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terça-feira, 29 de março de 2016

Preciso de mimo

Quem conhece a relação que tenho com a minha irmã sabe que o afastamento dela é coisa de causar dor, profunda. No final do ano lectivo muda-se ela de armas, bagagens, filhos e marido para Barcelona.
Assim que conto a novidade seja a quem for, a reacção é unânime sobre a minha sorte em poder ir a Barcelona sempre que queira e em como - de certeza, mas de certeza absoluta - passarei a ir lá imensas vezes.
Se por um lado eu não tenho situação económica que me permita ir mais longe que ao Barreiro, quanto mais a Barcelona, por outro, ainda não ouvi ou senti uma palavra sobre a minha tristeza em distanciar-me daqueles que amo profundamente.
Estou feliz, muito feliz por eles, note-se: desde logo a família ficará junta, sem as constantes viagens do meu cunhado, agora no Brasil, depois no Vietname, a seguir nos EUA, depois na África do Sul, entre muitos outros. Desde Janeiro até hoje já viajou para onze países diferentes e o facto de ficar mais sossegado irá trazer-lhe uma tranquilidade maior; os meus sobrinhos vão poder ter oportunidades que aqui não têm, aprendem outras línguas falando-as, conhecem novas pessoas, etc.
Para todos será uma nova vida que, tenho a certeza, lhes será favorável e benéfica, individualmente e como família.
Permito-me pois ter um 'ataque' de egoísmo e pensar em mim... a minha habitual solidão cresce e solidifica-se.
Bem sei que os que me dizem que Barcelona é tão perto e que agora há viagens tão baratas, falam por bem, querendo animar-me, mas a verdade é que não costumam marcar viagens e não sabem que os preços anunciados nunca são os reais e que, na verdade, não é assim tão perto. Se fosse, muitos de nós passávamos a vida a ir lá e não vamos. Porquê, se é tão perto e tão barato? O meu próprio director já me concedeu dias extra para quando eu lá for!
É bom constatar esta sintonia, em perfeita descoordenação com a minha situação económica.
Não é bom constatar que não há uma voz que se dê a ouvir em prol da minha tristeza.
Por motivos vários a vida tem-me levado por caminhos onde não passa vivalma, mas como andava de mão dada com a minha irmã e com os meus sobrinhos, sabia que não havia o perigo de passar a estrada sozinha; agora, que me dizem adeus de longe, sinto-me minguar e antevejo tempo vazio a precisar de ser preenchido. Vejo-me a planear a viagem e a desmarcá-la, como acabou de acontecer com uma estadia Erasmus que, embora tenha bolsa, mas já foi tempo de poder suportar as despesas várias que se acumulam em qualquer deslocação.
Há dias em que acordo e afasto o pensamento do início do Verão, eu que sempre o desejei ansiosamente. Há dias em que acordo e me ponho a arranjar estratagemas de defesa para quando lhes telefonar me mostrar contente e ocupada, como se nem sequer pensasse neles. Há dias em que acordo e quero acreditar que foi só um sonho, que está tudo normal. Mas não está. 

