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quarta-feira, 17 de junho de 2015

Da ilusão

Estou confusa e baralhada.
Fui eu que não soube ler os sinais? 
Desaprendi a leitura do mapa da vida? 
Enganei-me na sinalética dos relacionamentos? 
Tão esperta para algumas coisas, tão burra para outras, diriam todas as pessoas que conheço.
Há alturas em que certos verbos parecem pertencer à categoria dos confettis, confiar, acreditar, esperar, essas coisas.
Qual fogo brando, ao qual apontaram um foco de calor, iluminei-me e agora sufoco no meu próprio incêndio, no qual acendo cigarros atrás uns dos outros. 
Isto passa.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Dói que se farta

Séculos, sinto que passarem séculos desde a última vez que aqui escrevi.
O trabalho tem sido tanto e tão intenso que não encontro uma sombra para me deitar, menos ainda espaço para teclar.
Hoje vim ao exorcismo, o nublado do dia a fazer jus ao cinzento da alma, depois do frio se ter apoderado de mim, esbranquiçando a pele já morena.
Sinto-me um fantasma, sou mas não sou, visível e invisível, deambulo.
Agarro-me a conquistas e sucessos profissionais dos últimos tempos, a sorrisos largos, a trabalho bem feito e quando dou ouvidos ao relógio de parede, a badalar que há vida para além do trabalho, e me convenço disso mesmo, verifico que foi uma ilusão de óptica.
Como sinto acima de tudo que a minha missão é ajudar os outros, concentro-me desesperadamente nessa tarefa, como alguém que levou um tiro mas continua a rastejar.
Dói que se farta, mas passa.
Tem que passar.
Vai passar.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Eu gosto é do Verão...

Dizem que os fiordes são lindos de se verem. Acredito, mas nunca vi estas impressionantes formações naturais do planeta; também nunca vi o sol da meia-noite, embora já tenha andado pelas ruas à meia-noite sem ser necessário acender qualquer luz, no círculo polar ártico.
As línguas, tão saborosamente diferentes, como se fosse uma música nova que estamos a ouvir; a gastronomia, os costumes, a roupa, as casas, um tudo enorme de que me lembro nestes dias chuvosos em que não é sequer Inverno.
As dores de cabeça são frequentes neste ambiente quente e húmido, qual Macau à beira do Tejo que se deixa cair no mar.
Decididamente não gostaria de viver num local onde os dias são pequenos e a escuridão anda sempre a espreitar, numa espécie de brincadeira com um frio danado.
No entanto há quem viva nestes locais e adore. Penso também que, com a minha capacidade de adaptação, me adaptaria a qualquer sítio... desde que houvesse praia, penso logo a seguir...
Nada disso! Quero afastar este preconceito metereológico-geográfico e pensar que podia viver em qualquer local do mundo. Sim, eu sou capaz!
Quero acreditar nisto, mas olho pela janela, vejo a noite a aproximar-se às quatro da tarde e, instintivamente, entristeço. 

segunda-feira, 23 de junho de 2014

A riqueza do Gana

Nunca pensei no Gana como um país rico, mas contra factos não há argumentos!
É um país rico, os seus milionários são todos de idade avançada e estão todos a morrer. Por sorte há um familiar deles que sabe o meu e-mail; como? Não sei e não quero saber, logo terei tempo para isso depois de agarrar a fortuna, ou melhor as fortunas, que estão à minha disposição.
A quantidade de mensagens que recebo é impressionante e atribuo o facto de me escreverem a um simples motivo: sabem que leio o correio todos os dias.
Por este andar não tarda serei rainha do Gana e assim que o for vou criar um novo hino:

Ó Gana, Ó que lindo Gana
Ó Gana lá no Mundial
A 26 desta semana
Vê o que fazes com Portugal

Vê o que fazes com Portugal
Que não sabe o que anda a fazer
Ó Gana, Ó que lindo Gana
Ó Gana, tu vais vencer?

Eu gosto muito de ver
Jogar e marcar golos
Não deve ser  difícil bater
Quem tem tantos torcicolos!

