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terça-feira, 7 de outubro de 2014

Opilca, precisa-se!

O casaco verde alfaçado faz-me reparar na mulher que vai sentada um banco ao lado no metro. É giríssimo e fica mesmo bem em cima do vestido branco, leve, que transporta o Verão.
Só quando nos levantamos para sair na última paragem é que reparo que leva um braço ao peito, o que não a impede de desatar a correr pelas escadas acima, mala pendurada no braço bom, passar pelas cancelas e... estatelar-se ao comprido no chão.
A queda foi aparatosa, toda ela a escorregar um bom par de metros como se brincasse na neve, pernas no ar a deixar ver o fio dental e aquilo que parecia a Mata do Bussaco!
Os gritos eram genuínos, as lágrimas corriam-lhe pela cara, o braço queixava-se. A mão do braço bom no chão ajudou-a a levantar-se, tendo primeiro ficado de gatas, a saia do vestido em cima das costas.
Várias foram as pessoas que a ajudaram, todas sem conseguirem conter os lábios, que teimavam em abrir-se num sorriso, eu incluída.
Não há volta a dar, estas situações são sempre gregas, trágico-cómicas, tão dolorosas física como psicologicamente. 

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Bairro de lata

Num olhar mais atento percebe-se que é quarentona. 
Esbelta e muito bonita, elegante no vestir, com classe até, senta-se diante de mim, de telemóvel na mão a marcar um número.
A classe evapora-se quando começa a falar: partilha a conversa com todos os túneis do metro de Lisboa e perfura tímpanos das pessoas mais próximas. 
O conteúdo da conversa perfura mais que os tímpanos.
Fala com a filha a quem explica que não pode ir dormir a casa porque vai ser operada na manhã seguinte; fala com a mãe a quem pede que tome conta da filha, afiançando que vai correr tudo bem. Volta a falar com a filha de quem se despede como se fosse morrer. 
Depois de uma despedida longa, chorosa e ranhosa, lá desliga o telefone.
Volta a marcar um número no telefone e, de rajada, com um tom de voz mais baixo, diz que está livre até segunda-feira. Do outro lado devem ter perguntado pela filha pois ela nomeia a criança e diz que acabou de falar com ela e que a miúda só quer ficar com os avós... 
A mim só me dá vontade de lhe pregar um estalo.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Hare Krishna

Ontem ao fim do dia a avenida da Liberdade descia em mágoa e sofrimento. Ali desaguava o Parque Eduardo VII, cheio de surpresa, desapontamento, tristeza e frustação. Muitos acompanharam-me no metro, cachecóis ainda ao pescoço, caras encarnadas e verdes, narizes amarelos.
A plataforma cheia estava silenciosa e silenciosa seguiu a carruagem. A excepção eram dois homens indianos que conversavam, sobre o quê não sei, nem alegres nem tristes, aparentemente normais. As vozes e a indecifrável dinâmica línguística ouvia-se em todo o lado, como se fossem os únicos ocupantes da carruagem, eles próprios indiferentes a todos os outros.
Encontrei-lhes uma beleza inexplicável naquela indiferença, uma beleza invejável, como são todas. 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Dia de greve