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Obscenidades

Há alturas no ano em que tenho três empregos, ou trabalhos, para quem acha que emprego é fazer os mínimos. Dou tudo por tudo e sinto-me verdadeiramente triste e frustrada por chegar a esta altura e verificar que tenho o suficiente para ir à praia mais próxima dia sim, dia não.
Fiz planos para ir ao Algarve uma semana, com despesas repartidas é claro mas, afinal, nem para isso dá.
Há gente que não me paga, há gente que nem põe a hipótese de me pagar e a culpa é inteiramente minha que não devia mexer um dedo para gastar um joule ou uma caloria em expectativas que não se concretizam. E eu sei que não se vão concretizar. Mas... quem sabe, talvez, ... e faço.
Sozinha e dentro de quatro paredes, sem um cêntimo para sair à rua, penso em Anne Frank: faz hoje anos que foi descoberta e presa.
PORRA! É obsceno que me queixe... mas que me custa, custa...
Custa-me trabalhar tanto e não ser compensada, custa-me não poder ter o mínimo que considero razoável, custa-me receber postais de vários locais onde não posso ir, custa-me ver tanta televisão, custa-me até ler, custa-me ver os meus planos mais básicos desfeitos, custa-me as pessoas afastarem-se de mim por não as poder acompanhar, custam-me certos silêncios, aparentemente incompreensíveis, aparentemente... mas depois lembro-me de uma 'amiga' que me disse que até era bom eu ter sempre roupa para passar a ferro, pois assim não me custava tanto a passar o tempo... e percebo que de facto deve haver muito (boa?) gente que se afasta porque talvez tenham receio que eu peça alguma coisa... Sim, eu adorava ir jantar fora - a última vez foi no Natal e porque me ofereceram - mas só posso ir se me ofereceres o jantar... Sim, eu adorava ir ao cinema, mas só posso ir se me convidares...
Será que têm receio que eu responda desta forma? Será que não me conhecem? Muitos serás se alinham numa fila, apenas com uma certeza... não sentem a minha falta, o que me deixa numa tristeza sem fim, porque não sei o que possa fazer mais por todos e por cada um que me rodeiam. Assim, concentro-me a pensar... Anne Frank, Anne Frank, Anne Frank, Anne Frank,...

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Zoom

Ontem à noite jantei fora de casa.
A caminho do restaurante para onde me convidaram, sem chuva, com o mar a ladear a estrada, os relâmpagos iluminavam-me o caminho.
Apesar de ligeiramente atrasada, desacelerei para poder captar aquele instante tão rápido do clarão reflectido na água, como se alguém no céu me estivesse a fotografar.
Estava tão feliz que devo ter ficado mesmo bem no retrato!

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Frente e verso

"Só te posso escrever coisas insignificantes. Tudo o que te queria dizer já o disse. Faltas-me tu. Neste postal só posso nomear o teu nome. Todas as outras palavras que ficam por dizer não cabem aqui. São tantas. Isto é só um postal. Mais um. Nem água do mar ou a sombra de uma árvore aqui posso deixar. Para ti. Só aqui cabe o teu nome e o teu sorriso. Por isso optei por te enviar um postal e não dizer mais nada. Será só um postal para ti. E talvez ainda consiga espaço para acrescentar um beijo".

terça-feira, 17 de junho de 2014

Preciso de ti

Enviei uma mensagem com a informação titular a um amigo.
Ele respondeu-me a querer saber se eu precisava de ajuda para carregar qualquer coisa. Respondi que não, carregar não, eu própria carrego o que for necessário, apenas preciso de matar saudades e a morte é coisa difícil de adiar.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Holocausto, com H de horror

Ontem comemorou-se o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. A 27 de Janeiro de 1945 abriram-se os portões do campo de concentração de Auschwitz, um cemitério de gente viva.
A memória - e agora que lidamos com um problema de memória selectiva por parte de um jovem na sociedade portuguesa... - tem de ser preservada, tem de nos ensinar o que não se pode repetir e estes avisos têm eles próprios de se multiplicar, nas comemorações, na literatura ou no cinema, ou em qualquer outra forma, mas reais.
Filmes como o aclamado A vida é bela são visões que amenizam a realidade, que, propositadamente ou não, suavizam o horror quando o horror não pode ser suavizado; são perspectivas que iludem como quem afirma que era possível enganá-los, era possível fugir, era possível vencer. Quem vá a Auschwitz sente o logro, o engano, a fraude de filmes como aqueles e percebe a resposta do historiador Robert Hughes quando lhe perguntaram qual a obra de arte adequada para lembrar as vítimas em Dachau, Os próprios fornos são perfeitos. Como é que a arte pode superar a eloquência daquele lugar?
Acabei de ler A bibliotecária de Auschwitz, de Antonio Iturbe, relato baseado numa história verídica, mas que coloca Auschwitz-Birkenau a alguma distância de Auschwitz-Birkenau de Primo Levi e muito longe do que nos invade quando entramos nas antigas instalações dos que eram consumidos com ziklon-b.
As descrições dos longos caracóis loiros onde enrolavam os dedos deixam-nos logo de sobreaviso, assim como os diálogos entre mães e filhas onde a etiqueta social é chamada a intervir. Embora o autor conte como conheceu a protagonista na qual a história se inspira, (quase) tudo nos parece encenado e a mim, encenações que envolvam a morte de milhões de pessoas, dão-me que pensar.
Tal como os muçulmanos têm a obrigação de ir pelo menos uma vez na vida em peregrinação a Meca, todos os cidadãos do mundo que se prezem deviam ir a Auschwitz, proclamar a religião do respeito, venerar a memória e aprender com ela.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Síndroma de Kafka

