Mostrar mensagens com a etiqueta Viagens. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Viagens. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Dia D

Faz hoje 10 anos, a meio da tarde, chovia torrencialmente em Caen.
Sei porque estava lá, com a chuva a misturar-se com as lágrimas que me escorriam pela cara, imparáveis.
Faz hoje dez anos, mesmo quando parava de chover mantinha-se um cinzento que nos acompanhou nas praias de Omaha, Utah, Gold, Sword e Juno.
Uma das viagens mais incríveis que já fiz, foi à Normandia, e ter lá passado o seis de Junho, foi uma inspiração.
No Memorial de Caen conversámos com um antigo soldado canadiano que nos disse saber que aquela era a sua última viagem à Europa, jovem com quase cem anos, até ele se admirava como ali estava. Ofereceu-me um pin com a bandeira do seu país e o momento em que os nossos dedos se tocaram, na troca do simbólico objecto, nunca desapareceu da minha memória, antes pelo contrário, adensa-se. Estava convencido que brevemente iria encontrar todos aqueles cujos nomes figuravam em placas nos cemitérios normandos, todos jovens como ele também fora, e voltaria a ser quando se reencontrassem.
A calma dele e da família que o acompanhava contrastava com a minha choradeira, que não conseguia parar, como se o meu campo de visão fosse uma tela por onde iam desfilando horrores, perpetrados por pessoas, pessoas como eu, afinal de contas, o que me desvairava pela pertença.
Hoje é um dia de comemoração que nunca passa sem que me lembre, que nunca passa sem que tenha vontade de chorar, que nunca passa sem raiva. Como foi possível?
A bem da verdade lembro-me todos os dias, pois tenho na cozinha, colada ao frigorífico, uma placa que trouxe de Omaha Beach, que indicava um caminho organizado naquele dia.
Nem a placa sonha que me indica a mim um caminho, diariamente, muito para além daquele para o qual foi criada.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Alma de viajante

Pela forma como se me dirige por e-mail deve ser um grande amigo meu, embora não saiba quem é. Nessa qualidade sugere-me uma série de viagens a preços, pois claro, de amigo. Curiosa, vou espreitar...
Maurícias, Reunião, Zanzibar, Costa Rica, mas também uns vulgares Países Baixos ou Hungria, há de tudo, eventualmente para todos os gostos, mas não para todas as paciências.
Os preços baixos incluem estadia e deslocação e, escolhendo a Tailândia, tenho a possibilidade de lá chegar em trinta e três horas e regressar numas alucinantes cinquenta e cinco!
O local criteriosamente seleccionado para mim é adequado para quem procure calma, como eu - dizem eles e fico espantada como estranhos alegam conhecer-me! - e portanto, fique tranquila e descansada, as praias e o seu natural alarido, ficam longe de mim.
Verdade seja dita que terei a possibilidade de visitar inúmeros aeroportos, logo, conhecer imensa gente, fazer amizades, aumentar os meus amigos do Facebook e tirar fotografias em sítios inesperados.
Que mais pode pedir uma pessoa? Trotar infatigável pelo mundo, dizer olá e adeus numa corrida enquanto se entra e sai de aviões sem descanso, ir à Tailândia e não banhar os pés na praia.
Agora sou eu que lhes digo, Meus queridos amigos, façam um favor a vocês mesmos e mudem de estratégia! Já agora, pelo caminho apaguem a minha morada.

Holocausto, com H de horror

Ontem comemorou-se o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. A 27 de Janeiro de 1945 abriram-se os portões do campo de concentração de Auschwitz, um cemitério de gente viva.
A memória - e agora que lidamos com um problema de memória selectiva por parte de um jovem na sociedade portuguesa... - tem de ser preservada, tem de nos ensinar o que não se pode repetir e estes avisos têm eles próprios de se multiplicar, nas comemorações, na literatura ou no cinema, ou em qualquer outra forma, mas reais.
Filmes como o aclamado A vida é bela são visões que amenizam a realidade, que, propositadamente ou não, suavizam o horror quando o horror não pode ser suavizado; são perspectivas que iludem como quem afirma que era possível enganá-los, era possível fugir, era possível vencer. Quem vá a Auschwitz sente o logro, o engano, a fraude de filmes como aqueles e percebe a resposta do historiador Robert Hughes quando lhe perguntaram qual a obra de arte adequada para lembrar as vítimas em Dachau, Os próprios fornos são perfeitos. Como é que a arte pode superar a eloquência daquele lugar?
Acabei de ler A bibliotecária de Auschwitz, de Antonio Iturbe, relato baseado numa história verídica, mas que coloca Auschwitz-Birkenau a alguma distância de Auschwitz-Birkenau de Primo Levi e muito longe do que nos invade quando entramos nas antigas instalações dos que eram consumidos com ziklon-b.
As descrições dos longos caracóis loiros onde enrolavam os dedos deixam-nos logo de sobreaviso, assim como os diálogos entre mães e filhas onde a etiqueta social é chamada a intervir. Embora o autor conte como conheceu a protagonista na qual a história se inspira, (quase) tudo nos parece encenado e a mim, encenações que envolvam a morte de milhões de pessoas, dão-me que pensar.
Tal como os muçulmanos têm a obrigação de ir pelo menos uma vez na vida em peregrinação a Meca, todos os cidadãos do mundo que se prezem deviam ir a Auschwitz, proclamar a religião do respeito, venerar a memória e aprender com ela.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Dos concursos e dos castigos

