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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Vai correr bem...

A voz tão simpática é de alguém da Maternidade Alfredo da Costa. Diz-me que a minha amiga está neste momento a ser operada. Não deixo de pensar na calma e suavidade da sua voz, seda pura, em contraste com o nervosismo da minha amiga, cuja operação tem sido adiada há anos, a pedido dela.
Tem medo. Medo das anestesias, medo dos hospitais, das facas e dos bisturis.
Mas chega a uma altura em que os médicos põem o ar sério, tipo mãe de criança pequena quando nos chama pelos dois nomes, e não há volta a dar, tem de ser.
Eu não tenho medo de operações, confio, acredito. Ainda assim, já liguei tantas vezes que dei por mim a pensar se a suavidade vocal da senhora seria normal ou era de propósito para mim. A bem da verdade, eu não tenho medo mas é das minhas operações.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Estou aqui, seja o aqui onde for

Não é fácil haver uma pessoa que conjugue estas duas características: ser da nossa família e merecedor da nossa profunda amizade.
Normalmente as famílias não se escolhem e é uma lotaria gostarmos das pessoas. Não percebo porque é que o sangue cria obrigatoriamente laços que supõem sacrifícios para serem mantidos. Por outro lado, os maridos e mulheres dos nossos irmãos e irmãs, primos e primas, têm que lhes agradar  a eles e não a nós, os votos de matrimónio foram entre eles e nós só papámos o almoço se é que fomos convidados.
Grandes visitas, férias em família, almoçaradas e jantaradas, datas festivas, são situações que normalmente acabam em grande cansaço, porque tivemos que aturar - só o verbo... - este ou aquele com quem inventámos assunto, porque nada há em comum para desenvolver.
Felizmente há excepções! E uma dessas excepções - que eu adoro - está doente.
Soube a notícia quando secava o cabelo e só percebi que estava a queimar a mão quando a dor se tornou violenta. Foi a minha mãe que me contou e lembro-me que sustive a respiração para tentar chegar a um qualquer porto de abrigo, uma rocha, um bocado de madeira onde me apoiasse, mas de modo que ela não percebesse.
Com a queimadura, que ainda subsiste, continuei a secar o cabelo sem perceber de onde vinha a força para manter os braços elevados.
Como acredito no acreditar com uma confiança sem limites, sei que tudo vai acabar em bem, mas até lá, o caminho é cheio de buracos e pedregulhos que é preciso tirar da frente e ele tem que estar acompanhado. Ele e não só, a família dele também, pois sobre eles recairá a tarefa diária de tentar compor o percurso da forma que melhor lhe facilite a vida. É aí que entram os figurantes, eu incluída: ajudar sem imposições, dar disponibilidade sem pressões, estar presente de forma mais ou menos invisível.
Quero participar na escrita de todos os capítulos e chegar ao final percebendo que o drama afinal não era dramático, que foi apenas a linha da vida que se baralhou e decidiu dar umas curvas que não estavam nos nossos planos.
Há uns meses uma amiga soube que o diagnóstico de um tumor maligno tinha sido mal feito e afinal era benigno. Eu estava com ela na consulta quando a má notícia lhe foi dada e foi como levar com uma pá de aço na cabeça, doeu uma dor dolorosa insuportável, mas outros valores se levantavam e foi preciso continuar a respirar.
O contraditório criou-me uma felicidade milhões de vezes maior que a dor sentida inicialmente, prova que as coisas boas têm sempre mais força. Com este familiar vai acontecer o mesmo e daqui a tempos quando falarmos das quimio, radio e não sei quantas mais terapias vamos fazê-lo como se contássemos um pesadelo. Aí, diremos de forma infantil, mas feliz e confiante, já passou... 