A duração de uma vida é coisa muito relativa, morrem uns cedo demais, outros duram que nem sequóias, uns têm vidas longas em anos que se multiplicam a sobreviver, sem alegria ou doentes, outros têm vidas curtas porque só soubemos delas durante uns tempos.
Uma coisa é certa, por muitas vidas que se vivam nunca conhecemos as pessoas com quem lidamos durante anos, mães ou pais, maridos e mulheres, irmãos, amigos ou vizinhos fazem-nos jurar que aquela pessoa nunca terá aquela atitude ou chocarmo-nos quando sabemos que fulano matou ou roubou, no fundo que espoliou o nosso conhecimento, a nossa visão sobre essa pessoa.
Como as mudanças são fenómenos que, normalmente, ocorrem muito devagar, ocasionalmente quando damos conta, já o que era quadrado é redondo, o que era encarnado é cinzento.
Percebemos a mudança, temos essa certeza mas, terá ela ocorrido naquela pessoa ou em nós? Para tirarmos dúvidas, perguntamos a outros, principalmente a outros que estejam longe, que não nos vejam há algum tempo, àqueles que mais fácil e rapidamente dariam conta de qualquer alteração, aos que não estão contagiados pela proximidade.
A resposta é não, pareces igual, igualzinha, igualita, defendes as mesmas causas, mantens os mesmos gostos, continuas chata por não usares certas palavras e teres montes de manias, como a mania de escrever sobre a dromomania, a intensidade do teu abraço não esmoreceu, as tuas gargalhadas continuam saudáveis, a tua firmeza inabalável, a tua generosidade imbatível, a entrega aos outros, a mesma, o teu sentido crítico, ainda mais apurado.
Então, penso eu para mim, não fui eu que mudei e isso entristece-me porque se o tivesse sido, e sendo avisada, alertada, mudava novamente ou, pelo menos, fazia por isso, no mínimo, reconhecia que assim era. Tenho essa certeza porque já me aconteceu.
Quando alguém muda, e muda de tal forma que se transforma numa pessoa diferente, e mencionando nós essa mudança a pessoa recusa acreditar, recusa encarar as provas, evidentes, recusa parar para se ver a si próprio, recusa tudo, o que devemos fazer?
Dizem que nos devemos afastar das pessoas distímicas, mas eu, com um temperamento altamente hipertímico, sempre achei que tinha força para dar e vender, que conseguia ajudar espontaneamente ou quem me procurava no quotidiano, buscando um ombro, um conselho, um sorriso, porque tinha sempre uma janela para abrir, sempre uma energia para partilhar. E quando, a partir de certa altura, não aceitam? Quando nos ostracizam?
Sempre soube que havia pessoas que acreditam que o universo se move para agir contra elas, mas nunca tinha lidado com alguém assim.
Se chove é um aborrecimento, se faz calor, uma chatice, se os sapatos são velhos estão deformados, se são novos, fazem-me bolhas nos pés, de certeza que os transportes se vão atrasar, é garantido que o comer se vai queimar, o rádio só passa música que não presta para nada, toda a gente viu que eu só tinha três coisas e mesmo assim não me deram a vez na fila do supermercado, com tanto medicamento nas prateleiras da farmácia tinha que ser o meu a estar esgotado.
Confesso-me impotente para lidar com uma pessoa para quem tudo está mal e que, incapaz de se ouvir, afirma que não é assim. Quando se lhe reproduz a conversa, diz que estamos a mentir.
Confesso-me impotente para lidar com uma pessoa que não tem uma palavra, uma atitude positiva, que tudo o que faz é em esforço, por sacrifício. Quando se lhe menciona isto, diz que não é assim.
Confesso-me impotente para lidar com uma pessoa que não conheço, que tomou o lugar de outra que eu adorava, que idolatrava.
Confesso-me acima de tudo profundamente triste. Bem sei que há vidas complicadas, mas as dificuldades serão sinónimo de pormos os outros de lado? De esquecermos que existem?
A cada problema que tenho olho em redor e encontro de uma assentada vinte outras pessoas com problemas que fazem os meus parecer uma brincadeira: tenho essa consciência mas, ainda assim, estarei a ser egoísta quando me sinto rejeitada?
Ouço outras pessoas contarem como certas amizades se esfumaram, e como continuaram a viver sem elas, percebendo rapidamente que, afinal, não tinha valido a pena. Eu acho que valeu a pena, e muito.
Conheço duas pessoas cujas vidas davam filmes, ambos dramáticos, provocadores de nós na garganta, ira contra quem lhes fez tanto mal, fúria contra um destino cego que as colocou no mundo, não para viver, mas para sofrer. Dessas pessoas, apesar de dias seguidos de dias de sobrevivência pura, sempre recebi preocupações comigo, expressas em perguntas tão simples como um está tudo bem? Acredito que muitas foram as vezes em que verbalizaram a pergunta e as suas mentes estavam a mil à hora e distantes do local onde nos encontrávamos mas, sabendo que eu, ou outra pessoa, não estávamos bem, arranjavam espaço para os outros. Uma dessas pessoas é das mais sorridentes com quem já me cruzei, com uma auto-estima tão alta que nem se lhe vê o cume e não descansa enquanto a nossa unha partida não volta a crescer. É a pessoa mais corajosa que conheço.
Porque não somos todos assim? Porque não paramos para olhar em redor e descobrir o que olhamos todos os dias mas não vemos? Porque tem tudo que ser negro? Porque nos contentamos com a nossa visão? Porque nos satisfazemos com o nosso pensamento? Porque pomos de lado quem pensa de modo diferente?
Porque nos transformamos tanto? Haverá um síndroma de Kafka? Será irreversível? Pois se até Jacinto saiu do 202 e amou Tormes... tudo é possível; só espero que para ambos os lados, uma vez que a minha esperança se mantém. 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Quem não tem cão caça com gato