Luís Almeida ficou conhecido por ter participado, e ganho, em inúmeros concursos de televisão. Eu participei em dois, ganhei um, mas perdi a conta aos concursos que ganhei fora do ecrã. O primeiro foi à Disney, a Paris, acabada de estrear, presente da Cerelac ou da Nestum, não me lembro, mas que no fundo veio da Nestlé, e o último foi um fim-de-semana no Hotel Palácio de Seteais, esse deslumbre, que ofereci à minha irmã.
Pelo meio ficam viagens e livros, sendo que nunca concorri a nada que não incluísse viagens, ou dinheiro para as fazer. A norma, na quase totalidade dos casos, passa por escrever textos ou frases a propósito de qualquer coisa, logo, não há aqui um factor sorte puro, daí talvez venha a explicação para o facto de nunca ter ganho o euromilhões...
Entre outras, ganhei viagens aos Açores, China, Itália, Espanha, Marrocos, destacado-se meia dúzia de visitas ao prémio inicial, a Disney, muito na moda durante alguns anos.
Agora muitos concursos passam por telefonar e, no telefonema certo, ganha-se qualquer coisa. Ora, como sorte, sorte, não tenho, embora os meus amigos e conhecidos passem a vida a mandar-me informação de concursos para que eu concorra - e os leve! - não tenho conseguido ganhar nada.
Que é feito dos textos que se escreviam e que se publicitavam depois para que todos os participantes pudessem ver quem e como se tinha ganho? Dão muito trabalho e não fazem entrar os milhares de eurozitos que se capitalizam com o negócio dos telefonemas.
Assim, inibida que está a minha participação em encontros profissionais devido à crise, e que em tempos idos me levaram da Grécia à Rússia, da Croácia ao Brasil, de Inglaterra à Alemanha, entre outros pontos, não tendo finanças para ir de férias além da Costa da Caparica, não tendo sorte ao jogo, nem aos amores, diga-se de passagem, resta-me ficar a apreciar este frio, comparando-o com o do Ártico, onde já estive, mas ansiando pelo calor do Sahara, que também já senti, logo, estou como o outro, recordar é viver...
Sugere-me este tema depois de ver o último número da revista Volta ao Mundo, da qual sou fã e que apresenta vários concursos, todos via telefonema. De quem não sou fã é da pessoa que vem na capa este mês, Isabel Stilwell. Não a conheço o suficiente para desgostar, mas garantidamente não sou fã, e o facto de vir na capa de uma revista que idolatro, desgosta-me, sim.
Este torcer o nariz a Isabel Stilwell vem de trás, de uma edição da revista Pais & Filhos, na qual era (é?) colaboradora, na altura em que eu lia a revista em questão, e a propósito de um texto que assinou sobre crianças que, se não me falha a memória, estavam no limite entre o irrequieto e o mal educado. A sugestão para que as aulas decorressem calmas sem a presença dos mais endiabrados, era dar-lhes um castigo. E foi precisamente isso que me levou a escrever-lhe insurgindo-me contra o castigo: mandá-los para a Biblioteca!
Bom, em primeiro lugar, desta vez a escrita não me deu prémio algum, pois não obtive resposta. Em segundo lugar, e consubstanciando o meu argumento para descredibilizar o castigo, senti-me horrorizada por pensar que alguém que estava ligada a uma revista daquela índole podia sequer equacionar a possibilidade de se ver uma Biblioteca como uma espécie de inferno...
A ligação entre Isabel Stilwell e as (minhas adoradas) bibliotecas como câmaras de tortura ficou-me sempre na memória e não a consigo desligar, assim como não consigo deixar de ficar triste de a ver na capa da Volta ao Mundo. Simplesmente, não pegam, mas esta é só a minha opinião, a opinião de alguém que, embora tenha ganho muitos concursos, ninguém conhece.
Ave, senhor engenheiro Luís Almeida e senhora doutora Isabel Stilwell!

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Cidadão do mundo

O meu cunhado voltou a dormir cá em casa e eu voltei a levá-lo ao aeroporto às cinco e meia da manhã.
Brasil, Argentina e Equador são os destinos desta voltinha que nos deixa aqui sempre cheios de inveja, até porque ele não vai para destinos turísticos, antes pelo contrário, visita os países reais, conhece as pessoas a sério, come comida verdadeira feita por naturais que a confeccionam como sempre e sem mariquices para turistas.
A dita inveja concentra-se em mim mais que em qualquer outra pessoa próxima. Ele vai de viagem eu fico a sonhar. Bem me deito e adormeço a condicionar os sonhos sobre ganhar a lotaria para que pelo menos noutra dimensão possa viajar por esse mundo só conhecido pelas pessoas que lá moram e virgem de turistas. Mesmo que eu vá, continuará virgem de turistas, que não sou, os deuses me livrem e guardem!
São as acções que determinam o que somos e eu sou viajante. Engalinho com pessoas que reclamam da comida diferente, dos colchões que são assim e assado, dos transportes, da limpeza, até do ar que respiram. Por que é que não ficam em casa? Assim já sabem com o que contam e não aborrecem os outros.
Numa ocasião, em Istambul - que abraço diariamente por motivos óbvios - num grupo de portugueses destacava-se uma senhora que reclamava contra o facto de as pessoas se descalçarem em certos locais, porque cheirava mal, porque era uma falta de higiene, porque isto e aquilo.
A senhora tinha o modo egocêntrico ligado ao máximo e argumentava que os locais turísticos deviam ter em atenção os costumes das pessoas que os visitavam e deviam providenciar, pelo menos, comida típica dos países de origem dos turistas.
A senhora não sabe ainda hoje que o meu ex-marido a salvou de alguém que estava determinada a tirar-lhe o pó da roupa: eu. Farta de a ouvir, e usando a gíria actual, passei-me. Um grito bem dado ao ouvido de alguém que não está à espera e aguarda ter seguidores nas suas loucas pretensões pode assustar. Ela assustou-se. O meu ex-marido também. Puxou-me um braço e pediu-me por tudo para ficar sossegada. Ela calou-se, eu fiquei quieta mas só me calei depois de ter verbalizado a vergonha que tinha por ela associar a minha origem a comportamentos tão estúpidos. Uma sapatada naquela cabeça e não se perdia nada.
Se há pessoa que se integra completa e imediatamente é o meu cunhado, motivo pelo qual tenho muito orgulho nele: escolhe sempre as estradas secundárias, prefere comer em casa do que no restaurante, apanha qualquer transporte público, dá-se à conversa com toda a gente.
Nos últimos nove meses pôde fazer tudo isto em Portugal, Espanha, França, Itália, Holanda, Tailândia, Filipinas, Índia, China, Estados Unidos da América, Brasil, México e Colômbia, com sequentes repetições e novos destinos, como agora é o Equador e a Argentina.
Pelo modo de ser e de se comportar, pelas línguas que fala, pelo desempenho com as pessoas em geral, o meu cunhado é o verdadeiro cidadão do mundo. 

terça-feira, 11 de junho de 2013

O que são 10 anos?

Tenho andado arredada daqui. Faço-me à pista com frequência mas depois há sempre qualquer coisa que me afasta. E têm sido coisas boas.
Tenho lido e escrito em várias vertentes, que nem uma maluquinha : preparar importantes documentos de trabalho, preparar aulas no âmbito de um seminário específico que me pediram para dar, corrigir trabalhos académicos, ler muito para melhor preparar e fazer tudo o que tenho entre mãos.
São muitas horas seguidas, o trabalho persegue-me e acaba por entrar comigo em casa, acompanhando-me noite dentro.
Não paro de pensar ou, na opinião de alguns que trabalham comigo, não paro para pensar... no mal que isto me faz. Mal? Qual mal, qual quê? Sinto-me bem, raciocino à velocidade da luz, escrevo com desenvoltura em temas poucos férteis em diversidade de linguagem e a cada dia me sinto mais viva. Cansada também, confesso.
E foi pelo cansaço acumulado que aceitei fazer companhia num passeio que ia de Lisboa a Fátima, Batalha, Alcobaça, Nazaré e Óbidos, um passeio turístico com cinco filipinos. Filipinos pessoas, não bolos.
Estes habitantes de Manila em turismo por Portugal conquistaram-me. Não por viveram do outro lado do mundo, não por falarem uma língua da qual eu não percebo nada mas da qual adoro a sonoridade, não por serem muito sorridentes, não pela mescla de línguas que se proporcionavam, pois as crianças falavam inglês e espanhol, o motorista só falava português e o casal, pais das três crianças, expressava-se em inglês, com uns erres a menos, de vez em quando, não por me terem oferecido o almoço, não por pensarem que eu era a guia e me terem querido pagar.
A conquista foi-se dando à medida que íamos comendo quilómetros, que íamos falando e rindo, enquanto eu contava todas as lendas do nosso Portugal, a pedido da mãe, e com todos os olhos em bico muito abertos, ia acrescentando pormenores às histórias, que passaram pelo Pedro e Inês, pelo Condestável, mas também pela longínqua princesa alentejana Salúquia, quando me faltou conversa e ela insistia em mais e mais.
A gota de água da conquista deu-se, não em Aljubarrota, mas quando nos perguntaram a idade.
Devolvi a pergunta querendo saber quantos anos nos davam.
E assim, o motorista com uns escassos 40 anos foi avaliado em 45 ou 46 e a mim foram-me atribuídos uns generosos 38 aninhos. Ora, quem nos tira dez anos é merecedor da nossa entrega, principalmente se fizerem cara de quem não acredita quando teimamos em dizer que são 48 e repetem, 48? Are you sure?
Absoluta, amigos, absoluta. 