Já não me lembro da frase que o homem do carrossel anunciava, outra volta, outra rodada, acho eu, mas sinto-me na mesma quando penso em mais um dia de greve do metro.
Uma ventania árctica faz-me pedir ao meu filho que me leve à estação de comboios para apanhar uma alternativa de transporte. Noutra altura qualquer teria ido a pé, mas hoje fazia um frio dos diabos e dei-me ao luxo de incomodar.
O comboio, dos novos com dois andares, vinha cheio mas não à pinha e, perfurando aquela massa que se deixa ficar junto à porta, consegui logo um lugar sentada. Ao meu lado seguia uma jovem de perna cruzada com um saco da Fnac que teimava em escorregar para cima de mim. Parecendo não ter reparado, tirei um auscultador, para a ouvir caso ela dissesse alguma coisa, e perguntei se podia segurar melhor no saco, como quem diz, toma lá conta das tuas coisas não mas atires para cima.
A rapariga teve azar e até tive pena dela, pois fez um ar ofendido e, enquanto perguntava se estava a incomodar assim tanto, descruzou as pernas e pregou um valente pontapé na passageira da frente que reagiu imediatamente com um agudo ai, levando a mão à perna. Neste gesto, naturalmente inclinou a cabeça e a atacante fez o mesmo em simultâneo para ver os estragos na perna alheia. Resultado, pregaram tamanha cabeçada que logo ali se gerou uma discussão, por entre risos, entre os quais o meu, inevitável, mas que me valeu um olhar penetrante e um está a rir-se do quê? a culpa é sua! Foi nesta altura que passei dos risinhos para um bom par de gargalhadas.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Supercalifragilisticexpialidocious

Hoje vim no metro ao lado da Mary Poppins.
Entrou já de livro na mão, mão essa que também segurava uma caneta, enquanto a outra trazia a asa da mala, um chapéu-de-chuva e uns óculos.
Sentou-se a meu lado e começou a organizar-se, tendo pousado os óculos no nariz, corrente meia a balançar, meia deitada sobre o peito, mala no colo, chapéu-de-chuva encostado às pernas e livro de soduku em cima da mala.
A cada tremelique do metro, caia o chapéu, que ela se apressava a apanhar por meio de desculpas; a cada nova paragem e entrada de mais pessoas, caia o chapéu, que ela se apressava a apanhar, já entre desculpas e franzidos de sobrancelhas, como se alguém tivesse culpa dos bíblicos carregos que levava.
Quando o telefone tocou lá nos confins da mala, ela usou uma mão para segurar o livro, a caneta, os óculos e o chapéu, enquanto a outra esquadrinhava os quarteirões de carteiras, papéis, pacotes de lenços, maços de cigarros e eteceteras, cotovelos em riste, sem dar atenção a nada que a rodeava, até que o telefone deu à costa e, em simultâneo, o chapéu voltou a cair, e por cair entenda-se encostar-se a outras pessoas, pois não caia realmente no chão, não havia espaço para isso.
Foi atendida a chamada sem que se deixasse de preencher os quadrados do soduku, e o raio do chapéu, teimosamente continuava a roçar-se pelas pernas dos outros passageiros, e eu só pensava que a partida da família real para o Brasil no longínquo Novembro de 1807 não dera tanto trabalho nem incomodara tanta gente.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Uma questão de mãos

O Centro Comercial Renovação, nome apropriado para qualquer coisa em Almada, foi a minha escolha de ocasião, precisando de uma cabeleireira com urgência, não me recordo da situação, mas sei que tinha pressa. Nunca lá tinha ido e nunca mais lá fui, aliás, só a premência do meu destino me fez ficar, ainda que muito mal disposta. E porquê? Naquele momento da lavagem da cabeça, que adoro e do qual tenho imensas saudades, a senhora que o estava a fazer, usava apenas uma mão. A outra repousava no bolso, preguiçosa, como lho fiz saber, sendo acompanhada por um pedido de desculpa da proprietária. 
Muitos anos depois, muito longe dali, em Saratov, perto do imponente Volga, diante do hotel decorria uma obra. Um dos trabalhadores encaixava umas pedras, como quem dispõe calçada portuguesa. Sentado no chão, pernas abertas, uma mão guardada no bolso do casaco, a outra dividida entre o martelar e o centrar as pedras, que se acumulavam num monte aos seus pés e era precisamente com um pé que ele arrastava cada pedra que precisava para junto da mão. Uma das pessoas que estava comigo argumentou que talvez só tivesse uma mão; outra pessoa apostou que não, que tinha as duas, que era apenas preguiça, e ganhou. No dia seguinte, ao sairmos em direcção à Universidade, lá estava ele, desta vez de pé, ambas as mãos em acção, uma acção à Ivan Danko, de Red Hot, naquilo que universalmente é conhecido como brincadeira parva, andar à pancada por que lhes apetece. A cena foi interrompida por um homem mais velho que deu ali dois gritos e eles, bem dispostos e a rir, lá meteram as quatro mãos nos bolsos.
Numa outra ocasião, em Lisboa, na plataforma do metro da estação Jardim Zoológico, num dia de chuva intensa, a água escorria por uma parede e colocava-se uma faixa de riscas encarnadas e brancas, desviando os passageiros que ali passassem, evitando quedas e similares. 
A colocação da faixa ocupava quatro pessoas, repito quatro pessoas! 
Uma atava a fita do lado esquerdo, junto de um cartaz de publicidade, enquanto outra segurava o rolo. 
O rolo foi esticado e a fita cortada pela pessoa que o segurava, enquanto um terceiro membro da equipa o atava ao corrimão da escada. 
Um quarto elemento, a uns metros de distância para obter uma visão alargada, levantava e baixava as mãos, qual maestro que orienta a orquestra, fita dois centímetros para cima, fita dois centímetros para baixo, mão espalmada virada para baixo sinal de está bem assim. A missão terminou com a equipa swat a contemplar a obra, satisfeitos e sorridentes. Foi hoje, e assim vai Portugal. 