A capacidade de adaptação das pessoas é grande, não há dúvida. Embora afirmemos a sete pés que nós nunca isto ou sempre aquilo, confrontados com determinadas realidades mudamos os hábitos e os nunca e os sempre relativizam-se.
Até há uns tempos, filmes era na sala de cinema e alguns indiscutivelmente no dia da estreia; agora, tudo mudou. Primeira via-os na televisão ao gosto de quem escolhe a programação e agora o meu filho tratou de me dirigir a um antro de perdição na internet onde há de tudo para todos os gostos, inclusivamente as estreias, com uma semana ou menos de atraso.
Resultado, ando mais agarrada ao sofá que nunca, ajudada pelo zumbido nos ouvidos ao qual qualquer barulho é benéfico, porque o diminui. É rara a noite em que não vejo um filme, ou revejo.
Estava eu a dormitar com um dos últimos quando entrou o Duarte e, atirando-se para cima do sofá, perguntou se eu tinha parado o filme.
Não, meu filho, isto é uma obra do Manoel de Oliveira feita em Hollywood e quase só com africanos.
12 anos escravo é uma seca, com momentos tão parados como os ramos de uma oliveira em Agosto no Alentejo. Não encontrei profundidade de interpretação, nem a densidade que uma história daquelas merece, ou melhor, exige.
Os campos de algodão que dão sempre perspectivas fotográficas de cortar a respiração estão lá, mas sem exuberância visual, exuberância essa que faz falta pois acentua o dramatismo da escravatura negra.
Embora não se visse, sabemos que há uma câmara ali, em todo o filme, como se estivéssemos num documentário, e era suposto que nem nos lembrássemos dela. A forma como está realizado, o que se pediu aos actores e deles se aceitou foi pouco, muito pouco. Nada convence, parece um daqueles documentários policiais onde se reconstrói uma cena qualquer.
Ficou-me um amargo nos olhos, tanto mais que a segunda guerra mundial e a escravatura são dois temas que me atraem sempre e sobre os quais não gosto de ver abordagens superficiais. 

