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terça-feira, 20 de maio de 2014

O português é uma língua muito traiçoeira

As empresas de publicidade esgatanham-se para inovar, mostrar uma criatividade nunca vista e ser o mais original possível. As campanhas da Bombril, de longevidade invejável, as da Sagres, iguais mas tão diferentes, são exemplos brilhantes que não esquecemos.
O novo operador de telemóveis e mais quinquilharia da qual não prescindimos deve ter contratado uma empresa da especialidade para o lançamento da marca. Porém, se o lançamento tivesse sido em Cabo Canaveral talvez tivesse mais eficácia.
Pergunto-me quanto tempo andaram às voltas para encontrar um nome. Um nome que se quer forte, sonante, único, que se distinga, que se interiorize, que nos fique na memória. Pergunto-me quem o validou... e aposto num arrependimento de proporções gigantescas.
O nome escolhido escreve-se de uma forma e lê-se de outra... e era a forma de escrita que se pretendia e não a da leitura. Nos, que se verbaliza nús, está cheio de boas intenções, até se vislumbra o abraço que se pretendia induzir, apertado, pois claro, a união, quiça a fraternidade. Mas não, não funciona assim.
Para além disso copiaram os pauzinhos da concorrência, igualitos, e pintaram-nos com as cores do arco-íris, esbatidas, em cima das quais puseram uma tigreza, cujas manchas mancham a leitura visual, criando uma nódoa. O Robocop e o cão voador até não funcionam mal, mas uma campanha destas dimensões não se pode ficar por aqui: provocar franzires de sobrancelhas pela falta de nexo. 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O que nós queremos... nem nós sabemos

No pequeno percurso entre casa e o metro venho a ouvir a Rádio Comercial.
A boa disposição daquela malta hoje brindou-nos com uma estatística - altamente científica! - sobre as diferentes preferências de profissão em homens e mulheres.
De acordo com o estudo, e de entre uma lista que contempla jornalistas, fotógrafas e web designers, os homens preferem as advogadas; já as meninas preferem os médicos e, algures na lista, vinham os desenhadores de móveis, ou algo parecido, o que levantou sobrancelhas de admiração.
O espanto é revelador de grande falta de coltura, de desconhecimento dos mitos de Nova Iorque e respectiva globalização, de verdadeira carência de informação.
Urge sentarem-se diante da televisão a ver todos os episódios de todas as séries de O sexo e a cidade.
Qual a profissão do belo Aidan Shaw, namorado de Carrie?  Aquela carinha laroca, o cabelo comprido e ar descontraído e despreocupado, sem horários, romântico, perfeito até ao enjoo... as mãos do homem, que nem plainas, a afagar, a mimar, a dar atenção aos detalhes, aos cantinhos... ai mãe...
Pessoal do programa da manhã da Rádio Comercial, o que as mulheres querem é um Marceneiro!

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

De castigo, já!

Todas as noites pico o ponto ao telefonar para os meus pais a saber como estão, como foi o dia, o que fizeram e não fizeram. Nos últimos dias tenho tido uma pontaria olímpica e ligo sempre quando estão a jantar. Por norma, encurta-se a conversa ou deixa-se para mais tarde. Não foi o que aconteceu na segunda-feira.
Assim que atenderam percebi que a sopa estava a ser consumida e informei que ligava mais tarde. Nada disso! Mais logo é que não que estamos a despacharmo-nos para irmos ver televisão. Televisão?
Durante anos, a senhora minha mãe caracterizou-se por detestar três coisas: bananas (consta que em pequena comeu um cacho de empreitada, razão pela qual nunca mais as pode ver à frente), iogurtes (tendo dedicado a vida às crianças e vivendo no seio de vários colégios infantis onde proliferavam os iogurtes, foi coisa que sempre lhe sempre lhe causou um certo asco) e futebol (mundo no qual conhecia o Eusébio e sabia que se jogava com uma bola).
Agora e desde há uns, poucos, anos, come iogurtes como se não houvesse amanhã, adora bananas e tem um fascínio por futebol inacreditável: vê os jogos, comenta-os, irrita-se quando o Sporting perde e venera o Cristiano Ronaldo.
Assim, naquela noite, eu tive a ousadia de ligar quando iam repetir as imagens da condecoração e, não só fui admoestada para me despachar, como fui convocada para me sentar igualmente diante da televisão, qual missa a que tinha que assistir.
Sendo minha mãe disse que sim e, a verdade, é que fazia intenção de cumprir mas, aquecido o jantar, fui sentar-me na sala e ligando a televisão estava esta sintonizada no canal História e passava uma reportagem sobre o Sudário de Turim, a Kaaba de Meca, a Pedra de Blarney Castel na Irlanda entre outros mistérios que a História vai construindo para nosso prazer e curiosidade.
Deixei-me ficar por ali, saltando de século em século, guiada por teorias variadas onde não faltavam extraterrestres, coisa maravilhosa e, escusado será dizer, nunca mais me lembrei do Cristiano.
E foi assim que no dia seguinte quando voltei a falar aos meus pais e me perguntaram se eu tinha gostado de ver a cerimónia, e depois de um quase qual cerimónia?, que conseguiu ser atalhado, eu respondi, mentindo, que sim, fora muito bonita.
Ora, como toda a gente sabe, apanha-se mais depressa um mentiroso que um coxo, e eu aguardo serenamente o meu castigo. 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Quem não tem cão caça com gato