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Tuba de Eustáquio

Os meus ouvidos estão sem reacção, amorfos, parvos. Eles não ouvem, e isso faz de mim surda. É injusto...
Continuando à espera de consultas e cirurgias e do pote de ouro no fim do arco-íris, já agora, defendo-me dos zumbidos de forma adolescente: ando sempre de auscultadores enfiados nos ouvidos a ouvir música aos berros.
Faz mal? A sério? A quem? A mim? A mim faz-me mal não ter uma solução definitiva para isto, a mim faz-me mal o zumbido permanente, a mim faz-me mal ter uma mira técnica dentro da cabeça.
No meio disto tudo, o grande problema que se coloca é a minha incapacidade para ler enquanto ouço música, que tem de ser alta para competir com o zumbido.
Assim, há muito que as viagens de metro não são de livro em riste e sim de cabeça a dar a dar ao som de muitas coisas, desde Bizet a Snoop Dogg, de Wagner a Michael Jackson, de Aznavour aos Gipsy Kings, dos Queen a Elis Regina, com muito batuque pelo meio.
Das letras para os instrumentos musicais, quem diria?

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Uma história de amor

A magia das notícias sobre o estado do tráfego rodoviário tem sido menosprezada de uma forma inqualificável, e injusta, diga-se de passagem.
Descrevendo e realçando os pontos chave que impedem a livre circulação dos veículos, os radialistas produzem obras de arte espontâneas, lamentavelmente efémeras e para as quais se pede reconhecimento.
Os condicionamentos do trânsito consubstanciam a acção de um romance sobre rodas, que ora avança, ora recua, com inesperados e surpresas que até aos Nobel da Literatura escapam.
Somos informados sobre supressão de vias e voltamos atrás no tempo, suspirando como em Simplesmente Maria, a eterna rádio-novela portuguesa.
Os personagens são reconhecidos, o IC-19, sempre rebelde, a Ponte 25 de Abril que, não se percebe como, mas está sempre grávida de carros, a Calçada de Carriche, a quem muitos chamam a Calçada da Carris, os Cabos D'Ávila, onde já desde o Simplesmente Maria não há cabos nenhuns, a vaidosa A-5 que vem todos os dias de Cascais, mais rápida mas sem o fascínio da velhinha Marginal, outra protagonista desta novela.
Já no Porto temos a Via Panorâmica, linda e eternamente demorada em direcção ao Campo Alegre, a AEP, a VCI, quais agentes secretos, em busca da Sidónio Pais ou da altiva Faria Guimarães.
Na trama contam-se inúmeras supressões de vias - são personagens que são afastadas por um ou outro motivo mas que voltam em episódios posteriores - e executam-se trabalhos, sinónimo tantas vezes usado para designar a morte de alguém. Morte, crime, obstáculos, vidas em jogos, sinalizações várias são momentos a que já nos habituámos, mas que em nada se comparam ao ponto alto que são os acidentes: O trânsito está congestionado porque um ligeiro se envolveu com um pesado.
Isto é lindo... até o trânsito pára devido a um envolvimento, lembra os Montecchios e os Capuletos, amores proibidos entre brancos e pretos de famílias racistas, filhos mais novos de inimigos da Mafia envolvidos em escaldantes amores, aventuras de uma manhã, paixões intensas sob a chuva que cai miudinha em Lisboa, numa palavra, romance.
Espero ter contribuído para aguçar a curiosidade auditiva para subtilezas como os problemas técnicos que interditam a passagem de peões e viaturas na Ponte Móvel de Leixões, o que obriga a procurar outros caminhos e que surpresas quentes trarão esses outros caminhos só saberemos por experiência própria..., ou que se passe a ouvir com outros ouvidos a notícia sobre o acidente ao quilómetro dezoito entre Campo e Valongo, que provoca trânsito bastante demorado, qual namoro antigo, que se arrastava por décadas por entre paixão e desejo.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Eu juro, juro mesmo

