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sábado, 22 de outubro de 2011

Cal

Boa noite José Luís Peixoto
Hoje de tarde fui ao médico, sabe? Não sei como aconteceu, baralhei-me nas horas e cheguei uma hora mais cedo; fiquei na sala de espera que tem uma maquineta para tirar senhas muito sofisticada, uma para consultas a marcar, outra para consultas marcadas, mas para avisar na recepção que já chegámos, outra só para pedir receitas, outra para carimbar papéis depois de sairmos da consulta e outra para não me lembro. Há muitos velhos ali e raros são os que chegam e esticam o dedo e carregam na tecla certa à primeira; a maioria olha, olha, e não sai da indecisão até que uma alma caridosa pergunta o que foram fazer e lhes tira a senha, mas nem por isso lhes resolve o problema pois a chamada faz-se num quadro electrónico cheio de cores que se misturam, como se a falta de vista dos clientes não fosse suficiente para dificultar a leitura, e a idade ajudasse a percepção do raio do quadro.
Sabe José Luís, eu sei que as coisas se passam assim porque já lá fui mais vezes mas hoje não vi nada disto. Comecei a ler Cal de manhã no metro e acabei na sala de espera do consultório. Sei que leio depressa, mas a leitura da sua escrita dá-me urgências ainda maiores que as normais, o que se torna engraçado porque tudo é sereno e dá-me a sensação de que escreve devagar, inspirando e expirando cadenciadamente a cada nova palavra.
Ontem acabei de ler uma pedrada, daquelas que nos fazem sorrir e ficar felizes, mas a sabermos porque sorrimos e estamos felizes: Deixem Falar as Pedras; e há um ritmo, um bater de pezinho, um cantarolar na escrita do David Machado que não há na sua, que é duma tranquilidade que leva às lágrimas, duma envolvência que se mete no sabugo das unhas. Nenhum Olhar já me tinha feito chorar, e outras palavras suas, como o Livro também, estão aqui, ali, está a vê-los?, em lugar sempre aquecido, mas Cal tocou-me particularmente e vou explicar-lhe porquê.
Zé Luís, posso tratá-lo assim?, Zé Luís eu também sou alentejana e vi a minha avó Nicácia na Cal, e lembrei-me da caleira que estava sempre no quintal de cima, dura que nem cornos e que se reavivava todos os anos antes das festas de Nossa Senhora do Ó, quando era tudo caiado. Eu só ajudava se não estivesse com aquilo, que era a forma da minha avó aludir à menstruação, pois quem mexia em cal quando estava com aquilo ficava louca.
Os braços da minha avó eram moles como doce de ovos, mas eram mais lindos que os braços da Júlia da farmácia, ai pode apostar com quem queira! Quando a minha avó se zangava largava conhos até dizer chega, sem saber várias coisas, como por exemplo o que queria aquilo dizer e sem saber que levava til porque a minha avó não sabia escrever, só fazia o nome e punha o dedo. Mas sabia contar e desenvolveu um esquema próprio para a ajudar nas contas do talho e saber quanto era meio arráte, nome pelo qual chamava ao arrátel, quando uma família comia metade de metade de quilo de carne durante uma semana.
A minha avó fazia meia com um sistema de quatro agulhas, meias grossas de linha que aqueciam os pés do meu avô. O calcanhar era o mais difícil, mas ela fazia aquilo rápido e não se enganava. Quando não fazia meia, nos fins de tarde de Verão, sem tamanho que se conseguisse medir, penteava-se com um pente de finíssimos dentes e cá dentro eu sabia que ela tinha sido a inspiração para a bela infanta, no seu jardim assentada, com o pente de oiro fino, seus cabelos penteava. Que dúvida podia haver?
No dia da procissão a minha avó tirava o avental, nos outros dias mudava-o. Mesmo quando vinha a Lisboa, que detestava, vinha de avental, um avental próprio para sair onde ela guardava o lenço para se assoar e para lhe limpar lágrimas que sempre lhe escorriam sem saber porquê. Eu é que não sei porquê, percebe Zé Luís?, ela talvez soubesse.
A avó Nicácia e o avô Gualdino – e aqui paro de escrever, procurando as palavras certas que, não só não encontro, como parece-me bem que não existem e terei que procurar umas aproximadas – a avó Nicácia e o avô Gualdino são presenças muito fortes na minha vida e o Zé Luís hoje apareceu-me de mão dada com eles, assim, de repente, de forma inesperada, até à sala de espera do consultório, onde qualquer um dos que lá estava podia ser um deles, mas apenas um estava com alguém que podia ser eu. Os outros estavam sozinhos.
A casa da minha avó tinha três quintais: o quintal, o quintal de cima e o quintal das galinhas.
O quintal era florido, como a dona, na altura certa ficava com um chapéu de videiras que nos abrigava a nós também daquelas calorinas e tinha um poço; era no quintal que estava o tanque que deu origem a muitos gritos dela a pedir-me para deixar de lavar roupa às três da tarde de Julhos e Agostos no Alentejo profundo com temperaturas a tocar 50 graus.
O quintal de cima tinha laranjeiras, leiras de hortelã, poejos, coentros e outras ervas e a lenha. O gigantesco monte de lenha era outro planeta habitado por gatos essencialmente, mas também por ratos e outros bichos cujas casas eram demolidas quando o meu avô ia buscar barrotes para o lume.
O quintal das galinhas tinha galinhas, porcos, vacas, uma mula e um macho, patos, coelhos, mas as galinhas tinham um qualquer lugar especial e davam o nome ao quintal. A minha avó passava muito tempo a migar restos para as galinhas e ficava com os dedos retalhados, mas de cor normal. Quando retalhava azeitonas ficava com as mãos pretas; eu descascava laranjas para lhe juntar as cascas. Ela depois metia lá as mãos e como que amassava as azeitonas com a laranja, os orégãos aos molhos e apetecia-me cantar.
A minha avó, Zé Luís, era gorda como uma mesa redonda, mas o espaço que ela ocupava era muito maior que o espaço quadrado em si porque ela era um mundo, ou dois. Era um mundo do passado que sabia coisas que estavam adormecidas, não mortas, caso contrário não apareciam ali densas, a solidificarem com as palavras dela em estórias do antigamente. Era um mundo do presente porque nem o mundo seria mundo se ela não existisse, com o seu cabelo comprido que compunha num monho com ganchos e se deixava rir quando eu lhe dizia que ela o devia cortar. Ai Zé Luís, as crianças…, as crianças são boas pessoas mas são tolinhas, então já viu, eu a sugerir que ela cortasse bocados dela própria?
Ela tinha um forno onde fazia pão, às vezes, poucas, e muitas vezes fazia bolos. E fazia café numa cafeteira preta que se confundia com o lume no chão e era bom como nada que eu tivesse provado entretanto e se lhe metesse um bolo do cozido partido aos bocados, valia a pena morrer a seguir porque morria feliz e lambuzada.
Sabe que ela me deixava usar o garfo do meu avô? É verdade. O meu avô só comia com um certo garfo que era diferente dos outros e tinha um cabo de madeira; quando ele não estava ninguém lhe mexia, como se fosse um objecto sagrado; mas eu podia comer com ele… era como deixar a pequena princesa brincar com a coroa da rainha. Sei que me entende.
Muitas, muitas, muitas, muitas vezes fui com a minha avó à loja: à do Campaniço, à do senhor Caetano. O senhor Caetano era mais rico que o Campaniço e chamava-se-lhe senhor antes do nome; com o outro ia-se directamente ao apelido. Um pão ou um pacote de arroz era epopeia para uma manhã bem medida. Saíamos de casa na Coitada, descíamos até à ribeira, com muitas escalas pelo caminho, falando com toda a gente, como se não se vissem há meses, depois entrava-se na loja e estava feita a primeira etapa. Na loja passavam-se horas e repetia-se muito uma frase que me fazia rir, ‘ai, despache-me lá primo, que eu tou cheia de pressa’, mas deixavam-se ficar. E a minha avó também reclamava do vagar mas contribuía para ele e eu percebi que aquilo fazia parte do teatro de ir à loja, fosse à do Campaniço, fosse à do senhor Caetano. E depois havia sempre uma guloseima para mim. Sempre.
Quando entrei na universidade o meu pai não recebia ordenado há meses e eles mandaram-me o dinheiro para os livros, já falei disso muitas vezes Zé Luís. Sabe, demorei muito tempo a perceber, mas hoje sei porque é que as lágrimas se assomam à janela dos olhos quando entro no metro e há alguém a tocar um instrumento qualquer: é um chamamento! E lembro-me dos meus avós, vejo-os hoje e sempre, mesmo quando o fazia ao vivo e sem saber porquê chorava de alegria.
Não quero maçá-lo… podia ficar aqui a contar-lhe estórias e histórias dos meus avós até perder a voz e mesmo assim não terminava a viagem.
Os meus avós que viviam numa casa caiada, que não usavam tinta e sim cal, branca, como se usassem a paz para pintar as paredes da sua casa e da sua vida.
Fique bem Zé Luís e seja feliz

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Lisboa, 25 de Junho de 2007

Para Diário de Notícias, Secção de Classificados

De acordo com o contacto telefónico feito anteriormente, junto envio um texto e uma fotografia, para serem publicados na secção de necrologia, nos moldes combinados, bem como o cheque para pagamento.

“A família de Camila Ribeiro agradece a todos quantos se dignaram fazer-nos companhia no passado dia 20 de Junho.
A Camila é uma força da natureza, um porto cujo pontão está sempre a tremer com forças invisíveis e sente os seus alicerces abalados permanentemente.
A Camila não morreu. Foi viajar.”