A capacidade de adaptação das pessoas é grande, não há dúvida. Embora afirmemos a sete pés que nós nunca isto ou sempre aquilo, confrontados com determinadas realidades mudamos os hábitos e os nunca e os sempre relativizam-se.
Até há uns tempos, filmes era na sala de cinema e alguns indiscutivelmente no dia da estreia; agora, tudo mudou. Primeira via-os na televisão ao gosto de quem escolhe a programação e agora o meu filho tratou de me dirigir a um antro de perdição na internet onde há de tudo para todos os gostos, inclusivamente as estreias, com uma semana ou menos de atraso.
Resultado, ando mais agarrada ao sofá que nunca, ajudada pelo zumbido nos ouvidos ao qual qualquer barulho é benéfico, porque o diminui. É rara a noite em que não vejo um filme, ou revejo.
Estava eu a dormitar com um dos últimos quando entrou o Duarte e, atirando-se para cima do sofá, perguntou se eu tinha parado o filme.
Não, meu filho, isto é uma obra do Manoel de Oliveira feita em Hollywood e quase só com africanos.
12 anos escravo é uma seca, com momentos tão parados como os ramos de uma oliveira em Agosto no Alentejo. Não encontrei profundidade de interpretação, nem a densidade que uma história daquelas merece, ou melhor, exige.
Os campos de algodão que dão sempre perspectivas fotográficas de cortar a respiração estão lá, mas sem exuberância visual, exuberância essa que faz falta pois acentua o dramatismo da escravatura negra.
Embora não se visse, sabemos que há uma câmara ali, em todo o filme, como se estivéssemos num documentário, e era suposto que nem nos lembrássemos dela. A forma como está realizado, o que se pediu aos actores e deles se aceitou foi pouco, muito pouco. Nada convence, parece um daqueles documentários policiais onde se reconstrói uma cena qualquer.
Ficou-me um amargo nos olhos, tanto mais que a segunda guerra mundial e a escravatura são dois temas que me atraem sempre e sobre os quais não gosto de ver abordagens superficiais. 

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Mas estamos a brincar ou quê?

Manuel Almeida não gosta da palavra Bairro. Afirma ser um ninja e querer formar ninjas para combater o crime. O candidato mais mediático das eleições de Setembro de 2013 lembra o brasileiro Tiririca mas, por mais vontade de rir que nos dê, acaba por ser uma voz anónima que arranca de muita gente um, É parvo, é parvo, mas vai dizendo verdades... 
É o taxista que conhece aquele caso com que lidou ainda ontem, é o passageiro dos transportes que ainda há dias ficou prejudicado porque o autocarro não passou, é o cidadão a quem acontecem coisas concretas e pode dar exemplo disso, levando o particular à categoria de geral.
Faltando-lhe, entre outras coisas, a dimensão do global, os concorrentes entram em paranóia com o discurso inarticulado, mostrando desagrado com as acusações de Manuel Almeida, mas não adiantando muito mais, quase com pena dele, quem seria o juiz que o condenaria fosse pelo que fosse. Ainda assim, têm escrito nas testas Mas porque é que este gajo teve que se candidatar ao mesmo tempo que eu? Como se a dimensão extraterrestre de Manuel Almeida descredibilizasse qualquer pessoa envolvida.
A dimensão pessoal assumida em tudo verbaliza acusações de ladrões e corruptos; quem não as faz? Ideias como a de fazer auditorias sem aviso prévio são palavras comuns na boca de cidadãos comuns. Afinal onde está a surpresa?
O novo Tino de Rans distingue-se do original por uma raiva contida, um desafio instintivo contra uma vida que não terá sido fácil.  Procura palavras e sai-lhe especular a propósito de tudo e mais um par de botas, juntamente com mais uma história pessoal, cheia de pormenores, e eu disse, e ele disse, e depois eu disse e depois ele disse,...
Manuel Almeida é um português nato. Sabe que muita, muita, muita coisa está mal e quer que fiquem bem. Personagem digna dos Gato Fedorento contrariou a célebre tirada, Eles falam, falam, mas não fazem nada, fazendo alguma coisa: candidatando-se. E quer se queira, quer não, isso é muito importante.
Manuel Almeida lembra-nos a criação de Gil Vicente,  Joane, o parvo, do Auto da Barca do Inferno, o único que tem a audácia de injuriar o Diabo, o pobre de espírito, o inocente que, mal ou bem, se opõe ao poder.
Visto na televisão e na internet é espectáculo gratuito que ninguém perde, que todos condenam, mas a quem silenciosamente se acaba por dar uma certa razão. 

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Vida depois da morte

As minhas sessões de cinema estão confinadas ao ecrã de televisão lá da sala. Nem sinto bem ser cinema, falta-lhe o tamanho da imagem, a luz ou a falta dela na sala o que permite usufruir da luminosidade do filme, o tal escurinho do cinema, como diz a Rita Lee, até o sair da sala, de barriga cheia, a sonhar, ou mesmo cheia de desapontamento.
Se tivesse sido no cinema, ontem traria o desapontamento. Vi Os Irmãos Grimm com um Matt Damon que não reconheci e prefiro esquecer - parado, de braços levemente arqueados ao longo do corpo que parecia atarracado - e um Heath Ledger que lembrarei sempre, só por ser ele.
O mundo de fantasia que o nome dos irmãos transporta - e que tem alguma ironia se pensarmos no seu nome em inglês com menos um M - é mais do que livre para ser usado e explorado, cada estória uma nascente de imaginação, pontos de partida e chegada a misturarem-se, na ilusão tudo se permite, efeitos especiais e tecnologias a nadar como peixe na água, todo o esplendor do seu protagonismo aqui em relevo.
Porém, ocorreu-me também que são as tecnologias que fazem a magia de nos trazer, de manter, Heath Ledger ali, vivinho da silva.
Durante muito tempo confiou-se no traço do pintor ou no escopro do escultor para manterem vivos rostos de gente famosa, reis e imperadores, rainhas, protegidas e endinheirados; depois a fotografia trouxe a verdade, sem enganos, sem jeitinhos para embelezar, sem aumentar tamanhos ou diminuir gorduras, a que os pincéis sempre se entregavam. Ali estavam eles, parados, um instante irrepetível da eternidade na nossa mão. Depois pôs-se tudo a andar com os Lumière e o passado ganhou vida, repete-se, leva-nos, vem até nós, deixa-nos voltar atrás, espiolhar.
Heath Ledger é apenas um de muitos que já não se deixam filmar mas que continuam a estar presentes, a tecnologia a garantir a vida depois da morte, para nosso espanto e prazer. E vê-lo é sempre um espanto e um enorme prazer...