Sendo a gasolineira do Jumbo a mais barata em toda a área metropolitana da minha casa, fiz-me à fila. Tempos houve em que não me apanhavam ali, à seca, mas, como dizia Camões, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.
Como calculava, havia fila, não era grande, mas cada bomba tinha cerca de cinco a seis carros à espera. Rapidamente me apercebi que tinha ficado na bicha dos maricas: ele era levantar de mangas de camisas, ele era casacos pelas costas, ele era óculos no alto da cabeça, ele era cem folhas de papel para evitar o contacto com a mangueira, como se fossem um preservativo, ele era luvas, ele era tudo, mas tudo para atrasar ainda mais a espera. Paciência.
Era de noite, embora fossem umas seis da tarde, quando chegou a minha vez. Senti-me como se me tivesse enganado e tivesse entrado na casa de banho dos homens: calções, casaco de capuz e ténis, meti combustível em três tempos, sem luvas nem pergaminhos, a desafiar com o olhar os condutores dos carros de trás, garantidamente maricas, eles e elas, já se tinha percebido, eu é que me tinha enganado na fila.
A pressa era tanta que só não entrei no carro em andamento porque tenho que lá estar dentro para o pôr a trabalhar. Olhei de esguelha para trás, bomba três, enquanto avançava lentamente para pagar, metendo ao mesmo tempo a mão no saco para tirar a carteira,... a carteira..., a mão não queria encontrava a carteira? Nada disso, a carteira ficara em casa. Com mil milhões de macacos, disse eu de mim para mim.
Chegada a minha vez expliquei que não tinha dinheiro, que me esquecera, que nunca tal me acontecera, que era a primeira vez, que apenas tinha os documentos do carro e o telemóvel, não, não tenho ninguém que me possa trazer o dinheiro, tenho que ser eu a ir buscá-lo. Mostrei os documentos enquanto o carro de trás fez sinal de luzes. De dentro da guarita apareceu um papel onde escreveram tudo e mais um par de botas sobre mim e de trás ouviu-se a buzina e um Então? aborrecido. Assinei o papel e prometi com toda a convicção voltar passados vinte minutos. A cancela levantou-se e eu avancei mas ainda ouvi uma reclamação sobre o tempo que demorei... glup...
Fui a casa, lá estava a carteira na mala que usara no dia anterior, voltei, parei o carro fora das filas, meti-me à frente de um veículo com um sinal de desculpe lá, é um minutinho, paguei, rasgaram o papel com a minha ficha mais completa que qualquer relatório policial, meti-me no carro outra vez e fui embora a jurar nunca mais gozar com os molengões. 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Chuva, chuva, chuvinha...