Miguel Freitas

quarta-feira, 30 de junho de 2010

10 de Junho de 2007

Cachopa Camila
As livrarias de Oslo, como esta onde acabei de te comprar um postal e outras que ficam ao sabor do percurso que se tem que fazer num determinado dia, ou a que se vai de propósito, estão cheias de memórias, minhas (as lidas) ou de outros (as escritas). Aqui ou ali encontrei este ou aquele verso, uma história que me encantou, páginas apenas folheadas e depositadas depois em Santarém e que nunca mais li. A mais querida é a Libris, do outro lado da rua National Galeriet, onde se encontram um Van Gogh auto-retratado de pequeno formato, alguns dos mais obsessivos quadros de Edvard Munch e uma série de pinturas que retratam interiores, admiráveis, quentes, cheios de madeira e outros tempos, que se depositaram em tintas e telas. Na Libris, na Tanum e na Kvist encontrei muitos dos livros memoráveis que me distinguem os dias passados, como um marcador de página, que deixámos num capítulo ou num verso que merece ser revisitado.
Mas o encanto maior, o supra-sumo do encantamento, são os alfarrabistas que aqui se chamam antvikatiater. E há-os de todos os feitios e gostos. Têm em comum o testemunho comovente de uma cultura periférica que absorve o que se produz nos grandes centros do continente, e tenta aprender.
Desde os que, nas áreas chiques, se dedicam a lombadas de dourados, que ficam bem na estante que se quer decorar lá em casa, aos que se dedicam aos livros raros e históricos escritos em língua inacessível para mim, e de preço inacessível também, aos que têm livros amontoados segundo uma lógica que é impossível de decifrar. Estes são, para mim, os mais encantadores. Não só neles existe o prazer de encontrar o que se procura, como estão cheios de surpresas escondidas a que se acede por “escavação”! O supremo templo é o Oslo Ny antvikatiat. Fica perto de um maravilhoso parque concebido para as estátuas de Vingeland; o Vingeland Park. Dele te enviarei um postal, ou fotos. É o sítio por excelência das rosas, onde se encontram as mais belas rosas de Oslo. Até de Inverno, as hastes que despontam da neve conjugam bem com o filigranado do gelo que se recorta nas árvores caducifólicas de encontro ao céu cinzento e ao entrançado de corpos que dançam, amam, sustentam, correm, envelhecem ou olham a cidade de par em par.
Acede-se a este alfarrabista pelo meio das casas de madeira ajardinadas, ou de tijolo castanho avermelhado. Nas esquinas onde começam os prédios de três ou quatro andares encimados pelas cornijas tão típicas deste norte, está a porta de madeira descorada e vidro, com a tranqueta em forma de vírgula deitada. De cada lado, dando para uma e para a outra rua, duas janelas amplas onde os livros aparecem sem ordem. O que é um convite. Uma montra desarranjada que não quer convencer ninguém a comprar, que sabe ou está confiante, como que por modesto orgulho, que encerra tesouros que dispensam pregão. No interior, um distinto cavalheiro de linhas secas e roupas coçadas que se expressa correctamente em várias línguas, recebe-te com um sorriso e com deferência, sem pressas, mas com um olhar directo e curioso. Há sentimento imediato de que não te estará a vender o que quer que seja, mas a receber-te em sua casa como a um hóspede. Indica-te as secções se percebe que não és da casa, e desculpa-se e aos seus livros pela desarrumação como quem os desculpa por andarem de mão em mão qual canalha miúda e traquina. Na cave, encontram-se tesouros ao fundo da escada estreita de tábuas, em escaparates e caixas. Ternas edições da Galimard, de capa branca que contam tropelias de Sartre e Beauvoir, as palavras escritas em “Carnets de Drôle de Guerre”, “Paris c’était mon village”, poemas de Eluard e Rimbaud, coisas passadas de moda, livros de bolso, como este curioso “Abée Pierre” de Chateaubriand, o “processo” do Kafka da Everyman’s Library, “The short novels of Dostoievski, com introdução de Thomas Mann, da Dial de Nova Iorque de 1945. Encontram-se livros dispares em francês rubricados pelo mesmo homem, coleccionados por uma vida, e a que a família não soube dar melhor sorte do que vender por atacado. Encontra-se este “ Group Dynamics and Society” que o autor dedicou à mão com uma saudação amistosa “med venligst hilsen” ao seu amigo Odd, datado de Junho de 98 em Hvalstad, e que o mesmo conservou por estes longos anos (três) se não vendeu no mesmo dia.
Neste volume de Dostoievski, nas short novels, encontram-se as “notes from the underground”. Quando encontrei o sítio, pensei neste título. Recentemente ali o encontrei. Aquela loja é como a cartola de um mágico, até o título que lhe imaginei, ali se encontrava, prefaciado pelo punho de Mann. E tem, suprema felicidade, o olhar do velho nórdico, que faz a adição numa velha caixa registadora de manivela e me vai agradando com o bom gosto das escolhas. Às vezes tenho a sensação de que tem um secreto prazer em encomendar livros para aquele gentleman que vem de Portugal, como uma cegonha receosa empurra o filho do ninho para que conheça o azul de outros céus e para que siga o velho preceito de crescei e multiplicai-vos… às vezes tenho a vontade ou o secreto desejo de estar presente quando morresse, de lhe passar a mão pelo cabelo e pela testa, para lhe assegurar que os livros estão em boas mãos à beira do Tejo, em cabriolas com as tágides de um zarolho que dividiu a história em dez cantos e contou que dez anos serviu aquele pastor o pai de Raquel, serrana bela, mas não servia o pai, servia-a a ela… nunca lhe direi nada disso, é claro, e um dia destes não estará mais lá. Mas abençoados os homens de boa vontade.
Amiga, pergunto-me se a tua paciência chegará para albergar estas coisas. Não será impessoal tudo isto? Tenho uma dificuldade terrível com a linguagem, gostaria que fosse mais económica, precisa e rigorosa. Mas que não fosse fria e estéril como que emanada de labirintos de verve burocrática que, de tão codificada, parece que se dobra sobre si mesma, auto-suficiente, e nunca se consegue determinar se quer comunicar algo ou apenas ostentar o carácter impenetrável, como uma descomunal prisão que nos deixa fechados cá fora, mas que se ergue ameaçadora na nossa frente e ao mesmo tempo, que não fosse feita de termos da moda, esses cometas que atravessam a linguagem e monopolizam a atenção de todos, ofuscando as outras palavras. E especialmente que não fosse demarcada socialmente ou datada no tempo. Sempre achei as modas linguísticas, com que um grupo social se distingue, e deixa os seus contemporâneos de fora, numa demarcação do seu território, uma coisa tão abjecta e pouco higiénica, como o demarcar levado a cabo pelos cães que mijam nos candeeiros. Não queria, na escolha das palavras que uso, ser pretensioso, distante e superior ao meu tempo, ou abster-me de partilhar o linguajar e o destino dos que vivem ao meu lado. Mas gostava que as palavras dos outros que passaram de moda, os arcaísmos, e mesmo as palavras de todos os que não puderam falar fossem mais usadas, recuperadas, como monumentos góticos que enfeitam a cidade. Tens a mesma dificuldade? Isto faz algum sentido?
Bem, vou jantar e dormir um pouco
Quatrocentos beijos
V.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Olá vagabundo

Olá vagabundo
Isto pretende ser um suspiro, não uma resposta às tua missivas. Impossível seria, no espaço que tenho agora, tentar, sequer, responder, mas não consigo evitar e assim, rapidamente, em pensamentos soltos. Perguntas se o que escreves faz sentido. Não faz outra coisa! Quem te deu a ti, marinheiro vagabundo, autorização para em mim entrares e, ao abrigo da distância, talvez com medo da minha fúria, deitares cá para fora as minhas preocupações, as minhas reflexões, certo é que trabalhadas e mimadas pelas palavras que usas, deixa-me dizer que és um abusador, coitados dos dicionários que terão que conter ainda mais termos para te alimentarem o vício de usares todas as palavrinhas que lá estão, não esquecendo nenhuma e a todas tratas por igual e eu fico encantada por te ler.
Vibro com os nomes das terras que me mandas e que não consigo dizer, soletro como uma criança que não sabe ler ainda, mas faço-o com o prazer de alguém que avista um navio e vai conseguindo ler o nome gravado na proa e, de repente, já consegue ler tudo e é mesmo aquele que estava à espera e chegou e está ali… e… para além das reflexões sociais que terão a sua devida resposta, ai Deus como eu gosto desta arte epistolar e como me faz bem ser nela correspondida, mas dizia eu, para além das tuas preocupações, para que corro as livrarias em busca de alimento escrito por viajantes, com encadernações mais ou menos insinuantes e atractivas, para quê? Responde-me!
Tenho-te a ti! E sou uma pessoa sortuda, a encarnação do próprio Gastão! Repara, eu tenho um escritor de viagens que me escreve na primeira pessoa, para mim e em tempo útil, real, tenho um escritor que usa e abusa da linguagem e não se faz rogado com as palavras lindas e esquecidas da nossa pátria, que reflecte e faz julgamentos acertados no meu entender, que me faz descrições de sítios que me obrigam, ah, sagrada obrigação, a fechar os olhos e a marcar na agenda da minha vida uma viagem a esses lugares, sabendo que, quando for, me sentarei num qualquer banco onde, tempos atrás, um certo vagabundo se sentou também, aquecendo aquele lugar levando-me antes de ir, criando uma dimensão intemporal, transportando-me para sítios límbicos (sim, é mais uma palavra para o teu dicionário) mas que existem e eu estou aqui e lá, ah sim, estou lá, longe daqui, em Oslo, em Kiel, na cabeça de quem escreveu os poemas, de quem pensou o que me lês no jornal de antes de ontem mas que hoje não pode ser mais actual, quem sabe se amanhã não será ainda mais, porque existe uma ligação, um tracinho, como os que usamos em certas palavras, para ligar quem fala, a quem se dirige a conversa, entre quem escreve e quem lê e quando se consegue colocar o mundo de permeio, mas o mundo não é estático!, não, não é nenhuma fotografia, é algo em acção, que se mexe, como eu quase consigo ver as tuas linhas, em movimento e eu sou levada por esse movimento também, ai queria tanto fazer-me entender, mas não consigo e daqui não sairá nada, será que vais entender uma palavra no meio desta pressa urgente?
Sinto-me no meio do mundo ao ler-te, vagabundo marinheiro, escritor, pensador, homem e pessoa. Deve faltar aqui qualquer coisa, mas ainda bem, pois mesmo que não houvesse mil motivos para te escrever de novo, arranjaria um que podia ser continuar a chamar-te nomes.
Mais um beijo, mais um abraço, à laia de pregão, como antigamente se fazia nas feiras que, ao ler-te, sinto-me num carrossel, qual criança feliz…
Camila

PS1: A ideia das cinco vidas espalhadas pelos cinco continentes… soberba…
PS2: lembras-te de em tempos termos falado na questão de doar o corpo para o Instituto de Anatomia? Já fiz o meu documento e estou orgulhosa de, um dia, espero que daqui a 150 anos, poder contribuir para o progresso científico. O senhor Miguel Freitas, meu pai e a dona Augusta Freitas, minha mãe, não gostaram da ideia como calculas, daqui a algum tempo vou conseguir convencê-los a fazer o mesmo! Em nome da ciência!

