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terça-feira, 20 de abril de 2010

A rapariga que não gostava de livros com as capas dobradas - XV

Quando acordou olhou pela janelas e viu nuvens, nada mais. A hospedeira deu conta que tinha acordado e, com um sorriso enorme, chegou-se a ela e perguntou-lhe se queria comer alguma coisa, pois já tinham servido uma primeira refeição mas ela estava a dormir e não a incomodaram. - Si, por favor.
- Y para beber, ¿quieres algo?
- Agua.
A hospedeira voltou com um tabuleiro com pequenos espaços ocupados por coisas com ar apetitoso.
- Aquí tines una sopa caliente, que te va a gustar.
- Gracias.
O tabuleiro só tinha em comum o nome com os tabuleiros a que estava habituada. Os recipientes eram de louça e continham, para além da sopa, um pequeno prato com carne assada e puré de maçã e outro com um bolo. Havia ainda um pão de reduzidas dimensões, manteiga, um triângulo de queijo e um chocolate. Olhou para o lado de soslaio, viu que o filho dormia e sentindo uma fome imensa atacou os pratos com vagar, saboreando cada coisa com calma. A refeição, apesar de parca, deu-lhe um ânimo de tal forma que chamou a hospedeira e pediu vinho, que lhe foi trazido de imediato. Terminou de comer, guardou o chocolate, pediu um café e teve pena de não puder fumar um cigarro. Levantou-se e foi sentar-se ao lado do filho que, como ela, viajava sozinho numa fila.
- Olá Luís Vargas Rivera.
O filho abriu os olhos, sorriu-lhe, endireitou-se, espreguiçou-se e deu-lhe um beijo.
- Olá Rosa Maria Gamarra de la Torre
Falaram baixo e riram-se os dois do seu segredo.
- Dormiste bem mãe? Explicas-me porque entraste aqui com cara de enterro?
- Quando saí da casa de banho... o pai ia a passar e...
- O quê? – os olhos de Paulo abriram-se desmesuradamente.
- Não me viu por uma unha negra. Pensei que não conseguia entrar no avião, pensei que desmaiava, sei lá o que pensei... ai que susto tão grande...
- Mas como? Ele disse-me ao telefone que já ia p’ró hotel
- Disse-te, disse-te, fez uma conversa natural, não te disse que ia naquele preciso momento e ali andava ele, com um homem do aeroporto, à procura das malas.
- Mas tens a certeza que não te viu, não é?
- Claro! Se me tivesse visto tinha vindo ter comigo.
- Mas que cena mãe, foi até à última... olha, lembrei-me duma coisa que podia arranjar problemas mas já tratei do assunto.
- Outra coisa? O quê?
- Temos que controlar as horas porque vamos estar 12 horas aqui metidos no avião, certo? Então eu tive uma ideia: falei p’ró David e disse-lhe...
- Ai meu Deus, não tínhamos combinado não dizer nada a ninguém?
- Mãe, mas íamos ter problemas e eu já resolvi tudo, escuta-me. Falei p’ró David por sms enquanto estava na fila, e acredita mãe o David nem morto lhe arrancam uma palavra.
- Sim, e disseste-lhe o quê?
- Disse que precisava dum favor e que não podia ser incomodado durante um dia inteiro e por isso ia reencaminhar o meu telefone p’ro telefone dele. Se o pai ligasse, e é assim, ele sabe das minhas cenas com o pai por isso não estranhou, ele que dissesse que eu tinha lá estado e me tinha esquecido do telefone. Amanhã retiro o reencaminhamento e falo com o pai, o que achas?
- Está bem, foi bem pensado. Quem é o David?
- É um grande amigo mãe, mesmo à séria! Confiamos tudo um ao outro. E acredita que ele não vai fazer perguntas.
Sentiu que o nervoso miudinho regressava pois, se não tinha pensado naquilo, se calhar havia outras coisas em que não pensara e que podiam ser graves. Isto para não falar que estava em liberdade condicional, tinha raptado o filho e fugido do país com nomes e passaportes falsos. Estes pensamentos tomaram conta dela de tal forma que a angústia lhe provocou dores de estômago.
- Mãe, dói-te o estômago porque não comias à horas e agora comeste e isso acontece. ‘tá tudo bem, ‘tá tudo bem...
Fez um esboço de sorriso para mostrar ao filho que sim, que estava tudo bem e contou-lhe da carta que tinha ido pôr em casa do pai, antes de apanharem o Lusitânia.
- Porque não me contaste no comboio?
- Esqueci-me, é tanta coisa que me esqueci, mas agora sabes, sinto-me muito melhor e a verdade é que estamos a sobrevoar o Atlântico por isso, já nada importa. Dentro de poucas horas vamos conhecer o Sr. Manuel Vega, que algo me diz é o motorista deles!
- Motorista? Achas que eles têm motorista?
- Sei lá filho, já não sei nada...
- Mãe, de repente tive uma ideia- disse o rapaz com os olhos a brilhar - E se esse tal Manuel Vega é o Robin ou o avô? Afinal, nós temos outros nomes e faria todo o sentido, não achas?
Falavam baixo, em sussurros e a mãe riu-se com a ideia.
- Sim, pode ser. O avô João passa a ser o Avô Manuel e a avó, como se chamará?
- Avó Rosita!
Riram-se ambos e ela sentia-se literalmente nas nuvens, o nervoso miudinho tinha passado, parecia que a altura a que iam tinha feito dissipar as preocupações e a angústia, que não a abandonara desde que saíra da prisão e constatara que não havia quem quer que fosse à sua espera.
- Então mãe, é agora que me vais contar como foi?
- Que queres que te diga... não me envolvi em zaragatas, não fui maltratada, não fui violada, nada disso. Apenas tinha dores incalculáveis de saudades de ti, da Tia Teresa, dos avós e...
- ... e do pai, não é mãe?
- Sim e do pai, mas...
- Esquece o pai, esquece-o, pensa no Santiago e na Elena que vamos encontrar dentro de... – e olhando para o relógio acrescentou - ... de seis horas! Tenho tantas saudades do avô João...
- Vamos matá-las, já falta pouco...
- Mas vá lá mãe, conta como foi, tu prometeste...
A mãe desligou a pequena televisão encaixada no banco da frente que passava um filme com actores cujas caras ela não reconheceu. Virou-se para o filho e descreveu-lhe aqueles três anos tentando ser equilibrada, não dando ênfase ao suplício que vivera, mas também sem aligeirar as angústias e os medos, e os vários momentos delicados que passara. Falou das guardas, das outras reclusas, dos livros, da inveja que sentia daquelas que trabalhavam no horto da prisão, que andavam com a cara bronzeada e podiam encarar o sol de frente, encadeando-se com ele, molhando-se à chuva, sentindo o vento na cara e mexendo na terra. Contou como em Tires trabalhara na lavandaria e já podia andar em espaços ao ar livre e como se fartara de chorar a primeira vez que isso acontecera. Falou-lhe de Damiana e de Cremilde, contando em pormenor as descrições de São Tomé. Ouviu o filho rir com as historietas da Pinta, da Niña e da Santa Maria e com os ditos das ciganas. Contou-lhe os Natais e como as prisioneiras mudam naquela altura do ano a quem ninguém é imune, como se chorava na noite de Natal, em que eram deitadas lágrimas diferentes das dos outros dias, mais tristes e carregadas de maior solidão. Contou-lhe como os sorrisos no Natal eram mais verdadeiros e elas se aproximavam mais umas das outras, fingindo todas interiormente, que cada uma é o familiar com que queriam na verdade passar a Consoada. Deixou as lágrimas correr livremente e descreveu as conversas onde os filhos tinham lugar de protagonista e como se sentiam mais próximas nesses momentos. Fez o rapaz chorar quando ouviu a descrição da raiva que sentia ao ver as outras receber cartas e como ela mergulhava na leitura de qualquer livro tentando convencer-se que aquilo era a sua carta, que alguém tinha escrito aquele livro para si e só para si.
Foram interrompidos pela hospedeira que lhes perguntou se queriam comer alguma coisa e Paulo pediu um chocolate e ela um café.
- Tenho que ler o tal livro, O Ingénuo, para ver se descubro alguma coisa...
- Deixa isso mãe... não te canses
- Como assim? Tenho que o ler! – e disse isto e foi-se sentar no seu lugar abrindo o livro. Rapidamente se sentiu ensonada com as andanças do Hurão e pôs o livro de lado, indo sentar-se novamente ao lado de Paulo, encostada a ele, em silêncio a saboreá-lo, como se tentasse recuperar anos perdidos absorvendo-lhe o cheiro.
Acabou por adormecer novamente e sonhou com o reencontro com Teresa e os pais. Foi acordada pelo aviso a pedir para porem os cintos. Apercebendo-se que estavam a chegar a Lima sentiu o coração na boca, sentando-se no seu lugar e olhando o filho em silêncio. O olhar era-lhe retribuído por Paulo, como a dizer-lhe que tivesse calma; era um olhar sorridente.
Aterraram no Aeroporto Internacional Jorge Chávez cansados mas com uma ansiedade enorme. Estavam no Peru.
Quando finalmente saíram do aeroporto e conheceram Manuel Vega, que os esperava de acordo com as instruções da irmã, este fez-lhes cumprimentos como se fossem velhos conhecidos; tentou corresponder mas não conseguiu pensar em mais nada senão na sua família que abraçaria rapidamente. Pensava ela.
Com receio que o pai tivesse tentado falar-lhes durante o voo, telefonaram-lhe, com uma voz calma e natural, e ouviram-no recomendar que o filho não se voltasse a esquecer do telefone em casa do David: o esquema tinha funcionado. Mas a seguir ouviram-no perguntar porque raio estavam a ligar às cinco da manhã, pois eram exactamente essas horas em Portugal! Paulo explicou que percebera que se tinha esquecido do telefone e que o fora buscar; acabava de sair da casa do David e sentiu obrigação de ligar imediatamente para o pai, sabendo que estaria levantado, precisamente por causa da diferença horária. O rapaz ainda conseguiu calar o pai, dizendo-lhe que era preso por ter cão e por não ter, pois se não lhe ligava, o pai zangava-se e agora que ele lhe falava, zangava-se na mesma.
- Em que ficamos pai?
A voz era séria mas o ar era brincalhão. Com despedidas e juras de se portar bem e de telefonar se precisasse de alguma coisa, finalmente lá desligaram. Mãe e filho ficaram a olhar um para o outro a pensarem em simultâneo que se o pai os soubesse em Lima onde acabavam de entrar com passaportes falsos lhe daria um ataque e combinaram deixar o relógio do Paulinho com a hora de Lisboa para ligarem ao pai de vez em quando, a horas decentes. Para isso marcaram um lembrete no telemóvel que os ajudaria a não se esquecer dos telefonemas nos próximos dias e esperavam estar em casa dois ou três dias depois do pai regressar.
Manuel Vega dirigi-os a um jipe enorme com ar de ter participado na segunda guerra mundial e perante o olhar de Paulinho que dizia que não andariam dois quilómetros naquela sucata, Manuel sorriu e pediu confiança no carro, num espanhol da América do Sul, avisando que o hábito não faz o frade e informou que iriam andar cerca de trezentos quilómetros para nordeste em direcção a Huánuco.
- Trezentos quilómetros? Meu Deus...
O desespero da mãe contrastava mais uma vez com a calma do filho e foi Paulo que a ajudou a subir para o carro enquanto cantava qualquer coisa desconhecida para a mãe, mas que mostrava a alegria e excitação do rapaz por ir onde nunca fora nem sonhara ir.
Chegaram a Huánuco mais mortos que vivos depois duma viagem barulhenta e tormentosa durante a qual Manuel Vega pouco ou nada disse contrastando com a familiaridade com que os recebera. Optaram por não lhe fazer perguntas pois não sabiam o que a família lhe teria dito sobre eles e, se bem que as perguntas fossem muitas e a vontade de as fazer enorme, acharam por bem ouvir o que Manuel lhes dissesse mas não perguntarem nada, embora ardessem por dentro de ansiedade. Questionaram-se por diversas vezes se a família morava em Huánuco e perceberam que a resposta era negativa quando se dirigiram-se para o Aeroporto de Huánuco e Manuel os encaminhou para uma pequena avioneta, onde mãe e filho esperaram sentados, oscilando entre o deslumbre do encantamento da situação e toda a aventura que viviam, e com uma certa apreensão sobre o lugar onde estavam e para onde iriam. Ela levara consigo as cartas da irmã e lia repetidamente... com um xis na janela, na tentativa de se acalmar. Afinal, onde morava a sua irmã?