Combino com o Duarte estar em casa antes das oito, hora a que ele tem de sair para chegar a horas ao treino. Esqueço-me das horas e saio do trabalho atrasada. Corro. Apanho o metro e não tenho outro remédio se não ir ao ritmo dele, parando nas estações, esperando as pessoas sair, entrar, fechar portas, arrancar devagar em cada estação, essas coisas.
Na paragem final, a minha estação, levanto-me bem antes da carruagem começar a diminuir a velocidade, tenho pressa. Assim que pára, diante da porta, sou a primeira a sair, e ao som da música que me habituei a ouvir com headphones, fruto do zumbido que nunca passou e para o qual não tenho verba para a operação, subo as escadas a correr, a correr continuo nas primeiras escadas rolantes, mais rápidas que as primeiras, subidas a poder de músculo, salto para as segundas, também rolantes, sempre a trautear a música, e dali salto para a rua.
Não me contive e FUCK... ouço-me a mim própria, vejo pessoas paradas a olharem-me. Os headphones caem. Dou um passo atrás, tiro o impermeável da mala, mas o mal está feito: estou irremediavelmente encharcada.
A pressa era tanta que nem dei conta que chovia a canivetes e saltei literalmente para a rua. Nada a fazer. Caminho para o carro, a cantarolar, com o impermeável pela cabeça, afinal, não devemos ter medo da mudança do tempo, apenas devemos aprender a dançar à chuva, não é assim?

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

É um bilhete para outra dimensão, se faz favor

Acabei de saber que os transportes vão fazer greve na semana que vem. Gostava de saber também o que ganharam com as greves já feitas.
Eu sei que é um direito, respeito-o e tudo isso, mas no direito à greve de uns está o prejuízo de milhões outros. Eu também sei que sou só uma desses milhões, mas, que diabo, posso aborrecer-me por ter que faltar ao trabalho e no fim do mês ver o meu já fantástico ordenado ser ainda mais fantástico, ou não? Não tenho condição para solidariedades destas. E se a tradição fosse peremptória e mostrasse grandes, vá lá médias, ok, concedo, mesmo pequenas conquistas, eu ainda compreendia, mas assim...
Além disso, e será a ignorância a falar, visto que a tenho em demasia, mas pode-se fazer greve por não se querer ser privatizado? Alguém terá isso em conta? Quem ouve essa voz? Pois se não ouvem as dos esfomeados, as dos alunos sem ensino, nem o eco da justiça, que tão longe anda que nem lhe ouvimos o sussurro, não ligam puto à inexistência de saudabilidade na saúde, fazem a caminha de lavado para que a corrupção se instale, se deite confortável, e vão ouvir a voz da greve? Alguém acredita nisto?
Quanto poupam as empresas de transportes com os favores que os empregados lhes fazem, fazendo greve de vez em quando? Há dias paguei três euros e vinte cinco por um bilhete de autocarro, porque havia greve de metro. Uma refeição completa no meu local de trabalho é de três euros e meio e eu trago almoço de casa todos os dias! A minha ruína passa pelas medidas do governo e também pelas greves dos transportes. 

O Inverno chegou aos transportes

Hoje inaugurei uma nova categoria de pessoas (isto soa mal...) a quem dar o lugar nos transportes (melhorou um pouco, acho eu). Velhos, grávidas, ossos partidos, a essas situações já se juntavam pessoas a ler - estando eu a ouvir música por exemplo - e hoje juntou-se uma senhora a fazer malha.
Ontem vi de relance um objecto que me suscitou imensa curiosidade, mas foi tão a correr que nem percebi o que era: havia uma coisa redonda, de plástico, pareceu-me, e uns novelos de lã coloridos, o que dava um resultado invejável. Mas esta visão foi já em pé, pronta para sair e a curiosidade morreu na saída do metro, quando me esqueci do assunto.
Hoje ia sentada a ouvir música quando vi entrar a moça, era aquela, garantidamente. Por sorte aproximou-se do local onde eu estava e levantei-me. Ela sentou-se logo, como se estivéssemos combinadas, e sacou da malha! Os meus planos funcionavam...
Com os dedos e uma agulha como a da imagem fazia crescer uma peça de roupa.
A velocidade dos dedos era invejável e eu já me imaginava a fazer concursos, ela a terminar uma camisola digna das terras altas da Escócia, para um qualquer imortal, dois metros de altura, cabelo comprido, e eu a meio de um cachecol para as bonecas da minha sobrinha.
Tal como na cozinha onde não consigo reproduzir as receitas, acrescentando-lhe sempre qualquer coisinha, também não deixei de pensar como ficaria se utilizasse linha, ráfia ou corda; só haverá coisas daquelas redondas? E para uma cortina ou coisa que o valha, como fazemos? Vou saber tudo o que há para saber no ramo dos plásticos redondos com bicos para se entrançar a lã e fazer peças várias e depois darei notícias. Não garanto que seja nesta vida.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Uma questão de gravata

