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terça-feira, 10 de junho de 2014
segunda-feira, 2 de junho de 2014
E eu a pagar...
Há dias na televisão dizia uma reclusa:
Está-se bem de cana... come-se e bebe-se... é caminha, é banhinho, é tudo, aqui está-se muito bem.
Está-se bem de cana... come-se e bebe-se... é caminha, é banhinho, é tudo, aqui está-se muito bem.
quarta-feira, 28 de maio de 2014
terça-feira, 27 de maio de 2014
A farmácia? É já ali, a 300 quilómetros
Um princípio de AVC levou-me a alta velocidade a meio da noite do meio da semana passada ao Alentejo.
O stress do meu tio levou-o a marcar o meu número por engano, querendo falar para outra sobrinha, distante duas ruas, e não para mim, distante trezentos quilómetros. Ele, com graves problemas cardíacos, e que sempre se viu tratado e apoiado pela mulher, agora via-a a ela em estado crítico. A baralhação dele resultou em diversos telefonemas para o 112, para a sobrinha próxima geograficamente e para uma das filhas, com cuidado para não alertar a outra, ausente no estrangeiro e sem necessidade de preocupar, e numa corrida debaixo de chuva em direcção ao Alentejo, quando eram horas de estarmos debaixo dos lençóis.
Detalhes à parte, no dia seguinte fomos à farmácia aviar os remédios e, qual não é o meu espanto, quando me dizem, a mim motorista, que vá a Espanha, já agora que fizesse o favor e aproveitasse para comprar mais uns medicamentos que, com o dinheiro que aqui se gasta num, lá compram-se dois.
Para além do avio na farmácia das pessoas, fomos também comprar medicamentos para os cães, esses, três vezes mais baratos que em Portugal.
Na farmácia tínhamos cinco pessoas à nossa frente, só uma era espanhola, os outros eram tugas como nós; enquanto esperávamos a minha prima foi-me indicando as prateleiras e apontando os preços dos medicamentos de venda livre, que me iam esbugalhando os olhos, tal era a diferença.
É claro que não vale a pena ir lá de propósito comprar uma caixa de aspirinas, mas vale bem a pena encomendar ou esperar para se lá ir.
O stress do meu tio levou-o a marcar o meu número por engano, querendo falar para outra sobrinha, distante duas ruas, e não para mim, distante trezentos quilómetros. Ele, com graves problemas cardíacos, e que sempre se viu tratado e apoiado pela mulher, agora via-a a ela em estado crítico. A baralhação dele resultou em diversos telefonemas para o 112, para a sobrinha próxima geograficamente e para uma das filhas, com cuidado para não alertar a outra, ausente no estrangeiro e sem necessidade de preocupar, e numa corrida debaixo de chuva em direcção ao Alentejo, quando eram horas de estarmos debaixo dos lençóis.
Detalhes à parte, no dia seguinte fomos à farmácia aviar os remédios e, qual não é o meu espanto, quando me dizem, a mim motorista, que vá a Espanha, já agora que fizesse o favor e aproveitasse para comprar mais uns medicamentos que, com o dinheiro que aqui se gasta num, lá compram-se dois.
Para além do avio na farmácia das pessoas, fomos também comprar medicamentos para os cães, esses, três vezes mais baratos que em Portugal.
Na farmácia tínhamos cinco pessoas à nossa frente, só uma era espanhola, os outros eram tugas como nós; enquanto esperávamos a minha prima foi-me indicando as prateleiras e apontando os preços dos medicamentos de venda livre, que me iam esbugalhando os olhos, tal era a diferença.
É claro que não vale a pena ir lá de propósito comprar uma caixa de aspirinas, mas vale bem a pena encomendar ou esperar para se lá ir.
segunda-feira, 31 de março de 2014
O silêncio é de ouro
Um aluno procura-me para que o ajude a responder a uma proposta de emprego.
Explica-me que enviou o currículo, responderam positivamente e pediram-lhe mais uns detalhes. Está nervoso e ansioso e eu faço o melhor que posso que sei, como se fosse meu filho.
Faço muitas perguntas para juntos contruirmos uma frase que dê resposta ao que lhe pedem, de forma autêntica e real, mas que seja de leitura atractiva.
Ele agradece penhoradamente e eu sugiro enviar as respostas para o mail dele, para que depois as componha melhor ainda e as enderece à empresa. Quando lhe pergunto a morada electrónica ele dá-me uma mão cheia de vogais e consoantes sem talho nem maravalho.
Explico-lhe que deve arranjar outra morada, mais oficial, mais credível, uma morada que contenha, por exemplo, o seu nome e apelido, e que passará a usar para estas situações.
Quando chega a vez dele me explicar a mim que aquele é o seu apelido, engulo em seco e percebo que devia ter estado calada.
E viva a diferença!
Explica-me que enviou o currículo, responderam positivamente e pediram-lhe mais uns detalhes. Está nervoso e ansioso e eu faço o melhor que posso que sei, como se fosse meu filho.
Faço muitas perguntas para juntos contruirmos uma frase que dê resposta ao que lhe pedem, de forma autêntica e real, mas que seja de leitura atractiva.
Ele agradece penhoradamente e eu sugiro enviar as respostas para o mail dele, para que depois as componha melhor ainda e as enderece à empresa. Quando lhe pergunto a morada electrónica ele dá-me uma mão cheia de vogais e consoantes sem talho nem maravalho.
Explico-lhe que deve arranjar outra morada, mais oficial, mais credível, uma morada que contenha, por exemplo, o seu nome e apelido, e que passará a usar para estas situações.
Quando chega a vez dele me explicar a mim que aquele é o seu apelido, engulo em seco e percebo que devia ter estado calada.
E viva a diferença!
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
Hip Hip Hurray, Ebenezer Scrooge!
A crosta terrestre pode sofrer as rupturas que sofrer que nunca me preocuparei com ela, ou melhor, é uma preocupação relativa, ai sim? isso deve ser grave... digo eu emitindo um ai sim com ponto de interrogação no final que não diz nada, nem mostra curiosidade, interesse ou seja o que for, e terminando com um isso deve ser grave que calha bem mas que, igualmente, expressa zero, no máximo estupidez e ignorância.
Eu sei que sem crosta terrestre esta bolinha a que chamamos planeta era outra coisa qualquer, mas também sei que as eventuais rupturas não trarão qualquer ruptura à minha vida.
Assim, a decomposição, a desagregação, a erosão ou qualquer outro ão não me tiram o sono e as mudanças de clima só me dizem que chegou a altura de mudar a roupa do roupeiro de Verão para Inverno e vice versa passados uns meses.
Estaria doida se fosse solidária com o intemperismo! Convivemos e já chega! Eu nem o menciono e ele não me provocará durante a minha vida, curta, muito curta, comparada com a vida destes fenómenos.
Passa-se o mesmo com a pobreza: quando cá cheguei já cá estava e vai continuar a estar quando me for embora, por que devo ser solidária ou preocupar-me?