Não m'inveja de quem tem
D'ouro bolas e botas 
Tanto milhão não dá vintém
Apenas uma grande chacota

Ó Gana, Ó que lindo Gana
Ó Gana lá no Mundial
A 26 desta semana
Vê o que fazes com Portugal

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O casamento mais rápido do mundo

Tendo decidido não comemorar o Natal, não escapo ao Ano Novo. Sou eu mesma que tomo a iniciativa de falar com algumas pessoas, desejando-lhes um bom ano e dando dois dedos de conversa.
Ontem repeti a chamada para a minha amiga HS que voltou a não me atender; sendo a segunda vez achei estranho e mandei um sms a reclamar dizendo que só lhe perdoava se ela estivesse acompanhada... e se estivesse eu queria saber tudo...
Hoje ligou-me a reclamar, ela também: então que mania é a minha de lhe telefonar quando ela está a dormir?
Apanhada de surpresa, acho até que abri os olhos, tentando recordar se estaria fora de mim e me teria dado para ligar às pessoas à meia-noite. Não, a minha certeza era absoluta pois rejo-me pelas convenções sociais que interditam telefonemas depois das dez da noite a menos que sejam urgências.
Dez da noite? Clama ela lá do outro lado, Não, tu ligaste eram nove e pouco mas eu é que me deito às nove horas.
De surpreendida passei a catatónica. Pensei que brincava mas ela falava sério e pensou que eu brincava quando lhe disse que às nove da noite estou eu muitos dias a trabalhar, na Biblioteca, entenda-se, não em casa!
Bom, lá adiantámos conversa, as mesmas perguntas repetidas mesmo que nos tenhamos visto dois dias antes, continuas sozinha, sim, e tu, também.
Rimos, não da nossa solidão, mas do disco riscado e eu atiro-lhe que no meu caso é mesmo dificuldade em encontrar alguém, já ela não dá tempo seja a quem for, a deitar-se às nove da noite.
Continuamos a rir e eu pergunto-lhe se quer juntar os trapinhos comigo, ela que sim, à falta de melhor, mas que eu me vá preparando que ela vai meter já os papéis do divórcio.
Do divórcio? protesto eu, pois se ainda nem nos juntámos!
Sim do divórcio, vou alegar falta de atenção da tua parte que trabalhas até às nove da noite...
E assim começou a acabou o meu casamento com uma mulher, a rir.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Coisas bizarras...

A páginas 48 do jornal Público de ontem encontrava-se um anúncio da APSA, Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger. Sendo eu familiar de um aspie, nome carinhoso para estas pessoas especiais, interesso-me por tudo o que envolva a doença e, lendo o anúncio, fico a saber que o mesmo serve para informar que a campanha de recolha de fundos "reuniu um total de € 599,00 que será aplicado no projecto Casa Grande, um Centro de Atividades Ocupacionais e Residência Autónoma para pessoas com Síndrome de Asperger".
Mais informa a APSA que "A campanha, desenvolvida através de chamada telefónica, decorreu de 7 de Janeiro a 7 de Agosto de 2013". Calculo que parte do valor da chamada revertesse para a APSA, calculo, não tenho a certeza.
Estas Associações são de valor elevado, garantindo apoio a pessoas que são confrontadas com situações que desconhecem, angústias e choques, tristezas e solidão. Constituem um cenário de conforto e resposta que deve ser acarinhado, e muitas vezes não existe outra porta onde se bata. Contribuo mensalmente com um pequeno valor, não para esta associação em particular, mas para outra, indico uma outra como beneficiária no IRS e participo em acções de voluntariado, coisas que qualquer pessoa pode fazer, mas não faz. Dá muito trabalho...
Porém, não posso deixar de me espantar com um gasto de 1.550 € (preço de tabela para o dia e a localização em questão no interior do jornal) num anúncio para informar que receberam 599 € numa campanha, informação essa que não consta na página oficial da APSA, nem na página do Facebook, incontornável hoje em dia. Estranho, no mínimo.
Hoje, Dia Internacional do Voluntariado, seria um bom dia para pedir ajuda, dar conta da sua existência, mas nada vi, para além de na página oficial apresentam o 'Plano de Atividades e Orçamento Previsional para 2014' onde calculam gastar em publicidade e propaganda (sic) a específica quantia de 9.594€.
Para mim é confuso e, sinto-me completamente à vontade para brincar sem ofender seja quem for, deve ser efeito de aspie... 

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Natal? Qual Natal?