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Eu quero férias!

Apesar de não ter um chavo a única coisa que me dá alento é pensar nas férias. Que vão ser boas, que vão ser grandes, que vão ser longas, que vão ser tranquilizantes, que vão ser férias.
Cansada e adoentada, sem vontade de nada mas a esforçar-me para fazer tudo - estive em casa com um pé avariado e tiraram-me sete dias de ordenado, apesar de ter faltado só cinco, pois meteu um fim-de-semana pelo meio, e não me posso dar ao luxo de faltar um só dia - arrasto-me da cama para o trabalho e do trabalho para a cama, carregando as preocupações inerentes ao estado de saúde do meu pai, agudas neste momento, não obstante já estar em casa, e também da minha mãe, cujo amigo alemão a transtorna mais de dia para dia.
No trabalho estamos a passar um pico de intensidade enorme com as equipas de avaliação externas a visitarem-nos de quinze em quinze dias. Cada departamento é avaliado uma vez e os encontros com o pessoal não docente pressupõem a intervenção de um grupo de pessoas, que eu integro, que bota discurso durante uma hora, nada de mais. Porém, e aqui reside o fundamental, para cada visita das equipas de avaliação é preciso reunir a produção científica de cada departamento. E quem é que faz este trabalho? A Biblioteca. Assim, ainda não terminámos um e já estamos a lamber outra lista, a verificar existências, a recolher documentos, a armazená-los, a transportá-los para o local das reuniões, a organizá-los numa exposição que obedece a determinados critérios. Imediatamente a seguir é preciso fazer o percurso todo ao contrário e devolver a documentação aos seus respectivos lugares, ou seja, enquanto cada departamento descansa a seguir à sua avaliação, nós reiniciamos o processo.
Mas como se isto não chegasse ainda há a visita às instalações onde a Biblioteca é examinada in loco pelos elementos da equipa que fazem perguntas e querem ver tudo.
Em resumo, para a Biblioteca é um trabalho de maluquinhos e, apesar de já termos pedido que consultem o catálogo on line, verificando assim as existências, insistem em ver a produção isolada numa sala que, ainda por cima, fica longe da Biblioteca.
Eu quero férias, por favor!
Por inerência de funções assisti a um evento promovido por uma agência de viagens onde a Áurea iria actuar. Fui e vim carregada de sonhos em formato de catálogo, não vi a Áurea, adoentada que já estava não  aguentei mais de uma hora em pé, mas assoberbei a minha sede de férias. Ainda me ri com uma senhora que  me sugeriu vários destinos, pontaria das pontarias, todos já meus conhecidos. Quando lhe disse ela fez cara de quem não acreditava em mim, como se eu estivesse a armar-me aos cucos. Não me passou despercebido o seu olhar à minha roupa - havia dress code e eu não sabia - e algures pela cabeça passou-lhe a ideia que aquela pelintra mal vestida estava a inventar quando dizia que já tinha estado na Rússia e na China, no Sahara e na Jordânia, em vários países das Caraíbas entre outros locais. Confirmei esta sensação no dia seguinte quando uma conhecida minha da agência de viagens me telefonou a comentar uma conversa entre ela e a dita senhora, tendo ela confirmado os carimbos do meu passaporte. Foi só rir.
Mas eu continuo a querer férias, descanso, quero estar com os meus sobrinhos sem horas para fazer nada para podermos fazer tudo ao mesmo tempo, quero planear ir a um sítio e à última hora ir a outro, quero acordar cedo, adoro, para ter a perspectiva de um dia longo de mimos e de conversas. Quero um bocado de sossego. É pedir muito?

sexta-feira, 8 de março de 2013

Saga Chinesa 2

Algures na China profunda, ao fim de uma semana e no dia antes de embarcar para Banquecoque, via Xangai, o meu cunhado recebe uma chamada telefónica. Do outro lado expressam-se com clareza? Para ele aquilo é chinês. Para ele e para qualquer outra pessoa do mundo, porque é mesmo em chinês. Passa o telefone a um dos elementos chineses da comitiva: chegou a mala!
Mais vale tarde que nunca, nunca a lavandaria do hotel fora tão utilizada com as peças que comprara de emergência.
Sugiro-lhe que dê uma de Mr. Bean e ande com a mala ao colo nas próximas deslocações que ainda o vão levar à Tailândia e à Índia.
Nunca estive tão ansiosa pela chegada de um viajante, para ouvir de viva voz estas aventuras únicas, contadas com um jeito sobrenatural, polvilhadas de palavras escolhidas a dedo por um bom conhecedor do dicionário que, não tenho qualquer dúvida, todos os comediantes de Portugal e arredores, adorariam ter nas suas equipas.

terça-feira, 5 de março de 2013

Saga chinesa


Lembro-me de aterrar em Pequim e de ter dado corda aos instintos para perceber alguma coisa. Enquanto no aeroporto de São Paulo há uma pessoa a ajudar a apanhar táxis por uma questão de organização, em Pequim é por uma questão linguística polque poucos falam inglês, os sotaques são alevezados e a falta do l é telível.
Depois de nos desembaraçarmos de todos os que nos querem levar com preços abaixo do que está estipulado, e usam carros particulares que estão em parques de estacionamento que para se alcançarem nos obrigam a andar bem, não perdemos nada e tudo correu sobre rodas se bem que as rodas por vezes fossem quadradas e é preciso dar um empurrãozinho.
Aconteceu isso mesmo quando um táxi nos quis deixar no meio de um descampado apesar dos meus esforços em explicar que não, não era ali que ficávamos, era ali, e apontava o mapa. Vá lá saber-se porquê o taxista insistia que o meu ali, era ali, naquele local. Vi-me e desejei-me para me fazer entender e como queríamos ir para o hotel que ficava ao lado da estação central, imitei um comboio: u-u, pouca-terra, pouca-terra, u-u… O rosto do homem iluminou-se, começou a conduzir e deixou-nos sorridente à porta da estação onde, sorridentes, lhe pagámos e fomos embora.
Nem quero imaginar o que será perder uma mala no aeroporto de Pequim. Principalmente se tivermos lá chegado via Varsóvia, num voo da LOT, vindos de Schiphol na Holanda e se tivermos como destino uma cidade no interior da China a não sei quantos mil quilómetros da capital e não pudermos ficar ali à espera que a maleta chegue.
Melhor que isto só se não tivermos levado bagagem de mão com os mínimos de emergência e tivermos rasgado as únicas calças que temos, as que trazemos vestidas.
Não, não sou eu que sou mázinha, nem isto é o argumento de um filme cómico, são as verdadeiras aventuras do meu cunhado na China.
Lamento que estes desastres lhe tenham acontecido mas agradeço-lhe por umas boas gargalhadas, e como ainda só passaram três dos quinze dias que ele fica por lá, aguardo novos episódios da saga chinesa.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Chamamento