quinta-feira, 11 de março de 2010

A rapariga que não gostava de livros com capas dobradas - XIV

Acordou imensas vezes a meio da noite com os solavancos do comboio e foi das primeiras a tomar o pequeno almoço na carruagem bar. Não viu o filho, com pena dela, mas pensou que assim era melhor. Eram nove horas em ponto e o comboio estava a entrar na estação de Chamartín.
Saiu com a sua reduzidíssima bagagem e foi para a fila dos táxis que era enorme. Se demorassem muito, o Paulo chegaria primeiro de metro.
Finalmente lá se meteu no táxi e pediu para ir para o aeroporto. Cerca duma hora depois do comboio chegar a Madrid, entrou em Barajas e achou o aeroporto lindo, como lindos deviam ser todos os aeroportos do mundo. Pensou que ali se daria o derradeiro passo na irreversibilidade da sua acção. Andou ao acaso, procurando Paulo com o olhar, mas não o viu. Viu indicações de, pelo menos, quatro terminais, e achou o aeroporto amplo e muito luminoso.
Olhou em volta e viu que era quase meio dia. Sentou-se numa mesa e ia pedir qualquer coisa para comer quando viu a filho a acenar-lhe e a chamá-la. Levantou-se imediatamente e foi na direcção dele com o sorriso a morrer-lhe nos lábios à medida que se aproximava e que via a cara transtornada do filho. Acelerou o passo até dar uma pequena corrida enquanto o rapaz fazia sinal para se despachar. Antes que tivesse tempo de abrir a boca empurrou-a para dentro duma casa de banho, entraram num dos compartimentos e disse:
- Mãe... tem calma, ‘tá tudo bem mas... acabei de ver o pai.
Ela não disse mas o seu olhar de terror dizia tudo, enquanto as lágrimas teimaram em saltar.
- O pai? Aqui? Como é que ele soube? E a polícia? Ele andava com polícia?
- Não mãe. Dei com ele por mero acaso. Apanhei um susto enorme, mas depois percebi que ele não está atrás de nós.
- Então o que está aqui a fazer?- perguntou a mãe em aflição total.
O rapaz fez-lhe sinal que falasse baixo pois, afinal, estavam dentro do mesmo compartimento, na casa de banho dos homens.
- Quando entrei no aeroporto ia a sair um monte de gente em direcção aos táxis a falarem português...
- Sim... e então? Por favor, explica rápido!
- O avião de Lisboa para Paris teve uma avaria qualquer e pararam aqui, só que o pai perdeu as malas e toda a gente saiu mas ele anda aí. Ele tinha-me dito que íamos fazer escala em Paris e depois é que íamos do aeroporto Charles De Gaulle para a República Dominicana. E agora ouvi-o dizer à Adelaide que ia ter com ela ao hotel logo que encontrasse as malas.
- Estamos atrasados... o que fazemos? Ele por aí pode dar connosco a qualquer momento...
A cabeça estalava-lhe com a dor que se tinha instalado durante a breve explicação. Sentia-se nauseada novamente e pensou que o melhor era aproveitarem os bilhetes de comboio ida e volta e regressarem a Lisboa.
- Nem pensar mãe. Temos que ter calma e vamos apanhar o nosso avião, percebes?
O tom do filho era firme e não admitia contestações, mas ela estava apavorada.
- Como? Já viste a nossa figura metidos numa casa de banho pública? Ele pode entrar por aqui a dentro em qualquer instante!
As mãos tremiam-lhe, suava abundantemente, estava com tonturas e nauseada. Assim que se aproximasse do avião e a vissem assim pensavam logo que transportava droga e aí sim, estava tudo estragado.
- Mãe, vamos sair daqui os dois devagar e tu vais pela direita e eu pela esquerda. O balcão é o 14. Abre bem os olhos e pensa que ele não está à espera de nos ver aqui, mais ainda, assim é mais uma ocupação para ele e...
Paulo foi interrompido pelo toque do telefone.
- É o pai...
Olharam-se e o rapaz rapidamente ganhou a compostura, fez sinal de silêncio à mãe e atendeu:
- Atão, tudo bem?
- ...
- A sério? Não acredito...
- ...
- Pois, ‘tava a estranhar ‘tares a ligar a esta hora, atão e agora?
A mãe bem se esticava para ouvir alguma coisa mas não conseguia. De repente o filho abriu a porta da casa de banho, deu um encontrão num homem que levava as mãos no lavatório e correu disparado em direcção à rua. A mãe ficou atónita com aquele comportamento e, sem saber se devia ficar ali ou sair, optou por sair, principalmente depois dos olhares de que foi alvo por parte dos dois homens que estavam na casa de banho.
Saiu e ficou à porta tentando perceber para onde tinha ido o filho. Quando achou que ia desmaiar com tanto susto viu o rapaz caminhar na sua direcção.
- Mãe... ‘ta tudo bem...
- Onde foste? Perguntou ela entre o zangada e assustada.
- Ouve- pediu o rapaz – Nas casas de banho também se ouve a chamarem para os aviões e se ele ouvisse, podia não perceber, mas achava logo muito estranho.
A mãe sorriu perante a agilidade mental do rapaz.
- Tens razão... e que disse ele?
- Contou da avaria, das malas, disse que vão ficar pelos menos até às cinco da tarde aqui em Madrid e que estava a ir para um hotel. Vamos mãe, é a nossa oportunidade.
A voz do filho estava cheia de pressa, disse tudo a correr, comendo metade das palavras e empurrando a mãe para a frente, enquanto carregava as duas pequenas mochilas e a incentivava:
- Vamos, depois disto tudo não queres perder o avião, pois não?
Com uma mochila às costas e outra por cima dum braço, meteu o braço livre no da mãe e puxou-a em direcção ao balcão.
Acabaram por fazer o check in juntos apesar de darem os bilhetes isoladamente.
Entregou o passaporte em nome de Rosa Maria Gamarra de la Torre e obrigou-se a concentrar, embora só pensasse que a rapariga que o recebeu ia detectar imediatamente que não era verdadeiro. Olhou para o lado e viu um casal com um bebé; tentou sorrir-lhe e centrar-se noutra coisa qualquer que não a sua clandestinidade. A mulher do balcão devolveu-lhe o passaporte com o bilhete de embarque dentro e perguntou se tinha bagagem. Acenou que não com a cabeça, achando imediatamente que acenara com muita intensidade. Indicou-lhe a porta de embarque 71 e afastou-se do balcão a perguntar-se se alguém acharia estranho que não tivesse bagagem.
Procurou com o olhar as indicações quando viu que Paulo, ou melhor Luís Vargas Rivera, a chamava com gestos. Avançaram rapidamente na direcção da porta 71.
- Mãe, vai a uma casa de banho e lava a cara. ‘Tás cá com um ar... eu vou andando e encontramo-nos dentro do avião. Olha é ali.
Entrou na casa de banho e constatou que estava com péssima cara. Lavou-a, fez exercícios com os músculos faciais, passou os dedos molhados pelo cabelo, inspirou fundo várias vezes e empurrou a porta para sair da casa de banho. Assim que a entreabriu ouviu uma voz conhecida, uma voz que já lhe dissera muitas coisas, até que a amava:
- Yo no tengo suerte... un avión estropeado y mis maletas perdidas, hem, ¿que suerte es esta?
- Calma señor, que sus maletas no están perdidas… ya las vamos a encontrar y…
Não ouviu mais mas foi o suficiente para ter uma tontura que a obrigou a apoiar-se na porta. Sentiu-se petrificada ao pensar que por pouco, por muito pouco não dava de caras com Francisco. De repente sentiu uma dor no peito: Paulo... o filho não estava à espera dele e iam encontrar-se de certeza. Abriu a porta devagar e espreitou. Havia uma fila em movimento diante da porta 71 e Paulo estava na fila com um boné azul com a pala virada para trás. Ela que nunca gostara que ele fizesse aquilo, agora sentiu-se segura com aquela visão.
Hesitou sobre o que fazer a seguir, espreitou mas não viu sinais de Francisco. Deixou-se ficar ali parada, o coração a bater desenfreadamente, de tal forma que pensou que as outras mulheres na casa de banho o poderiam ouvir. Em pouquíssimo tempo era a segunda vez que ficava plantada à porta duma casa de banho pública. Espreitou a medo, viu que a fila ia andando e, num minuto viu Paulo desaparecer no meio das pessoas que avançavam. Decidiu ficar ali até que todos entrassem. Se Francisco passasse novamente ela metia-se dentro da casa de banho; quando a fila não tivesse ninguém ela corria, dava o bilhete e em dez segundos entrava.
Foram dois minutos que pareceram duas horas. Passava imensa gente e todos pareciam falar português, parecia-lhe ver o cabelo do marido em todos os homens, a voz vindo ao seu encontro, acusando-a como uma criminosa que era por raptar o filho.
Estava em choque quando ouviu o altifalante dizer que era a última chamada para o voo para Lima. Encheu o peito de ar, tentou mostrar passos seguros, dentro dos ténis novos e avançou em direcção à hospedeira.
Entregou-lhe o bilhete e o passaporte devagar, com uma calma que parecia pertencer a outra pessoa, sentindo que fazia tudo em câmara lenta. Ouviu a rapariga desejar-lhe boa viagem e viu-a sorrir, como se as palavras e o sorriso não fossem para si. Caminhou em direcção à manga que a levaria ao avião para Lima e foi recebida por um rapaz de uniforme que lhe estendia a mão pedindo o bilhete e a encaminhou para a segunda fila do avião, com mais sorrisos e simpatias. Sentia-se planar, nem se apercebeu que ia em primeira classe e ignorou o ar intrigado do filho a questioná-la. Sentou-se, pôs o cinto de segurança, abriu a mala e tirou um comprimido com mãos trémulas, que engoliu sem água nem nada. A dor de cabeça era insuportável, os batimentos cardíacos eram sobre humanos, as tonturas equivaliam às vertigens que teria na varanda dum prédio de cinquenta andares.
Passaram vinte longos minutos até que o avião descolou da pista. Quando o filho se sentou a seu lado e lhe perguntou com ansiedade o que se passava, ela só conseguiu chorar. Chorou até adormecer.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A rapariga que não gostava de livros com capas dobradas - XIII