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Lisboa, 8 de Junho de 2007

Vítor
Bom dia e hoje sim, digo-o com propriedade, pois o sol deixou-se de vergonhas e apareceu, espreguiçando-se e tocando nesta terra, abençoando-a.
O teu eclectismo é sempre uma incrível e agradável surpresa…
Numa das cartas que de ti recebi pedes-me o impossível… que faça luz no teu espírito… vejo a tua mente tão iluminada a reflectir, leio-te e é como se olhasse uma planície regada pelo sol… como vou eu iluminar-te o espírito?
Peço-te que não me cries tal embaraço, pois gosto de corresponder aos desejos dos meus amigos, mas a este teu sou incapaz.
As tuas reflexões vão para além do que pensas sobre o que foi dito… deves reler a tua descrição sobre o enquadramento das notícias: leva-nos dentro da tua mente estruturada que, para além de me contar o que pensa e o que lê, faz-me o quadro formal das próprias notícias, para que eu não só leia, mas para que VEJA, através dos teus olhos. O facto de eu conseguir captar o cheiro da terra, quando nela falas, é aqui compensado pela descrição do tipo do cabelo ou pela geometria do mármore, para além da sua coloração. Isto é espantoso, não perdes um pormenor (é pormenor!).
Dentro de muito pequenos limites, porém, quero dizer que não deixo de pensar que em instituições como uma Constituição, se se prestar atenção, encontram-se “coisas” cuja intenção de quem as escreveu, até foi boa, mas parafraseando as frases populares, de boas intenções está o inferno cheio… sendo a Constituição o que é, será “isto” do inferno? Não tenho dúvidas e Descartes que me perdoe por isso mas, por vezes, é o inferno do direito.
O Direito e a Justiça têm algo divino… acreditamos que existem e, embora esporadicamente surjam revelações desta verdade e, tal como a fé, nunca ninguém viu o Direito ou a Justiça… terão certamente casado e emigrado para parte incerta…
Agora…, serão filhos deles os direitos e justiças, que tantos existem? Mas ao contrário de tudo o resto, não é por se multiplicarem que agem em conformidade com o nome que têm e que nós, com a pressa, pensamos tratar-se do pai e da mãe, não corrompidos, universais, iguais a si mesmos, com as doses de tolerância que sempre têm que existir… mas cuja acção pelo que me é dado ver, tem mais a ver com vergonha, mas por vergonha de se ter vergonha, na vergonha não se fala e, os direitos e justiças continuam a nascer, arrogando-se cada um deles à herança do pai e da mãe que, lá onde vivem, parecem não querer transmitir a sua linguagem universal. Onde viverão? Porque se escondem? Ou serão os filhos que rejeitam os pais… ou será cada um de nós que quer alcandorar-se a ser Justiça e Direito e criamos justiças e direitos, sendo que este plural, que nos levaria, supostamente, à universalidade da expansão do conceito, é apenas um falso plural, para nos iludirmos, conscientemente tantas vezes, porque não queremos encarar a vergonha, e brincamos… por isso, Justiça e Direito se escrevem tantas vezes com letra pequena, coitada da letra pequena que não fez mal a ninguém…
… e quando deparamos com justiças e direitos em qualquer esquina, muitas vezes rezamos, porque a parcialidade anda de braço dado com estas coisas pequenas e plurais fingidos. Direito e Justiça são no singular porque Humanidade há só uma. Quando os buscamos dentro de nós, são com letra grande… o problema é quando os aplicamos… diminuem de tamanho, mesmo que se escrevam com letras enormes nos manuais de Direito e na Justiça que se faz, que raramente é cega, como só ela devia ser. Infelizmente, quantas vezes tem os olhos bem abertos para ver só o que quer, o que convém e encornar o Direito, fazendo-o esquerdo…
A Justiça não distingue estibordo de bombordo e desorienta o Direito, envolvendo-o em vendavais que são provocados por lobos que sopram para deitar abaixo qualquer tipo de edificação.
Onde nos levaria a continuação deste infantil pensamento? Não sei, mas pouca luz farei para te alumiar, vagabundo de línguas estrangeiras, dono do que não pode ser perdido e meu saudável companheiro epistolar.

Um abraço
Camila

domingo, 13 de junho de 2010

Feitoria de Bruges, Março dos idos de 1540…

Olá minha caravela quinhentista…
A tua lucidez é tanta que pareces um espectador das tuas próprias emoções. Há momentos até em que parece frieza. Pareces saber tudo. Pareces até saber o que ainda não aconteceu mas, por qualquer contrato, talvez com o futuro, não o podes revelar antes do tempo.
As tuas expressões, para além da tua voz são dum miúdo. Para além disso, tens a maturidade dum adulto bem crescido, às vezes com a tristeza de vida duma longa caminhada com muitos obstáculos, difíceis de ultrapassar. Nas janelas de que falámos, que se abrem quando falas, nem em todos os parapeitos existem flores e isso dói-te. Marca-te e não consegues esquecer. Não sei porquê sinto que faltou contares-me um episódio qualquer importante da tua vida. Estás no teu direito, evidentemente, mas acho que faz falta ao puzzle. Será um canto, meu querido épico?
A donzela
Camila

sábado, 12 de junho de 2010

Margem do Tejo, 6 de Junho de 2007

Minha janela virada p’ró mar… cem anos que eu viva, não hei-de esquecer-te…
Isso de eu ser uma gastadora é mentira e eu vou prová-lo aqui e agora!
Lembras-te do beijo que me enviaste ontem? Não o usei! Está guardado. Verdade seja dita que tive vontade. Mas não o fiz. Olhei para ele, mirei-o e remirei-o. Coloquei os cotovelos em cima da secretária do escritório e, com a companhia da Diana Krall, fiquei a admirá-lo. Ela até me disse have yourself a merry little christmas… enquanto me via observar o beijo. Um pouco mais tarde, impressionada com a minha persistência, ela disse também, christmas time is here e acrescentou um ponto de interrogação. Eu ia sorrindo e dizendo que sim, porque dizer yes é fácil e eu estava tão absorvida que não conseguia pensar em mais nada.
Um pouco mais tarde fui arrumar umas coisas e quem me aparece no meio duma montanha de roupa, meio escondido, quase com vergonha? Uma camisola azul escura que veio de Budapeste, onde o Klimt depositou O Beijo original para mim. Sim, o original, porquê? Eu tenho o original numa camisola…bem, vamos lá a ver esse ar de gozo e interrogação! Não tenho culpa que os museus mostrem cópias, nada tenho a ver com o assunto, não quero saber de museus…
Bem, mas não interessa. Quando vi O Beijo, lembrei-me do meu beijo que descansava algures pela casa, onde eu o tinha largado. O meu coração bateu com força e fez concorrência ao vento que teimava em entrar pelas janelas e imediatamente pensei: Porque não o gastei? Corri pela casa, descalça, por isso ando sempre com tosse, nada tem a ver com o tabaco e, de olhos bem abertos, de olfacto activo, com a sensibilidade à flor da pele, a saborear o ar e com os ouvidos alerta, não fosse escapar o som típico da concretização do que era meu e que eu deixara… onde mesmo? No escritório? Sim, tinha sido ali que eu o admirara pela última vez, enquanto a Diana me dizia I can’t give you any thing but love e quando eu lhe perguntei porque me dizia ela aquilo, ela não respondeu e continuou a cantar… gente do xoubizenesse, vá-se lá a saber o que pensam e porque o pensam e o que dizem e porque o dizem… até cheguei a colocar a hipótese de ela não estar a falar comigo. Mas só ali estava eu… quer dizer, eu e o meu beijo e com o meu beijo ninguém fala! É meu e eu não deixo. Pensando bem… vou gastá-lo, é melhor, por via das dúvidas… não vá alguém, à socapa, roubar-mo….
Quero lá saber que me chamem gastadora!
Fica sabendo: se voltares a enviar-me um beijo, gasto-o de imediato… mas devagarinho, docemente, sim porque um beijo de alguém que consegue cheirar bem depois de estar quase vinte e quatro horas acordado e em pé, é um beijo especial que sabe a primeiro beijo… escorrega através da boca e toma conta do corpo todo e faz-nos sentir no céu. Existirá o céu? Não sei… mas também não quero saber… existem beijos. E chega.