Baku chama-me. Chama-me com tal força e intensidade que, sem nunca a ter visto, sinto-lhe a falta, dói-me a inexistência de contacto físico.
Olivier Rolin, que igualmente me desconhece, escreveu para mim, em forma de chamamento, em letra de grito, de apelo: Baku, últimos dias foi leitura de férias, como quem lê notícias de casa, e se as primeiras palavras fossem Querida Areia às Ondas, eu não estranharia.
Acompanho Olivier como um dos fantasmas do filme Asas do Desejo, porém, não estou morta, estou muito viva e com ânsia de Baku. Neste livro reencontro Ali e Nino de Kurban Said, como quem encara com as neves do Kilimanjaro quando vai ao Kilimanjaro. Volta a mim O Orientalista (obrigada V.!) que adorei.
Baku, últimos dias é literatura de viagens e o plural de viagens é dito com propriedade pois são muitas e múltiplas, simultâneas e em diferido, todas as que se encontram neste livro impecável, sem gralhas, com um papel belíssimo, perfeito espaçamento entre linhas, fonte adequada, margens a condizer: é um objecto de culto por dentro e por fora.
Que Azarbeijão é aquele de Baku nos dias de hoje, que nos remete para um ontem que está tão presente? Que mar é o Cáspio que lambe esta preciosidade persa? Quem é Baku no seu todo, que sinto como uma pessoa? Não sei… mas vou saber.
Edição da Sextante. Irrepreensível. 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O mundo numa casa de banho

Quando andava no liceu e estudei alguns clássicos portugueses fiquei danada com Almeida Garrett. Segundo a professora as Viagens na Minha Terra foram escritas sem sair do quarto!
A minha ansiedade por ler um livro que tinha a palavra 'viagens' no título era grande e fiquei sempre com a sensação de fraude. Odeio a Joaninha desde essa altura...
Agora tenho um mapa do mundo na minha casa de banho, cortesia dos meus sobrinhos no Natal, e podemos abrir a torneira com um olho na Sibéria, tomar duche e molhar o deserto do Sahara, lavamos os dentes sob a supervisão do Alaska e fazemos tudo o que se faz numa casa de banho com o mundo a olhar-nos.
Como é que uma coisa tão simples pode fazer os dias começarem de forma diferente? E por diferente leia-se, melhor! Ver o mundo num quadrado de três por três metros dá-nos uma sensação de poder, como se pudesse decidir que quando abro a porta daquele minúsculo compartimento posso ir a qualquer daqueles sítios... Só não percebo porque escolho sempre o mesmo... Lisboa, ali a meia dúzia de passos do Marquês de Pombal.
O que teria escrito Garrett se tivesse uma cortina de duche como nós?

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Conhecer o mundo

Venerando viajantes e desdenhando turistas fico sempre de olho semicerrado quando ouço alguém dizer que conhece muito bem determinado sítio porque numa ocasião lá passou.
Quando a coisa se compõe para a conversa digo que invejo quem tem a sorte de conhecer muito bem seja que local for, pois eu, e o defeito será com certeza meu, nunca conheço bem nada, pois cada nova visita é uma descoberta nunca completamente assimilada.
Claro que sou esquisita aos olhos de quem conhece França através do relance que lhe permitiu poisar a vista na Torre Eiffel! Este síndroma verifica-se em todo o seu esplendor com o Brasil, onde um mergulho em Fortaleza tem poderes mágicos e dá conhecimentos sobre aquele imenso país!
Certos locais são muito caros, dizem-me, e justificam com a compra duma garrafa de água; não é preciso garimpar muito para se descobrir que a água foi comprada no hotel, hotel esse que alberga galáxias de estrelas que, mesmo falsas, brilham de tal forma que os clientes pensam ser verdadeiras e pagam, nem se dando ao trabalho de procurar um supermercado.
Noutras ocasiões fazem valer opiniões colhidas no tempo dos cruzados, ou por interpostas pessoas, amiúde um cunhado que viveu muitos anos na Suice ou na Alemanha, ou alicerçam-se numa reportagem que deu uma vez na televisão.
aqui falei dum casal que conhecemos em Marrocos, únicos e só possíveis de existir na vida real, como a Falha das Marianas ou qualquer outro erro da natureza, pois nenhum Spielberg teria imaginação para fazer nascer tais personagens, principalmente ela, cujas descrições da Tailândia me foram inesquecíveis, de tal foram que aqui as partilho.
A Tailândia tem imensos hotéis, todos enormes, com soberbas piscinas e empregados m a r a v i l h o s o s! À beira das soberbas piscinas dos enormes hotéis da Tailândia, os m a r a v i l h o s o s empregados dão massagens aos hóspedes! Não! Não são dessas… quer dizer, também devem dar, mas ali, à beira das piscinas são massagens normais.
A Tailândia também tem praias, ou melhor, a Tailândia em si, não sei se tem ou não alguma praia, mas os enormes hotéis têm de certeza! A água das praias é transparente e quente. O comer… bem, o comer… há i m e n s o, nos restaurantes dos hotéis e pode-se comer de tudo vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas!
Com uma descrição assim, e pensando agora no assunto, percebo o trauma que me ficou e, provavelmente, é por isso que nunca lá fui.
Depois há os executivos que conhecem a Europa de fio a pavio! Vão de manhã e regressam à noite ou no dia seguinte mas, mais uma vez, têm uma capacidade de ficar a conhecer as cidades onde aterram que escapa às minhas básicas competências, mas não os inibem de afirmar que conhecem bem Varsóvia ou Frankfurt, pois se ainda há semanas lá estiveram!, e sabem tudo o que há para saber acerca da cidade, por exemplo: em frente do hotel havia um enorme café que servia p’ra cima de cinquenta espécies de café; e a casa de chocolates em Bruxelas? Hein? Nunca se viu tanto chocolate junto… Como se chama? Não se lembram. Onde ficava? Na rua paralela ao hotel. O que comprou? Nada, no hotel davam amostras.
E o Sena? Os passeios que se dão por lá… e antes de ter tempo de perguntar pelos bouquinistes, já ouço que o único senão são os tipos que se espalham nas margens a vender livros velhos e papelada. E incrível como gente mais avançada que nós, os franceses!, deixam que aqueles sem-abrigo por ali andem a encurtar o espaço de quem quer passar! Aquilo é uma Feira da Ladra e é TODOS OS DIAS!
E as jóias da Rainha? Que coisa espantosa… já que foram ver a as jóias, tiveram que ir à Torre de Londres, e que tal? Não, não chegámos a ir, era para irmos, mas à última da hora o tipo que nos devia levar teve um atraso e ficámos no hotel, mas vimos um folheto com as coroas e aquilo tudo.
Engulo e pergunto porque não foram de metro. De metro? Nã… tínhamos pouco tempo, sabes, ainda nos perdíamos…
Nem perco tempo a dissertar sobre a maravilha que é perdermo-nos, o que se ganha em nos perdermos, o que ficamos a conhecer e a riqueza que trazemos para casa.
Raramente pergunto por Museus não vá a resposta enfurecer-me e eu nem sou muito amiga de museus, é mais ruas e pessoas e cheiros e sabores e sensações e empedrados e mercados e ventos e rugas e risos e estações e terminais de transportes.
Serve tudo isto para pedir que não me digam – digam a outras pessoas, há por aí tanta gente – que conhecem bem esta cidade ou aquela, pela simples razão que é uma enorme mentira.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Cockpit girl