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

A tioria do bigue bangue

Leonard, Penny, Sheldon, Wolowitz e Koothrappali são as figuras principais de uma série que adoro, The Big Bang Theory.
Faz-me rir, é inteligente, simples numa aparente complexidade e com actores de quem gosto bastante, longe de mediatismos das grandes estrelas.
Para não perder episódios gravo-os e vejo-os quando tenho tempo, por vezes dois e três de seguida, enquanto passo a ferro, sentindo-me uma super heroína que tem o disfarce de dona de casa mas na verdade é… não posso dizer, é ultra secreto.
Cada protagonista interpreta um estereótipo brilhante e de forma luminosa, com destaque para o obsessivo Sheldon, e parabéns ao guionista, não tanto pela imaginação, mas pela forma de captar cada detalhe de expressão corporal, cada pormenor da expressão linguística, cada momento de humor, que se movem numa cadeia onde até as repetições – Sheldon batendo à porta de Penny – não cansam e parecem renovar-se.
A cada novo episódio pergunto-me o que diria o Dr. Sheldon Cooper se soubesse que as legendas na tradução portuguesa são um desastre.
Para além de ser uma série com múltiplas referências a dinâmicas americanas – outras séries televisivas que não passam cá, nomes de produtos, etc. – cujo contexto é traduzido à letra, deixando o sentido muito a desejar, ontem fui brindada com a tradução de ‘light’ por ‘lite’. Todos os dias há uma destas e fico sempre a pensar nas crianças do primeiro ciclo que devem ter contratado para fazer aquele trabalho. 
É uma pena, mais uma para juntar a um grande colchão para o qual contribuem todas as estações de televisão. 

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A caverna de Alibaba

Uma produtora francesa fez um documentário sobre o gigante capaz de produzir tudo, mas literalmente tudo, para o mundo inteiro e que dá pelo nome de China.
Passava eu a ferro a meio das férias quando, no descanso momentâneo do electrodoméstico, entre uma passa no cigarro e uma mudança de canal, apareceu esta pérola.
As equipas de filmagens acompanhavam dois ou três - não vi desde o princípio mas acho que foram deixando o melhor para o fim - representantes de empresas francesas em viagem de negócios pela China, visitando fábricas, falando com responsáveis, acertando compras em grande escala, sempre com um intérprete.
Logo aqui é curioso verificar que há tantos chineses a falar inglês, e francês, mas os europeus não falam chinês. Serão eles mais espertos que nós? O 'espertos' em vez de inteligentes ou capazes, foi propositado.
Com tanto metro quadrado que há para lá fico sempre com a ideia que, por mais séria que seja a intenção de quem planeia e concretiza estas imagens, será enganado sempre que os anfitriões queiram. Mostram imagens de fábricas que vão de complexos industriais como os conhecemos na Europa, até um andar num prédio de habitação. Com uma excepção breve, não se viam crianças a trabalhar e quase não se falou do assunto, ao contrário, por exemplo, dos tapetes no Norte de África onde a garotada é mostrada descaradamente e, magia, o ónus vem para cima de nós uma vez que, quando perguntamos porque são crianças a fazer aquele trabalho, nos dizem que nós gostamos mais do ponto apertado por mãos pequenas. Gostamos? Sempre a aprender.
Nesta visita a um país de alma comunista e espírito capitalista a equipa visitou uma cidade onde a comunidade se impõe: o responsável local do partido explicou bem a coisa. Bem... o que ele dizia não sei, o que era traduzido nas legendas em português era o que a intérprete traduzia do chinês. Seria uma boa intérprete? Lamentavelmente esqueciam-se de mostrar o certificado de habilitações da senhora com as respectivas notas.
Num supermercado da dita cidade chamava-se à atenção para as fardas das empregadas: uniformes do exército vermelho que, como é óbvio, não se haviam de deitar fora e foram aproveitados. As mesmas empregadas começavam o dia a cantar, alinhadas no que parecia ser um parque de estacionamento do supermercado. Ora, será que lá, como cá, se usa o provérbio de quem canta seus males espanta? A letra aludia à comunidade e em como é bom trabalhar para ela e deve ser mesmo bom pois uma boa maquia do ordenado vai directamente para os seus cofres.
Mostravam-se todos os cantos de uma casa, dada pela comunidade a uma trabalhadora, ligou-se até a televisão para que se visse o programa que estava no ar e realçou-se que todos podiam ver aquele programa. Magnífico, nem precisavam de comando de televisão, pois alguém solucionava essa questão, de uma só vez para toda a cidade. Cozinhas e lavagens de roupa comunitárias, casas para famílias inteiras - equivalentes a um quarto nas nossas medidas - e sempre com observações muito positivas dos utilizadores, de acordo com a tradução.
Um dos empresários procurava tinteiros reciclados e quando viu que todo o trabalho era feito manualmente sem luvas ou máscaras chamou a atenção do responsável para os perigos envolvidos naquelas tarefas. A resposta foi polida que nem uma prata em casa de membro da fidalguia, inconclusiva e eventuais alterações foram chutadas para o futuro. O empresário encolheu os ombros, a sua parte estava feita, o que podia fazer mais? Acusado de silêncio não podia ser.
Todo o documentário é objecto de reflexão, pleno de curiosidades e espantos como a própria China. Datang é a capital mundial das meias, uma cidade que se especializou nesta peça de vestuário e que tem um salão de apresentação com nove mil meias diferentes: de homens, mulheres, crianças e bebés, para animais de estimação, para todos os desportos e mais os que ainda não foram inventados, fabricados com mil tecidos e têxteis diferentes, de algodão, vidro, mousse, fibra, caxemira, seda e quejandos, pézinhos, curtas, até ao joelho, de meia perna, collants,  para passeio, para trabalho, para russos - bem quentes - para  europeus - anti-bacterianas, seja isto o que for - com dedos e sem dedos, para diferentes estações do ano, festivas, de Natal, aniversários, estampadas e lisas, ou coisas estranhas, pelo menos para mim, como por exemplo, peúgas do dedo do pé do laço de Terry, alguém que me explique o que é isto.
Abordou-se a mega empresa Alibaba, de quem a Yahoo tinha participações que voltaram recentemente à caverna por muitos milhões de dobrados em ouro, e mostraram-se imagens do maior centro comercial do mundo, uma coisinha com lojas na ordem da quase dezena de milhar, sendo cada uma delas a cara de uma fábrica e onde se tem uma pequena amostra do que as fábricas produzem e vendem.
Ali encontram-se pessoas de todo o mundo que compram tudo, até um guineense que foi à procura de artesanato típico da Guiné, estátuas em pau preto, em pau ferro, de todas as formas e dimensões, fruto do labor de pequenos artesãos, assim como também produtos de arte maconde, pura? Não, feitos por chineses. O entrevistador queria saber o que procurava o guineense em particular e ele dizia a verdade, tudo o que se pedir, eles fazem, barato e bom.
E contra isto, batatas? Não, só se for arroz chau-chau.