Um para ti
Camila

quarta-feira, 26 de maio de 2010

4 de Junho de 2007

Meu amigo
Não te desculpes de bateres sempre na mesma tecla: temos que bater sempre na mesma tecla, para ver se alguém OUVE!!!!!
As crianças sim, as crianças, mas porque será que tenho a sensação que, quando ouço falar nelas ( e escusado será dizer que concordo contigo a 100%!) parece-me ouvir palavras vãs da boca duma linda Miss Universo que adora crianças e anseia pela paz no mundo???
Claro que a nossa aposta, a nossa força, a nossa esperança, a nossa vida! tem que ser depositada nas nossas crianças! Qualquer criança é nossa! Entendo essa partilha como partilho contigo o ar que respiro! Não posso ser dona dele e não tenho o direito de o adulterar! As crianças são o oxigénio do nosso futuro, são o transporte que nos levará avante no tempo e no espaço. E somos nós, em casa, no mar da família que temos a obrigação de lhes mostrar os caminhos que há a percorrer para que elas escolham e façam as suas opções. Opções de futuro. (É curioso porque acabo de escrever esta expressão e associo-a a uma muito familiar nos meios bancários: opções de futuro...)
Eu mostro ao Duarte as pessoas que vivem na rua, chamo-lhe a atenção para os drogados, explico-lhe que há crianças que andam na escola pública e não têm o Sr. enfermeiro para lhes tratar das feridas quando se magoam depois de jogarem à bola! Não têm um quarto para elas, nem brinquedos...ou então têm brinquedos, mas não têm uma coisa que ele gosta muito... os pais ao pé dele para se deitarem no chão e jogarem jogos... há coisas que o Duarte não esquece... a noite em que cheguei muito tarde e o pai o deixou ficar acordado e escreveram papéis de boas vindas à mãe que estavam espalhados pelo chão em direcção ao quarto dele, onde cobertores repousavam escondidos por entre os lençóis, para que eu pensasse que eram eles que dormiam... e quando destapei a roupa... novo papelinho... lá fui para o meu quarto, onde novo monte de roupa se escondia e... novo papelinho... no meio da sala erguia-se uma tenda e eles estavam a dormir lá dentro, meios vestidos e absolutamente felizes! Lembro outra ocasião, cuja acção repetimos há dois anos... no primeiro dia de praia, metemos os pés no areal e largamos a correr em direcção á agua e mergulhamos vestidos! Ele fica doido de alegria e fala nisto durante todo o ano, como uma cumplicidade maior entre os pais e ele. Uma delícia que não faz mal a ninguém e apenas deixa alguns pais, que nos observam, a pensar que somos malucos... somos saudavelmente malucos, acho eu...
Ou então, no Alentejo, de galochas calçadas, irmos brincar para o riacho e, mesmo que chova, apanhamos "flores" para enfeitar a casa... e sempre, mas sempre, sempre, sempre, sempre... a conversar!
Em casa, de vez em quando, fingimos que não há luz e andamos com velas...jantamos, arrumamos a cozinha, lemos, contamos histórias, eu sei lá... às escuras as pessoas têm a tendência de se juntarem mais.
E mesmo assim, claro que acho que passamos pouco tempo juntos, permitisse Deus que estivéssemos ainda mais tempo juntos.
Já conversámos sobre a pedofilia, embora evite que ele veja imagens na televisão, pois são sempre propositadamente sensacionalistas.
Mas devo dizer-te que um dia destes, no final do ano passado, ele veio para casa com um murro na cara, mas com um sorriso... então contou-me, e eu confirmei mais tarde... iam jogar à bola e ninguém queria na sua equipa um garoto que usa um aparelho nos ouvidos... chamaram-lhe nomes, etc. e o Duarte defendeu-o... resultado, acabaram à tareia, mas chorei ao ouvir o meu filho dizer que os outros miúdos, com certeza não gostavam que lhes chamassem ranhosos, porque chamavam, então, surdo ao (não me lembro o nome)? A culpa não era dele por ser surdo!. Nesse dia adorei-o ainda mais!
Mas sinto que ainda podia fazer mais coisas e tenho sempre pena quando vou ouvir as palestras à escola, e há pais que se enfadam com o que ouvem e suspiram de alivio quando se termina... e nós achamos que fazemos tão pouco...
Por isso e muitas mais coisas... o investimento é neles que tem que ser feito e há tanta coisa contra nós... tudo compete connosco! A televisão, os amigos, o social...
É difícil competir com amigos que têm tudo... é difícil gerir certas amizades que, tu queres ver continuar a crescer, mas cujos padrões de orientação são diferentes, nos respectivos pais.
O meu marido é pacífico, mas eu desoriento-me com certas coisas. Isto para não falar dos telemóveis dados a crianças com 5 anos!!!!
Os nossos filhos vivem pensando que as "coisas" caem do céu! E quando crescem e se tornam adolescentes, revoltam-se ao descobrir que o pai natal não existe e a rena não vai deixar cair presentes em cima da cabeça deles e quando se tornam adultos agem da forma que lhes parece mais fácil para atingir os seus objectivos, como se fossem os únicos ocupantes do planeta e arredores e TUDO o resto fossem ...coisas, e não pessoas, como eles!
É contra isto que temos que agir e lutar... levá-los, a eles, a escolher e a negar o facilitismo que, mais tarde, se transformará em dificuldades a dobrar! Não vale a pena andar a olhar para o céu se esperamos ver um sujeito a voar com capa pelas costas e um S no peito... outros valores mais altos se levantam... porque será que tanta gente os quer derrubar???
Ajuda-me tu, amigo, a responder a esta pergunta e vai batendo na tecla as vezes que te apeteça... e serão poucas.

Recebe um beijo, ou dois ou três, adiantamento que te faço em nome do fim de semana!
Camila

quinta-feira, 20 de maio de 2010

2 de Junho de 2007

Meu caro rapagão

Ontem à noite liguei-te e atendeu uma senhora simpática que me disse que o número para o qual eu liguei não estava disponível e até repetiu a informação em inglês. Não o fez em francês porque, certamente, foi avisada por ti sobre este meu handicap e não consentiu que eu deixasse uma mensagem… aí não lhe reconheci muita simpatia mas, com certeza, ela estaria a pensar que eu desconheço o que são fusos horários, quem sabe se a acordei e, com franqueza te digo, nem me lembrei que aí onde estás seria noite avançada, quando aqui mal tinha começado…

A tonta da tua amiga
Camila

sexta-feira, 30 de abril de 2010

La Corunha, 31 de Maio de 2007

João
Sábado de manhã fui à praia. Já descalça e com os pés dentro de água, agarrei um bocado de tijolo e escrevi o teu nome seguido daquela palavra que não se pode dizer...
Depois atirei o tijolo ao mar. Não penses que a água do mar apagou rapidamente as letras que eu desenhei... primeiro porque eu não fiquei lá o tempo suficiente para ver as ondinhas de espuma apagarem as letras e depois porque elas não se vão apagar... vão entrar pelo mar adentro e permanecer lá para que possam servir de modelo e deixar que o pedaço de tijolo as volte as escrever, repetidamente, no fundo do mar, numa praia ali ao lado, numa outra lá do outro lado do mundo, ou em qualquer pedaço de areia cheio de gente ou inacessível, tão inacessível que só a força duma prova de amor lá chegará e que vai correr pelos oceanos, como eu gostaria de fazer e deixar marcas um pouco por todo o lado... para que quando eu um dia for a qualquer desses sítios, a areia já me conheça e me fale dum amor longínquo, nascido num jardim à beira mar plantado e cantado por um pedaço de tijolo em todas as praias deste mundo...
Se vires esta pessoa em quem eu tanto penso, diz-lhe que eu ando a fazer o mesmo na areia das praias, com o fumo dos cigarros, com a massa do esparguete, com a tinta das canetas, com os pingos da chuva, com as notas de música, com as nuvens do céu, com as marcas das botas, com as pontas dos dedos nos vidros embaciados, com as lágrimas que me escorrem pela cara, com os rodados dos pneus em estradas secundárias, com os raios de sol nas águas de qualquer mar ou rio, e que me sinto contente e feliz como uma criança em dia de Natal…
Camila

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Júlia querida

Júlia querida

Pedes-me que te fale das crises do séc. XIV, como um mal benéfico, mas duma forma invulgar. Cá vai o texto prometido.
O século XIV foi primorosamente recheado de crises. Supostamente, a abundância apenas se revelou nas fomes, nas pestes e nas guerras.
Parecendo ter sido um século negro, numa segunda análise, ou numa primeira mais aprofundada, verifica-se que assim não foi.
Se tivermos em conta que as guerras podem ser actos de amor e sendo este, normalmente, associado à cor branca bem como à abundância de sentimento, que exala por todos os poros, deixando o coração ora aos saltos, ora como morto, passando por espasmos não explicados por ciência alguma, privando as pessoas de sentirem necessidades básicas, como vontade de beber ou comer, sentindo falta de algo, que não pedaços de comida normal e tradicional, da que normalmente se serve à mesa e hoje em dia se come de talheres, mas na altura se comia à mão, logo, concluiremos que fome, não havia!
Se não havia fome, uma das causas possíveis da morte e logo associada às pestes, estas, são, na maioria dos casos, uma invenção que foi criando corpo ao longo dos séculos e desde o XIV até agora já lá vão seis completos, o que é muito tempo para se acumularem pormenores para se criar uma irrealidade tida, nos nossos dias, como verdade absoluta e que de facto, não é.
A palavra peste pode querer dizer muita coisa, porém, é universalmente aceite que é sinónimo de algo que se espalha com facilidade. Ora haverá sentimento mais solidário e contagiante que o amor, profundamente incutido nas guerras de que se falou no parágrafo anterior? Podemos então concluir que o amor bailava nos salões abertos dos castelos e ao ar livre que servia de tecto a camponeses e “citadinos” como uma peste, ou seja, como algo a que ninguém ficava imune.
As guerras: sobre elas já se disse, e repetiu, que eram – e continuam a ser –actos de amor. Matava-se por amor. Haverá modo mais nobre e superior de morrer do que por uma causa de amor? Nunca em tempo algum e muito menos no século XIV!
O ‘mal benéfico’ entronca com tudo o que se acabou de dizer: independentemente de, nas guerras e por amor, morrerem mais homens que mulheres, aqueles continuavam em vantagem numérica, constituindo pois um problema arranjar mulheres para todos os homens e assim, enquanto se tentava colmatar esta questão matando alguns dos pretensores, com o avançar do tempo e Renascimento a dentro, constatando-se que a questão não fora inteiramente resolvida, tornou-se necessário criar um sistema aberto de partilha do cerne de toda esta problemática e dinâmica: o amor.
E é assim que entramos no Renascimento e por ele caminhamos, acompanhados pela mais requintada prostituição que, ordeiramente, dividia as os dias e as horas pelos nobres guerreiros, saciados de matar para poderem usufruir de mais horas na companhia das requisitadas damas.
Havia, entretanto, alguns problemas com o abastecimento de víveres aos quartos onde proliferava o amor, mote, como já se disse, de todo este panorama. Porquê? Porque alguns camponeses tinham sido alvo da peste – do amor, se bem se recordam – e dirigiam-se para as cidades em busca de morrer ou matar, deixando os campos vazios e inabitados. Disto pode constituir exemplo, ainda hoje, o Alentejo.
Pareceu-me que querias brincar com alguém… espero ter acertado.
Recebe os meus beijos
Camila