Estou a fazer um trabalho sobre o impacto da adesão ao Processo de Bolonha no quotidiano das bibliotecas universitárias. Decidi contactar 3 universidades em cada um dos quase 30 países que assinaram a Declaração e tenho andado nesta odisseia que se me afigura um trabalho de Hércules mas com evidentes vantagens e momentos que me fazem lembrar as duas caras de Janus: de um lado está a dificuldade em ler russo, ucraniano, arménio ou grego; a metodologia passa com frequência por um processo de adivinhação, em que procuro na amálgama de caracteres uma arroba e sei que ali está o endereço electrónico… ou pelo menos, um endereço electrónico. Por outro lado, está a magia desses mesmos caracteres, belíssimos, a mostrarem a minha gigantesca ignorância e a levarem-me a questionar repetidamente sobre o que se perde por não se dominarem línguas. Cresce em mim uma vontade de, como diria o V., comprar livros e um dicionário e ir lendo devagar, memorizando palavras, construindo frases, aprendendo.
Depois deste levantamento, ou melhor, durante, pois ainda vai a meio, cresce-me a sensação que o mundo não é grande, até está ao alcance dos marinheiros que se fazem a ele, mas está cheio de descobertas a fazer, descobertas essas que não são segredos, estão até bem à vista, sendo apenas preciso querer vê-las.
Nesta maratona não busco só os contactos das bibliotecas, procuro o nome dos responsáveis, para lhes escrever directamente, o que considero importante para uma taxa de feedback de sucesso. Uso o tradutor do Google como bengala pois, se Universitat d’Andorra não trás qualquer problema de leitura, embora seja em catalão, já თბილისის სახელმწიფო უნივერსიტეტი torna díficil perceber que nomeia a Universidade Estatal de Tbilisi na Geórgia. E foi assim que do Azerbaijão à Holanda, da Arménia ao Vaticano, passei pela Polónia e encontrei o director duma biblioteca universitária escolhida ao acaso: Blazej, de seu nome.
A alegria foi grande de tal forma que parei a pesquisa, usei o Google images para verificar que era aquele mesmo e escrevi-lhe em seguida.
Conhecemo-nos há muitos anos num congresso de bibliotecários em Creta e no regresso voámos juntos até Atenas, onde ele regressou à Polónia e eu apanhei um voo para Amesterdão, depois para Frankfurt e finalmente para o Porto, tudo para conseguir estar na Invicta a tempo de abraçar um primo muito querido no dia do seu casamento.
Blazej estava cansado de andar de avião mas nunca se tinha sentado no cockpit, conversado com um comandante em pleno voo e nunca tinha visto o horizonte, o céu e a terra daquela janela privilegiada onde poucos têm acesso. Ao contrário, eu já o tinha experimentado várias vezes e a minha grande vontade e curiosidade genuína já me tinham levado a levantar voo na cabina bem como a pilotar um helicóptero. Ainda me falta fazer uma aterragem no cockpit, o que depois do 11 de Setembro torna as coisas mais difíceis, mas é preciso não desistir e acredito que um dia lá estarei.
Sentados sob o mar grego a furar o céu, levantei-me, falei com uma hospedeira, disse-lhe que o meu amigo adorava ver o cockpit e pedi a devida autorização que foi concedida. Poucos minutos depois a hospedeira dirigiu-se ao meu companheiro de viagem e disse-lhe que o comandante o convidava para o cockpit. Quando regressou vinha com lágrimas nos olhos, feliz e agradecido.
Escrevemo-nos muitas vezes, ele chamava-me cockpit girl, eu sorria procurando palavras em inglês para lhe responder. A vida e os problemas informáticos fizeram-nos perder o contacto. Há anos tentei encontrá-lo na Polónia, mas não me lembrava do apelido e só o nome próprio não foi suficiente.
Agora, ao virar duma esquina, leia-se página da internet, aqui está ele.
E quando pensava que ele não se lembrava de mim, sou surpreendida pela mensagem de resposta onde ele pormenoriza a viagem de avião e outros momentos em Creta.
Tenho que sorrir.
Há dias falei dele aqui, a propósito duma igreja em Hania, cuja descoberta e visão me enriqueceram para toda a vida. Na mensagem de resposta pede-me uma carta longa, a contar tudo. Vou escrevê-la, pois claro, mas devagar, bem devagar, para prolongar este momento tão feliz e porque a vou escrever em polaco!
Cada vez mais sinto que quando nos deitamos ao trabalho, trabalho que dá prazer, somos recompensados, e quando a recompensa calha em vir sob a forma de amizade, de reencontro, de partilha, de saudade morta, é a magia a acontecer na nossa vida.
Dziękuję, Blazej.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Uma coisa com muita importância

Um dos grandes, mas mesmo grandes prazeres da vida é oferecer coisas, livros à cabeça, mas na lista estão igualmente as bonecas que trago à minha sobrinha dos locais que visito, a renovação de electrodomésticos para os meus pais, magnetos para os frigoríficos dos amigos e tudo quanto me lembre para o meu filho. Umas vezes maiores outras menores, por vezes nada, não porque me esqueça, mas porque não pude.
Não nego que sinto igualmente prazer em receber: alguém se lembrou de mim e isso é maravilhoso, seja um marcador de livros - recebi um da Irlanda há duas semanas - uma bela pintura africana - que veio de Angola há alguns meses e já tem moldura - ou um par de chinelos de quarto - vindos de uma Paris africana que os turistas nem sabem que existem. Os exemplos não teriam fim e acho que muitas vezes as pessoas não percebem como fico contente, ou talvez seja eu que não me manifesto o suficiente.
No meio disto tudo há uma coisa que não percebo: quando alguém dá uma coisa a outro alguém, na maioria das vezes, faz acompanhar o presente com uma frase que me põe os cabelos em pé: 'É uma coisinha sem importância'.
Ora bem... se é sem importância, não a quero. Se é sem importância, porque ma deram? Se é sem importância porque se deram ao trabalho de a comprar e trazer? Não percebo...
Quando dou seja o que for a alguém, mesmo uma coisa pequena, minúscula, nunca é sem importância mas, pelo contrário, vive nela toda a importância que dou à pessoa a quem a entrego, seja um livro usado ou um carro. É uma lembrança e na minha lembrança esteve a pessoa a quem dou a lembrança, que contém a pessoa que eu sou. Porque havia de ser 'uma coisa sem importância'? Perceberão as pessoas que dizem aquilo o quão materialistas são? Duvido.  