O que é que Nicolás Maduro é mais que eu? Se a Venezuela pode ter Natal em Novembro, eu posso não ter Natal. O presidente venezuelano quer recuperar a essência da expressão popular, O Natal é quando um homem quiser, e eu quero celebrar a realidade do momento actual.
Não encontro nada para celebrar e não consigo perceber onde foi a revista do Expresso, há umas duas semanas, buscar pessoas tão felizes e contentes, passando a imagem de um país em recuperação, com esperança e expectativas.
A bem da verdade, até nos campos de concentração nasceram crianças, naqueles antros de corrupção mental, no fim da linha da loucura deu-se o milagre da vida, mas isso não melhora a imagem daqueles sítios. Mostrar meia dúzia de sorridentes não tira a fotografia do país, velho e doente, da grande maioria exausta e desesperada.
Assim, instituo que não há Natal. Eu dou e reparto o ano inteiro, estou presente na vida da minha família e dos amigos que gostam verdadeiramente de mim, que se preocupam comigo, poucos, cada vez menos mas muito bons, sumo de amizade concentrada. Ajudo o meu filho e brinco com os meus sobrinhos o ano inteiro. Além disso, a cortisona fez-me engordar de novo e não posso comer bolos. Mesmo que pudesse, só se os comesse com os olhos que os euros não chegam para tanto.
As câmaras municipais continuam brilhantes a dar brilho às noites com uma iluminação absurda, fingimento supremo de que existe Natal. Esta equação da época natalícia igual a luzes a acender e a apagar, fechando os olhos a problemas que podiam ser ajudados a resolver com as verbas milionárias das luzinhas de Natal é inexplicável. Que os centros comerciais o façam desde o fim do Verão, ainda engulo: montam o engodo para não matar a sociedade de consumo, para manter uma réstia de felicidade nas pessoas, sabendo que a felicidade se atinge num corredor cheio de lojas. Mas as câmaras deviam pensar para além dessa felicidade, deviam pensar na existência das pessoas.
Ainda eu ia à praia e já se via neve e ouvia-se jingle bell cantado por gordos pais Natal. Ninguém se lembra de criar um Pai Natal esquelético a carregar umas renas mortas, só pele e osso? Fazia mais sentido...
Fazia mais sentido que alguém se lembrasse de inverter as coisas, que é como quem diz, colocá-las no seu lugar! Mas a tradição continua a ser o que era e há que manter a tradição, mesmo que para isso seja preciso sacrificar as pessoas.
Bem, as pessoas que é como quem diz, algumas pessoas... 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Descubra as diferenças

Uma querida amiga paulista enviou-me um presente. Não o recebi das mãos do portador pois ontem estive ausente, mas hoje admirei o saco, o laço do embrulho, a mensagem, reconhecível no redondinho da sua letra, que transporta carinho e simpatia.
Cada vez que um conterrâneo seu vem a Lisboa, ela presentei-me e mima-me, desta vez a excepção consistiu em eu não ter conhecido a pessoa que fez a gentileza, como ela própria diria.
Assim, logo pela manhã tive uma espécie de surpresa, o que me agradou imenso: lembrarem-se de nós é fantástico!
Querendo partilhar a alegria e a delicadeza do presente fui repartir a doçura com as minhas colegas. De dentro do saco retirei um embrulho magnífico e depositei em cima da mesa dois enormes doces de aspecto delicioso, afirmando por antecipação o quão bons deviam ser.
Elas olharam-me com ar estranho e eu, logo apressada, fui dizendo que um bocadinho só não lhes fazia mal, eu é que tenho que me conter, a cortisona não é compatível com estas coisas. Elas acentuaram o ar estranho e disseram-me que era uma pena partir os sabonetes ao meio ...