Mais ainda, a bem da verdade, nem sei bem do que estão a falar, como vou ser próxima ou activa junto de qualquer coisa que desconheço? Isto é como as máquinas, o melhor é não mexer nos botões para não estragarmos nada.
Por outro lado ainda, isto as coisas estão sempre a mudar e nunca se sabe, imaginem que a coisa é contagiosa? Vai uma pessoa ser solidária com quem tem menos ou precisa e pumba, de repente vê-se também a precisar e a ter menos.
Esta é a conclusão lógica: se partilho fico com menos, o melhor é guardar.
Vem esta reflexão digna de Nobel a propósito do estudo feito recentemente pela Universidade Católica e pelo Instituto Luso-Ilírio para o Desenvolvimento Humano que concluiu que os mais ricos e instruídos são menos solidários.
Não sei quanto pagaram pelo estudo mas eu ter-lhes-ia dito o mesmo de graça.
O facto de se conhecer na pele uma determinada necessidade alerta o nosso consciente, subconsciente e até as raízes capilares sobre os outros. E é bom não esquecermos que nós também somos os outros.
Eu sei que sem crosta terrestre esta bolinha a que chamamos planeta era outra coisa qualquer, mas também sei que as eventuais rupturas não trarão qualquer ruptura à minha vida.
Assim, a decomposição, a desagregação, a erosão ou qualquer outro ão não me tiram o sono e as mudanças de clima só me dizem que chegou a altura de mudar a roupa do roupeiro de Verão para Inverno e vice versa passados uns meses.
Estaria doida se fosse solidária com o intemperismo! Convivemos e já chega! Eu nem o menciono e ele não me provocará durante a minha vida, curta, muito curta, comparada com a vida destes fenómenos.
Passa-se o mesmo com a pobreza: quando cá cheguei já cá estava e vai continuar a estar quando me for embora, por que devo ser solidária ou preocupar-me?
Mais ainda, a bem da verdade, nem sei bem do que estão a falar, como vou ser próxima ou activa junto de qualquer coisa que desconheço? Isto é como as máquinas, o melhor é não mexer nos botões para não estragarmos nada.
Por outro lado ainda, isto as coisas estão sempre a mudar e nunca se sabe, imaginem que a coisa é contagiosa? Vai uma pessoa ser solidária com quem tem menos ou precisa e pumba, de repente vê-se também a precisar e a ter menos.
Esta é a conclusão lógica: se partilho fico com menos, o melhor é guardar.
Vem esta reflexão digna de Nobel a propósito do estudo feito recentemente pela Universidade Católica e pelo Instituto Luso-Ilírio para o Desenvolvimento Humano que concluiu que os mais ricos e instruídos são menos solidários.
Não sei quanto pagaram pelo estudo mas eu ter-lhes-ia dito o mesmo de graça.
O facto de se conhecer na pele uma determinada necessidade alerta o nosso consciente, subconsciente e até as raízes capilares sobre os outros. E é bom não esquecermos que nós também somos os outros.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
Capuletos e Montecchios
As férias passadas na aldeia deixam memórias impossíveis de apagar: os dias longos e abrasados do Alentejo profundo, o poço no quintal, as lavagens no tanque com a minha avó a zangar-se comigo por estar debaixo daquela calorina, a sombra que as videiras davam, o assobio levezinho do meu avô, o caramonho da minha avó, o café feito ao lume que escorria pela cafeteira, o cheiro a melão pela casa toda, a moeda que o meu avô sempre tinha para um gelado, os passeios e os mergulhos na ribeira de S. Pedro, as festas em honra de Nossa Senhora do Ó, as amigas, os segredos.
Inesquecível também era a aparição de uma pessoa de família, muito chegada por sangue mas de outro planeta por amizade.
A sua chegada era adorada pela criançada e era um martírio para mim, que ficava sempre de fora quando ele perguntava retoricamente quem queria ir à piscina de Moura. Eu bem esticava o braço mas a resposta invariavelmente era a mesma: o teu pai que te leve. E o meu pai levava, levava tão depressa que eu chegava lá primeiro que todos os outros, mas em último, porque o carro engraçado era o outro, onde iam todos, a rir, a brincar. Juntos.
Se era para ir a qualquer lado, o meu pai que me levasse, se era um doce, o meu pai que mo comprasse, fosse o que fosse, o meu pai que me fizesse ou me acontecesse. E o meu pai fazia e acontecia.
Não deixei de me lembrar destes episódios quando ontem proibiram uma garota de brincar com os meus sobrinhos, de visita os três ao trabalho dos grandes.
As acções ficam com quem as pratica mas quem não se sente não é filho de boa gente e eu senti, senti mágoa pela proibição de deixar uma criança brincar, conviver, rir em conjunto. Um adulto que age assim está a passar um cheque em branco para o seu próprio futuro, tal como as pessoas que me atormentaram em pequena têm hoje em comum com filhos e netos a distância, imposta por estes últimos.
Que mundo melhor é que apregoamos que queremos quando temos atitudes assim?
Inesquecível também era a aparição de uma pessoa de família, muito chegada por sangue mas de outro planeta por amizade.
A sua chegada era adorada pela criançada e era um martírio para mim, que ficava sempre de fora quando ele perguntava retoricamente quem queria ir à piscina de Moura. Eu bem esticava o braço mas a resposta invariavelmente era a mesma: o teu pai que te leve. E o meu pai levava, levava tão depressa que eu chegava lá primeiro que todos os outros, mas em último, porque o carro engraçado era o outro, onde iam todos, a rir, a brincar. Juntos.
Se era para ir a qualquer lado, o meu pai que me levasse, se era um doce, o meu pai que mo comprasse, fosse o que fosse, o meu pai que me fizesse ou me acontecesse. E o meu pai fazia e acontecia.
Não deixei de me lembrar destes episódios quando ontem proibiram uma garota de brincar com os meus sobrinhos, de visita os três ao trabalho dos grandes.
As acções ficam com quem as pratica mas quem não se sente não é filho de boa gente e eu senti, senti mágoa pela proibição de deixar uma criança brincar, conviver, rir em conjunto. Um adulto que age assim está a passar um cheque em branco para o seu próprio futuro, tal como as pessoas que me atormentaram em pequena têm hoje em comum com filhos e netos a distância, imposta por estes últimos.
Que mundo melhor é que apregoamos que queremos quando temos atitudes assim?
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
A mendigar no Centro de Saúde
Depois de bater com o nariz na porta do Centro de Saúde da minha área de residência, procuro o alternativo. Estão em obras, diz um papel manhoso como a saúde dos portugueses, colado ao vidro da porta.
O outro Centro de Saúde tem uma maquineta de senhas à entrada, de onde retiro um papel. Faltam quatro pessoas, não é mau. Porém, as três estrelas do balcão de atendimento comentam o Natal, os acidentes, a chuva e não chamam ninguém. Na sala ninguém parece aborrecido ou espantado. Mas que raio...