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Ó-lá! (entoação telefónica...)

Ó-lá! (entoação telefónica...)
Rapaz, tu és um rufia! E dos piores... Não te serves dos punhos, mas dos dedos enquanto veículo de descarga do que te vem de um qualquer órgão, do qual só há esse exemplar, e que se consubstancia numa mistura de coração e consciência, cuja residência deve ser ali p'ros lados da tua cabeça! Atiras pedradas e nem escolhes as pedras... tudo te serve: ora pensamentos alheios, ora próprios, reflexões, sentimentos, alvoroços, carinhos, preocupações,... e partes janelas e grades com a força duma tempestade, com a energia dum tornado, com a subtileza dum céu ao entardecer que de rosadíssimo passa a negro e nos aparece adjectivado como um ovo, estrelado e delicioso. Disse e reafirmo... és um rufia e dos piores: não foges! Ficas ali à espera de resposta, pronto a atacar novamente e usas nomes de pessoas, datas, feitos históricos, políticos, citações e, crime dos crimes - não duvido que um dia serás punido por tal acto - usas a poesia... Mais ainda, como num qualquer filme de ficção científica, entras na cabeça das pessoas e reordenas os gostos, as preferências, obrigas os comuns mortais a rirem-se quando assim o entendes, a chorarem com as tuas palavras que, como a mais pura heroína, faz brilhar os olhos de quem a espera ansiosamente e a quer tomar de vez não temendo overdoses... Oh, ser perigoso, que andas incólume por esse mundo a distribuir poesia desta forma, como se de uma nova forma de crack se trate, para me deixar agarrada... Não, não me desmintas, não te atrevas! Sem qualquer pudor, ages em diversas frentes... e atinges o teu alvo na língua minha pátria, buscando línguas nórdicas, caminhando pelo francês, avançando pelo espanhol, expondo o inglês... nada te pára... agora suspeito a verdade sobre a lua nova... és tu o ladrão daquela bola branca que volta e meia deixa de nos iluminar... deves roubá-la para a dar ao teu anjo... nem quero imaginar o que essa pobre não passará em tormentos ao lado duma pessoa como tu... sim, imagino-te a oferecer-lhe uma ramo de flores... mas o que terá ela que dar em troca... vejo-a transformada em coração, toda ela um enorme coração, para se te dar como forma de te retribuir, cavaleiro errante, principalmente depois dos teus comícios, de onde sais nu, depois de te teres dado a todos e a ninguém, e ela, a pobre que mesmo que não o seja, passará a sê-lo, pois vejo-a a dizer-te que quer ser o cachecol que te abrigará dos ventos frios, as luvas que te aquecerão as mãos, as botas que não deixarão o frio maltratar-te, o casaco que te aconchegará, que quer permanentemente abraçar-te a ti que, mesmo quando ela dorme sente-te a velar por ela... como te pagará ela a segurança que tu lhe demonstras, a confiança que lhe fazes nascer que, antevejo, soltas do teu íntimo como uma música através da qual ela avança como se fosse um grão de pólen que sabe que vai poisar no sitio certo... Mas tu, não contente, oh, insaciável!, não te ficas por ela... falas em lealdade de companheiros, em confiança, saudade de amigos... a todos tens presos e amarrados como um feixe de vime, não te esqueces de ninguém como um fiel de armazém tem o seu inventário sempre em ordem... Como um vagabundo, saltas de terra em terra, miscelânea de caminhos que transportas contigo e proteges do frio glacial com essa tua força de pessoa inteira, com os teus olhos humanistas, com o teu sorriso de miúdo, com a tua cabeça universal, com as tuas mãos audazes, com o teu sentido de justiça e o teu coração corajoso. Pedes-me ajuda, a mim, para te elucidar sobre questões deste nosso mundo que dizes não entender... como poderei algum dia, nesta vida ou com experiência acumulada de muitas, dizer-te o que não sabes, a ti, camponês que matas a fome com música e deliras com sons que em ti encontram sagrado refúgio... a ti, marinheiro, que procuras sempre navegar em águas do bem estar alheio e que tudo fazes para transformar as tempestades do alto mar em lagos lisos e sem perigo onde os outros possam navegar... a ti, pessoa insatisfeita, que procuras o verdadeiro conhecimento, não desprezando a possibilidade de o encontrares numa qualquer pedra de qualquer calçada e que te rebelas contra a imbecilidade... a ti, filho, que falas dos teus pais como a árvore que deu fruto e abençoado seja o que nasce e não renega a sua origem, antes pelo contrário, a ilumina sempre e sempre e sempre... a ti, ser social, que te insurges contra a miséria humana, nas suas mais variadas formas e que enobreces a igualdade entre as pessoas... a ti, amigo, que partilhas, que não esqueces, que dás, que ofereces... a ti, que pulsas inteiriço quando vês o mundo com os olhos de deus, suportado por uma asa que te leva com o invisível vento para dentro de ti próprio, para ressurgires renovado e em paz... a ti, enamorado, que quando escreves sobre o teu amor, nota-se um moldar diferente das letras, como se aparecessem mais devagar, como se sorrissem, na tentativa de prolongar a lembrança, principalmente quando estás longe dela, como o mergulhador lembra e quer o oxigénio puro, para o alimentar e sente-se apenas sobreviver com o ar artificial que lhe pesa nas costas... a ti, pai, que apesar de viveres com dúvidas e medos fazes da esperança uma força maior... Não, não te posso elucidar a ti, Idiota maior, dum mundo de idiotas em vias de extinção, espécimes raros. Se depender de mim, e eu trabalharei afincadamente nesse sentido, instituir-se-á um movimento a favor da preservação de gente como tu, animais irrequietos, rufias que agem na mentalidade instalada e cancerosa, guerreiros que buscam um graal tantas vezes deitado ao lixo por quem se arroga tudo saber e que se comprazem em escarnecer dos demais...
Recebe uma onda gigante de abraços e beijos
Camila

terça-feira, 20 de abril de 2010

Saúde Senhor…

Saúde Senhor…
Não me arrisco a dizer o nome pois posso enganar-me… Jota Ferreira ou Salvador Dali…? Que grande bigodaça e que ar de imortalidade aparece quando abrimos a página da internet com os teus quadros!
Não nego: fiquei agarrada ao primeiro, do lado esquerdo… para dizer a verdade, deve ser das poucas coisas que me faz ter um sentimento dúbio, para não dizer contraditório: as touradas. Vistas de longe… são actos bárbaros… ao perto, são momentos de emoção, de valentia, de coragem, de encontro entre um animal enorme e uma pessoa – normalmente um homem – que ali está em pé de igualdade, perante um dos bichos que mais admiro e que acho duma beleza extraordinária… um touro.
Não aprecio touradas à portuguesa, embora veja com alguma frequência… a minha irmã e o meu cunhado foram forcados e sou prima do que já foi o mais novo toureiro português, e que deixou a escola por incompatibilidade de horários com a escola normal…foi pena.
Gostei da tua apresentação na página da net e sensibilizou-me principalmente falares da tua avó! Ser mãe é ser-se abençoada, mas ser avó deve ser uma coisa inexplicável…é como ver realizar um sonho de criança, pois a boneca que alguém nos oferece, tem vida, mexe-se, surpreende-nos, faz aumentar o nosso amor de cada vez que está doente, ou nos dá uma alegria, cresce… ama-nos também… eu tenho um amor muito grande pelos meus avós e sempre que vou ao Alentejo, visito-os no cemitério. O meu filho acompanha-me e sem que eu algum dia lhe tivesse dito alguma coisa, beija as fotografias deles. Parece uma heresia, mas garanto-te que não é… eu rio-me sempre no cemitério, pois a minha avó escolheu o local para ser enterrada e fica mesmo a meio do cemitério, bem ao sol, que ela tanto adorava… e tenho lá uma tia que, por vezes, me acompanha nesta minha pequena peregrinação e diz sempre que o local foi mal escolhido, pois estão ali à torreira… farto-me de rir.
Compreendo a minha tia, mas compreendo melhor a escolha da minha avó.
Os meus avós foram pessoas muito importantes na minha vida e o meu avô, que aprendeu a ler em adulto, era das pessoas mais cultas e ajuizadas que conheci. A minha avó nunca aprendeu a ler, mas guardava livros como, por exemplo, uma velha edição do Grande Industrial, que nós lhe líamos e ela pedia para passarmos as passagens onde se falava doutra coisa que não fossem os dois romances paralelos que a história contém… morreu estava eu em Bruxelas e não assisti ao funeral. Ninguém me disse, pois estava grávida de cinco meses e não quiseram assustar-me, sabendo da ligação que eu tinha com ela. Soube na semana seguinte e, quase em simultâneo, morreu o meu cão, que me fazia companhia e era meu amigo e com quem eu diariamente falava e tinha uma secreta esperança que ele me respondesse… não te consigo explicar… e eu dei entrada no hospital com sintomas de aborto. Depois sonhava que o Pepe estava com os avós e com certeza estaria bem – até falava com eles o que nunca fizera comigo – e concentrei-me na enorme ervilha que tinha na barriga e em como um dia lhe iria contar quem tinham sido os meus avós.
Bem…peço imensa desculpa…desviei-me do assunto principal: os teus quadros. Não preciso de dizer que te invejo: tenho sempre inveja de quem faz coisas que eu seria incapaz de fazer e como tenho dois pintores na família, uma já com nome no mercado e também representada em várias colecções particulares… estou habituada a que brinquem comigo e me chamem ignorante com todas as letras. Numa ocasião, ela ganhou um prémio cá em Lisboa – vivem em Gaia – e convidou-nos para assistirmos à entrega do prémio, numa sessão solene, tipo comunhão… e nós lá fomos e ficámos ao lado do Rui, o marido dela. Nós simplesmente não sabíamos qual era o quadro da minha prima, pois havia vários premiados e eu olhei para uma tela negra com riscos dourados e disse ao Rui que aquele me metia medo e não gostava dele e, já imaginas, era o quadro dela, o que tinha ganho o primeiro prémio, foi uma vergonha. O meu marido aprecia pintura e por isso vamos a exposições. Eu, nem por isso… apenas me entusiasmei quando o meu filho tentou fazer uma cópia do Guernica, depois de ter visto o original em Madrid…será que o garoto vai ser um novo Picasso…? E então, foi como nos desenhos animados…os meus olhos transformaram-se em cifrões… desculpa, tenho que me rir…
Fica-te com as minhas gargalhadas e recebe um abraço
Camila