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Convite

Uma amiga mostra-me um convite para uma festa no Lux, sabendo que me interessarei pelo convite em si, sabendo que não me interesso pela festa, o Lux também o deve saber porque não fui convidada. Acabando de escrever já vou ali chorar um bocadinho.
O convite é genial: um bocado de cartão, leve como uma pena, com locais para carregar, quais teclas disfarçadas, que contêm gravações: o que vai ser a festa, quem a apoia e patrocina o evento, música, um must!
Como ela adivinhava achei-o muito divertido, original e irresistível. Por vezes não é preciso muita imaginação e a tecnologia hoje em dia ajuda imenso. Gravei-o na memória.
Hoje, outra amiga - sou uma pobre, ninguém me convida directamente para nada, eu já ali vou chorar um bocadinho... -  reenviou-me um convite para a inauguração da exposição Deutscher Werkbund: 100 anos de Arquitetura e Design. 
Para além da dita inauguração ter sido dia 10 de Setembro, o convite vinha com um anexo que dizia: Convite para utilizadores com deficiência visual. E foi isto que me fez prestar-lhe atenção, as novidades aparecem aos molhos todos os dias, quero ser surpreendida, ora deixa cá ver.
E que vi eu? Um documento escrito no word, normalérrimo. A falha seria minha? Seria, com certeza.
Peço a um homem da informática que me esclareça, que me ilumine nesta treva da ignorância mas, ignorante ele também, não vê nada para além de um documento banal, em calibri 11, não justificado à direita, letra preta, fundo branco, tão igual a qualquer outro que fazemos todos os dias. 
A ignorância dele, manifestada de forma sorridente, contagiou-me e vamos viver ignorantes para sempre.
Fim.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Pregos no Ego


O tio Chico Buarque deu-nos esta letra a que chamou Olhos nos Olhos. É linda e tendo em conta os versos que estão a bold podia chamar-se Pregos no Ego.

Quando você me deixou, meu bem,
Me disse pra ser feliz e passar bem.
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci,
Mas depois, como era de costume, obedeci.

Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer.
Olhos nos olhos,
Quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais

E que venho até remoçando,
Me pego cantando, sem mais, nem por quê.
Tantas águas rolaram,
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você.

Quando talvez precisar de mim,
Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim.
Olhos nos olhos,
Quero ver o que você diz.
Quero ver como suporta me ver tão feliz.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Dragões de Ouro…? Não, é só palha!

Durão Barroso foi distinguido com o Dragão de Ouro de Honra. Tendo em conta que as deslocações do Presidente da Comissão Europeia envolvem uma logística complicada que, por sua vez, obriga a gastos imensos, adorava saber quem pagou todo este carrossel de vaidades. Alguma coisa me diz que quando for ver o meu saldo vou perceber que fui eu…
Miguel Relvas também lá estava de sorriso atarraxado, patrocinado, mais uma vez, por mim…
Fez ontem anos que se assinou o Tratado para se estabelecer a Constituição Europeia. O eterno Cherne comemorou a data com uns pontapés na vergonha, afastando-a, e Relvas, trinco da imoralidade, bateu palmas.
E o pior é que os Dragões deitam fogo pela boca… e não se vê aparecer um caçador…