Vou ao balcão perguntar se há algum problema. Não, não há qualquer problema, o que acontece é que os médicos que eventualmente têm vaga ainda não chegaram e são eles que dizem se atendem ou não atendem os doentes. Abano a cabeça como num arrepio e explico que não quero consulta para o dia e sim marcar para mais tarde. Dá no mesmo, diz a senhora com simpatia genuína, como eu não tenho médico de família tenho que esperar e pedir, mesmo que para mais tarde. Então e posso marcar por email? Pode sim senhora, ou por telefone, como queira.
Agradeço e saio, atrasada para o trabalho. Ao fim do dia envio o mail, nome, morada, número de utente, pedido de consulta. A resposta não se fez esperar: caixa do correio cheia...
Reenviei a mensagem no dia seguinte, a resposta repetiu-se, escusado será dizer que o telefone está sempre interrompido e lá terei que ir sentar-me na sala de espera, de mão estendida, rezando pela caridade de um qualquer médico.
Viva o sistema de saúde, viva!
O outro Centro de Saúde tem uma maquineta de senhas à entrada, de onde retiro um papel. Faltam quatro pessoas, não é mau. Porém, as três estrelas do balcão de atendimento comentam o Natal, os acidentes, a chuva e não chamam ninguém. Na sala ninguém parece aborrecido ou espantado. Mas que raio...
Vou ao balcão perguntar se há algum problema. Não, não há qualquer problema, o que acontece é que os médicos que eventualmente têm vaga ainda não chegaram e são eles que dizem se atendem ou não atendem os doentes. Abano a cabeça como num arrepio e explico que não quero consulta para o dia e sim marcar para mais tarde. Dá no mesmo, diz a senhora com simpatia genuína, como eu não tenho médico de família tenho que esperar e pedir, mesmo que para mais tarde. Então e posso marcar por email? Pode sim senhora, ou por telefone, como queira.
Agradeço e saio, atrasada para o trabalho. Ao fim do dia envio o mail, nome, morada, número de utente, pedido de consulta. A resposta não se fez esperar: caixa do correio cheia...
Reenviei a mensagem no dia seguinte, a resposta repetiu-se, escusado será dizer que o telefone está sempre interrompido e lá terei que ir sentar-me na sala de espera, de mão estendida, rezando pela caridade de um qualquer médico.
Viva o sistema de saúde, viva!
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Avali(a)ção de professores
Terá sido de propósito?
Terá sido uma brincadeira acerca da avaliação que, deixando a desejar como (quase) todos afirmam, até o Público lhe deixou cair uma letra?
Terá a ervinha logo abaixo tido influência e alguém fumou o A?
Será um incentivo à poupança?
Será uma tentativa de legitimação das novas formas de escrita?
Terá sido uma brincadeira acerca da avaliação que, deixando a desejar como (quase) todos afirmam, até o Público lhe deixou cair uma letra?
Terá a ervinha logo abaixo tido influência e alguém fumou o A?
Será um incentivo à poupança?
Será uma tentativa de legitimação das novas formas de escrita?
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Ser ou não ser
Para fazer um orçamento uso o site da TAP: quanto custa uma deslocação a...? Preencho os campos, ida e volta, cidade de partida, cidade de regresso e carrego no enter.
Enquanto uns minúsculos e invisíveis seres procuram a informação para ma plasmaram diante dos olhos, aparece uma mensagem:
O * está um pouco mais abaixo e diz:
Pergunto, Dona TAP, em que ficamos?
Enquanto uns minúsculos e invisíveis seres procuram a informação para ma plasmaram diante dos olhos, aparece uma mensagem:
Todas as tarifas incluem jornais e revistas gratuitos*
Este serviço está apenas disponível em alguns voos e tarifas TAP.
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
O'lhó passarinho
Amigo de um amigo de um amigo, filho de pais filhos da terra natal dos meus pais, pelo apelido será primo ou parente caçula de um antigo namorado meu, agora é fotógrafo e somos amigos no Facebook, essa instituição.
Não sendo captador de momentos da vida das flores nem de gatos fofos, mas antes do espaço aberto da paisagem alentejana, gosto de ver as fotos que vai publicando e, ocasionalmente, até as comento, por me agradarem aqueles castanhos e os amarelos, os encarniçados a sobreelevarem-se sobre um pontual verde no estio.
Tem mérito o rapaz. Mérito como fotógrafo, que como pessoa não lho conheço, ou melhor, ontem fiquei com uma ideia, uma ideia fotográfica, daquelas que vão permanecer.
Aparentemente havia um concurso de fotografia a decorrer e era suposto que nós, os amigos, amigalhaços do peito, votássemos para eleger o vencedor. A propaganda eleitoral é muito original: passa por uma mensagem, pública ou particular, a pedir isso mesmo, Votem em mim! Por seu lado, o boletim de voto é um clique num endereço que o candidato nos envia, muito fácil.
Ontem, o meu querido amigo publicou uma mensagem a agradecer a todos quantos votaram nele. Teria sido um gesto bonito se ele não tivesse acrescentado meia dúzia de palmadas e um responso para todos aqueles que não votaram! Li duas vezes, que o meu raciocínio nem sempre é o melhor e achei que não tinha percebido, que tinha lido à pressa, o problema seria meu com certeza.
Desentorpeci os dedos e deixei uma mensagem de tristeza e de reclamação: então e se não gostarmos das tuas fotografias? então e se quisermos votar noutras? então e se simplesmente não quisermos votar?
O rapaz não se fez rogado e usou o seu mais forte argumento, custa alguma coisa dar um clique? acrescentando Grandes amigos, o que vi logo que não era para mim pois, como ficou expresso ontem, só tenho 1,62m.
Mandei-lhe uma mensagem privada do tamanho dos dois Alentejos e das Beiras a explicar que lhe ficava muito mal aquela atitude, que não se podia votar em alguém só porque era nosso conhecido ou só porque nos pedia; retorque ele que é o que todos fazem, que se limitou a agir como todos agem, que quantos mais amigos se tem, mais hipóteses se tem de ganhar e, repetiu, custa alguma coisa dar um clique?
A mim custava-me manter a conversa e, depois de um Fica bem, desliguei o computador.
Não sendo captador de momentos da vida das flores nem de gatos fofos, mas antes do espaço aberto da paisagem alentejana, gosto de ver as fotos que vai publicando e, ocasionalmente, até as comento, por me agradarem aqueles castanhos e os amarelos, os encarniçados a sobreelevarem-se sobre um pontual verde no estio.
Tem mérito o rapaz. Mérito como fotógrafo, que como pessoa não lho conheço, ou melhor, ontem fiquei com uma ideia, uma ideia fotográfica, daquelas que vão permanecer.
Aparentemente havia um concurso de fotografia a decorrer e era suposto que nós, os amigos, amigalhaços do peito, votássemos para eleger o vencedor. A propaganda eleitoral é muito original: passa por uma mensagem, pública ou particular, a pedir isso mesmo, Votem em mim! Por seu lado, o boletim de voto é um clique num endereço que o candidato nos envia, muito fácil.