Havia duas noites que dormia como queria e apesar disso tinha pesadelos. Talvez fosse do cheiro a mofo do colchão, palco de intensas aventuras de vários casais de pulgas e outros bicharocos que por lá decerto passaram, ou talvez fosse do facto de dormir acompanhada, pois tinha dormido com o filho, num encantamento que lhe parecia um sonho, ele ali ao seu lado, ela a mexer-lhe e a cheirar-lhe o cabelo.
O dia seguinte começou com uma sessão de cabeleireiro e manicura. Não que o seu cabelo desse para grandes penteados pois só o deixara crescer quando soube que sairia da prisão, mas uma lavagem por outras mãos e um shampoo aplicado com uma massagem, valiam pela vida. Depois entretiveram-se nas compras numa loja onde Paulinho também foi brindado com algumas peças de roupa, óculos de sol para os dois e um passeio a pé perto da praia onde costumava ir e onde constatou que em três anos pouco tinha mudado. O telemóvel do filho tocou várias vezes e, pela conversa, percebia que era o pai a querer saber da condenada.
- Em que estás a pensar mãe?
- O que fará a tua tia, o marido e os avós...
- Não sei... ao princípio ela teve bué discussões com o pai, gigantes, ‘tás a ver? E depois disso só a vi mais duas vezes. Disse-me que ia embora e que quando chegasse me escrevia a dizer exactamente onde estava, o que nunca aconteceu. Os avós convidaram-me também muitas vezes mas era o pai que me levava lá e ele ficava no carro e dizia-me para eu não me demorar. E depois foram-se embora e eu fiquei sozinho com o pai... e depois veio a Adelaide.
- Fala-me da Adelaide...
- Ela até é porreira... o pai conheceu-a numa viagem que fez e começaram a namorar poucos meses depois de tu teres sido pr...
O miúdo estacou com o ...esa na garganta pensando que magoava a mãe. Ela sorriu e disse-lhe que as palavras não interessavam nada e que, afinal ela tinha mesmo estado presa por isso, que outra coisa haveriam de dizer?
- Um dia contas-me mãe? Contas-me mesmo à séria como era lá dentro?
A mãe sentiu uma tristeza profunda e respondeu:
- No avião, boa? Teremos imensas horas para conversar. Prometo.
- Isso quer dizer que vamos? – perguntou Paulinho no auge da excitação.
- Sim, vamos – respondeu enquanto abraçava o filho e rezava interiormente para não estar a fazer, agora sim, a asneira da sua vida, agora sim, consciente e de livre vontade.
Sabia que as palavras de Francisco e a forma como as pronunciara, com o pronome carregado de desdém e de desprezo, a tinham influenciado na decisão. Ouvia ainda aquele ela, dito com altivez, como se se referisse a alguém que nem conhecia, quando estava a falar da mãe do filho. Além disso, pensara e repensara que a irmã devia ter tudo pensado e o X falou mais alto, sinal que podia confiar nela.
A cada minuto mais se convencia que havia um motivo muito forte para tudo aquilo e a irmã saberia que os riscos iriam valer a pena, caso contrário não lhe proporia aquela aventura louca.
Sim, iam ao Peru. Sim, iam em direcção das pessoas que mais amavam. Sim, iam em busca de respostas. Sim, iam confiar.
Depois de mais dúzias de recomendações via telefone o pai lá se preparou para viajar no dia seguinte bem cedo, atormentado como uma rocha onde as ondas batem sem cessar, assolado por maus agoiros que lhe vinham do conhecimento da sua – ainda – mulher, com queda para a aventura, com desejos de mudança, com vontade de correr riscos e tinha a certeza quase absoluta que ela era culpada da acusação que lhe fizeram pois vira naquela oportunidade, uma oportunidade de fazer qualquer coisa fora da sua rotina que tanto odiava.
De vez em quando era afogueado pela dúvida e quando colocava, ainda que longinquamente, a possibilidade de ela ter sido vítima das circunstâncias, logo se lembrava que ela sempre vivera com os pés na lua e talvez fosse influenciada pelo Peréz-Reverte e tivesse resolvido brincar às rainhas do sul, pois dificilmente distinguia a realidade das leituras que fazia, e ele sabia que aquela mania dos livros que ela e a irmã cultivavam não era de todo saudável e já lá diz o povo, nem tanto ao mar nem tanto à terra e agora que tinha uma vida sossegada, sem os temporais dela – e da família dela! – por perto, estava decidido a fazer tudo para que ela não a viesse perturbar. Daqui a uma semana regressaria para pôr tudo nos eixos, tanto mais que a escola começaria em breve e ela iria participar o menos possível na vida escolar do filho. Este pensamento provocou-lhe um sorriso pois lembrou-se subitamente que ela lhe tinha mencionado o facto de esperar um contacto para arranjar emprego e ele consolou-se pensando que seria bem longe de Lisboa e, já que ela gostava tanto de viajar, pois que fosse para a Sibéria e ele até ajudaria a pagar o bilhete!
Se ele sonhasse com os planos da mãe e do filho – Rosa e Luís – dava-lhe uma apoplexia que o deixaria morto.
- Mãe, vamos quando? Ainda vais ver a Luísa e a Lena?, perguntou o filho referindo-se às amigas mais chegadas da mãe.
- Não, elas não sabem que saí e é melhor que fiquem assim. Quantas menos pessoas contactarmos mais fácil será, até para não terem que mentir por nós. Vamos embora amanhã, o mais rápido possível.
- Como vamos para Madrid mãe? De avião?
- Não, de comboio. Assim os registos só terão informação duma Rosa e dum Luís a partir de Madrid.
- Mãe, vou já telefonar p’ró tal número a dizer que vamos amanhã e...
- Espera... não telefones do teu telemóvel, vamos aos Correios.
- Porquê? Os Correios estão fechados hoje...
- Porque é mais seguro... filho, tu já te apercebeste da dimensão daquilo que vamos fazer?
- Sim mãe, eu...
- Espera, deixa-me falar... bem sei que uma viagem ao Peru, é qualquer coisa muito atractiva, mas nós não vamos de férias, nós vamos clandestinamente, com nomes falsos – e aqui baixou a voz, como se pudessem estar a ser escutados – e nem sabemos quando voltamos, mas uma coisa é certa, o teu pai vai pôr a polícia do mundo inteiro atrás de nós... todos os cuidados são poucos e a tua tia dá-me todas as indicações para não confiar em ninguém.
- Tens razão mãe, tens razão... mas como temos que telefonar com 24 horas de antecedência, vamos ver a que horas são os comboios e vamos marcar tudo o mais depressa possível.
Abriu o computador portátil, entrou na página da CP e viu que o Lusitânia saia de Lisboa diariamente às 22.30 e chegava a Madrid às 8.58h.
- Mãe, só há comboios de noite, temos que dormir no comboio. Temos dinheiro, não podemos ir de táxi? Quanto será ir de táxi até Madrid?
- Nem pensar! Com toda a facilidade falavam para as empresas de táxis e em três tempos descobriam o taxista que nos levou a Madrid!
- Oh mãe e se tu pedisses à Lena? Ela não nos levava sem dizer nada?
- Levava filho, tenho a certeza, mas já te disse que é melhor não meter ninguém ao barulho... Olha, vê aí os aviões para Lima.
Paulo começou a pesquisar mas de repente disse:
- Mãe, não é melhor telefonar primeiro?
- Sim tens razão, mas não do teu telefone...
- Tenho uma ideia: vou comprar um cartão de telefone e ligamos desse número, o que achas?
Perante a anuência da mãe, Paulo saiu de casa e foi ao Centro Comercial fazer a compra. Ela ficou em casa agarrada às estantes à procura de algum exemplar do tal livro que a irmã lhe falara, O Ingénuo. Podia não ser nada, mas já agora, era melhor ter a certeza e, se tivesse o livro em casa, tanto melhor.
Paulo regressou com dois sacos com caixas de comida já pronta.
- Mãe, para não termos que sair de casa, comprei comer. Não sabia bem o que trazer e então optei por bacalhau com natas e entrecosto com arroz de feijão e uma sobremesa.
Sopa, feijão, arroz, frango, carne à jardineira e muito peixe frito, tinham sido a base da ementa dos últimos anos. Muita fruta onde as pêras eram rainhas e os pêros estavam sempre presentes, apesar dela teimar em pedir a todas que lhe chamassem maçãs porque vinham das macieiras e não dos pereiros. Sobremesas só no Natal, quando havia também bolo-rei, umas filhoses e mais nada. Espreitou o interior do saco, sorriu ao filho, foi buscar uma colher, destapou uma das tacinhas e comeu o tiramisu com prazer. O filho riu-se, fez o mesmo e só depois da sobremesa comida é que jantaram. No final da refeição, o rapaz disse:
- Mãe vou fazer o telefonema.
Trocou os cartões de telefone, ligou, deu as referências dos bilhetes e do outro lado disseram que tinham lugares já no dia seguinte no voo das 13 horas locais.
- Um momento por favor – pediu o rapaz e virou-se para a mãe
- Dizem que pode ser já amanhã, saímos à uma da tarde e chegamos lá à uma da manhã. O que achas?
- Amanhã? Mas ainda precisamos de chegar a Madrid e... olha, pede para confirmares daqui a bocado.
Paulo fez como a mãe lhe pedia e quando desligou o telefone disse:
- Mãe, ainda estamos a tempo de apanhar o comboio de hoje. Chegamos lá cedo e a horas de apanhar o avião! Na boa!
Sorrindo ficou à espera que a mãe comungasse do seu entusiasmo, e a mãe começou a fazer contas:
- Paulo, afinal para onde vai o pai? Nem fiquei a saber...
- Eles vão para a República Dominicana, o avião saí amanhã às 8 da manhã e chegam lá às 6 da tarde. Mãe, é perfeito, ‘tás a ver? Quando eles saírem daqui no avião já nós estamos em Madrid. Mãe...
A mãe tinha o coração aos saltos no peito, a respiração ofegante como se tivesse corrido e sentia-se desconcentrada com tanta informação.
- Que horas são? Perguntou devagar quase a medo.
- Sete e meia... apanhamos um táxi a vamos apanhar o comboio a Santa Apolónia. Mãe... se for assim, depois de amanhã estamos com a Tia Teresa...
A mãe suspirou e não conseguiu evitar começar a chorar. Ia mesmo? Ia mesmo levar o filho de acordo com as indicações da irmã? Sabia que no momento em que saísse de casa tudo seria irreversível. Ia ou não ia? Não podia pedir conselho ao filho pois já sabia o que ele ia responder. Meu Deus, ajuda-me, pensava com o coração a bater aceleradamente. E se as pistas das cartas fosse tudo imaginação da sua cabeça e não passassem duma loucura de quem acumulou saudades ao longo de três anos? A dúvida mantinha-se mas a confiança falou mais e disse:
- Está bem... mas vamos fazer as coisas com precaução. Liga já outra vez e pergunta se podemos de certeza ir amanhã a essa hora. Se pudermos, vamos apanhar dois táxis: eu apanho um ali em baixo à porta do centro comercial e tu apanhas outro ao pé da igreja, vais ter que ter paciência e vais a andar até lá e...
- Na boa mãe!
- Depois cada um compra o seu bilhete no comboio
- Mas mãe, assim não podemos ir juntos e são muitas horas e...
- Calma, podemos sim... eu já explico como. Vá, liga lá e confirma que eu vou ali arrumar umas coisas.
Paulo, utilizando o novo cartão que tinha comprado para o efeito, confirmou as marcações ao telefone, desligou e a mãe ouvi-o a falar novamente:
- Boa noite, eu estou atrasado para apanhar o Lusitânia e não tenho bilhete. Sabe dizer-me se ainda há lugares?
- ...
- Hã... não sei, um qualquer.
- ...
- E tenho que comprar o bilhete até que horas?
- ...
- Obrigada, boa noite.
- Mãe, têm bilhetes, disseram para comprarmos o mais depressa possível e perguntaram se era sentado ou com cama...
- Senta-te aqui e ouve-me com atenção: a Tia disse para não levarmos roupa por isso leva o essencial. Sais daqui, apanhas o táxi onde eu disse, sais em Santa Apolónia e compras um bilhete com cama, mas ida e volta, percebes? Eu faço o mesmo e compro outro e depois a meio da noite um de nós muda. Vamos embora.
- Ida e volta?
- Sim, assim levanta menos suspeitas, pedes a volta para daqui a dois dias.
Abraçaram-se e Paulo carregou o portátil na mochila e foi buscar outra mochila com roupa que tinha trazido da casa do pai e começou a tirar peças de roupa para fora.
- Levo as calças que tenho vestidas, mais duas t-shirt’s e dois boxeurs, achas bem?
- E o blusão de ganga que trazias.
- Sim, tásse bem mãe – respondeu com um sorriso de orelha a orelha.
A mãe meteu duas mudas de roupa interior, um casaco leve e um par de ténis que comprara no dia anterior. A calças eram novas e iam durar a jornada inteira tal como as do filho.
Fecharam a porta à chave e saíram agindo tal como tinham combinado. Porém, quando entrou no carro, pediu para ir em direcção à casa do marido. Escrevera-lhe um bilhete como se tivesse sido escrito uma semana depois, no dia da chegada de Francisco de férias, e meteu-o na caixa do correio da casa ao lado. Rezava para que o vizinho pensasse que tinha sido engano e o colocasse no sítio certo sem comentar o dia em que o tinha recebido. Como no dia seguinte se levantariam muito cedo era altamente improvável que o vizinho lho entregasse imediatamente. Assim, quando regressasse leria o bilhete que dizia sumariamente que tentara falar-lhe e que o telefone desligado não o permitira, comunicando-lhe também que iria ‘passear’ com o filho e logo que possível, dariam notícias.
Como tinha tido o cuidado de pedir ao taxista que parasse uma rua antes daquela onde Francisco morava, foi a pé até à outra rua, em sentido contrário e aí apanhou outro táxi em direcção a Santa Apolónia. Levava consigo quase 500 euros, um saco com meia dúzia de coisas, entre as quais as fotografias mas onde já não constava a de Francisco, e algo lhe dizia que se ia passar algum tempo até regressar de novo.
As viagens de táxi eram angustiantes como quase tudo desde que saíra da prisão. Pensava se apareceria alguma operação stop, se o táxi tinha um furo, tudo lhe passava pela cabeça e não perdia aquela sensação de estar a sonhar.
Quando chegou à estação agiu como combinado; não viu o filho mas pensou que ele devia andar por ali, cumprindo a combinação e não se aproximando; dirigiu-se à bilheteira e registou com agrado que havia fila na bilheteira. Óptimo, assim não seria notada.
Pediu uma cama e o homem perguntou-lhe em que classe, enumerando as disponíveis. Decidiu-se pela turística pensando que devia ser a que levava mais gente e era mais um passo para não darem por ela.
Viu que faltava um quarto para as dez, foi beber um café e comprou uma mão cheia de revistas, tal como viu fazer a outros passageiros. Tanto tempo sem ler coisas frescas, mesmo que fossem sobre o jet set nacional ou sobre as novelas que não via há séculos, criaram-lhe uma perspectiva agradável. Sentia uma euforia interior por poder fazer o que lhe apetecesse, mesmo que fossem coisas simples, como entrar num bar e pedir um café.
Não via Paulo em lugar algum e começou a ficar de tal forma nervosa que sentiu vontade de vomitar, uma vontade que não conseguiu controlar e dirigiu-se à casa de banho da estação. Quando ia a entrar, saiu um polícia, o que a deixou pálida de tal forma que o homem perguntou-lhe se se sentia bem. Respondeu que sim, mas que acabava de chegar e costumava enjoar no comboio. O homem deixou-a entrar na casa de banho, onde lavou a cara e imediatamente se sentiu melhor. O filho andava por ali e devia estar preocupado de não a ver. Olhou-se profundamente ao espelho e pensou Tu tens coragem para isto e para muito mais. Aguentas-te três anos naquele sítio, aguentas tudo. Não conheces o motivo pelo qual aqui estás nem porque vais fazer o que vais fazer, mas há uma razão forte e brevemente vais ficar a conhecê-la.
Saiu da casa de banho e dirigiu-se à gare. Continuava sem avistar o filho, mas entrou no comboio. Acabou por sair novamente pois a carruagem não era aquela e um dos revisores encaminhou-a para a carruagem certa. O comboio era enorme e levariam algum tempo a encontrar-se; ia deixar que começassem a andar e ia procurá-lo. Deitou-se na cama da pequena divisão que lhe serviria de quarto nessa noite e fechou os olhos, com o coração a bater descontroladamente e a sensação de náusea ainda presente. Acordou estremunhada com o revisor a bater-lhe à porta e a pedir-lhe o bilhete. Sentiu o andamento do comboio e perguntou:
- Onde estamos?
- A chegar ao Entrocamento.
E o Paulo? Onde estava? Teria perdido o comboio? Teria desistido? Sentiu um nó no estômago, mostrou o bilhete, e quando o revisor ia sair, baixou-se, apanhou um papel e perguntou:
- Isto é seu?
Tirou o papel das mãos do homem, que avançou de couchete em couchete e pensou que estava farta de cartas por baixo da porta. Quando leu sorriu.
Mãe
Quando acordares vai ter comigo ao bar do comboio. Só o apanhei na estação do Oriente pois assim nem sequer entrámos na mesma estação
Bjs

Suspirou de alívio. O filho estava no comboio. Agarrou na mala de mão e foi avançando à procura do bar. Avistou Paulo assim que entrou, mas verificou que ele estava acompanhado por um casal estrangeiro. Pediu um chá e uma torrada e, como todas as mesas estavam ocupadas, dirigiu-se à do filho e perguntou se se podia sentar ali. O rapaz fez o papel na perfeição, disse que sim e continuou de conversa com o casal de espanhóis. Finalmente lá se foram embora e ele disse que assim que entrara fora procurá-la, mas encontrara-a a dormir, motivo pelo qual se viera ali sentar e lhe deixara o bilhete.
- Já estou um bocado farta de bilhetes e de cartas. Ansiei por elas durante três anos e agora em dois dias recebo mais correspondência que o Pai Natal...
O filho riu-se da comparação e a mãe continuou:
- Paulo, estou muito nervosa... estaremos a fazer bem?
- Calma... está tudo bem e vai correr tudo bem... vamos deitar-nos e quando acordarmos estamos em Madrid.
A carruagem bar estava meio vazia e lá foram aos tombos até à cama dela.
- Não sei se vou conseguir dormir...
- Eu fico aqui até adormeceres mãe. Olha e amanhã quando chegarmos à estação?
Ela não parava de suspirar e sentiu novo aperto no peito: ainda nem tinha pensado nisso. A estação seria longe do aeroporto? Bem, tinha ouvido dizer que o aeroporto de Lisboa era o mais próximo do centro da cidade de todas as capitais da Europa logo, partindo do princípio que a estação seria no centro da cidade, o aeroporto não devia ser perto da estação.
- Fazemos da mesma maneira: cada um apanha um táxi diferente e encontramo-nos lá.
- Olha eu estive a perguntar aqueles dois como ia para o aeroporto e eles disseram que de metro não chega a meia hora. Tu podias ir de táxi e eu de metro, o que achas?
- De metro? E se te perdes? Se há um atraso, uma avaria, sei lá...
- Mãe, não vamos pensar nisso... mas eu acho melhor. Olha outra coisa, nos passaportes diz que somos brasileiros, não era melhor começarmos a treinar?
Enquanto dizia isto imitava o sotaque brasileiro e conseguiu arrancar um sorriso à mãe. Combinaram tratar-se desde já pelos novos nomes, embora ela tivesse reticências sobre a utilização do sotaque.
Paulo ficou com a mãe até ela adormecer e só depois se foi deitar.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A rapariga que não gostava de livros com capas dobradas - XII

Minha querida Irmã

Finalmente és livre de novo. Nem imaginas a nossa alegria...
Lamentamos não vos poder ver já, mas vamos fazer os possíveis para ir ao teu encontro em breve.

À medida que lia estas palavras ia chorando pela emoção da carta em si e a constatação que não se iriam encontrar tão depressa criou-lhe uma amargo na boca que a obrigou a baixar o tom de voz da leitura. Mas onde estaria esta gente que não aparecia, pensava ela com alguma raiva de permeio, continuando a ler.