35 anos, ou à volta disso, era a idade dela. Seguia no Metro com uma amiga, a amiga à civil, ela com uma farda de uma empresa de segurança e foi precisamente a farda que me fez observar: as empresas de segurança contratam pessoas tão pequeninas? Esta poderia viver em qualquer casa do Portugal dos Pequenitos e sobrava pé direito.
A altura, que lhe deixava os pés a bandear enquanto seguia sentada, não se relacionava com a indignação: fora a uma entrevista de emprego e o entrevistador, pasmem-se os crédulos, não usava gravata! É verdade, gravata, viste-a!
A outra perguntava-lhe para que precisava ele da gravata durante a entrevista e ela retorquía que um homem sem gravata, um entrevistador, um chefe, ele devia ser o eventual chefe, não era nada! Agora, ali, em mangas de camisa - e virando-se ligeiramente para a outra lhe ver os olhos em chamas - mangas arregaçadas ainda por cima!, vê lá tu que raio de entrevistador era aquele! É que se ele não tivesse casaco ainda se compreendia, estava abafado naquela sala, tudo bem, mas sem gravata..., não, isso não se aceita.
A amiga repetia o argumento, simples, é verdade, e de uma total ineficácia, uma percepção que passava ao largo no mar de desprezo a que era votado o desgravatado, cuja legitimidade se anulava pela falta do adereço.
Onde é que já se viu isto? Quem não usa gravata são os trabalhadores, dizia ela esticando a sua própria gravata, numa prova material e visual de uma superioridade com a qual tentava conquistar a amiga, sem o conseguir, pois a outra ia-lhe chamando idiota e preconceituosa.
Ai eu é que sou idiota? Atão ele faz-nos as perguntas e isso tudo como se fosse um agricultor, só lhe faltava a gadanha nas mãos, e eu é que sou idiota? Atão, ele se calhar queria-te contratar para lhe tratares da horta!
Nem um sorriso, nem um sinal leve de concordância, a indignada virou-se para a bela paisagem negra dos túneis e continuou a resmungar, abanando os pés e alisando a gravata.

terça-feira, 11 de junho de 2013

O que são 10 anos?