sábado, 10 de agosto de 2013

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O Sexo, a Cidade e a Amizade

As quatro raparigas de O Sexo e a Cidade são uma espécie de Beatles para uma geração diferente.
A idolatria e a veneração a que são votadas põe-me a pensar se algum dia lhes passou pela cabeça, ao criador, desde logo, que aquela marca tivesse a força que ganhou ou a influência que ainda tem. As próprias actrizes dificilmente descolam daquelas personagens e nem todos lhe sabem os nomes, mas conhecem de ginjeira a Carrie, a Samantha, a Miranda ou a Charlotte. Do Big, pois, nem se fala...
A nível da amizade tudo aquilo consubstancia um sonho que, como qualquer sonho, para ser sonho, nunca se pode realizar, caso contrário deixa de ser sonho. 
A amizade delas é posta à prova e sobrevive sempre, sempre. Zangam-se mas na hora H fazem as pazes. Precisam umas das outras, como um puzzle que fica inacabado mesmo que falte uma só pécinha. 
Já vivi quartetos que pensei serem de amizade onde as miúdas de Nova Iorque acabam por ser projectadas, mas que se desfizeram em pouco tempo. 
Um deles acabou ainda hoje estou para saber porquê, outro terminou devido a intrigas e mal entendidos; em Nova Iorque isso é ultrapassado mas em Portugal fica para sempre, não havendo lugar a esclarecimentos, conversas, essas coisas. Não saberemos falar? Queremos que nos ouçam, mas não gostamos de ouvir. 
O último quarteto acabou devido a outro mal entendido entre duas pessoas. Dou-me bem com ambas, assim como com a quarta pessoa e sinto uma tristeza enorme por haver falta de entendimento entre elas. Porém, ambas continuam a gostar da outra, pensam nela e preocupam-se, eu sou testemunha. 
Foi uma das grandes tristezas deste ano que agora acaba - Agosto é fim do ano - e apesar de ter promovido encontros e fomentado explicações, sinto sempre que poderia ter feito mais. 
Tal como a laranja vale mais que a soma dos gomos elas as duas juntas eram especiais. As cumplicidades ficaram, as conversas sobre todos os assuntos também, mas a três ou a duas, nunca mais a quatro.
Em O Sexo e a Cidade interessa-me sobretudo esta coisa da amizade, da preocupação, do tempo que despendem umas com as outras, sim, porque as relações em amaricano e em portuga não se passam da mesma forma, acho eu, pelo menos não vejo relacionamentos tão rapidamente consumados e tão rapidamente descartados ou, para além de surda, estarei cega?
Os pequenos almoços com amigas também não são regra por estas bandas; não sou fã de moda e gosto de fazer as minhas modas, tendo no mercado do Algueirão as avenidas fashion do mundo inteiro e sendo as compras ditadas pelo preço que me pedem; Manolos tenho dois: o meu ex-marido e o meu sobrinho, este último acumula um Maria, chique, chique, chique.
Mas aquela entrega mútua, aquela preocupação, o espaço que todas têm para debitar assunto e aconselhar as outras, as perguntas que fazem, porque se interessam, as agendas que são marcadas em função das ajudas que têm que dar umas às outras, tudo isso me causa inveja.
Não há assunto, probleminha sem tamanho, que não mereça o cuidado das outras e isso sim, completa-me. O Sexo e a Cidade pode ser sobre sexo numa cidade que nunca dorme - apropriado - mas é acima de tudo sobre amizade, a única coisa que é transversal do primeiro ao último episódio, aquilo que fica, aquilo que faz da série aquilo que tem sido, aquilo que importa.
Não há amizades assim. Os limites para as conversas são sempre visíveis, as fronteiras entre a preocupação e a metedice pairam no ar; não há entrega total. Devia haver? Acho que sim. Se não forem as amigas a dizerem-me as coisas difíceis quem será?
A manutenção de segredos é critério para uma amizade longa e duradoura entre duas ou mais pessoas? Não me parece. A partilha, essa sim, deve ser, não promovida, mas espontânea, natural, essencial, necessária. Falo da partilha de opiniões, de problemas, de dúvidas, não de pessoas, bem entendido.
Quando as pessoas se afastam e se mantêm afastadas é porque não sentem falta dos outros, ora essa falta da falta não será sinónimo que a amizade afinal não era o que parecia? Quando o afastamento consubstancia um aparente alívio é porque, não só alguém não sente a falta do outro, como estava farto. Há espaço para fartura na amizade? Será a amizade, afinal, um relacionamento com as características dos relacionamentos amorosos? A amizade tem limites? Se a amizade for verdadeira terá fim?
Sou aquilo que se chama uma medrosa em termos de relacionamentos amorosos, tenho medo de me magoar, medo de confusões, medo de ver outras escovas de dentes ao lado da minha, medo de perder espaço, medo. Mas na amizade sou uma mãos largas, de vistas largas, aceito tudo e acho que é na amizade que a sinceridade impera: quanto mais amiga sou mais digo tudo o que penso, mais me exponho, mais aceito que me digam seja o que for. Discuto, mas há sempre um terreiro enorme disponível para o concílio.
Não me choca que um par amoroso se desfaça, fico triste se gostava das pessoas, mas não fico abalada, porém, fico meia perdida se vejo amizades rasgadas, como livros mutilados. Para alcançar harmonia e equilíbrio até as amizades entre outras pessoas me fazem falta. As minhas então, preenchem-me mais que pão para a boca.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Beijos e televisão