Presa por ter cão e presa por não ter


No silêncio sussurrado da biblioteca avisam-me que um aluno se está a sentir mal. Trago-o para o meu gabinete com queixas de tonturas, má disposição geral, grande desconcentração e desorientação. Informo-o que vou chamar uma ambulância. Ao telefone vou respondendo às perguntas do 112: se lhe custa olhar a luz, o que comeu, há quantas horas, etc. Pedem que esperemos.
Peço ao aluno o contacto do pai ou mãe, de um irmão, da namorada, de alguém a quem comunique que ele não está bem. Ele recusa, alegando que os pais não podem atender o telefone durante o dia. É peremptório, não há mais alguém, eu que não me preocupe.
A voz estranha, meio arrastada, algumas frases que não terminam, palavras estranhamente repetidas, fazem-me dar a volta por outro lado e pedir ajuda na Secretaria para que nos facultem um contacto de um familiar. Um colega disponibiliza-se a dar o telefone do pai do aluno em questão.
Antes de ter tempo de lhe ligar, avisam-me que chegou a ambulância. Acompanho-os ao local onde está o rapaz. Fazem-lhe meia dúzia de perguntas e informam que o vão levar para o Hospital, face a um estado de desorientação total, de tal forma que permitem que uma de nós vá na ambulância.
Assim que saem a apitar e com as luzes a acender e a apagar ligo ao pai. Identifico-me e a meio da curta explicação de poucos segundos o pai começa a gritar comigo! Quem é que me mandou chamar uma ambulância? Porque não lhe liguei mais cedo?
A surpresa foi de tal ordem que a desorientação me apanhou também a mim, por alguns segundos. Lá me recompus, pedi-lhe calma e… nova explicação interrompida por mais uns gritos em que ameaçava que eu me iria arrepender de não ter tirado o telefone ao rapaz e lhe ter ligado imediatamente a ele!
Se com o primeiro grito me desorientei, com o segundo já não: falei mais alto dizendo-lhe que a pessoa em questão, que por acaso é filho dele, tem 21 anos e se não me quer facultar um número de telefone, está no seu direito. Tirar-lhe o telefone e procurar um contacto de um familiar, isso era se ele tivesse 8 ou 10 anos! Além disso, é nossa obrigação chamar profissionais de saúde quando alguém não se sente bem e o filho dele sentia-se muito mal! De negligência, eu não seria acusada! 
Não podia ficar mais espantada com o que me disse a seguir: se a ambulância ainda não saiu, ponha-se à frente dela e impeça-a de sair!
Isto foi dito em nova torrente de gritos. Pensei que não valeria a pena continuar e, falando mais alto, informei-o que o filho se dirigia ao Hospital de S. José, um resto de boa tarde!
Liguei para a minha colega que tinha acompanhado o rapaz, avisando-a que o pai ia a caminho (achava eu!) e que não era pêra doce.
Estavam a aguardar na sala de espera quando chega a descontrolada figura paternal. Calmo, normal, agradecido. Ficou com o filho e agradeceu, agradeceu, agradeceu!
Desconheço as razões de tal comportamento, completamente estapafúrdio.
Passada uma semana encontro o jovem e pergunto-lhe como está. Alegre e bem-disposto, agradece os cuidados, afirma que está bem, que foi excesso de estudo, aliado à necessidade de mudar as lentes dos óculos, muita preocupação com os testes, enfim, uma combinação explosiva. Diz que já me tinha procurado para me agradecer e… pedir desculpa pelo comportamento do pai. Enfim… 

domingo, 28 de outubro de 2012

Viva a Monarquia!

Apercebo-me que a palavra Inconstitucional é usada como nunca foi.
É o Juiz que quer ser presidente do Benfica, são as ordens profissionais que não querem que o Governo as controle, são os cortes nos subsídios, é o próprio Orçamento de Estado nas palavras de um ex-presidente.
Salvo melhor opinião devia usar-se um dicionário para se saber o que quer dizer, afinal, Inconstitucional.
Se significa o que eu acho que significa, e se se segue cantando e rindo, para que serve a Constituição? Alguém que saiba que me elucide, se faz favor.
A dita  inconstitucionalidade é assim tão difícil de 'ver'? É tipo agulha no palheiro? E quando a encontram, nem a reconhecem quando se picam? Porque não há acordo sobre ela?
Adorava perceber tudo isto. Por ora, como sou burra na matéria, sinto uma raiva difícil de controlar.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Círculo de Ferro


Pontes, círculos, ligações
Nascem, crescem, ganham raízes
São cicatrizes
Projectos de Afectos
São as nossas origens
Ontem, filhos, pais, hoje avós
Amanhã, somos nós!

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Os últimos serão os primeiros