domingo, 19 de janeiro de 2014

Quem corre por gosto não cansa

É domingo e parei agora de trabalhar.
Levantei-me cedo, como gosto, e as oito e meia da manhã já me apanharam sentada à secretária, computador ligado, documentos abertos, para que, no caso, corrigisse umas provas tipográficas.
Recorrentemente lembro a minha letra insegura que escrevia no diário adolescente afirmando que era impossível alguém trabalhar mais do que eu tinha trabalhado, a estudar. Rio-me sempre, mas não deixo de pensar na verdade daquelas palavras, na altura, tão distante, hoje.
Ninguém me obriga a estar aqui, a vir, mas não sou capaz de não o fazer: tenho imenso trabalho, não atrasado, é só muito.
Há pessoas que dizem que não devia trabalhar assim tanto, e não devia, por motivos de saúde, sei que não descanso o suficiente, mas também me apontam por habituar mal a hierarquia, por estar sempre disponível, por não saber dizer não.
A bem da verdade, não sei dizer não lá muito bem, é certo, mas também é verdade, de hoje, de ontem e, provavelmente, de amanhã, que gosto de trabalhar.
Gosto, ou não tenho vida social? Gosto, ou não tenho um companheiro para me entreter? Gosto, ou o meu filho já tem vida própria e eu fico sem saber o que fazer? A resposta a tudo é sim, também, o que não invalida de gostar do que faço, principalmente agora, com um projecto novo entre mãos, que me delicia. A prová-lo está o facto de ter sido sempre voluntariosa e empenhada, mesmo quando era casada e o meu filho pequeno.
Claro que me sinto penalizada com o ordenado que recebo, que gostava que fosse bem maior, claro que sim, mas esse aspecto nunca me fez ficar em casa aos fins-de-semana quando tinha coisas urgentes para fazer, nunca me fez adiar fosse o que fosse, nunca me segurou.
Trabalho por brio, antes de ser por prazer ou por obrigação e sou condenada e apontada por isso. Honestamente penso que dou muito à empresa que me paga o vencimento ao fim do mês, mas reconheço que ela também faz por mim; da mesma forma sei que fui eu a dar o primeiro passo e vejo à minha volta muitas queixas, umas com razão e outras nem por isso.
Quando trabalhava na Câmara Municipal os meus colegas diziam-me, meios a sério, meios a brincar, que não podia ficar fora de horas pois a inspecção do trabalho podia aparecer de repente. Por entre os sorrisos da jocosidade ficava a mensagem, que eu não servisse de modelo para que alguém os obrigasse a trabalhar mais, horas de entrada e saída são coisas sérias e merecem respeito.
Hoje, as pessoas que olham primeiro para o relógio e depois para o trabalho que têm em mãos são as que se mostram incapazes de dar o tal primeiro passo. Desfiam o que a empresa não fez por elas e arremessam esses argumentos para não fazer mais que a sua obrigação. Mais uma vez, há quem lhe sobre razões para o fazer e quem não as tenha. Há pessoas que se esforçaram e empenharam durante anos e não conseguiram ver essas atitudes minimamente recompensadas, o que é injusto, sei do que falo pois trabalho com alguém assim. Percebo-as, e se em simultâneo o estado do país não permite que nos agarremos a certas coisas, por outro lado os baixos ordenados não deixam margens para grandes compreensões. Gostava imenso de ter uma solução, mas não tenho.
Ainda assim, penso que os que mantêm um emprego, um trabalho, deviam dar graças por isso e sentirem-se valorizados. Acredito nisto, mas logo me saltam ao espírito exemplos que o contrariam, exemplos de pessoas concretas, de vidas difíceis, que eu adorava resolver, mas não consigo.
O que consigo é adiantar trabalho, e por isso aqui estou, bem ou mal, não sei, mas estou e, com saúde, repetirei, como faço tanta vez. 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O meu silêncio