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Com um brilhozinho nos olhos

No segundo dia de estadia em Madrid fui visitar um bibliotecário que me tinha anteriormente contactado para fazer Erasmus na minha biblioteca. Deparei-me com um jovem a rondar os 30 anos, bem-disposto e alegre, que me convidou para um café e me cumprimentou como se eu fosse da família.
No primeiro contacto por escrito, não sei porquê, dissera-me que estava de regresso de uma longa viagem e foram estas as palavras-isco que me prenderam sem ele fazer a mais pálida ideia.
Desinteressada de grandes preliminares fiz a conversa avançar rapidamente e perguntei que longa viagem era aquela. Resposta:
- Samarcanda, Vietname e Cambodja. Já ouviste falar de Samarcanda?
O pobre do rapaz não fez, não faz, nem fará ideia do efeito que teve sobre mim e provavelmente pensou que o meu tímido ‘sim’ seria um ‘não’ que eu envergonhadamente queria esconder. Mas este pensamento só surgiu depois. Depois das palavras entrarem em mim, formarem um remoinho, provocarem uma onda submersa, com efeitos de tempestade tropical mas numa floresta sem vivalma, de modo que ninguém vê. Alguns dos meus músculos petrificam ao sabor de certas palavras que têm uma conotação mágica e José Ignácio conseguiu com apenas um acorde dizer três delas: Samarcanda, Vietname e Cambodja, ganhando a minha dedicação e atenção total sem o perceber e sem sonhar como é difícil alguém conseguir um feito épico desta natureza.
É claro que tudo isto tem enormes doses de inveja e ciúme e, sem dar a entender, projectou-se uma bela longa-metragem na minha cabeça: Samarcanda igual a Alexandre, igual a fabrico de papel, igual a Gengis Khan, igual a Marco Polo, igual a Rota da Seda, igual a sultão, igual a desejo.
Depois de algumas explicações sobre a viagem, começou a falar português e eu acordei do transe. Queria praticar e combinámos que cada um falaria a língua do outro.
Temendo estar a impor-lhe a minha companhia desviando-o do trabalho, fui embora com a promessa de me ir despedir antes do regresso a Lisboa. Disse-me que nesse dia arranjaria mais tempo para falarmos e foi assim que José Ignácio ficou hibernado o resto da semana.
Como alterei a data de regresso, disse-lho por msn e combinámos ‘tomar un vino’ na minha última noite.
Esperei que não trouxesse companhia e a trazê-la, que fossem os companheiros de viagem pois, para ser franca, o que me interessava verdadeiramente era ouvir o relato, de preferência nas línguas dos países visitados, mas também aceitava espanhol ou português com erros. Combinámos no quilómetro zero que eu, tão ansiosa estava, confundi com uma porcaria duma placa na parede que anunciava uma joalharia com o mesmo nome, e à porta da qual um vagabundo bebia e falava sozinho.
Já passavam quinze minutos da hora marcada e pensei que se atrasara pois decerto convidara alguém, colegas de faculdade talvez, da sua idade, que o ajudassem a conversar com a portuguesa que o iria receber em trabalho dentro de meses e com quem tinha que ser simpático. Dei-lhe mais quinze minutos, ao fim dos quais, se não dissesse nada, me iria embora pois não estava para aturar um bando de jovens atrasados que me levariam a um sítio turístico com certeza, onde se falaria muito alto e onde eu não poderia atingir o meu objectivo, ouvir a descrição da viagem.
Surpreendi-me com um telefonema dele a perguntar se estava tudo bem e se eu estava muito atrasada… Atrasada? Eu? Bem, lá esclarecemos o local do quilómetro zero, eu apelidei-me de tonta mas sorri porque ele fora sozinho.
Primeira paragem: cerveja com batatas fritas e anchovas. Tipicamente madrileno, segundo ele, encostados ao balcão, eu com uma mala com um caderno e o meu Kerouac, ele com um monte de papéis.
Segunda paragem: Los Gatos; cerveja e polvo à galega, apinhados com gente a falar e a rir e onde me foi jurado que o local estava vazio. Normalmente não se consegue entrar e do balcão vão passando as cervejas de mão em mão aos clientes pois o empregado não consegue passar.
Terceira paragem e seguintes, só cerveja e muita conversa: sobre a vida, as viagens, os emigrantes, os livros e mais mil coisas, até que ele comenta que agora está mais seguro pois ficou efectivo no trabalho: era arqueólogo e nunca sabia se tinha trabalho ou não, se as verbas chegavam para dar continuidade a escavações em Toledo onde vivia. Registei o facto de ser arqueólogo (tanto que havia a dizer sobre isto…) e com ar maternal perguntei-lhe se podia dar-lhe um conselho; entrei por um discurso sobre a sua idade, falei do caracter chinês comum a crise e oportunidade, falei da velha divisão das pessoas em momentos de crise quando umas choram e outras aproveitam logo para vender lenços, que não tivesse medo da vida, que não se apegasse a empregos que fariam dele uma fotocópia dos pais, que vivesse a vida de olhos bem abertos, para aproveitar e não deixar escapar oportunidades, que o mundo é de facto maravilhoso mas tem que ser explorado, visto com olhos de ver, ao vivo e a cores. Enfim, fiz-lho o discurso nº 1 para alunos cujo objectivo é licenciarem-se e de repente acordam com prestações de casas e carros e móveis e no meio desta vida rotineira e pesada fogem os sonhos que morrem sem alimento.
Ele ouviu-me a sorrir – a esta altura já tinha desistido de falar português embora eu seguisse num espanhol amantizado com a nossa língua materna – e perguntou-me que idade achava eu que ele tinha. Percebi imediatamente o fulgor da sua juventude a sentir um qualquer ataque, como tantas vezes acontece com o meu filho cuja idade o faz pensar que sabe tudo e vê os conselhos dos mais velhos como palavras ocas. Ou seja, concluí que falara demais…
Disse-lhe que não lhe dava mais de 32 achando que estava a ser generosa em lhe aumentar a idade e a resposta foi uma sonora gargalhada que subiu mais alto que todos os outros barulhos juntos. Tirou a carteira e provou que era quase da minha idade…
Continuou a rir e disse saber ter este efeito nas pessoas. Pagámos e saímos, para voltarmos a entrar mas desta vez num local com mesas e cadeiras onde nos sentámos e me contou o percurso de vida por alto, e eu senti-me dentro de Hudson, com Dean e Sal, a ouvir as suas descrições.
Por entre relacionamentos amorosos estivera em Toledo e em Dublin a viver, era arqueólogo, desistira depois a meio do curso de Direito por não lhe dizer nada e um dia descobrira as bibliotecas sobre as quais está a fazer um master e onde trabalha há anos.
Este percurso interessava-me cada vez mais e acabámos por ir embora quando a empregada nos veio pedir o dinheiro dizendo que iam fechar.
Fecham eles mas não a nossa conversa. Entrámos noutro bar, com cadeirões de verga e grandes cinzeiros que não eram para as beatas mas para as cascas de pipas. Não sei como, mas a conversa foi dar aos sobrinhos e ambos tínhamos uma enciclopédia para debitar. Ainda as histórias da miudagem iam a meio quando o dono nos põe a conta à frente, dizendo, Vamos fechar! Já?
Andámos pelas ruas a falar de diferentes cidades europeias, africanas, asiáticas. Está tudo fechado. De repente aparece um jovem a perguntar se queremos beber alguma coisa… ele conhece o sítio certo. Vamos? Vamos!
Começámos a andar como se a polícia viesse atrás de nós numa rua a subir que nos extenuou. Finalmente chegámos a uma porta que quando se abriu nos atacou a visão e a audição com luzes a mexerem-se rapidamente e música de discoteca…
O ‘tio’ que nos levara recebeu imediatamente a propina do que estava atrás do balcão; olhámo-nos mutuamente perguntando-nos em silêncio se ficávamos ou não. Porque não? Será diferente de tudo.
Em Madrid não há excepções para locais de fumo, nem com chaminés, exaustores, o que seja. É proibido e pronto. Por outro lado, não se pode estar à porta de copo na mão, a polícia não deixa. Então bebemos uma cerveja e saímos a fumar. Explico que em Lisboa se pode beber na rua e os bares e restaurantes aderiram à moda de colocar mesas de pé alto às portas, nos passeios, para satisfazer os clientes fumadores.
Concordámos que a hospitalidade portuguesa é maior que a espanhola e ele contou-me episódios passados em Portugal que comprovaram isso mesmo. Disse-lhe que o meu avô adoraria ouvir a conversa e contei-lhe um momento caricato doutros tempos: o meu avô foi ao Rosal de la Frontera, a aldeia mais próxima da sua, não obstante ser espanhola, e entrou numa acesa discussão com um espanhol, cada um argumentando que o chouriço do respectivo país era melhor que o do outro! Ora como a discussão era acompanhado de vinho, rapidamente tomou proporções épicas e acabaram os dois na esquadra da Guardia Civil a passar a noite. O meu companheiro de noitada disse-me com ar sério que se via também obrigado a defender o chouriço espanhol e acabámos a rir.
Quando saímos do tugúrio vi-me diante do Prado. Tínhamos andado assim tanto? Espreitámos o Monumentos a los Caídos por Espanha que vivia na minha ignorância. Eram quatro da manhã e estávamos com as caras encostadas aos ferros, eu aluna a ouvir, ele professor a explicar que a maioria das pessoas confundem o monumento com o do Vale dos Caídos, sem saber que me provocava uma certa tristeza por eu ser uma delas.
Nesse momento recordei uma noite magnífica em Hania, na ilha de Creta quando um companheiro polaco chamado Blazej – também bibliotecário – me levou descalça, para não acordarmos alguém, por um labirinto de ruas estreitas onde ele desencantara uma igreja ortodoxa na noite anterior, cujo chão estava coberto de velas acesas, numa manifestação de fé que as correntes de ar pareciam ser incapazes de parar. Aquilo era tão belo, tão sereno, tão inesperado, tão autêntico, tão nu, que acabei por perder os sapatos e tive que voltar atrás a buscá-los.
A experiência em Madrid não se revestiu do misticismo da de Creta, mas fez-me pensar que a maior parte das situações inesperadas que me acontecem e que não esqueço, são proporcionadas por perfeitos desconhecidos.
As cinco da manhã já se vestiam e aprontavam para sair à rua quando cheguei ao hotel. O meu companheiro e eu despedimo-nos com um afectuoso abraço, mas como quem se vai encontrar de novo no dia seguinte. Não faço ideia de quando será o dia seguinte, mas penso que fiz um amigo e coisa mais preciosa no mundo não há.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Tradição no Jardim Botânico