Tudo isto parece saído da pena do nosso adorado Robin Cook.
Já viste as fotografias dos teus sobrinhos? Mandei duas ao Paulinho, pois ele também não os conhece. Devemos-te uma explicação sobre o motivo do nosso afastamento do Francisco. Não te vou esconder nada: ele nunca acreditou na tua inocência e garanto-te que só não trouxemos o Paulinho porque ele é pai dele e não deixou. Mas agora tudo será diferente, embora ainda tenhamos que ser filhos dum Deus menor. Por favor não faças nada que possa prejudicar-te e mantêm-te sossegada e calma. Adorávamos presenciar o teu reencontro com o Paulinho, que deve estar enorme e já não deve brincar com o Pinóquio nem gostar de ler estórias do Zé Carioca.
Não posso deixar de te dizer que descobri uma pérola!
Provavelmente já a manuseaste e já te deu as mesmas delícias que me tem dado e iguais ou semelhantes gargalhadas. Chama-se O Ingénuo e vem da pena de Voltaire logo, é coisa recente, dada à estampa com certeza absoluta durante estas tuas ‘férias’, aproveitando a tua ausência... não tem mais que meia dúzia de páginas e conta uma história fabulosa onde cada palavra se identifica com crítica social e grita bem alto, como um xis na janela.
Não me alongo mais, desejo que o nosso reencontro seja em breve para te ver e te abraçar.
Conforta-te a ler a Bíblia e recebe beijos de muito amor e confiança de todos nós.
T.

Ainda não tinha terminado a leitura da carta e rebentou num pranto enorme, acumulado, misturado de saudades incríveis e de uma enorme confusão. A carta era estranhíssima mas o facto da irmã ter mencionado um qualquer livro que lera mostrava-lhe que para ela tudo era como antes e que nada mudara. À memória vieram-lhe momentos que até à leitura da carta lhe pareciam ter acontecido há várias eternidades e agora, de repente, pareciam ter sido ontem, de cumplicidade com aquela irmã, que lhe manifestava o seu amor daquela forma. Por outro lado, não sabia o que pensar da irrealidade de tudo aquilo, era da sua cabeça ou havia uma carta secreta dentro daquela carta, escrita com palavras cujo sentido só ela entendia?
O filho abraçava-a e ela não conseguiu esconder-lhe o que pensava e depois de ter limpo as lágrimas novamente disse:
- Esta é a carta mais estranha… para começar, nós detestávamos Robin Cook, ao contrário do que ela diz, ou seja, primeira mentira. Depois, nova referência aos filhos dum Deus menor, o que quer dizer que me está a mandar ficar calada. Depois, o Pinóquio e o Zé Carioca… dois mentirosos inveterados…
- Mãe, as coisas que tu vês numa simples carta… e que mais?
- Para finalizar, isto se não me está a escapar nada, o xis na janela, que significa que eu devo confiar… mas confiar em quê e em quem?
- Não sei mãe… acho isto tudo muito estranho…
- Escreve claramente para eu ficar sossegada e depois enche a carta de pistas que me indiciam mentiras! Mas a tua tia estará bem de saúde…? – disse, enquanto lhe passava pela cabeça que a irmã pudesse ter enlouquecido – Até me pede para ler a Bíblia!
- E esse outro livro de que ela fala?
- O Ingénuo? Não sei o que é...
- Teremos isso cá em casa mãe? Se calhar quer-te dizer qualquer coisa... tens a certeza que não o leste?
- Absoluta! Por uma simples razão, é que se eu o tivesse lido, ela lembrava-se; mas tens razão, lá dentro pode estar qualquer coisa, mas agora deixa-me reler isto tudo outra vez.
Enquanto se voltava a sentar no sofá poeirento o filho levantou-se como se o assento não aguentasse duas pessoas ao mesmo tempo e quando um se sentasse o outro tinha que se pôr automaticamente em pé. Dirigiu-se a uma das estantes e perguntou com pressa na voz:
- Mãe, temos uma Bíblia cá em casa, certo? Onde está?
- Onde está… onde está? – respondeu a mãe levantando-se novamente e começando à procura da Bíblia pois mesmo sem terem dito nada, ambos pensaram o mesmo, e foi com uma enorme excitação que tiraram o grosso volume encadernado a castanho duma das prateleiras e nem queriam acreditar quando viram cair de dentro dele um envelope.
Rasgaram-no apressadamente e ficaram estupefactos ao encontrarem dois passaportes com nomes falsos – ao lado das suas fotografias estavam os nomes de Rosa e Luís, de naturalidade brasileira - indicações para ir até Madrid, aí apanhar um avião e não levar bagagem. O cartão com estas recomendações era de pequenas dimensões e estava escrito a computador. Por cima tinha uma fita-cola transparente a fazer um xis.
Agora não tinha dúvidas, a sua irmã, a sua família toda tinham enlouquecido! Teriam ficado tão perturbados com a sua prisão que tinham perdido o juízo? Mas que loucura era aquela? Ela tinha saído da prisão no dia anterior e já lhe tinham posto em casa um passaporte falso? E o filho? O Paulinho era menor… mas estavam todos malucos, ou quê?
Paulo andava atrás dela a acalmá-la mas parecia não ter qualquer efeito tranquilizante sobre a mãe que, ora ria ou chorava, lamentando a sua pouca sorte.
- Querem matar-me do coração? Será isso? – os olhos quase lhe saltavam das órbitas com o espanto de tudo aquilo – Eu que resisti a três anos de cadeia, agora saí para isto…?
-Mãe, mãe olha só… – dizia o filho com um dos passaportes na mão – nasci em 1992! Sou maior! Este passaporte diz que tenho 18 anos!
Mas a mãe não o queria ouvir, era emoção de mais para um dia só, o pequeno almoço do dia anterior fora tomado numa prisão, tinha saído dela pela porta principal com cumprimentos das guardas e desejos de boa sorte, soubera que o mundo que deixara cá fora estava virado do avesso e agora ainda isto? Que raio de brincadeira de mau gosto vinha a ser toda esta história?
As cartas dirigidas ao filho cheias de pistas, a carta dirigida a si própria – e metida debaixo da porta! – cheia de sinais de mentiras! Os documentos falsos e as indicações para fugir do país, raptando o seu próprio filho? Mas onde estava aquela gente com a cabeça? Saberiam o que era estar-se preso? Porque razão lhe indicavam que agisse de forma a voltar para a cadeia? Eram demasiadas perguntas sem resposta, isto sem falar do facto indiscutível que estavam a ser vigiados ou seguidos, caso contrário como lhe eram entregues as cartas e como lhe tinham posto o envelope dentro da sua própria Bíblia? Ela é que fora presa, acusada de ter traficado droga, mas aqueles comportamentos eram dignos duns mafiosos quaisquer! Em que se teria metido a sua família?
Estava tão absorvida por toda aquela loucura que quando o telemóvel do filho tocou, deu um grito e dois passos atrás, assustada.
- Calma mãe… é só o telefone – tranquilizou-a o filho.
- Olá pai
- …
-Sim, está tudo óptimo… levantámo-nos agora
- …
- Não pai… eu fico aqui com a mãe.
- …
- Pai, ouve-me por favor… eu não vou de férias contigo, vou ficar aqui com a mãe – e levantando a voz acrescentou – e não vamos discutir pai, por favor, hoje não…
- …
- Tá pai… tá… daqui a pouco vou a casa
- …
- ‘pa ti também.
O rapaz desligou e abraçou a mãe.
- Mãe, acho que a tia quer que tu deixes a carta aqui para se alguém a ler, pensar que ela te aconselha a fazer tudo direitinho… não achas?
- Paulo… não acho nada… diante disto tudo estou incapaz de achar seja o que for…
- Olha, vamos comer, sim? – disse-lhe o filho para a acalmar -Vamos a uma pastelaria nova que abriu há uns meses e tem uns pães com chouriço divinais. Vamos esquecer esta história toda por uma hora, mãe…
A mãe nem conseguia sentir o bem estar com que sonhara que seria a primeira noite fora da prisão, sem barulhos, sem toques para o pequeno almoço, sem guardas e sem tabuleiros e louça de metal. Sentia que tinha sido pisada por uma manada de elefantes e achava impossível esquecer fosse o que fosse, porém a fome falou mais alto. Antes de saírem ainda pensaram o que fazer com as cartas e com os passaportes, manifestando uma certa inquietude pelo facto de alguém ali ter entrado, pois era óbvio que isso tinha acontecido e, à falta duma ideia melhor puseram tudo na mochila de Paulo e levaram-na com eles.
Não se cansava de pensar na referência ao xis na janela, sinal indiscutível que devia confiar, e que vinha dos tempos em que viam os Ficheiros Secretos, bem como a necessidade de segredo absoluto, dada pela indicação dos filhos dum Deus menor, cuja acção se centra numa rapariga muda.
A sua saída da prisão coincidira com as férias escolares e passou-lhe pela cabeça agarrar no filho e meter-se no avião, sem dizer nada ao – ainda – marido. Depois pensou que viriam atrás dela uma vez que o filho era menor e que passaria o resto da vida na prisão, não, não, não, não podia embarcar naquela loucura, tinha que seguir as indicações expressas na carta, esquecendo as entrelinhas, os passaportes e tudo o resto. Por outro lado, a sua família era tudo para ela e a ideia duma aventura assim, de mão beijada, não deixava de a atrair, tanto mais que o filho não se calara um segundo incentivando-a a aceitar.
- Mãe, é fácil... o pai vai agora de férias e eu fico contigo... quando ele for embora, nós também vamos e tu podes dizer que lhe telefonaste e ele nunca atendeu.
- Tu estás tão doido como a tua tia, o teu tio e os teus avós!- respondeu-lhe ela, abrindo-lhe os olhos pela primeira vez.
- Mãe, tu própria viste as pistas que ela te deixou, leste as cartas dentro das cartas… por favor, deve ser qualquer coisa muito importante… temos que ir… mãe…
- Vamos dizer ao teu pai que ficas comigo esta semana. Não quero falar daqueles doidos agora.
Paulo ouviu então mil pedidos e recomendações de segredo absoluto sobre tudo aquilo, mesmo ao amigo mais próximo que ele jurou cumprir.
Enquanto o filho falava ao telefone com um amigos, e antes ainda de ir a casa do pai buscar roupa e reafirmar que não viajaria no dia seguinte com a sua nova família, ela deteve-se a pensar como é que a irmã, cuja última actividade que lhe conhecera era entregar correio numa agência de publicidade, tinha dinheiro para estas coisas, e que contactos mantinha para mandar fazer, por exemplo, passaportes falsos. O que teria acontecido em três anos que ela ainda não sabia?
Era sábado. Durante três anos pouca importância tiveram os dias da semana, à excepção de domingo onde, quem queria ouvia missa. Foi com o filho e ficou a saber onde era a casa nova de Francisco, que reagiu tal como ela esperava: fez um pé de guerra à porta da sua nova bela casa, onde não lhe foi franqueada a entrada, insistindo que o filho não ficaria com ela, nunca na vida, e ela pensou que iria novamente para a prisão, não por passar droga mas por homicídio do próprio marido.
Paulo berrou e gritou e ameaçou com mil argumentos incluindo que fugiria na primeira oportunidade se o pai não o deixasse ficar com a mãe.
- Uma noite, uma noite só e já lhe fizeste a cabeça, não foi?
Francisco destilava raiva e olhava-a com os olhos semicerrados.
– Pai, a mãe não...
- Cala-te! Já disse que vens comigo e não ouço nem mais uma palavra.
- Paulo, vai a casa por favor e deixa-me falar a sós com o pai por favor.
O rapaz olhou os dois com as lágrimas a rebentarem-lhe pela cara abaixo, ainda hesitou, abriu e fechou a boca, mas lá deu meia volta e deixo-os sós.
- Francisco, eu sei que tu... – começou ela.
- Tu não sabes nada! Tu não sonhas o que é que eu passei nestes anos, eu e o Paulo! Tu não imaginas o que foi lidar com as pessoas, com mil perguntas, com sorrisos fingidos a dizerem ‘Coitadinho’, por ironia, aquela palavra que tu odeias! Tu não sabes nada...
- Francisco, posso falar?
- Não, não podes... acabaste de sair da prisão, ele é teu filho, é verdade, mas não vais ficar com ele, nem hoje nem em tempo algum. Olha bem para ti... não tens trabalho, a tua família abandonou-te, não tens do que viver, vais fazer o quê? Escrever um livro sobre a vida na prisão e esperar que renda e viver disso? O meu filho vai comigo de férias como estava planeado e se tu gostas dele, se amas o teu filho, o bom senso diz-te para fazeres como eu digo, pois sabes que eu tenho razão.
As lágrimas corriam-lhe pela cara misturando a tristeza com a confusão de sentimentos, emolduradas por uma gigantesca desilusão.
- Francisco, tu sabes o que foram para mim esta longa sucessão de meses? Tu consegues ter uma pálida ideia ao menos? Não consegues, tu...
- Deixa-te de...
- Não te interrompi! Ouve-me agora a mim e não mais teremos que falar! Não quero nada de ti, nada! Mas o Paulo é meu filho e tem 16 anos... se formos a tribunal, o meu bom comportamento vai ser tido em consideração e vai prevalecer porque eu sou mãe! Vão perguntar-lhe com quem é que ele quer ficar... eu vou estar empregada, sim porque eu vou começar a procurar hoje já e ainda há pessoas boas que me darão emprego, e ele vai dizer que quer ficar comigo! E ainda há outra razão para ele ficar comigo: ele sabe e acredita do fundo do coração na verdade: eu sou inocente, coisa que tu nunca questionas-te porque me deste logo a sentença, ainda antes do juiz! Por isso Francisco, se não queres uma guerra para a vida, e eu faço-ta até depois da eternidade, deixa o Paulo ficar comigo! Deixa o Paulo escolher!
O marido não a olhava de frente, cerrava os dentes na direcção do infinito, com vontade de lhe bater. Se fora declarada culpada, é porque havia motivos para isso e agora, depois das dificuldades que ele tinha tido durante aqueles anos, a educar e a tomar conta do filho, como é obrigação dos pais, ela aparecia e estragava tudo? Por outro lado, ele sabia da teimosia dela quando metia uma coisa na cabeça e os mesmos anos que ele vivera só com o filho, a tentar domar-lhe o espírito rebelde, parecido com a mãe, sempre com respostas na ponta da língua como se o pai fosse culpado de eles estarem na situação em que estavam, ela tivera tempo para pensar o que faria se isto acontecesse. Além disso, o filho, só para o chatear, era bem capaz de fugir de casa ou fazer disparates ainda maiores. A sentir uma raiva enorme, mas sem querer ceder, disse:
- Deixa-me falar com a Adelaide, que...
- Com quem? Tu estás bêbado? A vida do meu filho não é discutida com outras pessoas sem ser o pai ou mãe! Decide-te aqui e agora!
- Vê como falas... enquanto estavas a cumprir aquilo que o tribunal determinou – e Francisco carregava e a arrastava as palavras para as fazer doer ainda mais – ela ajudou-me e muito e ajudou o Paulo... se ele te contar a verdade, já que dizes que ele acredita na verdade, ele vai-to contar.
- Não digo o contrário, apenas te reafirmo que ninguém decide por nós e por ele: só nos três.
Ficaram em silêncio uns momentos, Francisco virou-se de costas, fechou os punhos e baixou a cabeça. Olhou na direcção da sua casa e viu Paulo encostado à ombreira, à espera do fim da conversa entre os pais. Acenou-lhe com um braço, fazendo-lhe sinal para que se aproximasse e disse:
- Paulo, ouve e não me interrompas: ficas com a tua mãe mas quando eu voltar, vamos ao tribunal e eu vou pedir para ficares comigo e...
- Mas pai eu...
- ESCUTA-ME! Se queres ficar em Portugal esta semana é assim e eu confio em ti para cumprires este acordo quando eu vier. Vamos esperar que a tua mãe encontre trabalho, que estabilize a vida dela e depois, depois logo se vê novamente... entretanto já tens dezoito anos e depois então decides o que...
- Pai! Vou esperar dois anos?
- Ou é assim ou... – Francisco levantara a voz e ela decidiu intervir.
- Ouçam-me –e virando-se para o filho – Paulo, vamos fazer assim como o pai diz, vamos passar esta semana juntos, vamos conversar os dois e voltamos a falar com o pai quando ele vier. Está bem assim para todos?
Para Francisco não estava nada bem, mas lá condescendeu deixar o filho com a suposta passadora de droga, exigindo mil garantias e expondo repetidamente o desgosto e a vergonha por que tinha passado por culpa dela, bem como a serenidade da sua vida actual, coisa que ele não ia permitir que uma ex-presidiária lhe roubasse. Ela ainda se riu interiormente e pensou que fora presa sim, mas nunca acusada de roubo e que mesmo que lhe roubasse alguma serenidade, ele tinha-a para dar e vender, pensou tudo isto, mas nada disse, com receio de que ele voltasse atrás na sua decisão e estragasse os planos todos. Calou-se com um nó gigante na garganta ajudado pelos papéis que ele lhe entregava e onde pedia o divórcio.
- Queres que assine já?
O silêncio dele dizia-lhe que podia ler e que os esperava assinados quando regressasse uma semana depois, duma viagem que ela adivinhava guiada por alguém com um bandeirinha na mão, ou um chapéu de chuva, dependendo do tempo e do lugar para onde iam, com o rebanhinho todo atrás em ordeira filinha.
Despediram-se com a ligeireza fria duns adeuses rosnados e Paulo disse ao pai:
- Eu ligo mais tarde...
- Não, não ligas, tu ficas aqui comigo o dia de hoje! Temos que conversar os dois sozinhos sobre a lavagem ao cérebro que ela te vai fazer.
Ouviu aquilo e sentiu perder a força dos braços. A onda de lágrimas que quis invadir-lhe os olhos foi travada por uma onda enorme de revolta e de humilhação. Beijou o filho em silêncio e afastou-se a passos largos em direcção a casa, sem vontade de visitar fosse quem fosse.
Francisco passou o resto do dia com o filho a orientá-lo sobre o que devia fazer na sua ausência e a acautelá-lo sobre a mãe pois as pessoas quando saem da prisão vêm com certos vícios, paranóias e manias. Garantiu-lhe que teria o telefone ligado 30 horas por dia e exigiu-lhe que lhe ligasse à menor coisa, para além do telefonema diário que ele próprio faria para o telemóvel do filho. Adelaide, a sua companheira, ainda tentou demover Paulinho, falando-lhe da maravilhosa estância de férias para onde iriam e prometendo-lhe comprar este mundo e o outro, tendo obtido tanto sucesso como um palhaço num cemitério. Jantaram cedo e Paulo conseguiu que o pai o levasse a casa da mãe, onde esta o esperava com maior ansiedade do que tinha sentido para sair da prisão.
Nessa noite, o filho chorou intensamente e contou-lhe que houve momentos muito difíceis e que logo no primeiro ano tinha passado na escola graças a uma professora que o ajudara muito pois, caso contrário, teria chumbado. A mãe ia acariciando-lhe a cabeça de forma terna e dizendo-lhe que tudo fazia parte do passado. Mas o miúdo tinha uma pergunta, entre muitas, que o queimava:
- Mãe… achas que ficaste com as culpas de alguém que tu conheces?
- Não sei... não sei nada... e agora não quero saber, não quero pensar nisso... na prisão não há muito tempo para pensar ao contrário do que te possa parecer... temos tarefas distribuídas e chegava ao fim do dia cansada... só com tempo para pensar em ti, mais nada. Alguém da agência falou convosco?
- A D. Elizabete é quem telefona sempre... manda beijinhos e diz-me que se precisar de alguma coisa que lhe diga.
- Ai a D. Elizabete...
- Mãe, ela até me dá prendas nos anos e no Natal e eu... bem, eu até pensei que ela...
- Ela o quê? – quis saber a mãe
- Bem, eu até pensei que ela fazia isto como uma forma de... uma forma de se desculpar...
- Oh filho, não acredito nisso- disse ela percebendo o raciocínio do filho. – A D. Elizabete não está metida em nada, além disso, ela sempre te deu prendas no Natal e nos anos, verdade?
Conversaram ainda por bastante tempo, vendo e revendo as fotografias de Santiago e Elena, tiradas num fundo com cenário de árvores e floresta, tão bonito que parecia verdadeiro. Finalmente, o filho adormeceu e ela sentou-se a fumar, com as palavras de Francisco dirigindo-se ao filho a ecoarem-lhe na cabeça “Temos que conversar os dois sozinhos sobre a lavagem ao cérebro que ela te vai fazer” e imaginando a conversa que teriam tido sobra a qual o rapaz nada dissera. Olhou a papelada que a irmã lhe enviara. Um envelope com mil euros, um cartão com o nome de alguém que os esperaria no aeroporto – Manuel Vega – e dois bilhetes de avião para Lima, a partir de Madrid, sem data marcada. Vinha também a recomendação da necessidade de telefonar para determinado número a informar que viajariam com, pelo menos 24 horas de antecedência.
Lima. Então eles estavam mesmo no Peru.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A rapariga que não gostava de livros com capas dobradas - XI