Ontem, o meu querido amigo publicou uma mensagem a agradecer a todos quantos votaram nele. Teria sido um gesto bonito se ele não tivesse acrescentado meia dúzia de palmadas e um responso para todos aqueles que não votaram! Li duas vezes, que o meu raciocínio nem sempre é o melhor e achei que não tinha percebido, que tinha lido à pressa, o problema seria meu com certeza.
Desentorpeci os dedos e deixei uma mensagem de tristeza e de reclamação: então e se não gostarmos das tuas fotografias? então e se quisermos votar noutras? então e se simplesmente não quisermos votar?
O rapaz não se fez rogado e usou o seu mais forte argumento, custa alguma coisa dar um clique? acrescentando Grandes amigos, o que vi logo que não era para mim pois, como ficou expresso ontem, só tenho 1,62m.
Mandei-lhe uma mensagem privada do tamanho dos dois Alentejos e das Beiras a explicar que lhe ficava muito mal aquela atitude, que não se podia votar em alguém só porque era nosso conhecido ou só porque nos pedia; retorque ele que é o que todos fazem, que se limitou a agir como todos agem, que quantos mais amigos se tem, mais hipóteses se tem de ganhar e, repetiu, custa alguma coisa dar um clique?
A mim custava-me manter a conversa e, depois de um Fica bem, desliguei o computador.
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
A minha Alexandretta
Quando Indiana Jones contou ao pai que tinha descoberto o túmulo de Sir
Richard e a inscrição no escudo – Alexandretta – o pai exultou e a felicidade
salpicou-me, como se eu também fizesse parte da descoberta.
Passados muitos
anos, vivi este momento na primeira pessoa ao encontrar, não os restos mortais de um cruzado, mas um assento de óbito.
Os olhos saltaram-me das órbitas como se fosse uma personagem animada, reli
e voltei a reler o manuscrito… não, não podia ser. Mas era.
Agarrei no telefone, com a pressa enganei-me no número, enquanto imprimia
o papel que, fugindo a concentração, saiu em letra liliputiana.
A voz atendeu-me a muitos quilómetros de distância, bem-disposta e alegre,
de repente a querer deter a brincadeira por perceber a ansiedade na minha própria
voz.
Pedi que se sentasse e me ouvisse, afinal não é todos os dias que se
descobre uma informação que os especialistas na matéria procuram há mais de
duzentos anos.
Está
a brincar comigo? Adivinhei a cara séria de quem não admite jocosidades com coisas destas.
Mas eu não brincava e tinha provas, que enviei naquele instante por e-mail.
Do outro lado choraram quando receberam a mensagem. Um choro de alegria,
de satisfação, de alívio pelo fim de uma jornada. Eu também chorei de alegria, por
ter participado, por me terem dado essa honra.
Não fazendo investigação por profissão, dou apoio a inúmeros investigadores e auxilio-os naquilo que posso. Rejubilo com as suas conquistas, critico textos, sugiro alterações, do português, já se vê, que da matéria são os conhecimentos insuficientes.
Porém, a proximidade com algumas pessoas fez crescer uma empatia e um interesse maiores que os do costume. Esse interesse, feito curiosidade, levou-me a percorrer caminhos cuja linha do horizonte se transformou na mais bela das paisagens, e desta vez não foi uma praia, e sim um assento de óbito.
Oh, que morte abençoada...
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Vida e morte no Facebook
viste FB? vai ver
A mensagem por sms é lida por mim com um sorriso irritado. Estou a meio do dia de trabalho, não ando no Facebook! A curiosidade falou mais alto e aberta a página desfaz-se-me o sorriso: morreu uma pessoa minha conhecida. Muito jovem, trintas e poucos, multiplicam-se os RIP's mas não se menciona a causa da morte.
Trocam-se mensagens, escritas, sublinho, mas não se fala. A páginas tantas os RIP's misturam-se com os LOL's, lembrando momentos da vida da rapariga. É comovente mas bizarro: todo o alvoroço é virtual (embora se anuncie o velório e a hora do funeral, amanhã), é muito estranha esta partilha de saudade, incómoda. As mensagens no mural da moça vão crescendo, página que se manterá, a menos que alguém lhe conheça as passwords, tal como a de um amigo, desaparecido há cerca de dois anos e cuja página no Facebook é uma pedra tumular onde todos deixam o que lhes apetece: flores, bonecos, abraços e beijos, mensagens de saudade.
O Facebook, que alguns usam como diário ao minuto - estou aqui, fui para ali, encontrei fulano, comentei o estado de beltrano, partilhei não sei o quê de sicrano, gosto disto, enfureço-me com aquilo, estou a ouvir esta música ou aquela, entre mil outras possibilidades de interacção - tornou-se também um local de culto dos que já morreram. Entre outras, é muito trabalho para os sociólogos... para mim é uma coisa fria, gelada, como a morte.
A mensagem por sms é lida por mim com um sorriso irritado. Estou a meio do dia de trabalho, não ando no Facebook! A curiosidade falou mais alto e aberta a página desfaz-se-me o sorriso: morreu uma pessoa minha conhecida. Muito jovem, trintas e poucos, multiplicam-se os RIP's mas não se menciona a causa da morte.
Trocam-se mensagens, escritas, sublinho, mas não se fala. A páginas tantas os RIP's misturam-se com os LOL's, lembrando momentos da vida da rapariga. É comovente mas bizarro: todo o alvoroço é virtual (embora se anuncie o velório e a hora do funeral, amanhã), é muito estranha esta partilha de saudade, incómoda. As mensagens no mural da moça vão crescendo, página que se manterá, a menos que alguém lhe conheça as passwords, tal como a de um amigo, desaparecido há cerca de dois anos e cuja página no Facebook é uma pedra tumular onde todos deixam o que lhes apetece: flores, bonecos, abraços e beijos, mensagens de saudade.
O Facebook, que alguns usam como diário ao minuto - estou aqui, fui para ali, encontrei fulano, comentei o estado de beltrano, partilhei não sei o quê de sicrano, gosto disto, enfureço-me com aquilo, estou a ouvir esta música ou aquela, entre mil outras possibilidades de interacção - tornou-se também um local de culto dos que já morreram. Entre outras, é muito trabalho para os sociólogos... para mim é uma coisa fria, gelada, como a morte.
terça-feira, 12 de novembro de 2013
Magnífico
O Reitor
da Universidade dos Açores está de
parabéns pela medida tomada sobre a proibição do uso do correio electrónico em
determinadas situações na Universidade. Proíba senhor reitor, proíba! É preciso
focarmo-nos e, como diz o povo mas contraria a física, ganhar tempo e não perdê-lo.
Porém, levantam-se-me algumas dúvidas,
desde logo faz falta um esclarecimento sobre se é uma posição a favor da tradição, estilo viva o papel, abaixo o e-mail.