A rapidez, a novidade, o imediatismo e a instantaneidade são características da sociedade actual. Tem tudo que ser para ontem. As teclas acelaram-nos a vida no telemóvel, no computador e em todo o tipo de equipamento ou gadget, às centenas, e que diariamente são substituídos por outros mais rápidos, lá está, com mais memória, com mais não sei o quê.
A televisão que não esperava por nós e nos obrigava a ir a correr para vermos determinado programa parece ser coisa da Idade da Pedra, agora gravamos tudo, várias coisas em simultâneo, paramos a emissão – nós!, nós paramos a emissão, o poder que isto dá é inacreditável! – andamos para trás no tempo sendo-nos permitido ver o que já deu, mediante o carregar numa ou noutra tecla.
Porém, os conteúdos não acompanham esta actualidade: em dois ou três dias de verificação em vários canais dou com a Ellen DeGeneres a fazer um programa especial para o Dia da Mãe, o Conan O’Brien espanta-se com um convidado que vai falar do Bosão de Higgs, a Guerra dos Tronos (Game of Thrones), Segurança Nacional (Homeland), o Sexo e a Cidade repetem e repetem e repetem, o Dexter mata quem já matou e quase conseguimos diagnosticar doenças raras de ver tanta vez o Dr. House. E não estou a falar da Tv Memória, como lhe chama o meu pai, (que também diz TotoMilhões, que é muito engraçado e consubstancia um dois em um).
Na programação infantil passa-se o mesmo: vejo os meus sobrinhos a saberem o que se vai passar porque estão a rever.
Assim, para além das gravações múltiplas, do andar para trás vários dias na programação, das repetições no próprio dia para diferentes gamas de tele-espectadores, os próprios canais ainda repetem – várias vezes – os programas como se quisessem antecipar os nossos desejos ou frustrações por não termos podido ver certa coisa, por nos termos esquecido de gravar, por não sabermos andar para trás no tempo. Frase estranha esta…
Bem sei que os direitos não se compram com feijões, mas enjoa um bocado. Que me perdoem o V. e a I. sempre atentos à dinâmica política e económica, mas eu vou vendo filmes, muitos deles dez e mais vezes, muitas vezes só uma deixa, uma fala, um beijo, uma paisagem.
Durante anos – no tempo dos vídeos que, para o Duarte por exemplo, é quando as galinhas tinham dentes – a Margarida emprestava uma cassete muito especial às amigas, cassete essa que rodava de mãos pois era preciso partilhar e aquilo tinha dado uma trabalheira a fazer: eram só beijos de cinema, uns a seguir aos outros, de filmes muito diferentes onde não havia nacionalidades porque o beijo é universal, assim como o olhar que o antecede.
Eram beijos franceses, beijos roubados, beijos pregados – o do Richard Gere na Julia Ormond em O Último Cavaleiro era desta categoria e sublime!, beijos desesperados, beijos de despedida, beijos de reencontro, beijos longos, beijos rápidos, beijos quentes, beijos ociosos. Uma pessoa derretia-se a ver a cassete e, como se não a tivéssemos já visto dezenas de vezes, quando lha entregava fazíamos uma sessão imediata em casa dela, eu já cheia de pena de me separar de tanto amor. Era lindo, tanto suspiro junto, e por muitos namorados que tivessem passado pelo sofá da Margarida, todos juntos não suspiraram tanto como nós a ver a cassete dos beijos. Os Cd’s e os DVS’s vieram dar cabo do amor e quando os leitores de vídeo se reformaram nunca mais sonhámos como naquela altura.
A cassete fazia de nós dependentes da televisão mas apenas como meio para chegar aos beijos. Apesar de gostar de uma ou outra série que passa actualmente – confesso que não me importo nada, antes pelo contrário, de (re)ver O Sexo e a Cidade – o filme da minha vida nunca foi transposto tecnologicamente, não se lhe pode aceder, penso que se perdeu, tendo apenas ficado o rasto na nossa memória. 
Isto era televisão... era repetido mil vezes, os filmes estavam todos misturados, a montagem era péssima, mas isso que interessava? O conteúdo fazia-nos flutuar, voar, sentir e sonhar. 

segunda-feira, 15 de julho de 2013

José Castelo Branco

Oito e pouco da manhã, café por baixo da minha casa, entro e dou os bons dias mas ninguém me ouve. Donos e três clientes esganiçam-se a falar mais alto que os outros mostrando repugnância e sobrolhos franzidos em uníssono. O dono faz-me sinal do fundo, ao lado da máquina do café, assinto com a cabeça, sim é café, cheio, explico eu com o polegar e indicador afastados.
Pouca vergonha, lata, gozo, mariquice, paneleirice até, eram palavras usadas na conversa que se desenvolvia com ares de escárnio, sem que eu percebesse quem era a desenvergonhada pessoa de quem falavam, até que alguém disse, isto devia ser proibido.
Mas que raio, o que é que devia ser proibido? O José Castelo Branco!
Num programa de televisão na noite anterior apresentou-se vestido de toureiro ou campino, as opiniões divergiam, mas a unanimidade conseguia-se quando concordavam no maluco, sem vergonha, estapafúrdio, inconsequente, bizarro, parvo, nojento, exibicionista, maricas.
Mas como é que a mulher atura aquilo? Mas como é que lhe dão tempo de antena? Mas como é que se permite uma coisa daquelas num canal de televisão?
Muitos mais mas comos irritaram-me tanto que, aproveitando uma deixa de uma senhora que se me dirigia, certa da minha concordância e talvez um pouco curiosa com o facto de ainda não me ter juntado ao coro, manifestei a minha total discordância. Arrependi-me no mesmo instante, pois claro, mas já era tarde.
Avancei devagar, voz moderada, defendendo a diferença, elogiando a coragem que nenhum de nós tem para fazer o que nos apetece, sempre tão preocupados com o que os outros dizem e pensam sobre nós. Acrescentei que não se pode comparar o incomparável, o casamento de José Castelo Branco com Betty Grafstein não se enquadra nos casamentos onde vamos ou dos quais ouvimos falar, é preciso um espírito muito aberto para não se usarem as medidas com que costumamos medir o mundo, medidas essas feitas pela média da pessoas, no caso pela moda - esta calhou que nem ginjas.
Porque razão tem tudo de ser igual? Porque exprimimos sentimentos negativos com a diferença? Porque é tão difícil gozarmos connosco próprios e tão fácil de o fazer com os outros? Não será isto uma certa forma de inveja? Alguém que faz o que lhe dá na real gana, será condenável ou é ousadia provocadora de ciúme? Inconfessável, é claro.
Eu percebo que os dois casais que ali estavam a comparar-se com JCB e BG, usavam a comparação de forma tão ridícula como eu ficaria a comandar um submarino, mas eu sei que a casaca e o chapéu de comandante me assentariam carregados de comicidade - sem falar da minha cara de pânico por não fazer a mais pequena ideia como devia agir - e eles acham perfeitamente natural fazerem a comparação e, como se não chegasse, ficarem convictos de que a normalidade é a regra, a sua normalidade, não a dos outros.
JCB, o ridículo, é também JCB, o livre. Pormos de lado os preconceitos dá-nos liberdade, liberdade essa que vem com preço, preço em forma de seta apontada a todo o lado, seta venenosa, veneno da inveja.
O divórcio de preconceitos pode dar uma calma que não se consegue nem com medicação, uma visão diferente do mundo, um coexistir pacífico onde a diversidade se pode passear à vontade.
A esta altura já vingava o silêncio no café mas eu ainda não tinha dito tudo e não saí sem dar a opinião completa, ou seja, lembrando-os que alguém precisa de dar alguma cor às vidas cinzentas da maioria das pessoas, arranjar-lhes assunto para comentarem; e como essa maioria não costuma interessar-se muito pela ciência - aproveitei para perguntar de rajada se sabiam quem era Ana Ferraz, não sabiam - como não se interessam muito por leitura, mas adoram conversar, sobre os outros é claro, e de preferência quando esses outros não podem responder, então deviam agradecer a JCB por proporcionar momentos tão inesquecíveis.
Não conheço JCB, nunca o vi sem ser na televisão, sei que é um ser excêntrico e divergente dos modelos aceites socialmente, que se está nas mais puras tintas para o que dele dizem, que não se molda nem à lei da bala, porque nem um bala abala a coragem que tem. Isto devia ser proibido? Não me parece...