Tenho um trabalho para terminar e muitos outros na fila de espera. Levanto-me a meio da noite e chego às cinco e meia da manhã ao palácio onde passo os dias.
Eu sei, eu sei, sou uma triste, não tenho mais nada para fazer... ou não... ou gosto muito do que faço e estou a ralar-me para coisas como os horários, ou tenho ritmos diferentes, ou ninguém tem nada a ver com o que faço de noite.
O segurança está fora do portão. Estranho... É novo, não o conheço, nem ele a mim. Identifico-me, digo-lhe que confirme na lista que tem na sua secretária e peço-lhe a chave do meu serviço. Explica-me que o quadro da electricidade estourou, não há luz, ele apanhou um grande susto, pensou estarem a roubar a caixa multibanco, paredes meias com o seu gabinete.
Já ligou à EDP que só vem quando o electricista da empresa estiver presente pois o quadro tem fases de alta tensão. Pensei na Síria, mas não disse nada ao rapaz não fosse ele pensar que eu era uma terrorista.
É curioso como é impossível mandar nos pensamentos e nos cruzamentos que fazem, as ligações, os links, em linguagem moderna.
Movem-se como querem, com explicações imediatas, aparentes, sem explicações nem contextos plausíveis à primeira vista, muitas vezes, nem à segunda ou terceira.
Por isso não falei na Síria quando o rapazito contava o estouro do quadro eléctrico. 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Sonhar e rezar, sempre

Antes de sair o vigilante da noite e entrar a colega da portaria que assegurará o serviço de dia vou tomar o segundo pequeno-almoço. Ainda não são oito da manhã, o pátio deixa ver cada pedra da calçada portuguesa que a luz do sol vai aquecer dentro de horas. A sombra e o silêncio misturam-se.
Quando regresso passa das oito e o pátio está cheio de figuras humanas semelhantes a corvos. Os que vestem roupa normal tendem a afastar-se dos doutores, receosos que as praxes comecem com a alvorada.
Sou abordada três vezes, sobre a localização do auditório um e dois e sobre o bar o que me demora uns minutos a chegar à Biblioteca. Aqui, uma das colegas da limpeza é nova no serviço, começou em Agosto, nunca viu a chegada dos caloiros, o pátio cheio de risos e de esperanças, como se o sol, que ainda mal nasceu, aqui vivesse.
O primeiro dia de aulas sempre teve uma mística que me faz flutuar.
Na primária sonhava acordada rezando para que chegasse depressa. No liceu sonhava acordada rezando para que chegasse depressa. Na faculdade sonhava acordada rezando para que chegasse depressa.
Hoje levantei-me às quatro e meia e comecei a trabalhar uma hora depois, não tive tempo nem de sonhar nem de rezar, mas revejo-me em cada novo aluno repetindo as mesmas sensações ano após ano, dando o que tenho e o que sei, sentindo que sou parte da máquina que existe para contribuir para o sucesso de cada um.
Se durante uma vida eu sonhei e rezei para que chegasse o primeiro dia de aulas, depois de começarem sonho e rezo para que seja um Bom Ano. 