Tenho andado arredada daqui. Faço-me à pista com frequência mas depois há sempre qualquer coisa que me afasta. E têm sido coisas boas.
Tenho lido e escrito em várias vertentes, que nem uma maluquinha : preparar importantes documentos de trabalho, preparar aulas no âmbito de um seminário específico que me pediram para dar, corrigir trabalhos académicos, ler muito para melhor preparar e fazer tudo o que tenho entre mãos.
São muitas horas seguidas, o trabalho persegue-me e acaba por entrar comigo em casa, acompanhando-me noite dentro.
Não paro de pensar ou, na opinião de alguns que trabalham comigo, não paro para pensar... no mal que isto me faz. Mal? Qual mal, qual quê? Sinto-me bem, raciocino à velocidade da luz, escrevo com desenvoltura em temas poucos férteis em diversidade de linguagem e a cada dia me sinto mais viva. Cansada também, confesso.
E foi pelo cansaço acumulado que aceitei fazer companhia num passeio que ia de Lisboa a Fátima, Batalha, Alcobaça, Nazaré e Óbidos, um passeio turístico com cinco filipinos. Filipinos pessoas, não bolos.
Estes habitantes de Manila em turismo por Portugal conquistaram-me. Não por viveram do outro lado do mundo, não por falarem uma língua da qual eu não percebo nada mas da qual adoro a sonoridade, não por serem muito sorridentes, não pela mescla de línguas que se proporcionavam, pois as crianças falavam inglês e espanhol, o motorista só falava português e o casal, pais das três crianças, expressava-se em inglês, com uns erres a menos, de vez em quando, não por me terem oferecido o almoço, não por pensarem que eu era a guia e me terem querido pagar.
A conquista foi-se dando à medida que íamos comendo quilómetros, que íamos falando e rindo, enquanto eu contava todas as lendas do nosso Portugal, a pedido da mãe, e com todos os olhos em bico muito abertos, ia acrescentando pormenores às histórias, que passaram pelo Pedro e Inês, pelo Condestável, mas também pela longínqua princesa alentejana Salúquia, quando me faltou conversa e ela insistia em mais e mais.
A gota de água da conquista deu-se, não em Aljubarrota, mas quando nos perguntaram a idade.
Devolvi a pergunta querendo saber quantos anos nos davam.
E assim, o motorista com uns escassos 40 anos foi avaliado em 45 ou 46 e a mim foram-me atribuídos uns generosos 38 aninhos. Ora, quem nos tira dez anos é merecedor da nossa entrega, principalmente se fizerem cara de quem não acredita quando teimamos em dizer que são 48 e repetem, 48? Are you sure?
Absoluta, amigos, absoluta. 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Long live the queen

A Dona Maria Augusta tem 89 anos, é cega do olho esquerdo, usa uns óculos enormes, um lenço colorido tapa-lhe a cabeça e adormece meio desapertado por baixo do pescoço, as saias afagam-lhe os artelhos enquanto entra no metro com destino à Baixa onde trabalhou a vida inteira como vendedora de jornais.
Entra na Pontinha e eu dou-lhe o lugar com um objectivo altamente egoísta: o de ir a conversar com ela o resto do percurso.
O passeio subterrâneo hoje passou-se com a descrição de como punha os braços para carregar os jornais que vendia pela rua enquanto gritava Olhó Século, Olhó Notícias.
Do problema de vista que transporta tem sempre os olhos muito vermelhos, mas quem chora sou eu.
Apetece-me beijar-lhe as rugas, muitas, como se cada beijo e afago me levassem no tempo para épocas que não vivi e que ela partilha comigo; imagino-a jovem e viçosa, marota, irresistível. Se aos 89 tem aquela cabeça, aquela força, aquele brilho no olhar, aquele sorriso, eu teria adorado tê-la conhecido e ser sua amiga.
Nos dias de hoje não temos uma amizade, não se lhe pode chamar isso, ela tem gratidão pela pessoa que lhe dá sempre o lugar no metro. Já aconteceu eu ir a ler e não a ver entrar e ela seguir em pé pois não há quem se levante para dar o lugar à História.
Eu por ela sinto um respeito enorme, um carinho do mesmo tamanho, uma grande admiração e alguma inveja. Algo me diz que não chegarei onde ela está.
Vida longa à Dona Maria Augusta.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Então vá

Entro no metro na primeira estação. Entra também uma senhora ocupada com um telefonema. Despede-se com um então vá, beijinhos.
Doze estações e dezoito minutos depois chego ao destino. A senhora segue viagem, sempre a dizer então vá, beijinhos. Saio impressionada com a mais longa despedida de sempre, não tendo ela mostrado qualquer sinal de ansiedade, pressa ou impaciência.
Qual máquina repetiu mil vezes então vá, beijinhos, mil e uma, talvez, que eu ouvisse e acima disso garantidamente pois não a vi desligar.
Ainda a meio da viagem cresceu-me a curiosidade sobre a pessoa lá do outro lado, o que diria? Impedia-a de desligar? Gritava-lhe e ela tentava-a acalmar com um então vá e uns apaziguadores beijinhos? Não ouvia, era mouca? Seria esta estrangeira e a única coisa que sabia dizer em português era então vá, beijinhos?
Sem perceber as razões bem haja quem tem paciência.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