Há que
parabenizar também pelo facto de a Universidade não ter uma página no LinkedIn ou conteúdos no iTunes.
Decisão inteligente e que talvez pudesse ser ainda mais assertiva pois há informações
sobre uma pós-graduação em Análise de Dados e Gestão da Informação nesse antro
que é o Facebook, bem como uma página de um Centro de Empreendedorismo e uma
outra que apela à Aprendizagem ao longo da vida, mas como é para séniores,
devem ter tido em consideração que os velhos têm muito tempo e até deram o
contacto da reitoria. Ainda assim, proíba senhor reitor, proíba!
Na minha modesta opinião, devia a
informação ser um pouco mais precisa: quando
se diz que não se podem – e bem! – divulgar assuntos privados, pergunto:
as férias serão assunto privado ou não? Pode continuar-se a usar aquela fórmula
da mensagem de resposta automática Estou
ausente por férias até dia tal ? Fica a sugestão para uma adenda.
Convenhamos
que é muito aborrecido, por exemplo, receber informação sobre a
recente maternidade ou paternidade dos docentes ou dos funcionários; o
que temos nós a ver com estes assuntos? Só nos desviam das nossas tarefas,
causando perturbações e, lá está, perda de tempo. Proíba senhor reitor, proíba!
Pior ainda,
ouvi dizer que há casos de universidades e empresas várias que chegam a
divulgar informação sobre falecimento de membros da família de colegas! Onde
é que isto já se viu? É uma maçada para os familiares e tem que ser para
nós também ? Então trabalha-se numa universidade ou numa agência funerária?
Proíba senhor reitor, proíba!
Parabéns!
Agora não é ao senhor reitor, é parabéns em geral; porque é que se usa o
e-mail para enviar uma palavrinha de parabéns? Para ficar por escrito que o
parabenizado está a envelhecer? Mais uma triste ideia…
Combinações
de almoços, jantares, festejos vários… então mas o que é isto? Estamos
aqui para conviver? O senhor reitor é que a sabe toda, proíba senhor
reitor, proíba, coloque cada qual no seu canto, aliás, podendo dar uma sugestãozinha,
eu lembraria que há por aí nove ilhas, logo, deve haver muita falta de wireless,
e espalhar essa malandragem podia ser boa ideia, para além de reactivar o hábito
perdido de escrever cartas, aumentando quiçá o quota dos CTT nos Açores.
Se formos
honestos e a bem da verdade isso do espírito de equipa é um mito; então
enquanto eu teclo pode estar outro a teclar comigo? Não! É impossível.
Por outro lado,
os assuntos internos de Departamentos e/ou
Serviços são isso mesmo, internos, primos dos privados, por alma de quem é
que devem andar a circular nos corredores virtuais? Já nem falo da
comunicação social, essa escória que produz escritos… ai, mas deixem-me dizer
que apreciei imenso a utilização da palavra ‘escritos’, lembra-me
a colocação dos papelinhos brancos colados aos vidros para alugar as casas, é tão
típico, tão giro.
Proíba senhor
reitor, proíba. Temos que nos consciencializar que a vida é feita de
compartimentos estanques, viva a arrumação, não se quer misturas de espécie
alguma e, verdade seja dita, até já chega de divulgação livre de conhecimento
crítico. Aliás, quando se diz que uma universidade é o lugar por excelência
para dizer e ouvir a verdade, isto é uma metáfora, nem sei quem a disse, mas
foi alguém que estava a brincar, de certeza. Ou, a ser verdade, e para não
arranjar confusões, deve-se arranjar uma verdade, uma só, que não levante dúvidas!
Não, não, isto não é nenhum ismo, é só uma forma de dar ordem ao universo, de
acabar com o caos.
Agora,
quer os tais escritos da comunicação social, é mesmo gira esta palavrinha, os
assuntos de natureza privada, cujos limites não sabemos bem quais são, é tipo
mar e areia a que as ondas mudam constantemente a fronteira, os assuntos
internos dos departamentos e dos serviços, aquilo que tudo junto é parte da
vida da universidade, vão continuar a circular, isso vão, e fora da cadeia hierárquica estabelecida, cuja estipulação me lembrou o Sr. José de Todos os Nomes de Saramago. A rede de correios
electrónicos pessoais vai ter uma nova vida, e aquela melianagem vai continuar
a comunicar. O que fazer? Eu, assumindo o cargo de reitor, mandava fechar
a internet! Ah, mas isso era já, era ontem! A menos que… a menos
que eu pudesse ter acesso a essa correspondência.
Acho
que o senhor reitor não devia ligar nada a quem anda para aí a dizer que isto é
mal feito, que é censura, etc. Essa gente não está lá para ver como as coisas
se passam, pois não? Então devem calar-se, não é?
Quem
quer promover proximidades que se case, não vá trabalhar para uma universidade.
Quem quer questionar que vá para polícia. Quem quer criticar escolha
a arte, e tanto que haveria a dizer sobre o assunto, a dizer e a proibir! Quem quer fazer parte de um projecto constitua um grupo musical! Quem quer dizer o que lhe apeteça arranje um Speakers Corner!
Uma universidade é outra coisa, é respeito, respeito é silêncio, como o que se guarda nas igrejas e nos cemitérios, como aquele que se impõe a partir de certa hora. Ai, estou a baralhar-me isso é nas prisões.
terça-feira, 5 de novembro de 2013
Uma aventura ao sábado de manhã
Saio de casa para ir ao supermercado e faço uma paragem técnica na pastelaria da esquina para beber um café. Fico uns minutos à conversa com a minha vizinha da lado, uma velhota querida, viúva mas apaixonada. Quando vou a entrar no carro lembro-me que me esqueci - esta frase é genial... - dos sacos em casa. Não gosto dos sacos dos supermercados, rasgam-se facilmente obrigando-nos a andar de rabo para o ar a apanhar o rasto de compras que fomos espalhando.
Subo ao meu quarto andar, entro em casa, viro à esquerda para alcançar a despensa onde estão os sacos mas estaco à porta da cozinha: na janela da dita baila uma perna humana.
Demoro uns segundos a processar a informação visual e, qual Miss Marple, avanço para deslindar o caso.
Abro a janela toda, que tinha deixado entreaberta, como quase sempre, e vejo um homem preso por uma corda e respectivo arnês com um minúsculo pincel a pintar o interior das protecções dos estendais.
Mas então... ninguém nos avisa que vêm fazer este serviço? Entabulo conversa e dou por mim a falar com um homem descalço - é-lhe mais fácil para se apoiar, segundo ele - a baloiçar ao nível de um quinto andar, ele em cima e eu em baixo, salve seja.
Para além de não termos sido avisados - há vários estendais com roupa, incluindo o meu - ele afirma que isso não é com ele, tanto mais que ele nem é funcionário da empresa (o quê?!), apenas foi substituir um amigo que lhe pediu (o quê?!).