Há dias ajudei uma amiga a fazer um trabalho sobre as razões da mudança semestral das horas, em Março e em Outubro. Mais tempo útil diurno, poupança energética, maior uso de energia solar, coisas de somenos importância quando comparadas com a possibilidade de estarmos mais tempo nas esplanadas ao fim do dia.
Andamos ao toque dos relógios atómicos que se escondem em bunkers por essa Europa fora, todos os países os têm, e são eles que dizem a hora certa.
Em finais do século XVIII Benjamin Franklin pôs-se a fazer contastrês vez nove, vinte e sete, noves fora nada… - e deu conta da possibilidade de se pouparem toneladas de cera de vela se se mexessem nos relógios.
Hoje em dia, para além de estar provado que há menos criminalidade durante a hora de Verão, e os dias serem maiores dando mais oportunidades à execução de tarefas como passar a ferro ou varrer a casa, há a questão da Bolsa… abrir e fechar a Bolsa sem ser à hora certa pode dar origem a prejuízos de alguns milhões. Assim, bancos, transportes e empresas várias andam direitos que nem fusos, à espera da badalada que os porá a correr, como tiro de partida.
É tanto assim que a velha e boa Samoa, a querida Samoa, através do seu querido e nada controverso governante Tuilaepa Sa'ilele Malielegaoi, Tutu para os amigos, desistiu do dia 30 de Dezembro para alinhar os negócios com a Austrália e Nova Zelândia. Assim passaram de 29 para 31 de Dezembro, eles que ficam ali ao lado, mas cujo fuso horário os deixou um dia no século passado quando os vizinhos do lado já cantavam as glórias do século actual. Está mal, isto não se faz! Há algum tempo, o mesmo governante decidira passar a conduzir à esquerda para facilitar o aumento da importação de carros e parece que aumentou também a sinistralidade rodoviária, mas isso é outra conversa.
A Samoa faz-me lembrar Santo Aleixo da Restauração, aldeia do Baixo Alentejo, que consta no obelisco da Praça dos Restauradores, em Lisboa, como tendo tido importante participação nas guerras da altura, quando ganhou o apelido ‘da Restauração’.
Reza a lenda que se preparava o padre para dar a bênção num casório quando se anunciam tropas inimigas nos arrabaldes de Santo Aleixo. A sede de concelho, Moura, ficava a mais de duas dezenas de quilómetros, mas era preciso ser avisada da proximidade dos meliantes.
Monta-se a noiva a cavalo e manda-se a Moura com as terríveis notícias; encerram-se as mulheres na igreja e ficam os homens de fora a dar luta aos castelhanos, sabendo que não os venceriam, mas que o atraso provocado seria suficiente para Moura se preparar. E assim foi. Morreram todos ou quase todos na vida real mas ficaram eternamente na História.
Mas Santo Aleixo não faz lembrar a Samoa pelas glórias militares: reza outra lenda que durante anos o mês de Abril trouxe ventos e chuvas tais que deu cabo das colheitas. A coisa foi de tal forma que os habitantes se recusaram até a dizer o nome do mês, enunciando as crianças na escola os meses da seguintes forma: Janeiro, Fevereiro, Março, o mês que não se diz, Maio, e por aí fora.
Há uma outra lenda que diz que a Rowling se inspirou aqui para criar o mito do Voldemort, aquele-cujo-nome-não-se-pode-dizer, mas não se confirmou nada até agora.
Mas o medo de Abril era tal que até se conta uma historieta segundo a qual ia uma família cigana com muitos filhos pela estrada fora e pediram boleia a um homem que viajava num carro de burro. O homem assentiu e todos subiram à excepção dum ciganito que, de tão pequeno, não conseguia erguer-se para entrar no carro. Um dos irmãos incentivou-o dizendo:
- Força Abrilito, força!
O dono do carro ouviu aquilo e quis saber o nome do gaiato. Quando lhe confirmaram que era Abril correu com eles todos do carro!
Abril voltou a entrar no vocabulário de Santo Aleixo com o 25 de Abril… com tanto mês, logo tiveram que escolher aquele mas, por outro lado, acabou com o estigma de os habitantes serem conhecidos como tendo um mês de atraso, coisa com que eram atormentados por todas as terras ali ao redor, que não perdiam oportunidades de o lembrar.
Assim, se Santo Aleixo viveu durante anos com um mês de atraso porque não pode a Samoa passar a viver com um dia adiantado? Além disso o novo fuso horário não foi escolhido numa base de ita nuita, ita noá, quem está livre, livre está e sim devido ao fomento de relações comerciais com vizinhos que não eram parceiros por incompatibilidade de calendário. Ali sim, via-se o dia de amanhã quando os samoanos olhavam na direcção da Austrália e os australianos miravam o passado quando visitavam a Samoa. Mais ainda, conseguiram um feito notável, eles que eram os últimos a passar de ano, agora inverteram a coisa!
É ou não verdade que os últimos serão os primeiros?