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Silvestre

Silvestre

Achei espantoso o que me disse: cometer uma traição para confirmar a minha fidelidade à nossa amizade! É original, no mínimo…
Eu, que sou um poço de sensibilidade, tenho alguma inteligência, o que não é de espantar, pois em terra de cegos…, não sou feliz, castro a minha intelectualidade dentro do meu silêncio onde muito poucos entram, gosto de provocar e mais do que saber fazê-lo, tenho dias em que fico incontrolável, encarno personagens que não são minhas, finjo ser quem não sou, visto peles que não se me adequam, tenho um universo de meiguice mas consigo transportar cá para dentro cenários de terror, sou saudavelmente louca e desprendida, nasci no berço da aventura e procuro desesperadamente as minhas raízes, enfim, tenho muitos mares nunca dantes navegados e não se sabe se algum dia serão navegáveis, sequer, quanto mais conhecidos e explorados.
Eu, que tenho orgasmos a ouvir andamentos acelerados de música clássica, um dia encontro-o. Nasce uma amizade. Terá sido assim?
Ou terá sido um encontro tipo matéria e anti matéria, mas ao contrário? Em vez de sermos iguais por fora, mas molecular e atomicamente perfeitamente inversos, somos díspares no exterior e iguaizinhos por dentro? Consegue imaginar-se aos trinta e quatro anos, na vertente de mulher? Sou eu.
Tenho esta sensação espantosa que me revejo no futuro, como se isto fosse possível…
Só assim eu teria a capacidade de perdoar que tenho…perdoo-me a mim própria!
Você só gostava de casar comigo porque casaria consigo e nós somos os nossos melhores amigos, os nossos melhores amantes, quem nos conhece melhor, temos os nossos pensamentos como confidentes, os nossos sorrisos como nossos cúmplices, aturamos as nossas manias e vícios: a pessoa que eu escolheria para viver comigo era eu!
Então, quando a matéria encontra a anti matéria, nasce a consciência, vestida de amizade. E cresce e desenvolve-se e complementa-se. Um fala, o outro ouve e é como se se ouvisse a si próprio. Não precisa de dizer nada. Comungam. Por vezes fazem de advogado do diabo um do outro. Não passam informação um ao outro, já a sabem, podem é não ter consciência dela. Quando a recebem não precisam de arranjar um novo espaço para a guardar, apenas têm que a encaixar no espaço que reservaram. Quando? Mistérios do tempo, do espaço, do real e do virtual, da ciência e da fé. Enfim, da amizade.
Como me enganei… como pude ser tão burra?
Camila Ribeiro

quarta-feira, 31 de março de 2010

9 de Maio de 2007

João
(Esta é a carta que eu gostava de te escrever e que chorasses de alegria ao recebê-la...)
Não te quero doente.
Prefiro ser eu a ficar constipada, com gripe, varicela ou sarampo.
Mas não esperes ter dores, sentir os braços e as pernas cansados e pesados e o corpo febril e não fazeres nada.
Eu estou assim e não é agradável.
A falta de dormir tem o efeito duma gripe.
Quando não se dorme pelos motivos pelos quais fiquei acordada ainda é pior.
Quando se fica doente depois duma noite assim, pior ainda.
Não sabes o mal que me fazes quando estou sentada à tua frente, a olhar-te. Lembra-me um dia, já muito longínquo no tempo, ainda namorávamos, em que pensava que ia ter um ataque cardíaco ou transformar-te em Jesus Cristo e pregar-te, não na cruz, mas na cama, e não com pregos, mas com beijos. Não sei como o peito não rebentou, naquela noite. As imagens passavam-me pela cabeça, como a paisagem passa por quem vai a velocidades impensáveis.
Faço um esforço enorme por te tirar da cabeça, nem que seja por alguns minutos, mas há sempre qualquer coisa que me estraga os planos: uma letra do teu nome, uma canção, um carro igual ao teu, um cheiro, uma mão pousada num corrimão, um perfume, uma brisa…e o meu coração acelera como se estivesse na pull position duma corrida e na primeira curva,…e os meus olhos procuram-te e encontram uma cidade sem ti,…e os meus dedos recusam marcar aquele numero de telefone,…e a minha alma vira-se do avesso e começa outro dia: com manhã, hora do almoço, tarde e noite.
Oh, noites em que o mundo descansa e eu envolvo-me em batalhas perdidas comigo e com os meus sonhos.
Quero sonhar outra coisa, quero não me lembrar do que sonho, quero não sonhar…quero que deixe de ser sonho…
Valem-me as noites que passo sozinha – o Duarte tem dormido com a minha irmã. São dolorosas, mas não nos obrigam à convivência com um corpo que nos queima por nada nos dizer.
De todas as coisas complicadas que já vi e de que já ouvi falar, amar é a mais difícil: o tempo escapa-se por entre o nada, as sensações são como uma enxurrada de lama e água que sobre nós se abate, deixando-nos atolados e presos na invisível, mas texturada, teia do tudo e do nada.
Empreender tarefas complicadas a nível físico pode matar.
Esta é a grande diferença: vou viver nesta tortura, não tenho a benção de morrer como quem morre depois de atingir o cume do pico mais alto do mundo, quem fez a travessia do Sahara ou quem passou o Cabo da Boa Esperança…
Amar dá tonturas, leva a esticar os braços para o vazio, faz sentir que estamos a ser beijados quando estamos sozinhos, faz puxar pela memória em busca de momentos que duraram um décimo de segundo ou de sabores que há muito a nossa boca não sente.
Amar faz com que o intervalo entre cada dia pareça o tempo que medeia a passagem do cometa Halley pela Terra. E quando o dia não acontece? É como se o cometa passasse e nós estivéssemos fechados numa casa sem janelas. É como se, por milagre, tivéssemos asas e não conseguíssemos voar.
Em simultâneo, e por estranho que pareça, amar faz esquecer, secundariza emoções que se consideravam fortes, retira importância a desavenças do passado. Esquecemo-nos que já somos crescidos e queremos crescer novamente. Queremos fazer coisas como se fosse a primeira vez e experimentar a novidade reinventada.
Amar é escrever um livro das mais belas e fantásticas aventuras, com cicatrizes que se acumulam no peito. Um livro que nos faz rir a propósito duma página em branco, chorar sem motivo aparente, mostrar alegria em dias de chuva que se pensava detestar, não ver os dias de sol com bons olhos porque a luminosidade pode não ser aliada da clandestinidade, sentir um arrepio quando os heróis falam ao telefone…
Amar é ouvir o outro falar e contar histórias e senti-las como se nós as tivéssemos presenciado e sentirmos dor e ciúme e raiva e incompreensão e saudade e temor e conseguirmo-nos lembrar duma coisa que não vimos, porque ele está a descrevê-la e através dele vivemos nós e respiramos mais depressa ou mais calmamente conforme a emoção que ele emprega na descrição que faz e…
E por tudo isto, meu João, não gosto que me digas que te sentes doente, porque amar também é ficar doente quando o outro não se sente bem e a terapia que eu te sugiro, não, não é tomares medicamentos, é sentares-te ao meu lado e encostares a cabeça ao meu peito e deixares que eu te cure com uma força que tu desconheces e da qual só sentes um laivo, um vislumbre.
Quero encontrar-me contigo fora de casa, sem a pressão dos meus pais e do Duarte… só para conversar… o tempo será nosso aliado, mas temos que o deixar correr, sem pressas…