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Um passo à frente


Sábado fiz uma caminhada curta e lenta, para os meus padrões. Já pelos padrões da pessoa que me acompanhava foi enorme, rápida e extenuante: caminhar com uma só perna tem destas coisas.
Demorámos duas horas certas a fazer o percurso que, sozinha, teria feito em 15 minutos. Mas se tivesse ido sozinha não tinha ficado a conhecer melhor uma verdadeira heroína, daquelas que vive paredes meias connosco e sobre quem desconhecemos os seus super-poderes.
Sempre considerei que as mães são Mulheres Maravilha – não deixo de sorrir porque as iniciais do meu nome são precisamente MM – capazes de tanto com tão pouco, magas do invisível, feiticeiras da vida. Esta mulher não é mãe mas é heroína, sem dúvida alguma: perdeu uma perna no dia que completava 18 anos, viu parte do corpo ser-lhe reconstruída e anda com a ajuda de uma prótese que lhe marca o compasso do coxear. Dona de uma força que poucas pessoas minhas conhecidas têm, senti um prazer enorme quando a ouvi repetir que me acha uma pessoa extraordinária. Eu? Nada disso, sou absolutamente normal. Não tenho metade da força dela, do empenho, da beleza daquela mulher cujos olhos estão projectados no futuro, no seu futuro, que quer partilhar com todos para que seja melhor para a comunidade.
Sim, fiquei fascinada. Fascino-me com os seres superiores, com as pessoas que me podem verdadeiramente ensinar, com aquelas que servem de exemplo, com as que estabelecem metas que eu penso que são inantigíveis e afinal basta querer para lá chegar.
Irrito-me um bocado com as pessoas que dizem que não são capazes de fazer isto ou aquilo… na verdade, não querem ou não precisam, caso contrário fá-lo-iam. Uma das protagonistas de Duas mulheres em Praga, de Juan José Millás, decide andar com o braço direito amarrado ao peito para descobrir a sua esquerdice, que é como quem diz até onde consegue chegar com o seu lado imperfeito, até onde o consegue aperfeiçoar? É pena só nos darmos a estes trabalhos de exploração de nós próprios quando não temos outra alternativa, em vez de o fazermos porque sim.
Estarão as pessoas com deficiências físicas mais bem preparadas para superar limites? Perante o caso da minha companheira de passeio, sim, de longe, o que se manifesta numa superioridade perante as pessoas ditas normais, mas uma superioridade tão grande que ainda nem me dei conta de toda a sua plenitude, sem mágoas de vida, sem grilhetas ao passado que lhe tirou a perna, mas com um enorme sorriso virado para o futuro e para as pessoas que a rodeiam.
O mundo precisa de mais pessoas como a I., disso não tenho dúvidas.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Qual a distância que vai do amor ao egoísmo?


Qual a distância que vai do amor ao egoísmo? Um longo caminho…
Amamos, queremos a presença daquela pessoa, queremos que ela esteja, mesmo que a não vejamos, mas que esteja bem, como se nesse bem-estar residisse um velar silencioso por nós, porque o amor é recíproco. Damos tudo para que essa pessoa tenha saúde, pagamos, matamos e esfolamos, numa demonstração de total inexistência de egoísmo. O objectivo é podermos sorrir e abraçarmo-nos mutuamente.
Mas, e se essa pessoa já tiver passado os oitenta anos, tiver um enorme historial de doenças, permanecer há anos numa cadeira de rodas acompanhada de Parkinson, estiver inconsciente e a ser medicada com morfina para as dores? Qual a distância que vai do amor ao egoísmo? Nenhuma, mesmo que seja nossa mãe.
Sou fria? Nestas coisas sou gelada, uma parente afastada do Marquês de Pombal quando dizia para se enterrarem os mortos e cuidar-se dos vivos.
Bem sei que falar é fácil, e que a objectividade é uma característica que não consta do universo emocional de filhos devotados e amigos, mas há uma sanidade mental que se vai perdendo, um desgaste que se torna cada vez maior e que compromete a vida dos vivos, arrastando-os para um abismo de onde vêm a morte, onde lhe tocam para a afastar, sem se aperceberem que ela não se vai embora só porque nós queremos, só porque a empurramos à força de novos tratamentos médicos, de novos especialistas e mais análises. 
Ela ali está, sem pressas, a rir-se para nós, a rir-se de nós e nós a teimarmos que levamos a melhor com ela, a insistirmos, a persistirmos, sem aceitarmos que a guerra já está ganha por ela e que no fundo apenas estamos a prolongar a agonia de outrem, daquela pessoa que amamos mas que não hesitamos em sujeitar a mais tratamentos, mais doses de morfina, mais períodos em coma.
Afinal, qual a distância que vai do amor ao egoísmo? A pergunta certa não é essa, mas sim, qual o caminho do amor ao egoísmo? E aqui, o facto de se fazer sempre escala na Esperança muda tudo.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Acreditar é bom


Que se use o Acreditar até se gastar
Até ficar puído
Que se use para nos lembrarmos mais tarde
Que acreditámos
E gargalhemos por estar aqui