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Calendário

Fechei o calendário de 2011. Era de secretária, triangular, com belas imagens do Brasil, oferecido por amiga brasileira e que me acompanhou um ano inteiro, dizendo-me a que dia calhava 16 do mês que vem, quantos sábados tinha o próximo mês ou qualquer outra informação de datas. Também me ajudou a passar momentos lentos, fazendo-me sonhar com paisagens e imagens, como a de Junho, com o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, aparentado com uma bela nave espacial.
Na cozinha lá em casa tinha um chinês e que me encantava pela grafia dos caracteres que são à confiança, ou seja, acreditamos que diz Janeiro, mas também pode dizer outra coisa qualquer pois não os sabemos ler.
Há calendários que são obras de arte – como os da Michelin, diriam muitas vozes – os da Coca-Cola de há umas duas décadas, que esperávamos ansiosos que aparecessem na parede do café do Sr. Paixão.
Abre-se agora o novo calendário e ouço a voz do meu pai, com décadas, a martelar no mesmo: o mundo acaba em 2012, mais concretamente a 12 de Dezembro!
- Como é que o pai sabe?
- Disseram os Maias!
Ouvido isto voa-me a imaginação directamente para o Eusebiozinho, que se vestiu de anjo e acabou desasado com as penas a fugirem enquanto se escondia num reposteiro.
- Mas eu li os Maias e não me lembro de falarem em 2012…
- Não são esses Maias, são os da América do Sul…
- Ah…
Assim esclarecida, e passados anos penso que deve haver poucos objectos tão ecléticos no que diz respeito a imagens, com paisagens, crianças, animais, logótipos de empresas, mas fico sempre na dúvida sobre o que levará a palma de ouro: os motivos religiosos ou um belo par de mamas? Decido-me pelas mamas, por serem universais como é óbvio!
Porém, face ao fim do mundo iminente vou arranjar um calendário com Nossa Senhora de Fátima!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Trigo limpo, farinha Amparo!

Ontem à noite fui às compras e depois de as arrumar deliciei-me – há gente para tudo – a arranjar o peixe. Se eu trabalhasse num supermercado seria na peixaria e atenderia os clientes que querem o peixe amanhado…
A meio de escamar um pargo ouço a voz da Madalena Iglésias na rádio a dizer que sabia quem ele era, era um bom rapaz, um pouco tímido e tal e comecei a acompanhá-la prestando, pela primeira acho eu, atenção à letra. De mangas arregaçadas, faca numa mão e rabo do pargo na outra, conclui que o amor já não é o que era: um homem que chora se ela não vem? Objecto de Museu! Se ela não vem, ele arranja outra!

Sei quem ele é
Ele é bom rapaz
Um pouco tímido até
Vivia no sonho de encontrar o amor
Pois seu coração pedia mais,
Mais calor
Ela apareceu
E a beleza dela
Desde logo o prendeu
Gostam um do outro e agora ele diz
Que alcançou na vida o maior bem,
É feliz.
Só pensa nela
A toda a hora
Sonha com ela
P´la noite fora
Chora por ela
Se ela não vem
Só fala nela
Cada momento
Vive com ela
No pensamento
Ele sem ela
Não é ninguém

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Viva o Folheto!

Ex.mo Sr. Dr., médico de família, médico particular, especialista, estagiário, e outros

Venho por este meio agradecer a ideia do folheto que vão criar para explicar às pessoas porque não devem pedir a substituição dos medicamentos nas farmácias.
Essa medida vai garantir várias coisas a bem da nação:
- Desde logo vai dinamizar uma qualquer empresa gráfica, e tão mal que andam as gráficas, com toda a gente a ter computadores e impressoras e a fazer as coisas em casa.
- Acelera-se a morte de muitos velhos que aí andam só a empatar: como não têm dinheiro nem para os genéricos, vão passar a comprar ainda menos medicamentos e, deixam de enriquecer as farmácias, cujas filas diminuem, deixa-se de lhes pagar pensões e passa a haver mais lugares livres nos transportes pois, como as pessoas têm que trabalhar até morrer, manda a boa educação que nos levantemos face a alguém de provecta idade que entre na carruagem.
- Os lares vão baixar os preços face à diminuição do número de clientes
- As famílias deixam de ter a maçada de sentar os avós à mesa de Natal