Vou ao Jardim Botânico comprar um livro de desenhos de Mutis. Na entrada explico que não tenciono visitar o JB mas apenas aceder à Biblioteca, Livraria, Centro de Documentação, o que seja. A rapariga que vendia as entradas diz-me que não há nada disso no JB e aponta-me uma barraca que vende pacotes com sementes e folhetos explicativos da melhor altura para plantar ervilhas-de-cheiro. Digo-lhe que o que procuro não está decididamente ali, mas ela continua a indicar-me a loja das plantas enquanto me faz sinal para que me desvie pois a fila cresce atrás de mim. Insisto, digo-lhe que estão à minha espera! Acreditou na minha mentira e lá agarrou no telefone conseguindo fazer-me até sorrir pois disse que estava ali uma ‘chica’ que procurava a livraria ou a biblioteca. Lá a esclarecem e com um pedido de desculpa indica-me a localização: fica exactamente do lado oposto onde estávamos. Vou até lá e sou recebida como se fosse a própria Rainha Sofia: era a única cliente.
Depois duma agradável conversa com a bibliotecária, de me ter informado que tudo o que eu queria estava online com as respectivas indicações para a autorização de publicação, de me ter oferecido lâminas com imagens, uma delas belíssima, com a correspondência que Lineu fez da botânica para o alfabeto, fiz-lhe a reclamação sobre o incidente à entrada.
Contou-me que recebiam e-mails de pessoas a dizer que estiveram à porta do JB mas não encontraram a Biblioteca, que os problemas de comunicação eram muitos e que quase não acreditava que eu, estrangeira, ali tivesse conseguido chegar; que era uma situação recorrente e que não se conseguia fazer nada.
Sorri, despedi-me e pensei que afinal não é só em Portugal que estas coisas acontecem: identifica-se um problema, a solução é duma facilidade atroz e, no entanto, encolhem-se os ombros e deixa-se a tradição continuar a ser como era.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Pincelada de Prado

Não me lembro rigorosamente nada do Prado. A entrada seria outra? A envolvência teria mudado assim tanto? O Alzheimer é já tão grande? Nada disso. Não me lembro porque nunca lá fui, embora conheça e seja amante de algumas das peças.
A visita mais prolongada a Madrid foi há alguns anos com marido e filho, como atestam algumas fotografias; a memória mais sólida desta viagem é o olhar fixo do Duarte, com 7 ou 8 anos, diante de Guernica. Já eu tinha tirado todas as medidas ao quadro, virado e revirado a cabeça para apreender mais esta e aquela perspectiva e ainda ele estava absorto num primeiro contacto prolongado, o do choque. Olhos vidrados, movia-se para tirar as pessoas do seu ângulo de visão e continuava a olhar, como alguém que põe uma garrafa à boca e só descansa na última gota.
Com a minha queda para estações e terminais de transportes estivemos em Atocha, mas não no Prado, ali mesmo ao lado. Não me lembro porquê, mas algo me diz que o meu marido deve ter decidido que os bilhetes eram caros e que já tinhamos visto muita coisa e assim ficámos. Se houve a discussão do costume apaguei-a da memória.
Agora, finalmente, visito-o como quem visita um velho amigo com quem estamos em dívida.
Não percebo nada de pintura mas sei o que gosto, o que me impressiona, o que me faz suster a respiração, o que me choca, o que me arrepia, o que me provoca lágrimas, o que me prende durante uma hora seguida, o que me deixa indiferente e o que detesto.
Comecei pelo choque negro de Goya. Composições horríveis que, não obstante, sempre me fascinaram quando via as imagens. Os originais deixaram-me estarrecida.
Passei para a magnificente luminosidade de El Greco e concluí que só vendo-os nos apercebemos da sua profundidade e da dimensão poderosa, que nos faz ter vontade de ajoelhar perante aquele tudo que se mete cá dentro duma forma inexplicável: não há imagens dos quadros que revelem a luz interior de cada composição e cada quadro é uma janela para dentro dele mesmo, um astro com luz própria.
Dei comigo com lágrimas nos olhos diante dum Rembrandt, sem saber quem era o autor, mas presa no acetinado da pintura.
Deixei Diego para o fim. Por ser uma espécie de dono do Prado, o anfitrião de todos os outros, por ser absolutamente maravilhoso, fazer parecer tudo tão fácil, tão próximo.
Não gosto de museus mas sempre que visito um sinto-me mais rica. E neste dia fiquei de barriga cheia.