Então, mas e o seguro? Qual seguro? Então, mas e a roupa nos estendais? As janelas estão abertas e eu atiro-a para dentro das cozinhas. Então, mas e... espera aí! Isto é conversa para o administrador do condomínio, não para o praticante de bungee jumping.
O senhor administrador não estava em casa e, depois de fechar a janela e os estores, que isto somos todos muito sérios até nos começarmos a rir, desci a avisei a vizinha que ainda estava de volta da meia de leite de máquina com uma torrada.
A senhora quis imediatamente ir a casa, certa que a janela da cozinha tinha ficado escancarada; pediu-me que fosse com ela e constatámos que a janela estava de facto aberta, o praticante de trabalhos radicais voltou a cumprimentar-me e disse à simpática velhinha que tinha entrada na cozinha e tirado um pano da louça, é que, sabe, explicava-se ele com naturalidade e legitimidade, o alumínio aqui da sua janela está muito desgastado e dá-me cabo dos pés.
Eu esperava a todo o momento que aparecesse alguém a gritar Smile, you are on Candid Camera!, mas nada aconteceu, para além da minha vizinha ter resolvido imitar um peixe fora de água, a abrir e fechar a boca, virando a cabeça ora para mim, ora para a janela onde o homem se balançava.
Renovados e polidos pedidos de desculpa acompanharam o fecho da janela e do estore, a pobre mulher quase em apoplexia, eu furiosa com o administrador que, mais tarde, pediu desculpa ao prédio inteiro pelo esquecimento de avisar da intervenção nos estendais. Enfim, é um prédio português...
Subo ao meu quarto andar, entro em casa, viro à esquerda para alcançar a despensa onde estão os sacos mas estaco à porta da cozinha: na janela da dita baila uma perna humana.
Demoro uns segundos a processar a informação visual e, qual Miss Marple, avanço para deslindar o caso.
Abro a janela toda, que tinha deixado entreaberta, como quase sempre, e vejo um homem preso por uma corda e respectivo arnês com um minúsculo pincel a pintar o interior das protecções dos estendais.
Mas então... ninguém nos avisa que vêm fazer este serviço? Entabulo conversa e dou por mim a falar com um homem descalço - é-lhe mais fácil para se apoiar, segundo ele - a baloiçar ao nível de um quinto andar, ele em cima e eu em baixo, salve seja.
Para além de não termos sido avisados - há vários estendais com roupa, incluindo o meu - ele afirma que isso não é com ele, tanto mais que ele nem é funcionário da empresa (o quê?!), apenas foi substituir um amigo que lhe pediu (o quê?!).
Então, mas e o seguro? Qual seguro? Então, mas e a roupa nos estendais? As janelas estão abertas e eu atiro-a para dentro das cozinhas. Então, mas e... espera aí! Isto é conversa para o administrador do condomínio, não para o praticante de bungee jumping.
O senhor administrador não estava em casa e, depois de fechar a janela e os estores, que isto somos todos muito sérios até nos começarmos a rir, desci a avisei a vizinha que ainda estava de volta da meia de leite de máquina com uma torrada.
A senhora quis imediatamente ir a casa, certa que a janela da cozinha tinha ficado escancarada; pediu-me que fosse com ela e constatámos que a janela estava de facto aberta, o praticante de trabalhos radicais voltou a cumprimentar-me e disse à simpática velhinha que tinha entrada na cozinha e tirado um pano da louça, é que, sabe, explicava-se ele com naturalidade e legitimidade, o alumínio aqui da sua janela está muito desgastado e dá-me cabo dos pés.
Eu esperava a todo o momento que aparecesse alguém a gritar Smile, you are on Candid Camera!, mas nada aconteceu, para além da minha vizinha ter resolvido imitar um peixe fora de água, a abrir e fechar a boca, virando a cabeça ora para mim, ora para a janela onde o homem se balançava.
Renovados e polidos pedidos de desculpa acompanharam o fecho da janela e do estore, a pobre mulher quase em apoplexia, eu furiosa com o administrador que, mais tarde, pediu desculpa ao prédio inteiro pelo esquecimento de avisar da intervenção nos estendais. Enfim, é um prédio português...
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Há horas de sorte
Era uma vez uma mãe de família cujo vencimento ao fim do mês era o único sustento lá de casa; dois filhos pequenos e marido desempregado faziam-na tremer de receio por cada novo dia, e se alguém adoece, e se eu adoeço?, pensava ela.
Não obstante o peito apertado, ia todos os dias para o trabalho com um sorriso e era conhecida como pessoa que dava, sem pedir. Boa ouvinte, atenta com os outros, boa profissional, diziam as colegas.
Porém, a rapariga não fazia o que gostava, não aplicava o que estudara, todo o espaço era pouco para quem sonhava andar pelos campos, para quem tinha ambição de ver crescer o milho, de controlar as cheias do rio, de o desviar se necessário for, de acompanhar e cuidar dos animais, para quem tinha vocação de se ocupar da natureza viva.
Sem outro remédio, ia executando o que lhe pediam, entre papéis e computadores, sistemas informáticos que o ministério distribuiu e que deviam ser usados.
Assim, o tempo passava deitado numa rotina que nada previa que se alterasse, até que um dia...
Um dia chegou um cliente dos serviços onde a rapariga trabalhava e disse-lhe que a observava há algum tempo, que apreciava a sua maneira de ser, que sabia das suas habilitações e que lhe propunha ir trabalhar para a sua empresa.
O homem era conhecido em toda a região como um proprietário agrícola abastado, pessoa calma e ponderada e um dos clientes mais estimados daquele serviço. A rapariga nem queria acreditar que a conversa era com ela e sentiu-se em plena disneyândia quando ele disse que lhe duplicava o ordenado e lhe dava um carro apropriado para andar no campo, que ela podia usar na sua vida particular.
É brincadeira, verdade? Não, é a sério. Papéis assinados, tudo tratado, alegria e felicidade transbordantes, a rapariga ainda nem acredita que lhe saiu a lotaria.
Num último acto de lealdade para com a empresa, na qual ainda ficará uns dias, assim foi acordado, e para com os restantes companheiros de trabalho, no dia que comunica formalmente a sua decisão de abandonar o lugar, pede para falar com o responsável máximo que lhe concede tempo do seu.
Imperturbável e com um grande equilíbrio de postura e de linguagem expõe os problemas do serviço com a maior clareza possível, problemas esses, alguns deles, não resolvidos por inércia superior, indiferença, receio de injustiçar amigos e compadres, cuja acção é prejudicial à empresa mas, cuja influência, a podia colocar ao lado do marido no desemprego, se ela, ou outro alguém, resolvesse pôr os pontos nos is, ainda que alegando o superior interesse da própria empresa.
Foi ouvida, pediram-se provas, foram entregues, a vida continua mas com outro rumo. Perante o óbvio escarrapachado diante dos olhos, não podia ser de outra forma.
Afinal, o bem existe e anda por aí. Parabéns e muitas felicidades R.