Com amor da tua
Camila
PS. Imagino que leias isto e aches que escrevi em chinês...
PS. 1 Um dia alguém vai receber uma carta igual e vai compreendê-la

quarta-feira, 17 de março de 2010

21 de Março de 2007

João…
Esta separação está a custar-me, a doer-me, a magoar-me…
Durmo todas as noites com o Duarte, que se consola com isso.
Mas tu vens-me à ideia e acodes-me ao espírito e o nosso filho faz os trabalhos da escola e diz que o I grande parece que está a pensar e o C de sapato é a letra mais bonita e eu riu-me com ele e tu estás aqui ao lado e ris também.
Céus, como eu queria que me invadisses, como eu queria que me conquistasses e sem luta, sem batalhas, uma entrega total, uma rendição sem precedentes.
À bocado eu e ele fomos jantar e ele não quis sobremesa, quis antes que eu comprasse pastéis de nata para comermos na cama, e logo eu a pensar que engordam tanto, mas ele pediu e vai fazer questão que eu coma também e eu comprei e comemos os dois, nos lençóis lavados – não sei se te lembras, mas a nossa empregada muda as camas às quintas feiras por causa das minhas superstições – e rimo-nos muito e ele vai adormecer com canela na cama, e lá estávamos nós debaixo dos lençóis à luz da lanterna, eu a ler as palavras difíceis, ele a ler as fáceis e o herói da história chamava-se Jonas, olha mãe tem a letra do nome do pai e durante um centésimo de segundo eu fujo debaixo dos lençóis e penso que devia querer entregar-me a ti, e rápido, rápido, volto e digo sim, que esperto que tu és, já sabes ler, e o meu coração, nitidamente dividido em duas partes, onde uma não tem interferência com a outra, mas estão juntas e são inseparáveis, como compete aos ventrículos e às aurículas.
E mãe, conta-me uma história e que seja de Digimons e Pokemons, e lá invento eu uma história de amor, sempre uma história de amor, entre meninos Digimons e meninas Pokemons e adormecemos, ele encostado a mim e rapidamente me assolam aqueles sonhos e não estamos sozinhos na cama, há mais duas pessoas que se nos aconchegam só procurando calor e eu conto outra história, passada noutro planeta onde não há vida nem morte. Só querer. E o querer é mais forte que tudo e basta as pessoas quererem com força e conseguem o que querem e são felizes e adormecem quentes e calmamente dormem de forma repousada a noite inteira.
E eu durmo e acordo, como se estivesse numa pista de automóveis e periodicamente passasse pelo mesmo sítio. E penso. Penso em Santiago de Compustela: sempre lá quis ir, desde há imenso tempo que o projecto ganhou forma na minha cabeça, mas agora tenho um motivo para lá ir: ganhei o motivo naquele domingo, 11 de Novembro, quando tu não paravas de me telefonar, e dizias-me coisas que me punham louca de felicidade e à noite vim ter contigo e queria sentir aquela proximidade, aquela sensação de ser um corpo só, dividido em duas pessoas e a certeza tão certa que se naquela noite tivéssemos feito amor, tu dentro de mim e eu a acolher-te, não teria sido sexo e sim um mergulho no mais fundo do olhar de cada um, um mergulho que podia ter demorado horas, pois a dádiva do momento seria oxigénio suficiente para o resto da vida, e se houvesse gotas de suor a escorrer pela pele não se saberia qual a sua proveniência, porque os dois eram um e nem sequer haveria orgasmo porque a essência do acto era o mergulho no olhar, o mergulho um no outro e nada mais era preciso.
E no dia seguinte, telefonarias e eu pensaria, não, não era possível que fosses tu a telefonar, e não, não era possível que tivesses dito o que disseste, tu sentias mesmo o que dizias sentir por mim? e repetias que era a primeira vez que percebias a profundidade do teu sentir e eu, que tinha vivido tempo sem fim à porta do inferno, agora sentia abria-se a porta do céu e lá estava eu com as minhas dúvidas, estúpidas dúvidas, mas depois lembrei-me, não sei porquê, duma vez na Tunísia, onde encontrámos um homem que dizia ser um famoso trapezista que tinha actuado nos principais circos da Europa e toda a gente gozou com o homem e eu fui a única pessoa que o escutei e deliciei-me com as histórias que ele contou e quase chorei quando ele, no final me disse que tinha abandonado o circo porque tinha tido um acidente, motivo pelo qual coxeava, e todos os que me acompanhavam já não se lembram de nada e eu acredito que conheci o Leão da Tunísia e com ele falei e ele contou-me a história da vida dele pessoalmente e eu fiquei mais rica porque acreditei e acredito. Acreditar pode ser uma coisa poderosa. E eu acredito.
Não podiam ter mandado outra pessoa a Bruxelas? Volta... preciso de falar contigo, de viva voz e não só através destas intermináveis cartas que te escrevo sem parar e que tenho dúvidas se as lês... temos tanto para conversar...
(Acho que) Amo-te ... mas não tenho a certeza.
Camila

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

4 de Março de 2007

Caro Silvestre
Você desconcerta-me na forma mais positiva que posso imaginar… você é a pessoa mais saudavelmente diferente que conheci e estou grata por o ter “descoberto”, por me ter permitido entrar no seu círculo de amizade…diferente.
Descobrir é ir ao encontro do desconhecido.
Há quem o faça por natureza, e cada momento da sua vida assemelha-se a uma escalada, ao atravessar de um rio vigoroso, a uma caminhada ao sol. Mesmo que haja mais maneiras de lá chegar escolhe-se a que contém mais emoção, a que exige de nós mais fibra, não dando sossego ao corpo e à mente, mas alimentando a alma.
Outra forma de caminhar na vida é seguir os trilhos que outros já pisaram e avançar pelo conhecido.
Anda-se mais depressa, chega-se mais depressa. Onde? Ao topo, à glória, ao bom e ao mau e ao fim da vida também.
Quem anda depressa não vê tudo e o que vê não lhe é mostrado com clareza. Vêm com os olhos
Quem vai por onde ninguém ainda se atreveu, é dono, é senhor, é rico, é pessoa completa e cheia. São os que vêm com o coração.
Têm medo? Têm sim senhor; é o medo que os faz avançar. Morrem a meio de certas caminhadas. Morrem sim senhor, mas correram o risco que lhes soube melhor que anos de sossego por caminhos acimentados e alcatroados que nos levam depressa onde os outros querem, não exactamente onde nós queremos ou onde o acaso nos levaria.
Ah, sagrados cânones que nos orientam!
Ah, princípios éticos que nos regulamentam!
Ah, cabeça, tronco e membros do bom comportamento!
Ah, substância formal da boa convivência social!
Ah, teatro da vida, que passas anos sem nos dares um intervalo, sempre com a mesma peça em cena, repetindo o guarda roupa, falando eternamente a mesma língua, para espectadores sentados sempre no mesmo lugar.
As cenas já foram repetidas tantas vezes que todos já esqueceram que o próprio teatro é uma encenação e as deixas não são sentidas, alguém as escreveu para que outro alguém as diga.
O teatro é uma fé. Não sabemos porque acreditamos, não interessa perceber, não interessa dissecar, não interessa contradizer. Interessa contracenar. Já sabemos como vai continuar, conhecemos de cor o actor que vai entrar a seguir: vamos rir, mas o que nos apetecia era chorar? Se esperarmos um pouco, entrará outro actor que nos satisfará, mesmo que nesse preciso momento nos apetecesse mesmo rir. Mas não podemos. Porquê? Porque estamos a seguir o trilho que alguém construiu para nos facilitar a vida.
Pararemos para descansar, não quando estivermos cansados, mas quando encontrarmos o abrigo que foi construído para nos proteger. Lá dentro não faz frio, que nos engelharia as mãos, podemos tomar banho, para que não cheiremos mal…aos outros.
Podemos tirar as botas (da moda) e massajar os pés, para aliviar a caminhada que foi dura porque foi feita à pressa, para quê ir devagar se o caminho era tão bom, sempre ali debaixo dos nossos pés e nos permitia continuar com elegância para sermos os primeiros a chegar?
Os outros, os que andam mais devagar, os que escolheram os atalhos e trilhos pouco conhecidos e por explorar, quando chegam, chegam atrasados e o abrigo está cheio. Ficam lá fora. Conhecem a chuva e o vento, já viram vezes sem conta o arco Íris na lua, que outros nem sequer ouviram falar. Mas, também, a quem interessa o arco Íris da lua? O que se ganha ao ver-se um arco Íris na lua? Só pode ser uma aberração fruto da imaginação de um frustado, de um anormal, de um maníaco, de um obcecado.
Por vezes, alguns daqueles que conseguem chegar ao abrigo, acordam de noite com insónias e fumando um cigarro de sucesso, olham da janela bem calafetada a fogueira cujo fumo vai inquinar ainda mais os que a rodeiam. Sentem a tentação de sair, para saber se a noite está quente ou fria, o que conversam os anormais lá fora, mas não o fazem. Não seria correcto, perderiam o lugar no abrigo e pior ainda, sentir-se-iam a trair todos aqueles que elegantemente dormem à sombra da protecção do abrigo. No dia seguinte, estes olheiros, comentarão com os outros normais o mau aspecto da fogueira, a maneira concupiscente como os outros estavam deitados lá fora e, por meio de metáforas, darão a entender que até os ouviram peidar-se. Que horror!
E o teatro continua, sempre a ser interrompido pelos barulhos e pelos cheiros dos anormais.
Oh, neurónios indigentes que levam a boca a dizer obscenidades e a repetir impurezas e não se curam nunca.
Como podem ter esperança de entrar na peça? Mesmo tendo o papel de pedra da calçada, daria buraco.
Como poderão um dia, ser normais?
Será que não se apercebem que tudo tem uma altura e um momento certo na vida? Há horas para comer e beber, há momentos para agrafar papéis, há alturas para andar de bicicleta, há instantes para ver o por do sol, há minutos para nos pentearmos, etc. e por ai fora.
À força de quererem caminhar fora do empedrado, os anormais, muitas vezes fogem da vista do mundo. Perdem-se.
Coitados, na sua maioria são maníaco-depressivos, com obsessões que não lhes permitem ser normais. Nunca serão felizes. Coitados. São ridículos, teimosos em não quererem ler o guião da peça que deveriam estar a representar. Nunca sabem o que vai acontecer a seguir, que parvos!
Não pensam nas consequências e depois queixam-se. Querem coisas novas querem experiências, querem conversar sobre coisas sobre as quais não se conversa, querem emoções. O que querem é perder o controlo e não saberem nunca o que vai acontecer a seguir, isso sim!
Toda a gente gosta de aventura e mistério. Está previsto que assim seja, e para tal lê-se um livro ou vê-se um filme. Está no guião.
Em última análise estas pessoas, estas criaturas, são um perigo. Como se pode saber que não têm um efeito contagiante, que o seu interior não contém vírus e bactérias como por exemplo vontade de rir, impulsos sexuais incontroláveis, olhares penetrantes, ondas do mar, música por tocar, amanheceres acordados, uma camisola para dois, beijos a desconhecidos, livros emprestados lidos em voz alta, almoços só de vinho e outras barbaridades ainda mais bárbaras que não se podem descrever, porque são actos cometidos fora do tempo próprio, antes ou depois do momento em que estavam programados, absoluta e completamente fora do guião?!
Cada pessoa tem direito a encarnar um personagem e apenas um e tem como missão convencer-se que é esse personagem, de preferência um protagonista de qualquer coisa. Quanto mais depressa decorrer este processo de auto-convencimento, de auto-conhecimento, mais depressa se alcandora à felicidade!
Os anormais mudam de personagem constantemente. Para quê? Só dificultam a sua própria vida. Nem dão tempo a que eles próprios se conheçam e não respeitam a respeitabilidade dos outros, que se mantêm iguais a si próprios, coerentes, uniformes, ou seja, normais!
Aqueles anormais são loucos. Só podem ser.
O pior de tudo é que, por vezes, vestem a pele de uma personagem normal e confundem as pessoas efectivamente normais. Divertem-se a cometer estes crimes.
Como descobrir um deles? Facilmente: arquitectam conversas que nada têm a ver com a realidade, com o guião. Falam de coisas estapafúrdias, dizem o que pensam e o que sentem. Não têm sentido. Se virmos bem as coisas, nem existem. Afinal, não estão no guião.
Bem, agora é o momento de ir à casa de banho.
Camila