Paulinho querido
Nunca esqueças que mesmo em dias carregados de nuvens, o sol está lá atrás sempre presente, não nos abandona e mesmo que não o vejamos ele dá-nos vida. São palavras da tua mãe, deves tê-las ouvido muitas vezes, e tens que acreditar nelas. Por mais bêbeda que esteja a casinha, o resultado final vai ser feliz.

- Olha isso aí... não percebo o que isso quer dizer...
- A casinha bêbeda? – perguntou a mãe a quem as lágrimas caiam pela cara baixo.
- Sim. Isso quer dizer o quê?
- Espera que já te explico...

A tua mãe está inocente e nem que demoremos vinte anos vamos provar isso. Sabes que queremos muito estar contigo mas agora não é possível. O teu pai gosta muito de ti e tens que o perdoar quando ele se arrepender de não ter acreditado na tua mãe.
É importante que dês a ler o que te mando à tua mãe logo que ela esteja contigo.
Não te esqueças de comer um pãozinho de leite todos os dias e...

- Oh mãe... eu nem gosto de pão-de-leite! E ela sabe isso... – interrompeu o rapaz.
- Espera filho – respondeu a mãe, para quem aquilo fazia sentido e continuou:
Não te esqueças de comer um pãozinho de leite todos os dias e estuda muito, bem sabes que a escola é a coisa mais importante.
Recebe beijos e abraços muito fortes de todos nós e rios não poluídos de saudades
TT

- Atão mãe...?
- Espera... dá-me outra... explico tudo no fim – disse-lhe a mãe ainda digerindo o TT de Tia Teresa e adoçando a ponta dos dedos sob a fonte arial, mas imaginando a caligrafia redonda e perfeita da irmã.

Paulinho querido
Ou será só Paulo? Deves estar enorme...mas garanto-te uma coisa, não estás maior do que as saudades que temos de ti...
Esperamos que a escola vá bem e que te apliques, sabes como isso é importante para o futuro e como a tua mãe deve pensar nisso. O tempo vai passar depressa e brevemente estaremos juntos de novo. Adorava saber que leituras fazes, se já leste Júlio Verne e se o trauteias.

- Mãe... quem é que trauteia Júlio Verne?
A mãe não conseguiu evitar uma gargalhada e continuou:

Deves ler também autores estrangeiros e aconselho-te as Vinhas da Ira, dum autor americano chamado John Steinbeck. Como é um bocado pesado podes compensar vendo um filme divertido, por exemplo o Beijo Francês. Garanto-te que te vais rir.
A fotografia que enviamos é do Santiago, teu primo, com quem esperamos que tu te dês muito bem.
Os avós mandam galáxias de beijos e nós também.
TT

Paulo estendeu-lhe outra dizendo:
- A seguir foi esta.

Querido Paulinho
(vais ser sempre Paulinho até aos 100 anos)
Já namoras? Deves estar um rapaz fantástico e andar por aí a partir os corações das miúdas lá da escola, temos a certeza! Imagino-te como se fosses uma maravilha do mundo, a mais alta, a mais cultivada, a melhor. Todos os dias abrimos os braços como se fossem asas de desejos, para te abraçar e damos graças por faltar cada vez menos tempo para nos voltarmos a ver e temos a certeza que a ânsia da tua mãe por fazer o mesmo é enorme e calorosa, como o continente africano de que ela tanto gosta. Por falar nisto, já viste um filme que se chama África Minha? Tem paisagens encantadoras e conta uma história muito bonita. Não percas a oportunidade e vê-o e quando estiveres com a tua mãe conversam sobre ele.
Tem força Paulinho, que isto está quase a acabar e vamos encontrarmo-nos em breve.
Triliões de beijos e saudades
TT

Demoraram imenso tempo a ler dez cartas, pois ela leu algumas três e quatro vezes, a pensar se não lhe estaria a escapar nada, viram as fotografias de Santiago e Elena dezenas de vezes e quando terminaram, o rapaz pediu-lhe irrequieto:
- Vá lá mãe...
- O pai leu as cartas? – perguntou a mãe inquisitiva.
- Sim, leu tudo.
- E tu disseste que não percebias algumas coisas?
- Ele também não percebeu! Disse que a Tia Teresa tinha parvoíces destas e que devia pensar que eu já tinha vinte anos para perceber certas coisas...
- Como te hei-de explicar isto... – começou a mãe indecisa e trémula, de pé, a andar dum lado ao outro da sala– quando a tua tia disse para mas dares a ler era porque, na verdade, estas cartas são para mim e estão cheias de pistas!
- Pistas? Pistas de quê? - o rosto do rapaz iluminou-se.
- Ela dá-me informações através das cartas, ora vamos ver: a casinha bêbeda é dum livro, cujo nome não me lembro, e conta a história de duas irmãs separadas.
- Vocês!
- Sim, nós. O pãozinho de leite é doutro livro que se chama O Mistério do Jogo das Paciências e...
- E quer dizer o quê? Que tenhas paciência? - perguntou o jovem impaciente.
- Calma... sim... pode ter várias interpretações: para eu ter paciência, que há aqui um mistério qualquer e...
- Há isso há, estou a ver que sim...
- ...e também pode fazer referência a um jogo... mas não estou a ver qual... nós jogávamos tanta coisa… cartas, trivial, personagem incógnito… espera… - e a mãe de repente sorriu – é isso!
- Isso o quê mãe? – perguntava-lhe o filho ansioso.
- Personagem incógnito! Eles estão incógnitos em qualquer sítio, só pode ser isso!
- Incógnitos?? Porquê??
- Isso também eu queria saber, mas nós chegamos lá… se ela nos manda estas pistas é porque não pode falar, percebes? Mas ela quer dizer-nos alguma coisa…
- E o Júlio Verne trauteado? Quer dizer o quê?
A mãe continuava a andar dum lado para o outro com as cartas meias amarrotadas na mão a fazer raciocínios.
- Ela não se refere a um livro e sim a uma série da televisão com muitos anos e que era baseada num livro do Júlio Verne: Dois Anos em Férias! E eu passava a vida a trautear a música!
- Sim, mas quer dizer o quê? – perguntava Paulinho entusiasmado e acrescentando: - Eu tenho o livro, se soubesse já o tinha lido...
- Não sei bem... pode referir-se à minha ausência... mas ela sabia que eu adorava aquela história... e eu não adorei a minha estada na prisão... – ia dizendo a mãe mais para ela própria do que para o filho enquanto ia caminhando pela sala em volta dum sofá cheio de pó e a cheirar a mofo, e relia passagens das cartas.
- Leste As Vinhas da Ira? - perguntou a rir.
- Não... li aí dez páginas mas aquilo não me entusiasmou... mas vi o tal filme e achei giro...
- A ideia não era fazeres nem uma coisa nem outra, mas ela quer-me dizer qualquer coisa ligada a vinhas, uvas, vinho...
- Ah pois era... no filme ele tinha umas vinhas na França!
- Isso mesmo! Só não percebo a razão de tanto segredo... mas havemos de descobrir... há aqui mais coisas... maravilha do mundo mais alta e cultivada... vês? Outra referência a culturas e depois fala em África Minha... - e voltando-se para o filho – viste o filme?
- Sim, ela tinha uma herdade em África! – disse Paulinho entusiasmado.
- I had a farm in Africa... – repetiu a mãe com os olhos marejados e acrescentou – tenho quase a certeza que a tua tia também tem uma... de quê e onde... não sei... e o motivo deste secretismo todo também me escapa...
- Mãe, a maravilha do mundo mais alta é no Peru... a tia estará no Peru?
A mãe encantou-se com o raciocínio do filho e com a respiração afogueada e o pensamento a grande velocidade disse que era uma possibilidade.
- Ainda há aqui qualquer coisa... – disse a mãe – ou então sou eu que já estou a ter visões...
- O quê, o quê? – quis saber o rapaz.
- Asas do Desejo... isto não é inocente... Asas do Desejo é o nome dum filme que conta a história dum anjo que voltou a ser homem...
- E...? – quis saber o filho.
- E... não sei bem... fala de regresso, é evidente. Dum anjo... que não devo ser eu... e não estou a ver quem é... bem, agora esquece...
- Atão e agora como lhes dizes que já saíste? Como é que eles vão saber que já leste as cartas e já decifraste essas pistas todas? Não temos um telefone para lhes ligar!
- Paulinho... algo me diz que eles já sabem e agora não podemos fazer mais nada. Só esperar...
Conversaram o resto do dia com muito carinho pelo meio, falaram do pai, de Adelaide a sua companheira, dos amigos, da escola, de jogos de computador, de futebol enquanto ela ia pensando o que fazer para descobrir a família e dava voltas sem fim à cabeça imaginando a razão de todo aquele mistério que se mantinha indecifrável.
Foi um dia e noite longos, com um intervalo para jantarem num restaurante familiar perto da sua casa, sempre com muito para dizer e adormeceram já de madrugada com ela a dizer-lhe que no dia seguinte iriam visitar duas das suas amigas.
Mas na manhã seguinte algo lhe mudou os planos e quando se levantaram viram um envelope que alguém metera por baixo da porta. Não tinha remetente mas o filho garantiu-lhe que era dos tios e dos avós.
Foi com enorme emoção que constatou o que já suspeitava, que eles sabiam que ela estava em liberdade. Abriu a carta lentamente como quem quer fazer durar o momento que antecede a felicidade.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A rapariga que não gostava de livros com capas dobradas - X