Não obstante o peito apertado, ia todos os dias para o trabalho com um sorriso e era conhecida como pessoa que dava, sem pedir. Boa ouvinte, atenta com os outros, boa profissional, diziam as colegas.
Porém, a rapariga não fazia o que gostava, não aplicava o que estudara, todo o espaço era pouco para quem sonhava andar pelos campos, para quem tinha ambição de ver crescer o milho, de controlar as cheias do rio, de o desviar se necessário for, de acompanhar e cuidar dos animais, para quem tinha vocação de se ocupar da natureza viva.
Sem outro remédio, ia executando o que lhe pediam, entre papéis e computadores, sistemas informáticos que o ministério distribuiu e que deviam ser usados.
Assim, o tempo passava deitado numa rotina que nada previa que se alterasse, até que um dia...
Um dia chegou um cliente dos serviços onde a rapariga trabalhava e disse-lhe que a observava há algum tempo, que apreciava a sua maneira de ser, que sabia das suas habilitações e que lhe propunha ir trabalhar para a sua empresa.
O homem era conhecido em toda a região como um proprietário agrícola abastado, pessoa calma e ponderada e um dos clientes mais estimados daquele serviço. A rapariga nem queria acreditar que a conversa era com ela e sentiu-se em plena disneyândia quando ele disse que lhe duplicava o ordenado e lhe dava um carro apropriado para andar no campo, que ela podia usar na sua vida particular.
É brincadeira, verdade? Não, é a sério. Papéis assinados, tudo tratado, alegria e felicidade transbordantes, a rapariga ainda nem acredita que lhe saiu a lotaria.
Num último acto de lealdade para com a empresa, na qual ainda ficará uns dias, assim foi acordado, e para com os restantes companheiros de trabalho, no dia que comunica formalmente a sua decisão de abandonar o lugar, pede para falar com o responsável máximo que lhe concede tempo do seu.
Imperturbável e com um grande equilíbrio de postura e de linguagem expõe os problemas do serviço com a maior clareza possível, problemas esses, alguns deles, não resolvidos por inércia superior, indiferença, receio de injustiçar amigos e compadres, cuja acção é prejudicial à empresa mas, cuja influência, a podia colocar ao lado do marido no desemprego, se ela, ou outro alguém, resolvesse pôr os pontos nos is, ainda que alegando o superior interesse da própria empresa.
Foi ouvida, pediram-se provas, foram entregues, a vida continua mas com outro rumo. Perante o óbvio escarrapachado diante dos olhos, não podia ser de outra forma.
Afinal, o bem existe e anda por aí. Parabéns e muitas felicidades R.
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
As aparências iludem
Decorria animada a conversa com amigos diante de um café, em local bem longe da moda, quando a porta do estabelecimento se abre de rompante. Um vento quente espalhou-se pelas mesas enquanto um homem de cara encarnada estica um braço apontando para a cave do local e diz, afogueado, Por ali! Imediatamente a seguir entram quatro polícias em passo apressado.
O café ficou em silêncio. Por trás do balcão o dono parou de limpar copos. Os olhares de todas as pessoas acompanharam os polícias até desaparecerem escada abaixo num tropel. Os espíritos dos presentes anteciparam mil cenários sobre actividades ilícitas por baixo dos nossos pés. Alguns, que ainda comiam, afastaram os pratos. Os que seguravam em copos e chávenas, pousaram-nos.
Passada a surpresa inicial o dono, ansioso, nervoso, deu uma corridinha saindo do balcão e com o olhar inquiriu o homem que esticara o braço, sem verbalizar nada, e sem nada ser preciso dizer da parte fosse de quem fosse que já ali estava. Então, o homem que esticara o braço, que dissera Por ali!, que usara um tom acusatório, que indicara, que apontara, que quase desvendara, deu a única resposta que ninguém esperava:
- Queriam saber onde são as casas de banho e querem jantar, eu disse-lhes que isto estava quase a fechar.
O café ficou em silêncio. Por trás do balcão o dono parou de limpar copos. Os olhares de todas as pessoas acompanharam os polícias até desaparecerem escada abaixo num tropel. Os espíritos dos presentes anteciparam mil cenários sobre actividades ilícitas por baixo dos nossos pés. Alguns, que ainda comiam, afastaram os pratos. Os que seguravam em copos e chávenas, pousaram-nos.
Passada a surpresa inicial o dono, ansioso, nervoso, deu uma corridinha saindo do balcão e com o olhar inquiriu o homem que esticara o braço, sem verbalizar nada, e sem nada ser preciso dizer da parte fosse de quem fosse que já ali estava. Então, o homem que esticara o braço, que dissera Por ali!, que usara um tom acusatório, que indicara, que apontara, que quase desvendara, deu a única resposta que ninguém esperava:
- Queriam saber onde são as casas de banho e querem jantar, eu disse-lhes que isto estava quase a fechar.
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
Obrigadinha, sim?
Nos meus ouvidos mora um zumbido desde
há alguns meses. Desconheço o que o levou a instalar-se e que tão boas condições
encontrou – arrendamento zero… - que por aqui ficou.
Muitas consultas e tratamentos depois,
o médico sugere uma intervenção cirúrgica. Falo com a companhia seguradora,
enviam-se papéis de parte a parte, redigem-se relatórios, fazem-se e atendem-se
telefonemas, até que a companhia, três meses depois, diz que sim, que autoriza –
“… de acordo com os elementos disponíveis, encontra-se a cirurgia aprovada”.
Porém “… fica a cargo do cliente uma
franquia de 2.500.00€, cujo valor é superior à presente despesa. Assim, deverá
a Pessoa Segura liquidar a totalidade da despesa”.
Leio várias vezes a cartinha para
perceber o que raio é que afinal aprovaram…
segunda-feira, 15 de julho de 2013
José Castelo Branco
Oito e pouco da manhã, café por baixo da minha casa, entro e dou os bons dias mas ninguém me ouve. Donos e três clientes esganiçam-se a falar mais alto que os outros mostrando repugnância e sobrolhos franzidos em uníssono. O dono faz-me sinal do fundo, ao lado da máquina do café, assinto com a cabeça, sim é café, cheio, explico eu com o polegar e indicador afastados.
Pouca vergonha, lata, gozo, mariquice, paneleirice até, eram palavras usadas na conversa que se desenvolvia com ares de escárnio, sem que eu percebesse quem era a desenvergonhada pessoa de quem falavam, até que alguém disse, isto devia ser proibido.
Mas que raio, o que é que devia ser proibido? O José Castelo Branco!
Num programa de televisão na noite anterior apresentou-se vestido de toureiro ou campino, as opiniões divergiam, mas a unanimidade conseguia-se quando concordavam no maluco, sem vergonha, estapafúrdio, inconsequente, bizarro, parvo, nojento, exibicionista, maricas.
Mas como é que a mulher atura aquilo? Mas como é que lhe dão tempo de antena? Mas como é que se permite uma coisa daquelas num canal de televisão?