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Alzheimer, sem dó nem piedade

Encho-me de pavor com a descrição de como é que a minha interlocutora arranjou as nódoas negras que tem no braço. Foi a mãe, a quem o alzheimer deixou violenta e que não admite que lhe toquem com um dedo.
Encontramo-nos no centro de saúde e tenho ideia que conheço aquela cara, mas não sei de onde. A cara meia conhecida sorri-me e avança para mim, cumprimenta-me, pergunta-me pelos meus, elogia o meu bronzeado, compara-o com a alvura da sua pele. Aos poucos reconheço-a, há meia dúzia de meses era mais nova uma dúzia de anos.
A linha recta descendente que a doença da mãe tomou levou-ao aquele limite. Conta-me que os banhos e a higiene diária são feitos com grandes doses de sedação, de outra maneira não deixa que lhe toquem. Conta-me que grita com toda a gente, com o marido com quem vive, com ela, filha, com os netos, e já deixou de gritar com os vizinhos e outra família porque eles deixaram de lá ir a casa.
Está no centro de saúde a pedir receitas para medicamentos que ponham a mãe a dormir para que possam tomar conta dela, para que a protejam de si mesma.
A vida é mesmo irónica, sacana, cabra. Obriga-nos a passar por estas coisas, por estes infernos em vida; sob o nome de cuidados paliativos, e porque amamos aquela pessoa, matam-se famílias inteiras aos poucos, devagar, lentamente aplicam-se-lhe torturas, físicas e psicológicas. Mas será aquela pessoa que se ama? Ou a pessoa que viveu naquele corpo? Aquela nem nos conhece, nem sabe quem somos, não reconhece a vida que se partilhou, nem sabe que em tempos teve dores de parto para dar à luz os filhos a quem agora atira as jarras que vai encontrando no caminho.
A quem temos que fazer uma petição para deixarmos de estar doentes e passarmos a morrer uns anos mais cedo? A Deus não pode ser, ele que tudo vê, mantêm-se sossegado, já sossegado estava quando o filho foi crucificado, porque havia de interceder por nós?
Aquela mulher, bem mais jovem que eu e que parecia mais velha que a minha mãe, que carregava a tristeza, o desânimo, a frustração, a impotência, continua a viver, ou a fingir que vive, porque o papel que lhe coube em sorte não é vida, é o de trave, trave que suporta, que sustenta, que segura, que permanece, que aguenta. Até um dia, até ao dia em que o pensamento, que inconscientemente foi ficando vazio para dar espaço ao nada que não deixa o tique-taque do pensar avançar, estiver completamente branco e estéril.
Enquanto fala, ouço a respiração desta mulher calma, habituada, a contrastar com a minha, acelerada. Vendo bem as coisas não era a minha respiração, era o meu medo. 

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O Sexo, a Cidade e a Amizade