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

12 de Fevereiro de 2007

Mana querida

Acabo de comprar a revista de viagens! Adivinhas o que lá vem? Outra carta minha!
Aqui ta envio, para em seguida me telefonares…
“Há algum tempo que suspeito que Deus é vosso prisioneiro.
Agora tenho a certeza e disso quero dar notícia pública! Têm que ser publicamente acusados! Enganam-se se pensam que não estou atenta… aos poucos, desde há tempos para cá, introduzem pinturas em vez de fotografias em reportagens feitas com mão divina, para as quais vocês fabricam a autoria. São pinturas de sonhos, daqueles sonhos coloridos e doces, onde tudo é pintado com pincéis feitos de nuvens… são pinturas de cenários de filmes e não da realidade… sim, não me queiram convencer que AQUILO existe…
Por um qualquer processo, com certeza também com recurso às tecnologias disponíveis, vocês cometem ilegalidades do tamanho do mundo… roubam sonhos íntimos de cada um de nós, comuns cidadãos, e usam-nos sem apelo nem agravo, fazendo-nos crer que existem mundos que não existem… quem poderia cometer tal acto, senão a própria mão de Deus? Que pintou um local, a que aí chamaram Provença, e cujas imagens nos aparecem como se fossem fotografias… mas não são… Muito me agradaria saber como fazem: transportam-se para outros mundos paralelos ao nosso com recurso à física quântica? Ou são mesmo telas pintadas por Deus, de paisagens onde só a Sua imaginação tem acesso?
Provença…? Onde diabo fica a Provença? Na França? Mas a França não é aquele sitio onde está uma torre que se pode subir, com um nome dum francês que também andou por aqui, em Portugal?… ah, a França é muito grande? Fraca argumentação para quem tem em seu poder o poder de fazer o que vocês fazem… e contudo, não posso deixar de o dizer, é tudo tão real, parece mesmo de verdade, as casas, as pessoas, as cores, a mescla de tudo e o texto muitíssimo bem alinhavado, como uma renda, um bordado divino…
É na mistura do conjunto que se percebe que tudo não passa duma ilusão! Não há falhas, buracos a serem preenchidos: as flores são perfeitas, o ocre das casas faz-nos sentir calor, o verde da água dá-nos frescura, as escarpas e os desfiladeiros obrigam-nos a sentir o vento, olhamos o circo romano e ouvimos gritos de centuriões, os arcos da abadia trazem-nos a calma que leva à reflexão…
Como puderam pensar que iam passar despercebidos? Como puderam pensar que todos iam olhar para o vosso trabalho e considerá-lo obra vossa, única e exclusivamente? Como puderam inventar locais que ainda não foram descobertos pelo Homem? Como puderam alcandorar-se a aprisionar Deus e a dar-lhe tarefas como escrever ou pintar… agora percebo o porquê de tanta gente andar com esta Bíblia nas mãos…”
Tua irmã do coração
Camila

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Meu caro Silvestre

Meu caro Silvestre
Entrei pronta a ouvir, Olá, tá boa? E a responder, mais ou menos, tenho estado doente, e a ouvir de volta então o que lhe aconteceu, seguido da explicação, com poucos pormenores, que isto de doenças é sempre chato…
Entrei e não aconteceu nada disto. Pensava que estava a entrar num vão de escada e estava a entrar numa gruta iluminada por um sorriso de criança. Um sorriso de criança que me esperava para se mostrar, que ansiava dar-se, que aguardava o momento de contar, como uma criança conta a um crescido que já sabe desenhar argolas e pontes que, juntas, fazem letras ou como uma criança conta a um amiguinho que tem um brinquedo novo, fonte da sua alegria e origem da luz que emana do olhar. Ah, o olhar, sempre esse traidor…
Tendo constituído uma surpresa, não o foi. Aquele seu gabinete é um ninho de surpresas.
O Silvestre, como uma criança chamada aos trabalhos de casa, teve que sair à pressa. Porém, não o fez sem partilhar, rapidamente, a sua excitação, quase algum nervosismo, atrevo-me mesmo, a usar a palavra ‘insegurança’. Aqui, definitivamente, a surpresa. Ele nunca, nunca, até agora, tinha deixado vislumbrar esta – e aqui, falta-me a palavra adequada – imagem, pode ser esta palavra.
O alquimista, inventor, melhor, criador de ouro colorido, que deposita nas mãos nos outros (não será melhor dizer nos ouvidos…?), sem pedir em troca, sem exigir, ali estava ele, apressado, a derrubar os papéis, mostrando ansiedade, aquela ansiedade boa, que antecede algo, com a certeza que vai ser bom, cumprindo o ritual da espera, esperando que ela termine mas, em simultâneo, querendo que se prolongue, ao sabor da imaginação, banhada pela água do Atlântico, onde o ser que dele se apoderou, navega.
Você lembrou-me um extraterrestre a procurar o amor e, temendo encontrá-lo e que se desfaça como um castelo de areia na praia, vibra, admirando-lhe as torres, as muralhas, mesmo que esburacadas e, rezando para que o mar calmo permaneça, deixa a turbulência dentro de si, sem dela dar mostras, embora um laivo de insegurança tenha surgido como um farol de um carro rápido a alta velocidade.
Será medo? Medo de algum dia encontrar o que procura?
Se for medo, terá que ser doloroso, porque o alívio, compensará a intensidade da dor.
Às vezes vale a pena doer…
Sinta-se abraçado pela sua amiga
Camila

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

12 de Março de 2007

João
Acho que gosto de ti com toda a minha loucura e são para ti todas as lágrimas que eu guardo ao longo do dia e que há muito não derramo.
Nunca pensei que seria capaz de me suicidar, mas deve ser qualquer coisa assim que sentem aquelas pessoas que estão ligadas à máquina, meio vivas meio mortas. Elas próprias são meia máquinas, um relógio, um zombie, caminham não sabem para onde, estão mortas e não sabem. Estou farta de caminhar em estradas alcatroadas e empedradas por onde já passaram milhares de pessoas; esses caminhos seriam delas, meus não são certamente. O meu sítio está à minha espera, que eu o descubra, que eu o desbrave. Mas não o posso fazer porque estou aqui presa; outros diriam que era por causa das responsabilidades que tenho: e eu não sou responsabilidade de ninguém? Sou da minha responsabilidade e é por isso que me sinto coagida a fazer qualquer coisa. A música acalma-me imenso algumas tentações que tenho, mas começa a não chegar. As pessoas aborrecem-me cada vez mais, obrigam-me a esforços incomensuráveis para ter paciência para as ouvir e responder-lhes. Isso não quer dizer que eu não continue viciada em pessoas, continuo. Mas faço esforços para conhecer pessoas novas, talvez através delas eu encontre o que procure.
Olha-me esta agora, com problemas existenciais, anda a ver muitos filmes, a ler muitos livros e fez-lhe mal falar com o Paulo Coelho, e pensa que pode ser como ele: estás tu a pensar!! Problemas existenciais têm os desgraçados do Kosovo, as mulheres do Irão, as crianças da Índia, e mais uns milhões de pessoas por esse mundo: continuas tu a pensar.
Se me conheces um bocadinho sabes que não é assim. Mas descansa, as grades à minha volta não me deixam fazer nada.
Pode ser que um dia, o guarda, deixe a porta aberta por esquecimento...
Camila