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Não Vale Tudo


Parte da noite de Domingo é partilhada entre o cuidar das mãos e das unhas e ver o Vale Tudo. O Vale Tudo inclui ver César Mourão, delicioso e impagável, extraordinário; inclui também decorar brincadeiras que depois fazem as alegrias dos meus sobrinhos e que repetimos quando estamos juntos, com o avô a fazer de apresentador e todos os outros em jogo. Vale mesmo a pena, vale mesmo tudo.
Porém, ver o programa equivale também ver a plateia constantemente filmada e constatar que muitos dos que assistem in loco e em directo a um programa de televisão que acaba perto da uma da manhã, lá onde é filmado, são crianças de tenra idade.
Que pais são estes que levam criancinhas de colo para um espectáculo de domingo à noite que os leva a casa, e à cama, entre a uma e as duas da manhã, isto se não morarem longe do estúdio onde é gravado? Quem são os inconscientes? Quem são os que colocam o seu próprio bem-estar muito à frente do bem e dos níveis de qualidade mínimos dos seus filhos? Ficarão em casa na segunda-feira seguinte? Não há escolas, colégios ou infantários? São crianças e famílias escolhidas a dedo porque estão em casa?
Impressiona-me ver que os pais não pensam literalmente nos filhos e impressiona-me ver que a estação de televisão – SIC – permite que isto aconteça. Só por isto, pelo confronto obrigatório com imagens de garotos de olhos semicerrados e outros em excitação total, já não Vale Tudo. 

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Muito esclarecedor

No canal National Geographic ontem à noite deu um programa sobre o trabalho da polícia no aeroporto JFK em Nova Iorque. Deu para rir e para chorar.
Um dos equipamentos com que os agentes andam é um aparelho que detecta radiações. Apitando a maquineta aproxima-se o perigo normalmente na forma de plutónio ou urânio, coisas que as pessoas transportam, como quem leva uma miniatura da Torre Eiffel. O que é certo é que as maquinetas desataram a tocar que nem loucas. Os agentes passeavam-se no meio dos recém chegados passageiros e foi a loucura total ao pé de uma senhora. Revistada, nada foi encontrado. Alguém se lembrou de lhe perguntar se tinha feitos exames médicos recentemente. Bingo: uma ressonância magnética com contraste manteve-lhe doses de iodo no corpo suficientes para as máquinas darem por isso.
Um outro cavalheiro trazia uma mala onde ele próprio cabia, mas com um pormenorzinho: leve como uma pluma. Lá dentro bailavam quatro ou cinco peças de roupa, que cabiam perfeitamente em qualquer saco de qualquer supermercado, evitando ter que se passear com tudo aquilo de malão. Nestes casos, o melhor mesmo é analisar a mala. Bingo outra vez: a própria mala era 'feita' de heroína.
Por último, uma senhora ucraniana com cerca de setenta anos e sem saber uma palavra de inglês foi questionada pois da última vez que visitara os states ficara um mês a mais do que o visto lhe permitia. Porquê?
Bom, isso era fácil de explicar, tinha ficado doente e não podia viajar. E o que tinha estado a fazer durante um ano nos Estados Unidos? Ela? Ela estava a fazer turismo religioso! Visitara uma aldeia Amish durante um dia inteirinho, coisa que agora queria repetir.
Chego a ter inveja desta latosa.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Go César!