As quatro raparigas de O Sexo e a Cidade são uma espécie de Beatles para uma geração diferente.
A idolatria e a veneração a que são votadas põe-me a pensar se algum dia lhes passou pela cabeça, ao criador, desde logo, que aquela marca tivesse a força que ganhou ou a influência que ainda tem. As próprias actrizes dificilmente descolam daquelas personagens e nem todos lhe sabem os nomes, mas conhecem de ginjeira a Carrie, a Samantha, a Miranda ou a Charlotte. Do Big, pois, nem se fala...
A nível da amizade tudo aquilo consubstancia um sonho que, como qualquer sonho, para ser sonho, nunca se pode realizar, caso contrário deixa de ser sonho. 
A amizade delas é posta à prova e sobrevive sempre, sempre. Zangam-se mas na hora H fazem as pazes. Precisam umas das outras, como um puzzle que fica inacabado mesmo que falte uma só pécinha. 
Já vivi quartetos que pensei serem de amizade onde as miúdas de Nova Iorque acabam por ser projectadas, mas que se desfizeram em pouco tempo. 
Um deles acabou ainda hoje estou para saber porquê, outro terminou devido a intrigas e mal entendidos; em Nova Iorque isso é ultrapassado mas em Portugal fica para sempre, não havendo lugar a esclarecimentos, conversas, essas coisas. Não saberemos falar? Queremos que nos ouçam, mas não gostamos de ouvir. 
O último quarteto acabou devido a outro mal entendido entre duas pessoas. Dou-me bem com ambas, assim como com a quarta pessoa e sinto uma tristeza enorme por haver falta de entendimento entre elas. Porém, ambas continuam a gostar da outra, pensam nela e preocupam-se, eu sou testemunha. 
Foi uma das grandes tristezas deste ano que agora acaba - Agosto é fim do ano - e apesar de ter promovido encontros e fomentado explicações, sinto sempre que poderia ter feito mais. 
Tal como a laranja vale mais que a soma dos gomos elas as duas juntas eram especiais. As cumplicidades ficaram, as conversas sobre todos os assuntos também, mas a três ou a duas, nunca mais a quatro.
Em O Sexo e a Cidade interessa-me sobretudo esta coisa da amizade, da preocupação, do tempo que despendem umas com as outras, sim, porque as relações em amaricano e em portuga não se passam da mesma forma, acho eu, pelo menos não vejo relacionamentos tão rapidamente consumados e tão rapidamente descartados ou, para além de surda, estarei cega?
Os pequenos almoços com amigas também não são regra por estas bandas; não sou fã de moda e gosto de fazer as minhas modas, tendo no mercado do Algueirão as avenidas fashion do mundo inteiro e sendo as compras ditadas pelo preço que me pedem; Manolos tenho dois: o meu ex-marido e o meu sobrinho, este último acumula um Maria, chique, chique, chique.
Mas aquela entrega mútua, aquela preocupação, o espaço que todas têm para debitar assunto e aconselhar as outras, as perguntas que fazem, porque se interessam, as agendas que são marcadas em função das ajudas que têm que dar umas às outras, tudo isso me causa inveja.
Não há assunto, probleminha sem tamanho, que não mereça o cuidado das outras e isso sim, completa-me. O Sexo e a Cidade pode ser sobre sexo numa cidade que nunca dorme - apropriado - mas é acima de tudo sobre amizade, a única coisa que é transversal do primeiro ao último episódio, aquilo que fica, aquilo que faz da série aquilo que tem sido, aquilo que importa.
Não há amizades assim. Os limites para as conversas são sempre visíveis, as fronteiras entre a preocupação e a metedice pairam no ar; não há entrega total. Devia haver? Acho que sim. Se não forem as amigas a dizerem-me as coisas difíceis quem será?
A manutenção de segredos é critério para uma amizade longa e duradoura entre duas ou mais pessoas? Não me parece. A partilha, essa sim, deve ser, não promovida, mas espontânea, natural, essencial, necessária. Falo da partilha de opiniões, de problemas, de dúvidas, não de pessoas, bem entendido.
Quando as pessoas se afastam e se mantêm afastadas é porque não sentem falta dos outros, ora essa falta da falta não será sinónimo que a amizade afinal não era o que parecia? Quando o afastamento consubstancia um aparente alívio é porque, não só alguém não sente a falta do outro, como estava farto. Há espaço para fartura na amizade? Será a amizade, afinal, um relacionamento com as características dos relacionamentos amorosos? A amizade tem limites? Se a amizade for verdadeira terá fim?
Sou aquilo que se chama uma medrosa em termos de relacionamentos amorosos, tenho medo de me magoar, medo de confusões, medo de ver outras escovas de dentes ao lado da minha, medo de perder espaço, medo. Mas na amizade sou uma mãos largas, de vistas largas, aceito tudo e acho que é na amizade que a sinceridade impera: quanto mais amiga sou mais digo tudo o que penso, mais me exponho, mais aceito que me digam seja o que for. Discuto, mas há sempre um terreiro enorme disponível para o concílio.
Não me choca que um par amoroso se desfaça, fico triste se gostava das pessoas, mas não fico abalada, porém, fico meia perdida se vejo amizades rasgadas, como livros mutilados. Para alcançar harmonia e equilíbrio até as amizades entre outras pessoas me fazem falta. As minhas então, preenchem-me mais que pão para a boca.