O filho, agora com 16 anos, estava de férias escolares e proporcionou-lhe um reencontro quente e cheio de urgência de abraços e partilha de lágrimas. Jurou-lhe que estava inocente e que tinha sido vítima duma grande injustiça. Disse-lhe que estava desempregada mas que havia de se desenrascar. Que desejava acima de tudo que ele a amasse e que passasse algum tempo com ela. Que queria saber de tudo o que lhe tinha acontecido durante a sua ausência e carregava nele o olhar de desejo de perdão pela distância e calou-se surpreendida quando o rapaz lhe agarrou nos ombros e a abanou, obrigando-a a olhá-lo nos olhos e disse:
- Mãe, não acredito que tenhas feito nada daquilo.
- ...e não fiz... mas ninguém acredita em mim.
- Eu acredito mãe, e a tia também e a avó e o avô...
A menção à sua família provocou-lhe um suspiro que parecia electrizado e a fez acordar:
- Paulo, afinal onde estão eles? O teu pai nem me deixou espaço para lhe perguntar... os teus avós estão bem? Não me mintas por favor...
- Para dizer a verdade, não sei – o tom de voz era triste e afastou o olhar do da mãe - Não os vejo à bué, acho que vivem na Alemanha… escrevem-me de vez em quando, mas nunca mais os vi e não lhes posso escrever porque as cartas deles não têm remetente...
- O quê? Nunca mais os viste desde quando? Abandonaram-te? E as cartas não têm selos de correio? E carimbos? E olha...
- Mãe, calma... Não têm nada! Acho que eles pedem a alguém para os pôr na caixa do correio! Isto faz-me muita confusão, mas o pai diz que é melhor assim. Passado p’raí dois ou três meses de tu teres sido... sabes, presa, eles convidaram-me para jantar na casa dos avós e a Tia Teresa fartou-se de chorar e de me beijar e de me dizer que eu nunca a esquecesse e eu não percebi porque era aquilo. Depois disse-me que ia voltar à Alemanha com o Robin e até combinámos que ela me vinha buscar nas férias e...
- E foste à Alemanha filho? – perguntou tentando mostrar um sorriso.
- Não mãe... eles nunca vieram e passado algum tempo os avós foram ter comigo à escola e disseram que iam ter com ela e foi uma cena esquisita e...
Paulo começou a chorar e a mãe chorou com ele, enquanto pensava Que raio de coisa é que se passa aqui? Que não me fossem buscar à prisão é uma coisa, mas abandonarem assim o neto e o sobrinho...
Não, decididamente havia muita coisa a explicar.
- Paulo, querido, preciso que me contes tudo o que te lembrares. Este comportamento não é normal... e o teu pai o que dizia?
- Mãe, sabes como é o pai... achou bem o afastamento e ficou todo contente quando a Tia se foi embora. Houve sessões de gritos entre nós porque ele não queria que eu visitasse os avós porque eles iam estar sempre a falar em ti e o pai dizia que isso não era bom para mim... quando eles também se foram embora, pronto, ficámos só nós os dois... e ela.
A referência era clara à companheira do pai. Para o acalmar, a mãe, embora com dúvidas de convicção, disse-lhe:
- Não te preocupes... vamos encontrá-los.
Era-lhe difícil acreditar que a sua família tivesse desaparecido do mapa por vontade própria, mas cortarem relações com o sobrinho e neto, era outra coisa diferente que ela não compreendia. Havia ali um mistério qualquer muito estranho mas como não queria preocupar o filho e desejava acima de tudo aproveitar aquele reencontro, decidiu pôr o assunto de lado, pelo menos temporariamente e passaram o resto do dia a conversar enquanto iam dando um jeito à casa, suja como um castelo abandonado na Idade Média.
Por duas vezes o telefone do filho tocou e, das duas vezes, ela ouviu-o dizer a rir:
- Não posso falar, ‘tou com uma miúda...
Tudo era motivo de mais beijos e novos abraços, e risos e lágrimas. O filho estava enorme, alto como ela nunca imaginara, já tinha barba e uma voz que em nada se parecia com a vozinha do garoto que ela deixara há três anos com o pai. Fazia-lhe festas na cara e nas mãos sem se cansar e obrigou-o a dar inúmeras voltas para que o pudesse ver bem visto, sempre com interjeições de espanto e de admiração. O rapaz foi pondo-a a par do que acontecera no mundo durante a sua ausência: cataclismos naturais, guerras, eleições, mortes na família, etc. Algumas das coisas ela sabia pois as companheiras iam tendo informações através das visitas, coisa que a ela sempre fora negada. Paulo fez-lhe imensas perguntas sobre a prisão às quais ela respondeu de tal forma que ele lhe retorquiu:
- Algo me diz que tu estás a fazer um relato ‘vida é bela’...
Perante o olhar surpreendido da mãe, ele acrescentou:
- Mãe, lembras-te do filme ‘A Vida é Bela’? Aquele filme é uma treta... quem já tenha estado num campo de concentração sabe isso... não se vê ali lixo, nem ratos, nem nada... eles andam vestidos normalmente, nem sequer estão rasgados... e tudo o que me estás a contar eu já vi em filmes...
- E tu por acaso já viste algum campo de concentração para falares assim?
- Sim, já vi... fui com a escola e estive quinze dias num intercâmbio com uma escola polaca, perto de Cracóvia... tu terias adorado ir... sabes, nem todos quiseram entrar e o setôr que nos levou disse que quem não quisesse, não tinha que entrar. Mas eu fui porque sabia que tu ias gostar que eu visitasse o campo e pensasse em tudo o que vi.
A mãe não conseguiu esconder as lágrimas, abraçou aquele rapaz enorme que nem parecia o seu filho e com quem estava em dívida de afectos, especialmente beijos e abraços.
Deu-lhe razão e explicou-lhe que não era fácil falar daqueles momentos e pediu-lhe que ele lhe falasse do que acontecera logo a seguir à sua prisão. Ouviu o filho descrever-lhe a mágoa dos avós quando ela fora presa, a angústia do pai e a raiva que ele próprio sentira por saber sempre que a mãe tinha sido injustamente encarcerada. Disse-lhe que a tia Teresa escrevera cartas sem parar a pedir uma excepção para a visitar, coisa que nunca lhe fora concedida. Contou-lhe como ultrapassara a sua dor, com palavras e olhares que em nada se adequavam a um rapaz de 16 anos e a mãe leu nessa conversa que ele há muito se tinha tornado adulto pelas circunstâncias da vida.
Falou-lhe das amigas dela que ainda o procuravam e em como sempre lhe davam força e o animavam insistindo na sua inocência. Garantiu-lhe que elas não sabiam que ela saíra, caso contrário teriam dito alguma coisa e a mãe respondeu-lhe que era melhor assim, pois precisava de algum tempo para se adaptar e não queria visitas com a casa assim. Pediu-lhe para, na primeira oportunidade, lhe dar a ler as cartas que recebera da família e foi com imensa alegria que ouviu o filho dizer que as trouxera, pois a tia mencionara que era importante que ele lhas desse.
Retirou-as da mochila, estendeu-lhas e ela viu que estavam atadas com uma fita de cabelo que em tempos lhe pertencera. Começou a choramingar e limpou a cara quando o filho lhe disse:
- Mãe, há aí coisas que não percebo nada...
- Não percebes? Como assim?
- Começa a ler que eu digo-te...
A mãe começou a ler alto mas logo na primeira linha fungou e afastou as lágrimas. Aquilo fora escrito pela sua irmã e ela tinha a certeza que havia um motivo bem forte para todo aquele, aparente, abandono. A explicação residia ali, naquelas páginas e assim que as lesse tudo seria desvendado.
Passou as cartas ao filho e pediu:
- Lê tu, por favor.
O rapaz agarrou nos papéis e começou a ler.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A rapariga que não gostava de livros com capas dobradas - IX