João Manzarra nasceu com o rabinho virado para a Lua. Tem uma vocação natural para agarrar as pessoas mesmo que lhes peça para telefonarem para um número de valor acrescentado, um sorriso espontâneo e extremamente simpático, um estar descontraído e será um apresentador nato em programas como Vale Tudo ou num renascido TV Rural.
Mas se ele é a cara de Vale Tudo, outros há que são ossos, músculos e demais tecidos, como Inês Castel-Branco, João Ricardo ou o cerebral Rui Unas, e outros ainda deviam participar em programas à experiência e serem convidados apenas a ficar a assistir. Custódia Gallego é uma boa actriz mas falta-lhe desenvoltura para um Vale Tudo, desenvoltura essa que ela pensa conseguir arranjar, ou superar, uma vez que tem consciência disso, através de piadas e meneios sem graça.
A eterna Floribela – ontem em traje de homenagem aos Irmãos Dalton – é despropositada e, numa atitude infantil, repete gestos e ditos sem perceber que uma piada gasta deixa de ser piada. Tem uma voz poderosa que ali não é usada e as competências que explora empobrecem o programa.
E se há uns melhores que outros, de longe, muito longe, e se João Manzarra é a cara do programa, há quem seja a alma, faça o que fizer, diga o que disser, sentado ou a representar, a dançar ou simplesmente a sorrir: César Mourão é engraçado, domina, não mostra ares de estrela e, no entanto, brilha mais que todos os outros juntos e isto sem guião ou com guiões pobres como franciscanos, como são os de Gosto Disto!
É natural e fluente na linguagem do mundo cómico e engraçado, dono de um dom mágico que muitos, tantos, perseguem e imitam, mas poucos atingem. César Mourão é daquelas pessoas que até a dormir deve ter graça e que, ao contrário, por exemplo de Marco Horácio, que é um comediante extraordinário quando veste as suas personagens, Mourão é-o inatamente.
Provavelmente falta-lhe o conhecimento do dicionário e a profundidade de um Ricardo Araújo Pereira ou, se calhar, um grupo homogéneo onde se potencie o todo para que se possa evidenciar.
Seja como for, já hoje ele se destaca e com uma aparente humildade que nos faz gostar ainda mais dele. 

terça-feira, 31 de julho de 2012

Vedetas de TV

Há muitos, muitos anos, na altura em que os animais falavam, foi a minha mãe pela primeira vez à televisão. Se não era o Fungagá da Bicharada, era o Passeio dos Alegres, ou algo que o valha. A vida ligada aos colégios infantis e às crianças proporcionava a ida a circos, ao Jardim Zoológico e a programas de TV que tivessem uma qualquer aura infantil.
E a D. Prata começou e não mais parou. Depois começou a ir também o Sr. Bento e nos últimos tempos quase  preciso de uma agenda para gerir estas deslocações e lembrar-me de ver os programas, deixá-los a gravar e tudo isso.
Numa ocasião, no tempo das caravelas, fui com ela e cheguei a participar numa das brincadeiras que propõem ao público, onde ganhei (ou eu ou a minha irmã, não me recordo bem) uma raquete de ténis e uma caixa de bolas, que jogávamos contra a parede porque só tínhamos aquela.
Não é por a loura ser minha mãe, e os que me conhecem bem sabem que não faço favorzinhos, mas onde ela está, mais ninguém brilha: vaidosa até à quinta casa, veste-se a preceito, nem que seja para a praia, e a sandalete bate com o lenço da cabeça, a gancheta do cabelo faz pandan com o cinto, a maleta é igual ao chapéu e tudo bate certo naquele puzzle bem estudado.
O Sr. Bento também não lhe fica atrás e anda num virote, ora de calção e sapato vela, ora de calça desportiva e camisete de manga curta, cabelo cortado e penteado.
Há dias foram ao Querida Júlia, convidados para uma rubrica sobre casais que estão juntos há muito tempo, com longos namoros e cartas de amor de permeio. Levaram fotografias, histórias para contar e até dançaram, revivendo a altura em que ganhavam concursos de dança, antes do meu pai ter os AVC's,  ter ficado com a voz afectada, o que lhe dá um sotaque finlândes, e ter graves problemas arteriais.
Com votos de longa vida aos outros participantes, mas olhando para os três casais percebe-se que a mais jovem é a D. Prata, que também ganha o Óscar de mais giraça, o Emmy da mais bem vestida, o Grammy da mais simpática; o Sr. Bento, apesar do cabelo prateado, ganha a Palma de Ouro, o Leão de Ouro e meia dúzia de BAFTA's, em categorias à escolha.
Ora, com uns pais assim, não hei-de ser orgulhosa?

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Maus caminhos

O projecto Criar Afectos fez uma surpresa à Marisa Pereira e foram ao programa de televisão Com Amor se Paga.
Os testemunhos são reais, disso sou testemunha. E se o meu pai estava bem, a minha mãe estava com o seu eterno ar de Grace Kelly, linda, em destaque só por existir.
Normalmente falamos dos jovens e dos maus caminhos que percorrem, daqueles de onde queremos que se desviem, se possível, como se fosse possível, que nunca deles ouvissem falar.
Mas maus caminhos existem onde menos se espera e no que aos séniores diz respeito, não há pior trilho que a solidão.
Este é o trabalho do Criar Afectos: tirar aquela malta de maus caminhos, contribuir para que percebam que ainda são gente, que são sempre gente.
Disseram, e eu concordo, que boas ideias há muitas, mas faltam pessoas para as pôr em prática. A Marisa deixou um desafio: aproveitem o exemplo e Criem Afectos. Se os guardarmos para nós e formos poupados no seu uso e na multiplicação com os outros, corremos o risco de um dia olharmo-nos ao espelho e não reconhecermos aquela pessoa que ali está.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Downton Abbey, ou a perfeição em duas palavras

Em Downton Abbey é difícil destacar um momento que seja superior. Atrevo-me a sugerir as tiradas de Mrs. Grantham como o ponto alto duma cadeia montanhosa bem acima do ar respirável em matéria de séries de televisão.
Quando a senhora pergunta, petrificada, o que são fins-de-semana, como se a voz se lhe escapasse sem querer, em resposta à declaração do intruso que manifestou ter tempo apenas aos sábados e domingos, é-nos dado ver o interior da cultura da elite da época. Magistral.
Ainda a mesma personagem afirma que só a um estrangeiro (leia-se, não inglês) lhe passaria pela cabeça morrer em casa alheia, pior ainda, no lar de pessoas que mal conhecia.
Não, o objectivo não é fazer-nos rir mas, antes pelo contrário, mergulharmos na própria História.
Se Downton Abbey fosse um livro teria duas colunas lado a lado: uma para a visão dos senhores, outra para a perspectiva dos empregados, ambas sobre a mesma coisa, ambas muito diferentes.
A fotografia da série ajuda imenso a tornarmo-nos cúmplices daquela acção em dois planos – é fácil e quase inato, dizer plano superior e inferior, tentarei fugir a este facilitismo mesmo em pensamento. Há planos de pormenor magníficos, há imagens que sozinhas contam toda uma história ou, melhor ainda, revelam parte dela, para que nos questionemos e sejamos incapazes de abandonar a televisão.
Mudar de canal está fora de questão pela simples razão que nem nos ocorre que exista outra coisa para além do que estamos a ver e, obrigada, obrigada, nem sequer há intervalo.
O cerne da história tem origem na posição subalterna das mulheres. Não me vou deter nesta questão, entendendo que se o fizesse estaria a tentar transpor o presente para o passado. Não, limito-me a ver, a espreitar como quem viaja no tempo, um trabalho soberbo de realização, de cenários e diálogos, de direcção de actores, onde nada é deixado ao acaso e tudo é perfeito. Tudo é perfeito porque era assim, foi assim, não se discute se devia ter sido assim.
Quando o mordomo afirma que um castiçal tem um risco e lhe respondem que é tão pequeno que ninguém vê, ele argumenta com a verdade mais básica: ‘Basta eu saber que ele existe’. Irrepreensível.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Chernobyl, os caracóis e eu