Fazer nada

Gosto de me levantar cedo para poder fazer nada. Esse aparente nada transforma-se sempre num cumprimento ao dia por onde vejo os outros passar a correr sem o verem, como se fosse um filme diante dos meus olhos.
Tantos destinos, tantos compromissos, tantas pressas e eu de conversa com o dia, paciente com ele, a deixá-lo espreguiçar e vendo uma cidade inteira a pendurar-se-lhe nos braços.
Enquanto espero que o dia se torne adulto, e todos os outros ocupem o seu lugar nele sem sequer o verem, identifico barulhos e ruídos, vejo as sombras mudarem de posição, as luzes das ruas apagarem-se, as tarefas rotineiras abrirem-se como torneiras.
O céu veste-se de azul natural, dando-me o privilégio de não ver outras roupagens, cinzentas, que me fariam perder alguma boa disposição.
Depois deste exercício de observação estou pronta para começar a trabalhar, sem sono, consciente que cumpri um ritual religioso ou pagão, que me encaixei no dia e não o deixei passar por mim anónimo, sem história.
Ao fim do dia passo pelas Portas do Sol, enfio pela Arenales. A entrada no céu não deve ser muito diferente: entardecer quente, jazz tocado no meio da rua e uma banca de livros usados, como piscina de água cristalina e fresca. Passo os dedos pelos livros, leio os títulos e o papel velho sorri-me, como fazem os velhos amigos.
O próprio tempo senta-se neste fim de tarde, parado, e se cães houvesse não ladrariam, sossegados pela ternura da luz que se esvai.

A mi me gusta camiñar

Saio do hotel convicta que o passeio até à Universidade é coisa de crianças. Avenida Carranza abaixo, Alberto Aguillera acima e decido perguntar pela primeira vez. Vou bem, mas sugerem-me que apanhe um autocarro.
- No, gracias, a mi me gusta camiñar.
Como não fui explícita, vejo-me diante duma Faculdade da universidade, mas que não fica no campus.
Nova pergunta, nova sugestão sobre o meio de transporte a apanhar.
- No, gracias, a mi me gusta camiñar.
Ora bolas, não há-de ser assim tão longe, pensa a minha teimosia.
Com o estúpido objectivo de ver uma montra, eu que até nem gosto, acabo por me meter por um atalho e confiar no meu inconfiável sentido de orientação.
Nova pergunta, a mesma sugestão do autocarro, e logo eu:
- No, gracias, a mi me gusta camiñar.
Chego ao Museu da América e avisto o nome da Universidade do outro lado da estrada. Porém, o piso é desnivelado, a estrada é uma via rápida – que nem parece pois está tudo parado – e tenho que ir até ao fundo da rua e numa rotunda passar para o lado contrário até ao edifício que diz Universidade Complutense.
Finalmente!
A uma das entradas pergunto pela Biblioteca central e digo o nome da pessoa que me espera.
Dizem-me que não é ali e que apanhe o autocarro G, que me deixará à porta.
Há uma hora e quarenta e cinco minutos que saíra do hotel e agora sim, estava no momento certo de aceitar as sugestões de meia Madrid. Entrei a pensar que gastara 1,5€ por uns cem metros, mas nove paragens à frente os meus pés agradecidos sorriram-me pela primeira vez nesse dia.
O acolhimento foi efusivo, a simpatia grande; a meio da manhã na cafetaria o número de bibliotecários por metro quadrado fazia aquilo parecer um congresso, com a diferença que nos congressos só me falam os conhecidos e ali fui apresentada a todos, distribuindo apertos de mão e repetindo ‘Encantada’ como uma máquina. Mas a verdade é que estava mesmo encantada.
Quase às três da tarde saí e apanhei o primeiro autocarro que passou que, infelizmente, me deixou a meio caminho. As roeduras nos pés falaram mais baixo e fiz o resto do percurso a pé. Passei pelo hotel, tomei banho e saí fresca como uma alface para a tarde madrilena, quente e acolhedora.
Amanhã há mais, com trabalho sério, reuniões marcadas, mas a tarde será no Prado.

Ao lusco-fusco

A Plaza Mayor de Madrid não é a mais bonita de Espanha. Mas é imponente com a estátua equestre de Filipe III que lhe confere o enquadramento nos modelos de praça real da Europa, disseminados desde França, quando se pretendia incutir a soberania da figura real, mesmo em noites de chuva e lama, sem público.
Sentada a uma mesa perscruto os telhados da praça enquanto o lusco-fusco boceja. Antes de a noite tomar o seu lugar, já os candeeiros estão acesos, pedem-se tapas e cañas e dou com os olhos na improbabilidade: um estendal olha-nos de um dos telhados da praça, ondulante, branco, sereno, alheio à comida, aos turistas, à estátua, ao próprio tempo. São oito ou nove peças de roupa, algo distantes, como se a História se tivesse esquecido delas ali.
Pela enésima vez lamento não ter máquina fotográfica, mas desta vez lamento mais, lamento não conseguir correr atrás do lusco-fusco e trazê-lo de volta para segurar o estendal branco à luz rosada e alaranjada dum momento que não mais se repetirá.
Esqueço-me que tenho uma bolsa que me paga a alimentação e peço o mais barato da lista: frango; acompanhamento: batatas fritas, na modalidade de palha e na quantidade de onze. Comento com a minha irmã que sugere que a lógica seja a das senhas do carrossel, onde compramos dez viagens e nos dão uma senha grátis.
Os onze elegantes palitos fazem companhia ao cume, e só ao cume, dum peito de frango. Para quem se levantou às sete, trabalhou quase até às três e caminhou todo o resto da tarde, aquilo não é nada.
Ora bem, o que é que me apetece? Hum… Queijo! Peço um pratinho que me custa 17 euros e do qual só consigo meter metade. Instintivamente penso que já tenho pequeno-almoço para o dia seguinte: guardo a metade do queijo e o pão num guardanapo, com quatro americanos candidatos ao Biggest Loser a olhar-me. Apetece-me dizer-lhes:
- Já só há este… e é para mim…