que a zona de posicionamento levou a minha mente perversa para um cenário cheio de cetins, veludos e cintos-liga a atarem as barrigas gordinhas de certas meretrizes. Abanei a cabeça para afastar tão indignos pensamentos, centrei-me na candura da Lu, que parece um anjo e acedi a falar com algumas pessoas.
A bem da verdade, isto é um aviso pois a Lu planeia mudar a configuração da cidade, coisa que algum Plano Director Municipal conseguiu e ontem à noite esteve em minha casa a contar-me os planos da pólvora. Conclusão, ela vai reinventar o Monopólio!
Começou com os Jardins da Gulbenkian, que quer comprar a todo o custo, e quando percebeu que tenho um primo revisor da CP, os olhos brilharam-lhe já a ver as estações de Santa Apolónia, Campanhã e São Bento, debaixo da sua alçada!
Também no Quartel do Carmo se vai erguer um hotel – vão poder reconhecê-lo, era uma daquelas pecinhas vermelhas, maiores que as verdes, que eram as casas – e o meu amigo da GNR que falou com ela já anda a fazer terapia…
O parque Eduardo VII também está na mira da espingarda da rapariga, embora não saiba o que lá vai nascer, mas apenas que ela não gosta da inclinação, motivo pelo qual vai mandar terraplanar aquilo tudo para ficar com o terreno à mesma altura. Quando lhe disse que assim ia criar uma espécie de abismo em frente à rotunda do Marquês do Pombal, ela só me perguntou o que achava eu de por ali uma cascata que caísse em direcção à avenida da Liberdade…?
Também me explicou que o Rio Tejo está num local pouco razoável e avançou com umas ideias de o atapetar, para ficar mais estreito e criar espaço para mais construção, isto para além de projectar a compra e venda do Parque das Nações para ali sim, instalar o novo aeroporto!
Isso é que vai ser… os cámones a chegar, todos aos gritos a pensarem que vão cair no rio, atirar com o Oceanário e já a verem-se com a Amália e o Eusébio a onk, onk, onk pelo corredor do avião em chamas…
A danada da Lu faz um esforço enorme para acertar na Casa da Sorte, acho até que ficou com as cartas todas, e eu aviso-a que tenha cuidado que o Monopólio tem também uma prisão! Mas ela, forte e determinada, diz-me que se lá for parar conta com os amigos para lhe levarem uns cigarritos e, não tarda nada, está a passar outra vez pela Casa Partida!
Assim mesmo é que é!

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O melhor de dois mundos

Fui ver o melhor de dois mundos. Para se ser líder em desenvolvimento pessoal temos que nos chamar… Daniel? Achei curiosa a coincidência dos dois Daniéis… ou não há coincidências?
Como diz a publicidade, Há que vê-lo para entendê-lo, falando de Daniel Sá Nogueira, o guru do desenvolvimento pessoal em Portugal.
Abraçar o caos? O homem terá ideia do que diz? Tem e eu concordo.
A tradição já não é o que era, tudo mudou, tudo muda, tudo continuará a mudar a velocidades estonteantes para as quais não estamos preparados porque, com frequência, não nos queremos preparar e deixamos a vida, a existência, passar-nos em frente do nariz, sem darmos conta.
Há muitos anos tive uma chefe que tinha um nome delicioso, a D. Regina. A senhora era uma funcionária pública sem mácula, saída do lote dos funcionários públicos perfeitos, que o mesmo é dizer, alguém pode estar a morrer, mas já bateram as cinco e meia da tarde, logo, venha amanhã se faz favor, porque não podemos violar o horário de trabalho e atender pessoas para além desta hora.
O director do departamento foi buscar a arquivista – eu – para organizar a mudança de todo o departamento para outro edifício. Iniciei-me nas lidas da organização, a vários níveis, e adorei, mas eu não contava com a D. Regina…
A ideia da mudança passava também por criar ambientes mais amigáveis ao munícipe e aos próprios funcionários, mas ela disse que se não tivesse um guichet… nada feito.
Enquanto a maioria colaborava na mudança, mostrando entusiasmo e empenho, eu passava e ela dizia, e o meu guichet?
Foram meses de árduo trabalho onde eu ia para casa e sonhava que corria, em câmara lenta, ao longo duma praia de águas translúcidas e areias brancas, com uma camisa que esvoaçava atrás de mim e do outro lado, não, não estava um tipo giríssimo que também corria para me abraçar, estava um guichet que eu partia à martelada, com um prazer inimaginável!
No dia da inauguração do novo edifício, a D. Regina meteu os papéis para a reforma, ou seja, não a consegui convencer que a mudança era um passo em direcção a um futuro melhor e a D. Regina continua a ser a pedra no meu sapato, bem, talvez seja melhor uma pastilha elástica ou um rebuçado, mas que me fazem escorregar.
Always look on the bright side of life, com a maior simplicidade possível, duma forma grata pelo que temos e não estejamos sempre à espera que os outros façam seja o que for por nós, levantemo-nos a cada dia.
Cada empresa, cada família, cada clube recreativo devia ter um Daniel Godri a servir de despertador! Acordávamos todos de forma serena mas altamente motivados para atingir os nossos objectivos, que podem ser as coisas mais diversas, como ser independente, como disse o Paulo Azevedo, cuja existência e presença são lições de vida sobre as quais todos devíamos reflectir.
Abraço apertado à minha amiga L. que me levou, com o seu entusiasmo e as suas fabulosas gargalhadas.