Em tempos que já lá vão tive um chefe que tinha vivido vários anos na Rússia.
Um dia a mulher teve um ataque de vesícula e teve que ser operada de urgência. A intervenção cirúrgica, aparentemente a fazer de olhos fechados, tal era já a facilidade, acabou em complicações que a colocou mais para o lado de lá do que para o lado de cá. Razão: ela estava nas redondezas de Chernobyl quando, em 1986, se deu o acidente nuclear e as consequências ficaram para sempre, dando a cara nas situações e momentos menos esperados.
O chefe, que tinha vivido em aflição à data do acidente, voltou a viver em angústia e sobressalto naqueles dias, com a mulher hospitalizada e sem saber o que podia acontecer.
Para não variar, ao ouvir a palavra Chernobyl, ainda para mais com sotaque russo, eu ficava em transe: era longe, numa Rússia que na altura eu não conhecia mas adivinhava bela, exótica e cheia de surpresas, e equivalia a um pesadelo da humanidade e isso, para mim, era mais que suficiente para fazer vénia.
Este episódio foi o que me colocou mais perto de Chernobyl e, com excepção das notícias que surgem de vez em quando, a actual cidade-fantasma não tem sido alvo do meu interesse, nem se tem cruzado comigo. Até agora.
Há meia dúzia de dias foi-me diagnosticada uma necrose, receitados medicamentos com valores luxuosos, que não são comparticipados e cujo custo total tenho que pagar.
A bula de um dos medicamentos diz que foi desenvolvido ‘a partir da investigação na pele agredida por radiação em tratamentos oncológicos e em lesões e queimaduras de sobreviventes do desastre nuclear de Chernobyl’.
Leio e penso que da desgraça de uns vem o benefício de outros; imagino laboratórios com tubos de ensaio a fumegar, experiências a serem repetidas até à exaustão, cientistas suados e cansados, acordados dias e dias a fio, sem desistirem de encontrar a pedra filosofal. Imagino que para descobrir e produzir uma coisa que minimize os efeitos dum poderio como um acidente nuclear seja precisa quase uma intervenção marciana.
E continuo a ler a bula que informa que a fórmula ‘é baseada na secreção do Cryptomphalus aspersa’. E quem é o Cryptomphalus aspersa, quem é? Um pequeno caracol terrestre…
Ora isto põe-me logo a memória a funcionar e leva-me para anúncios da televisão e para uma banca algures num corredor do centro comercial lá perto de casa, onde se anuncia e vende um produto à base de baba de caracol, que eu sempre achei ser parente da banha da cobra.
Afinal parece que não é assim e que os molengas que se arrastam langanhosamente contribuem para a nossa salvação, amén!
Resta-me um problema para o qual não tenho solução: devo continuar a comer caracóis…?

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Um must da praia

Um must da praia são os buracos na areia, a que os autores teimam em chamar… castelos. Em quase meio século de praia nunca vi alguém construir um e poucos são os que humildemente assumem que vão fazer um simples buraco.
Por norma estes engenheiros são pais de crianças de pouca idade e com frequência os seus petizes desistem da obra ao fim de um quarto de hora ou pouco mais; há os pais que desistem em simultâneo mas há aqueles que, parecendo ter contrato de empreitada, continuam a escavar furiosamente e aumentam o buraco /castelo criando na zona um ar de impacto de meteoro.
As crianças têm a maravilhosa característica de não precisarem ser apresentadas sequer para fazer amigos e rapidamente o buraco/castelo se enche de utilizadores. Nesta altura os pais empreiteiros dividem-se em dois grupos e aqui reside o fantástico de tudo: há os pais que fomentam a sobrelotação da construção e há os pais que querem que o pobre do buraco se mantenha como um resort privado da sua prole, e que não obstante não serem directos afugentando as outras crianças, mas tudo fazem para que se afastem. A cereja em cima do bolo aparece quando os filhos do construtor se afastam para ir à água, por exemplo, e ele fica ali a guardar o buraco, como quem guarda uma herança que quer deixar aos seus sucessores. Esta pose é acompanhada de gritos para que se despachem e venham brincar no castelo, qual Martim Moniz ali entalado entre a vontade de mergulhar e a necessidade de preservar o seu árduo trabalho…
Entretanto já a figurinha do mestre de risco adquiriu um ar cómico pois as suas crias antes de irem à água depositaram-lhe os respectivos chapéus na cabeça, que ele transporta como se fosse a própria Marge Simpson.
Noutra fase do processo aparecem outros pais, que se aproximam devagar, tentando perscrutar se o homo habilis é sociável ou não. Aproximam-se de cócoras, aos saltinhos para, por um lado, acompanhar a altura e o andamento dos seus rebentos e, por outro, para garantirem uma certa distância e não ficarem muito à mercê duma eventual fúria do construtor que, com frequência, está fortemente armado com pás, ancinhos, baldes e outras artimanhas.
Já se verificaram casos em que o dono da obra põe o outro a correr dali para fora, mas também já aconteceu que os dois se aliassem para aumentar a fortificação, vulgo buraco na areia. Chama-se a isto fazer uma aliança e não fosse dar-se o caso de nunca mais se verem na vida, haveria muitas probabilidades de casarem os filhos anos mais tarde. Estas probabilidades aumentam, bem como a solidez da aliança e a profundidade do buraco, se ambos forem do Benfica.
E ainda há quem diga que na praia não se faz nada...