Muitos mais mas comos irritaram-me tanto que, aproveitando uma deixa de uma senhora que se me dirigia, certa da minha concordância e talvez um pouco curiosa com o facto de ainda não me ter juntado ao coro, manifestei a minha total discordância. Arrependi-me no mesmo instante, pois claro, mas já era tarde.
Avancei devagar, voz moderada, defendendo a diferença, elogiando a coragem que nenhum de nós tem para fazer o que nos apetece, sempre tão preocupados com o que os outros dizem e pensam sobre nós. Acrescentei que não se pode comparar o incomparável, o casamento de José Castelo Branco com Betty Grafstein não se enquadra nos casamentos onde vamos ou dos quais ouvimos falar, é preciso um espírito muito aberto para não se usarem as medidas com que costumamos medir o mundo, medidas essas feitas pela média da pessoas, no caso pela moda - esta calhou que nem ginjas.
Porque razão tem tudo de ser igual? Porque exprimimos sentimentos negativos com a diferença? Porque é tão difícil gozarmos connosco próprios e tão fácil de o fazer com os outros? Não será isto uma certa forma de inveja? Alguém que faz o que lhe dá na real gana, será condenável ou é ousadia provocadora de ciúme? Inconfessável, é claro.
Eu percebo que os dois casais que ali estavam a comparar-se com JCB e BG, usavam a comparação de forma tão ridícula como eu ficaria a comandar um submarino, mas eu sei que a casaca e o chapéu de comandante me assentariam carregados de comicidade - sem falar da minha cara de pânico por não fazer a mais pequena ideia como devia agir - e eles acham perfeitamente natural fazerem a comparação e, como se não chegasse, ficarem convictos de que a normalidade é a regra, a sua normalidade, não a dos outros.
JCB, o ridículo, é também JCB, o livre. Pormos de lado os preconceitos dá-nos liberdade, liberdade essa que vem com preço, preço em forma de seta apontada a todo o lado, seta venenosa, veneno da inveja.
O divórcio de preconceitos pode dar uma calma que não se consegue nem com medicação, uma visão diferente do mundo, um coexistir pacífico onde a diversidade se pode passear à vontade.
A esta altura já vingava o silêncio no café mas eu ainda não tinha dito tudo e não saí sem dar a opinião completa, ou seja, lembrando-os que alguém precisa de dar alguma cor às vidas cinzentas da maioria das pessoas, arranjar-lhes assunto para comentarem; e como essa maioria não costuma interessar-se muito pela ciência - aproveitei para perguntar de rajada se sabiam quem era Ana Ferraz, não sabiam - como não se interessam muito por leitura, mas adoram conversar, sobre os outros é claro, e de preferência quando esses outros não podem responder, então deviam agradecer a JCB por proporcionar momentos tão inesquecíveis.
Não conheço JCB, nunca o vi sem ser na televisão, sei que é um ser excêntrico e divergente dos modelos aceites socialmente, que se está nas mais puras tintas para o que dele dizem, que não se molda nem à lei da bala, porque nem um bala abala a coragem que tem. Isto devia ser proibido? Não me parece...
Pouca vergonha, lata, gozo, mariquice, paneleirice até, eram palavras usadas na conversa que se desenvolvia com ares de escárnio, sem que eu percebesse quem era a desenvergonhada pessoa de quem falavam, até que alguém disse, isto devia ser proibido.
Mas que raio, o que é que devia ser proibido? O José Castelo Branco!
Num programa de televisão na noite anterior apresentou-se vestido de toureiro ou campino, as opiniões divergiam, mas a unanimidade conseguia-se quando concordavam no maluco, sem vergonha, estapafúrdio, inconsequente, bizarro, parvo, nojento, exibicionista, maricas.
Mas como é que a mulher atura aquilo? Mas como é que lhe dão tempo de antena? Mas como é que se permite uma coisa daquelas num canal de televisão?
Muitos mais mas comos irritaram-me tanto que, aproveitando uma deixa de uma senhora que se me dirigia, certa da minha concordância e talvez um pouco curiosa com o facto de ainda não me ter juntado ao coro, manifestei a minha total discordância. Arrependi-me no mesmo instante, pois claro, mas já era tarde.
Avancei devagar, voz moderada, defendendo a diferença, elogiando a coragem que nenhum de nós tem para fazer o que nos apetece, sempre tão preocupados com o que os outros dizem e pensam sobre nós. Acrescentei que não se pode comparar o incomparável, o casamento de José Castelo Branco com Betty Grafstein não se enquadra nos casamentos onde vamos ou dos quais ouvimos falar, é preciso um espírito muito aberto para não se usarem as medidas com que costumamos medir o mundo, medidas essas feitas pela média da pessoas, no caso pela moda - esta calhou que nem ginjas.
Porque razão tem tudo de ser igual? Porque exprimimos sentimentos negativos com a diferença? Porque é tão difícil gozarmos connosco próprios e tão fácil de o fazer com os outros? Não será isto uma certa forma de inveja? Alguém que faz o que lhe dá na real gana, será condenável ou é ousadia provocadora de ciúme? Inconfessável, é claro.
Eu percebo que os dois casais que ali estavam a comparar-se com JCB e BG, usavam a comparação de forma tão ridícula como eu ficaria a comandar um submarino, mas eu sei que a casaca e o chapéu de comandante me assentariam carregados de comicidade - sem falar da minha cara de pânico por não fazer a mais pequena ideia como devia agir - e eles acham perfeitamente natural fazerem a comparação e, como se não chegasse, ficarem convictos de que a normalidade é a regra, a sua normalidade, não a dos outros.
JCB, o ridículo, é também JCB, o livre. Pormos de lado os preconceitos dá-nos liberdade, liberdade essa que vem com preço, preço em forma de seta apontada a todo o lado, seta venenosa, veneno da inveja.
O divórcio de preconceitos pode dar uma calma que não se consegue nem com medicação, uma visão diferente do mundo, um coexistir pacífico onde a diversidade se pode passear à vontade.
A esta altura já vingava o silêncio no café mas eu ainda não tinha dito tudo e não saí sem dar a opinião completa, ou seja, lembrando-os que alguém precisa de dar alguma cor às vidas cinzentas da maioria das pessoas, arranjar-lhes assunto para comentarem; e como essa maioria não costuma interessar-se muito pela ciência - aproveitei para perguntar de rajada se sabiam quem era Ana Ferraz, não sabiam - como não se interessam muito por leitura, mas adoram conversar, sobre os outros é claro, e de preferência quando esses outros não podem responder, então deviam agradecer a JCB por proporcionar momentos tão inesquecíveis.
Não conheço JCB, nunca o vi sem ser na televisão, sei que é um ser excêntrico e divergente dos modelos aceites socialmente, que se está nas mais puras tintas para o que dele dizem, que não se molda nem à lei da bala, porque nem um bala abala a coragem que tem. Isto devia ser proibido? Não me parece...
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