Pensou que teria um ataque de coração antes de sair da prisão na manhã seguinte. Acordada há horas, sem conseguir comer devido à ansiedade, vestiu as suas roupas, meteu os únicos pertences, as fotografias, no cano das botas e foi chamada ao Director da prisão que lhe entregou uma carta proveniente de Santa Cruz e que a fez rebentar em pranto.
Era um postal mal alinhavado de Damiana desejando-lhe as maiores felicidades do mundo e pedindo-lhe que não a esquecesse. O director explicou que a carta estava com ele desde a sua transferência, mas que a reclusa pedira para lhe ser entregue na sua última manhã na prisão. A medo, mais da resposta do que de fazer a pergunta, quis saber:
- Por acaso, não tem mais cartas para mim...? Da minha família..?
- Lamento, não há mais nada, a não ser um conselho, que espero que acate: mantenha-se na sua vida sem fazer disparates. Como sabe, vai sair condicionalmente e ao menor desvio volta a fazer-nos companhia. Você é mãe e tem o direito e o dever de desempenhar esse papel, mas não esqueça que o dinheiro não é tudo na vida...
Ela percebeu onde o homem queria chegar e, com um arrepio na coluna, reviu mentalmente o seu julgamento e a acusação de tráfico de droga. Com um sorriso triste disse:
- Bem sei que não me acredita mas...
- Sim, você está inocente. Calcula as vezes que ouço essa afirmação? Nem lhe passa pela cabeça... agora, inocente ou culpada, vai sair em liberdade e está nas suas mãos ficar lá fora ou regressar para o interior destes portões. Felicidades.
Saiu a pensar que se fosse culpada teria recebido dinheiro e onde estava esse dinheiro, alguém o descobrira nesses três anos?
A guarda que a acompanhou ao gabinete do director, e que assistia à conversa, mantinha o ar de compaixão. Chamava-se Lina e tinha, na adolescência, sido acusada de roubo. Depois de se provar a sua inocência concorrera para guarda prisional e, num processo que até foi noticiado na comunicação social, por ser tão nova e ter sido antes acusada dum crime, conseguira o lugar. Era uma mulher que se dera bem com ela no primeiro momento em que se viram e que ela, interiormente, sabia ser uma pessoa que acreditava na sua inocência.
Lina levou-a para fora do gabinete do director e desejou-lhe as maiores felicidades na vida. Sorriu-lhe em forma de agradecimento, não conseguindo falar, com a voz embargada e dominada pelo pensamento que, lá fora, a poucos metros, estava a sua família, quem sabe há quanto tempo, há quantas horas perdidas, para a resgatar do inferno. Mas aquilo que tinha como certo afinal não correspondia à realidade.
Quando saiu da prisão ninguém a esperava à porta o que a fez sentir uma tristeza maior do que a que sentira quando fora presa. Ter-se-iam esquecido ou estariam atrasados? Ou pior ainda, pensariam que ela era culpada e não a queriam ver? Em três anos pensa-se muito e alguma coisa devia ter acontecido para não estarem ali em romaria. Voltou a pensar nos pais e na casa que tinham posto à venda e sentiu uma mistura de sentimentos e emoções que a confundiam. Estava livre, mas presa à beira daquele portão. O que fazer?
Cansada de esperar, começou a caminhar e viu uma paragem de camionetas com duas mulheres sentadas no banco. Ficou ali à espera não sabia bem de quê, com a secreta esperança que, de repente, ia parar ali um carro com a sua família onde todos falariam ao mesmo tempo dizendo que tinham tido um furo ou qualquer coisa do género que os tinha atrasado. Mas a camioneta chegou primeiro e ela apanhou-a em direcção a Oeiras.
Sentada na parte traseira, pela primeira vez, pensou que estava em liberdade, e vendo a paisagem a correr pela janela, apesar da enorme desilusão, conseguiu sorrir.
Saiu junto à estação de comboios e apanhou um em direcção a Lisboa, já decidida a procurar o marido no emprego, com urgência de notícias do filho. Enquanto o comboio avançava foi ficando com um misto de euforia por se aperceber cada vez mais que estava em liberdade, mas aumentava-lhe em simultâneo o nó no estômago, convencida cada vez mais que uma desgraça horrível tinha acontecido:
- Porque não foram buscar-me? Nem o meu marido, nem o meu filho?
Chegada ao Cais do Sodré, com quase duas horas de liberdade, foi a pé em direcção ao Terreiro do Paço, devagar, a gozar o ar livre e a pensar que podia mudar de passeio se bem lhe apetecesse. Subiu a Rua Augusta não detectando grandes diferenças daquilo que se lembrava e desembocou na Praça do Rossio. Avançou em direcção à Avenida da Liberdade onde o marido trabalhava, ou melhor, achava ela que trabalhava pois depois da saída sem vivalma à porta da prisão, estava a preparar-se para tudo.
Porém, não havia preparação para o choque que sentiu quando viu o olhar frio e distante do marido a olhá-la e, num reencontro cruel, em vinte minutos descobriu que o marido vivia com outra mulher numa nova casa, a irmã estava casada e tinha dois filhos, os pais haviam vendido a casa e tinham-se todos mudado, e o filho estava óptimo, ia com o pai de férias dentro de três dias e dispensava ensinamentos sobre como funcionava uma prisão.
Ela que tinha ali chegado com o coração nas mãos, pois sentia que, apesar de tudo, amava o marido, sentiu-se afogar, sem ar suficiente a entrar-lhe nos pulmões. Ela que tinha pensado dias, meses e anos no reencontro e que, sabendo que não seria uma fonte de calor, pois a maneira de ser do marido não o deixava agir com emoção, mas esperava umas boas-vindas um pouco mais emotivas, um abraço, um beijo, e algumas perguntas, Como te sentes? Trataram-te bem? Tivemos muitas saudades... e, principalmente, Acreditamos em ti, sabemos que foste presa injustamente... não ouviu nada disto.
Os meses de clausura deram-lhe a calma necessária para não ripostar às provocação e foi com olhar firme e sem admitir cenas que reclamou a presença do filho, que conseguiu finalmente, por entre as negas do marido, que lá lhe garantiu que ele se encontraria com a mãe.
Conhecia o marido, a sua frieza e a sua distância, porém, decididamente, aquele não era o Francisco a quem fora arrancada naquela tarde e mais parecia um qualquer guarda de Santa Cruz do Bispo, cuja profissão o obriga a ser duro e inflexível, sem qualquer lugar para emoções. Aos olhos dela e naquele momento, Francisco não parecia humano, mas antes alguém que parecia tirar prazer da sua dor e não ficou nada espantada por constatar que ele a via como culpada.
- Onde vais viver? – perguntou-lhe o marido em jeito de despedida.
- Eu tenho uma casa e tenho intenção de voltar para lá.
- Temos muito de conversar como deves imaginar… quero vender essa casa, mas podes lá ficar por agora… eu vou falar com o Paulo e ele vai lá ter contigo. Por favor, presta atenção ao que lhe contas da tua estadia…hã… da tua ausência. Tens dinheiro?
- Pouco – respondeu pensando no que já tinha gasto da quantia que lhe deram na prisão para os gastos mais imediatos.
- Muito bem, aqui tens 50 euros, para qualquer coisa que precises e de certeza que receberás a tua parte depois da venda da casa e não te preocupes que eu pago as despesas do divórcio.
Assentiu, agarrou a nota e viu o marido a voltar-lhe as costas. Dirigiu-se a uma paragem de autocarros, desejando que a linha não tivesse sofrido alterações e ainda passasse perto da sua casa, constatando que de facto assim era.
Francisco nem lhe tinha feito uma só pergunta pessoal, se estava bem ou não estava, nem tão pouco sobre a sua eventual inocência, prova de que ele estava convencido da sua culpa.
Em pouco mais de meia hora estava diante do prédio onde habitara mais de dez anos, subiu ao primeiro andar direito devagar, como antes quando carregava os sacos de compras pelas escadas acima, abriu a porta com a chave que o – ainda – marido fora buscar ao seu novo BMW e que ainda mantinha o porta chaves com a imagem do Bom Jesus de Braga que compraram não se lembrava quantos anos antes, e entrou nas três assoalhadas que mantinham as janelas fechadas.
Entrou lentamente, não a medo, mas tentando proteger o seu coração que batia com cada vez mais força à vista de tanta coisa familiar e percebeu imediatamente que no quarto do filho faltava imensa coisa, o seu estava na mesma e a sala também e recordou com enorme nitidez a última manhã em que ali tinha acordado, em que ali tinha tomado banho e se tinha vestido, em que ali tinha tomado o pequeno almoço, a mesma manhã do dia em que sentira abater-se sobre si a tragédia, a dor e a indignação da injustiça. Correu os estores e relembrou a entrada do filho naquela casa, acabado de sair da maternidade, para um quarto decorado pela sua própria irmã, cheio de coisas fofas como nuvens no final dum dia de Verão; lembrou-se duma festa de aniversário surpresa que fizera ao marido, numa noite de chuva em que vários amigos o esperavam na escuridão da casa e em como o surpreenderam quando ele estava a tirar os sapatos completamente encharcados e em como se tinham sentido próximos um do outro quando se deitaram depois da casa se ter esvaziado de gente aos poucos e ao longo da noite.
Agora, ali sentada no sofá cheio de pó e a cheirar a mofo, pensou que não estranhara o comportamento do marido e não se surpreendeu consigo própria pois, de certa forma, esperava-o, na medida em que sabia que ele nunca a amara, apenas e tão só se habituara a ela e não lhe estava no sangue mudar fosse o que fosse por sua iniciativa; concluiu que lhe fizera um favor dando-lhe margem lícita para ele a deixar e não se admirou por ele ter arranjado companhia pois não era homem para viver sozinho com as suas inseguranças, e enquanto estes pensamentos lhe ocorriam de forma serena sem dramas nem ciúmes, sentou-se no sofá e ficou a olhar para as prateleiras cheias de livros, cheias de pó e cheias de si própria, tentando saber se ainda se lembrava onde estava o quê, pois cada título tinha um lugar só seu, graças a uma arrumação cuja organização só ela sabia, e tão depressa se encontravam todos os títulos dum determinado autor, como logo ao lado, estavam vários autores misturados, por serem da mesma editora, assim como coexistiam lado a lado na prateleira porque eram do mesmo assunto, mas fosse como fosse tudo tinha uma razão de ser na cabeça dela e, enquanto ali estava sentada e olhava as lombadas, iam-lhe passando as mais variadas coisas pela mente, histórias misturadas com biografias, romances com livros técnicos, livros infantis com poesia e sem qualquer preocupação deixou as lágrimas correrem-lhe pela cara, e ali ficou até que tocaram à campaínha.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A rapariga que não gostava de livros com as capas dobradas - VIII

Os dois dias que antecederam a saída da prisão foram de sufoco absoluto. Agia como um autómato, rezando para que nada acontecesse de repente que quebrasse aquela perspectiva. Passavam-lhe coisas loucas pela cabeça, como a possibilidade duma briga onde se visse envolvida sem intenção e que pudesse prolongar a sua estadia na prisão. Cremilde ainda ficaria e sentiu que deixava ali uma amiga. Muitas das outras atiravam-lhe sorrisos, uns de inveja outros de parabéns. O tempo teimava em correr mais devagar que nunca, as noites eram passadas a passo de caracol, qualquer coisa que fizesse nada ajudava a fazer desaparecer aquela angústia. Uma vez por semana trabalhava na lavandaria da prisão e, já no último dia, completamente alheada e obcecada pela saída dentro de poucas horas, deixou-se ficar muito depois do necessário, o que levou uma das guardas a procurá-la.
- Então Carequinha... hoje dormes aqui?
Ouviu a voz e sentiu-se acordar dum sonho, pondo-se em pé de imediato e começando um balbuciar que nem ela própria percebia. A guarda riu-se e mandou-a sair, sabendo que aquela prisioneira não causava problemas. Sabia também que aquele era o seu último dia ali e já assistira a muitos últimos dias. Uns agitados e até violentos, como uma situação que tinha presenciado há anos, em que uma reclusa esperara pelo seu último dia para pregar um prego na mão de outra, propositadamente, como viria a confessar, devido a brigas antigas. Mas também sabia que a maior parte anda alegre e bem disposta a contar a toda a gente o que vai fazer assim que sair dos portões da prisão, com descrições de abraços aos filhos, de actos sexuais, há muito não praticados, ou de vinganças contra quem ajudou a pô-las na prisão.
Mas a Careca não se encaixava em qualquer destas categorias, estava calada e meia alienada do ambiente que a rodeava. Para além de Cremilde, nunca fizera grandes amizades, exceptuando-se a admiração que sentia por Damiana, uma preta que passava horas a contar como era a vida em Pagué, na Ilha do Príncipe e que ela adorava ouvir. A única discussão que tinha tido ao longo dos três anos fora precisamente por causa de Damiana: numa tarde em que a ouvia com toda a atenção e se deslumbrava com a capacidade de descrição dos pormenores geográficos da Ilha, passou Carla, uma loura platinada com uma enorme raiz preta no cabelo e disse:
- Dá-te com as pretas dá e depois vem-te cá queixar de macumbas...
- Mete-te na tua vida e cala-te.
Carla não respondeu, mas voltou passados minutos com a Taxista, alcunha que lhe advinha da antiga profissão, e que a tinha levado à cadeia, pois insinuava-se aos clientes e depois roubava-os; e com a Rosa Mota, uma pequenina que dava ares da atleta e que alguém assim baptizara.
- A Careca gostava de ser preta... – provocou a Carla.
As outras duas riram-se e começaram a falar com sotaque africano.
- Nem olhes p’ra elas – disse a Careca abrindo os olhos para Damiana.
- Não olhes p’ra nós não...
- Ela quer-te só p’ra ela...
As provocações das outras eram indiferentes para a Careca mas ela sabia que não o eram para Damiana e levantando-se, disse aos berros:
- JÁ DAQUI P’RA FORA ANTES QUE VOS PARTA AS TROMBAS! ANTES DE FALAREM COMIGO VÃO APRENDER A LER E A ESCREVER!
- Olha... tamém quer ser dótora... acha-se mais esperta que as outras – comentou uma.
- É por isso que fala com as pretas que não sabem falar...
No meio dos risinhos a Careca optou por fazer qualquer coisa que sabia que deixaria as outras confusas:
- Oh Carla, diz-me uma coisa... tu que tens um cabelo louro tão lindo porque pintas as raízes de preto?
A Táxista e Rosa Mota olharam para Carla de soslaio, confundidas, e Carla, pronta para responder a uma qualquer ofensa, ficou de boca aberta a pensar o que havia de dizer e, finalmente, olhou as outras duas e disse:
- Esta afinal é mais parva do que eu pensava!
A Careca e Damiana riam-se e Carla ripostou:
- És mesmo estúpida e nem percebes que ainda ficas pior por te dares tanto com a preta...
- Carla põe-te a milhas, já! – Respondeu a outra abrindo-lhe muito os olhos e chegando a cara ao nariz de Carla. - Eu dou-me com quem quero e com quem me apetece e já agora ficas a saber que nem chegas ao calcanhares dela e qualquer preta aqui te deixa a um canto!
E elevando a voz ainda mais:
- Nunca me viste chateada pois não? Um conselho... não queiras ver... vais arrepender-te p’ra vida!
Aquilo foi dito com uma entoação tal, por uma pessoa considerada calma e pacífica e que nunca levantava problemas, que Carla intimidou-se e pensou que afinal a Careca não era a sonsinha que parecia. Levantou as mãos em ar de pedido de desculpa e afastou-se com as outras duas.
- Aquela da raiz do cabelo foi o máximo – riu-se Damiana, depois das outras irem embora.
- Elas nem perceberam... estúpidas...
- Como é que te lembras-te daquilo?
- Olha, foi uma prima minha que me contou como sendo real e a pessoa a quem fizeram a pergunta ainda respondeu ‘Não, eu pinto é o cabelo de louro’
Disse aquilo fazendo voz de tia de Cascais e riram-se as duas, até o momento de boa disposição ser interrompido pela Chinesa, a quem assim chamavam por ser mesmo chinesa, e que estava na prisão por motivos idênticos a Damiana, ajuda à emigração ilegal.
A Careca via a Chinesa também como contadora de histórias e, se bem que não tivesse o poder descritivo de Damiana, também a ouvia com frequência, falar de Macau, dos furacões que assolavam a zona, e de como se ouviam as sirenes a anunciar mau tempo e a sugerir que as pessoas ficassem em casa.
Qualquer uma que a ajudasse a ‘sair’ dali para fora era uma companheira que ela via com bons olhos e, não sendo racista, tanto lhe dava que fossem brancas, pretas, amarelas ou verdes às riscas. Eram pessoas, e isso chegava e, se tivessem histórias para contar tanto melhor, principalmente histórias de sítios onde ela nunca fora mas que sempre ansiara visitar. Quando souberam que trabalhara numa agência de viagens pensaram que conhecia o mundo e ela explicara que não era bem assim. A Doutora também tinha história para contar de viagens a congressos e conferências onde participara e ela ouvia tudo atentamente.
Um dia rira-se a bom rir quando, em conversa com a Doutora, esta lhe contava como era a cidade de Dubrovnik na Croácia, chegara uma das três irmãs da Brandoa e, ouvindo a conversa, rematou dizendo que não precisava de ir a sítio nenhum pois a Amadora tinha tudo! Era centros comerciais, cinemas, lojas, supermercados e a praia de Carcavelos ficava a quarenta e cinco minutos de camioneta!
Agora, quase a ver o ar fresco da liberdade, revia mentalmente vários momentos que ali passara: as zaragatas da Niña, Pinta e Santa Maria, um aniversário de Cremilde, quando o irmão lhe trouxera lampreia de ovos, a noite em que Lurdes, uma das ciganas, tivera uma apendicite aguda que a levara ao hospital no meio de gritos horrendos que ecoavam por toda a prisão, a chegada dos primeiros livros pela mão do pai da Doutora, as descrições de Damiana, a maldade da Castela, o contentamento por lhe terem dado a organização da biblioteca, a morte da Regina, uma madeirense com problemas cardiovasculares e que acabara por terminar os dias literalmente no interior da prisão.
Lembrava também o dia em que pedira para lhe raparem o cabelo, o que lhe dera um nome novo durante três anos. De repente ocorreu-lhe que não ouvia chamar pelo seu próprio nome há imenso tempo. Lembrava-se de ter lido que, antigamente, não se dizia o nome a qualquer um, pois achava-se que através dele poderiam ser feitas bruxarias ou similares ao dono do nome. Riu-se interiormente e, não fazendo qualquer esforço para chamar o sono, deixou-se ficar relaxada no catre a olhar, sem ver, o tecto.
- Amanhã... amanhã... meia dúzia de horas é tudo o que me separa do amanhã...
O amanhã dominava-lhe o pensamento e deixou-se ficar imóvel a sonhar com o regresso à vida.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A rapariga que não gostava de livros com capas dobradas - VII