Como se calcula, muitos outros benefícios advêm desta medida, não me alongarei na lista.
Os farmacêuticos são uns bandidos com interesses que aos senhores doutores não passam despercebidos, por isso são doutores, mais espertos que todos os outros, mesmo os doutores que, sendo doutores, mas não são médicos, ora toma lá! E os clientes estão de conluio com as farmácias! Sei bem do que falo pois no sábado assisti à seguinte cena: a farmacêutica pediu 49 euros por um medicamento a uma mulher que, desavergonhada, pediu o medicamento de substituição e acabou por só pagar 19 euros!
Estão feitos uns com os outros!
Os motivos que os senhores doutores, os médicos, não são vocês!, alegam são de primordial importância, por exemplo para a minha vizinha do lado, mulher para mais de 70 anos de velhice que corre graves riscos se o medicamento não for e x a c t a m e n t e o que o médico lhe receitou e pode até morrer disso, verdade? Claro que não morre pelo facto de nem sequer os comprar! Pois se não os comprou foi porque não quis, e suicidar-se… olhem, está na vontade de cada um, não é assim? Isso é lá com ela e não com os senhores doutores, médicos!, que só se preocupam com o nosso bem-estar!
Demos graças por haver quem pense aqui no rectângulo! Quem se preocupe com as pessoas, quem não tem rabos-de-palha, quem, em suma, pensa no futuro!

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Cem, cento e vinte

As férias foram marcadas por vários incidentes médicos, todos sem gravidade. O mais dramático foi quando o destino, finalmente, me fez retirar os suportes das velas da casa de banho. Como é que ele agiu? Fez-me partir um deles, em vidro e, não contente, espetou-me alguns dos vidrinhos no meu belo calcanhar.
A gata borralheira andava descalça quando sentiu uma dor forte e percebeu que o calcanhar tinha engolido um vidro. Aquilo desatou logo a sangrar e ela, apoiada na ponta do pé, como se fosse o Cisne Negro mas coxo, foi buscar a pinça das sobrancelhas, armou-se em contorcionista de circo, alçou da pernoca e apenas conseguiu meter o vidro ainda mais dentro.
Ora isto é uma chatice em qualquer altura do ano, mas pior ainda em Agosto quando não há vivalma a quem se possa pedir ajuda, tudo a banhos nos Algarves e nas Costas e por aí.
Atei uma ligadura ao pé para segurar o sangue, agarrei na chave do carro e sai em direcção ao centro médico, conduzindo muito devagar e sempre em pontas. Quando cheguei veio-me à ideia um homem lá do Alentejo a quem chamavam o Cem, cento e vinte, por coxear. Só nessa altura me dei conta que a sola dos pés parecia a última folha do catálogo da Robbialac, o preto, mas como aquilo doía cada vez mais, depressa me esqueci da vergonha.
A enfermeira lavou-me o pé e depois de duas anestesias de spray que mais parece um bronzeador, a médica achou por bem anestesiar-me doutra forma pois aquilo não pegava. Finalmente, tirou-me 3 Muranos, uma fortuna deitada para dentro do saco do lixo hospitalar e com destino ao fogo, ironicamente.
Sosseguei quando a senhora doutora me disse que podia ir à praia. Comprei de enfiada uns pensos impermeáveis e para não correr o risco de me acontecer mais nada, deitei-me na areia frente ao mar e ali fiquei até ser quase noite.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Sorte? Onde, onde?

O euromilhões é um propiciador do aumento das discrepâncias entre as pessoas. É encarado como um milagre, um enorme milagre que acontece a alguns, raros, raríssimos.
Se aquilo fosse distribuído convenientemente muitos ganhariam uma bençãozita, outros eram salpicados de água benta, o que já seria muito bom, e não nos ajoelhávamos a rezar tão fervorosamente todas as sextas feiras, quais muçulmanos.
Mas não, a coisa está feita para alguém ganhar, mas não os apostadores pois claro, e de vez em quando há um que leva, não o bolo todo, mas a fábrica de pastelaria inteira!
É claro que não é justo, mas aquilo também não foi criado pelas mãos da senhora de olhos vendados e os quinhões lá da balança são fruto dum jogo e, como qualquer jogo, raramente se ganha.
É curioso como este tipo de jogos podem ser catalogados com expressões antónimas e, assim mesmo, verdadeiras: há quem lhes chame jogos de sorte e há quem lhes chame jogos de azar. Mas joga-se sempre, e joga-se na esperança da sorte, embora o que aconteça dia após dia é cantarmos as palavras de Renato Teixeira, imortalizadas por Elis Regina, se há sorte, eu não sei, nunca a vi.