O ataque da inveja


O Metro arranca com os lugares todos ocupados. No quarteto de bancos onde vou sou acompanhada de três mulheres. Lê-se. Uma Marta Müller, uma Cosmopolitan e um folheto que alerta para a chegada eminente do fim do mundo, com instruções sobre como o receber. A quarta mulher não lê. Vai sentada com ar de idiota a olhar as outras. Com o canto do olho rouba umas frases ao folheto do lado sobre a caridade religiosa. Vai cheia de inveja e teria trocado de bom grado pela Sentinela.
Eu sei porque a mulher não leitora era eu.
Quando cheguei à estação de destino não encontrei o passe. Revirei a mala e o saco do almoço e cheguei ao cartãozinho que faz abrir as portas do Metro e também ao livro que, afinal, não tinha ficado na secretária como eu pensava. 

terça-feira, 26 de março de 2013

O bêbado e a equilibrista


Não, não é só o nome de uma canção da Elis Regina.
Ontem na plataforma do metro estava um bêbado tão bêbado que temi caísse à linha. Fui chamar um vigilante mas o metro chegou primeiro e o homem entrou, de mochila às costas, chapéu-de-chuva e uma garrafa de tinto na mesma mão.
Os lugares iam razoavelmente ocupados e várias pessoas seguiam em pé. Uma jovem de arma em punho, perdão, de telemóvel em riste tentava equilibrar-se e mandar mensagens escritas em simultâneo, o que a levava a estar aos solavancos para a frente e para trás.
O homem embriagado cantava e dizia repetidamente olá a toda a gente.
Caminhando muito devagar na carruagem, de repente, deu com os olhos na jovem cuja mensagem continuava a sair-lhe das pontas dos dedos.
O homem olhou a rapariga, esticou o pescoço, abriu muito os olhos, abriu os braços. Enquanto isto ela desengonçava-se alheia ao resto do mundo, com ar de quem está a salvar o planeta com um sms.
O bêbado, virou-se devagar para a parte da carruagem que levava mais pessoas e disse em voz arrastada, como quem conta um segredo:
- Eu trago a garrafa aqui à mostra, ela tem uma escondida, acreditem em mim.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Uma excelente viagem


Não sei em que estação entrou mas quando a olhei vi uma senhora velha como o tempo. Sorri-lhe e disse-lhe, sente-se aqui. A rapariga ao meu lado, na coxia, levantou-se imediatamente e disse não ser necessário, que ela dava o lugar. A senhora sentou-se, baixinha, gordinha, com um lenço colorido na cabeça com ar de ser tão ou mais antigo que ela. Os pés balouçavam-lhe numa imagem de ternura profunda, tão profunda como o tempo que ela carregava. E foi com os pés a balouçar que ela me tocou no braço e agradeceu e tocou no braço da rapariga e voltou a agradecer. Não fizemos mais que a nossa obrigação, disse eu sorrindo e olhando a rapariga que concordou a sorrir também.
Já são 96 anos minha senhora, 96 anos minha menina, repetiu olhando a jovem. Sabe, eu vendi jornais e tabaco num quiosque na Baixa desde 1949 e agora, olhe, tenho boa cabeça e gosto de ir passear à Baixa.
Disse-lhe que fazia muito bem, dei-lhe os parabéns, eu, a rapariga, alguns outros companheiros de viagem, de tal forma que pouco faltou para receber 96 vezes parabéns, felicitações que ela recebeu sorrindo, apertando-me levemente o braço com uma mão com tantas rugas como uma preciosa peça de filigrana.
Ela com 96, eu com 48 e a jovem com cerca de 20, formávamos um triângulo de tempos sorrindo. Foi uma excelente viagem.