Teve por companheira de cela Cremilde, a quem chamavam a Cremalheira, por ranger os dentes a noite inteira e, quando em conversa disse que não conseguia dormir porque Cremilde sofria de bruxismo, uma cigana que dormia duas celas à frente deu gritos até cair para o lado, dizendo que já sabia que Cremilde era bruxa e agora tinha a confirmação.
Cremilde estava presa por roubo, que assumia, e maldizia-se por se ter deixado apanhar, segundo ela, pela sua própria advogada. Três pretas retintas, as Azeitonas, mudaram de nome para irmãs Cajazeras, quando ela lembrou a restante comunidade duma telenovela antiga, o Bem Amado, e das três irmãs que andavam sempre juntas. Porém, um ano depois de ter chegado à prisão, entraram de facto três irmãs, muito jovens, todas casadas e com filhos, que estavam presas por alegados maus tratos aos pais, mas que só se falavam quando entravam em acesas discussões, acusando-se mutuamente do crime que as levara para Santa Cruz. Ela baptizou-as como a Pinta, a Niña e a Santa Maria. Ao todo havia quatro ciganas e três delas faziam a sua inveja pois não se cansavam de falar das visitas que tinham recebido.
Ela, uma das ciganas e mais seis outras mulheres, todas acusadas de tráfico de droga, não recebiam visitas, assim como duas outras, as heroínas da prisão, uma por ter dado uma real sova no marido e lhe ter partido uma dúzia de ossos e outra por ter ido mais longe e ter conseguido matá-lo. Nunca soube qual a verdadeira história pois contava-se que a Malhada, assim conhecida por ter imensas manchas na pele causadas por uma despigmentação, cansada de levar porrada, um dia esperou o marido e quando ele entrou na cozinha empurrou o frigorífico contra ele, derrubando-o e deixando o enorme electrodoméstico em cima do homem que tivera morte instantânea por ter batido com a cabeça na bancada da cozinha. Outra versão dizia que tinha deixado cair o secador ligado dentro da banheira quando o marido tomava banho. Uma coisa era certa, era uma pessoa sorridente, embora muito silenciosa, o que levava a pensar que a prisão era bem melhor que qualquer vida que pudesse ter tido em liberdade.
Ao todo eram dez que não tinham visitas e a quem não era permitido fazer tarefas ao ar livre e para quem as guardas olhavam com especial atenção, entre as quais a Castela – não sabia de onde lhe vinha o nome nem se era nome ou alcunha – que adorava picá-las fazendo circular histórias inventadas, ou não, sobre esta ou aquela e pondo algumas das detidas em polvorosa. Este método simples teve o condão de pôr a cadeia em brasa quando entrou uma brasileira, detida por prostituição, sobre quem a Castela contou que dormira com metade da Brandoa, de onde eram as três irmãs Pinta, Niña e Santa Maria. Foi a única vez que a prisão de Santa Cruz do Bispo viu as três irmãs unidas que, como prémio, viram aumentada a sua sentença e ficaram igualmente proibidas de receber visitas e de trabalhar ao ar livre, enquanto a brasileira foi transferida, primeiro para um hospital e depois, dizia-se, para outra prisão, assim como a Castela.
De início foi-lhe difícil habituar à comida, pois mesmo tendo um aspecto razoável, dava-lhe volta ao estômago e provocava-lhe vómitos. Ela que nunca comera sopa no Âncora, o café onde normalmente iam almoçar, por ser servida em tigelas de metal que a faziam arrepiar, agora tinha sempre um serviço daquele gabarito: tabuleiro, pratos, tigelas e copos, tudo em metal. Emagreceu alguns quilos ajudada pelas saudades e pela falta do sol. Andava sempre calada e desconfiava de tudo e todas, com a certeza de ser diferente pois era inocente. Porém, se muitas havia que faziam gáudio dos seus actos, muitas outras reclamavam a mesmo inocência que ela e, das conversas que tinham, chegava a convencer-se que assim era de facto o que a levava a concluir que a Justiça só era justa quando lhe apetecia. Face a estas dúvidas, passava horas a escrutinar cada uma das mulheres que com ela partilhavam o destino, tentando perceber qual delas seria também inocente, coisa que muitas reclamavam alto e bom som, mais alto que ela própria. Imaginava-as lá fora a serem mães e esposas, donas de casa e as mais diferentes profissionais – havia até uma que tinha sido gerente de um banco, e a proximidade do dinheiro tinha sido a sua desgraça – e mentalmente vi-as de avental, em casas diferentes conforme a sua imaginação lhe ditava, a fazer uma qualquer refeição.
No dia que soube da condenação pediu que lhe cortassem o cabelo o mais curto possível, se fosse rapado tanto melhor, pois a sua imaginação repleta de histórias e romances fizera da prisão um sítio com pulgas e piolhos e pior ainda, com brigas onde os cabelos eram puxados e arrancados e ela preferia prescindir do seu rabo de cavalo castanho a ter que passar por isso e, assim que chegou a Santa Cruz, alguém disse que entrara uma careca e ela ficou a Careca, tanto mais que sempre que lhe era permitido cortar o cabelo, voltava a rapá-lo. Não tinha espelhos e Francisco ficara do lado de fora dos muros, logo, não se importava em nada com o aspecto.
Num dia de boa disposição convenceu algumas das companheiras que cortava o cabelo assim porque pertencia a uma religião diferente, mas arrependeu-se logo pois a brincadeira arranjou-lhe confusões com as ciganas, profundamente católicas.
O que lera em livros e vira em filmes confirmava-se agora: teria que se agarrar a qualquer coisa para sair dali com a mesma sanidade mental com que entrara, mas teve consciência que não podia alimentar a raiva nem a angústia dos condenados inocentes que, com frequência, acabam por ser eles próprios vítimas desses sentimentos, e continuou a ler compulsivamente, afastando-se o mais possível da realidade da prisão, das brigas das companheiras, do consumo de estupefacientes e de qualquer ligação fosse a quem fosse.
Imaginava a sua família e em especial o filho, lá fora, a percorrerem as suas vidas e a esperarem, tal como ela, o dia em que tudo aquilo acabaria para poderem voltar a estar juntos. Via Francisco a tomar conta do filho, como pai solteiro, assumindo todas as responsabilidades pela educação da criança e adivinhou uma ou outra discussão entre eles. Os Natais e os aniversários do filho eram as datas mais difíceis e, numa ocasião em que fizeram uma simulação de incêndio, vira pela primeira e única vez, outras mulheres acompanhadas dos respectivos filhos, o que lhe causou uma dor tão intensa que nem conseguiu seguir as indicações das guardas que gritavam teatralmente, fogo, fogo, por ali, por ali, indicando a suposta saída.
Passava os dedos pelas fotografias do filho, de Francisco, da irmã e dos pais que levara consigo para a prisão e olhava-os como se fossem actores de cinema de que gostava muito mas que lhe eram inacessíveis.
Pensava repetidamente nas circunstâncias em que tinha ido ali parar, mas como se pensasse numa outra pessoa, que não ela própria, e tentava lembrar-se das caras do tal Miguel Vidigal, também conhecido como o Músico, do José Resende e ainda dum Baltasar França, também chamado o Miúdo. Supostamente ela seria cúmplice desta gente, que não conhecia nem sabia donde lhe vinham as alcunhas. Fora confrontada com estes supostos conhecimentos por um juiz com cara de anjo e cabelo tão louro que parecia sueco e não acreditara nela. Questionaram-na sobre as várias viagens que estes homens programaram e efectuaram através da agência onde trabalhava, e que tinham sido marcadas e desmarcadas sucessivamente, tal e qual de acordo com um plano de descarregamento de droga conhecido da polícia, cuja informação lhes foi dada através de informadores que lhes disseram antecipadamente passo a passo o que os traficantes iam fazer; na agência não constavam registos dos pedidos destas viagens, sinal de que só alguém a trabalhar lá dentro podia ter efectuado as marcações e depois apagado as pistas. Muito confusa e completamente atónita ainda percebeu qualquer coisa sobre ela própria escolher o tipo de lugar no avião de acordo com um código qualquer, que informava secretamente sobre a actividade da polícia e que, quando os bilhetes electrónicos eram emitidos e enviados, o passageiro sabia se devia fazer a viagem ou desmarcá-la e esperar data mais conveniente.
Esperava que alguém dum qualquer CSI viesse em sua defesa e declarasse inequivocamente que não era ela e sim outra pessoa a cúmplice daquela gente, mas essa personagem continuou como protagonista de séries de televisão e não fez nada em seu auxílio. Soube que todos os colegas da agência foram ouvidos e interrogados pela polícia e dava voltas à cabeça a pensar o que teria ela feito de diferente que absolvesse os outros e não ela. Pensou que talvez tivesse efectivamente feito as tais marcações, como fazia tantas, dezenas e dezenas delas, mas sem qualquer conhecimento de causa do assunto nem intenção escondida! O que teria indiciado a polícia na sua direcção?
Ouviu a condenação como se lhe falassem aos soluços, retendo apenas parte e reafirmando sempre que não sabia quem eram aquelas pessoas, cujas caras nem chegou a fixar. Decididamente alguém dentro da agência sabia muito mais do que ela sobre o assunto, mas deixou-a ficar com a culpa, ser condenada e cumprir a pena. Quando pensava em demasia neste assunto tentava mudar o pensamento para o filho e para a família, recendo ficar alheada da realidade, presa à ira e à vontade de vingança.
Dava-lhe um aperto no peito não saber se o filho a pensava culpada ou inocente, mas esperava que se lembrasse de todas as conversas que tinham tido sobre drogas e que percebesse que a mãe jamais faria uma coisa daquelas. Mas sabia também que a dúvida é das coisas mais poderosas e um miúdo com treze anos que vê a mãe ser condenada por tráfico de droga, tem direito a ter dúvidas. Porém, era animada com a ideia que os avós e a tia Teresa não deixariam a dúvida enraizar-se no espírito do neto e do sobrinho, respectivamente. Quanto ao seu próprio marido, aí era ela que tinha dúvidas.
Como era a maior utilizadora da biblioteca da prisão, foi-lhe permitido trabalhar lá, o que diminuiu a angústia dos dias e das horas. Muitos dos livros eram do mais desinteressante que havia e mais velhos que os trapos e ela propôs que contactassem editores a pedir ofertas de literatura. O pedido levou tempo a chegar ao director da prisão e os resultados positivos não vieram por essa via, mas antes pela mão do pai duma reclusa, a Doutora como lhe chamavam, uma médica acusada de negligência e que ali estava com uma roupa cinzenta igual à das outras. O pai, que também era médico, empenhou-se e conseguiu dezenas de livros, mas muitos deles eram manuais de medicina e, ainda por cima, em inglês e com anos de edição, o que deixava as potenciais interessadas com vontade de os devolver. Concluíram que os editores não sabiam o que fazer aqueles monos e foi uma maneira de se verem livres deles. Mas pelo meio vieram todas as traduções para português de Arturo Perez-Reverte, vários livros sobre as lendas de Avalon de diversos autores e editoras, livros de economia e política, em que ninguém pegou e, entre várias outras coisas, uma colecção da editora Ática das Obras Completas de Fernando Pessoa que tinha uma pequena grande particularidade, que todas desconheciam, todas menos ela: o volume das Odes de Ricardo Reis, era de 1946 mas fora impresso em 1945! Para ela isto era uma preciosidade e teve imensa pena de não ter ali a sua irmã para partilhar a leitura:

O tempo passa
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos quase
Maliciosos,
Sentir-nos ir.

Além disso, apesar de ser uma oferta, nenhum dos livros tinha a capa dobrada, como a irmã fazia questão de os preservar. Recordava algumas das manias de Teresa e, se lhe pedissem que a definisse, provavelmente diria:
-É uma rapariga que não gosta de livros com capas dobradas.

Quando ganhou um bocado de confiança com Cremilde pediu-lhe que pedisse ao seu irmão, que a visitava regularmente, que falasse à sua própria irmã, que lhe dissesse que morria de saudades e que fosse beijar o filho por ela, com beijos longos e calorosos.
Optou pela irmã com receio da reacção de Francisco, que nunca aceitaria falar com alguém que estava proibido de o fazer, mesmo que esse alguém fosse a mãe do seu filho. Mas o irmão de Cremilde regressou com notícias estranhas: a casa dos seus pais estava vazia, à venda.
À venda? Como assim, à venda? Então onde moravam? A irmã teria casado? Os pais mudaram-se? Para onde? Por instantes passou-lhe a Austrália pela cabeça, onde moravam os pais de Robin. Não, eles não tinham ido para tão longe; teria a situação dela causado alguma coisa? De repente deu-lhe um aperto no peito e subiu-lhe uma agonia: Aconteceu alguma coisa aos meus pais...
Lembrava-se do pai sem dizer nada a não ser chorar perante a figura da filha, presa e em julgamento no tribunal, e a mãe a dar-lhe força e a dizer que tudo se resolveria, que não se preocupasse com o pai, que ele já ficava melhor...
Há quantos séculos é que isto se tinha passado? As breves palavras no tribunal pareciam gotas de água que recolhia num frasco para alturas de muita sede.
O irmão de Cremilde trabalhava nas obras em Torres Vedras e não lhe era fácil andar dum lado para o outro, armado em detective, ainda por cima, sabendo que os contactos estavam proibidos. E assim, os dias iam passando sem que ela soubesse onde parava a família.
Estava sensivelmente a meio da pena, desconhecendo que o Presidente da República assinaria dentro de dias um documento que lhe permitiria, assim como a muitos outros, sair em liberdade condicional em poucos meses. Se bem que o diploma publicado em Diário da República levasse algum tempo a fazer efeito, ela foi transferida para Tires onde passaria o tempo que lhe restava e, em simultâneo, ajudaria a criar a nova biblioteca da prisão, dado que tinha feito um bom trabalho em Santa Cruz.
Quando lhe disseram que sairia dentro de um mês, sorriu mas não se mostrou extremamente entusiasmada. Num sítio como aquele, preferia comemorar os golos sozinha e, com a excitação, passou noites em claro, acariciando a cabeça quase rapada, lembrando-se da sua antiga cabeleira de Rapunzel que, não tardava nada, voltaria a renascer.